domingo, 17 de junho de 2018

O curioso caso do silêncio da esquerda sobre Julian Assange


por John Pilger e Dennis J Bernstein [*]
 
Numa comunicação recente entre Randy Credico (produtor de rádio e apoiante de Assange) e Adam Schiff (membro do Comité Judiciário da Câmara dos Representantes), o temor de Assange de prisão e extradição para os EUA foi confirmado pelo líder da histeria Russia-gate.

Credico recebeu a seguinte resposta de Schiff após a reunião com a equipe do congressista, na qual Credico tentava ligar Assange a Schiff: "Nosso comité estaria desejoso de entrevistar Assange quando ele estiver sob a custódia dos EUA e não antes".

Dennis Bernstein conversou com John Pilger, um amigo próximo e apoiante de Assange em 29 de Maio. A entrevista começou com a declaração de Bernstein apresentada por Pilger no Fórum Esquerda no último fim-de-semana em Nova York num painel dedicado a Assange intitulado: "Russia-gate e WikiLeaks".

Declaração de Pilger

"Há um silêncio entre muitos que se consideram esquerda. O silêncio é Julian Assange. Quando todas as falsas acusações caíram por terra, quando todas as falsificações sujas se mostraram ser trabalho de inimigos políticos, Julian levanta-se vingado como um dos que revelaram um sistema que ameaça a humanidade. O vídeo Dano Colateral, os registos de guerra do Afeganistão e do Iraque, as revelações do Cablegate, as revelações da Venezuela, as revelações dos email de Podesta ... este são apenas algumas das tempestades de verdade bruta que explodiram através das capitais das potências opressoras. A falsificação do Russia-gate, a conivência de uma media corrupta e a vergonha de um sistema legal que persegue os que contam a verdade e não foi capaz de conter a verdade bruta das revelações da WikiLeaks. Eles não venceram, ainda não, e eles não destruíram o homem. Só o silêncio das pessoas boas permitirá que vençam. Julian Assange nunca esteve tão isolado. Ele precisa do vosso apoio e da vossa voz. Agora mais do que nunca é tempo de exigir justiça e o direito de livre expressão para Julian. Obrigado.

Dennis Bernstein: Continuamos a nossa discussão do caso de Julian Assange, agora na embaixada equatoriana na Grã-Bretanha. John Pilger, é bom conversar consigo outra vez. Mas é uma tragédia profunda, John, o modo como eles estão a tratar Julian Assange, este jornalista e editor prolífero de quem muitos outros jornalistas dependeram no passado. Ele foi deixado totalmente no frio para defender-se por si próprio.

John Pilger: Nunca vi algo assim. Há uma espécie de silêncio misterioso em torno do caso de Julian Assange. Julian foi inocentado de todos os modos possíveis e ainda está isolado como poucas pessoas estão nestes dias. Ele está desligado das próprias ferramentas da sua actuação, não lhe são permitidos visitantes. Estive em Londres recentemente e não pude vê-lo, embora falasse com pessoas que o tinham visto. Rafael Correa, o antigo presidente do Equador, disse recentemente que encarava o que estão agora a fazer a Julian como tortura. Foi o governo Correa que deu refúgio político a Julian, o qual foi agora traído pelo seu sucessor, o governo liderado por Lenin Moreno, o qual está outra vez absorvido pelos Estados Unidos conforme a tradição, com Julian como pião e vítima.

Deveria ser um "Herói constitucional"

Mas realmente isto deve-se basicamente ao governo britânico. Embora ele ainda esteja numa embaixada estrangeira e realmente tenha a nacionalidade equatoriana, o seu direito de passagem para fora da embaixada deveria ser garantido pelo governo britânico. O Grupo de Trabalho sobre Detenções Arbitrárias das Nações Unidas ( Working Group on Arbitrary Detention ) deixou isso claro. A Grã-Bretanha tomou parte numa investigação, a qual determinou que Julian era um refugiado político e que uma grande perversão da justiça lhe fora imposta. É muito bom que esteja a fazer isto, Dennis, porque mesmo nos media não convencionais há este silêncio acerca de Assange. As ruas do lado de fora da embaixada estão virtualmente vazias, mas deveriam estar cheias de pessoas a dizerem estamos consigo. Os princípios envolvidos neste caso são claríssimos. O número um é o da justiça. As injustiças feitas a este homem são legião, tanto em termos do falso processo sueco como agora no facto de que ele deve permanecer na embaixada e não pode deixá-la sem ser preso, extraditado para os Estados Unidos e acabar num buraco infernal. Mas é também acerca da liberdade de expressão, acerca do nosso direito a saber, o qual está cristalizado na Constituição dos Estados Unidos. Se a Constituição fosse adoptada literalmente, Julian seria realmente um herói constitucional. Ao invés disso, entendo a acusação que eles estão a tentar cozinhar como uma acusação de espionagem! É demasiado ridículo. Esta é a situação tal como a vejo, Dennis. Não é uma situação feliz, mas sim uma situação a que o povo deveria acorrer rapidamente.

DB: Os seu irmãos jornalísticos parecem-se com os seus perseguidores. Eles querem apoiar aberrações como o congressista Adam Schiff do Russia-gate e como Mike Pompeo, os quais gostariam de ver Assange na prisão para sempre ou mesmo executado. Como é que responde a jornalistas que actuam como perseguidores, alguns dos quais utilizaram o seu material para escrever notícias? Este é um tempo terrível para o jornalismo.

JP: Você está absolutamente certo. É um tempo terrível para o jornalismo. Nunca vi uma coisa assim na minha carreira. Dito isto, não é novo. Sempre houve um chamado media mainstream o qual realmente representa o grande poder nos media. Isto sempre existiu, particularmente nos Estados Unidos. O Prémio Pulitzer deste ano foi concedido a The New York Times e The Washington Post por caça a feiticeiras em torno do Russia-gate! Eles foram louvados pela "profundidade das suas investigações". As suas investigações não mostraram nem um fragmento de prova real a sugerir qualquer intervenção russa séria na eleição de 2016.

