quarta-feira, 9 de outubro de 2019

O 70º Aniversário da República Popular da China: A Anulação da História

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A China Popular não é de forma alguma uma ameaça militar para o resto do mundo; ela não se considera uma potência conquistadora, mas estoica. É neste sentido que devem ser compreendidas as cerimónias de seu septuagésimo aniversário. Recuperou-se, política e economicamente, da agressão de que foi vítima no século XIX, mas sua a cultura não exerce hoje nenhuma atracção sobre os outros.


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Há setenta anos, em 1º de Outubro de 1949, Mao Tsé Tung proclamava,na porta de Tien An Men, o nascimento da República Popular da China. O aniversário é comemorado hoje, com um desfile militar, em frente à porta histórica de Pequim. Da Europa ao Japão e aos Estados Unidos, a comunicação mediática de destaque, apresenta-o como uma ostentação de força de uma potência ameaçadora. Praticamente ninguém recorda os dramáticos acontecimentos históricos que conduziram ao nascimento da Nova China.

➢ Desaparece, assim, a China reduzida ao estado colonial e semi-colonial, subjugada, explorada e desmembrada, desde meados do século XIX, pelas potências europeias (Grã-Bretanha, Alemanha, França, Bélgica, Áustria e Itália), pela Rússia czarista, pelo Japão e pelos Estados Unidos.

➢ Assim, apaga-se o golpe de Estado sangrento, efectuado em 1927, por Chiang Kai-shek - apoiado, mais tarde, pelos anglo-americanos e por Hitler e Mussolini, aliados do Japão - que extermina grande parte do Partido Comunista (nascido em 1921) e mata centenas de milhares de operários e camponeses.

➢ Não se fala da Longa Marcha do Exército Vermelho que, iniciada em 1934, como uma retirada desastrosa, é transformada por Mao Tsé Tung, num dos maiores empreemdimentos político-militares da História.

➢ Esquece-se a guerra de agressão contra a China desencadeada pelo Japão, em 1937: as tropas japonesas ocupam Pequim, Shangai e Nanquim, massacrando, nesta última cidade, mais de 300.000 civis, enquanto mais de dez cidades são atacadas com armas biológicas.

➢ Ignora-se a narrativa da Frente Unida Anti-Japonesa, que o Partido Comunista constitui com o Kuomintang: o exército do Kuomintang, armado pelos EUA, por um lado, luta contra os invasores japoneses, por outro lado, embarga as áreas libertadas pelo Exército Vermelho e faz com que se concentre contra eles, a ofensiva japonesa; o Partido Comunista, que cresceu de 40.000 para 1,2 milhões de membros, de 1937 a 1945, lidera as forças populares numa guerra que desgasta, cada vez mais, o exército japonês.

➢ Não se reconhece o facto de que, com a sua Resistência que custou mais de 35 milhões de mortes, a China contribui decisivamente para a derrota do Japão que, vencido no Pacífico pelos EUA e na Manchúria pela URSS, se rende, em 1945, após o bombardeio atómico de Hiroshima e Nagasaki.

➢ Esconde-se o que acontece imediatamente após a derrota do Japão: segundo um plano decidido em Washington, Chiang Kai-shek tenta repetir o que havia feito em 1927, mas as suas forças, armadas e apoiadas pelos EUA, encontram-se perante o Exército Popular de Libertação, com cerca de um milhão de homens e uma milícia de 2,5 milhões, escorados por um vasto apoio popular.

➢ Cerca de 8 milhões de soldados do Kuomintang são mortos ou capturados e Chiang Kai-shek foge para Taiwan, sob a proteção dos EUA.

Tudo isto, numa síntese extrema, é o percurso que leva ao nascimento da República Popular da China, há 70 anos. Uma História pouco ou nada tratada nos nossos livros escolares, baseada numa visão restrita eurocentrica do mundo, cada vez mais anacrónica. Uma História propositadamente apagada por políticos e formadores de opinião porque traz à luz os crimes do imperialismo, colocando no banco dos réus, as potências europeias, o Japão e os Estados Unidos: as “grandes democracias” do Ocidente que se autoproclamam juízes supremos com o direito de estabelecer, com base nos seus cânones, quais os países que são e quais os que não são democráticos.

No entanto, já não estamos, na época das “concessões” (áreas urbanas sob administração estrangeira) que essas potências tinham imposto à China, quando, no parque Huangpu, em Shangai era “vedada a entrada a cães e a chine-ses”
 
Fonte
Il Manifesto (Itália)
 
aqui:https://www.voltairenet.org/article207787.html

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Como a pseudo-ciência das alterações climáticas tornou-se aceite publicamente


por Nir Shaviv [*]
 
Um camelo puxa um carro atascado na neve em Saratov, Fevereiro/2019, Líderes políticos e corporativos reunidos na semana climática em Nova York instaram a acções significativas para combater o aquecimento global. Mas, considerando os altos custos das soluções sugeridas, será que a cura não seria pior que a doença?

Como liberal que cresceu numa casa solar, sempre fui consciente da energia e propenso a soluções activistas em questões ambientais. Fiquei portanto extremamente surpreso quando minhas investigações como astrofísico me levaram à conclusão de que a alteração climática é mais complicada do que nos levam a acreditar. A doença é muito mais benigna e uma solução paliativa simples está diante de nossos olhos.

Para começar, a história que ouvimos nos media, de que na maior parte do século XX o aquecimento é de origem antropogénica, de que o clima seria muito sensível às mudanças de CO2 e de que o aquecimento futuro será portanto grande e acontecerá muito em breve, simplesmente não é apoiada por nenhuma evidência directa, apenas por uma linha duvidosa de raciocínio circular. "Sabemos" que os seres humanos devem ter causado algum aquecimento, vemos aquecimento, não sabemos de mais nada que o pudesse ter causado, então [conclui-se] é por isso.

No entanto, não há cálculos baseados nos primeiros princípios que levam a um grande aquecimento pelo CO2 – nenhum. Recorde-se, os relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) declaram que duplicar o CO2 aumentará as temperaturas em 1,5º a 4,5º C, uma enorme margem de incerteza que remonta ao comité Charney desde 1979.

De facto, não há evidências em qualquer escala de tempo a mostrar que variações do CO2 ou outras alterações no orçamento de energia causem grandes variações de temperatura. Há, no entanto, evidências em contrário. Variações de dez vezes no CO2 nos últimos 500 milhões de anos não têm correlação alguma com a temperatura; e igualmente, a resposta climática a grandes erupções vulcânicas como a do Krakatoa .

Ambos os exemplos levam ao limite superior inelutável de 1,5º C por duplicação de CO2 – muito mais modesto do que prevêem os sensíveis modelos climáticos do IPCC. No entanto, a grande sensibilidade deste último é requerida para [poder] explicar o aquecimento do século XX, ou assim se pensa erroneamente.

Em 2008, utilizando vários conjuntos de dados do período de mais de um século, mostrei que a quantidade de calor que entra nos oceanos, em sincronia com o ciclo solar de 11 anos, é de uma ordem de grandeza maior do que o efeito relativamente pequeno esperado simplesmente a partir de alterações na produção solar total. Nomeadamente, as variações da actividade solar traduzem-se em grandes mudanças no chamado forçamento radiactivo sobre o clima.

Como a actividade solar aumentou significativamente ao longo do século XX, uma fracção significativa do aquecimento deveria ser atribuída ao sol e, como a mudança geral no forçamento radiactivo devido ao CO2 e à actividade solar é muito maior, a sensibilidade climática deveria estar no lado baixo (cerca de 1º a 1,5º C por duplicação de CO2).

Na década seguinte à publicação do exposto acima, não só o artigo não foi contestado como mas mais dados, desta vez dos satélites, confirmaram as grandes variações associadas à actividade solar. À luz desses dados concretos, agora deveria ser evidente que grande parte do aquecimento não é de origem humana e que o aquecimento futuro em qualquer dado cenário de emissão será muito mais pequeno.

Infelizmente, como a comunidade climática desenvolveu um ponto cego (blind spot) a qualquer evidência que devesse levantar uma bandeira vermelha, tais como os exemplos acima mencionados ou o aquecimento troposférico nas últimas duas décadas muito menor do que os modelos previstos, o resto do público tem uma visão muito distorcida das alterações climáticas – um quadro científico duvidoso cheio de inconsistências tornou-se uma espécie de calamidade.

Com esta mentalidade pública, fenómenos como o da activista infantil Greta Thunberg não são surpresa. O mais preocupante, no entanto, é que esta mentalidade comprometeu a capacidade de transmitir a ciência ao público.

Um exemplo do mês passado é a minha entrevista à [revista] Forbes. Poucas horas depois de o artigo ser publicado on-line, ele foi removido pelos editores "por não cumprir nossos padrões editoriais". O facto de se ter tornado politicamente incorrecto ter qualquer discussão científica levou o público a aceitar a pseudo-argumentação que apoia os cenários catastróficos.

A evidência do aquecimento não nos diz o que causou o aquecimento, e sempre que alguém precisa recorrer ao chamado consenso dos 97%, ele ou ela está a fazer isso porque seus argumentos científicos não são suficientemente fortes. A ciência não é uma democracia.

