sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Divergências no seio do campo anti-imperialista

por Thierry Meyssan

 Quando o seu país foi atacado pelos jiadistas, em 2011, o Presidente Bachar al-Assad reagiu a contra-corrente: em vez de reforçar os poderes dos serviços de segurança, ele diminuiu-os. Seis anos mais tarde, o seu país está em vias de sair vencedor da mais importante guerra desde a do Vietname. O mesmo tipo de ataque está em vias de se produzir na América Latina, onde suscita uma resposta muito mais dentro do habitual. Thierry Meyssan expõe aqui a diferença de análise e estratégia dos Presidentes Assad por um lado, Maduro e Morales pelo outro. Não se trata de colocar esses líderes em compita, mas de apelar a cada um deles para extrair lições políticas e tomar em boa conta a experiência das últimas guerras.

 Em Maio de 2017, Thierry Meyssan explicava na Russia Today em que é que as elites sul-americanas se enganam quanto ao imperialismo dos EUA. Ele insistia acerca da mudança de paradigma dos conflitos armados actuais e a necessidade de repensar, radicalmente, a maneira de defender a pátria.


A operação de desestabilização da Venezuela prossegue. Numa primeira fase, grupúsculos violentos, manifestando-se contra o governo, mataram transeuntes, ou seja cidadãos que se tinham juntado a eles. Num segundo tempo, os grandes distribuidores de géneros alimentares montaram uma rotura de abastecimentos nos supermercados. Depois, alguns membros das forças da ordem atacaram dois ministérios, apelaram à rebelião e entraram na clandestinidade.

A imprensa internacional não cessa de atribuir ao «regime» os mortos das manifestações enquanto que numerosos vídeos atestam que eles foram deliberadamente assassinados pelos próprios manifestantes. Com base nestas falsas informações, ela qualifica o Presidente Nicolas Maduro de «ditador» como já o havia feito, seis anos atrás, vis-à-vis a Mouamar Kadhaffi e a Bachar al-Assad.

Os Estados Unidos utilizaram a Organização dos Estados Americanos (OEA) contra o Presidente Maduro da mesma maneira como usaram anteriormente a Liga Árabe contra o Presidente al-Assad. Caracas, sem esperar ser excluída da Organização denunciou tal método e abandonou-a ela própria.

No entretanto o governo Maduro apresenta duas falhas no seu activo:
- uma grande parte dos seus eleitores não se deslocou às urnas aquando das eleições legislativas de Dezembro de 2015, deixando a oposição arrecadar a maioria no Parlamento.
- deixou-se surpreender pela crise dos géneros alimentícios, quando, no passado, este tipo de manobra já tinha sido montado no Chile contra Allende e na Venezuela contra Chávez. Precisou de várias semanas para montar novos circuitos de aprovisionamento.

Com toda a probabilidade, o conflito que começa na Venezuela não irá parar nas suas fronteiras. Ele abrasará todo o Noroeste do continente sul-americano e as Caraíbas.

Um passo suplementar foi franqueado com preparativos militares contra a Venezuela, a Bolívia e o Equador, a partir do México, da Colômbia e da Guiana Inglesa. Esta coordenação é operada pela equipe do antigo Gabinete Estratégico para a Democracia Global (Office of Global Democracy Strategy); uma unidade criada pelo Presidente Bill Clinton, depois prosseguida pelo Vice-presidente Dick Cheney e pela sua filha Liz. A existência deste foi confirmada por Mike Pompeo, o actual director da CIA. O que levou, portanto, à menção na imprensa pelo presidente Trump da existência de uma opção militar dos Estados Unidos.

Para salvar o seu país, a equipe do Presidente Maduro recusou seguir o exemplo do Presidente al-Assad. Segunda ela, as situações são completamente diferentes. Os Estados Unidos, principal potência capitalista, atacariam a Venezuela afim de lhe roubar o seu petróleo, de acordo com um esquema muitas vezes repetido no passado, em três continentes. Este ponto de vista acaba de ser apoiado por um discurso recente do Presidente boliviano, Evo Morales.

Lembre-mo-nos que em 2003 e 2011, o Presidente Saddam Hussein, o Guia Muammar Kadhafi e muitos conselheiros do Presidente Assad mantinham a mesma análise. Segundo eles, os Estados Unidos implicaram-se sucessivamente no Afeganistão e no Iraque, depois na Tunísia, no Egipto, na Líbia e na Síria unicamente para fazer cair os regimes que resistiam ao seu imperialismo e controlar os recursos de hidrocarbonetos do Médio-Oriente Alargado. Inúmeros autores anti-imperialistas seguem esta análise, na actualidade, por exemplo tentando explicar a guerra contra a Síria pela interrupção do projecto do gasoduto catariano.

Ora, esta análise mostrou-se errada. Os Estados Unidos não buscavam nem derrubar os governos progressistas (Líbia e Síria), nem roubar o petróleo e gás da região, mas, sim destruir os Estados, para reenviar as populações à pré-história, para a época em que «o homem era o lobo do homem».

Os derrubes de Saddam Hussein e de Muammar Gaddafi não restabelecerem a paz. As guerras continuaram apesar da instalação de um governo de ocupação no Iraque, depois governos na região incluindo colaboradores do imperialismo opostos à independência nacional. Elas continuam ainda atestando que Washington e Londres não queriam derrubar regimes, nem defender democracias, mas antes esmagar os povos. É uma constatação fundamental que altera a nossa compreensão quanto ao imperialismo contemporâneo.

Esta estratégia, radicalmente nova, foi ensinada por Thomas PM Barnett desde o 11- de-Setembro de 2001. Ela foi publicamente revelada e exposta em Março de 2003 —quer dizer precisamente antes da guerra contra o Iraque— num artigo na Esquire, depois no livro homónimo do Pentágono The Pentagon’s New Map («O Novo Mapa do Pentágono»- ndT), mas ela parece tão cruel que ninguém imaginou que pudesse vir a ser posta em acção.

Trata-se para o imperialismo de dividir o mundo em dois : de um lado uma zona estável que beneficia do sistema, do outro um caos espantoso onde ninguém pense sequer em resistir, mas unicamente em sobreviver; uma zona na qual as multinacionais possam extrair as matérias primas, das quais precisam, sem terem que dar satisfações a ninguém.

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Segundo este mapa, extraído de um Powerpoint de Thomas P. M. Barnett durante uma conferência no Pentágono em 2003, todos os Estados da zona rosada devem ser destruídos. Este projecto nada tem a ver nem com a luta de classes, no plano nacional, nem com a exploração dos recursos naturais. Depois do Médio-Oriente Alargado, os estrategas dos EU preparam-se para reduzir a ruínas o Noroeste da América Latina.

Desde o século XVII e a guerra civil britânica, o Ocidente desenvolveu-se entre o medo do caos. Thomas Hobbes ensinou-nos a suportar a “Razão de Estado”, em vez de arriscar reviver esse tormento. A noção de caos só nos voltou a ser trazida com Leo Strauss, após a Segunda Guerra Mundial. Este filósofo, que formou pessoalmente numerosas personalidades do Pentágono, entendia construir uma nova forma de Poder mergulhando uma parte do mundo no inferno.

A experiência do jiadismo no Médio-Oriente Alargado mostrou-nos o que é o caos.

Tendo reagido como se esperava dele aos acontecimentos de Daraa (março-abril de 2011), enviando o exército para reprimir os jiadistas da mesquita al-Omari, o Presidente al-Assad foi o primeiro a compreender aquilo que se passava. Longe de aumentar os poderes das forças de segurança para reprimir a agressão externa, ele deu ao povo os meios para defender o país.

Primeiro, levantou o estado de emergência, dissolveu os tribunais de excepção, libertou as comunicações de Internet, e proibiu às forças armadas de fazer uso das suas armas quando isso pudesse colocar em risco inocentes.

Estas decisões contra-a-corrente implicavam pesadas consequências. Por exemplo, aquando do ataque a um comboio militar em Banias, os soldados abstiveram-se de usar as suas armas em legítima defesa. Arriscaram ser mutilados pelas bombas dos atacantes, e até morrer, mais do que atirar, pelo risco de ferir os habitantes que os viam ser massacrados sem intervir.

Como muitos, à época, eu pensei que se tratava de um Presidente fraco e de soldados demasiado leais, que a Síria ia ser esmagada. No entanto, seis anos mais tarde, Bashar al-Assad e os exércitos sírios ganharam a sua aposta. Se a princípio, os soldados lutaram sozinhos contra a agressão estrangeira, pouco a pouco, cada um dos cidadãos foi-se envolvendo, cada um em seu posto, afim de defender o país. Os que não puderam ou não quiseram resistir exilaram-se. Claro, os Sírios têm sofrido muito, mas a Síria é o único Estado no mundo, após a guerra do Vietname (Vietnã-br), a ter resistido até que o imperialismo se cansa e desiste.

Em segundo lugar, face à invasão de uma multidão de jiadistas originários de todas as comunidades muçulmanas, desde Marrocos até à China, o Presidente Assad decidiu abandonar uma parte do território para conseguir salvar o seu Povo.

O Exército Árabe Sírio recuou para a zona da “Síria útil”, quer dizer para as cidades, abandonando as zonas rurais e os desertos aos agressores. Enquanto Damasco velava, sem nenhuma falha, pelo aprovisionamento de alimentos a todas as regiões que controlava. Contrariamente a uma ideia feita no Ocidente, apenas houve fome nas áreas controladas pelos jiadistas e em algumas cidades sitiadas por eles; os «rebeldes estrangeiros» (perdoem o “oxímoro”), aprovisionados pelas associações «humanitárias» ocidentais, utilizaram a distribuição de pacotes de alimentos para controlar as populações que eles próprios submetiam à fome.

