quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Os explosivos e-mails de Hillary Clinton

por Manlio Dinucci


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De tempos em tempos, para fazer um pouco de “limpeza moral” com objetivos político-midiáticos, o Ocidente tira alguns esqueletos do armário.

Uma comissão do parlamento britânico criticou David Cameron pela intervenção militar na Líbia quando ele era premiê em 2011: não o criticou, porém, pela guerra de agressão que demoliu um Estado soberano, mas porque foi desencadeada sem uma adequada “inteligência”, nem um plano para a “reconstrução” [1].

O presidente Obama fez o mesmo quando, em abril passado, declarou ter cometido na Líbia o seu “pior erro”, não por tê-la destruído com as forças da Otan sob comando estadunidense, mas por não ter planificado o “day after”.

Ao mesmo tempo, Obama reafirmou seu apoio a Hillary Clinton, hoje candidata à presidência: a mesma que, na condição de secretária de Estado, convenceu Obama a autorizar uma operação clandestina na Líbia ( inclusive o envio de forças especiais e o armamento de grupos terroristas), na preparação do ataque aeronaval dos EUA /Otan.

Os e-mails de Hillary Clinton, que vieram sucessivamente à luz, provam qual era o verdadeiro escopo da guerra: bloquear o plano de Kadafi de usar o fundo soberano líbio para criar organismos financeiros autônomos da União Africana e uma moeda africana em alternativa ao dólar e ao franco CFA.

Logo depois de ter demolido o Estado líbio, os EUA e a Otan iniciaram, juntamente com monarquias do Golfo, a operação secreta para demolir o Estado sírio, infiltrando nele forças especiais e grupos terroristas que deram vida ao chamado Estado Islâmico (EI). Uma mensagem de e-mail de Hillary, uma das tantas que o Departamento de Estado desarquivou depois do clamor suscitado pelas revelações do Wikileaks, demonstra qual é um dos escopos fundamentais da operação ainda em curso.

Na mensagem, desarquivada como “case number F-2014-20439, Doc No. C05794498” [2], a secretária de Estado Hillary Clinton escreve em 31 de dezembro de 2012: “É a relação estratégica entre o Irã e o regime de Bashar Assad que permite ao Irã minar a segurança de Israel, não através de um ataque direto mas por meio de seus aliados no Líbano, como o Hezbolá”. Sublinha, portanto, que “a melhor maneira de ajudar Israel é ajudar a rebelião na Síria que já dura mais de um ano”, ou seja desde 2011, sustentando que para dobrar Bashar Assad, é necessário “o uso da força”, a fim de “pôr em risco a sua vida e a da sua família”.

E Hillary Clinton conclui: “A derrubada de Assad constituiria não só um imenso benefício para a segurança de Israel, mas também faria diminuir o compreensível temor israelense de perder o monopólio nuclerar”. A então secretária de Estado admite, portanto, o que é oficialmente silenciado: o fato de que Israel é o único país do Oriente Médio a possuir armas nucleares.

O apoio da administração Obama a Israel, para além de alguns dissensos mais formais do que substanciais, foi confirmado pelo acordo, assinado em 14 de setembro em Washington, com o qual os Estados Unidos se comprometem a fornecer a Israel os mais modernos armamentos por um valor de 38 bilhões de dólares em dez anos, por meio de um financiamento anual de 3,3 bilhões de dólares, mais meio milhão para a “defesa de mísseis”.

Enquanto isso, depois que a intervenção russa bloqueou o plano de destruir a Síria por dentro com a guerra, os Estados Unidos obtêm uma “trégua” (imediatamente por eles violada), lançando ao mesmo tempo uma nova ofensiva na Líbia, camuflada de operação humanitária na qual a Itália participa com seus “paramédicos”. Enquanto Israel, na sombra, reforça o seu monopólio nuclear tão caro a Hillary Clinton.


Tradução
José Reinaldo Carvalho
Editor do site Resistência
Fonte
Il Manifesto (Itália)

aqui:http://www.voltairenet.org/article193384.html

Os Físicos europeus põem em causa a versão oficial do 11-de-Setembro

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Enganados novamente…


por Chris Hedges [*]
 
A candidata da banca. A esperança ingênua dos apoiantes de Bernie Sanders — construir um movimento político de bases, mudar o partido democrático por dentro e empurrar Hillary Clinton para a esquerda — fracassaram. H. Clinton, ciente de que as camadas liberais e a esquerda não irão exercer uma genuína resistência, prossegue tendo Mitt Romney como instrumento. As elites empresariais em todo o espectro político, republicano e democrata, uniram-se alegremente para consagrar o seu Presidente. Tudo o que resta da "revolução" Sanders é um modo de obter isenção de impostos [1] projetado para arrecadar dinheiro, incluindo de doadores anônimos, ricos, para garantir que ele será um senador vitalício. Como Karl Marx ironizou, os grandes acontecimentos históricos acontecem duas vezes, primeiro como tragédia e depois como farsa.

A extravagância de milhares de milhões de dólares do nosso circo eleitoral é parte da cortina de fumo que cobre a devastação em curso promovida pela globalização: desindustrialização, acordos de comércio como a Parceria do Transpacífico (TPP), guerras sem fim, alterações climáticas [NR] e a intrusão em cada recanto das nossas vidas pela segurança e vigilância do Estado. A nossa democracia está morta.

Clinton e Donald Trump não têm o poder ou o interesse em reaviva-la. Eles ajoelham-se diante da máquina de guerra, que consome milhões de milhões de dólares para travar guerras inúteis e exibir um poder militar exagerado. Desafiar a força do Estado é suicídio político, porém para a Wall Street os políticos não passam de cortesãos. Os candidatos enchem a boca de frases feitas sobre justiça, melhorias na igualdade de rendimentos e escolhas democráticas, mas é um jogo cínico. Assim que termina, os vencedores vão para Washington trabalhar com lobistas e elites financeiras levando a cabo os verdadeiros processos de decisão.

Embora haja uma diferença no temperamento dos dois principais candidatos presidenciais, essa diferença influi apenas na forma como o veneno nos será ministrado. As personalidades da política servem os centros do poder empresarial global, não os controlam. Barack Obama ilustra isto mesmo.

Para os neoliberais tudo e todos são descartáveis. Os Estados falhados que criaram em todo o Médio Oriente, África, Cáucaso e Ásia com o fim da guerra fria representam o que há a esperar de um mundo neoliberal, impulsionado pela ganância, corrupção, violência e desespero.

Os traficantes de drogas, contrabandistas, piratas, sequestradores, jihadistas, gangues criminosas e milícias que vagueiam em enormes áreas de território onde a autoridade central desapareceu são os verdadeiros rostos da globalização. Estes niilistas constituem o Estado islâmico, assim como constituem o Estado das transnacionais. A corrupção pode estar mais à vista e ser mais rudimentar no Afeganistão ou no Iraque, mas tem seu paralelo na venda dos políticos e partidos políticos que dominam nos Estados Unidos e na Europa. O bem comum – a construção de comunidade e solidariedade – foi substituído por décadas de doutrinação a favor da empresa privada com apelos para se acumular tudo o que se puder para si próprio e deixar os outros a sangrar na berma da estrada.

Será a Goldman Sachs, que manobra os preços futuros de arroz, trigo, milho, açúcar e gado para os fazer subir no mercado global, deixando as pessoas pobres e vitimas da fome na África, Ásia, Oriente Médio e América Latina, moralmente menos repugnante do que o traficante de drogas? Serão os pilotos de F-16 que incineram famílias em Raqqa moralmente distintos dos jihadistas que queimaram numa gaiola um piloto jordaniano capturado? Será a tortura num dos nossos locais secretos ou em colônias penais offshore menos bárbara que a tortura às mãos do estado islâmico? Será a decapitação de crianças por drones militares mais defensável do que a decapitação de trabalhadores egípcios numa praia da Líbia por autodesignados guerreiros sagrados? É Heather Bresch, o administrador executivo da Mylan, que aumentou os preços do salva-vidas EpiPen em 400% ou mais, e que passou desde 2007 a auferir mais 600% – acima de 18 milhões de dólares por ano – menos venal do que um traficante que envia um barco sobrecarregado e seus ocupantes para a morte ao largo da Líbia.

Há uma nova ordem mundial. Está baseada na exploração nua e crua. Não na democracia, é o que nós temos exportado em todo o globo. E isto se parece muito com o Estado anárquico que Hobbes temia . As gangues que entregam os migrantes para a Europa fazem aproximadamente 100 milhões de dólares por mês pelo seu trabalho. Exploram o tráfego de seres humanos como apenas os altamente pagos executivos das grandes empresas fazem.