Falta saber se o mundo ocidental ultrapassará esta histeria em curso no futuro próximo, pois é claro que numa escala de tempo de uma década ou duas isso será uma coisa do passado. Não apenas haverá crescentes inconsistências entre modelo e dados, como uma força muito mais forte mudará as regras do jogo.

Quando a China perceber que já não pode confiar no carvão, começará a investir fortemente na energia nuclear para atender suas necessidades de energia crescentes. Nessa altura, o Ocidente não ficará para trás. Teremos, então energia barata e limpa, que pode produzir combustíveis neutros em carbono e até fertilizantes baratos que tornarão redundante a agricultura recentemente problemática do corte e da queima.

O Ocidente perceberia então que o aquecimento global nunca foi e nunca será um problema sério. Enquanto isso, o CO2 extra na atmosfera até aumentaria a produção agrícola, como foi observado em regiões particularmente áridas em. Afinal de contas, é alimento vegetal.
25/Setembro/2019
 

[*] Presidente do Instituto de Física Racah da Universidade Hebraica de Jerusalém, @nshaviv

Ver também:

  • Des scientifiques de 13 pays écrivent au secrétaire général des Nations unies contre l'alarmisme climatique

    O original encontra-se em www.theepochtimes.com/...


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
  • sexta-feira, 20 de setembro de 2019

    Porque Julian Assange está a ser torturado até à morte

    – Com o silêncio conivente dos media corporativos
    – E diante do mutismo de muitas organizações de jornalistas


     
    por Karen Kwiatkowski [*]
     
    Cartoon de Latuff. Penso que já sabemos a resposta. No entanto, precisamos ir mais além e tentar entender o que significa para todos nós esta destruição de um jornalista moderno, nos Estados Unidos e no Reino Unido, parcialmente velada, mas totalmente séria.

    Assange é um advogado de denunciantes, um promotor do acesso à informação e da segurança de informação para todos – não apenas para governos e grandes corporações conectadas ao governo. Com a ajuda de especialistas em segurança da informação, codificadores, contadores de verdade e testemunhas em todo o mundo, recebeu e publicou material que embaraçou e expôs um certo número de organizações poderosas, incluindo o governo dos EUA e seus muitos companheiros e beneficiários.

    Por que ele está a ser torturado até à morte? Por que ele ainda está a ser submetido a novas variantes experimentais de BZ recém-extraídas de Porton Down e privado, não apenas de amigos, parentes e acesso não supervisionado à sua equipe jurídica, como também de alimentos e cuidados básicos?

    A resposta sumária é que ele está detido por conta dos Estados Unidos e está a ser interrogado química e fisicamente em Belmarsh (a Guantanamo britânica), a fim de revelar suas chaves criptográficas privadas e os nomes e informações criptografadas relativas a outras pessoas dentro da rede de informações da Wikileaks. A prisão de Ola Bini em Abril, com novas acusações feitas no mês passado, e a nova prisão e reencarceramento de Chelsea Manning , mostram parte do esforço para encontrar os responsáveis anónimos de fugas informação dos cofres da NSA, especificamente seu esconderijo de ferramentas de hacking revelado em 2016. Isto é indicado na generalidade, mas não completamente apresentado, na acusação dos EUA .

    É fascinante que os recentes acordos de confissões negociadas (plea deals) de dois "espiões" da NSA – funcionários do governo que levaram para casa e "armazenaram" grandes quantidades de material da NSA fossem notavelmente leves, quando comparados com o que Julian Assange está a passar e o mdo como Bini e Manning foram e estão a ser tratados.

    Um sr. Pho, de 67 anos, que trabalhou como desenvolvedor das Operações de Acesso Personalizado da NSA , declarou-se culpado de uma acusação de remoção intencional de informações de defesa e foi libertado sob fiança antes de no início de 2018~ ser condenado a 66 meses . O tesoureiro extraordinário da NSA, Harold Martin, foi recentemente condenado a nove anos por " crimes contra o estado ". Até a sra. Reality Winner , que foi julgada sob a Lei de Espionagem e não recorreu, recebeu uma sentença relativamente leve , a ser concluída numa prisão próxima da sua casa e com promessas de que pode ser tratada de bulimia. John Kiriakou fez pouco mais do que revelar o que todo o país já sabia sobre tortura efectuada pela CIA e foi sentenciado a 30 meses de prisão.

    A melhor prática nos EUA, caso estiver interessado nesta linha de trabalho, é declarar-se culpado para obter uma sentença leniente (cop a plea). Caso contrário, é melhor comportar-se como um oficial que jurou cumprir a Constituição (como Petraeus ou Clapper ) ou um político de elite como Hillary. Excepto isso, assegure-se ser julgado publicamente por acusações fracas, assim talvez evite interrogatórios químicos, tortura física e mental e detenção indefinida pelo governo dos EUA e seus lacaios. Caso contrário, como no caso de Julian Assange e Edward Snowden, é preciso a protecção de um poderoso governo não americano para defender-se dos esquadrões da morte dos EUA. Edward tem isso da Rússia e Julian tinha a do Equador, mas o preço é elevado – e nenhum preço é demasiado alto para o contribuinte dos EUA quando se trata da segurança do governo estado-unidense.

    No caso de Assange, apesar de nenhum dano ter sido causado ao mundo ou à vida humana, o governo dos EUA experimentou um embaraço significativo com a divulgação das ferramentas de hackers do governo pelo grupo de hackers Shadow Brokers. Estas divulgações em camadas indicam o que a NSA e outras partes do governo dos EUA (e seus aliados dos Cinco Olhos ) foram e são capazes de fazer, e estão a fazer, a todos nós. A legalização retroactiva de 2016 da vigilância do Reino Unido dos seus cidadãos indica o âmbito e a preocupação dos governos existentes que estão empenhados na auto-preservação em tempos difíceis. A actualização da Lei da Liberdade dos EUA (USA Freedom Act), na mesma época, revela em grande medida as mesmas preocupações por parte do Estado estado-unidense.

    As revelações dos Shadow Brokers também sugerem que outra fuga do calibre do de Snowden pode existir dentro da NSA. Graças a Assange, Snowden e outros, a NSA sente-se quase tão tecnologicamente transparente e vulnerável quanto o americano médio. Isso não deve ficar assim!

    Como isso não deve permanecer assim, Assange e aqueles que podem ter trabalhado com ele serão interrogados com toda a capacidade do estado (tortura física, mental e química). Eles não serão julgados, representados ou defendidos num tribunal público e, como observado aqui para Assange, eles nunca serão libertados , independentemente do que vier a ser descoberto através de interrogatórios.

    Se uma toupeira, ou toupeiras, permanece(m) ou não dentro do vasto conglomerado de Inteligência dos EUA é, nesta altura, irrelevante. Uma ou mais deve e será encontrada, e como parte dessa pesquisa, muitas pessoas – a serem encontradas entre jornalistas tradicionais ou não-tradicionais do século XXI, agregadores, blogueiros, comunicadores, tweeters ou pesquisadores e a vasta população de empregados do governo e empreiteiros – devem ser destruídas.

    Como nas intrincadas burocracias de inteligência da Alemanha do Leste, da União Soviética, do Irão sob o xá e de uma longa lista ao longo da história da humanidade, uma vez que a doença do secretismo do governo e do crime oculto se metastiza, não há solução senão a morte, destruição e eventual colapso de o sistema e uma recuperação lenta, penosa e contraditória da sociedade humana.

    Por outro lado, não haverá recuperação lenta e penosa para Julian Assange. Ele foi reduzido à capacidade mental de viciado em drogas com a cabeça incapacitada, e alguns destes efeitos serão permanentes. Fisicamente, ele é relatado como estando abaixo do peso (menos de 45,4 kg), com comida e água a serem usadas como moeda de troca no seu interrogatório contínuo. Ironicamente, até os prisioneiros de Guantanamo, como parte do afectuoso cuidado do governo dos EUA, foram alimentados à força quando tentaram morrer de fome. Os cuidadores de Julian estão a usar comida e água para quebrá-lo completamente.

    Haverá alguma boa noticia? Terri Gross, da NPR, apresentou uma interessante perspectiva histórica sobre a experimentação de drogas da CIA na semana passada . Vale a pena ouvir, pois toda mudança é evolução. Curiosamente, como no fim do emprego de Sidney Gottlieb, se o patrocinador do mal dentro de um governo é removido, por vezes todo o seu quadro é limpo. Na maioria das vezes, ilustrando o "efeito em cadeia" de Robert Higgs , ele é simplesmente relocalizado em outras partes do governo ou mesmo expandido entre várias agências.

    O poder do governo dos dias modernos está fundamentalmente relacionado à sua "credibilidade". Esta credibilidade, esta confiabilidade, está a vacilar por toda a parte – em parte pelo valente trabalho de pessoas honestas em todos os lugares – e não se engane, estamos de facto por toda a parte. A perseguição sem esperança e perversa de Julian Assange sinaliza exactamente uma tal crise de credibilidade. Quando um edifício, ou uma instituição, começa a desmoronar, há muitas tarefas urgentes a serem feitos para salvar vidas e assegurar um futuro mais feliz. Descubra uma delas e comece a fazê-la.


