quinta-feira, 20 de julho de 2017

Os média e os ursos polares


Comentando um estudo científico, Os ataques dos ursos polares contra humanos: implicações das alterações climáticas [1], os média (mídia-br) internacionais soam o alarme: impulsionados pelo aquecimento global, os ursos polares estariam a atacar os humanos.

Ora, esse não é o sentido deste estudo que versa, na realidade, sobre o comportamento animal e não sobre as alterações climáticas [2].

Além disso, o estudo enumera o conjunto de casos de ataques a humanos por ursos polares desde há um século, tendo o mais recente ocorrido há seis anos atrás, em 2011. Mas não examina a alta exponencial de possibilidades de ocorrência de tais ataques em relação com o crescente número de humanos que frequentam agora o habitat natural dos ursos polares.

Esta campanha ocorre no contexto da saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris sobre o clima, ou seja, da retirada dos EUA da Bolsa de Carbono, a qual deverá enriquecer os seus inventores. Esta bolsa foi criada por David Blood (antigo director do banco Goldman Sachs) e Al Gore (antigo Vice-presidente dos Estados Unidos). Os seus estatutos foram redigidos por Barack Obama (futuro Presidente dos Estados Unidos) [3].

Tradução
Alva

[1] «Polar bear attacks on humans: Implications of a changing climate» («Ataques de ursos polares a humanos : Implicações de um clima em mudança»- ndT), Wildlife Society Bulletin, 2 juillet 2017.
[2] «Polar bears hurt by climate change are more likely to turn to a new food source — humans» (Por exemplo : «Ursos polares atingidos pela mudança climática mais propensos a virarem-se para uma nova fonte alimentar – humanos»- ndT), Cleve R. Wootson Jr., The Washington Post, July 13, 2017.
[3] «1997-2010 : L’écologie financière», par Thierry Meyssan, Оdnako (Russie) , Réseau Voltaire, 26 avril 2010.


aqui: http://www.voltairenet.org/article197162.html

sábado, 15 de julho de 2017

Denunciar o desastre social e o vocabulário do engano (2)


por Michael Hudson
 
A distinção clássica entre rendimento merecido e não merecido

Há uma história falsa e uma história verdadeira. Raramente a história factual é a versão promovida pelos "vencedores" (ou pretensos vencedores – a luta ainda não acabou). Isto também é verdadeiro na teoria económica. Há apenas uma realidade económica, assim em princípio deve haver apenas um corpo de teoria económica: a economia da realidade. Mas interesses especiais (dos vitoriosos de hoje) promovem mistificações e decretam exclusões a fim de se auto-retratarem como heróis económicos, como se os seus ganhos predatórios fossem os da sociedade como um todo. A sua imagem auto-congratulatória caracteriza o que se passa actualmente na teoria económica dominante (mainstream economics).

Ao actuarem em favor da finança, do imobiliário e dos interesses monopolistas defendendo a desregulação e a não aplicação de impostos sobre os seus ganhos, os neoliberais sequestraram os economistas clássicos no seu templo. Eles invocam Adam Smith, enquanto desviam a atenção daquilo que ele e seus seguidores clássicos realmente disseram. Sua reescrita da história do pensamento económico trata a crítica de Smith aos rentistas e ao financiamento por dívida como heresia.

Há dois séculos atrás os economistas clássicos lutaram contra os interesses adquiridos dos rentistas que haviam sobrevivido aos códigos do direito pós-romano e aos senhores feudais subsequentes. Mas a reforma progressista foi interrompida após a Primeira Guerra Mundial. Uma reacção anti-clássica começou a emergir na Era Dourada da década de 1880 e de 1890 e ganhou força após a Primeira Guerra Mundial terminando a tendência para a socialização do capitalismo industrial (por exemplo, saúde pública e pensões, investimento público em infraestruturas e educação) e a mobilização da actividade bancária para o financiamento da indústria, que florescia sobretudo na Alemanha.

As práticas bancárias anglo-americanas emergiram como norma, em aliança com o imobiliário e os monopólios em vez da tríade antes prevista de capitalismo industrial, bancos e governo. A luta entre o que parecia serem as ondas do futuro – "socialismo de Estado" e socialismo marxista – foi posta de lado por uma economia financiarizada de rentistas. Com eles surgiu um novo conjunto de conceitos económicos e definições, cujo objectivo era amortecer a resistência ao que é agora um golpe frontal Anti-Iluminista.

Os interesses dos rentistas vitoriosos reconhecem que enquanto puderem capturar as consciências dos políticos e do público formatando a maneira como as pessoas vêem a dinâmica da economia, não há necessidade de gastar dinheiro para os subornar ou lutar contra eles. Enquanto os 1% puderem controlar o currículo educacional ensinando que estamos no fim da história e que não há alternativa (TINA), eles conseguirão privar os eleitores da capacidade de conceptualizar uma alternativa (ver "baixa cognição" abaixo). Eles promovem a ideia de que a austeridade – e a polarização económica que lhe está associada – é o destino natural da nossa época, não uma reversão do impulso de progresso da sociedade civil.

