sábado, 27 de fevereiro de 2016

Entrevista, "somos um país de medrosos".

É provavelmente o nome mais respeitado da psicanálise em Portugal. António Coimbra de Matos, 86 anos, dedicou grande parte da sua actividade ao estudo da depressão. Admite que estaremos provavelmente a viver um período de depressão colectiva. Deitámos o país no divã do psicanalista.

aqui:http://www.publico.pt/sociedade/noticia/-1723592?frm=esp

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Where to Invade Next Official Trailer 1 (2016) - Michael Moore Documentary

O capitalismo na sua fase autofágica - O ocidente está reduzido a canibalizar-se


por Paul Craig Roberts [*]
 
Rubens, 'Saturno devorando seu filho', 1636. Eu próprio, Michael Hudson, John Perkins e alguns outros, temos relatado os múltiplos saqueios de povos pelas instituições econômicas ocidentais, principalmente os grandes bancos de Nova Iorque com a ajuda do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Os países do terceiro mundo foram e são saqueados ao serem induzidos em certos planos de desenvolvimento. A governos crédulos e confiantes é-lhes dito que podem tornar os seus países ricos contraindo empréstimos externos para implementarem planos de desenvolvimento que as potências ocidentais apresentam e que teriam em resultado desse desenvolvimento económico suficientes receitas fiscais para pagamentos dos empréstimos externos.

Raramente, se alguma vez, isso acontece. O que acontece é que o país se torna endividado até ao limite, muito para além dos seus ganhos em moeda estrangeira. Quando o país é incapaz de satisfazer o serviço de dívida, os credores enviam o FMI ao governo endividado para dizer que o FMI poderá proteger o rating financeiro do governo emprestando-lhe dinheiro para pagar aos seus credores bancários. No entanto, as condições impostas são que o governo deverá tomar as necessárias medidas de austeridade a fim de poder pagar ao FMI.

Estas medidas consistem em restringir serviços públicos, o sector estatal, pensões de reforma e vender recursos nacionais aos estrangeiros. O dinheiro economizado pela redução de benefícios sociais e o obtido com a venda de ativos do país aos estrangeiros serve para pagar ao FMI.

Esta é a maneira pela qual historicamente o Ocidente tem saqueado países do terceiro mundo. Se o presidente de um país estiver relutante em entrar em tal negócio, ele simplesmente é subornado, como governos gregos foram, juntando-se ao saque do país que pretensamente representaria. Quando este método de saque se esgota, o Ocidente compra terras agrícolas forçando países do terceiro mundo a abandonarem uma política de auto-suficiência alimentar, produzindo uma ou duas culturas para exportação.

Esta política tornou populações do terceiro mundo dependentes das importações de alimentos do ocidente. Normalmente as receitas de exportação são captadas por governantes corruptos ou pelos compradores estrangeiros que pagam preços reduzidos pelas exportações enquanto os estrangeiros vendem alimentos demasiado caro. Desta forma, a auto-suficiência é transformada em endividamento.

Com o terceiro mundo explorado até aos limites possíveis, as potências ocidentais resolveram saquear os seus próprios países. A Irlanda tem sido saqueada, o saque da Grécia e de Portugal é tão severo que forçou um grande número de mulheres jovens à prostituição. Mas isso não incomoda a consciência ocidental.

Anteriormente, quando um país soberano se encontrava com endividamento superior ao que poderia suportar, os credores tinham que anular parte da dívida até um montante em que o país pudesse suportar. No século XXI, como relato no meu livro The Failure of Laissez Faire Capitalism, esta regra tradicional foi abandonada.

A nova regra é que a população de um país, até mesmo de países cujos dirigentes de topo aceitaram subornos para endividar o país a estrangeiros, deve ter as pensões de reforma, emprego e serviços sociais reduzido. Além disto, valiosos recursos nacionais como sistemas municipais de água, portos, lotaria nacional e espaços naturais protegidos, tais como as ilhas gregas protegidas, vendidas a estrangeiros, que ficam com a liberdade de aumentar os preços da água, negar ao governo grego as receitas da lotaria nacional e vender a imobiliárias o patrimônio nacional protegido da Grécia.

O que aconteceu à Grécia e a Portugal está em curso em Espanha e Itália. Os povos são impotentes, porque seus governos não os representam. E não se trata apenas de governantes que receberam subornos, os membros dos governos possuem a lavagem cerebral de que os seus países devem pertencer à União Europeia, caso contrário, serão ultrapassados pela história.