Os Estados falhados do Iraque, da Síria e da Líbia, um resultado direto da globalização, têm a sua contrapartida em Detroit, St Louis, Oakland, Memphis, Baltimore, Atlanta, Milwaukee e o lado sul de Chicago. Eles são as nossas versões de Mogadíscio, com ilegalidade, mortes sem sentido, bandos armados, fome generalizada, medo, uma população que se abandona no abraço entorpecente de opiáceos, crescente pobreza, instituições de um Estado disfuncional, o crescimento de empresas de segurança privadas para protegerem as elites e violência indiscriminada da polícia que cria um reinado de terror visando os pobres.

Quanto mais as forças do capitalismo transnacional extraem de nós em nome da austeridade e da maximização do lucro, mais zonas dos EUA vão decair para versões domésticas dos Estados falhados no exterior. O mesmo sistema existe aqui e no exterior. E tem o mesmo resultado aqui e no exterior. Pode aparecer primeiro na Somália, Mali, Guiné-Bissau e Líbia, mas em breve virá a caracterizar grande parte da América. A proliferação de armas fará na nossa sociedade o que tem feito em todos ou outros Estados falhados onde houve acesso descontrolado aos arsenais – entregar o poder àqueles com pendor para a violência.

Escreveu Elias Canetti em Multidões e poder (Crowds and Power):
"Quem queira governar os homens tem primeiro que tentar humilhá-los, enganá-los acerca dos seus direitos e sua capacidade de resistência, até que eles se tornem tão impotentes como animais. Ele depois usa-os como animais e, mesmo que não lhes diga isso, sabe muito claramente que significam muito pouco para ele; quando fala aos seus mais próximos chamará os outros de carneiros ou gado. Seu objetivo final é incorporá-los em função dos seus interesses e sugar-lhes toda a substância. O que resta deles depois, não importa. Quanto pior os tratou mais os despreza. Quando não têm mais utilidade, descarta-os como faz com excrementos, bastando saber que não envenenam o ar da sua casa".
A História demonstrou amplamente como isto vai acabar. A persistente exploração por uma elite descontrolada, o aumento dos níveis de pobreza e insegurança, desencadeará uma legítima revolta entre os desesperados. Eles vão perceber o que se passa para além das mentiras e da propaganda das elites. Vão exigir redistribuição de rendimentos. Voltarão para aqueles que expressam o ódio que sentem pelos poderosos e pelas instituições que foram projetadas para dar-lhes voz, mas que agora servem para os enganar. Buscarão não reformas, mas a destruição de um sistema que os traiu. Estados falhados – a Rússia czarista, a República de Weimar, a antiga Jugoslávia – podem dar origem a monstruosidades políticas. Connosco não será diferente.

Formas de fascismo já tomaram conta de duas nações da UE, a Hungria e a Polónia. Partidos de extrema-direita, reagindo à vaga de mais de 1 milhão de migrantes que caiu sobre a Europa no ano passado, estão a ganhar terreno na França, Áustria, Suécia, Alemanha e Grécia. O nacionalismo, alimentado por uma deificação das forças armadas, será usado para compensar a impotência individual e a perda da identidade nacional. Nos EUA a dissidência tornar-se-á "antiamericana", uma forma de traição. Os inimigos internos vão ser vilipendiados juntamente com os inimigos externos. E isto levará a mais guerras no Médio Oriente. Os partidos políticos de extrema-direita da Europa Oriental alardeiam uma retórica de conflito militar com a Rússia. Devido à sua associação com a NATO, os EUA seriam obrigados a apoiar quaisquer hostilidades.

Votar em Hillary Clinton não irá interromper este deslize para o apocalipse. Só vai acelerá-lo. Donald Trump pode desaparecer do cenário político, mas alguém ainda mais venal e provavelmente mais inteligente, vai tomar seu lugar. Nosso trabalho é desmontar os mecanismos que nos estão a empurrar para o abismo. E isto significa sustentada e maciça desobediência civil, como se tornou evidente pelos protestos na Reserva de Sioux Rock e pelas paragens de trabalho de sexta-feira passada realizadas pelos presos de toda a nação. Significa fazer todo o possível para não cooperar com os elementos da autoridade. Significa interromper os mecanismos do poder. Significa superar o medo. Significa não acreditar nas mentiras que nos são ditas.
13/Setembro/2016
 
[1] O texto menciona "501(c) (4)", a secção do código de impostos sobre rendimentos dos EUA que isenta organizações de assistência social sem fins lucrativos. A participação direta ou indireta ou intervenção em campanhas políticas não está prevista nesta isenção. No entanto, as atividades políticas de uma organização de assistência social podem ficar ao abrigo do clausulado da 501(c)(4) desde que não sejam a sua principal atividade.

[NR] Sempre houve alterações climáticas ao longo de toda a história do planeta Terra. Assim, é incorrecto atribuí-las à globalização. As referidas alterações são apenas um outro nome para o hipotético aquecimento global. Ver A impostura global .


[*] Jornalista. Passou quase duas décadas como correspondente estrangeiro na América Central, Médio Oriente, África e Balcãs. Fez reportagens em mais de 50 países. Trabalhou para o The Christian Science Monitor, National Public Radio, The Dallas Morning News e The New York Times, do qual foi correspondente no estrangeiro durante 15 anos.

O original encontra-se em www.informationclearinghouse.info/article45448.htm . Tradução de DVC.


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Eles provocam a guerra nuclear através dos media


por John Pilger 
 
Slobodan Milosevic. A absolvição de um homem acusado do pior dos crimes, o genocídio, não provocou manchetes. Nem a BBC nem a CNN cobriram isto. Só o Guardian permitiu um breve comentário. Uma tão rara confissão oficial foi enterrada ou ocultada, compreensivelmente. Ela explicaria demasiado acerca do modo como os dominadores do mundo governam.

O Tribunal Penal Internacional para a antiga Jugoslávia (ICTY, na sigla em inglês), em Haia, silenciosamente absolveu o falecido presidente sérvio, Slobodan Milosevic, de crimes de guerra cometidos durante a guerra da Bósnia de 1992-95, incluindo o massacre de Srebrenica.

Longe de conspirar com o condenado líder bósnio-sérvio Radovan Karadzic, Milosevic realmente "condenou a limpeza étnica", opôs-se a Karadzic e tentou impedir a guerra que desmembrou a Jugoslávia. Enterrada no fim de uma sentença de 2.590 páginas sobre Karadzic, em Fevereiro último, esta verdade mais uma vez demole a propaganda que em 1999 justificou a carnificina ilegal da NATO na Sérvia.

Milosevic morreu de um ataque de coração em 2006, sozinho na sua cela em Haia, durante a uma farsa de julgamento inventado por um "tribunal internacional" americano. Recusada a cirurgia que poderia ter salvo sua vida, a sua condição de saúde agravou-se e foi monitorada e mantida secreta por responsáveis dos EUA, como revelou a WikiLeaks.

Milosevic foi a vítima da propaganda de guerra que hoje flui como uma torrente através dos nossos écrans e jornais e acena com grandes perigos para todos nós. Ele foi o protótipo do demónio, vilipendiado pelos media ocidentais como o "carniceiro dos Balcãs" responsável por "genocídios", especialmente na província jugoslava secessionista do Kosovo. O primeiro-ministro Tony Blair disse isso, mencionou o Holocausto e exigiu acção contra "este novo Hitler". David Scheffer, o embaixador itinerante dos EUA para crimes de guerra (sic), declarou que até "225 mil albaneses étnicos entre 14 e 59 anos" podiam ter sido assassinados pelas forças de Milosevic.

Esta foi a justificação para o bombardeamento da NATO, liderado por Bill Clinton e Blair, que matou centenas de civis em hospitais, escolas, igrejas, parques e estúdios de televisão e destruiu infraestrutura económica Sérvia. Isto foi descaradamente ideológico. Na notória "conferência de paz" em Rambouillet, em França, Milosevic foi confrontado por Madeleine Albright, a secretária de Estado dos EUA, a mesma que atingiu a infâmia com a sua observação de que a morte de meio milhão de crianças iraquianas "valeu a pena".

Albright fez a Milosevic uma "oferta" que nenhum líder nacional poderia aceitar. A menos que concordasse com a ocupação militar estrangeira do seu país, com as forças ocupantes "isentas de processo legal" e com a imposição de um "mercado livre" neoliberal, a Sérvia seria bombardeada. Isto estava contido num "Apêndice B", o qual os media deixaram de ler ou ocultaram. O objectivo era esmagar o último estado "socialista" independente da Europa.

Uma vez começado o bombardeamento da NATO houve uma debandada de refugiados kosovares "a fugirem de um holocausto". Quando acabado, equipes internacionais de polícia baixaram ao Kosovo para exumar as vítimas do "holocausto". O FBI não conseguiu encontrar uma única sepultura em massa e voltou para casa. A equipe espanhola de perícia forense fez o mesmo, o seu líder colericamente denunciou "uma pirueta semântica da máquinas de propaganda de guerra". A contagem final dos mortos no Kosovo foi de 2.788. Isto incluía combatentes de ambos os lados e sérvios e ciganos assassinado pela Frente de Libertação do Kosovo, pró NATO. Não houve genocídio. O ataque da NATO foi tanto uma fraude como um crime de guerra.