Tal como Webb

O caso Julian Assange recorda-me o caso Gary Webb. Bob Parry foi um dos poucos apoiantes de Gary Webb nos media. A série "Aliança negra" de Webb continha evidência de que o tráfico de cocaína estava em curso com a conivência da CIA. Posteriormente Webb foi perseguido por colegas jornalistas e, incapaz de encontrar trabalho, acabou por cometer suicídio. O Inspector-Geral da CIA justificou-o posteriormente. Agora, Julian Assange está muito distante de atentar contra a sua própria vida. A sua resiliência é notável. Mas ele ainda é um ser humano e tem sido massacrado.

Provavelmente o que é mais duro para ele é a absoluta hipocrisia das organizações noticiosas – como The New York Times, o qual publicou "Registos de guerra" e "Cablegate" da WikiLeaks, The Washington Post e The Guardian, os quais tomaram uma vingança deliciosa a atormentar Julian. Mas a sua cobertura de Snowden deixou-o em Hong Kong. Foi a WikiLeaks que conseguiu tirar Snowden de Hong Kong e pô-lo em segurança.

Profissionalmente, considero isto uma das coisas mais repugnantes e imorais que já vi na minha carreira. A perseguição a este homem por enormes organizações de media que extraíram grandes benefícios da WikiLeaks. Um dos grandes atormentadores de Assange, Luke Harding de The Guardian, ganhou muito dinheiro com uma versão Hollywood de um livro que ele e David Lee escreveram e no qual basicamente atacam a sua fonte. Suponho que seja preciso ser psiquiatra para entender tudo isto. O meu entendimento é que muitos destes jornalistas estão envergonhados. Eles percebem que WikiLeaks fez o que eles deveriam ter feito há muito tempo e que é dizer-nos como os governos mentem.

DB: Uma coisa que me perturba muito é o modo como a imprensa corporativa ocidental especula acerca do envolvimento russo na eleição estado-unidense de 2016, que foi um golpe (hack) através de Julian Assange. Qualquer investigador sério desejaria saber quem seria motivado para isso. E ainda a possibilidade de que possa ser a dúzia ou mais de pessoas irritadas que foram trabalhar para a máquina da Clinton e aprenderam dali de dentro que o DNC [Comité Nacional Democrático] fazia tudo para se livrar de Bernie Sanders... isto não faz parte da narrativa!

Oitocentas mil revelações sobre a Rússia

JP: O que aconteceu a Sanders e o modo como ele foi esmagado pela organização da Clinton, toda a gente sabe que isto é a notícia. E agora temos o DNC a processar a WikiLeaks! Há uma espécie de elemento farsesco nisto. Quero dizer, nada disto veio dos russos. Que a WikiLeaks de algum modo estivesse na cama com os russos é ridículo. A WikiLeaks publicou cerca de 800 mil grandes revelações acerca da Rússia, algumas delas extremamente críticas do governo russo. Se você for um governo e fizer algo inconveniente ou estiver a mentir ao seu povo e a WikiLeaks obtiver os documentos para mostrá-lo, eles publicarão não importa quem seja você, seja dos Estados Unidos ou da Rússia.

DB: Randy Credico, devido ao seu trabalho e à sua decisão de dedicar uma série de artigos à perseguição de Julian Assange recentemente encontrou-se ele próprio sob ataque. Ele foi a um churrasco para a imprensa na Casa Branca e, depois de ter uma linda discussão com o congressista Schiff, ele gritou: "E sobre Julian Assange?" A sala estava cheia de reporters mas Randy foi atacado e arrastado para fora. Era como se toda a gente ali ficasse embaraçada ao reconhecer que um dos seus irmãos estava a ser brutalizado.

JP: Randy gritou algumas verdades. Isto é muito semelhante ao que aconteceu a Ray McGovern. Ray é um antigo membro da CIA mas um homem com princípios. Posso sugerir que agora ele é um renegado.

DB: Era histérico observar estes quatro guardas armados que se mantiveram a gritar "Pare de resistir, pare de resistir!" enquanto lhe batiam de modo infernal!

JP: Penso que a imagem de Ray a ser arrastado foi particularmente tocante. Estes quatro pesos-pesados, obviamente jovens mal treinados a tratarem Ray com grosseria, o qual tem 78 anos. Para mim houve algo extremamente emblemático quanto a isso. Ele enfrentou até ao desafio o facto de que a CIA estava prestes a entregar a sua liderança a uma pessoa que fora encarregada das torturas. É tanto chocante como surreal, o que naturalmente o caso Julian Assange também é. Mas o jornalismo real deveria ser capaz de penetrar o chocante e o surreal e contar a verdade. Há demasiado conluio agora, com todos estes desenvolvimentos sombrios e ameaçadores. É quase como se a palavra "jornalismo" estivesse a tornar-se deteriorada.

DB: Há certamente um bocado de conluio quanto a Israel. Assim, a palavra "conluio" é bastante apropriada.

JP: Esse é o conluio final. Mas é conluio através do silêncio. Nunca houve um conluio como este entre os EUA e Israel. Isto sugere uma outra palavra e esta é "imunidade". Há uma imunidade moral, uma imunidade cultural, uma imunidade geopolítica, uma imunidade legal e certamente uma imunidade dos media. Vemos o tiroteio sobre mais de 60 pessoas no dia da inauguração da nova embaixada dos EUA em Jerusalém. Israel tem algumas das mais perversas munições experimentais do mundo e eles dispararam-nas sobre o povo estava a protestar contra a ocupação da sua pátria e tentava recordar o povo da Nakba e o direito de retorno. Nos media isto foi descrito como "choques". Embora aquilo se tornasse tão mau que The New York Times numa edição posterior mudou a manchete da sua primeira página para dizer que Israel estava realmente a matar pessoas. Um momento raro, na verdade, em que a imunidade, o conluio, foi interrompido. Toda a conversa sobre o Irão e armas nucleares sem qualquer referência à maior potência nuclear no Médio Oriente.

DB: O que você diria acerca das contribuições feitas por Julian Assange nesta era de censura e covardia no jornalismo? Onde é que isto entra no quadro?