Não é necessário reinventar a roda para substituir o actual mal-estar por uma análise mais realista. O meu modelo económico visa estabelecer as bases para a criação de um formato mais realista da contabilidade do produto e do rendimento nacional, excluindo do "produto" a sobrecarga rentista. Renda é rendimento sem produto, preço "vazio" de valor. Quando este rendimento é pago ao sector FIRE (finança, seguros e imobiliário) e monopólios, isto é feito à custa de salários, lucros industriais e impostos.

Este livro é, pois, concebido como um antídoto, começando com uma renovação da linguagem usada para descrever como funciona a nossa economia (ou não funciona). Os verbetes de A a Z na secção de vocabulário ilustram esta distinção do ponto de vista histórico e político, bem como do ponto de vista metodológico.

Democracia de "baixa cognição": o nosso oximoro político mais recente

Quando eu era estudante universitário, na década de 1950, a abordagem de Sapir-Whorf à linguística era o padrão. Benjamin Lee Whorf descreveu como o vocabulário e a semântica da linguagem modelam a forma como os oradores conceptualizam o Mundo à sua volta.

O antropólogo Robert Levy com seus estudos na década de 1960 sobre as taxas de suicídio nas ilhas Taiti observou que aumentavam quando acontecimentos infelizes tornavam as pessoas tristes. Mas a sua língua não dispunha de palavra para "triste" ou "deprimido". Eles diziam "doente" ou "estranho" e culpavam-se pela forma como se sentiam. Em outros grupos com vocabulário tosco, atribuem os sentimentos de tristeza ou frustração a uma presença demoníaca que parecia apossar-se das suas vidas. Para descrever este fenómeno, o linguista George Lakoff forjou a expressão "baixa cognição" (hypocognition) a fim de descrever uma condição em que "as palavras ou a linguagem necessária para exprimir uma ideia de forma a obter uma comunicação persuasiva é inexistente ou ineficaz" [2] .

No seu livro de 2004, "Don't Think of an Elephant! Know Your Values and Frame the Debate", ele acusa as doutrinas libertárias do "mercado livre" de [ênfase na] responsabilidade pessoal e do conceito de "menos governo" como sofrendo de "baixa cognição maciça". Na falta de conceitos económicos adequados para entender o que está a tornar as pessoas mais pobres, a ideologia da responsabilidade pessoal leva as pessoas a culparem-se por não serem capazes de evitar ficarem presas num sistema de servidão pela dívida.

O presente guia de A-a-Z tem como objectivo proporcionar o vocabulário e os conceitos para um diagnóstico mais eficaz da actual depressão económica (e, por extensão, psicológica), pensando em termos de juros compostos, servidão pela dívida, economias rentistas, rendimento não merecido, actividades de soma zero e parasitismo económico. Sem tais conceitos no primeiro plano das ideias, as actuais economias neoliberais tendem a sucumbir ao vírus da "dupla linguagem" orwelliana.

A análise económica lixo, com o seu vocabulário eufemístico, procura limitar as ferramentas do pensamento a fim de distrair a atenção quanto às causas – e, por consequência, do remédio necessário. Assim, a falsa teoria do "gotejamento" (trickledown) tece um manto de invisibilidade semântica em torno dos fenómenos do parasitismo rentista. As vidas de muitos devedores parecem ter sido capturadas por uma nuvem demoníaca ou uma personificação económica de Drácula que suga a sua subsistência. Políticos culpam os imigrantes ou outras minorias de tomarem seus empregos, enquanto os lobistas tentam convencer os assalariados e a classe média que o que os mantém tão amarrados à dívida não são os altos custos da habitação, educação e da vida, a serem financiados por hipotecas, empréstimos a estudantes e cartões de crédito. A culpa é deslocada para o governo por aplicar impostos demasiado altos aos 1% e "excesso de regulação", condições burocráticas para a realização de negócios, sobretudo regulamentos para promover o ar limpo, comida saudável e contabilidade honesta.

A iliteracia matemática é uma pré-condição para a generalizada falha em entender este crescimento exponencial das reivindicações do sector financeiro sobre a economia, enquanto a Teoria Económica Lixo deixa de atribuir a polarização económica à dinâmica predatória da deflação da dívida. A dívida está a absorver quase todo crescimento económico em países como a Grécia. Quando o volume da dívida cresce tanto como o rendimento nacional ou o PIB, e quando suporta uma taxa de juros (tipicamente 5%) acima da taxa de crescimento da economia (normalmente apenas 1% a 2%), então todo o crescimento do RN nacional é absorvido pelos credores.