O povo sírio constatou por si próprio que apenas a República, e não, os Irmãos Muçulmanos e seus jiadistas, o alimentava e o protegia.

Em terceiro lugar, o Presidente Assad traçou, aquando de um discurso pronunciado a 12 de Dezembro de 2012, a maneira como ele pensava refazer a unidade política do país.

Ele indicou, nomeadamente, a necessidade de redigir uma nova constituição e de submetê-la à adopção por uma maioria qualificada do Povo, depois proceder à eleição democrática da totalidade dos responsáveis institucionais, neles incluído o Presidente, é claro.

À época, os Ocidentais fizeram troça da pretensão do Presidente Assad em convocar eleições em pleno período de guerra. Hoje em dia, todos os diplomatas envolvidos na resolução do conflito, incluindo os das Nações Unidas, apoiam o plano Assad.

Enquanto os comandos jiadistas circulavam por todo o país, nomeadamente em Damasco, e assassinavam políticos em suas casas com suas famílias, o Presidente Assad encorajava os seus opositores internos a pronunciarem-se. Ele garantiu a segurança do liberal Hassan al-Nouri e do marxista Maher al-Hajjar afim de que assumissem, também, o risco de se apresentarem à eleição presidencial de Junho de 2014. Apesar do apelo ao boicote pelos Irmãos Muçulmanos e pelos governos Ocidentais, apesar do terror jiadista, apesar da presença no exílio, no exterior, de milhões de cidadãos, 73,42% dos eleitores responderam presente.

Identicamente, desde o início da guerra, ele criou um Ministério da Reconciliação Nacional, o que jamais se vira num país em guerra. Ele confiou-o ao presidente de um partido aliado, o SSNP, de Ali Haidar. Este negociou e concluiu mais de um milhar de acordos promovendo a amnistia(anistia-br) de cidadãos que havia pegado em armas contra a República e a sua integração no seio do Exército Árabe Sírio.

Durante esta guerra, o Presidente Assad jamais usou a força contra o seu próprio Povo, por muito mal que digam aqueles que o acusam gratuitamente de torturas generalizadas. Assim, por exemplo, ele nunca estabeleceu a conscrição em massa, o recrutamento obrigatório. É sempre possível a um jovem escapar ao serviço militar. Procedimentos administrativos permitem a qualquer cidadão do sexo masculino escapar ao serviço nacional se ele não quiser defender o seu país de armas na mão. Apenas os exilados, que não tiveram a oportunidade de proceder a estas “démarches” podem estar em contravenção das leis.

Durante seis anos, o Presidente Assad não parou de, por um lado, apelar ao seu povo, de lhe conferir responsabilidades e, por outro, de tentar alimentá-lo e protegê-lo tanto quanto podia. Ele assumiu sempre o risco de dar antes de receber. É por isso que, hoje em dia, ele ganhou a confiança do seu Povo e pode contar com o apoio activo.

As elites sul-americanas enganam-se quando continuam a luta das décadas precedentes por uma mais justa distribuição das riquezas. A luta principal não é mais entre a maioria do povo e uma pequena classe de privilegiados. A escolha que se colocou aos povos do Médio-Oriente Alargado e à qual os Sul-americanos terão que responder, por sua vez, é a de defender a Pátria ou morrer.

Os factos provam-no: o imperialismo contemporâneo não visa mais, em especial, meter a mão nos recursos naturais. Ele domina o mundo e pilha sem escrúpulos. Agora, o que ele pretende, também, é esmagar os Povos e destruir as sociedades das regiões nas quais explora já os recursos.

Nesta era de destruição, apenas a estratégia de Assad permite ficar de pé e livre.
 
Tradução
Alva

aqui:http://www.voltairenet.org/article197501.html

domingo, 13 de agosto de 2017

Venezuela: Rupturas na narrativa


por Thierry Deronne
 
Em 2 de agosto pouco depois de uma forte mobilização cidadã que se manifestou pela eleição da Assembleia Constituinte, os venezuelanos puderam ver na Globovision (uma das televisões privadas maioritárias do país) Henry Ramos Allup, um dos mais beligerantes líderes da oposição declarar: "decidimos participar nas eleições regionais, na dos presidentes de câmara e nas presidenciais". [1] Um sector importante da direita demarca-se assim publicamente das violências da extrema-direita de Leopoldo Lopez e admite publicamente a validade do Centro Nacional Eleitoral (CNE), que até à pouco denegria como instrumento chavista. Legitimar o retorno à via democrática preconizado pelo presidente Maduro? A "história contada" a toda a hora, destilada todos os dias, por todos os meios e que em consequência a quase totalidade dos cidadãos ocidentais acreditam, começa a rodar no vazio.

Quanto mais tempo passa, mais o mamute da concentração mundial dos media tem dificuldades em impedir a difusão de elementos que lhe escapam. A imagem de uma guerra civil ou de uma oposição democrática em luta contra um regime repressivo já não se mantém. Sabe-se que a maioria das vítimas foi causada pelas violências da extrema-direita [2] , que esta violência está confinada a alguns por cento do território – zonas ricas ou paramilitarizadas (municípios de direita e fronteira com a Colômbia) – que a grande maioria vive em paz e rejeita estas violências, incluindo eleitores de direita [3] . O "regime" (na realidade um governo eleito) prendeu e julgou rapidamente os membros das forças da ordem que fizeram uso de força de excessiva [4]


 
 
É preciso destruir o perigoso exemplo de uma Assembleia Constituinte. Enquanto em 4 de agosto militantes chavistas, feministas, ecologistas, militantes da cultura popular ou contra a especulação imobiliária estreiam em Caracas os seus lugares de deputados constituintes [5] os grandes media fazem tudo para denegrir o sufrágio dos venezuelanos tornando credíveis as denúncias de "fraude" lançadas desde Londres pelo diretor da Smartmatic – uma sociedade comercial que forneceu máquinas ao Centro Nacional Eleitoral (CNE) mas que não tem acesso aos dados da votação [6] .

Os media não mencionam uma fonte bem mais séria. Após terem observado o escrutínio localmente, o Conselho dos Peritos Eleitorais da América Latina (CEELA) formado por juristas e ex-presidentes de tribunais eleitorais de vários países da América Latina concluiu que "o resultado das eleições na Venezuela é verídico e fiável". O CEELA "utilizou o mesmo sistema que utilizou em todas as eleições, incluindo as de 2015 em que a oposição obteve a maioria dos lugares na Assembleia Nacional". Este sistema eleitoral, qualificado pelo observador Jimmy Carter de "melhor do mundo" [7] permite a "a qualquer pessoa verificar que os votantes foram efetivamente os 8 089 320 anunciados pelo CNE" [8] .

Uma das consequências da velocidade emocional, da comunicação instantânea por satélite, da falta de contexto, etc que caracterizam qualquer campanha de propaganda chama-se a obrigação da média . Por um lado, milhares de órgãos de comunicação martelam-nos exatamente a mesma versão, por outro a Venezuela real permanece distante e de difícil acesso. A maioria dos cidadãos, intelectuais e ativistas é reduzida a fazer uma média forçosamente frágil entre a enorme quantidade de mentiras diárias e uma minoria com verdade. O que dá, no melhor dos casos é que "há uma luta entre blocos, há problemas de direitos humanos, há uma simetria na violência, uma guerra civil e condeno a violência venha do onde vier, etc..." E no pior, o prazer cobarde de repetir os títulos de 99% dos media sem nada saber da Venezuela, de gritar com a matilha para se sentirem poderosos, de apontar o dedo e ir caçar os "partidários do ditador". Em França sobretudo, mas também em Espanha, a Venezuela é substituída por um ecrã em branco para sessões de ajustes de contas entre correntes políticas. O problema é que a quantidade de repetição, mesmo se cria uma qualidade de opinião não faz por si uma verdade. O número de títulos ou de imagens idênticas poderia ser mil vezes mais elevado que isso não significaria que nos falassem do real.

Como, portanto, voltar a conectar-se ao real? Quando o Movimento dos Sem Terra no Brasil, o conjunto dos movimentos sociais [9] , os principais partidos de esquerda da América Latina [10] ou as 28 organizações venezuelanas de direitos humanos [11] denunciam a violenta desestabilização da democracia venezuelana e apoiam a mobilização dos cidadãos para eleger uma Assembleia Constituinte, dispõe-se então de um vasto leque de conhecimentos mais profundos da realidade provenientes de organizações democráticas, que a uma "ciência-política" europeia "média" obrigada a preservar um mínimo de "respeitabilidade" nos media para proteger a sua carreira.

Para não deixar assassinar Salvador Allende de novo e não agredir os que rejeitam a febre da propaganda, que se descobrirá amanhã que tinham razão sobre a Venezuela, a sociedade ocidental necessita de uma democratização radical dos meios de comunicação social – o desenvolvimento do pluralismo de informação em França é obrigação legal do CSA [12] e paralelamente a criação e multiplicação de meios de comunicação fora da esfera privada quer sejam públicos quer associativos, criar novas escolas onde sejam restabelecidos como fatores centrais de um jornalismo ao serviço dos cidadãos: o tempo de investigação, a aquisição de cultura histórica, a possibilidade de viajar aos locais [13] e escutar um sector tão vivo como o dos movimentos sociais.

Caracas, 4 de agosto 2017 

Fotos (Invisíveis nos nossos media): Assembleia Constituinte a instalar-se no Congresso em Caracas, 4 de agosto.