Os povos oprimidos e sofredores sofrem o mesmo tipo de lavagem cerebral. Por exemplo, na Grécia o governo eleito para evitar o saque da Grécia estava impotente porque a lavagem cerebral ao povo grego era para que custasse o que custasse deviam permanecer na UE. A junção de propaganda, poder financeiro, estupidez e subornos significa que não há esperança para os povos europeus.

O mesmo é verdade nos Estados Unidos, Canadá, Austrália e Reino Unido. Nos Estados Unidos dezenas de milhões de cidadãos dos EUA aceitaram tranquilamente a ausência de qualquer rendimento de juros sobre suas poupanças durante sete anos. Em vez de levantarem questões e protestarem, os americanos aceitaram sem pensar a propaganda de que a sua existência depende do êxito de um punhado de megabancos artificialmente criados, "grandes demais para falir". Milhões de americanos estão convencidos de que é melhor para eles deixar degradar as suas economias do que um banco corrupto falir.

Para manter os povos ocidentais confusos sobre a real ameaça que enfrentam, é dito às pessoas que há terroristas atrás de cada árvore, de cada passaporte, ou mesmo sob cada cama, e que todos serão mortos a menos que o excessivo poder do governo seja inquestionável. Até agora isso tem funcionado perfeitamente, com falsas palavras de ordem, reforçando falsos ataques terroristas, que servem para evitar a tomada de consciência de que isto não passa de um embuste para acumular todos os rendimentos e riqueza em poucas mãos.

Não contente com sua supremacia sobre os "povos democráticos", o “um por cento” dos mais ricos avançou com as parcerias Transatlântica (TTIP) e Transpacífica. Alegadamente, são "acordos de livre comércio" que beneficiarão a todos. Na verdade, são negociações cuidadosamente escondidas, secretas, que permitem o controlo de empresas privadas sobre as leis de governos soberanos.

Por exemplo, veio a público que no âmbito do TTIP o Serviço Nacional de Saúde no Reino Unido poderia ser regido por tribunais privados, instituídos no âmbito daquele tratado e, constituindo um obstáculo para seguros médicos privados, ser processado por danos a empresas privadas e até mesmo forçado à sua extinção.

O corrupto governo do Reino Unido sob o vassalo de Washington David Cameron bloqueou o acesso aos documentos legais que mostram o impacto da parceria transatlântica no Serviço Nacional de Saúde da Grã-Bretanha.
www.globalresearch.ca/...

Para qualquer cidadão de um país ocidental, que seja tão estúpido ou tenha o seu cérebro tão lavado para não ter percebido isso, a verdadeira intenção da política do "seu" governo é entregar todos os aspectos das suas vidas ao apoderamento de interesses privados.

No Reino Unido, o serviço postal foi vendido a um preço irrealista a interesses privados com ligações políticas. Nos EUA os republicanos e talvez os democratas, pretendem privatizar o Medicare e a Previdência Social, assim como privatizaram muitos aspectos das forças armadas e do sistema prisional. As funções do Estado tornaram-se alvos para o lucro privado.

Uma das razões para a escalada do custo do orçamento militar dos EUA é a sua privatização. A privatização do sistema prisional dos EUA resultou em que grande número de pessoas inocentes é enviada para a prisão e forçada a trabalhar para a Apple Computer, para empresas de vestuário que produzem para as forças armadas e para um grande número de outras empresas privadas. Os trabalhadores da prisão são pagos tão baixo quanto 69 centavos por hora, inferior ao salário chinês.

Isto é a América hoje. Policiais corruptos. Promotores de Justiça corruptos. Juízes corruptos. Mas máximo lucro para os capitalistas dos EUA a partir de trabalho nas prisões. Os economistas do livre mercado glorificaram prisões privadas, alegando que seriam mais eficientes. E na verdade são eficientes em fornecer os lucros do trabalho escravo para os capitalistas.

Mostramos uma reportagem sobre o primeiro-ministro Cameron negando informações sobre o efeito da parceria transatlântica TTIP no Serviço Nacional de Saúde britânico.
www.theguardian.com/...

O jornal britânico Guardian, que várias vezes teve de prostituir-se para manter um pouco de independência, descreve a raiva que sente o povo britânico pelo sigilo do governo sobre uma questão tão fundamental para o seu bem-estar. Contudo, continuam a votar em partidos políticos que têm traído o povo britânico.

Por toda a Europa, governos corruptos controlados por Washington têm distraído as pessoas sobre a forma como são vendidos pelos "seus" governos, concentrando a sua atenção nos imigrantes, cuja presença decorre de governos europeus representarem os interesses de Washington e não os interesses de seus próprios povos.