JP: Penso que representa algo de modo fundamental para a informação. Se remontar à época em que a WikiLeaks começou, quando Julian estava assente no seu quarto de hotel em Paris começando a montar tudo, uma das primeiras coisas que ele escreveu foi que há uma moralidade na transparência, que temos o direito de conhecer o que aqueles que pretendem controlar as nossas vidas estão a fazer em segredo. O direito a conhecer o que os governos estão a fazer em nosso nome – em nosso favor ou no nosso prejuízo – é o nosso direito moral. Julian sentia isso muito apaixonadamente. Houve momentos em que ele podia ter-se comprometido ligeiramente a fim de possivelmente ajudar na sua situação. Houve vezes em que lhe disse: "Por que você simplesmente suspende aquilo por um momento e concorda com isso?". Naturalmente, eu sabia antecipadamente o que seria a sua resposta e esta era "não". A enorme quantidade de informação que veio da WikiLeaks, particularmente nos últimos anos, representou um extraordinário serviço público. Eu estava a ler outro dia na WikiLeaks um telegrama de 2006 da Embaixada dos EUA em Caracas dirigido a outras agências na região. Isto foi quatro anos depois de os EUA tentarem livrar-se de Chavez através de um golpe. Ali se pormenorizava como a subversão deveria actuar. Naturalmente, eles vestiam isso como um trabalho de direitos humanos e assim por diante. Eu lia este documento oficial a pensar como a informação contida nele valia por anos da espécie de reportagem distorcida vinda da Venezuela. Também nos recorda que a chamada "intromissão" da Rússia nos EUA é apenas insensatez. A palavra "intromissão" não se aplica à espécie de acção implicada neste documento. Ela é a intervenção nos assuntos de outro país.

A WikiLeaks tem feito isso por todo o mundo. Ela dá às pessoas a informação a que elas têm direito. Elas têm o direito de descobrir a partir dos chamados "Registos de guerra" ("War Logs") a criminalidade das nossas guerras no Afeganistão e no Iraque. Elas têm o direito de descobrir acerca do Cablegate. Foi quando, numa observação da Clinton, soubemos que a NSA estava a reunir informação pessoal sobre membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas, incluindo os números dos seus cartões de crédito. Você pode ver porque Julian Assange fez inimigos. Mas ele também deveria ter um enorme número de amigos. Isto é informação crítica pois ela nos diz como o poder funciona e nunca aprenderemos o suficiente acerca disso. Penso que a WikiLeaks abriu um mundo de transparência e deu substância à expressão "direito a conhecer". Isto deve explicar porque ele é tão atacado, porque está tão ameaçado. Para a grande potência o inimigo não são tipos do Taliban, somos nós.

DB: E quem pode esquecer a divulgação do filme "Assassinato colateral" de Chelsea Manning?

JP: Essa espécie de coisa não é incomum. O Vietname pretendia ser a guerra aberta, mas realmente não era. Não havia as câmaras em torno. É na verdade informação chocante mas ela informa o povo e devemos agradecer à coragem de Chelsea Manning por isso.

DB: Sim, e graças a isso ele ficou sete anos em confinamento solitário. Eles querem processar Assange e talvez enforcá-lo nas vigas do Congresso, mas e quanto a Judith Miller e The New York Times que põem o ocidente em guerra? São infindáveis os exemplos horrendos do que passa por ser jornalismo, em contraste com a admirável contribuição feita por Julian Assange. 

11/Junho/2018 
 
[*] Dennis J. Bernstein: jornalista da Pacifica Radio Network, autor de Follow the Money e Special Ed: Voices from a Hidden Classroom, dbernstein@igc.org.

O original encontra-se em www.mintpressnews.com/silence-julian-assange/243665/


Este diálogo encontra-se em https://resistir.info/ .
 
 

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Os media e as armas nucleares




Independentemente de quem possui as armas nucleares, não há a menor dúvida de que constituem uma ameaça real à segurança e ao futuro da humanidade.

Créditos / flashbak.com

Por estes dias, o Conselho Português para a Paz e a Cooperação (CPPC) está a dinamizar uma importante campanha de angariação de subscritores de uma petição com vista à assinatura (e ratificação), por Portugal, do Tratado de Proibição das Armas Nucleares, adoptado pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 7 de Julho passado.

A iniciativa não tem tido acolhimento nos media, seguramente muito ocupados com outros temas e pouco inclinados a promover a discussão de assuntos de importância vital para a comunidade, mas cuja utilidade imediata – e imediatamente mensurável em audiência – não vislumbrarão.

Foi transitório o interesse mediático (aliás sem grande entusiasmo) pelo tema quando, a 6 de Outubro, foi anunciada a atribuição do Prémio Nobel da Paz à Campanha Internacional pela Abolição das Armas Nucleares (ICANW, no acrónimo em Inglês), cujo trabalho empenhado e decisivo deve ser justamente destacado.

Setenta e dois anos depois do lançamento das bombas nucleares sobre Hiroshima (6 de Agosto de 1945) e Nagazaki (três dias depois), no Japão, com a morte imediata, ou nos meses seguintes, de 215 mil pessoas, não obstante o apelo à eliminação das armas nucleares aprovado pela então jovem ONU, em 24 de Janeiro de 1946 (menos de seis meses após a tragédia), e apesar de o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (1 de Julho de 1968) impor o desarmamento geral e a eliminação total dos arsenais nucleares, o risco de uma catástrofe é real e nenhum passo decisivo foi dado para cumprir aqueles objectivos.

Nove países (Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido, França, Índia, Paquistão, Israel e Coreia do Norte) possuem um total de cerca de 15 mil ogivas nucleares. Além daqueles, cinco outros (Bélgica, Alemanha, Itália, Holanda e Turquia) têm estacionadas armas nucleares nos respectivos territórios. E outros 23 – Portugal, Coreia do Sul e Japão incluídos – fazem parte de «alianças nucleares», com a NATO à cabeça, que os colocam nas rotas destes dispositivos de morte cuja eficácia a imaginação do cidadão comum não alcança.

Uns dois terços dos países do mundo – praticamente o hemisfério sul – estão livres de armas nucleares, mas só por ingenuidade se pode crer que estarão ao abrigo de uma conflagração nuclear, seja pela detonação deliberada de um engenho, seja por erro ou por acidente.

Desde praticamente os alvores da era nuclear militar que os movimentos de cientistas, com os físicos Frédéric Joliot-Curie, Albert Einstein e Joseph Rotblat e o filósofo e matemático Bertrand Russel à cabeça, aos quais se juntaram inúmeros outros intelectuais, alertaram para os elevados riscos que impendem sobre a humanidade e se empenharam contra a bomba nuclear.