Poucos dos louvados mísseis "de precisão" da América atingiram alvos militares. Atingiram, sim, alvos civis – incluindo os estúdios de noticiários da Rádio Televisão Sérvia em Belgrado. Dezasseis pessoas foram mortas, incluindo operadores de câmara, produtores e maquiladores. Blair descreveu as mortes, grosseiramente, como parte do "comando e controle" da Sérvia. Em 2008, a promotora do Tribunal Penal Internacional para a Antiga Jugoslávia, Cala Del Ponte, revelou que fora pressionada a não investigar crimes da NATO.

Este foi o modelo para as invasões seguintes de Washington ao Afeganistão, Iraque, Líbia e, furtivamente, a Síria. Todas qualificam-se como "crimes supremos" sob o padrão de Nuremberga; todas dependeram da propaganda dos media. Enquanto o jornalismo tablóide desempenhou a sua parte tradicional, o jornalismo sério, crível e muitas vezes liberal foi o mais eficaz – a promoção evangélica de Blair e suas guerras pelo Guardian, as mentiras incessantes acerca das não existentes armas de destruição em massa de Saddam Hussein no Observer e no New York Times, e o indefectível bater de tambores com propaganda governamental por parte da BBC em meio ao silêncio das suas omissões.

Na altura do bombardeamento, Kirsty Wark, da BBC, entrevistou o general Wesley Clark, o comandante da NATO. A cidade sérvia de Nis acabara de ser pulverizada com bombas cluster americanas, matando mulheres, idosos e crianças num mercado ao ar livre e num hospital. Wark não perguntou uma única questão acerca disto, ou acerca de quaisquer outras mortes civis. Outros foram mais ousados. Em Fevereiro de 2003, no dia seguinte após Blair e Bush terem ateado fogo ao Iraque, o editor político da BBC, Andrew Marr, substituiu-se à Downing Street e fez o equivalente a um discurso de vitória. Excitadamente ele contou ao seu público que Blair havia "dito que seria capaz de tomar Bagdad sem um banho de sangue e que no fim os iraquianos estariam a celebrar. E sobre estes dois pontos ele se havia provado conclusivamente correcto". Hoje, com um milhão de mortos e uma sociedade em ruínas, as entrevistas de Marr na BBC são recomendadas pela embaixada dos EUA em Londres.

Colegas de Marr alinharam-se para proclamar que Blair como "vingado". O correspondente da BBC em Washington, Matt Frei, disse: "Não há dúvida de que o desejo de trazer o bem, trazer os valores americanos para o resto do mundo e especialmente para o Médio Oriente ... está agora cada vez mais ligado ao poder militar".

Esta reverência aos Estados Unidos e seus colaboradores como uma força benigna que "traz o bem" está profundamente entranhada no establishment do jornalismo ocidental. Ela assegura que a culpa pela catástrofe dos dias actuais na Síria é exclusivamente de Bashar al-Assad, a quem o ocidente e Israel há muito conspiram para derrubar, não por quaisquer preocupações humanitárias, mas para consolidar o poder agressivo de Israel na região. As forças jihadistas desencadeadas e armadas pelos EUA, Grã-Bretanha, França, Turquia e seus procuradores da "coligação" servem a este fim. São eles que distribuem a propaganda e os vídeos que se tornam notícias nos EUA e na Europa e que dão acesso a jornalistas que garantam uma "cobertura" unilateral da Síria.

A cidade de Alepo está nos noticiários. A maior parte dos leitores e telespectadores estará inconsciente de que a maioria da população de Alepo vive na parte ocidental da cidade controlada pelo governo. Que eles sofrem bombardeamento de artilharia diário a partir da al-Qaida patrocinada pelo ocidente não está nas notícias. Em 21 de Julho, bombardeiros franceses e americanos atacaram uma aldeia do governo na província de Alepo, matando até 125 civis. Isto foi noticiado na página 22 do Guardian, sem fotografias.

Tendo criado e endossado o jihadismo no Afeganistão na década de 1980 como a Operação Ciclone – uma arma para destruir a União Soviética – os EUA estão a fazer algo semelhante na Síria. Tal como os mujahideen afegãos, os "rebeldes" sírios são soldados de infantaria da América e da Grã-Bretanha. Muitos combatem pela al-Qaida e suas variantes. Alguns, como a Frente Nusra, rebaptizaram-se para cumprir sensibilidades americanas quanto ao 11/Set. A CIA dirige-os, com dificuldade, assim como dirige jihadistas de todo o mundo.

O objectivo imediato é destruir o governo em Damasco, o qual, segundo o inquérito de opinião mais crível (YouGov Siraj), a maioria dos sírios apoias ou pelo menos procura-o para protecção, apesar da barbárie nas suas sombras. O objectivo a longo prazo é negar à Rússia um aliado chave no Médio Oriente como parte de uma guerra da NATO contra a Federação Russa que em algum momento a destrua.

O risco nuclear é óbvio, embora ocultado pelos media por todo "o mundo livre". Os editorialistas do Washington Post, tendo promovido a ficção das ADM no Ira que, pedem que Obama ataque a Síria. Hillary Clinton, que publicamente rejubilou-se pelo seu papel de carrasco durante a destruição da Líbia, indicou reiteradamente que, como presidente, irá "mais além" do que Obama.

Gareth Porter, um jornalista samidzat que informa a partir de Washington, revelou recentemente os nomes daqueles que provavelmente constituirão um gabinete de Clinton, a qual planeia um ataque à Síria. Todos têm histórias beligerantes na guerra fria. O antigo director da CIA, Leon Panetta, diz que "o próximo presidente prepara-se para considerar acrescentar forças especiais adicionais sobre o terreno".

O que é mais notável acerca da propaganda de guerra agora em clímax é seu absurdo e familiaridade patentes. Tenho andado a procurar em arquivos de filmes de Washington da década de 1950 quando diplomatas, funcionários públicos e jornalistas sofreram a caça às feiticeiras e foram arruinados pelo senador Joe McCarthy por desafiar as mentiras e a paranóia acerca da União Soviética e da China. Tal como um tumor ressurgente o culto anti-Rússia retornou.

Na Grã-Bretanha, Luke Harding do Guardian lidera os inimigos da Rússia do seu jornal a um fluxo de paródias jornalísticas que atribuem a Vladimir Putin todas as iniquidades da terra. Quando a fuga dos Panama Papers foi publicada, a primeira página dizia Putin, e havia uma foto dele. Pouco importa que Putin não fosse mencionado em parte alguma dos Panama Papers.

Tal como Milosevic, Putin é o Demónio Númbero Um. Foi Putin que derrubou um avião de carreira da Malásia sobre a Ucrânia. Manchete: "Tanto quanto me preocupa, Putin matou meu filho". Nenhuma prova é exigida. Foi Putin o responsável pelo documentado (e pago) derrube de Washington em 2014 do governo eleito em Kiev. A campanha de terror que se seguiu por milícias fascistas contra a população de língua russa da Ucrânia foi o resultado da "agressão" de Putin. Impedir a Crimeia de se tornar uma base de mísseis da NATO e proteger a maior parte da população russa que votou num referendo par voltar à Rússia – da qual a Crimeia fora anexada – foram mais exemplos da "agressão" de Putin. A difamação pelos media inevitavelmente torna-se guerra pelos media. Se a guerra com a Rússia estalar, por intenção ou por acidente, jornalistas arcarão com grande parte da responsabilidade.

Nos EUA, a campanha anti-russa foi elevada a realidade virtual. O colunista do New York Times Paul Krugman, um economista com Prémio Nobel, chamou Donald Trump de "Candidato siberiano" porque Trump é homem Putin, diz ele. Trump ousou sugerir, num momento de rara lucidez, que guerra com a Rússia pode ser uma ideia má. De facto, ele avançou ainda mais e removeu despachos de armas americanas para a Ucrânia da plataforma republicana. "Isto não seria bom para chegar a um acordo com a Rússia", disse ele.

Eis porque o establishment belicista liberal da América o odeia. O racismo de Trump e as vociferações demagógicas nada tem a ver com isto. O registo de Bill e Hillary Clinton de racismo e extremismo pode ultrapassar o de Trump. (Esta semana é o 20º aniversario da "reforma" da previdência de Clinton que lançou uma guerra aos afro-americanos). Quanto a Obama: enquanto a polícia americana abate a tiros seus companheiro afro-americanos a grande esperança na Casa Branca nada fez para protegê-los, nada para aliviar seu empobrecimento, enquanto dirigia quatro guerras de rapina e uma campanha de assassinatos sem precedente.