    Nota aos leitores: por favor, divulguem este artigo em listas de email, grupos de discussão, blogs, fóruns na Internet, etc. 

    16/Setembro/2019
     

    [*] Ph.D., tenente-coronel aposentada da US Air Force, agricultora e aspirante a anarco-capitalista. Ela concorreu ao Congresso no 6º distrito da Virgínia em 2012.

    O original encontra-se em www.lewrockwell.com/... e em www.globalresearch.ca/why-julian-assange-tortured/5689298



    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

    A desinformação dos media dominantes acerca da vida internacional – Mentiras, manipulações, silêncios


    por Investig'action
    Os media dominantes, sem complexos e muito para além da questão europeia, mentem, deformam, dissimulam com mais ou menos subtileza, alinham (quando não são dominados pelo recrutamento selectivo de seus editorialistas) com os interesses dos grupos que os financiam. O resultado é um desconhecimento grosseiro da opinião pública sobre a realidade das relações internacionais e um confinamento mental dos cidadãos no pré-estabelecido. Como pode alguém surpreender-se com o periódico reavivar do chauvinismo estreito e do nacionalismo arrogante, frequentemente acompanhado de racismo, pelas grandes potências? Os poderes "ensinam" de facto o desprezo pelos outros e um desejo de poder muito maior que a solidariedade internacional [1]

    O paradoxo é profundo num tempo de globalização desejada pelo mundo dos negócios e seus auxiliares estatais, o que significa que nenhuma economia nacional e nenhuma pessoa podem escapar à interferência estrangeira e ao impacto dos interesses transnacionais sempre presentes em todos os lugares: qualquer regime, qualquer que seja, passa por uma espécie de "mestiçagem". O Estado mais apegado à soberania nacional e o povo mais patriótico são vítimas de um ambiente internacional desfavorável e, apesar de tudo, são transformados pela penetração de interesses que não são os seus. Este é particularmente o caso dos poucos bastiões que se reivindicam do socialismo, muitas vezes degradado por sanções de todos os tipos (embargos, bloqueio de activos financeiros, discriminações comerciais, pressões políticas e ideológicas etc.), que podem chegar até à sabotagem e intervenção militar.

    Os grandes media ocidentais ocultam o que pode constituir suas culpas ou seus vexames, por causa dos equilíbrios de poder com os regimes de que não gostam: a forma como apresentam a Coreia do Norte desde há mais de meio século torna-se a caricatura mais básica. O mesmo acontece com o chavismo na Venezuela, com o Vietname e com Cuba! A desinformação é a regra: um simplismo doentio domina a luta que opõe um "campo" a outro, num nevoeiro mantido por uma conversa incessante sobre "valores" e "ideias"! A adesão à ideologia dos gestores capitalistas, associada a uma "cultura descuidada, atrevida, faladora e narcisística", como escreve A. Accardo, [2] caracteriza certos espécimes das escolas de jornalismo, produtoras mais de habilidade do que de saber. Esse não é o caso de todo os jornalistas, mas, na precariedade, quase todos concordam em sofrer a trela mantida pelos "patrões"! [3]
    (...)

    Para todas as questões internacionais é feita quase que sistematicamente uma avaliação binária baseada nas noções (primárias e quase religiosas) do Bem e do Mal, regularmente confirmadas pelas correntes doutrinárias dos EUA. A transposição para a ordem interna é evidente: os media dominantes servem o Bem e aqueles que discordam situam-se no campo do Mal!

    Enfim, todas as informações macroeconómicas situam-se dentro do quadro exclusivo do capitalismo e da sua gestão: os problemas peculiares ao socialismo, considerado "contra-natura", são sempre objecto de uma rejeição global. As controvérsias admitidas nos media dominantes situam-se apenas dentro do único sistema permitido, ou seja, na economia de mercado e na sua lógica à qual ninguém pode escapar sob pena de desastre social. Não existe nenhuma alternativa e a história económica não tem lugar: está concluída. A prova deste fim da evolução foi trazida pelo fracasso das outras experiências que seria absurdo querer reproduzir "em casa": está fora de questão ter em conta as múltiplas agressões económicas e financeiras sofridas pela URSS, Cuba, Chile, Coreia do Norte, Venezuela, etc.

    Denunciar a penúria "noutros lugares" (ou, em alguns casos, o sucesso de tal ou tal medida que seria necessário tomar "em casa") é o caminho para descartar as propostas das oposições na própria economia do país! Inclusive se os contextos estrangeiros são muito diferentes e racionalmente não transponíveis. Assim, favorece-se nos espíritos o conceito de "modelo" e "modelo-a-rejeitar". Todos os "especialistas" (seleccionados) convocados pelos editores principais obviamente confirmam-no em todas as ocasiões!

    As regras seguidas

    As notícias internacionais dos grandes media estão sujeitas a certas regras de "eficácia" propagandística, embora a equipe editorial se defenda declarando-se "ofendida" e vítima de populismo inaceitável quando questionada.

    Uma breve exposição dos métodos seguidos é, no entanto, dificilmente contestável com boa fé.

    O descritivo prevalece sistematicamente. Os eventos do dia não têm nem raiz nem história. O flash privilegiado, buscando a emoção, exclui a explicitação. Usa-se a imagem simbólica (por exemplo, uma criança ferida nas ruínas de um bombardeamento) ou um testemunho individual escolhido, como bastando para fazer sentido!
    (...)

    Cada acontecimento mediático é martelado durante um ou mais dias seguidos, com uma forte intensidade para impregnar os espíritos, desaparece abruptamente para dar lugar a outro que desaparece por sua vez: não há acompanhamento. O objectivo não é fazer as pessoas compreenderem o que se passa, mas "impressionar" a mente para fabricar a opinião desejada pelos poderes. Pode-se imaginar o dano intelectual que esse método produziria no campo da pedagogia escolar!

    Todos os dias, existem vários acontecimentos nos ou entre os 200 estados que compartilham o planeta. Os media dominantes "vão às compras", à ordem do dia monopolizada pelas autoridades públicas e privadas, a fim de influenciar a opinião, seja para reforçar uma ideia geral recebida seja para agir sobre uma questão específica sobre a qual é necessário orientar. São escolhidos, por exemplo, eventos que reforcem a hostilidade à China ou à Rússia ou demonstrem que a polícia argelina sabe usar o bastão como a francesa e que não nos podemos deter nas condenações do governo francês pronunciadas pelas Nações Unidas ou o Parlamento Europeu por ocasião da repressão dos Coletes Amarelos em Paris!

    Os acontecimentos não são retidos diariamente pelo seu interesse intrínseco, novidade, o seu significado maior ou menor, mas por sua "utilidade" na batalha local do momento (social, ideológica, institucional, etc). Trata-se de ilustrar com imagens internacionais "significativas" o que é "apropriado" pensar na ordem interna: o exercício mediático, de perfeita má-fé, é antes de tudo "pedagógico".

    Na ordem internacional, as redacções dispõem de uma grande "liberdade": os cidadãos, na sua maior parte, não estão em condições de verificar o que é dito, ao contrário do que pode ser afirmado na ordem interna. Na massa de acontecimentos que ocorrem em todos os continentes, onde os cidadãos têm alguns meios de avaliação, sempre há alguns que basta referenciar e desenvolver para legitimar qualquer causa!

    Ninguém é imposto objectivamente em detrimento de todos os outros! Jornalistas "responsáveis" [4] por serem hábeis, capazes de escolher os factos, mais os "sabedores" que oferecerão um pouco de música de objectividade, para bem orientar os debates e eventualmente desestabilizar o convidado com maus pensamentos, por excepção convidado expressamente para tornar credíveis os "habituais" "bem pensantes" porque a posição destes é conhecida com antecedência!

    Está obviamente excluído que os dominantes sejam dominados, mesmo que acidentalmente (daí a raridade de uma passagem de TV ou rádio de um Bourdieu (no passado), um Onfray ou um Badie (actualmente), ou mais geralmente académicos em número capaz (desde que sejam solicitados) para fazerem frente a "avençados" do estilo Minc, Finkelkraut, BH Lévy e outros Zémour ou Ménard e de uma coorte de falsos especialistas mais ou menos economistas ou políticos, saídos de fundações e organizações fantasmas, sempre que sejam necessários!

    Repetição é outra regra quando o facto tratado é potencialmente "persuasivo". (...) Assim, a maior ou menor intensidade repetitiva e o domínio dos horários e da preparação criam as condições para um respeito fictício por uma pseudo-"objectividade", altamente reivindicada pelos profissionais dos media. No entanto, o pluralismo não é essa "objectividade" inacessível, mas uma honestidade básica tendo em conta o maior número possível de eventos internacionais, dando-lhes um conteúdo explicativo.

    O facto de, nos diversos canais de TV e rádio, a selecção das notícias internacionais estar estandardizada não seria a prova de uma vontade de formatar a opinião, mas, pelo contrário, o respeito por uma "Verdade" única face aos vendedores ambulantes de "notícias falsas", o que é uma triste farsa. Bastaria demonstrar a história das várias "verdades" falsas amplamente divulgadas e repetidas, por exemplo, sobre o exército iraquiano e "suas armas de destruição massiva" ou o "massacre" de Benghazi por mercenários do sr. Kadafi, origem da destruição da Líbia pela NATO.