Dos artigos publicados imediatamente após o lançamento da bomba de Hiroshima e dos programas de rádio, nomeadamente de Russel, ao Apelo de Estocolmo (1950), passando por inúmeros artigos e entrevistas, debates e manifestos, milhares de intelectuais não cessaram de avisar para a elevada probabilidade de destruição maciça e em larguíssima escada – seja por impacto direito da deflagração, seja pelo transporte de cinzas e poeiras radioactivas, transportando radioisótopos que permanecerão activos por milhares e até dezenas de milhares de anos.

Embora se registe uma (ainda muito incompleta) redução das armas nucleares (eram mais de 20 mil em 2010 e mais de 70 mil nos anos 1980), a crescente sofisticação dos arsenais, à força de vultuosos investimentos, a mobilidade e a capacidade de propulsão são surpreendentes e muito perigosas.
Estima-se, por exemplo, que dois terços das 300 ogivas francesas estejam embarcadas em mísseis balísticos em submarinos e podem alcançar dez mil quilómetros de distância.

Independentemente de quem possui as armas nucleares, não há a menor dúvida de que constituem uma ameaça real à segurança e ao futuro da humanidade e de que, apesar da retórica desculpabilizadora baseada na invocada necessidade de dissuasão tão frequente e hipocritamente usada no discurso «diplomático» dos detentores de armas e dos seus seguidores, estamos perante uma séria questão de ética da legitimidade.

Não são apenas as convenções de direito internacional humanitário que proíbem os ataques indiscriminados, ou as armas que, pela sua natureza, possam causar danos supérfluos ou ferimentos desnecessários e que impõem o princípio de que o direito dos países em conflito a escolher os métodos e meios de combate não é ilimitado.

É sobretudo a exigível sã consciência de que qualquer ser humano deve possuir acerca dos limites ao seu poder, de que a ninguém é lícito decidir sobre a vida ou a morte dos povos e o destino da própria humanidade, assim como, por maiores que sejam as divergências, não há uso benigno possível para o poder de destruição tão letal e tão extenso hoje ao alcance do homem.

Porém, os media não proporcionam o mínimo debate sobre um tema tão decisivo na vida dos povos. Pode ser por indiferença – o que é deplorável –, ou até pode ser por um critério de prioridades na agenda – o que é preocupante –, mas a escassez ou mesmo ausência de discussão e reflexão no espaço público deixam os cidadãos e os próprios jornalistas desarmados perante o arsenal argumentativo dos detentores de armas nucleares e seus vassalos e seguidores.

É assim que pouco ou nada se questiona a posição seguidista do Governo português, que esteve fora das negociações do novo Tratado e evidentemente não quer assinar (e muito menos fazer ratificar) o Tratado de Proibição de Armas Nucleares, com o singelo argumento segundo o qual esse acto, «que declara ilegais as armas nucleares» não seria compaginável com a circunstância de ser membro da NATO, que «é uma aliança nuclear».

Esta é aliás o maior detentor de ogivas do mundo: além das 6800 dos Estados Unidos, 300 da França e 215 do Reino Unido, sem contar com as 80 do amigo Israel1.

Ou que se come e cala, numa obediente «independência» jornalística, incensando acriticamente a doutrina da NATO (herdeira ideológica da doutrina de hegemonia planetária que os Estados Unidos deixaram tragicamente plasmada nos ataques a Hiroshima e Nagasaki, quando já era mais do que evidente, desde 1944, que a Alemanha nazi não possuía a bomba atómica), ou se questiona o poder ilegítimo que a Aliança Atlântica outorga a si própria de impor a sua paz ao mundo, aliás bem patente no seu comunicado de 20 de Setembro, a propósito da abertura às assinaturas do Tratado de Proibição das Armas Nucleares.

Continuaremos a calar?

  • 1. Usa-se aqui, tal como em relação aos restantes detentores de arsenais nucleares, a informação regular do Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo (SIPRI, no acrónimo em Inglês), que não consta como insuspeita quanto ao independência, pelo menos nos media mainstream…, mas é mencionada, por vezes, a hipótese de Israel possuir realmente umas 200 ogivas.
aqui:https://www.abrilabril.pt/os-media-e-armas-nucleares

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Diplomatas russos expulsos poderão voltar depois de matarem alguns palestinos


por Waterford Whispers
 
Faixa de Gaza. Dúzias de países que em Março último expulsaram diplomatas russos concordaram em permitir o retorno dos mesmos depois serem informados que nesta semana eles atiraram e mataram palestinos na faixa de Gaza.

Deportados da Irlanda, EUA, França, Itália e Alemanha, em solidariedade com o Reino Unidos sobre um alegado ataque a espião ainda envolto em mistério, mais de 150 diplomatas russos foram a Israel na semana passada com a esperança de retornarem aos países que lhes foram designados.

"Assassinar palestinos a sangue frio actualmente parece ser o único meio de caírem nas boas graças, como mostraram nossos amigos israelenses que parecem ser imunes a expulsões", explicou o ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Sergei Lavrov, enquanto apontava para uma parede com fotografias de homens, mulheres e crianças que os diplomatas assassinaram a sangue frio. "Assim, decidimos enviar todos os nossos diplomatas expulsos a uma orgia de matanças em Gaza a fim de apaziguar nossos senhores supremos. Felizmente parece que funcionou".

A seguir à confirmação das mortes, foi imediatamente concedido a cada diplomata o acesso ao seu país designado, com o ministro irlandês dos Negócios Estrangeiros, Simon Coveney, declarando estar muito satisfeito com o responsável russo anteriormente expulso:   "Vi fotos dos palestinos mortos que ele liquidou e estou deliciado em saudar o retorno do nosso amigo russo a Dublim para ele realizar tudo o que quiser aqui".

O ousado movimento da Rússia ocorreu depois de dúzias de palestinos terem sido mortos esta semana por soldados israelenses com pouca ou nenhuma acção internacional por parte das chamadas "nações soberanas".

"É óbvio que uma vez que estejamos ao lado dos israelenses, podemos fazer o que quer que seja com nula repercussão internacional", concluiu o ministro russo dos Negócios Estrangeiros.
19/Maio/2018
 
O original encontra-se no sítio web irlandês Waterford Whispers News .