A CIA tem pedido que Trump não seja eleito. Generais do Pentágono têm pedido que não seja eleito. O pró guerra New York Times – fazendo uma pausa na sua implacável difamação ordinária de Putin – pede que não seja eleito. Algo se agita. Estes tribunos da "guerra perpétua estão aterrorizados com a perspectiva de que negócios de guerra de muitos milhares de milhões de dólares pelos quais os EUA mantêm a sua dominância sejam minutos se Trump fizer um acordo com Putin, a seguir com Xi Jinping da China. O seu pânico perante a possibilidade de a maior potência do mundo falar de paz – ainda que improvável – seria a mais negra das farsas se as questões em causa não fossem tão terriveis.

"Trump teria amado Stalin!" rugiu o vice-presidente Joe Biden num comício a favor de Hillary Clinton. Com Clinton a anuir, ele gritou: "Nós nunca nos curvamos. Nós nunca nos inclinamos. Nós nunca nos ajoelhamos. Nós nunca nos rendemos. Nós possuímos a linha de chegada. Isso é o que somos. Somos a América!"

Na Grã-Bretanha, Jeremy Corbyn também excitou a histeria dos fautores da guerra no Partido Trabalhista e nos media dedicados a descartá-lo. Lord West, antigo almirante e ministro do Trabalho, disse isso bem. Corbyn estava a adoptar uma "ultrajante" posição anti-guerra "porque consegue que massas irracionais (unthinking) votem por ele".

Num debate com o líder que o desafiava, Owen Smith, o moderador perguntou a Corbyn: "Como actuaria numa violação por Vladimir Putin de um estado companheiro da NATO?" Corby respondeu: "Você desejaria evitar que isso acontecesse em primeiro lugar. Você construiria um bom diálogo com a Rússa... Tentaríamos introduzir uma desmilitarização das fronteiras entre a Rússia, a Ucrânia e os outros países que fazem fronteira com a Europa do Leste. O que não podemos permitir é uma série de calamitosas acumulações de tropas de ambos os lados, as quais só podem levar a um grande perigo".

Pressionado a dizer se autorizaria uma guerra contra a Rússia "se tivesse de fazer", Corbyn replicou: "Não desejo ir à guerra – o que desejo fazer é alcançar um mundo em que não precisemos de ir à guerra".

A linha de questionamento deveu-se muito à ascensão de liberais belicosos na Grã-Bretanha. O Partido Trabalhista e os media há muito que lhes oferecem oportunidades de carreira. Por um momento o tsunami moral do grande crime do Iraque deixou-os em apuros, as suas inversões da verdade num embaraço temporário. Pouco se importante com [o relatório] de Chilcot e a montanha de facto incriminadores, Blair permanece a sua inspiração porque ele foi um "vencedor".

O jornalismo e o mundo académico dissidente tem sido sistematicamente banido ou apropriado e as ideias democráticas esvaziada e repreenchidas com "políticas de identidade" que confundem género com feminismo e ansiedade pública com libertação e deliberadamente ignoram a violência do estado e os lucros com armas que destroem vidas incontáveis em lugares remotos, como o Iémen e a Síria, e acenam à guerra nuclear na Europa e por todo o mundo.

A mobilização de pessoas de todas as idades que cerca a ascensão espectacular de Jeremy Corbyn contrapõe-se a isto em alguma medida. Sua vida foi passada a iluminar o horror da guerra. O problema de Corbyn e seus apoiantes é o Partido Trabalhista. Na América, o problema para os milhares de seguidores de Bernie Sanders era o Partido Democrático, sem mencionar a sua traição final à grande esperança. Nos EUA, lar dos grandes movimentos de direitos civis e anti-guerra, é no Black Lives Matter e nos outros da espécie do Codepink [1] que repousam as raízes das suas versões moderna.

Só um movimento que cresça em todas as ruas e através de fronteiras e não desista pode travar os instigadores da guerra. No próximo ano fará um século desde que Wilfred Owen escreveu este poema. Todo jornalista deveria le-lo e recordá-lo... 

Se pudesse ouvir, a cada tossida, o sangue
Que jorra
destes pulmões envenenados,
Obsceno como o cancro, amargo como o vómito
De úlceras vis e incuráveis sobre línguas inocentes,
Meu amigo, tu não dirias com tamanho entusiasmo
A crianças ansiosas por uma glória desesperada,
A velha mentira: Dulce et decorum est
Pro patria mori. [2]

[1] Movimento de Mulheres para a Paz
[2] Doce e honroso é morrer pela pátria.


Ver também em resistir.info:
  • As estranhas condições da morte de Milosevic , 13/Mar/06
  • Milosevic no tribunal da NATO: quando os criminosos se arvoram em juízes , 03/Mar/06
  • “Bombardeámos o lado errado”, afirma o ex-comandante da NATO no Kosovo , 04/Mai/04
  • Os amantes da guerra , 28/Mar/06

  • Os silêncios de ouro no sistema de propaganda dos EUA , 01/Jun/15

    O original encontra-se em johnpilger.com/articles/provoking-nuclear-war-by-media


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
  • segunda-feira, 29 de agosto de 2016

    Sigam a pista do dinheiro para perceber a origem da 'ameaça russa'


    por Neil Clark [*]
     
    Se vivem no Ocidente, e a menos que tenham estado trancados num guarda-roupa, devem ter ouvido frases ameaçadoras como 'A ameaça russa', 'Agressão russa na Europa' e 'A Rússia preparada para invadir a Polónia/Estónia/Ucrânia/Finlândia'.

    Certas pessoas estão a tentar assustar-nos estupidamente com a Rússia e com a 'ameaça' que este país parece representar. A histeria faz-nos lembrar a montagem da guerra do Iraque, quando éramos alertados todos os dias para a 'ameaça' das mortíferas armas de destruição maciça, que – surpresa, surpresa – afinal não existiam.

    Podemos passar horas a falar das grandes teorias bombásticas na área da geopolítica e das relações internacionais numa tentativa de explicar porque é que isto está a acontecer.

    Mas o que temos que fazer é seguir o 'rasto do dinheiro'. Pensem em quem beneficia financeiramente com todo este alarmismo e logo compreenderão.

    Esta semana, The Intercept revelou como os fornecedores da defesa dos EUA têm andado a dizer aos investidores que a alegada 'ameaça russa' é boa para os negócios.

    Richard Cody, general do exército reformado, e vice-presidente da L-3 Communications, o sétimo maior fornecedor de defesa, lamentou o facto de que "quando acabou a velha Guerra-Fria, os orçamentos para a defesa sumiram-se Mas agora, uma 'Rússia ressuscitada' significava que " "vinha aí um aumento".

    Stuart Bradie, chefe executivo da CBR, também enviou uma mensagem igualmente otimista que falava das "oportunidades" que a atual situação apresenta.

    O processo para maiores gastos com a defesa para conter a 'ameaça russa' foi montado por uma série de grupos de reflexão. E sabem que mais? Os mais aguerridos lobistas – perdão, 'grupos de reflexão' – recebem um considerável financiamento dos fornecedores de defesa dos EUA!

    The Intercept cita os exemplos do Instituto Lexington e do Atlantic Council.

    Mas ainda há muitos outros. Em fevereiro passado, escrevi sobre um instituto político dos EUA, 'não partidário', chamado Center for European Policy Analysis. O CEPA emitiu um documento em que atacava a agência noticiosa russa Sputnik por dar voz a "políticos anti-establishment" que criticavam a NATO.

    E quem financia a CEPA 'não partidária'? Os doadores mais recentes incluem o Departamento da Defesa dos EUA, a Boeing, a Raytheon Company, a Textron Systems, a Sikorsky Aircraft, a Bell Helicopter e a Lockheed Martin Corporation.

    O que está a acontecer hoje na Europa é o mesmo que tem acontecido no Médio Oriente há anos.

    Os EUA criam o caos, depois acorrem a vender aos países da região os últimos equipamentos militares para os 'proteger' do caos. É uma verdadeira fraude e uma clara imitação dos esquemas de extorsão da Máfia. Os países que não querem pagar, como a Jugoslávia nos anos 90, sujeitam-se a serem bombardeados.

    Vitoria Nuland e o embaixador dos EUA na Ucrânia. Reparem como começou a crise na Ucrânia. Os EUA gastaram milhares de milhões de dólares numa operação de 'mudança de regime' para derrubar o governo democraticamente eleito de Viktor Yanukovych e substitui-lo por uma administração fantoche pró-EUA. Até ouvimos Victoria Nuland do Departamento do Estado – depois de ter entregue bolachas aos protestantes antigoverno em Maidan – a analisar quem devia figurar ou não no novo governo 'democrático' ucraniano, com o embaixador norte-americano, Geoffrey Pyatt.