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Notas
1 – Ver entrevista completa na televisão privada Globovision: www.youtube.com/watch?v=9unGt_pSCnM . Na Venezuela a maioria dos media, como a economia em geral são privados e opõem-se às políticas sociais do governo. Ler Thomas Cluzel ou l'interdiction d'informer sur France Culture
2 – Para um gráfico e um quadro exato e completo das vítimas, dos sectores sociais, dos responsáveis e pessoas condenadas, ver venezuelanalysis.com/analysis/13081 ; Sobre os assassinatos racistas da direita: Sous les Tropiques, les apprentis de l'Etat Islamique , 27 juillet 2017; Le Venezuela est attaqué parce que pour lui aussi "la vie des Noirs compte" (Truth Out) 24 de julho de 2017
3 – Sobre as sondagens da firma privada Hinterlaces: Nouveaux sondages surprises au Venezuela (juillet 2017)
4 – Sobre prisões de membros das forças da ordem, ver Direitos Humanos na Venezuela, dois pesos e duas medidas. venezuelanalysis.com/analysis/13081 E um quadro completo da situação em venezuelanalysis.com/analysis/13081
5 – Sobre a mobilização popular para eleger a Constituinte: venezuelainfos.wordpress.com/... pode-se ler entre outros: Quels sont les enjeux du vote du 30 juillet pour l'Assemblée Nationale Constituante ? 28 juillet 2017, De qui ont peur les Etats-Unis et la droite mondiale? 28 juillet 2017, Génération "chaviste rebelle": les visages et les voix des candidat(e)s député(e)s à la Constituante, par Angele Savino (L'Huma) 27 de julho de 2017
6 – Ver "O CNE rejeita as alegações de fraude" www.cne.gob.ve/web/sala_prensa/noticia_detallada.php?id=3554
7 – Former US President Carter : Venezuelan Electoral System "Best in the World" ",
venezuelanalysis.com/news/7272
8 – Informações dadas em conferência de imprensa da CEELA e retomadas por El Universal (jornal da oposição) www.eluniversal.com/...
9 – Reunião de movimentos sociais do Brasil com lista de assinaturas: baraodeitarare.org.br/...
10 – Les partis de gauche et les mouvements sociaux d'Amérique Latine appuient un peuple qui écrit sa constitution à la barbe de l'Empire. 21 de julho de 2017
11 – 28 organisations des droits humains demandent le respect du droit au suffrage pour l'Assemblée Constituante 29 de julho de 2017
12 – Com efeito, segundo a lei, uma das obrigações do Conseil Supérieur de l'Audiovisuel (CSA), as obrigações da lei francesa n° 86-1067 de 30 setembro 1986, modificada e completada relativa à liberdade de comunicação (e que se gostaria de ver aplicada) diz: Artigo 29: o CSA vela para que uma parte suficiente dos recursos em frequência seja atribuída aos serviços editados por uma associação e realizando uma missão de comunicação social de proximidade, entendida como para favorecer as trocas entre grupos sociais e culturais de expressão das diferentes correntes socioculturais, a manutenção do desenvolvimento da proteção do ambiente ou a luta contra a exclusão.
13 – A entrada em força dos grandes acionistas privados no campo mediático levou a cortes nos orçamentos e por consequência à supressão de correspondentes estrangeiros e ao aumento da dependência de agências como a AFP, Reuters ou EFE. Ora estas recentemente procederam ao blanchi le terrorisme d'extrême droite en le relookant comme un "combat pour la liberté" (Reuters) ou fizeram passar les photos d'électeurs chavistes pour des électeurs de droite (EFE) .


O original encontra-se em www.legrandsoir.info/venezuela-ruptures-du-storytelling.html .
Tradução de DVC.


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

sábado, 12 de agosto de 2017

O chamamento da guerra nuclear


por John Pilger
 
O comandante do submarino dos EUA diz: "Todos nós vamos morrer um dia, alguns mais cedo e outros mais tarde. O perturbador sempre foi que nunca se está pronto para isso, pois não se sabe quando é que chega o momento. Bem, agora sabemos e não há nada a fazer".

Ele diz que estará morto em Setembro. Levará cerca de uma semana para morrer, embora ninguém possa estar muito certo. Os animais viverão mais.

A guerra acabou em um mês. Os Estados Unidos, a Rússia e a China foram os protagonistas. Não está claro se foi começada por acidente ou por erro. Não houve vitorioso. O hemisfério norte está contaminado e agora sem vida.

Uma cortina de radioactividade está a mover-se rumo à Austrália e Nova Zelândia, ao sul da África e à América do Sul. Em Setembro, as últimas cidades e aldeias sucumbirão. Tal como no norte, a maior parte dos edifícios permanecerão intactos, alguns iluminados pelos últimos vislumbres de luz eléctrica.

Este é o modo como o mundo acaba
Não com um estrondo, mas com um suspiro


Estas linhas do poema de T.S. Eliot, The Hollow Men (Os homens vazios), surgem no início do romance On the Beach (Na praia) de Nevil Shute, o qual me deixou próximo às lágrimas. Os endossos impressos na capa diziam o mesmo.

Publicado em 1957 na altura da Guerra Fria, quando tantos escritores estavam silenciosos ou acovardados, é uma obra-prima. A princípio a linguagem sugere uma relíquia refinada; mas nada do que li sobre guerra nuclear é tão implacável como a sua advertência. Nenhum outro livro é tão urgente.

Alguns leitores recordarão o filme a branco e preto de Hollywood estrelado por Gregory Peck como comandante da US Navy que leva seu submarino para a Austrália a fim de aguardar o espectro silencioso e informe descer sobre o último ser vivo do mundo.

Li On the Beach pela primeira vez há poucos dias, terminando-o quando o Congresso dos EUA aprovou uma lei para travar guerra económica à Rússia, a segunda mais letal potência nuclear do mundo. Não havia justificação para esta votação insana, excepto a ânsia da pilhagem.

As "sanções" também se destinam à Europa, principalmente à Alemanha, a qual depende do gás natural russo, e a companhias europeias que fazem negócios legítimos com a Rússia. Naquilo que passou por debate no Capitol Hill, o mais palrador dos senadores não deixou dúvida de que o embargo se destinava a forçar a Europa a importar o dispendioso gás americano.

Seu objectivo principal parece ser a guerra – a guerra real. Nenhuma provocação tão extrema pode sugerir qualquer outra coisa. Eles parecem almejar isto, muito embora os americanos tenham pouca ideia do que é a guerra. A Guerra Civil de 1861-65 foi a última no seu território. Guerra é o que os Estados Unidos fazem aos outros.

O único país a ter utilizado armas nucleares contra seres humanos. Desde então eles destruíram grande número de governos, muitos deles democracias, e destruíram sociedades inteiras – os milhões de mortos no Iraque foram um fracção da carnificina na Indochina, a qual o presidente Reagan chamou de "nobre causa" e o presidente Obama corrigiu como a tragédia de um "povo excepcional". Ele não estava a referir-se aos vietnamitas.

Ao filmar no ano passado no Lincoln Memorial, em Washington, ouvi acidentalmente um guia do National Parks Service a dar uma lição a um grupo de escolares adolescentes: "Ouçam", disse ele. "Nós perdemos 58 mil jovens soldados no Vietname e eles morreram a defender a vossa liberdade".

De repente, a verdade era invertida. Nenhuma liberdade foi defendida. A liberdade foi destruída. Um país de camponeses foi invadido e milhões do seu povo foram mortos, mutilados, expulsos, envenenados, 60 mil dos invasores puseram fim à sua própria vida. Ouçam, realmente.

Uma lobotomia é executada a cada geração. Os factos são removidos. A história é expurgada e substituída pelo que a revista Time chama "um eterno presente". Harold Pinter descreveu isto como "manipulação de poder à escala mundial, mascarando-se como uma força para o bem universal, um brilhante, mesmo brilhante, acto de hipnose com grande êxito [o que quer dizer] que nunca aconteceu. Nada alguma vez aconteceu. Mesmo enquanto estava a acontecer não estava a acontecer. Não importava. Não tinha interesse".

Aqueles que se auto-denominam liberais ou tendenciosamente "a esquerda" são participantes ávidos desta manipulação e desta lavagem cerebral, a qual hoje reverte a um nome: Trump.

Trump é louco, um fascista, um tolo da Rússia. Ele também é uma prenda para "cérebros liberais conservados no formaldeído da política de identidade", escreveu Luciana Bohne de modo inesquecível. A obsessão com Trump como homem – não Trump como um sintoma e uma caricatura de um sistema duradouro – atrai grande perigo para todos nós.

Enquanto prosseguem suas fossilizadas agendas anti-russas, media narcisistas tais como o Washington Post, a BBC e o Guardian omitem a essência da mais importante narrativa política do nosso tempo pois fomentam a guerra numa escala de que não posso recordar-me ao longo da minha vida.

Em 3 de Agosto, em contraste com a extensão que o Guardian tem dado à idiotice de que os russos conspiraram com Trump (o que recorda a difamação da extrema-direita de John Kennedy como "agente soviético"), o jornal enterrou, na página 16, a notícia de que o presidente dos Estados Unidos fora forçado a assinar uma lei do Congresso declarando guerra económica à Rússia. Ao contrário de todas as outras assinaturas de Trump, esta foi efectuada em segredo virtual e acrescentada com uma advertência do próprio Trump de que era "claramente inconstitucional".

Está a caminho um golpe contra o homem na Casa Branca. Não por ele ser um ser humano odioso, mas sim porque firmemente deixou claro que não quer guerra com a Rússia.

Este vislumbre de sanidade, ou de simples pragmatismo, é anátema para os administradores da "segurança nacional" que defendem um sistema baseado na guerra, vigilância, armamentos, ameaça e capitalismo extremo. Martin Luther King chamou-os "os maiores fornecedores de violência no mundo de hoje".