Algo terrível aconteceu à inteligência e a consciência dos povos ocidentais, que parecem já não ser capazes de compreender as maquinações dos "seus" governos.

Governo responsável nos países ocidentais é história. Apenas fracasso e o colapso aguarda a civilização ocidental. 

[*] Foi secretário de Estado Adjunto do Tesouro para a política económica e editor associado do Wall Street Journal. Colunista na Business Week, Scripps Howard News Service e Creators Syndicate. Tem tido muitas intervenções em universidades. Os seus textos na internet são seguidos no mundo inteiro. Os livros mais recentes de Paul Craig Roberts são The Failure of Laissez Faire Capitalism and Economic Dissolution of the West ,   How America Was Lost   e   The Neoconservative Threat to World Order .

O original encontra-se em www.paulcraigroberts.org/ . Tradução de DVC.


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Bandeira dos EUA na Europa

Como obter um certificado de democracia


por Daniel Vaz de Carvalho
 
1 – O exame

O exame é mediático. Comecemos pela pergunta eliminatória. O examinador (jornalista apresentador) coloca um ar traquina, estilo "com esta é que te vou tramar", e pergunta: "Acha que a Coreia do Norte é uma democracia?".

Não se pode mostrar que se tem dúvidas sobre a ditadura instalada no país. Se responder – como o ex-candidato do PCP, Edgar Silva – que se preocupa com os direitos humanos na Coreia do Norte, como nos EUA, na Arábia Saudita ou em qualquer outra parte do mundo, está eliminado. No dia seguinte, o que quer que tenha enunciado sobre as suas ideias e propostas, sobre as crescentes desigualdades e pobreza no país devido à política de direita, os destaques na comunicação social são que "… tem dúvidas que a Coreia do Norte não seja uma democracia". O que servirá depois para gáudio dos comentadores.

Se na altura do "exame" houver outro participante este deve aproveitar – mesmo que a pergunta não lhe tenha sido feita – para declarar o seu repúdio pelo "regime comunista" da Coreia do Norte e do seu ditador. Pode melhorar a nota mencionando também Cuba, por exemplo. Assim, mesmo que se apresente como "esquerda" ou mesmo "esquerda radical", os mediáticos examinadores dar-lhe-ão os mínimos para ser considerado(a) confiável, ou seja, mais ou menos inofensivo para o que se pretende na educação das massas.

Porém, para passar no exame não basta ser bom aluno, é preciso cair nas boas graças dos examinadores. Assim, para adquirir o certificado e a sua periódica revalidação é tão importante o que se diz como o que se não diz.

O facto de o poder em Kiev estar nas mãos de neonazis apoiados pela NATO não deve ser mencionado. Putin deverá sempre ser referido como ditador e a Crimeia como invadida e anexada. Ter havido um referendo não conta. No Kosovo, sim, contou, tanto mais que os EUA lá instalaram uma base militar, mas é melhor não falar nisso. É também importante achar que para resolver a questão Síria, Bashar-al-Assad deve ser afastado e o poder entregue à oposição "moderada".

Outra pergunta eliminatória consiste em saber se "é a favor da saída do euro". Se disser que o país deve proceder ao estudo e preparar-se para essa situação, reprova. Escusa de insistir ou procurar mostrar-se simpático, prepare-se: as entrevistas vão ser como que interrogatórios e cada resposta contestada.

Dizer que Portugal deve permanecer no euro embora a sua "arquitetura" tenha de ser modificada, permite passar as eliminatórias, obter simpatia mediática e lugar como figurante na farsa do pluralismo vigente desempenhando o seu papel sem pôr em causa o que é fundamental para o sistema.

Contudo para lhe darem este papel, não caia na asneira de defender o controlo público ou a nacionalização dos sectores estratégicos e muito menos de se considerar marxista-leninista, isto é, ter o materialismo-dialético como referência para analisar a realidade, a passada e a presente, bem como as perspectivas de futuro. Se o fizer, será reprovado e qualificado como "estalinista"

2 – Aprofundamento de alguns pontos importantes

É importante repetir como verdade absoluta o que dizem os media de referência. Sendo estrangeiros confere grande autoridade a quem os menciona. Nenhum apresentador se atreverá a discutir o que diz o Financial Times ou o Wall Street Journal. Citar relatórios do FMI ou da CE mostra que se está a lidar com alguém superiormente equipado intelectualmente, mesmo que previsões daquelas entidades tenham estado invariavelmente erradas e as medidas impostas se mostrem contraproducentes.