    Quando o povo da Crimeia votou 'Nyet', como seria de esperar, à operação do Departamento de Estado e votou esmagadoramente num referendo a favor da união com a Rússia, a Rússia foi acusada de ser a 'agressora' que tinha 'invadido' a Ucrânia. Os EUA deviam saber que a sua operação de mudança de regime na Ucrânia provocaria o caos e aumentaria as tensões com a Rússia. E foi isso mesmo o que fizeram!

    Para combater a nova 'ameaça' russa não apenas à Ucrânia 'democrática', mas a outros países na Europa de leste, disseram-nos que era preciso um grande aumento nas despesas da NATO com a 'defesa'. Quem beneficia com isso? Claro, os fornecedores da defesa norte-americanos!

    No ano passado, conforme relatei aqui , a Polónia mandou melhorar militarmente os Patriot Missiles, feitos nos EUA – fabricados por Raytheon – e os helicópteros militares Airbus, por 5,53 mil milhões de dólares.

    Em novembro de 2014, a Estónia 'ameaçada' adquiriu 80 mísseis Javelin aos EUA, por 40 milhões de euros. Em fevereiro, ouvimos dizer que o país ia gastar , em 2020, 818 milhões de euros em novo armamento e equipamento.

    Como comentou Charlie Chaplin na sua clássica comédia de humor negro de 1947, "Guerras, conflitos, é tudo negócio!"

    Qualquer análise objetiva revela que é a NATO – e não a Rússia – com a sua concentração de armas e soldados nas fronteiras da Rússia, que ameaça a paz da Europa. Mas quem quer que assinale isso e refira a incessante Drang nach Osten da aliança militar, ameaça os lucros das empresas de defesa dos EUA e é atacado como 'pacifista' ou 'marionete do Kremlin' por aqueles que têm manifestos interesses financeiros em manter a tensão elevada.

    Reparem nos ataques histéricos ao líder do partido britânico Labour, Jeremy Corbyn, pelos seus recentes comentários muito conscientes sobre a NATO e a Rússia.

    Perguntaram a Corbyn num debate televisivo:   "Enquanto primeiro-ministro, como reagiria se Putin violasse a soberania de um estado membro da NATO?"

    Respondeu: "Obviamente, em primeiro lugar, tentaria impedi-lo. Estabeleceria um bom diálogo com a Rússia para lhes pedir e os manter dentro das respetivas fronteiras. Tentaria fomentar a desmilitarização da Rússia e da Ucrânia e de todos os outros países na fronteira entre a Rússia e a Europa de Leste. Não podemos é permitir uma série de continuadas concentrações de tropas de ambos os lados, que só poderão conduzir a um enorme perigo para o futuro. Começa a ter o aspeto terrível da política da Guerra Fria na presente época. Temos que nos comprometer com a Rússia, comprometer com a desmilitarização naquela área, a fim de tentar evitar que esse perigo aconteça… Não desejo entrar numa guerra, quero é conseguir um mundo em que não haja qualquer necessidade de entrar em guerras, em que elas não sejam necessárias. É possível fazer-se isso".

    Como assinala Carlyn Harvey, ao escrever no The Canary:   "Para milhões de cidadãos em todo o mundo, isso (a posição antiguerra de Corbyn) é uma ótima notícia. Mas para os que tencionam manter a política de poder e para as indústrias lucrativas que os apoiam, a visão de Corbyn está condenada ao desastre".

    O incansável grupo de pressão para a guerra classifica Corbyn como um 'perigoso extremista' porque, se outros políticos ocidentais o seguirem, e promoverem o desarmamento e o diálogo, em vez da confrontação e da guerra, os lucros da defesa sofrerão um rude golpe.

    Foi um presidente norte-americano, Dwight D Eisenhower, o primeiro a alertar-nos contra o complexo militar-industrial, em 1961:   "Temos que nos precaver contra a aquisição de uma influência indesejável, procurada ou não, do complexo militar-industrial" , disse.

    Ninguém podia acusar, o Supremo Comandante da Forças Aliadas na Europa, na II Guerra Mundial, de ser 'comuna' ou 'marioneta do Kremlin'. Mas a situação é hoje muito pior do que era na época de Eisenhower.

    Os neoconservadores imiscuíram-se nos corredores do poder. Apregoam estar interessados em espalhar a ' democracia', mas na realidade o movimento neoconservador só se preocupa com dinheiro e lucros. Henry 'Scoop' Jackson, o político norte-americano que se opôs violentamente à détente com a União Soviética nos anos 70, foi alcunhado, com toda a razão, de 'Senador para a Boeing'.

    Trinta anos depois, a primeira reunião pós abertura da Sociedade Henry Jackson discutiu  como difamar o académico antiguerra Noam Chomsky, por ele não aceitar a classificação de genocídio quanto ao massacre de Srebrenica.
    Parece que, para certas pessoas, a velha Guerra-Fria nunca acabou.

    Quanto tempo mais os cidadãos do mundo aguentarão uma situação em que os defensores da guerra, com ligações ao complexo militar-industrial, têm toda a liberdade de alimentar as tensões internacionais? Na próxima vez que lerem ou ouvirem alguém a falar da 'ameaça russa' – e porque é que a NATO precisa de reforçar os seus gastos para lhe fazer frente – simplesmente sigam a pista do dinheiro.

    Provavelmente será uma revelação.
    22/agosto/2016
     
    [*] Jornalista, escritor, homem da rádio e bloguista. Tem escrito para muitos jornais e revistas no Reino Unido e noutros países, incluindo The Guardian, Morning Star, Daily e Sunday Express, Mail on Sunday, Daily Mail, Daily Telegraph, New Statesman, The Spectator, The Week e The American Conservative. É colaborador regular da RT e também tem aparecido na TV BBC e na rádio, no Sky News, na Press TV e na Voz da Rússia. É cofundador da Campaign For Public Ownership @PublicOwnership. Vejam o seu blogue, distinguido com um prémio em www.neilclark66.blogspot.com . Tweeta sobre política e assuntos mundiais @NeilClark66

    O original encontra-se em www.rt.com/op-edge/356726-russian-threat-paranoia-money/ .
    Tradução de Margarida Ferreira.


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

    segunda-feira, 15 de agosto de 2016

    A longa depressão


    por Michael Roberts [*]
    entrevistado por Mark Kilian [**]
     
    '. MK: Nosso governo diz que a economia se recupera. Ao mesmo tempo, vemos que a Grécia precisa continuamente de "pacotes de resgate" e agora há problemas na Itália. Qual é o estado da economia mundial?

    MR: O desenvolvimento da economia mundial desde 1945 não tem sido harmonioso, não vai em linha recta para cima. Tem havido uma série de booms e recessões. Com isso, quero dizer que um declínio no rendimento nacional ou no produto nacional de um país durante pelo menos seis meses, antes da recuperação e retomada do crescimento.

    Mas o que é diferente acerca do período recente é que tivemos um afundamento muito grande em 2008-9 após o crash bancário internacional. A Grande Recessão, a qual perdurou durante 18 meses, foi a maior desde a década de 1930. Em consequência, todas as grandes economias do mundo, incluindo a Holanda, assistiram a um declínio drástico do seu rendimento nacional e produto nacional. Toda vez que acontece milhões de pessoas terem suas vidas arruinadas, elas perdem seus empregos e possivelmente seus lares porque não podem pagar a renda ou a hipoteca. Para culminar tudo isto, governos aprovaram toda espécie de medidas, de cortes nos serviços públicos e de bem-estar, os quais também prejudicaram a população. Todo esse período de declínio é uma perda permanente. Se não tivesse havido o afundamento, o produto e o rendimento teriam sido mais elevados, os empregos teriam sido melhores. Isso nunca poderá ser recuperado.

    A diferença desta vez, em comparação com outras crises, é que a recuperação da Grande Recessão tem sido incrivelmente fraca. É a mais fraca recuperação económica desde a década de 1930. A partir do fim da Grande Recessão, após sete anos, a maior parte das economias dificilmente recuperou para o nível em que estavam em 2007. Isso mostra quão lenta tem sido.

    Observe-se a Itália: o FMI apresentou um relatório que é realmente chocante . Não só a Itália tem uma importante crise bancária que em breve poderia vir a provocar o crash da banca a menos que o governo a salve (bails out), como o FMI considerou que o PIB e o produto da Itália não retomariam o nível de 2007 senão em 2025! São duas décadas perdidas de produto, rendimento, empregos e melhores condições para o povo italiano. Isto mostra quão má tem sido a recuperação na Itália.

    O produto, o emprego e os rendimentos do povo na maior parte das economias e para a maior parte do povo não recuperam o nível de 2007. Segundo um novo relatório da McKinsey , os consultores em gestão, dois terços das famílias nas 26 economias da OCDE em 2015 têm padrões de vida mais baixos do que em 2005!

    Assim, esta é uma recuperação realmente muito fraca e, na minha opinião, há todo o perigo, antes de retornarmos aos níveis anteriores, se é que o faremos, de que a economia mundial deslize para dentro de um outro afundamento dentro de um ano ou dois.