Eles cercaram a Rússia e a China com mísseis e um arsenal nuclear. Eles utilizaram neo-nazis para instalar um regime instável e agressivo na fronteira da Rússia – o caminho pelo qual Hitler invadiu, provocando as mortes de 27 milhões de pessoas. O seu objectivo é desmembrar a moderna Federação Russa.

Em resposta, "parceria" é uma palavra usada incessantemente por Vladimir Putin – qualquer coisa, parece, que possa travar nos Estados Unidos um impulso evangélico para a guerra. A incredulidade na Rússia pode agora ter-se transformado em medo e talvez uma certa resolução. Os russos quase certamente têm contra-ataques nucleares preparados. Ensaios de ataques aéreos não são incomuns. A sua história diz-lhes para estarem preparados.

Protestos contra o Talisman Sabre. A ameaça é simultânea. A Rússia é a primeira. A China é a seguir. Os EUA acabam de completar um enorme exercício militar com a Austrália conhecido como Talisman Sabre . Eles treinaram um bloqueio dos Estreitos de Malaca e do Mar do Sul da China, através dos quais passam as linha económicas vitais da China.

O almirante a comandar a frota estado-unidense do Pacífico disse que, "se necessário", ele atacaria a China com armas nucleares. Que ele dissesse tal coisa publicamente na actual atmosfera pérfida começa a tornar facto a ficção de Nevil Shute.

Nada disto é considerado notícia. Nenhuma ligação é feita quando se recorda o festim sangrento de Passchendaele um século atrás. A reportagem honesta já não é bem vinda na maior parte dos media. Pessoas enfatuadas, conhecidas como sabichonas, dominam: editores são administradores de info-entretenimento ou da linha do partido. Onde outrora havia edição, há agora o despejar de clichés para trituração. Aqueles jornalistas que não cumprem são defenestrados.

A urgência tem muitos antecedentes. No meu filme, The Coming War on China (A guerra vindoura à China), John Bordne, membro da equipe de combate de mísseis da US Air Force baseada em Okinawa, Japão, descreve como em 1962 – durante a crise cubana dos mísseis – foi dito a ele e aos seus colegas "para lançar todos os mísseis" a partir dos seus silos.

Armados com o nuclear, os mísseis destinavam-se tanto à China como à Rússia. Um oficial júnior questionou isto e a ordem acabou por ser revogada – mas só depois de terem sido emitidas com revólveres apontados e ordem para atirar numa equipe de míssil se eles não cumprissem.

Na altura da Guerra Fria, a histeria anti-comunista nos Estados Unidos era tal que responsáveis estado-unidenses que foram à China em negócios oficiais foram acusados de traição e despedidos. Em 1957 – o ano em que Shute escreveu On the Beach – nenhum responsável no Departamento de Estado podia falar a língua do país mais populoso do mundo. Falantes de mandariam eram expurgados sob restrições agora reflectidas na lei que o Congresso acabou de aprovar, destinada à Rússia.

A lei foi bipartidária. Não há diferença fundamental entre Democratas e Republicanos. Os termos "esquerda" e "direita" são sem significado. A maior parte das guerras modernas da América foram iniciadas não por conservadores mas sim por liberais democratas.

Quando Obama terminou o seu mandato havia presidido um recorde de sete guerras, incluindo a mais longa guerra da América, e uma campanha sem precedentes de mortes extrajudiciais – assassinatos – através de drones.

OBAMA: TRÊS BOMBAS POR HORA, 24 HORAS POR DIA

No seu último ano de mandato, segundo um estudo do Council on Foreign Relations, o "relutante guerreiro liberal", lançou 26.171 bombas – três bombas por hora, 24 horas por dia. Tendo prometido ajudar a "livrar o mundo" de armas nucleares, o laureado com o Prémio Nobel da Paz construiu mais ogivas nucleares do que qualquer outro presidente desde a Guerra Fria.

Trump é um fraco em comparação. Foi Obama – com a sua secretária de Estado Hillary Clinton ao lado – quem destruiu a Líbia como estado moderno e lançou a debandada humana para a Europa. Internamente, grupos de imigração conhecem-no como o "deportador em chefe".

Um dos últimos actos de Obama como presidente foi assinar uma lei que entrega um recorde de US$618 mil milhões ao Pentágono, reflectindo a ascendência crescente do militarismo fascista na governação dos Estados Unidos. Trump endossou isto.

Enterrado nos pormenores estava o estabelecimento de um "Centro para Análise de Informação e Resposta". Isto é um ministério da verdade. A sua tarefa é providenciar uma "narrativa oficial dos factos" que nos preparará para a possibilidade real da guerra nuclear – se nós o permitirmos.
04/Agosto/2017 
 
O original encontra-se em johnpilger.com/articles/on-the-beach-2017-the-beckoning-of-nuclear-war e em www.globalresearch.ca/on-the-beach-2017/5602709

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Os média e os ursos polares


Comentando um estudo científico, Os ataques dos ursos polares contra humanos: implicações das alterações climáticas [1], os média (mídia-br) internacionais soam o alarme: impulsionados pelo aquecimento global, os ursos polares estariam a atacar os humanos.

Ora, esse não é o sentido deste estudo que versa, na realidade, sobre o comportamento animal e não sobre as alterações climáticas [2].

Além disso, o estudo enumera o conjunto de casos de ataques a humanos por ursos polares desde há um século, tendo o mais recente ocorrido há seis anos atrás, em 2011. Mas não examina a alta exponencial de possibilidades de ocorrência de tais ataques em relação com o crescente número de humanos que frequentam agora o habitat natural dos ursos polares.

Esta campanha ocorre no contexto da saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris sobre o clima, ou seja, da retirada dos EUA da Bolsa de Carbono, a qual deverá enriquecer os seus inventores. Esta bolsa foi criada por David Blood (antigo director do banco Goldman Sachs) e Al Gore (antigo Vice-presidente dos Estados Unidos). Os seus estatutos foram redigidos por Barack Obama (futuro Presidente dos Estados Unidos) [3].

Tradução
Alva

[1] «Polar bear attacks on humans: Implications of a changing climate» («Ataques de ursos polares a humanos : Implicações de um clima em mudança»- ndT), Wildlife Society Bulletin, 2 juillet 2017.
[2] «Polar bears hurt by climate change are more likely to turn to a new food source — humans» (Por exemplo : «Ursos polares atingidos pela mudança climática mais propensos a virarem-se para uma nova fonte alimentar – humanos»- ndT), Cleve R. Wootson Jr., The Washington Post, July 13, 2017.
[3] «1997-2010 : L’écologie financière», par Thierry Meyssan, Оdnako (Russie) , Réseau Voltaire, 26 avril 2010.


aqui: http://www.voltairenet.org/article197162.html

sábado, 15 de julho de 2017

Denunciar o desastre social e o vocabulário do engano (2)


por Michael Hudson
 
A distinção clássica entre rendimento merecido e não merecido

Há uma história falsa e uma história verdadeira. Raramente a história factual é a versão promovida pelos "vencedores" (ou pretensos vencedores – a luta ainda não acabou). Isto também é verdadeiro na teoria económica. Há apenas uma realidade económica, assim em princípio deve haver apenas um corpo de teoria económica: a economia da realidade. Mas interesses especiais (dos vitoriosos de hoje) promovem mistificações e decretam exclusões a fim de se auto-retratarem como heróis económicos, como se os seus ganhos predatórios fossem os da sociedade como um todo. A sua imagem auto-congratulatória caracteriza o que se passa actualmente na teoria económica dominante (mainstream economics).

Ao actuarem em favor da finança, do imobiliário e dos interesses monopolistas defendendo a desregulação e a não aplicação de impostos sobre os seus ganhos, os neoliberais sequestraram os economistas clássicos no seu templo. Eles invocam Adam Smith, enquanto desviam a atenção daquilo que ele e seus seguidores clássicos realmente disseram. Sua reescrita da história do pensamento económico trata a crítica de Smith aos rentistas e ao financiamento por dívida como heresia.

Há dois séculos atrás os economistas clássicos lutaram contra os interesses adquiridos dos rentistas que haviam sobrevivido aos códigos do direito pós-romano e aos senhores feudais subsequentes. Mas a reforma progressista foi interrompida após a Primeira Guerra Mundial. Uma reacção anti-clássica começou a emergir na Era Dourada da década de 1880 e de 1890 e ganhou força após a Primeira Guerra Mundial terminando a tendência para a socialização do capitalismo industrial (por exemplo, saúde pública e pensões, investimento público em infraestruturas e educação) e a mobilização da actividade bancária para o financiamento da indústria, que florescia sobretudo na Alemanha.

As práticas bancárias anglo-americanas emergiram como norma, em aliança com o imobiliário e os monopólios em vez da tríade antes prevista de capitalismo industrial, bancos e governo. A luta entre o que parecia serem as ondas do futuro – "socialismo de Estado" e socialismo marxista – foi posta de lado por uma economia financiarizada de rentistas. Com eles surgiu um novo conjunto de conceitos económicos e definições, cujo objectivo era amortecer a resistência ao que é agora um golpe frontal Anti-Iluminista.

Os interesses dos rentistas vitoriosos reconhecem que enquanto puderem capturar as consciências dos políticos e do público formatando a maneira como as pessoas vêem a dinâmica da economia, não há necessidade de gastar dinheiro para os subornar ou lutar contra eles. Enquanto os 1% puderem controlar o currículo educacional ensinando que estamos no fim da história e que não há alternativa (TINA), eles conseguirão privar os eleitores da capacidade de conceptualizar uma alternativa (ver "baixa cognição" abaixo). Eles promovem a ideia de que a austeridade – e a polarização económica que lhe está associada – é o destino natural da nossa época, não uma reversão do impulso de progresso da sociedade civil.