Mas não se pense que no mundo mediático não há espaço para ser de esquerda ou mesmo "esquerda radical". Portanto, não se desista à partida. Pode ficar-se bem cotado na bolsa mediática se se tiver atenção a algumas questões já aqui citadas. Salientemos duas muito importantes. A Coreia do Norte e o "estalinismo". Para não cometer erros nestas matérias convém ignorar e, se for o caso, repudiar tudo o que se segue.

É a Coreia do Norte uma democracia? A pergunta não faz sentido por duas razões. Primeiro, o interlocutor só aceita como democracia um sistema capitalista parlamentar que não conteste a hegemonia dos EUA; segundo, a pergunta induz à partida que a Coreia do Norte seria o único ou dos únicos países do mundo referenciados como ditadura.

Mas acresce uma outra razão: a Coreia do Norte é um Estado que permanece em guerra com os EUA e a coligação que chefiaram. Apesar das tentativas e propostas da Coreia do Norte para ser assinado um tratado de paz com os EUA que poria fim ao seu programa nuclear, foi sempre recusado. Existe apenas um armistício com os EUA, que portanto se mantém como adversário, dispondo de bases militares e importantes efetivos terrestres, marítimos e aéreos na proximidade das fronteiras da Coreia do Norte.

Nenhum país em estado de guerra é uma democracia e nem é preciso chegar a este ponto. Nos EUA e na UE verificamos que cada vez mais as liberdades democráticas são seriamente cerceadas seja por razões de "segurança" [NR] , seja pelo forçado endividamento e a "austeridade".

Relatos de visitantes e reportagens sobre a Coreia do Norte contrariam o que se propala sobre aquele país. Apesar da hostilidade de que se vê rodeado, os testemunhos dão conta de um governo que se esforça por melhorar a vida dos cidadãos partilhando o seu labor. Cada um ajuíze por si segundo reportagens que com diversas visões contrariam a "narrativa" institucionalizada. [1]

A atual liderança promove uma abertura ao exterior e um grande esforço de desenvolvimento económico, científico e tecnológico, evidente nos seus avanços nas tecnologias aeroespaciais. Uma reportagem dá conta das condições de vida oferecidas a um cientista, curiosamente não ligado à produção militar, mas à biologia.

Existe um líder carismático e é inegável a existência de um culto da personalidade pouco condizente para a mentalidade ocidental – o facto é que no ocidente submetidos às oligarquias não existem líderes dignos deste nome….

A direção política norte-coreana considera que o seu sistema é a forma de manter a soberania do país e não cair nos erros que as cedências ao ocidente produziram na Líbia, no Iraque, na Rússia de Ieltsin, ou a algo como o que ocorre na Síria.

Não desejamos nem propomos nas margens do Tejo um sistema de organização política como o norte-coreano. Porém a Coreia do Norte merece a nossa amizade, solidariedade e admiração pela luta do seu povo na construção pacífica de um Estado plenamente desenvolvido. Assim deixasse de existir o imperialismo e as suas ingerências.

Quanto ao chamado "estalinismo" – o que quer que isto queira dizer aqui e agora – é um conceito inventado pelo antimarxismo para condicionar e desacreditar as teses e a ação dos partidos e movimentos que lutam pela superação da sociedade capitalista e a construção do socialismo. "Estalinista" passou a ser um termo de carácter pavloviano (desencadeamento de reflexos condicionados) muito útil no processo de alienação vigente.

Estaline foi responsável por grandes êxitos do socialismo, mas também erros e abusos que desvirtuaram a democracia socialista. Contudo, comprovadas falsidades sobre aquele período histórico são ampliadas e repetidamente divulgadas. Os crimes do imperialismo e do colonialismo são escamoteados; as situações de repressão motivadas pela cruel guerra de agressão das potências ocidentais 1918 -1921 (dita "guerra civil"), conspiração, sabotagem e terrorismo posteriores, invasão nazi-fascista, são integralmente atribuídas ao socialismo e caluniadas como "estalinismo".

É grosseira violação da verdade histórica ignorar os êxitos da URSS no desenvolvimento económico e social, na construção do socialismo, na luta pela emancipação dos povos e contra o fascismo, durante o período designado "estalinista".