    MK: No seu novo livro descreve três depressões: a dos anos 1873-1897, 1929-39 e a presente. Haverá algo que possamos aprender com isto?

    MR: Na minha óptica não se trata de uma recessão normal, mas sim de uma depressão. Esta é diferente dos afundamentos (slumps) normais. Isso não acontece muito frequentemente. Na história do capitalismo moderno, do século XIX até agora, houve apenas três grandes depressões. Numa depressão, a recuperação é tão fraca que as economias não retornam à mesmas taxas de crescimento ou mesmo ao nível de produção que existia anteriormente, excepto durante um período muito longo.

    Houve um grande afundamento em 1873 na Grã-Bretanha, Alemanha e EUA, então as principais economias capitalistas. Não houve recuperação forte depois disso. Houve uma série de afundamentos os quais perduraram durante os 20 anos seguintes. Aquilo foi uma depressão: um baixo nível de crescimento e uma série de afundamentos. Foi preciso realmente um longo tempo antes de uma recuperação sustentada se tornar possível.

    A segunda depressão é chamada a Grande Depressão. Esta começou com o colapso dos mercados de acções nos EUA em 1929, semelhante ao colapso do mercado habitacional nos EUA em 2007. Após o crash de 1929 os EUA, a maior economia capitalista do mundo, entrou na mais severa depressão. Houve desemprego em massa prolongado e não houve recuperação real durante a década de 1930. A única coisa que acabou com ela foi a entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial, juntamente com a Grã-Bretanha, contra as chamadas potências do Eixo. A produção governamental foi aumentada, a qual levou ao crescimento económico e à recuperação. Assim, só a guerra provocou a recuperação na década de 1930. Na minha óptica, estamos num período semelhante. Serão precisas algumas mudanças drásticas a fim de o capitalismo recuperar-se de todo.

    MK: Sua escolha de palavras sugere que a produção conduzida pelo estado pode ser diferente da produção capitalista?

    Penso que há uma distinção a fazer aqui. Economistas keynesianos consideram que a solução para estes afundamentos é que o governo deveria gastar mais dinheiro no bem-estar social, ou dar dinheiro aos negócios para investirem, ou executarem seus próprios programas de produção por si mesmo e portanto por pessoas a trabalhar. Isto promoverá a economia capitalista e a colocará em andamento outra vez. Esta é a solução keynesiana para estas crises.

    Isto foi tentado por curto tempo e sem muito entusiasmo na década de 1930 por Roosevelt sob o chamado New Deal . Mas não foi realmente tentado na actual recuperação. A maior parte do governo operou cortes nos gastos governamentais. Não estou a advogar a solução keynesiana. Ela pode ajudar por algum tempo, mas finalmente também cortaria a lucratividade do sector dos negócios poderia, sob certas circunstâncias, tornar as coisas piores.

    Quando falo acerca da produção pelo governo quero dizer a tomada de controle pelo governo da maior parte do programa de investimento da economia. Assim as grandes companhias tornar-se-iam parte de uma operação conduzida pelo estado, idealmente possuídas pelo estado. Na Segunda Guerra Mundial, com efeito, foi o que aconteceu. Disseram às grandes companhias: "Vocês não podem mais produzir carros, agora têm de construir tanques". Era o controle directo do governo para o esforço de guerra. De certo modo, acabou a produção capitalista para lucro e foi substituída pela produção conduzida pelo governo. Os capitalistas ainda ganharam dinheiro e lucros, mas eles estavam completamente controlados e dirigidos pelo estado militar a fim de realizar uma guerra. A analogia aqui é que o capitalismo já não opera mais na base dos interesses do sector capitalista, mas naquele tempo isso foi encarado como nos interesses da sociedade.

    Mas uma resposta socialista, ao invés de uma keynesiana , é que precisamos que governos tomem o comando dos principais sectores da economia a fim de produzir para necessidades sociais ao invés de produzirem para lucro. Isso significa controlar o investimento e a propriedade de todos os bancos principais e outras grandes companhias. Isso é drasticamente diferente do que os keynesianos propõem agora e vai mesmo mais além do que no tempo da guerra.

    MK: Muitas pessoas vêem o longo boom após 1945 como uma situação "normal". Mas como explicamos o boom?

    Essa é uma parte importante do meu livro; porque há booms e afundamentos. O período de 1945 a meados dos anos 60 foi excepcional; é chamado a "idade de ouro" do capitalismo. Houve crescimento bastante bom, mais ou menos pleno emprego, muitos países desenvolveram um melhor estado de bem-estar social, educação gratuita mesmo ao nível de universidade, serviços de saúde gratuito, programas de habitação social, melhores pensões, etc.

    Mas foi um período excepcional. Por que? O que conduz ao crescimento sob o capitalismo é a capacidade para fazer lucros. A saúde da economia capitalista depende do que acontece à lucratividade do capital, a taxa de lucro sobre todo investimento feito por capitalista. No fim da II Guerra Mundial, em consequência da destruição física da Europa, da maior parte da maquinaria, fábricas, etc e de uma quantidade maciça de trabalho disponível a níveis baixos, a lucratividade disparou na Europa para os capitalistas quando recomeçaram. E eles obtiveram crédito barato (mesmo gratuito) dos EUA. Nos EUA houve uma desvalorização do capital velho, assim o novo capital veio com nova tecnologia que era extremamente lucrativo e houve uma enorme expansão da força de trabalho. O mesmo se passou com o Japão. Por toda a parte o capitalismo mundial teve um alto nível de lucratividade para o investimento.

    Mas nos meados dos anos 60 a lucratividade começou a cair, bastante agudamente a partir do princípio dos anos 80. Este período é chamado a crise da lucratividade. A teoria das crises do capitalismo de Marx é que, apesar de a lucratividade ser a força condutora por trás do crescimento, ela não se pode manter em ascensão. Quando o capitalismo se expande e acumula capital, há uma tendência para a lucratividade cair. Isto é uma lei chave da economia política que Marx detectou. E nesse processo da queda da taxa de lucro o capitalismo entra em perturbação e as crises desenvolvem-se mais frequentemente.

    A "era dourada" das décadas de 1950 e 1960 deu lugar a crises. Eu era jovem então e recordo que aquele tempo foi um período de grandes lutas do movimento trabalhistas pois a lucratividade caía e o capitalismo tentava conduzir os trabalhadores para o retrocesso. Os trabalhadores combatiam porque tinham um bocado de ganhos de que não queriam abrir mão e os sindicatos eram relativamente fortes. Finalmente os sindicatos foram esmagados nas recessões do princípio da década de 1980 e o movimento trabalhista foi agrilhoado e derrotado em muitas batalhas. O capitalismo tentou então elevar a lucratividade através de cortes nos gastos públicos, privatizações, na exploração da força de trabalho, removendo todas as protecções da força de trabalho, com a globalização, etc. Este período neoliberal foi o dos últimos 20 anos do século XX.

    Assim, a "era dourada" foi um período especial quando a lucratividade era muito alto devido a uma guerra mundial, seguindo-se então um grande declínio na lucratividade e então pelo fim do século grandes esforços do capitalismo – com algum êxito – para aumentar as taxas de lucro outra vez.

    MK: Então o que está realmente a dizer é que a crise dos meados dos anos 60 validaram a teoria da queda da taxa de lucro de Marx e a seguir o neoliberalismo mobilizou algumas das contra-tendências, que Marx também descreveu, a fim de restaurar as taxas de lucro?

    MR: É um bom modo de colocar isso. A lei da lucratividade de Marx diz que quando o capitalismo se expande há uma tendência da taxa de lucro para cair. Mas há meios de neutralizar isso, por algum tempo. Sob uma sociedade capitalista o valor decorre só da exploração do trabalho, do povo que trabalha sob o controle de proprietários capitalistas de modo a que possam vender as commodities no mercado e possam ganhar um lucro. Eles utilizarão mais maquinaria e fábricas e nova tecnologia para manter baixo o custo do trabalho, mas ao assim fazer reduzem o montante de lucro por investimento. O lucro, e o valor em geral, de acordo com Marx vem só dos trabalhadores, ele não vem das máquinas. As máquinas não produzem valor a menos que você as ponha a trabalhar. Isso exige trabalho humano, a menos que você tenha uma sociedade só com robots – mas isso é uma outra estoria.

    Assim, há uma contradição entre elevar a produtividade do trabalho através de mais investimento em tecnologia e lucratividade sustentada. Isto pode ser ultrapassado por um algum tempo pela exploração intensificada dos trabalhadores, durante mais horas, fazendo-os trabalhar mais intensamente, introduzindo nova tecnologia, expandindo o comércio, tentando ocupar países mais pobres e utilizar seus recursos – há vários meios pelos quais a acção contrária se pode verificar. Estes factores de contra-actuação operaram fortemente durante as décadas de 1980 e 1990, para reverter a taxa de lucro muito baixo a que o capitalismo havia chegado.