Esta sátira encontra-se em http://resistir.info/


aqui:http://resistir.info/russia/satira_19mai18.html
 

domingo, 20 de maio de 2018

A História Russa do Dia-V (ou a História da Segunda Guerra Mundial poucas vezes Ouvida no Ocidente)

por Michael Jabara Carley

 Professor de História contemporânea na Universidade de Montreal, Michael Jabara Carley conta aqui o papel da União Soviética contra o nazismo. Depois ele analisa a maneira como esta história tem sido propositadamente deformada pelos Anglo-Saxónicos e é deturpadamente ensinada no mundo Ocidental.


JPEG - 71.5 kb

A cada 9 de Maio, a Federação Russa celebra o seu mais importante feriado nacional, o Dia da Vitória, "den´pobedy". Nesse dia, em 1945, o Marechal Georgy Konstantinovich Zhukov, Comandante da 1ª Frente Bielorrussa, que atacara Berlim, recebeu a rendição Alemã incondicional.

 A Grande Guerra Patriótica durara 1418 dias de inimaginável violência, brutalidade e destruição. Desde Stalingrado, do norte do Cáucaso e da periferia noroeste de Moscovo até às fronteiras ocidentais da União Soviética, a Sebastopol no sul, Leningrado e as fronteira com a Finlândia, no norte, o país fora devastado. Uns estimados 17 milhões de civis, homens, mulheres e crianças haviam morrido, embora ninguém jamais saiba os números exactos. Aldeias e cidades foram destruídas; as famílias foram dizimadas sem restar ninguém para lembrá-las ou chorar a sua morte.

JPEG - 27 kb
A maioria dos cidadãos Soviéticos perdeu membros da família durante a guerra. Ninguém escapou sem ser afectado.

Dez milhões, ou mais, de soldados Soviéticos morreram na luta para expulsar o monstruoso invasor Nazista e finalmente ocupar Berlim, no fim de Abril de 1945. Os mortos do Exército Vermelho ficaram sem enterro em milhares de lugares ao longo das rotas para o ocidente ou em valas comuns anónimas, não tendo havido tempo para identificação adequada e enterro. A maioria dos cidadãos Soviéticos perdeu membros da família durante a guerra. Ninguém escapou sem ser afectado.
A Grande Guerra Patriótica começou às 3h30 do dia 22 de Junho de 1941, quando a Wehrmacht Nazista invadiu a União Soviética, ao longo de uma frente estendendo-se do Báltico ao Mar Negro com 3,2 milhões de soldados Alemães, organizados em 150 divisões, apoiadas por 3.350 tanques, 7.184 peças de artilharia, 600.000 camiões (caminhões-br), 2.000 aviões de guerra. Forças Finlandesas, Italianas, Romenas, Húngaras, Espanholas, Eslovacas, entre outras, acabaram por se juntar ao ataque. O Alto-comando Alemão calculou que a Operação Barbarossa levaria apenas 4 a 6 semanas para acabar com a União Soviética. No Ocidente, as Inteligências militares dos EUA e da Inglaterra estavam de acordo. Além disso, que força tinha conseguido bater a Wehrmacht? A Alemanha Nazista era o colosso invencível. A Polónia havia sido esmagada em poucos dias. A tentativa Anglo-Francesa de defender a Noruega fora um fiasco. Quando a Wehrmacht atacou a ocidente, a Bélgica apressou-se a desistir da luta. A França colapsou em poucas semanas. O Exército Britânico foi expulso de Dunquerque, nu, sem armas ou camiões. Na Primavera de 1941, a Jugoslávia e a Grécia desapareceram em questão de semanas, com pouco custo para os invasores Alemães.

JPEG - 34.4 kb
As perdas do Exército Vermelho eram inimagináveis, dois milhões de soldados perdidos nos primeiros três meses e meio de guerra.

Onde quer que a Wehrmacht avançasse na Europa, era um passeio ... até aquele dia em que os soldados Alemães atravessaram as fronteiras Soviéticas. O Exército Vermelho foi apanhado (pego-br) de surpresa, a meio de medidas de mobilização, porque o ditador Soviético Joseph Stalin não acreditou nos relatórios da sua própria Inteligência avisando para o perigo, ou não quis provocar a Alemanha Hitleriana. O resultado foi uma catástrofe. Mas, ao contrário da Polónia e ao contrário da França, a URSS não desistiu da luta após as esperadas 4 a 6 semanas. As perdas do Exército Vermelho foram inimagináveis, dois milhões de soldados perdidos nos primeiros três meses e meio da guerra. As províncias Bálticas foram perdidas. Smolensk caiu e depois Kiev, na pior derrota da guerra. Leningrado foi cercada. Um velho perguntou a alguns soldados: «De onde se estão vocês retirando?» Havia calamidades por toda parte, numerosas demais para serem mencionadas. Mas, em lugares como a fortaleza de Brest e em centenas de anónimos campos e bosques, entroncamentos, aldeias e cidades, as unidades do Exército Vermelho lutaram muitas vezes até ao último soldado. Lutaram até quebrar cercos para voltar às suas próprias linhas ou desaparecer nas florestas e pântanos da Bielorrússia e no noroeste da Ucrânia para organizar as primeiras unidades de "partisans" afim de atacar a retaguarda Alemã. No final de 1941, três milhões de soldados Soviéticos tinham sido perdidos (o maior número sendo de prisioneiros de guerra que morreram em mãos Alemãs); 177 divisões foram aniquiladas da ordem de batalha Soviética. Ainda assim, o Exército Vermelho combateu, forçando mesmo os alemães a recuar em Yelnya, sudeste de Smolensk, no fim de Agosto. A Wehrmacht sentiu a mordidela (mordida-br) do combalido mas não derrotado Exército Vermelho. As forças Alemãs sofriam 7.000 baixas num dia, uma nova experiência para elas.

JPEG - 21.6 kb
Em lugares como a fortaleza de Brest, as unidades do Exército Vermelho lutaram muitas vezes até o último soldado.