O termo "estalinista é utilizado atualmente pela direita, pela social-democracia, e também por certa esquerda como calúnia contra as teses básicas do marxismo-leninismo, teses que como nenhumas outras defendem e lutam pela paz, pela democracia económica e social e pelas relações de igualdade e não ingerência nas relações entre os povos. O capitalismo mostrou que nada disto é possível no seu sistema, daí ser usado como condicionamento intelectual e comportamental o "estalinismo" – termo sem qualquer relação com a realidade do nosso tempo e do nosso país.

3 – Alguns conselhos adicionais

Quando há factos que se tornam evidentes e mesmo escândalo público, como as alegadas fraudes bancárias no BPN, BPP, BES, BANIF, as acusações devem ser dirigidas a pessoas (administradores, gestores, etc.) nunca denunciando a natureza predatória do sistema capitalista, que esmaga os povos com impostos em benefício de uma minoria que vive da usura, da especulação, da exploração e da austeridade.

A forma escandalosa como foram feitas privatizações e PPPs com prejuízo para o interesse público foi denunciada em relatórios do Tribunal de Contas. O tema foi evitado nos media e abafado pelos múltiplos ruídos em que é fértil. Nestes casos o que se pode criticar não é a intenção de privatizar, mas o Estado e os "políticos", defendendo sempre "menos Estado".

Para obter um certificado com distinção é necessário defender que a "economia de mercado" é a única viável e de sucesso, que o privado é eficiente, que o Estado é mau gestor. Claro que é mau gestor, ao colocar-se ao serviço dos interesses privados (a "economia de mercado") e não dos interesses coletivos e sociais, mas isto não se deve dizer.

Um comentário útil neste processo é exibir "ativo repúdio" pelo "modelo soviético", o que quer que isto seja, e o que tenha a ver com qualquer discussão sobre a situação atual.

Criticar os media e seus comentadores dá direito a reprovação. Se o fizer será sempre tratado como "testemunha hostil". É preciso ser bem comportado(a) e respeitador do seu poder, nunca esquecendo quem os controla. Para não haver descuidos nesta matéria vejamos o que diz quem sabe.

Segundo William Colby, ex-diretor da CIA, "a CIA controla todos os que têm importância nos principais media". "Comprar um jornalista custa mais barato do que uma boa garota, quase duzentos dólares por mês", afirmou um agente da CIA em discussão com Philip Graham, do Washington Post, sobre a possibilidade de encontrar jornalistas dispostos a trabalhar para a CIA.

Serge Halimi, diretor de Le Monde Diplomatique, afirmou que "a informação tornou-se um produto como qualquer outro. Um jornalista dispõe sobre a informação de pouco mais poder que uma empregada de supermercado sobre a estratégia comercial da empresa".

De facto, "a essência dos media não é informação: é o poder" diz John Pilger, acrescentando: "Nos EUA seis mega empresas: GE-(NBC), News Corp (FOX), Dysney, Viacom, Time Warner (CNN), CBS, controlam 90% do que vemos, ouvimos ou lemos; 232 executivos da comunicação social prescrevem a dieta informativa dos norte-americanos. A faturação destes seis grupos em 2010 foi de 275,9 mil milhões de dólares."

O fundador da Seara Nova, Raul Proença, escrevia em 1928: "Chama-se liberdade de imprensa, o direito exclusivo que têm certos potentados ou certos malfeitores, graças à sua fortuna ou às suas chantagens de influir na opinião do país."

Muito assertivo, Paul Craig Roberts classifica os media como os "presstitutos" e resume esta questão: "Nos dias de Marx, a religião era o ópio das massas. Hoje são os media." Dizia Marx em carta para o seu amigo Ludwig Kugelmann: "E para que outra coisa são pagos os tagarelas sicofantas que não sabem jogar nenhum outro trunfo científico a não ser que, em suma, na economia política não é permitido pensar?"

Nos media proliferam os "comentadores". A designação é consequente. De facto, na Idade Média, na escolástica, não havia investigadores, apenas "comentadores" de textos assimilados como dogmas. E ai daqueles que os contestassem…

Atualmente os "comentadores" de serviço ao sistema são a clerezia do neoliberalismo e suas instituições, FMI, BCE, CE: a troika dos interesses oligárquicos. Podem passar horas em monocórdicas charlas sobre a submissão às inquestionadas "regras da UE" e a conformidade com a dogmática neoliberal.

Queixam-se que a "reestruturação" não foi feita, mas as causas que originam e agravam as crises não são averiguadas: tudo o que sai fora do nihil obstat neoliberal é dado como não existente, blasfemo ou herético... Aqui se chegou. 