    A lucratividade recuperou-se, mas de forma alguma próxima do nível da "era dourada". Desde o fim da década de 1990 a lei marxista da lucratividade começou a operar outra vez e, apesar de todas as tentativas dos capitalistas, começou a deslizar para trás nas economias mais importantes. Isso criou as condições para as novas crises e afundamentos do século XXI. Os capitalistas tentaram evitar isso por um enorme boom de crédito, pela injecção de grande quantidade de crédito, inventando novos meios para especular nos mercados financeiros e manter lucros altos para uma secção dos capitalistas. Mas a lucratividade subjacente não se recuperou. Você pode especular nos mercados de acções mas não cria nada com isso. Você apenas tenta espremer dinheiro de outros, por assim dizer, e criar uma melhoria aparente.

    CAPITAL FICTÍCIO

    Veja-se o momento actual. O mercado estado-unidense de acções atingiu a maior altura de todos os tempos (em termos nominais). Mas quando olhamos para o estado de crescimento e da produção nas economias principais verifica-se que estão realmente a desacelerar. Os lucros estão a estagnar e ainda assim o mercado de acções esta florescente. Isso mostra a divisão entre o que Marx chamou "capital fictício" e o que realmente se passa no processo capitalista. Esta divisão atingiu um extremo em 2007, um fosso entre preços no mercado de acções, preços habitacionais, especulação em mercados financeiros e o que estava realmente a acontecer com a lucratividade do capital. Então veio o crash.

    Este é o processo que tento descrever no livro. O livro tenta apresentar alguns indicadores para os leitores examinarem. Alguns economistas centram-se na financiarização: o aumento deste sector em relação aos sectores produtivos. Um argumento popular é que o sector financeiro e o bancos deveriam ser regulados e restringidos. Mas não é suficiente, é como tentar controlar um tigre numa jaula só com uma folha de papel. Não é seguro que os bancos se comportem conforme a regulação. Só recentemente, os reguladores financeiros dos EUA investigaram as actividades do HSBC, o grande banco britânico, o qual durante anos lavou dinheiro para cartéis mexicanos da droga. Eles ganharam milhares de milhões de libras com isto. Foi descoberto, mas disseram às autoridades para não intervier e não multar o HSBC porque isto poderia deitar abaixo o sistema bancário. Isso mostra que regular os bancos é totalmente inútil. Não muda nada, eles continuarão no mesmo caminho.

    O único meio de tratar disto é assumir o comando dos bancos , trazê-los à propriedade pública através do controle pelos trabalhadores da banca e por um controle democrático mais vasto da sociedade como um todo, de modo a que os bancos se tornem um serviço: para providenciar empréstimos às pessoas para o que precisem, para pequenos negócios e conceder empréstimos para melhorar o potencial produtivo da economia, não para especular em mercados financeiros e em activos, ou envolver-se em escândalos em paraísos fiscais e lavagens de dinheiro, como eles têm estado a fazer nas últimas décadas – e continuarão a fazer, mesmo com reguladores por perto.

    O outro ponto acerca disto é que o crash financeiro não foi apenas uma crise bancária. Uma crise financeira não está isolada do que acontece no sector produtivo da economia: a manufactura, a tecnologia, que realmente fazem coisas que circulam, sobre as quais então os bancos especulam. Bancos não fazem dinheiro excepto entre si próprios, o valor deve vir de algum lado. O crash bancário foi realmente um sintoma do facto que os sectores produtivos da economia capitalista já não eram bastante lucrativos para suportar este castelo de cartas. Aqueles que argumentam que foi apenas uma crise financeira e que a solução jaz no controle do sector financeiro ignoram a verdadeira natureza da crise e, assim, não podem realmente resolvê-la.

    MK: Pode afirmar que o sector financeiro aumenta a instabilidade do sistema?

    Claramente, pois esta torna-se cada vez mais grave. Como a lucratividade caiu nas décadas de 1960 e 1970 e permaneceu relativamente baixa nos sectores produtivos durante o período neoliberal, um dos factores para contrariá-la foi comutar investimento para dentro do sector financeiro, bancos e outras instituições, para fazer lucros a expensas do investimento no sector produtivo. O investimento produtivo como percentagem do produto declinou na maior parte das economias nas décadas de 1980 e 1990. Isto é uma indicação da fraqueza da economia capitalista no fim do século XX, a necessidade de desviar para a finança e alhures. Assim, é uma parte importante do processo da crise. Mas ao mesmo tempo é um sintoma da incapacidade de fazer subir a lucratividade.

    MK: A Grande Recessão de 2007-2009 não foi prevista pelos economistas?

    O livro tem uma secção que seria divertida se não fosse trágica. A profissão económica, as instituições económicas e outros "peritos" não viram a aproximação da Grande Recessão, muito pelo contrário. Banqueiros centrais e governos estavam convencidos de que tudo estava bem e que se houvesse algum problema este poderia ser resolvido facilmente.

    Quando o crash chegou, eles foram incapazes de explicar o que havia acontecido. Permaneciam em negação e pensavam que acabaria rapidamente, o que não aconteceu. Eles eram incapazes de explicar porque aquilo acontecia e mesmo agora não podem realmente saber para obter a retomada. As instituições, bancos centrais e governos ainda estão a lutar para conseguir que a recuperação suba acima do nível fraco em que está, porque não entendem o que aconteceu e o que fazer acerca disso.

    Houve uma ou duas pessoas que reconheceram os perigos no princípio dos anos 2000. Elas viram a enorme bolha habitacional nos EUA e que aquilo não podia perdurar: alguns viram um enorme aumento em créditos privados, um sector financeiro que também consideraram como perigoso. Assim, um ou dois economistas radicais, no exterior do consenso, reconheceram os perigos reais. E um ou dois marxistas levantaram a ideia de que, apesar do enorme boom nos preços habitacionais e no crédito, por baixo a situação da lucratividade estava a piorar e havia contradições que produziriam um crash.

    Um deles foi Anwar Shaikh [1] . Ele previu um grande crash e como consequência uma depressão. Eu fiz uma previsão semelhante em 2005-6. Argumentei que havia uma conjunção de ciclos concomitantes: declínio dos lucros, um pico do mercado habitacional e um ciclo depressivo geral baptizado com o nome do economista russo Kondratieff. Todos estes ciclos estavam a juntar-se num período de baixa depressiva. Isso sugeriu-me que poderia haver um afundamento bastante grave, pensei em 2009-10. Foi um pouco tarde porque ele veio mais cedo. Assim, um punhado de pessoas viram a aproximação da crise, 99 por cento dos economistas não.

    MK: Comparou a posição dos EUA hoje com a da Grã-Bretanha durante a última crise dos anos 1930: detendo a hegemonia e simultaneamente sendo economicamente minada. Como é que isso acontece no período que está para vir? A China, por exemplo, poderia assumir esse papel?

    Os EUA, a maior economia, teve uma recuperação ligeiramente melhor do que a Europa ou o Japão, os quais se tem esforçado, e de muitas das economias emergentes como o Brasil, a Rússia, a África do Sul. Eles estão em recessão e não se recuperaram de todo. Os EUA estão a sair-se ligeiramente melhor, mas ainda a crescer só a cerca de 2 por cento ao ano desde 2009. Costumava ser de na média de 3,5 por cento no período a partir de 1945 e por vezes mais rápido na era dourada.

    Esta é uma recuperação muito fraca e parece estar a esgotar-se. Enquanto a depressão continua, rivais que se saem melhor ficam em posição de desafiar a hegemonia que os EUA tiveram economicamente. Seja como for, a economia estado-unidense declinou relativamente ao longo dos últimos 30 anos. Ela ja não tem a mesma fatia da produção manufactureira do mundo, em comparação com a Alemanha ou o Japão e, naturalmente, a China, qual tem sido a economia de crescimento mais rápido durante os últimos 20 anos e que agora se tornou uma grande potência económica.

    Mesmo em outros lados do espectro económico – serviços, tecnologia – os EUA conseguiram rivais. Os EUA ainda são superiores porque tem um sector financeiro maciço, o qual controla e fornece capital por todo o mundo. Isso dá-lhe, juntamente com a Grã-Bretanha – outro grande centro do capital financeiro – controle, apesar da sua posição produtiva mais fraca, através da expansão no domínio do crédito. E é o poder militar muito maior, maior do que todos os outros poderes militares tomados em conjunto, que lhe dá uma forte posição. Você pode utilizar a analogia do Império Romano, o qual também começou um declínio relativo em comparação com os dos seus rivais fora do império, mas continuou a ter hegemonia durante centenas de anos porque havia um exército romano e enormes recursos financeiros. A América está numa posição semelhante, mas está a conseguir rivais.