    Eventos internacionais "preferidos" pelos grandes media não são os movimentos populares quando carregam reivindicações sociais, a menos que ocorram em países "inimigos". O que é apresentado não são as pessoas, mas seus líderes que seriam "bons" ou "maus"!
    (...)

    Um facto nunca é "puro". Ele é sempre "tratado" pelo informante, que fabrica a impressão que o "informado" terá. O tom do comentarista, as palavras que ele usa, possivelmente a música de fundo que acompanha a imagem, a proximidade de outras informações que a contaminam, disfarçando segundo o critério dos media uma realidade crua que é dificilmente acessível.

    Uma escrita "boa" é por função manipuladora: os adjectivos de qualificação são usados com oportunidade (um líder odiado que não se deixará de chamar "ditador"), a ironia é bem-vinda (especialmente para os pequenos Estados do Sul em que alguns aspectos podem parecer folclóricos), uma prudência austera é necessária (seja para o Vaticano ou para Israel). O estilo deve ir até à indignação (por violações de direitos humanos num país não ocidental ou por guerras destrutivas quando não são "justas" por exemplo, as da Rússia, e não as de uma coligação pró-ocidental, como no Iémen, cujos "danos colaterais" devem ser admitidos.
    (...)

    Para os media dominantes, um atirador de pedras contra a polícia de Paris ou contra a polícia da sra. Park (agora na prisão) em Seul [5] é um bandido, mas será um cidadão lúcido e corajoso. se for "gaseado" em Argel [6] ou em Caracas! Um manifestante morto ou ferido em Paris é apenas um "erro grave" de um comportamento individual no âmbito da manutenção da "ordem republicana", nos países menos apreciados como a Venezuela é o resultado da natureza repressiva do poder!

    Estas práticas significam que os media dominantes estão necessariamente cada vez mais desacreditados (só 10% dos franceses ainda confiam neles), seja o Pravda do fim da URSS ou a BFMTV (canal de notícias francês) sob a presidência de Macron. No entanto, eles têm o "dever" de superar, através de uma variedade de diversões a sua falta de princípios, a incoerência dos seus julgamentos de valor e o enfraquecimento da cultura democrática de muitos jornalistas, muitas vezes seleccionados pela sua adequação às "normas" e ao seu servilismo oportunista! [7]

    Algumas ilustrações

    Na ordem interna, é o social que é objecto de todas as censuras e autocensuras, mas reivindicações diferentes, mesmo com reflexos no orçamento, contradizem de facto a lógica de um capitalismo sem escrúpulos que nunca cede quando se trata de dinheiro!

    Na ordem internacional, da mesma forma, é neutralizado tudo o que diz respeito às transacções financeiras, imposto de "optimização", fenómenos de concentração, concorrência nunca livre e sempre distorcida! Convém tornar credível uma sociedade internacional "equilibrada", graças ao "livre jogo das leis do mercado" como sendo o melhor para o crescimento e o progresso. O coração do sistema é, portanto, cuidadosamente protegido pelos media dominantes.

    A ordem da UE é objecto de todas as "precauções" dos media sejam quais forem as críticas que alguns lhe fazem. A UE, a Comissão e o BCE beneficiam da condescendência mediática, isto foi constatado quando o Estado grego se lhe opôs, também por ocasião do Brexit e das disputas italianas. Na França, o episódio do "Não" ao Referendo de 2005, apesar do apoio total e quase unânime dos media ao "Sim" e depois a manipulação parlamentar, foram apresentados de forma caricatural.

    O tratamento dos paraísos fiscais e da evasão fiscal é extremamente complacente: há críticas dos media apenas contra algumas "ovelhas negras", mas nunca o julgamento feito ao sistema de fraude "legal" tolerado pelos Estados. Os casos "Paradise Papers" ou "Panama Papers" foram despolitizados ao máximo possível e as propostas de medidas para impedir estes movimentos financeiros não foram apoiadas.

    Os jornalistas sujeitos às classes decadentes e corruptas têm, como elas, medo da verdade, como disse Jaurès em 1904! Eles pertencem a esse "extremo centro", no coração da ideologia servil do sistema mediático, uma opção que permite sucessivamente todas as adesões (Sarkozy, Holland e Macron, este último omnipresente em todas as suas facetas e em todos os canais), expressão de um "novo" mundo, perfeitamente análogo ao antigo. Envergando as vestes da "moderação" sobre as questões financeiras mais "delicadas", os media dominantes salvaguardam o liberalismo financeiro e o seu lugar fora de qualquer controvérsia política!

    Para os observadores "honestos", como são os jornalistas dos grandes media, o mundo está dividido sem distinção entre dois tipos de Estado, dois tipos de sistemas socioeconómicos, liderados por dois tipos de líderes: os "bons" (EUA, mesmo com Trump, o capitalismo e os responsáveis alemães e britânicos...) e os "maus" (Rússia, China, Irão, além de Putin, os dirigentes do PC da China, etc). Os meios de comunicação não estabelecem diferenças: estes nunca conseguem nada, estão em permanente crise e ameaçam-nos perigosamente! Em suma, tudo ficaria bem no mundo se eles não existissem.

    O delírio às vezes atinge novos patamares: nas últimas décadas, somam-se os absurdos acumulados contra a Coreia do Norte ou a Líbia!

    Os media ocidentais não cessaram, por exemplo, de anunciar a morte do regime de Pyong Yang brandindo a ameaça que representava para a paz no mundo, encarnada pelo desfile militar, apresentado em todos os ecrãs, visivelmente a única actividade dos norte-coreanos fanatizados. A este espectáculo edificante, foram adicionados, até à reviravolta de Trump, comentários na televisão e na rádio pelos "especialistas" mais analfabetos sobre os horrores sem paralelo do regime norte-coreano.

    A evolução dos Estados Unidos sobre o assunto colocou em reverso a desinformação europeia que então, com pesar, mudou de tom e ... de "especialistas", sem no entanto lembrarem os danos económicos, políticos e humanos de 70 anos de embargo!

    Kaddafi, comparado a um louco perigoso, e a Jamahiriya líbia, não foram melhor tratados até a guerra de Sarkozy e B-H. Levy destruindo todo o país que oito anos depois ainda vive no caos! Os media preferem ainda hoje manter um silêncio quase total sem o menor arrependimento.

    Por outro lado, o menor sobressalto positivo na Arábia Saudita, como a carta de condução para mulheres, é saudado como um grande avanço democrático! Dólares e petróleo assim obrigam!

    Na África (especialmente de língua francesa), onde se multiplicam eleições presidenciais fraudulentas, os media ocidentais dominantes fazem prova de discrição: a indignação por fraude eleitoral é orientada noutras direcções! É que os media devem ser prudentes com os Bolloré e outros grandes grupos como o Total com interesses nessas terras difíceis e, portanto, são complacentes com as autoridades locais mais corruptas. [9]

    Quando as tropas da NATO destruíram todo o Médio Oriente e continuam a fazê-lo com a Arábia Saudita no Iémen, é "explicado" que essas guerras são conduzidas de acordo com o direito humanitário, o que não é o caso dos russos na Síria, por exemplo, "aliado incondicional" do carrasco de Damasco! Os jornalistas não precisam se perguntar sobre o custo das"guerras justas", mas apenas sobre o das intervenções russas ou iranianas, cuja maleficência é óbvia!

    A nova ditadura brasileira não preocupa os jornalistas especialistas da América do Sul. Por outro lado, a Venezuela chavista merece todas as acusações, embora o regime bolivariano tenha tirado, antes de sofrer a crise actual em grande parte devido às políticas americanas, milhares de venezuelanos de miséria!

    Está claro para os media dominantes que nenhuma experiência de orientação socialista pode beneficiar do mínimo de crédito, porque, é desnecessário dizer, nenhuma "deve" ter sucesso!

    De Allende a Maduro, passando pelo regime cubano, foi mediaticamente proclamado que o fracasso estava programado. E são tantos os golpes na esquerda ocidental quando esta é solidária!
    (...)

    Tendo necessidade de inimigos, o sistema mediático cultiva um espírito de "guerra fria" e um mundo unipolar cujo centro é o Ocidente, contra qualquer avanço de uma multipolaridade, no entanto favorável às trocas e à manutenção de uma paz justa.

    A NATO (ao contrário das Nações Unidas) nunca é questionada, apesar do protagonismo desempenhado pelos Estados Unidos e pelo seu unilateralismo agressivo (800 bases militares em todo o mundo). Pelo contrário, é apoiada pelos media, como vimos na crise ucraniana, na reintegração da Crimeia na Rússia e na agressividade polaca ou báltica em relação ao Kremlin.

    Quanto aos direitos humanos e humanitários, são tratados de maneira muito diferente, conforme os casos.