[1] www.rt.com/shows/documentary/203135-north-korea-kim-jongun/
www.rt.com/news/329192-north-korea-peace-demands/
eoriasdarevolucao.blogspot.pt/2014/11/152-imagens-que-provam-que-coreia-do.html
www.rt.com/news/329192-north-korea-peace-demands/

 

[NR] Em França, o parlamento acaba de inserir o "estado de urgência" na Constituição, cerceando direitos, liberdades e garantias dos cidadãos. Utilizaram como pretexto atentados recentes, de acordo com a receita americana:   a implosão de edifícios do World Trade Center em 11/Set/2001 permitiu aprovar de imediato a legislação repressiva que fora previamente elaborada.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

Avishai Cohen - 'Caravan'


sábado, 6 de fevereiro de 2016

Libertar Julian Assange: O último capítulo


por John Pilger
 
Uma das maiores perversões de justiça do nosso tempo está a deslindar-se: O Grupo de Trabalho das Nações Unidas sobre Detenção Arbitrária – o tribunal internacional que adjudica e decide se governos cumprem suas obrigações de direitos humanos – sentenciou que Julian Assange foi detido ilegalmente pela Grã-Bretanha e Suécia.

Depois de cinco anos de combate para limpar o seu nome – tendo enlameado implacavelmente mas não acusado de qualquer crime – Assange está mais perto da justiça e do desagravo, e talvez da liberdade, do que em qualquer momento desde que foi preso e retido em Londres sob um Mandato Europeu de Extradição, o qual está agora desacreditado pelo próprio Parlamento.

O Grupo de Trabalho da ONU baseia seu julgamento na Convenção Europeia sobre Direitos Humanos e três outros tratados que obrigam todos os seus signatários. Tanto a Grã-Bretanha como a Suécia participaram na investigação da ONU que durou 16 meses e submeteram provas e defenderam sua posição diante do tribunal. Ignorariam desdenhosamente o direito internacional se não obedecessem ao julgamento e [não] permitissem a Assange deixar o refúgio que lhe foi concedido pelo governo equatoriano na sua embaixada em Londres.

Anteriormente, em casos famosos examinados pelo Grupo de Trabalho – Aung Sang Suu Kyi na Birmânia; o líder oposicionista aprisionado Anwar Ibrahim na Malásia; o jornalista Jason Rezaian do Washington Post detido no Irão – tanto a Grã-Bretanha como a Suécia deram apoio ao tribunal. A diferença agora é que a perseguição e confinamento de Assange se verifica no centro de Londres.

O caso Assange nunca foi primariamente acerca de alegadas más condutas sexuais na Suécia – onde a Promotora Chefe de Estocolomo, Eva Finne, descartou o processo dizendo: "Não acredito que haja qualquer razão para suspeitar que ele tenha cometido violação" e uma das mulheres envolvidas acusou a polícia de falsificar evidência e de "lhe impor à força", protestando que "não queria acusar JA de coisa alguma" – e um segundo promotor misteriosamente reabriu o caso após intervenção política, colocando-o num impasse.

O caso Assange tem suas raízes do outro lado do Atlântico, na Washington dominada pelo Pentágono, obcecada em perseguir e processar denunciantes, especialmente Assange por ter revelado, na WikiLeaks, crimes capitais dos EUA no Afeganistão e no Iraque: a matança por atacado de civis e um desprezo pela soberania e pelo direito internacional. Nada deste acto de contar a verdade é ilegal sob a Constituição dos EUA. Como candidato presidencial em 2008, Barack Obama, professor de direitos constitucional, louvou denunciantes como "parte de uma democracia saudável e que devem ser protegidos de represálias.

Obama, o traidor, desde então tem perseguido mais denunciantes do que todos os presidentes dos EUA somados. A corajosa Chelsea Manning está a cumprir uma sentença de 35 anos de prisão, tendo sido torturada durante a longa detenção que precedeu seu julgamento.

A perspectiva de um destino semelhante tem pairado sobre Assange tal como uma espada de Damocles. Segundo documentos divulgados por Edward Snowden, Assange está numa "lista de homens a abater". O vice-presidente Joe Biden chamou-o de "ciber terrorista". Em Alexandra, Virgínia, um grande júri secreto tentou cozinhar um crime pelo qual Assange pudesse ser processado num tribunal. Muito embora ele não seja um americano, actualmente está a ser ajustado a uma lei de espionagem tramada um século atrás a fim de silenciar objectores de consciência durante a Primeira Guerra Mundial. A Lei da Espionagem tem disposições tanto para a prisão perpétua como para a pena de morte.