Não é necessário reinventar a roda para substituir o actual mal-estar por uma análise mais realista. O meu modelo económico visa estabelecer as bases para a criação de um formato mais realista da contabilidade do produto e do rendimento nacional, excluindo do "produto" a sobrecarga rentista. Renda é rendimento sem produto, preço "vazio" de valor. Quando este rendimento é pago ao sector FIRE (finança, seguros e imobiliário) e monopólios, isto é feito à custa de salários, lucros industriais e impostos.

Este livro é, pois, concebido como um antídoto, começando com uma renovação da linguagem usada para descrever como funciona a nossa economia (ou não funciona). Os verbetes de A a Z na secção de vocabulário ilustram esta distinção do ponto de vista histórico e político, bem como do ponto de vista metodológico.

Democracia de "baixa cognição": o nosso oximoro político mais recente

Quando eu era estudante universitário, na década de 1950, a abordagem de Sapir-Whorf à linguística era o padrão. Benjamin Lee Whorf descreveu como o vocabulário e a semântica da linguagem modelam a forma como os oradores conceptualizam o Mundo à sua volta.

O antropólogo Robert Levy com seus estudos na década de 1960 sobre as taxas de suicídio nas ilhas Taiti observou que aumentavam quando acontecimentos infelizes tornavam as pessoas tristes. Mas a sua língua não dispunha de palavra para "triste" ou "deprimido". Eles diziam "doente" ou "estranho" e culpavam-se pela forma como se sentiam. Em outros grupos com vocabulário tosco, atribuem os sentimentos de tristeza ou frustração a uma presença demoníaca que parecia apossar-se das suas vidas. Para descrever este fenómeno, o linguista George Lakoff forjou a expressão "baixa cognição" (hypocognition) a fim de descrever uma condição em que "as palavras ou a linguagem necessária para exprimir uma ideia de forma a obter uma comunicação persuasiva é inexistente ou ineficaz" [2] .

No seu livro de 2004, "Don't Think of an Elephant! Know Your Values and Frame the Debate", ele acusa as doutrinas libertárias do "mercado livre" de [ênfase na] responsabilidade pessoal e do conceito de "menos governo" como sofrendo de "baixa cognição maciça". Na falta de conceitos económicos adequados para entender o que está a tornar as pessoas mais pobres, a ideologia da responsabilidade pessoal leva as pessoas a culparem-se por não serem capazes de evitar ficarem presas num sistema de servidão pela dívida.

O presente guia de A-a-Z tem como objectivo proporcionar o vocabulário e os conceitos para um diagnóstico mais eficaz da actual depressão económica (e, por extensão, psicológica), pensando em termos de juros compostos, servidão pela dívida, economias rentistas, rendimento não merecido, actividades de soma zero e parasitismo económico. Sem tais conceitos no primeiro plano das ideias, as actuais economias neoliberais tendem a sucumbir ao vírus da "dupla linguagem" orwelliana.

A análise económica lixo, com o seu vocabulário eufemístico, procura limitar as ferramentas do pensamento a fim de distrair a atenção quanto às causas – e, por consequência, do remédio necessário. Assim, a falsa teoria do "gotejamento" (trickledown) tece um manto de invisibilidade semântica em torno dos fenómenos do parasitismo rentista. As vidas de muitos devedores parecem ter sido capturadas por uma nuvem demoníaca ou uma personificação económica de Drácula que suga a sua subsistência. Políticos culpam os imigrantes ou outras minorias de tomarem seus empregos, enquanto os lobistas tentam convencer os assalariados e a classe média que o que os mantém tão amarrados à dívida não são os altos custos da habitação, educação e da vida, a serem financiados por hipotecas, empréstimos a estudantes e cartões de crédito. A culpa é deslocada para o governo por aplicar impostos demasiado altos aos 1% e "excesso de regulação", condições burocráticas para a realização de negócios, sobretudo regulamentos para promover o ar limpo, comida saudável e contabilidade honesta.

A iliteracia matemática é uma pré-condição para a generalizada falha em entender este crescimento exponencial das reivindicações do sector financeiro sobre a economia, enquanto a Teoria Económica Lixo deixa de atribuir a polarização económica à dinâmica predatória da deflação da dívida. A dívida está a absorver quase todo crescimento económico em países como a Grécia. Quando o volume da dívida cresce tanto como o rendimento nacional ou o PIB, e quando suporta uma taxa de juros (tipicamente 5%) acima da taxa de crescimento da economia (normalmente apenas 1% a 2%), então todo o crescimento do RN nacional é absorvido pelos credores.

Sem a compreensão generalizada de como a nossa economia se financiarizou e a criação de riqueza e o seu rendimento e riqueza ficou comprometido aos credores, não pode haver nenhuma democracia económica real na qual eleitores elejam representantes que os salvem da depressão e daquilo que Martinho Lutero chamou o demónio Cacus (uma personificação do crescimento exponencial da dívida). Qualquer democracia nominal a que faltem tais conhecimentos económicos é um oximoro, ou seja, uma contradição política interna.

A reescrita da história económica pela redefinição do significado das palavras

A história é escrita pelos vencedores, e os vencedores de hoje são os interesses adquiridos ressurgidos. Assim como a verdade é a primeira vítima da guerra, o passado é reescrito como se inevitavelmente tivesse de levar ao presente. Ao reescrever a história do pensamento económico, os lobistas ao serviço dos rentistas criaram um falso acerca pedigree do que é um clássico mercado livre. O objectivo é dar a impressão que todos os economistas aos quais é concedido estatuto no panteão intelectual endossam a visão actual de que a riqueza e o rendimento são razoavelmente distribuídos e que as elites financeiras são os principais responsáveis pela sua criação.

Nesta nova visão Winston Smith substituiu Adam Smith. No romance "1984", de Orwell o superestado anglo-americano, Oceania, empregou Winston Smith para reescrever o passado. Seu trabalho no Ministério da Verdade era actualizar continuamente a história para que se ajustasse à linha política do Big Brother, sempre em constante mudança. O slogan do Ministério era: "quem controla o passado controla o futuro. Quem controla o presente controla o passado".

A linguística tornou-se desta forma uma vítima tal como a História. Então pode dizer-se que quem controla a línguagem controla a forma como as pessoas se apercebem do mundo à sua volta. Tal como Michael Lewis descreveu em The Big Short : "O mercado de hipotecas subprime tinha um talento especial para obscurecer o que precisava ser esclarecido". Ele explica:
"A linguagem do mercado de títulos serve para um objectivo diferente daquele do mundo exterior. A terminologia do mercado de títulos foi concebida não tanto para transmitir significados e sim para confundir os não iniciados. … Os escalões dos títulos hipotecários subprime não foram chamados de escalões – ou qualquer outra coisa que pudesse levar o comprador de títulos a formar qualquer espécie de imagem concreta em sua mente – mas sim como "fatias" (tranches). A fracção inferior – o arriscado piso térreo – não foi chamada piso térreo, mas o mezanino... o que soa não tanto como um investimento perigoso, mas sim como uma poltrona valiosa num estádio com cobertura.
A escritora de ficção científica Ursula LeGuin, em A Wizard of Earthsea (1968), descreve sabichões treinados por um "Master Namer, um professor que sabe o verdadeiro nome de tudo". Um crítico social moderno comenta a ideia do LeGuin: "O nome verdadeiro é diferente do nome comum, o nome público. Assim, quando se aprende o verdadeiro nome de uma coisa, é-se capaz de repelir qualquer poder que ela tenha sobre si. Precisamos fazer isso com o sistema em que vivemos" [3] .

A designação de nomes verdadeiros está bloqueada por lobistas financeiros e seus estrategistas de relações públicas, os quais produzem o vocabulário usado pelos media populares ao discutirem economia. O objectivo é desviar a atenção de como o mundo realmente funciona, criar uma visão de conto de fadas em que nenhum rendimento é espoliação (extractive) e não há almoços grátis – enquanto na economia real está tudo voltado para a obtenção de almoços grátis.

A fim de preservar os seus privilégios especiais, os interesses adquiridos devem convencer o mundo de que ganham as suas fortunas contribuindo para a prosperidade comum. Eles retratam a Era das Reformas Progressistas e subsequente regulação económica e programas sociais, como uma recaída na autocracia e uma estrada para a servidão pela dívida, não uma fuga ao legado dos interesses feudais rentistas. E quando as políticas ao seu serviço mergulham as economias na austeridade, fazem lóbi para persuadir os governos a absorver suas perdas financeiras.

O rumo da civilização ao longo deste caminho destrutivo é um desvio absurdo da tradição da economia política clássica. Mas como Voltaire exemplarmente observou: "Quem acredita em absurdos comete atrocidades". Os absurdos da economia dominante de hoje conduziram às atrocidades da austeridade na Grécia, ao despovoamento da Letónia e ao desmantelamento pós-soviético da indústria russa e báltico desde 1991. A riqueza crescente dos 1% é conseguida pela imposição de austeridade às economias nacionais e pelo despojamento dos seus activos.

Aplausos para este despojamento de activos e para a economia de bolhas especulativas, como um modelo de negócio – juntamente com a tolerância para a deflação da dívida – mantêm agora o mundo numa depressão profunda ao mesmo tempo que habilita uma classe de rentistas a tornar-se os senhores neofeudais deste século.