    Às vezes, ocupam o essencial ao ponto de subordinarem qualquer outro problema; são esquecidos quando os poderes que os violam estão associados ao Ocidente, como é o caso da Turquia de Erdogan, um pivô da Aliança Atlântica, inclusive quando massacrou o povo curdo. O mesmo vale para os direitos dos migrantes dos quais se esquece que são humanos, postos de parte perante uma política securitária cada vez mais invasiva.

    Estas orientações gerais não excluem expressões pontuais de posições críticas, fazendo acreditar que não há monolitismo, ilusão que tem o "mérito" de reforçar a credibilidade de um pensamento conformista, mas renovado, se o compararmos, por exemplo, com a época gaulista dos primórdios da V República Francesa. A falsa "elite" que exerce a sua hegemonia através dos media tem, é necessário reconhecê-lo, a capacidade de inovar e oferecer à opinião pública as variações que lhe permitem perdurar. [9]

    Assim, dia após dia, desenvolve-se em contínuo a desinformação que formata os cidadãos, utilizando o subterfúgio do internacional, para adoptarem uma posição "politicamente correcta" na ordem interna. É este o único objectivo do tempo e lugar limitados concedidos às relações internacionais. Essa propaganda intensa é na "sociedade democrática", como diz Noam Chomsky, o que a matraca é no Estado totalitário! Se a matraca é dolorosa, a prática dos media ocidentais tem a "virtude" de fabricar em cadeia imbecis e ignorantes que é difícil de curar.

    Parafraseando G. Bachelard que afirmava "não há ciência, apenas crítica", podemos concluir "não há informação autêntica, apenas crítica", ou seja, em ruptura com o Estado e o dinheiro.

    Mas como conseguir isso? No contexto do sistema, é óbvio que o realismo proíbe qualquer solução.

    Mas "realismo", responde Bernanos, "é o bom senso dos patifes".

    Aqui chegámos! 

    [1] Lembremos como os "boatpeoples" de vietnamitas anticomunistas foram "aplaudidos", ao contrário dos refugiados chilenos, por exemplo, expulsos por Pinochet, acolhidos por comunistas e progressistas europeus.
    [2] A. Accardo. Pour une socio-analyse du journalisme, Agnone. 2017.
    [3] Ver A. Lancelin. La pensée en otage. S'armer intellectuellement contre les médias dominants, Les liens qui libèrent, 2018.
    [4] Essa categoria muito privilegiada e muito restrita, adquirida no sistema, deve ser distinguida da massa de jornalistas mais ou menos precários que não podem realmente exercer a sua profissão (metade dos jornalistas franceses ganha o salário mínimo, totalmente dependentes de seu empregador).
    [5] O movimento popular na Coreia do Sul, que, de maneira massiva e pacífica, conseguiu impor a demissão de Mrs. Park em 2017, foi praticamente ignorado na Europa. O "exemplo" era "perigoso"!
    [6] Como é tradição dos governos e dos media franceses, a posição em relação aos eventos na Argélia é a de pôr "dois espetos no mesmo lume": garantindo que qualquer que seja o seguimento poder optar claramente por uma força ou outra (veja-se a "cautela" usada na guerra civil entre os islamitas e o exército nos anos 90 ou nas eleições presidenciais de abril de 2019).
    [7] Quando os jornalistas mais "eminentes" (os únicos responsáveis pelo discurso dominante) são postos em causa pelo seu seguidismo, seu espírito de cortesãos e a sua agressividade (inclusive no Serviço Público) contra os oponentes, eles tendem a fazer bloco, aproveitando o silêncio forçado dos seus colegas mais precários. Eles denunciam "conspirações" e "populismo", sem dar qualquer definição. Esse espírito de corpo é pré-fabricado nas escolas de jornalismo, onde um certo "know-how" é ensinado acima de tudo o resto, sem exigências da necessária cultura crítica.
    [8] As críticas são muito mais firmes quando se trata de certos países mais distantes da Europa, como por exemplo Sudão ou Argélia. Existe, portanto, uma visão muito diferente das práticas internas idênticas dos Estados, de acordo com sua orientação externa. Ver R. Charvin. Nouvelle "guerre froide" ou nouveau type de belligérance? in Relations Internationales (Paris), n° 108. janeiro a março de 2017.
    [9] Felizmente, "A história é um cemitério de elites", como escreve Thomas Bo Homore (Elites and Society, Londres, Watts, 1964).


    A íntegra do original encontra-se em www.investigaction.net/...

    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

    sexta-feira, 30 de agosto de 2019

    Dois marxismos?


    por Greg Godels 
     
    O Google sabe que tenho um interesse permanente no marxismo. Consequentemente, recebo links frequentes para artigos que os algoritmos do Google seleccionam como populares ou influentes. Sistematicamente, no topo da lista, estão artigos de ou sobre o irreprimível Slavoj Žižek. Žižek dominou os truques de um intelectual público – divertido, pomposo, escandaloso, calculadamente obscuro e amaneirado. A pose desalinhada e a barba desgrenhada somam-se a uma quase caricatura do professor europeu, a presentear o mundo com grandes ideias profundamente embebidas em camadas de obscurantismo – uma maneira infalível de parecer profundo. E uma maneira infalível de promover o valor comercial do entretenimento.

    . Seguidores próximos do "mestre" até postam vídeos de Žižek a devorar hot dogs – um em cada mão ! Ele está actualmente a ganhar dinheiro com um debate público com um congénere de direita que é um saco vazio, o qual supostamente torna obscenos os preços dos ingressos. O marxismo como empreendedorismo.

    Žižek é uma das mais recentes repetições de uma longa linhagem de académicos em grande parte europeus que constroem uma modesta celebridade pública a partir de uma identificação com o marxismo ou a tradição marxista. De Sartre e o existencialismo até o estruturalismo, pós-modernismo, pós-essencialismo, pós-fordismo e política identitária, académicos apropriaram-se de partes da tradição marxista e afirmaram repensar aquela tradição, enquanto mantinham uma distância segura e bem medida em relação a qualquer movimento marxista. Eles são marxistas quando isso lhes traz uma audiência, mas raramente respondem ao chamado à acção.

    O curioso sobre este marxismo intelectual, de salão de conversa, o marxismo diletante, é que nunca é completo; é marxismo com reservas sérias. O marxismo é bom se for o do Marx "primitivo", do Marx "humanista", do Marx "hegeliano", do Marx dos Grundrisse, do Marx sem Engels, do Marx sem a classe trabalhadora, do Marx antes do bolchevismo, ou antes do comunismo. Compreensivelmente, se quiser ser o próximo grande domador de Marx, deve separar-se da manada, deve repensar o marxismo, redescobrir o Marx "real", mostrar onde Marx errou.

    Gerações anteriores de estudantes universitários bem-intencionados, mas com confusão de classe, foram seduzidas por pensadores "radicais" que oferecem um gostinho de rebeldia num pacote académico sexy. Estudantes carregam montes de livros não lidos, mas livros de autores na moda como Marcuse, Althusser, Lacan, Deleuze, Laclau, Mouffe, Foucault, Derrida, Negri e Hardt – autores que compartilhavam características comuns com livros de títulos exóticos e provocativos e prosa impenetrável. Livros que prometiam muito, mas entregavam trevas.

    Com uma nova geração de jovens de mentalidade radical em busca de alternativas ao capitalismo e curiosos acerca do socialismo, é inevitável que muitos estejam a olhar para Marx. E para onde se voltam?

    Um professor de Yale desavergonhadamente apresenta na badalada Jacobin Magazine uma cartilha para iniciantes intitulada Como ser um marxista . O professor Samuel Moyn actualmente exerce na cadeira Henry R. Luce [1] de jurisprudência. Aparentemente, Moyn não se sente desconfortável em possuir uma cadeira dotada por um dos mais notórios editores anti-comunistas e anti-marxistas do país quando apresenta o seu guia para o marxismo.

    A pretensão de Moyn de guiar os que não têm conhecimento do marxismo não se justifica nem se explica. No entanto, ele sente-se confiante para recomendar dois académicos recentemente falecidos, Moishe Postone e Erik Olin Wright (juntamente com o ainda vivo Perry Anderson), como representando os últimos da "…geração de grandes intelectuais cujas experiências da década de 1960 levaram-nos a dedicar a vida inteira a recuperar e re-imaginar o marxismo".

    Confesso que a sua escolha de Moishe Postone deixou-me desconcertado. Deveria eu ficar embaraçado por dizer que nunca conheci o trabalho do professor Postone ou que não o conheci como marxista? Quando encontrei no YouTube uma entrevista com o estimado Professor Postone, descobri rapidamente que ele enfaticamente e sem reservas nega ser marxista. Além disso, Postone pretende que a maior parte do que chamamos de marxismo foi escrita por Frederick Engels. Postone admite que Engels era "realmente um bom rapaz", mas que Engels nunca entendeu Marx adequadamente. Postone, por outro lado, sim. E o seu Marx não "glorifica" a classe trabalhadora industrial.

    Estou no entanto familiarizado com o outro alegado exemplar de uma devoção de "grande intelectual" ao marxismo, Erik Olin Wright. Wright foi um membro consagrado e proeminente da chamada escola do "Marxismo Analítico". Wright, como os demais membros desse movimento intelectual, tentou colocar o marxismo numa base "legítima", onde a legitimidade era obtida submetendo o marxismo aos rigores da ciência social anglo-americana convencional. O conceito de que a ciência social anglo-americana é sem viézes ou que nada tem a aprender com o método de Marx jamais é questionado com essa gente. Mas, para crédito de Wright, ele lutou com unhas e dentes para apreender o conceito de classe social.