A capacidade de Assange para defender-se neste mundo kafkiano foi restringida pelos EUA quando declararam o seu caso como segredo de Estado. Um tribunal federal proibiu a divulgação de toda informação acerca do que é conhecida como a investigação de "segurança nacional da WikiLeaks.

O suporte desta farsa veio da segunda promotora sueca, Marianne Ny. Até recentemente, Ny recusara-se a cumprir o procedimento de rotina europeu que exigia que viajasse a Londres para interrogar Assange e assim avançar o caso que James Catlin, um dos advogados de Assange, considerou "de gargalhada ... é como se eles se recompusessem quando avançam". Na verdade, mesmo antes de Assange ter ido da Suécia para Londres, em 2010, Marianne Ny não fez qualquer tentativa de interrogá-lo. Desde então, nos anos que decorreram, ela nunca explicou adequadamente, mesmo às suas próprias autoridades judiciais, porque não terminara o caso que relançara tão entusiasticamente – assim como nunca explicou porque se recusara a dar a Assange uma garantia de que nunca será extraditado para os EUA sob um arranjo secreto acordado entre Estocolmo e Washington. Em 2010, o Independent, em Londres, revelou que os dois governos haviam discutido antecipadamente a extradição de Assange.

Surge então o pequeno e corajoso Equador. Uma das razões porque o Equador concedeu asilo político a Julian Assange foi porque o seu próprio governo, na Austrália, não lhe concedera nada da ajuda a que tinha direito legal e abandonou-o. A conivência da Austrália com os Estados Unidos contra o seu próprio cidadão é evidente em documentos vazados; a América não tem vassalos mais confiáveis do que os obedientes políticos dos antípodas.

Quatro anos atrás, em Sydney, passei várias horas com Malcolm Turnbull, membro liberal do Parlamento Federal. Discutimos as ameaças a Assange e sua implicações mais vastas para a liberdade de discurso e a justiça, e porque a Austrália era obrigada a apoiá-lo. Turnbull é agora o primeiro-ministro da Austrália e, como escrevi, está a comparecer a uma conferência internacional sobre a Síria hospedada pelo governo Cameron – a cerca de 15 minutos de táxi do quarto que Julian Assange ocupa há três anos e meio na pequena embaixada equatoriana, próxima à [loja] Harrods. A conexão Síria é relevante, ainda que não mencionada. Foi a WikiLeaks que revelou que os Estados Unidos planeavam há muito o derrube do governo Assad na Síria. Hoje, quando é recebido em Londres, o primeiro-ministro Turnbull tem oportunidade de contribuir com uma quantidade módica de sentido e verdade naquela conferência falando do seu compatriota injustamente aprisionado, por quem ele mostrou preocupação quando nos encontrámos. Tudo o que ele precisa é mencionar o julgamento do Grupo de Trabalho da ONU sobre Detenção Arbitrária. Será que ele recuperará este resto de reputação da Austrália no mundo decente?

O certo é que o mundo decente deve muito a Julian Assange. Ele contou-nos como o poder indecente se comporta em segredo, como ele mente e manipula e como se empenha em grandes actos de violência, sustentando guerras que matam e mutilam e transformam milhões nos refugiados agora nos noticiários. Só por nos contar esta verdade Assange merece a liberdade, além de a justiça ser um direito seu.
04/Fevereiro/2016
 

Ver também:

  • UN panel rules Julian Assange arbitrarily detained, entitled to liberty & compensation
  • UK, Sweden reject UN panel ruling in favor of Julian Assange
  • "UN decision undeniable victory, Sweden & UK lost", Assange tells crowds in London

  • Social media slams UK, Sweden for Assange ruling rebuke

    O original encontra-se em https://www.rt.com/op-edge/331328-freeing-assange-john-pilger/


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
  • quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

    Por trás da máscara “anti-EI”

    por Manlio Dinucci
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    Neste ano o Carnaval romano começou dia 2 de fevereiro, quando se exibiu na Farnesina (Ministério italiano das Relações Exteriores) o “small group”, o pequeno grupo ministerial (23 países mais a União Europeia) da “Coalizão global anti-Estado Islâmico (EI)”, presidido em conjunto pelo secretário de Estado dos EUA, John Kerry, e pelo ministro das Relações Exteriores da Itália, Paolo Gentiloni. Dele fazem parte, mascarados de antiterroristas, os maiores patrocinadores do terrorismo de “marca islâmica”, há décadas usado para minar e demolir os Estados que obstaculizam a estratégia do império.