À medida que a Wehrmacht avançava, "Einsatzgruppen", esquadrões da morte das SS, seguiam o trilho, matando judeus, ciganos, comunistas, prisioneiros de guerra soviéticos ou qualquer um que se metesse à frente do seu caminho. Colaboradores Nazistas Baltas e Ucranianos ajudaram nos assassínios em massa. Mulheres e crianças Soviéticas foram despidas e forçadas a fazer fila, esperando por execução. Quando o inverno chegou, soldados alemães enregelados atiraram em aldeões ou obrigaram-nos a sair das suas casas, vestidos com farrapos como mendigos, roubando-lhes o lar, roupas de inverno e comida.

No Ocidente, aqueles que previam um rápido colapso Soviético, os habituais Sovietófobos ocidentais, fizeram figura de estúpidos e tiveram que engolir as suas previsões. A opinião pública percebeu que a Alemanha Hitleriana havia entrado num vespeiro, e não numa outra campanha tipo França. Enquanto o homem da rua Britânico vibrava com a Resistência soviética, o governo Britânico pouco fazia para ajudar. Alguns ministros do Governo estavam até relutantes em chamar aliada à União Soviética. Churchill recusou deixar a BBC tocar o hino nacional Soviético, a "Internacional", nas noites de Domingo, junto com os de outros aliados.

PNG - 180.9 kb
A opinião pública Ocidental percebeu que a Alemanha Hitleriana tinha entrado num vespeiro, e não numa outra campanha tipo França.

O Exército Vermelho ainda recuou, mas continuando a lutar desesperadamente. Esta não foi uma guerra comum, antes um combate de uma violência sem paralelo contra um invasor assassino pelo lar, família, país, pela própria vida. Em Novembro, o Exército Vermelho lançou um panfleto sobre as linhas Alemãs, citando Carl von Clausewitz, o teórico militar Prussiano: «É impossível aguentar ou conquistar a Rússia». Isso foi uma real bravata atendendo às circunstâncias, mas também verdadeiro. Finalmente, na frente de Moscovo, em Dezembro de 1941, o Exército Vermelho, sob o comando de Jukov, empurrou as exaustas forças da Wehrmacht para trás, para sul, até trezentos quilómetros. A imagem de invencibilidade Nazista foi desfeita em pedaços. A "Barbarossa" era demasiado ambiciosa, a "blitzkrieg" falhara e a Wehrmacht sofreu a sua primeira derrota estratégica. Em Londres, Churchill concordou, a contragosto, deixar a BBC tocar o hino nacional Soviético.

PNG - 25.1 kb
A imagem da invencibilidade nazista foi feita em pedaços.

Em 1942, o Exército Vermelho continuou a sofrer derrotas e pesadas perdas, enquanto lutava quase sozinho. Contudo, em Novembro desse ano, em Estalingrado, no Volga, o Exército Vermelho lançou uma contra-ofensiva, que levou a uma notável vitória e à retirada da Wehrmacht de volta às suas linhas de partida da Primavera de 1942 ... excepto para o Sexto Exército Alemão; apanhado no bolsão de Estalinegrado. Aí, 22 divisões Alemãs, algumas das melhores de Hitler, foram destruídas. Estalinegrado foi o Verdun da Segunda Guerra Mundial. «É o inferno», disse um soldado. «Não ... isto é dez vezes pior que o inferno», corrigiu alguém. No fim dos combates do inverno de 1943, as perdas do Eixo eram assombrosas : 100 divisões Alemãs, Italianas, Romenas e Húngaras foram destruídas ou incapacitadas. O Presidente dos Estados Unidos, Franklin Roosevelt, estimou que a maré da batalha virara : a Alemanha Hitleriana estava condenada.

JPEG - 30.6 kb
Mulheres-soldado durante a batalha de Estalinegrado.

Decorria Fevereiro de 1943. Nesse mês não havia uma única divisão Britânica, Americana ou Canadiana lutando na Europa contra a Wehrmacht. Nem uma. Ainda passaram dezasseis meses até ao desembarque na Normandia. Os Britânicos e Norte-americanos estavam, então, combatendo duas ou três divisões Alemãs no Norte de África, um acontecimento secundário em comparação com a frente Soviética. A opinião pública Ocidental sabia quem estava a carregar o fardo da guerra contra a Wehrmacht. Em 1942, 80% das divisões do Eixo estavam cometidas contra o Exército Vermelho. No início de 1943, havia 207 divisões Alemãs na Frente Leste. Os Alemães tentaram um último sopro, uma última ofensiva contra a bolsa de Kursk, em Julho de 1943. Essa operação falhou. O Exército Vermelho lançou então uma contra-ofensiva através da Ucrânia, a qual levou à libertação de Kiev em Novembro. Mais a Norte, Smolensk tinha sido libertada no mês anterior.

O espírito do povo Soviético e do seu Exército Vermelho era formidável. O correspondente de guerra Vasilii Semenovich Grossman capturou a sua essência nos seus diários pessoais. «Noite, Tempestade de Neve», escreveu ele no início de 1942, «Veículos, Artilharia. Movem-se em silêncio. Súbitamente, ouve-se uma voz rouca. "Ei, qual é a estrada para Berlim?" Rebenta uma trovoada de risos».

JPEG - 48 kb
A opinião pública Ocidental sabia quem estava a carregar o fardo da guerra contra a Wehrmacht

Houve soldados que nem sempre foram corajosos. Às vezes fugiram. «Um comissário de batalhão
armado com dois revólveres começou a gritar: "Para onde estão vocês a fugir seus filhos da p..., para onde? Para a frente, pela nossa Pátria, por Jesus Cristo, filhos da p...! Por Estaline, fdp...!"...» Eles voltaram para as suas posições. Esses tipos tiveram sorte; o Comissário podia ter atirado sobre todos eles. Por vezes fê-lo. Um soldado ofereceu-se para executar um desertor. «Sentiste alguma pena dele?», perguntou Grossman. «Como pode alguém falar de pena», replicou o soldado. Em Estalinegrado, sete Usbeques foram considerados culpados de ferimentos auto-infligidos. Foram todos fuzilados. Grossman leu uma carta encontrada no bolso de um soldado Soviético morto. «Eu sinto muito a sua falta. Por favor, venha visitar-nos ... Eu estou a escrever isto, e as lágrimas estão a cair. Papá (papai-br), por favor venha para casa visitar-nos.