    O capitalismo enfrentará alguns desafios chave ao longo dos próximos 20 anos. O primeiro é a alteração climática e o aquecimento global , o qual é um problema sério acerca do qual o capitalismo nada faz. Isto realmente ameaça o futuro da raça humana e do planeta, a menos que algo se faça. [1]

    Também há enormes desigualdades de riqueza e rendimento no mundo , as quais criam enormes tensões sociais. Ao longo dos últimos 25 anos, a desigualdades de rendimento e riqueza provavelmente atingiram um nível nunca visto em 150 anos.

    Há também a desaceleração na produtividade : o fracasso do capitalismo em expandir as forças produtivas para proporcionar o que o povo precisa. A tecnologia não se expandiu ao nível do que é possível e o crescimento da produtividade é muito fraco.

    Todos estes factores ameaçam o futuro do capitalismo de atender as necessidades dos povos e de manter a capacidade dos EUA em manter a sua posição hegemónica. Assim, as rivalidades entre as grandes potências capitalistas aumentarão e também entre os EUA e a China, porque a China é uma importante ameaça no comércio e na produção, bem como no futuro provavelmente também na finança e na tecnologia. Estas são as contradições crescentes que existem no capitalismo, ameaçando mesmo a existência do planeta.

    A EUROZONA

    MK: Dedicou um capítulo separado à eurozona. Isto é particularmente relevante desde o Brexit. Durante os últimos 15 anos vimos um agravamento da contradição entre o Norte e o Sul, em particular a Alemanha por um lado e a Grécia, Espanha e Irlanda por outro. Como extrapolaria isso?

    O projecto da União Europeia foi um plano dos principais estrategas do capital europeu depois de 1945. Eles não queriam outra guerra, não mais divisões da Europa. Eles quiseram desenvolver a base capitalista dentro da Europa, como uma força unidade que pudesse rivalizar numa escala mundial com os EUA [2] e a Ásia, particularmente o Japão naquele tempo. Eles queriam acabar com pequenas guerras entre países que se tornassem guerras mundiais e união para utilizar os recursos do trabalho e do capital por toda a Europa e desenvolver um vasto capital europeu para rivalizar o resto do mundo. Esse era o plano.

    Primeiro introduziram a união aduaneira, deitando abaixo as tarifas entre as três ou quatro maiores economias, incluindo a Holanda. Mais tarde desenvolveram o Mercado Comum (CEE), de modo que o comércio foi expandido a todas as outras áreas, não só com tarifas mas regulações comuns, taxas e condições para o comércio dentro da Europa. E então a própria União Europeia, a qual significou que instituições políticas foram estabelecidas para integrar a Europa numa força única.

    O maior passo avante foi introduzir uma divisa única pelo menos para aquelas partes nucleares da UE preparadas e capazes de aderir. Os alemães concordaram em que o poderoso D-Mark fosse integrado numa divisa euro, com a França, Itália e outras economias, incluindo a Holanda. Isto era considerado um passo necessário para integrar a Europa como uma força no mundo.

    Mas é muito difícil desenvolver uma divisa sob o capitalismo, uma união, quando o capitalismo, ao expandir suas forças produtivas, também as conduz à separação. Assim as economias mais fracas numa união capitalista realmente ficam mais fracas relativamente às mais fortes. É assim que o capitalismo funciona. Ele não ajuda realmente o fraco a tornar-se forte. Assim as economias mais fracas dentro daquele bloco, especialmente no bloco euro, ficaram em estado relativo ainda pior do que antes após a formação do euro. Elas retrocederam relativamente enquanto o principal ganhador do euro foi o núcleo, a Alemanha em particular.

    A Grande Recessão revelou estas fissuras na eurozona. O projecto euro foi como um comboio que é descarrilado pela crise económica . É muito difícil colocar o comboio outra vez sobre os carris porque muitos dos países mais fracos declinaram e os países mais fortes não estavam preparados para salvá-los.

    O projecto só funcionaria se houvesse uma união orçamental plena, uma união federal completa, como nos EUA. Mas recordem que os EUA alcançaram isso só após uma terrível guerra civil que esmagou a oposição dos escravocratas do Sul. A ideia de uma união orçamental plena onde todos pagam os mesmos impostos, onde há um governo, uma divisa aplicada a todos: isso não é possível na Europa neste momento, particularmente após a Grande Recessão. De facto, o caso é o oposto: o risco é de que o projecto do euro e o projecto da UE poderiam romper-se, particularmente se houver outro afundamento no futuro.

    O Brexit é um exemplo desta tensão. Os estrategas capitalistas britânicos nunca foram entusiastas quanto à ideia da integração europeia . Ainda tinha ilusões de que a Grã-Bretanha era bastante poderosa para avançar por si própria, ou que podia ser um parceiro júnior do capitalismo americano e assim não tinha necessidade de ser integrada na Europa para progredir. A classe dominante britânica estava dividida entre aqueles que pensavam que a Europa era a resposta e aqueles que pensavam era melhor estar só ou com os EUA.

    Essa divisão chegou ao máximo com a Grande Recessão, quando a Europa tinha uma enorme crise da dívida em euros, a Grécia, a Espanha e a Itália caiam em depressão profunda e a liderança franco-germânica fracassou em proporcionar apoio a estes países no âmbito do projecto da UE. Assim, alguns capitalistas britânicos disseram: "Bem, a Europa não é realmente o lugar onde possamos obter um lucro; estamos melhor situação sozinhos". Esta divisão política veio à tona com o referendo. De muitas maneiras, isto será um desastre completo para o capitalismo britânico; com os seus estrategas sem saberem qual o caminho por onde estão a ir.

    MK: Sugere no livro que nenhuma depressão é permanente. Então há uma saída para o capitalismo?

    Alguns marxistas dizem que estamos numa estagnação ou depressão permanente. Não concordo. No passado, o capitalismo mostrou que pode encontrar uma saída, se puder restaurar as condições para uma taxa de lucro mais alta, como fez após a II Guerra Mundial e no fim da depressão do século XIX.

    Como fazê-lo? O único meio é restaurar a lucratividade. Isso significa destruir o valor do velho capital que não é mais produtivo. Significa ficar "magro", extirpar velhas plantas más do seu jardim e permitir que cresçam novas. Naturalmente, isto será a expensas dos empregos e do sustento de toda a gente, porque estamos a falar acerca de seres humanos a perderem seus empregos em consequência do encerramento de fábricas e negócios, fusões, liquidação de activos, deslocação de trabalhadores e redução do nível geral de produção para alcançar lucratividade mais alta. Um afundamento, talvez uma série de afundamentos, pode fazer isso. Até então continuaremos com esta depressão. O sistema precisa livrar-se de um bocado de dívida, estraçalhar um bocado de bancos, encerrar um bocado de indústrias e companhias velhas. Isso é horrível, mas é o que o capitalismo faz para ressuscitar a si próprio.

    Então o capitalismo poderia obter um novo sopro de vida e utilizar todas as novas tecnologias de que toda a gente está a falar – robots, automação, a Internet das coisas; toda estas espécies de tecnologias que podem ser expandidas – e explorar também novas áreas do mundo nas quais ainda há grandes quantidades de trabalho barato que podem ser utilizadas em conjunto com esta tecnologia.

    Talvez as condições políticas e económicas para um tal novo sopro de vida para o capitalismo possam acontecer, digamos, na próxima década em consequência de novos afundamentos, mas só se os trabalhadores nos países que sofrerão com isto forem incapazes de mudar a situação por algum meio e os capitalistas e seus estrategas e representantes políticos permanecerem no poder.

    Mas mesmo que isto aconteça, o capitalismo não está em vias de resolver os seus problemas indefinidamente. De facto, está a ficar cada vez mais difícil para eles terem um novo sopro de vida e expansão, com aquecimento global [1] , baixa produtividade, desigualdade crescente e com cada vez menos áreas do mundo a explorar que já não estejam proletarizadas, urbanizadas e façam parte do sistema capitalista global. Há menos espaço para o capitalismo expandir-se. Está a ficar próximo da sua data de validade em termos históricos. Mas mesmo assim poderia haver outro período de expansão nos próximos 20 anos. 

    NR
    [1] Ver Capitalismo: competição, conflito, crise , Anwar Shaikh
    [2] O autor é economista, não climatologista. Ele deixou-se convencer pela campanha maciça dos aquecimentistas, promovida pela UE, pelo capital financeiro e pelo IPCC da ONU. Teria sido melhor dizer que o capitalismo inventa falsos problemas a fim de ocultar os verdadeiros.
    [3] A criação da CEE (actual UE) foi estimulada pelo governo dos EUA – ainda que muitos tenham apregoado a intenção de "rivalizar" com os EUA.


    [*] Economista, autor de The Long Depression
    [**] Da publicação holandesa de Socialist

    A versão em inglês encontra-se em thenextrecession.wordpress.com/...


    Esta entrevista encontra-se em http://resistir.info/ .