    A fim de "salvar a esquerda de se meter em vários becos sem saída", o professor Moyn oferece o último livro de seu "colega brilhante", Martin Hägglund. Moyn assegura-nos que "This Life: Secular Faith and Spiritual Freedom" ("Esta vida: Fé laica e libertação espiritual") é excelente para começar por aqueles que querem estimular a teoria do socialismo, ou mesmo construir a sua própria teoria de uma variante marxista dela".

    Basta apenas um breve momento para verificar que Martin Hägglund e seu admirável colega estão a levar-nos a outros becos sem saída, alguns pisados por muitas gerações anteriores. A jornada de Hägglund revisitaria o existencialismo, Hegel e as tradições cristãs em busca do evasivo "sentido da vida". Embora muitos de nós pensassem que Marx oferecia uma análise profundamente informada da mudança social e da justiça social, Moyn / Hägglund, seguindo Postone, avançam com "as perguntas finais que todos devem fazer: que trabalho deveria eu fazer? Como deveria gastar meu tempo finito?" Acumular capital contrapõe-se, sugerem eles, a "maximizar... o tempo livre individual a despendê-lo como lhe agradar..."

    Assim, a luta pela emancipação, neste repensar do marxismo, não é a emancipação da classe trabalhadora, mas o arrebatar de tempo livremente descartável das garras do trabalho. Os professores admitem que esta luta é muito mais fácil para académicos do que para os "miseráveis da terra".

    "E finalmente", conclui Moyn, "há a proposta de Hägglund de que os marxistas podem abandonar o comunismo – que, em qualquer caso, Marx descreveu vagamente – em favor da democracia. Não está totalmente claro o que Hägglund quer dizer com democracia, algo que nem o próprio Marx nem muitos marxistas optaram por investigar teoricamente. Assim, Hägglund destila "marxismo" numa rejeição do comunismo e num abraço de uma vaga "democracia". Eu teria de concordar com Moyn quando ele diz: "Na verdade, é notável quão poucas pessoas pensaram que a teoria marxista tornara-se a tentativa de Hägglund de recomeçá-la no nosso tempo". Aparentemente, o segredo agora revelado de se tornar um marxista é descartar Marx

    Tal como muitos auto-proclamados "marxistas", que antecederam Postone, Hägglund e Moyn, a intenção dos mesmos parece ser mais a de defraudar o marxismo do que a de promovê-lo.

    Ideias perigosas

    A verdade nua e crua é que o marxismo – desde a época da censura de Marx e das suas múltiplas expulsões de diferentes países – é uma ideia perigosa. A incapacidade de Marx de assegurar nomeações académicas e a sua constante vigilância e perseguição por parte das autoridades provou ser um precursor do destino de quase todos os intelectuais marxistas autênticos. O capitalismo não dá àqueles que defendem a destruição do capitalismo honra académica ou celebridade. E aqueles "marxistas" que se tornam aclamados por académicos, que obtêm lucrativos negócios de livros, que desfrutam de exposição nos media, raramente representam grande ameaça ao sistema.

    É um facto revelador que, embora a história tenha produzido muitos marxistas "orgânicos", marxistas com raízes na classe trabalhadora e em movimentos que desafiam o capitalismo, suas contribuições raramente povoam as bibliografias de professores universitários, a menos que sejam para ridicularizá-las. O emprego universitário raramente está disponível para fornecedores de ideias perigosas ou para a defesa de uma versão de Marx que apele a mudanças revolucionárias.

    Um historiador marxista como o falecido Herbert Aptheker – que fez mais do que qualquer outro intelectual para desafiar a representação distorcida, em Nascimento de uma nação / E tudo o vento levou, de um Sul benévolo e da sua heróica defesa de um nobre estilo de vida – não conseguiu encontrar trabalho em universidades dos EUA. Na verdade, até foi preciso um movimento pela liberdade de expressão para que lhe fosse permitido falar nos campi dos EUA. Seus livros desapareceram da circulação e poucos estudantes de história afro-americana têm acesso às suas contribuições.

    Ninguém elaborou uma história do movimento trabalhista americano que rivalizasse com a do falecido marxita Phillip Foner , os 10 volumes de History of the Labor Movement. Os cinco volume de The Life and Writings of Frederick Douglass , também de Foner, restabeleceram Douglasse como uma figura proeminente na abolição da escravatura nos EUA. Uma universidade historicamente negra, a Lincoln University, corajosamente contratou Foner após anos de listas negras. Infelizmente, hoje, suas obras são amplamente ignoradas nos campos em que foi pioneiro.

    As sérias contribuições de muitos outros intelectuais marxistas dos EUA podem ser encontradas em edições antigas de publicações como Science and Society , Political Affairs, Masses, Masses and Mainstream e Freedomways a descansarem em prateleiras recônditas e poeirentas, diminuídas pelo macarthismo, pelas listas negras, pela covardia académica e pelo anticomunismo grosseiro.

    As portas e o discurso público da academia e dos mass media foram igualmente fechados aos marxistas da classe trabalhadora (a menos que renunciassem aos seus pontos de vista!). Apesar de sua liderança dos movimentos da classe trabalhadora e de escrever prolificamente, os trabalhos marxistas de William Z. Foster sobre organização, estratégia e tácticas trabalhistas e economia política estão em grande medida esquecidos, a menos que reapareçam como o pensamento de outra pessoa. A outras importantes figuras marxistas responsáveis por alguns dos melhores momentos da força de trabalho e pela sua interpretação, como Len De Caux e Wyndham Mortimer, é-lhes negada a entrada no clube.

    Analogamente, pioneiros marxistas nos movimentos de igualdade dos negros e das mulheres, como Benjamin Davis, William Patterson e Claudia Jones, não são nem louvados como tais nem são apresentados como exemplos de "Como ser um marxista".

    A obra do economista político marxista Victor Perlo na identificação dos limites superiores do capital financeiro e da teoria económica do racismo estão curiosamente ausentes de qualquer conversação académica relevante.

    O que todos esses marxistas compartilham é uma vida política activista no Partido Comunista dos EUA, um distintivo orgulhoso, mas denegrido pela maior parte dos intelectuais americanos.

    Os melhores escritos da venerável Monthly Review sofrem a mesma marginalização. Seus fundadores foram ameaçados o suficiente para serem vitimizados pelo Red scare . E o seu co-fundador Paul Sweezy, um sério economista político marxista, nunca foi entusiasticamente recebido nos círculos académicos.

    Hoje, Michael Parenti é o mais perigoso intelectual marxista nos EUA. Sei disto porque apesar de incontáveis livros, vídeos e palestras, apesar de um compromisso intransigente com uma interpretação marxista da história e dos acontecimentos actuais, apesar de um profundo, mas fundamentado ódio ao capitalismo, e apesar de um estilo admiravelmente acessível e com grandes ideias, ele não tem emprego em universidades e é-lhe negado acesso a todos os media, excepto os mais à esquerda ou marginais.

    Outro impressionante estudioso marxista dos EUA, Gerald Horne , embora desfrutando de estabilidade académica, merece ser estudado por todos os "esquerdistas" nos EUA pela integridade, acessibilidade e qualidade do seu trabalho.

    O marxismo autêntico, em oposição ao marxismo da moda, do modismo, ou do marxismo caprichoso, é implacável, agressivo e inspirador de acção. Ele disseca diligentemente o funcionamento interno do sistema capitalista. É implacável e impiedoso na sua rejeição ao capitalismo. Ele desafia o pensamento convencional, fazendo poucos amigos na imprensa capitalista e abalando a gentileza e a colegialidade do liberalismo tranquilo da academia. O marxismo não é um avanço de carreira, mas um compromisso ingrato.

    Os marxistas reais são necessariamente anómalos (outliers). Até as condições para mudanças revolucionárias amadurecerem, eles são frequentemente sujeitos a cepticismo, desinteresse, até escárnio e hostilidade. Os que posam como marxistas são alérgicos a organizações políticas, activismo e risco intelectual, ao passo que marxistas comprometidos são obrigados a buscar e unir movimentos pela mudança. Eles são levados a servir a muito citada tese de Marx e raramente atendida na décima primeira tese sobre Feurbach: "Os filósofos só interpretaram o mundo de várias maneiras; a questão no entanto é mudá-lo".
    30/Abril/2019 
     
    [1] Magnata da imprensa, en.wikipedia.org/wiki/Henry_Luce

    O original encontra-se em https://mltoday.com/two-marxisms/

    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

    quarta-feira, 21 de agosto de 2019

    Alucinações circulatórias da moeda e do capital fechando o ciclo


    por José Martins [*]
     
    Marx lembrava com satisfação, na Introdução à Crítica da Economia Política, a inspiradíssima frase de lorde Gladstone – o mais poderoso político e primeiro-ministro inglês da imperialista era vitoriana: "…nem mesmo o amor levou tanta gente à loucura como as cogitações sobre a essência da moeda…"

    Acontece que, na última semana, mais de cento e cinquenta anos depois da morte do poderoso lorde britânico, sua frase reapareceu com cintilante atualidade nas cogitações dos economistas do sistema sobre estranhos movimentos ocorridos na variação dos "preços do dinheiro" (juros) na maior economia do planeta.