A pretensa oposição dos "mercados livres" à servidão/comunismo

Para além do vocabulário desta linguagem, o pensamento é moldado pela metáfora social e pela psicologia de grupo. Em 1928 o livro Propaganda , de Edward Bernays (1891-1996), sobrinho de Sigmund Freud, descreveu a então nova disciplina de relações públicas (seu eufemismo para propaganda) como uma forma de "governo invisível" para manipular eleitores e consumidores jogando com suas esperanças e temores. "Se entendemos o mecanismo e os motivos do espírito de grupo, não será possível controlar e arregimentar as massas de acordo com nossa vontade sem seu conhecimento?" [4] A chave desta técnica, a "engenharia do consentimento" [5] , como Bernays explicou posteriormente, serviu para os estrategistas de relações públicas e seus designados formadores de opinião mobilizarem o "instinto de manada" e criarem uma mentalidade de "nós contra eles" para induzir eleitores e consumidores a actuarem contra seus interesses reais.

Tendo feito campanha em favor de Woodrow Wilson para promover a entrada dos EUA na I Guerra Mundial como um combate contra os "hunos alemães", Bernays ajudou a tornar aceitável e até chique que as mulheres na década de 1920 fumassem, chamando os cigarros de "tochas de liberdade". Mais tarde, apoiou o derrube do presidente democraticamente eleito da Guatemala Jacobo Arbenz, em 1954, pela United Fruit Company ao chamá-lo de "comunista" [6] . A nova junta governativa patrocinada pelos EUA retratou a reversão da reforma agrária e da libertação da escravidão rural pela dívida como restauração dos mercados livres.

Éis como os neoliberais de hoje estruturam as suas políticas a fim de ganhar aceitação pública. "Libertação do comunismo" ("eles") é o meio usado para significar mercados livres ("nós") definidos como oposição à tributação progressiva e outras políticas sociais democráticas do real interesse dos eleitores e dos consumidores. À semelhança das companhias de tabaco que apresentaram médicos para garantir aos consumidores que fumar era saudável (e emagrecia!), os 1% de hoje exibem vencedores do Prémio Nobel de Economia para promover a economia do "gotejamento" e cortes de impostos para os ricos.

Uma extensão lógica da abordagem de Bernays foi o que Leo Strauss, um imigrante alemão que se tornou professor da Universidade de Chicago (1949-69). Strauss ensinou que a maneira de mobilizar pessoas a reboque de uma política era apelar à sua identidade de grupo incutindo o "nós" contra "eles" tal como Bernays havia explicado. Um conjunto de mitos era necessário para modelar a opinião pública, tal como a República de Platão [7] descrevia como uma "mentira nobre" (gennaion pseudos): "uma artimanha para algumas falsidades que venham a ser necessárias – alguma que seja nobre" para ganhar a aceitação das regras das elites como "almas de ouro". Foi o que fizeram os oligarcas gregos quando se auto-denominaram aristocracias ("os melhores"), alegando que as suas acções protegiam a cidade-estado das "almas de bronze" (reformadores populistas demonizados como "tiranos") que podiam ascender ao posto de guardiões do Estado, anular dívidas e redistribuir a terra.

Um outro colega de Strauss em Chicago (1950-1962), Frederick Hayek, amalgamou a Era Progressista de programas sociais, comunismo, nazismo e fascismo tudo junto como sendo intrusões nos "mercados livres" e, portanto, como "o caminho para a servidão". Sua retórica visava reverter o impulso dos economistas clássicos para acabar com os privilégios rentistas e, portanto, livrar a economia real da servidão: uma classe hereditária de senhores da terra e banqueiros que se aliaram a outros interesses de extracção de renda.

Por que é que os neoliberais apoiam os neoconservadores imperialistas

Os ideólogos anti governo chamam ao investimento público em infraestruturas para impedir o sector privado de extrair rendas de "o caminho da servidão", nada menos que isto. A geopolítica desempenha um papel, dado que os investidores dos EUA procuram controlar a obtenção de renda a partir dos recursos naturais e de monopólios públicos de outros países. Este impulso para o controlo une economistas neoliberais a militares neoconservadores que pressionam por "mudanças de regime" nos países que procuram proteger os seus mercados, o domínio público e sistemas bancários a fim de promover seu próprio crescimento e bem-estar.

Os neoconservadores seguidores de Strauss distorceram a "inteligência" em enganosos sofismas para moldaram uma ideologia de Guerra Fria na América [8] . O seu colega, professor em Chicago (1964-80) Albert Wohlstetter prestou-se a servir como conselheiro das teses dos instigadores da Guerra Fria, Paul Wolfowitz e Zalmay Khalizad, um imigrante afegão que mobilizou o apoio dos EUA para os Taliban contra o regime laico aliado da Rússia, inflamando grupos militares fundamentalistas para o derrube de governos do Médio Oriente que procuravam autonomia em relação ao controle dos EUA. Wolfowitz e Khalizad montaram uma campanha de difamação contra Saddam Hussein, muito semelhante à de Bernays contra a Guatemala, afirmando que o Iraque estava a patrocinar a Al Qaeda e tinha armas de destruição em massa [9] .

Os neoliberais criaram uma "nobre mentira" estilo nós-contra-eles ao apropriarem-se de Adam Smith, John Stuart Mill e outros economistas clássicos como se estes houvessem endossado cortes de impostos e a desregulamentação do sector financeiro, do imobiliário e de outros sectores de extracção de renda. Isto é o oposto daquilo que hoje eles realmente advogariam com o aperfeiçoamento da sua teoria da renda para medir e remover fiscalmente ganhos não merecidos.

Tais sofismas com "mentiras nobres" retratam a política económica e fiscal a favor da finança como uma fortaleza democrática contra governos suficientemente fortes para desafiar o poder da alta finança e os interesses seus aliados na extracção de renda. Os 1% procuram criar uma mitologia da tradição, uma dependência como a Síndrome de Estocolmo e uma pseudo-inevitabilidade histórica darwiniana, para orientar o público no apoio aos 1%, como o "nós" universal, enquanto demoniza os defensores dos interesses dos 99% como "eles".

Esta Teoria Económica Lixo do engano promove tratados neoliberais como "reformas" de leis, impostos e regras comerciais, revertendo as reformas reais da Era Progressista. "Peritos" (lobistas corporativos) são enfeitados com as insígnias de prestigiosos títulos académicos para redefinir "progresso" como se não houvesse alternativa racional à mudança do planeamento económico de um governo democrático para os centros financeiros do mundo. Esta nova guerra fria ideológica é administrada pelo FMI, BM e OMC, sob o controle dos Estados Unidos. Países que adoptem políticas que não sirvam a Wall Street e seus satélites financeiros considera-se que caminham para a falta de liberdade – aquela do "outro". Esta inversão do que se pensava ser progresso há um século é um simulacro de liberdade e uma mentira ignóbil – como a maior parte das mentiras ditas "nobres", quando se pensa a respeito. 

[2] George Lakoff, "Women, Fire and Dangerous Things," March 27, 2013, citado em Rebecca J. Rosen, "Millions of Americans are facing a serious financial problem that has no name." The Atlantic, May 7, 2016. Ver também Robert I. Levy, Tahitians: mind and experience in the Society Islands (Chicago: 1975).
[3] Anne Wilson Schaef. When Society Becomes an Addict (Harper, San Francisco, 1987) p. 10.
[4] Edward Bernays, Propaganda (1928), p. 47.
[5] "The Engineering of Consent", Annals of the American Academy of Political and Social Science 250 (March 1947), pp. 113–20.
[6] Stephen Schlesinger and Stephen Kinzer, Bitter Fruit. The Story of the American Coup in Guatemala (1999), pp. 78-90.
[7] Plato, Republic, Book 3, 414b-415d.
[8] Seymour Hersh, "Selective Intelligence", The New Yorker, May 12, 2003.
[9] Jim Lobe, "Leo Strauss's Philosophy of Deception", Alternet, May 18, 2003. www.alternet.org/story/15935/leo_strauss'_philosophy_of_deception . "Tal como Thomas Hobbes, Strauss acreditava que a natureza inerentemente agressiva do seres humanos só podia ser restringida só por um poderoso Estado nacionalista. Tal como ele escreveu "a espécie humana é intrinsecamente perversa e tem de ser governada". Contudo, "tal governação só pode ser estabelecida quando os homens estão unidos – e eles apenas podem ser unidos contra outro povo" Ver também, Scott Horton, "Will the Real Leo Strauss Please Stand Up?" The Harpers blog, July 31, 2016. harpers.org/blog/2008/01/willthe-real-leo-strauss-please-stand-up/


A primeira parte encontra-se em
resistir.info/m_hudson/intro_junk_1.html

O original é o capítulo introdutório do livro "J is for Junk Economics – A Guide to Reality in an Age of Deception" , de Michael Hudson, ISLET, 2017, 404 p., ISBN 978-3-9814842-5-0. Tradução de DVC, revisão de JF. O conteúdo completo do livro é este:

Table of Contents
Foreword: Economies – and Economic Theory – at the Crossroads
Preface and Acknowledgements
Introduction: Social Naming Disorder and the Vocabulary of Deception
A-to-Z GUIDE
A is for Adam Smith. Asset-Price inflation and Austerity
C is for Casino Capitalism and the Client Acadernics who praise it
D is for Debt Deflation and the Debt Peonage it leads to
E is for Economic Rent and "Euthanasia of the Rentier"
F is for Fictitious Capital and the FIRE Sector where it is concentrated.
G is for Grabitization and the Groundrent that is its main objective.
H is for Hubris
I is for Inner Contradiction and the Invisible Hand
J is Junk Bonds and Junk Economics.
K is for Kleptocrat
L is for Leamed Ignorance
M is for Marginalism and the Money Manager Capitalism
N is for Neofeudalism and its Neoliberal advocates
O is for Oligarchy
P is Ponzi Scheme and the Pension-Fund Capitalism that feeds it
Q is for Quandary
R is for Rentiers and the Race to the Bottom they sponsor
S is for Say's Law and Serfdom
T is Trickle-Down Economics
U is for Unearned Income
V is for the Vested Interests
W is for Wealth Addiction
X & Y are for X and Y Axes
Z is for Zero-Sum Activity.
ESSAYS AND ARTICLES
The 22 Most Pervasive Economic Myths of Our Time
Economics As Fraud
Methodology is Ideology, and Dictates Policy
Does Economics Deserve A Nobel Prize? Commonweal 1970
Hudson Bubble Model: From Asset-Price Inflation to Debt-Strapped Austerity (Formulas. and Charts)

AUTHOR INTERVIEW: KILLING THE HOST (Companion book)
Eric Draitser's 2015 CounterPunch Radio interview with Michael Hudson

ABOUT THE AUTHOR
(and Paul Craig Roberts' Hudson Bio)

BOOKS AND PUBLICATIONS BY MICHAEL HUDSON

A-TO-Z GUIDE - MINI INDEX


Esta 2ª parte do capítulo introdutório de "J is for Junk Economics" encontra-se em http://resistir.info/ .