As mulheres lutaram ao lado dos homens como snaipers, artilheiros, tanquistas, pilotos, enfermeiras, "partisans". Elas também mantiveram a frente interna a andar. «As aldeias tornaram-se o reino das mulheres», escreveu Grossman, «Elas conduzem (dirigem-br) tratores, guardam armazéns e estábulos… As mulheres carregam sobre os ombros o grande fardo do trabalho. Elas impõem-se … mandam pão, aviões, armas e munições para a frente». Quando a guerra estava a ser travada no Volga, elas não censuraram os seus homens por terem cedido tanto terreno. «As mulheres olham e não dizem nada», escreveu Grossman, «… nem uma palavra azeda». Mas nas aldeias próximas à frente, por vezes elas falavam.

PNG - 144.1 kb
Era apenas uma questão de tempo até à destruição da Alemanha Nazista

No entretanto, os aliados Ocidentais atacaram a Itália. Estaline havia há muito exigido uma segunda frente em França, à qual Churchill resistiu. Ele queria atacar o "ventre mole" do Eixo, não para ajudar o Exército Vermelho, mas para impedir o seu avanço para os Balcãs. A ideia era avançar rapidamente para norte até a bota Italiana, depois carrilar para leste rumo aos Balcãs afim de manter o Exército Vermelho afastado. O caminho para Berlim, contudo, era norte-nordeste. O plano de Churchill foi um fracasso; os Aliados Ocidentais só chegaram a Roma em Junho de 1944. Havia, aproximadamente, 20 divisões Alemãs em Itália lutando contra forças Aliadas superiores. No Leste, ainda havia mais de duzentas divisões do Eixo, ou seja, dez vezes mais que as da Itália. Em 6 de Junho de 1944, quando a Operação Overlord começou na Normandia, o Exército Vermelho estava nas fronteiras da Polónia e da Romênia. Uma quinzena depois dos desembarques na Normandia, o Exército Vermelho lançou a Operação Bagration, uma enorme ofensiva que incendiou o centro da frente oriental Alemã e levou a um avanço de 500 quilómetros para oeste, enquanto os Aliados Ocidentais permaneciam retidos na Península de Cotentin na Normandia. O Exército Vermelho tornara-se um imparável rolo compressor. Era apenas uma questão de tempo até à destruição da Alemanha Nazista. Quando a guerra terminou, em Maio de 1945, o Exército Vermelho fora responsável por 80% das perdas da Wehrmacht, e essa percentagem (porcentagem-br) seria ainda muito maior antes da invasão da Normandia. «Aqueles que nunca experimentaram toda a agrura do Verão de 1941», escreveu Vasily Grossman, «nunca serão capazes de apreciar plenamente a alegria da nossa vitória». Houve muitos hinos de guerra cantados pelas tropas e pelo povo para manter o moral elevado. "Sviashchennaia voina", «Guerra Sagrada» era um dos mais populares. Os Russos ainda se poem em sentido quando o ouvem.

Os historiadores discutem muitas vezes sobre o momento em que ocorreu a viragem decisiva da batalha no teatro Europeu. Alguns propõem 22 de Junho de 1941, o dia em que a Wehrmacht cruzou as fronteiras Soviéticas. Outros apontam para as batalhas de Moscovo, Estalinegrado ou Kursk.
Durante a guerra, a opinião pública Ocidental pareceu mais apoiante do Exército Vermelho do que alguns líderes Ocidentais, Winston Churchill, por exemplo. Roosevelt muito melhor, um líder político mais pragmático, que reconheceu facilmente o preponderante papel Soviético na guerra contra a Alemanha Nazista. O Exército Vermelho, disse ele a um general céptico em 1942, estava a matar mais soldados alemães e a destruir mais tanques alemães do que todos os outros Aliados em conjunto. Roosevelt sabia que a União Soviética era o eixo da grande coligação (coalizão-br) contra a Alemanha Nazista. Eu chamo FDR o padrinho da «grande aliança». No entanto, nas sombras espreitavam os habituais inimigos da União Soviética, que estavam apenas esperando o momento certo antes de emergirem novamente. Quanto maior a certeza da vitória sobre a Alemanha Nazista, mais palavrosos e estridentes se tornaram os pessimistas da grande aliança.

Os Norte-americanos podem sentir-se melindrados quanto à memória do Exército Vermelho desempenhando o papel condutor na destruição da Wehrmacht. «E quanto ao "Lend-Lease"», dizem eles, «sem os nossos suprimentos, a União Soviética não poderia ter batido os Alemães”. De facto, a maioria dos suprimentos do Lend-Lease só chegou à URSS depois de Estalinegrado. Os soldados do Exército Vermelho chamavam ironicamente às latas de comida "Lend-Lease" a «segunda frente», uma vez que a real chegava atrasada. Em 1942, a indústria Soviética estava já ultrapassando a Alemanha Nazista nas principais categorias de armamento. Era o T-34 um tanque Americano ou Soviético? Um Estaline diplomata sempre se lembrou de agradecer ao governo dos EUA pelos jipes e camiões Studebaker. Eles aumentaram a mobilidade do Exército Vermelho. Você contribuiram com o alumínio, nós contribuímos com o sangue ... rios de sangue, foi a famosa resposta dos Russos.

JPEG - 19.3 kb
O homem da rua na Europa e nos Estados Unidos sabia muito bem quem tinha carregado o fardo contra a Wehrmacht.

Ainda mal a guerra terminara, a Grã-Bretanha e os Estados Unidos começaram a pensar acerca de uma outra guerra, desta vez contra a União Soviética. Em Maio de 1945, o Alto-comando Britânico apresentou a Operação «Impensável», um plano altamente secreto para uma ofensiva, reforçada por prisioneiros de guerra Alemães, contra o Exército Vermelho. Que bastardos, que ingratos. Em Setembro de 1945, os Norte-Americanos contemplaram o uso de 204 bombas atómicas para destruir a União Soviética. O padrinho, o Presidente Roosevelt, tinha morrido em Abril e, em algumas semanas, os Sovietófobos Americanos estavam já revertendo a sua política. A grande aliança foi apenas uma trégua na Guerra Fria, a qual começara após a tomada de poder Bolchevique, em Novembro de 1917, e foi retomada em 1945.