    O foco do mercado saiu momentaneamente da política monetária e da popular taxa básica de juros do Federal Reserve Bank (Fed, banco central dos EUA). Ou mesmo das oscilações das principais moedas globais, do preço do ouro, etc.

    Nesta semana aconteceram coisas mais preocupantes para a ordem e o progresso capitalista em todo o mundo. De repente, todas as atenções dos homens do mercado deslocaram-se para as curvas de juros (yelds) dos títulos de dívida dos governos nas principais economias do mundo; dos EUA, principalmente.

    Da moeda para a quase-moeda. Ora, trata-se aqui justamente de um território da acumulação do capital como um todo (produção e circulação) em que a essência da moeda está mais longe do entendimento dos capitalistas e seus limitados economistas que em todas suas outras formas de aparecimento.

    Muito mais distante ainda do entendimento das pessoas comuns em todo o mundo, que não têm a menor ideia nem do que sejam essas quase-moedas dos governos e outras misteriosas formas do valor.

    Mesmo assim assistiram atônitos, no decorrer desta nesta semana, nos noticiários de televisão do horário nobre, os apresentadores informarem em tom grave de voz e testas franzidas de preocupação que estava ocorrendo uma inversão na curva de rendimentos dos títulos de 10 anos e de 2 anos do tesouro dos EUA !!!

    Infelizmente, para o grande público da cidade global os movimentos materiais envelopados em categorias da economia política são muito mais difíceis de serem didaticamente esclarecidos que as encenações da política e de outras formas religiosas da civilização.

    De todo modo, o mundo não para. Às vezes até acelera. Como nesta semana, quando aconteceu uma sucessão de fatos incríveis no processo de circulação do  dinheiro-capital para a definição da data e da profundidade da explosão da próxima crise de superprodução do capital global.

    Observemos inicialmente a superficialidade dos fenômenos. Por volta das 14 horas de quinta feira (15) o rendimento da nota de 10 anos do Tesouro, que se move inversamente ao seu preço de venda, atingiu uma baixa de três anos na marca de 1,467%, abaixo do rendimento dos títulos a 2 anos de 1,475%, seu nível mais baixo desde outubro de 2017.

    Ocorria então aquela incomum e perigosa inversão da curva de rendimentos de um título de longo prazo (10 anos) e de um de curto prazo (2 anos). Isto representa no fechado mundo da economia um paradoxo no fluxo natural do capital produtor de juros e, claro, uma grande preocupação no mercado.

    Não é nem um pouco natural que os capitalistas passem a ser mais bem remunerados por emprestar ao governo dos EUA pelo prazo de 2 anos do que pelo prazo de 10 anos.

    Essa inversão da curva de rendimentos não foi um fato isolado. Ocorreu simultaneamente a outra sinalização também muito importante para a definição do próximo choque periódico e crise do capital.

    Além das peripécias dos títulos de 10 e de 2 anos, pela primeira vez na história os títulos de 30 anos do Tesouro dos EUA estavam pagando um rendimento abaixo de 2,0%, cravando 1,961%, após cair para até 1,941%. Veja no gráfico abaixo a evolução de longo prazo deste rendimento dos títulos de 30 anos.

    Em 1989, os títulos de 30 anos do tesouro dos EUA pagava 10%. Na semana passada estava pagando menos de 2%. Essa queda histórica nos rendimentos dos títulos de longo prazo dos EUA é observada com muita preocupação pelos capitalistas. Por duas razões principais.

    A primeira, porque a inversão dessa parte-chave da curva de juros tem sido historicamente um indicador que se repetiu e que antecipou a aproximação de todos (absolutamente todos) os choques cíclicos do pós-guerra, chamados de "recessão" pelos economistas vulgares.

    A segunda preocupação é com o fato de que crescentes pressões cíclicas sobre o processo de produção e acumulação mundial levaram os capitalistas a tanto medo do seu futuro, no curto-prazo, que o estoque mundial dos títulos dos governos negociados a taxas negativas de rendimentos elevou-se exponencialmente em todo o mundo para um novo recorde dos últimos setenta anos.

    O normal do mercado é que os capitalistas emprestem seu dinheiro ao governo com a promessa de ser pago de volta, acrescidos com juros, na data do vencimento. Juros positivos, portanto. Mas agora, à medida que os capitalistas se tornam cada vez mais desesperadas por um "porto seguro" para sua propriedade privada ameaçada pela próxima crise são os governos de grandes economias que são remunerados ao tomar dinheiro emprestado. Com juros negativos!

    Essa história de juros negativos é muito menos normal do que aquela inversão da curva de rendimentos entre títulos de longo e de curto prazo observada acima.

    Mesmo alguns bancos privados europeus já oferecem empréstimos aos seus fregueses com juros negativos. Você toma emprestado 10 euros agora e paga 9 euros daqui 10 anos. Dá para acreditar? Mesmo assim, pouca gente aparece para aproveitar essa "generosidade".

    Assim, se aprofunda velozmente e se amplia neste final de ciclo econômico a clássica armadilha da liquidez  , na qual as taxas de juros cada vez mais baixas tornam-se, ao mesmo tempo, as maiores do mundo. O sistema de crédito desaparece.

    Esse bizarro fenômeno ocorre na medida em que as pressões deflacionárias nos preços e lucros mundiais das mercadorias-capital dão o sinal de alerta aos capitalistas sobre uma nova e iminente interrupção da acumulação em todas as esferas da circulação capitalista.

    A armadilha da liquidez, o desaparecimento do crédito e, finalmente, o derretimento da moeda, é resultado de um processo deflacionário de preços que se alastra por todo o mercado mundial.

    Cerca de US$ 15 trilhões de títulos do governo em todo o mundo, ou 25% do mercado, já são negociados a taxas negativas, segundo o Deutsche Bank. Este número quase triplicou desde outubro do ano passado.

    Acontece, neste exato momento, um processo inédito de armadilha da liquidez e deflação global no período pós-guerra. Nota-se no gráfico acima o importante fato que esse processo de entrada do capital produtor de juros no território dos rendimentos negativos inicia-se mundialmente no mês de agosto de 2014. Timidamente, até o início de 2016, acelerando-se nos anos seguintes. Finalmente, como já observado acima, o volume deste  entesouramento  é triplicado desde outubro do ano passado.

    Deve ser devidamente registrado o seguinte: o fato de este fenômeno ser inédito nos últimos setenta e cinco anos ter ocorrido apenas recentemente, a partir de 2014, é muito importante para a análise da forma e magnitude específicas da iminente crise global.

    Os bancos centrais globais têm afrouxado sua política monetária em níveis sem precedentes nos últimos setenta anos, com a dívida pública se expandindo descontroladamente na Europa e no Japão com taxas de juros zero ou negativas. Uma superprodução de moeda e de crédito para segurar os preços de produção das mercadorias-capital.

    O montante da dívida global com rendimentos negativos continua a crescer e, à medida que os bancos centrais tentam reagir e se proteger da grande crise global que se aproxima eles contribuem para um declínio ainda maior nos rendimentos dos títulos.

    Na Alemanha e sua poderosa economia industrial os títulos do governo de 30 anos foram negativos pela primeira vez na semana passada.

    Agora, com a mais do que provável entrada dos títulos públicos estadunidenses nesta contabilidade da massa de títulos negociados com taxas de juros negativas, pode-se imaginar que essa bastarda massa de capital passaria a representar instantaneamente não mais apenas 25%, mas de 50 a 70% do total deste títulos públicos em todo o mundo.

    Além desta gigantesca e inédita migração de massas de capital com taxas de juros negativas para os títulos públicos de longo prazo das principais economias vislumbra-se também a extensão e a violência da destruição de capital que deve ocorrer no período de crise que se aproxima. Uma massa de capital de aproximadamente US$ 30 trilhões a ponto de ser instantaneamente incinerada.

    Em outras palavras, é bastante elevada a probabilidade da próxima reversão do período atual de expansão do ciclo para o próximo período de crise desembocar diretamente em uma crise geral ou catastrófica, como descrita por Rosa de Luxemburgo.

    Uma crise catastrófica da economia mundial também seria inédita no período pós guerra dos últimos 75 anos. O mundo viraria de ponta-cabeça. Tudo se tornaria possível.

    No mês passado, o presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi botou mais lenha na fogueira. Sinalizou, do mesmo modo que o Fed vem sinalizando nas duas últimas semanas, que o BCE reduzirá ainda mais as taxas de juros antes do final do ano, já que "um grau significativo de estímulo monetário continua sendo necessário para garantir condições financeiras favoráveis e apoiar a expansão da zona do euro".

    Ao tentar salvar as condições financeiras do sistema ameaçadas pela derrocada econômica na produção de valor e de mais-valia os capitalistas destroem antes o seu sistema monetário e de crédito público.