    À frente do desfile de máscaras se encontram os Estados Unidos e a Arábia Saudita. Estes que —segundo documenta uma pesquisa do New York Times [1]— armam e treinam os “rebeldes” a serem infiltrados na Síria para a operação “Timber Sycamore”, autorizada secretamente pelo presidente Obama em 2013, conduzida pela CIA e financiada por Riad com milhões de dólares.
    Confirmada pelas imagens de vídeo do senador estadunidense John McCain que, em missão na Síria por conta da Casa Branca, se encontra em maio de 2013 com Al Baghdadi, o “califa” chefe do chamado estado Islâmico” [2].

    É a última das operações secretas EUA-Arábia Saudita, iniciadas nos anos 1970 e 1980: para desestabilizar Angola e outros países africanos, para armar e treinar os mujaedins no Afeganistão, e apoiar os contras na Nicarágua. Isto explica por que os Estados Unidos não criticam a Arábia Saudita pela violação dos direitos humanos e a apoiam ativamente na guerra que provoca tragédias à população civil no Iêmen.

    Fazem parte do grupo mascarado também a Jordânia e o Catar onde, como documenta o New York Times, a CIA constituiu as bases de treinamento dos “rebeldes”, incluindo “grupos radicais como a Al Qaeda”, para infiltrar na Síria e outros países [3]. O Catar fornece para tais operações também comandos, como fez quando em 2011 enviou à Líbia ao menos cinco mil homens das forças especiais. “Nós, catarianos, estávamos entre os rebeldes líbios, às centenas, no terreno, em todas as regiões”, declarou posteriormente o chefe do estado maior Hamad al-Atiya [4].

    Entre os “antiterroristas” que desfilam na Farnesina estão também os Emirados Árabes Unidos, que formaram em 2011 através do Blackwater um exército secreto de cerca de dois mil mercenários, dentre os quais cerca de 450 (colombianos e outros latino-americanos) estão agora empenhados na agressão ao Iêmen.

    Está também o Bahrein que, depois de ter afogado em sangue a oposição democrática interna com a ajuda de tropas sauditas, agora retribui o favor apoiando a Arábia Saudita no massacre dos iemenitas, empreendimento em que participa o Kuwait, também este membro do grupo “antiterrorista”.

    Deste grupo também faz parte a Turquia, posto avançado da Otan na guerra contra a Síria e o Iraque, que apoiou o EI, enviando-lhe diariamente centenas de cargas de armas e outros materiais. Por ter publicado provas, também em vídeo, do fornecimento de armas ao EI por parte dos serviços secretos de Ancara, os jornalistas turcos Can Dündar e Erdem Gül foram presos e correm risco de condenação à pena de morte [5].

    Entre as presenças ocidentais no grupo mascarado, destacam-se a França e a Grã Bretanha, que usam forças especiais e serviços secretos para operações secretas na Líbia, Síria e outros países.
    Quem faz as honras da casa é a Itália, que contribuiu para incendiar o Norte da África e o Oriente Médio participando da demolição da Líbia. Onde agora se prepara para retornar, inclusive exercendo o papel de “líder”, para uma outra guerra sob o comando da dupla EUA/Otan, que, sob a máscara de “peacekeeping” (manutenção da paz), visa ao controle de zonas estratégicas e dos recursos energéticos líbios [6].

    Nos salões da Farnesina ecoam as notas de “Tripoli, bel suol d’amore”, a canção que em 1911 celebrava a guerra colonial na Líbia.


    Tradução
    José Reinaldo Carvalho
    Editor do site Resistência
    Fonte
    Il Manifesto (Itália)

    [1] “U.S. Relies Heavily on Saudi Money to Support Syrian Rebels”, Mark Mazzetti & Matt Apuzzojan, The New York Times, January 23, 2016.
    [2] “John McCain, chefe de orquestra da «primavera árabe», e o Califa”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 18 de Agosto de 2014.
    [3] “Blowback! U.S. trained Islamists who joined ISIS”, Aaron Klein, WND, July 17, 2014.
    [4] “Qatar admits sending hundreds of troops to support Libya rebels”, Ian Black, The Guardian, October 26, 2011.
    [5] “Turkey arrests editors over reports Ankara supplied weapons to Syrian fighters”, Raziye Akkoc, The Telegraph, November 26, 2015.
    [6] «Italia, missione Libia con un ruolo guida», Lettera 43, 26 Gennaio 2016.

    Maria João · Mário Laginha // Fidgety · IRIDESCENTE


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