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Denunciar o desastre social e o vocabulário do engano (1)


por Michael Hudson

 
... o declínio de uma linguagem deve em última análise ter causas políticas e económicas... Ela torna-se disforme e imprecisa porque nossos pensamentos são tolos, mas o desmazelo da nossa linguagem facilita termos pensamentos tolos. Argumento que este processo é reversível... Se alguém se livrar destes hábitos poderá pensar mais claramente e pensar claramente é um primeiro passo necessário rumo à regeneração política.
– George Orwell, "Política e língua inglesa" (1946)

“Você pode enganar algumas pessoas o tempo todo. São aquelas em que deveria se concentrar.
– George W. Bush (2001)
 


"A desordem social começa quando se deixa de chamar as coisas pelos seus nomes correctos. O primeiro passo para reformar um mundo mal estruturado é, portanto, a "rectificação dos nomes". Para Confúcio, isto significava restaurar o significado original das palavras.

A terminologia económica actual tem uma óbvia necessidade de tal renovação. Rejeitando a economia clássica de Adam Smith, John Stuart Mill e os seus críticos contemporâneos dos latifundiários e monopolistas, os defensores rendimento não merecido borraram e obscureceram a terminologia económica com eufemismos a fim de negar que há algo como almoços grátis. Os termos rentista (rentier) e usura (usury), que em séculos passados desempenharam um papel central, soam agora como anacrónicos e foram substituídos pelo "pensamento duplo" orwelliano.

Como sabem os publicitários, dar nome a um produto condiciona a forma como as pessoas o percepcionam. Uma vasta operação de relações públicas foi engendrada para inverter o sentido das palavras e fazer com que o preto pareça branco. Em nenhum outro lado esta táctica é tão política quanto na promoção da ideologia económica. O vocabulário actual acerca da riqueza e o seu deslize para uma economia de renda e usura é disfarçado com eufemismos como o progresso rumo a uma sociedade de lazer – não de servidão à dívida. Bolhas financeiras que inflacionam os preços para a compra de uma casa ou planos financeiros específicos de aposentadoria são chamadas de "criação de riqueza", não de "inflação dos preços dos activos alavancados por dívida, ao passo que a contracção de empresas industriais ( downsizing), a sua desintegração ou encerramento é chamada de "criação de valor", não de saqueio.

O vocabulário económico é definido pelos vencedores de hoje – a classe financeira rentista

Alice no país dos espelhos ( Through the Looking-Glass ), de Lewis Carroll, descobre que a definição das palavras depende de quem está no controle. "Quando uso uma palavra – disse Humpty Dumpty, num tom escarninho – ela significa apenas o que eu escolho que signifique – nem mais nem menos. ... A questão é, quem comanda – e isto é tudo".

Assim como a história é escrita pelos vitoriosos, do mesmo modo os direitos adquiridos patrocinam porta-vozes académicos e jornalistas a fim de moldar o vocabulário dos media de maneiras que descrevam a Wall Street a desempenhar um papel produtivo. Quanto mais predatório é o comportamento desta, mais necessário se torna moldar a opinião pública através do abuso de linguagem, concedendo prémios para explicar como "mercados livres" funcionam sem a "interferência" tributária ou a regulamentação da riqueza por parte do governo.

O actual consenso neoliberal de Washington reverte o liberalismo clássico ao favorecer a extracção predatória de renda, políticas fiscais regressivas e desregulamentação económica. Assim, "reforma" agora passa a significar desfazer aquilo que no século XX era considerado reforma. Políticas anti-laborais destinadas reduzir o poder dos sindicatos e a protecção no lugar de trabalho são rotuladas como reformas, tal como são reescritas as leis da bancarrota, revertendo a tendência para um tratamento mais humanitário dos devedores.

Em parte alguma o vocabulário do "duplo pensamento" é mais descarado do que na conquista financeira da Grécia pela "troika" da Eurozona: o Banco Central Europeu, a Comissão Europeia e o FMI. James Galbraith, assessor do ex-ministro das Finanças grego Yanis Varoufakis, foi questionado sobre se "as instituições (FMI, CE e BCE) teriam de resgatar a Grécia indefinidamente". Ele respondeu:
Não existe qualquer "resgate" aqui. Não há "resgate", não há "bailout", não há "reforma" em curso. Preciso insistir nisto, porque estas palavras infestam nosso discurso. Elas são plantadas pelos credores a fim de que pessoas incautas as utilizem, mas nada disso se verifica. O que está a acontecer é uma captura dos activos possuídos pelo Estado grego, pelas empresas e pelas famílias gregas. Não faz sentido dizer que isto tem algo a ver com a recuperação da economia grega ou com o bem-estar do povo grego. Ao contrário, esta política é absolutamente indiferente a tais considerações". [1]
Um vocabulário que retrata a classe financeira como produtiva

Todo grupo de pressão (special interest) procura afirmar-se como justo e equitativo. Banqueiros e latifundiários preferem naturalmente um vocabulário que os retratem como produtivos, ao invés de predadores. Consequentemente, o vocabulário anti-clássico actual redefine "mercados livres" como aqueles que são livres para os extractores de rendas. A fim de impedir a regulação, tributação ou nacionalização – e até mesmo obter subsídios públicos e garantias do governo – os lobistas dos sectores financeiro, seguros e imobiliário (FIRE) retratam a renda e o juro como reflectindo a contribuição dos seus receptadores para a riqueza comum e não os seus privilégios para extrair renda económica da economia.

Aparentemente as contas do Rendimento Nacional e do Produto Interno seguem esta reviravolta linguística ao descreverem juros e rendas como "ganhos", como se banqueiros e proprietários de terras ou imóveis produzissem PIB na forma de crédito e serviços de propriedade. Esta prática está em conflito com a definição de John Stuart Mill de que renda da terra é aquilo que os donos da propriedade são capazes de produzir "enquanto dormem" pela simples cobrança de taxas de acesso a lugares criados pela natureza e cujo valor depende da prosperidade geral da comunidade. Apresentar tais cobranças como "ganhos" por fornecer um "produto" económico é fingir que a extracção de renda reflecte um produto real, como se se tratasse de um serviço proveitoso.

O que está em causa é a definição clássica de renda económica como rendimento não merecido – o excesso de preço sobre o valor real do custo – uma reivindicação ou um privilégio que não reflecte um custo de produção necessário. Tais custos são em última análise redutíveis ao pagamento pelo trabalho. Com efeito, a Teoria do Valor Trabalho foi aperfeiçoada a fim de isolar a renda económica. Ao rejeitar a teoria clássica do valor e do preço, a teoria economia de hoje literalmente livre de valor está baseada no pressuposto de que nenhuma actividade é improdutiva ou extractiva [de renda].

Essa inversão da linguagem deturpa o que os principais economistas clássicos defendiam. Adam Smith e seus colegas reformadores são aclamados por terem favorecido os "mercados livres" e se oporem à "interferência" do governo. Mas aquilo a que eles realmente se opuseram foi a governos controlados pela aristocracia latifundiária, que dominava a política fiscal, por exemplo, pelo poder que detinha na Câmara dos Lordes da Grã-Bretanha para aplicar impostos aos trabalhadores e à indústria ao invés da terra e da finança. Smith criticou as aventuras militares e o colonialismo por darem origem a dívidas de guerra, emissão de títulos do governo a serem pagos com a tributação dos bens de consumo básicos.

No final do século XIX, movimentos reformistas foram ganhando poder. Com a influência de Darwin, quase toda a gente via o capitalismo industrial a evoluir para o que era generalizadamente chamado socialismo. Do socialismo cristão ao "socialismo ricardiano" de Mill e do socialismo utópico ao socialismo libertário de Henry George, o termo "socialismo" tinha uma ampla variedade de acepções. O socialismo marxista descreveu o capitalismo como sendo revolucionário ao levar inexoravelmente a uma mais forte propriedade e direcção pública da economia, frequentemente através de sistemas bancários nacionalizados.

Por surpreendente que possa parecer nos dias de hoje, as ideias clássicas de criação de um mercado livre seriam alcançadas através de reformas "socialistas". O seu objectivo comum era proteger as populações da obrigação de pagar preços que incluíam uma renda não proveniente do trabalho ou um imposto financeiro a pagar aos donos de terras e proprietários de recursos naturais, monopolistas ou detentores de títulos financeiros. Nesse sentido, os detentores de direitos adquiridos protestavam contra a regulamentação pública e a tributação. Eles opunham-se à propriedade pública ou mesmo à tributação de terras, monopólios naturais e bancos. Eles queriam arrecadar rendas e juros, não fazer terras, bancos e infraestruturas monopolistas de carácter público.