    É por isso que todas as crises periódicas de superprodução de capital são abertas por uma crise financeira, antes mesmo de alcançar a esfera produtiva e comercial. Este roteiro da realização da crise mistifica ainda mais as suas causas. Para os economistas em geral a crise econômica será sempre apenas mais uma crise meramente financeira ou de crédito.

    Na maneira mais sofisticada desta mistificação, no caso dos marxistas keynesianos, será sempre uma crise de sobre-acumulação, não de superprodução de capital. Tudo é um problema circulatório. Relembrando mais uma vez Rosa de Luxemburgo, estes "epígonos de Marx" estacionaram no livro 2 de O Capital (o Processo de Circulação do Capital) e esqueceram de ler a sequência no Livro 3 (Processo de Conjunto da Produção e Circulação do Capital).

    Na raiz destas dificuldades teóricas (com danosas consequências práticas) encontra-se a confusão que todos esses economistas vulgares fazem da relação orgânica entre  dinheiro-capital, de um lado, e, de outro lado, capital-dinheiro. O primeiro é capital produtor de juro, o segundo é capital produtor de lucro. Daí todos esses revisionismos teóricos dos marxistas do século 21 como "financeirização do capital" e outras asneiras.

    Acontece que na dinâmica econômica, estritamente delimitada pelo ciclo periódico de superprodução e crise do capital, a lei da gravidade (ou do valor) da economia sempre se impõe sobre a desmesurada superprodução de juros ocorrida no período de expansão. Como deflação dos preços mundiais e abrupta redução da autonomia relativa da esfera financeira, além da sagrada autonomia igualmente relativa da política econômica dos governos.

    Em um ciclo econômico completo, a grande massa da superprodução de capital criada no período expansivo consiste deste dinheiro-capital ou (capital-fictício) que, nas fases finais de encerramento do ciclo, como agora, perde progressivamente sua autonomia relativa frente à produção de valor e de mais-valia e se desvaloriza abruptamente.

    Antecipa-se assim, na forma de uma crise de crédito e de uma gigantesca queima de capital, que ora se avizinha, a paralização da produção e a depressão econômica propriamente dita.

    A maior parte deste entesouramento de mais de US$ 15 trilhões detectado pelo Deutsche Bank é de dinheiro-capital, capital produtor de juros, que migra em quase sua totalidade de uma infinidade de ativos financeiros do mercado de capitais, sistema bancário, etc., para o "porto seguro" dos títulos públicos.

    Neste mês de agosto de 2019, este corrosivo processo de superprodução do conjunto do capital se aproxima de seu desenlace na medida exata em que os rendimentos ainda positivos dos títulos públicos dos EUA também se aproximam, como vimos acima, das taxas negativas que já toma conta das principais economias mundiais.

    Anuncia-se inédita e planetária queima de capital. É exatamente nesta tão esperada revelação que reside a grande importância dos fatos ocorridos nesta semana com os enlouquecedores e essenciais movimentos da moeda na maior potência econômica do planeta e no resto do mundo.
    18/Agosto/2019
     
    [*] Economista.

    Ver também:
  • Capital fictício
  • A atualidade de Marx face à financeirização: capital fictício, divida e juro
  • Crise: algumas perguntas e respostas

  • La crisis global y el capital ficticio

    O original encontra-se em criticadaeconomia.com/...


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .  
  • quarta-feira, 14 de agosto de 2019

    O fracasso total da diplomacia de Washington


    por Strategic Culture Foundation
     
    Cartoon iraniano. Aparentemente já não há qualquer tentativa, ou simulacro, de diplomacia por parte de Washington. Sanções e agressões são exercidas com descaramento. A Rússia, a China e mesmo os supostos aliados europeus dos Estados Unidos são sujeitos a sanções por Washington – numa rejeição arrogante a qualquer diálogo para resolver alegados diferendos.

    O presidente dos EUA, Donald Trump, evoluiu para uma certa atitude maximalista estridente nas relações internacionais. Ela pode ser resumida assim: do meu modo ou de modo nenhum.

    Um exemplo recente é a imposição de sanções ao ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Mohammad Javad Zarif. Isto indica que os EUA amputaram qualquer possibilidade de uma desescalada negociada de tensões no Golfo Pérsico.

    Zarif, do Irão, revelou nesta semana que quando estava numa visita diplomática aos EUA no mês passado foi-lhe dito por autoridades que era aguardado na Casa Branca para uma reunião com o presidente Trump. Se Zarif recusasse a "oferta" ele seria então colocado numa lista de sanções, informaram-no. Sob estas circunstâncias de coerção aparente o principal diplomata iraniano declinou o convite, só para descobrir posteriormente que fora na verdade punido com sanções. Que espécie de diplomacia americana é esta? Soa como uma oferta do tipo máfia, que não pode ser recusada.

    Esta abordagem "diplomática" com mão pesada sugere que não há de facto diplomacia alguma proveniente de Washington. O presidente Trump twittou na semana passada que o seu governo estava a "ficar sem opções" em relação ao Irão quanto às crescentes tensões no Golfo Pérsico. Parece que a Casa Branca está a "oferecer" falsas tentativas de negociação, enquanto ao mesmo tempo monta opções militares para atacar o Irão.

    Outro exemplo de diplomacia fracassada foi a renúncia, esta semana, do embaixador dos EUA na Rússia, John Huntsman. Ele abandonou o cargo em parte por frustração com a inutilidade de seu dever diplomático de facilitar o diálogo bilateral com Moscovo. A tarefa de Huntsman tornou-se insustentável devido ao maníaco animo anti-russo agora entranhado em Washington, pelo qual qualquer tentativa de diálogo é retratada como uma espécie de "acto de traição".

    Outro exemplo de repúdio da diplomacia pelos EUA é a ordem executiva de Trump esta semana de impor um embargo comercial total à Venezuela. Aquele país sul-americano está efectivamente a ser submetido à fome para submeter-se a Washington e aceitar que o presidente eleito Nicolas Maduro se retire, de acordo com o ditame dos EUA, a fim de permitir que um duvidoso político da oposição apoiado pelos EUA tome as rédeas do poder em Caracas.

    Estes exemplos, entre muitos outros, demonstram que Washington não tem intenção de buscar um discurso diplomático com outras nações e está totalmente empenhado em emitir ditames – ou utilizar outros meios; a fim de alcançar seus objectivos geopolíticos.

    O mais chocante e perigoso é que Washington está a operar na base do ultimato da soma zero. As premissas para os seus ditames são invariavelmente infundadas ou irracionais. A Rússia é tratada como um Estado pária por alegações bizarras de interferência nas eleições dos EUA; o Irão é tratado como um estado pária sob alegações vazias acerca de uma agressão iraniana; a Venezuela é tratada como um Estado pária com alegações contra um presidente eleito. A China é caluniada com alegações de ser um "manipulador da divisa". A Europa supostamente estaria "a aproveitar" os termos comerciais dos EUA. E assim por diante. É a tirania enlouquecida.

    O padrão do direito internacional e as normas da diplomacia estão a ser jogados no lixo do modo mais deliberado e selvagem possível, puramente na base do capricho americano e na sua agenda em causa própria de dominação.

    Esta é uma situação global extremamente perigosa, pois o viés político americano e o preconceito irracional estão a ser tornados padrão ao invés dos princípios do direito internacional e da soberania das nações. Não há diplomacia absolutamente nenhuma. Só a notificação das exigências americanas de obediência ao ditame irracional de Washington para satisfazer seus anseios de hegemonia.

    Não há outro meio de descrever a presente ilegalidade global do assumido poder americano e do seu farisaísmo senão considerá-la como uma forma de fascismo de estado-pária com esteróides.

    Quando a diplomacia, as negociações, o diálogo e o respeito pela soberania são totalmente desrespeitados por Washington – cuja única resposta são as sanções e a agressão militar – então deveríamos saber que a presente descrição do poder americano não é uma hipérbole. É uma descrição da realidade lamentável de que a diplomacia americana não existe mais. Está a tornar-se passado a possibilidade de conduzir relações normais com esse regime paranóico e sem lei. Um estado pária nuclear, também, capaz de destruir o planeta num capricho ou num impulso paranóico do seu cérebro doentio.

    Poderão os cidadãos americanos controlar um regime tão errático e irracional? O tempo dirá. Mas uma coisa parece certa, a paz mundial é continuamente ameaçada pelo regime de Washington, o qual opera dentro do seu próprio reino de fantasia e megalomania criminal.

    Está claro que a diplomacia dos EUA é um fracasso absoluto. Porque, na tortuosa megalomania guerreira de Washington, a diplomacia parece ter-se tornado totalmente irrelevante. O que é isso senão fascismo?
    09/Agosto/2019 
     
    O original encontra-se em
    www.strategic-culture.org/news/2019/08/09/washingtons-utterly-failed-diplomacy/


    Este editorial encontra-se em http://resistir.info/


    aqui:https://www.resistir.info/eua/fracasso_09ago19.html 

    Publicação em destaque

    Marionetas russas

    por Serge Halimi A 9 de Fevereiro de 1950, no auge da Guerra Fria, um senador republicano ainda desconhecido exclama o seguinte: «Tenh...