Naquele ano, os governos dos EUA e do Reino Unido ainda tiveram que enfrentar a opinião pública. O homem da rua na Europa e nos Estados Unidos sabia muito bem quem tinha carregado o fardo contra a Wehrmacht. Não se podia retomar a velha política de ódio contra a União Soviética à toa sem sujar a memória do papel do Exército Vermelho na vitória comum sobre a Alemanha Hitleriana. Assim, as memórias do Pacto de não-agressão Nazista-Soviético, de Agosto de 1939, foram tiradas do armário, embora as memórias da prévia oposição Anglo-Francesa às propostas Soviéticas de segurança colectiva contra a Alemanha Nazista e especialmente a traição à Tchecoslováquia fossem omitidas da nova narrativa Ocidental. Como ladrões da noite, a Grã-Bretanha e os Estados Unidos assaltaram a verdadeira narrrativa da destruição da Alemanha Nazista.

Já em Dezembro de 1939, os Britânicos planeavam (planejavam-br) publicar um livro branco culpando Moscovo pelo fracasso das negociações da aliança Anglo-Franco-Soviética durante a Primavera e Verão anteriores. Os Franceses objectaram porque era mais provável que o livro branco persuadisse a opinião pública de que o lado Soviético havia sido sério quanto à resistência à Alemanha Nazista, enquanto os britânicos e os franceses não haviam. O livro branco foi metido na gaveta. Em 1948, o Departamento de Estado dos EUA emitiu uma coleção de documentos atribuindo a culpa pela Segunda Guerra Mundial a Hitler e a Estaline. Moscovo ripostou com a sua própria publicação demonstrando as afinidades Ocidentais com o Nazismo. A luta continuou no Ocidente para lembrar a União Soviética do Pacto de não-agressão e apagar o papel preponderante do Exército Vermelho no esmagamento da Wehrmacht.

JPEG - 25.6 kb
No final da guerra, memórias do Pacto de não-agressão Nazi-Soviético, de Agosto de 1939, foram tiradas do armário.

Quantos de vós não viram algum filme de Hollywood em que os desembarques na Normandia são o grande ponto de viragem da guerra? «E se os desembarques tivessem falhado», ouve-se muitas vezes ? «Oh ... grande coisa», é a resposta apropriada. A guerra teria durado mais e o Exército Vermelho teria plantado as suas bandeiras nas praias da Normandia vindo do leste. Depois há os filmes sobre a campanha Aliada de bombardeamentos contra a Alemanha, como o factor «decisivo» para ganhar a guerra. Nos filmes de Hollywood acerca da Segunda Guerra Mundial o Exército Vermelho é invisível. É como se os Norte-americanos (e os Britânicos) estivessem reivindicando louros que não ganharam.

Eu gosto de perguntar aos alunos do meu curso universitário sobre a Segunda Guerra Mundial, quem já ouviu falar da operação Overlord? Todos levantam a mão. Então pergunto quem ouviu falar da Operação Bagration? Quase ninguém levanta a mão. Ironicamente pergunto quem «ganhou» a guerra contra a Alemanha Nazista e a resposta é «América», claro. Apenas uns poucos alunos —normalmente aqueles que tiveram outros cursos comigo— responderão a União Soviética.

A verdade é um trabalho árduo num mundo Ocidental onde as «fake news» ("notícias forjadas") são a norma. A OSCE e o Parlamento Europeu atiram a culpa da Segunda Guerra Mundial para a União Soviética, leia-se Rússia e o Presidente Vladimir Putin, como a mensagem subliminar. Hitler é quase esquecido nesta cacofonia de acusações sem provas. Por trás da falsa narrativa histórica estão os estados Bálticos, a Polónia e a Ucrânia, cuspindo ódio contra a Rússia. Os Baltas e a Ucrânia recordam agora os colaboracionistas Nazis como heróis nacionais e celebram os seus feitos. Na Polónia, para algumas pessoas, isso é difícil de engolir; eles lembram os colaboracionistas Nazis Ucranianos que assassinaram dezenas de milhar de Polacos (poloneses-br) em Volhynia. Infelizmente, tais memórias não impediram hooligans Polacos de vandalizar monumentos aos mortos de guerra do Exército Vermelho ou de profanar cemitérios de guerra Soviéticos. Os «nacionalistas» Polacos não conseguem suportar a memória do Exército Vermelho libertando a Polónia do invasor Nazista.

JPEG - 22.6 kb
Os veteranos, menos a cada ano que passa, saem à rua vestindo uniformes que muitas vezes não lhes caiem muito bem ou jaquetas surradas cobertas com medalhas e ordens de guerra. 
 
Na Rússia, contudo, a propaganda mentirosa do Ocidente não surte efeito. A União Soviética produziu os seus próprios filmes, e a Federação Russa também, acerca da Segunda Guerra Mundial, mais recentemente sobre a defesa da fortaleza de Brest e de Sebastopol, e a batalha de Estalinegrado.
Todos os anos, a 9 de Maio, os Russos lembram os milhões de soldados que lutaram e morreram, e os milhões de civis que sofreram e morreram às mãos do invasor Nazista. Os veteranos, menos a cada ano que passa, saem à rua vestindo uniformes que muitas vezes não lhes caiem bem ou jaquetas surradas cobertas com medalhas e ordens de guerra. «Tratem-nos com tacto e respeito», escreveu Zhukov nas suas memórias: «É um pequeno preço depois do que fizeram por vós em 1941-1945». Como se consegue, perguntei-me a mim próprio observando-os no Dia da Vitória há alguns anos atrás, como se aguenta, vivendo constantemente com a morte e tanta tristeza e sofrimento?

JPEG - 45.6 kb
Uma marcha do Regimento Imortal em Moscovo

Agora, em cada ano no Dia da Vitória, o «regimento imortal», o "bessmertnyi polk", marcha; Russos em cidades e vilas por todo o país e no exterior, marcham juntos carregando grandes fotografias de membros da família, homens e mulheres, que lutaram na guerra. «Nós recordamos», eles querem dizer : «e nunca nos esqueceremos de vocês».
Tradução
Alva
Fonte
Strategic Culture Foundation (Rússia)

aqui:http://www.voltairenet.org/article201181.html

Publicação em destaque

Marionetas russas

por Serge Halimi A 9 de Fevereiro de 1950, no auge da Guerra Fria, um senador republicano ainda desconhecido exclama o seguinte: «Tenh...