Hoje, os neoliberais e seus mascotes libertários procuram ter governos demasiados fracos para cumprirem o programa clássico de tributação da terra e dos recursos naturais, para regular ou impedir os monopólios, ou para proporcionar serviços económicos e financeiros básicos através do investimento público em infraestrutura. Ao denegrir a regulação como sendo "planeamento central", o efeito é abandonar o planeamento aos centros financeiros globais da Wall Street, City de Londres, Frankfurt, Bolsa de Paris, todos eles a fazerem lobby a favor dos seus clientes rentistas. Aqueles que se auto-classificam como libertários tornaram-se portanto anti-iluministas financeiramente patrocinados contra governos democraticamente estabelecidos.

Mercados livres, liberdade e o antídoto para a "falsa visão"

Denis Diderot (1713-1784) organizou a Encyclopédie como um projecto do Iluminismo francês. Publicada em fascículos de 1751 a 1772, continha um mapa do conhecimento humano de acordo com linhas que definiam o programa político do Iluminismo: "O bem do povo deve ser o maior objectivo do governo. Pelas leis da natureza e da razão, os governantes são investidos de poder para esse fim. E o maior bem do povo é a liberdade. Ela é para o Estado o que a saúde é para o indivíduo".

Hoje, o "bem maior do povo" de Diderot acabou por ser revertido pelo pensamento agora dominante na economia que defende a riqueza e o produto acumulado principalmente pelos rentistas, os mesmos que os fisiocratas franceses e seus amigos reformadores pretendiam tributar. A reacção anti-clássica de hoje redefine liberdade para identificar (to connote) liberdade aos predadores das sanções governamentais contra comportamentos socialmente destrutivos. Invertendo o objectivo clássico de libertar os mercados dos rentistas, os neoliberais consideram a regulação de monopólios e das taxas de juro, o investimento público em infraestrutura e a tributação da propriedade e do sector financeiro como sendo uma intrusão na sua liberdade. Isto é antitético à liberdade das populações da dependência a dívidas e ao crédito para ter acesso à habitação, educação, cuidados médicos e outras necessidades básicas.

O Dicionário filosófico de Voltaire (1764) estava intimamente associado à Encyclopédie e escrito num estilo aforístico com o seu humor e ironia habituais para torná-lo uma crítica mordaz e sarcástica à Igreja Católica Romana, à nobreza e ao palácio real. Voltaire à sua própria maneira fez algo semelhante a Orwell quando descrevia o carácter das Ideias falsas:
Temos homens cegos, homens zarolhos, homens vesgos, homens com visão de longo alcance, curtos de vista, fraca visão. Tudo isso corresponde a uma imagem bastante fiel de nossa compreensão; mas estamos mal familiarizados com a falsa visão.
... Por que nos deparamos frequentemente com mentes que são absolutamente falsas em coisas importantes? Por que estes mesmos siameses que nunca se deixam enganar quando se trata de contar-lhes três rúpias, acreditam firmemente nas metamorfoses de Sammonocodom ? ...Os maiores génios podem ter falsas opiniões sobre um princípio que aceitaram sem exame. ...Tudo o que certos tiranos das almas desejam é que os homens a que eles ensinam tenham juízos falsos.
Ao referir-se a um faquir sem dúvida para evitar citar o nascimento através de uma virgem e a ressurreição, Voltaire notou que "quanto mais subtil é a sua mente, mais falsa ela é e forma depois outras mentes tão falsas como a sua". Tais indivíduos "raciocinarão de modo distorcido em toda a sua vida". O meu próprio dicionário critica aos actuais economistas do "mercado livre" neoliberal e similares de raciocínios distorcidos baseados em falsos pressupostos, imune ao senso comum empírico.

O modo de raciocínio mais típico dos que têm Ideias falsas, explicou Voltaire, é "não examinar se o princípio é verdadeiro, mesmo quando se deduzem consequências precisas do mesmo". Este é o método de hoje na análise económica matemática, nas estatísticas do rendimento nacional e especialmente na teoria do comercial internacional e monetária. (Providencio uma lista de citações de vencedores do Prémio Nobel de Economia que seguem tais linhas religiosamente anti-científicas no meu artigo "Economics as Fraud" neste livro.)

A teoria económica neoliberal do "mercado livre" desempenha actualmente o papel que a religião desempenhava nos dias de Voltaire. Mas na academia o aviso que Voltaire deu aos seus leitores permanece verdadeiro: "É perigoso ter razão em assuntos nos quais os homens consagrados estão errados". Talvez por esta razão hoje em dia licenciados em ciências económica colocam as suas dúvidas de lado quando concorrem a uma posição para fazer carreira em universidades respeitáveis.

A terminologia eufemística é usada para tornar populares políticas que de outra forma seriam impopulares ou pelo menos para ganhar tempo confundindo algumas das partes lesadas. Se o objectivo é enfraquecer os sindicatos, rebaixar níveis salariais e reduzir a protecção no local de trabalho, a táctica de relações públicas adequada é tentar cooptar os trabalhadores chamando a tais programas "capitalismo do trabalho" como fez o general Pinochet no Chile após o golpe militar de 1973, ou "capitalismo popular' como a sua admiradora Margaret Thatcher na Grã-Bretanha após a vitória conservadora de 1979. Igualmente, para confundir assuntos adoptando um vocabulário falso para complementar uma falsa narrativa, lobistas das privatizações caracterizaram a regulamentação pública e a protecção dos consumidores como "interferência". Na verdade, é o que em 1944 Frederick Hayek chamou de O caminho da servidão (The Road to Serfdom) – como se o neoliberalismo não fosse o caminho para uma nova servidão e a escravidão pela dívida (debt peonage).

O currículo académico foi sequestrado a fim de substituir a economia política clássica por uma ideologia aparentemente despolitizada, mas que é realmente uma ideologia a favor dos rentistas. Ao simbolismo matemático foi dado o papel santificador que no passado era concedido ao latim. Macaqueando as ciências naturais, economistas refugiam-se em abstrusos modos de expressão. Quanto mais complexa a matemática, mais simplistas e banais tendem a ser as relações postuladas e as conclusões. A maior parte da matemática refere-se a escolhas entre diferentes "menus" de bens e serviços, sem muita análise de como foram estes produzidos, ou sobre as consequências para toda a economia a longo prazo de comprar a crédito ao invés de cash.

Teorias económicas que incidem sobre a troca de bens e serviços sem discutir os meios de adquirir controle sobre a riqueza desviam a atenção do exame daquilo que é mais importante na modelação da economia. Em última análise, o que está em causa é se o jargão económico considera que a economia "real" da produção e do consumo é mais real do que os interesses da finança e da propriedade.

Não é possível resgatar bancos através de bail-outs e de alguma forma dar capacidade aos devedores para pagar. Um lado ou o outro deve perder. É por isso que o problema económico é em última análise o da insolvência, não de mera falta de liquidez temporária. O grande problema económico é se as dívidas devem ser reestruturadas para reflectirem a capacidade de pagamento, ou se os níveis de crescimento e padrões de vida devem ser sacrificados a fim de preservar o valor que os credores reclamam.

(Continua) 

[1] James Galbraith e J. Luis Martin, "The Poisoned Chalice", Open Democracy, 01/Setembro/2015, opendemocracy.net/...

 

O original é o capítulo introdutório do livro "J is for Junk Economics – A Guide to Reality in an Age of Deception" , de Michael Hudson, ISLET, 2017, 404 p., ISBN 978-3-9814842-5-0. Tradução de DVC, revisão de JF. O conteúdo completo do livro é este:
Table of Contents
Foreword: Economies – and Economic Theory – at the Crossroads
Preface and Acknowledgements
Introduction: Social Naming Disorder and the Vocabulary of Deception
A-to-Z GUIDE
A is for Adam Smith. Asset-Price inflation and Austerity
C is for Casino Capitalism and the Client Acadernics who praise it
D is for Debt Deflation and the Debt Peonage it leads to
E is for Economic Rent and "Euthanasia of the Rentier "
F is for Fictitious Capital and the FIRE Sector where it is concentrated.
G is for Grabitization and the Groundrent that is its main objective.
H is for Hubris
I is for Inner Contradiction and the Invisible Hand
J is Junk Bonds and Junk Economics.
K is for Kleptocrat
L is for Leamed Ignorance
M is for Marginalism and the Money Manager Capitalism
N is for Neofeudalism and its Neoliberal advocates
O is for Oligarchy
P is Ponzi Scheme and the Pension-Fund Capitalism that feeds it
Q is for Quandary
R is for Rentiers and the Race to the Bottom they sponsor
S is for Say's Law and Serfdom
T is Trickle-Down Economics
U is for Unearned Income
V is for the Vested Interests
W is for Wealth Addiction
X & Y are for X and Y Axes
Z is for Zero-Sum Activity.
ESSAYS AND ARTICLES
The 22 Most Pervasive Economic Myths of Our Time
Economics As Fraud
Methodology is Ideology, and Dictates Policy
Does Economics Deserve A Nobel Prize? Commonweal 1970
Hudson Bubble Model: From Asset-Price Inflation to Debt-Strapped Austerity (Formulas. and Charts)

AUTHOR INTERVIEW: KILLING THE HOST (Companion book)
Eric Draitser's 2015 CounterPunch Radio interview with Michael Hudson

ABOUT THE AUTHOR
(and Paul Craig Roberts' Hudson Bio)

BOOKS AND PUBLICATIONS BY MICHAEL HUDSON

A-TO-Z GUIDE - MINI INDEX


 

Esta 1ª parte do capítulo introdutório de "J is for Junk Economics" encontra-se em http://resistir.info/ .

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