Sem a compreensão generalizada de como a nossa economia se financiarizou e a criação de riqueza e o seu rendimento e riqueza ficou comprometido aos credores, não pode haver nenhuma democracia económica real na qual eleitores elejam representantes que os salvem da depressão e daquilo que Martinho Lutero chamou o demónio Cacus (uma personificação do crescimento exponencial da dívida). Qualquer democracia nominal a que faltem tais conhecimentos económicos é um oximoro, ou seja, uma contradição política interna.

A reescrita da história económica pela redefinição do significado das palavras

A história é escrita pelos vencedores, e os vencedores de hoje são os interesses adquiridos ressurgidos. Assim como a verdade é a primeira vítima da guerra, o passado é reescrito como se inevitavelmente tivesse de levar ao presente. Ao reescrever a história do pensamento económico, os lobistas ao serviço dos rentistas criaram um falso acerca pedigree do que é um clássico mercado livre. O objectivo é dar a impressão que todos os economistas aos quais é concedido estatuto no panteão intelectual endossam a visão actual de que a riqueza e o rendimento são razoavelmente distribuídos e que as elites financeiras são os principais responsáveis pela sua criação.

Nesta nova visão Winston Smith substituiu Adam Smith. No romance "1984", de Orwell o superestado anglo-americano, Oceania, empregou Winston Smith para reescrever o passado. Seu trabalho no Ministério da Verdade era actualizar continuamente a história para que se ajustasse à linha política do Big Brother, sempre em constante mudança. O slogan do Ministério era: "quem controla o passado controla o futuro. Quem controla o presente controla o passado".

A linguística tornou-se desta forma uma vítima tal como a História. Então pode dizer-se que quem controla a línguagem controla a forma como as pessoas se apercebem do mundo à sua volta. Tal como Michael Lewis descreveu em The Big Short : "O mercado de hipotecas subprime tinha um talento especial para obscurecer o que precisava ser esclarecido". Ele explica:
"A linguagem do mercado de títulos serve para um objectivo diferente daquele do mundo exterior. A terminologia do mercado de títulos foi concebida não tanto para transmitir significados e sim para confundir os não iniciados. … Os escalões dos títulos hipotecários subprime não foram chamados de escalões – ou qualquer outra coisa que pudesse levar o comprador de títulos a formar qualquer espécie de imagem concreta em sua mente – mas sim como "fatias" (tranches). A fracção inferior – o arriscado piso térreo – não foi chamada piso térreo, mas o mezanino... o que soa não tanto como um investimento perigoso, mas sim como uma poltrona valiosa num estádio com cobertura.
A escritora de ficção científica Ursula LeGuin, em A Wizard of Earthsea (1968), descreve sabichões treinados por um "Master Namer, um professor que sabe o verdadeiro nome de tudo". Um crítico social moderno comenta a ideia do LeGuin: "O nome verdadeiro é diferente do nome comum, o nome público. Assim, quando se aprende o verdadeiro nome de uma coisa, é-se capaz de repelir qualquer poder que ela tenha sobre si. Precisamos fazer isso com o sistema em que vivemos" [3] .

A designação de nomes verdadeiros está bloqueada por lobistas financeiros e seus estrategistas de relações públicas, os quais produzem o vocabulário usado pelos media populares ao discutirem economia. O objectivo é desviar a atenção de como o mundo realmente funciona, criar uma visão de conto de fadas em que nenhum rendimento é espoliação (extractive) e não há almoços grátis – enquanto na economia real está tudo voltado para a obtenção de almoços grátis.

A fim de preservar os seus privilégios especiais, os interesses adquiridos devem convencer o mundo de que ganham as suas fortunas contribuindo para a prosperidade comum. Eles retratam a Era das Reformas Progressistas e subsequente regulação económica e programas sociais, como uma recaída na autocracia e uma estrada para a servidão pela dívida, não uma fuga ao legado dos interesses feudais rentistas. E quando as políticas ao seu serviço mergulham as economias na austeridade, fazem lóbi para persuadir os governos a absorver suas perdas financeiras.

O rumo da civilização ao longo deste caminho destrutivo é um desvio absurdo da tradição da economia política clássica. Mas como Voltaire exemplarmente observou: "Quem acredita em absurdos comete atrocidades". Os absurdos da economia dominante de hoje conduziram às atrocidades da austeridade na Grécia, ao despovoamento da Letónia e ao desmantelamento pós-soviético da indústria russa e báltico desde 1991. A riqueza crescente dos 1% é conseguida pela imposição de austeridade às economias nacionais e pelo despojamento dos seus activos.

Aplausos para este despojamento de activos e para a economia de bolhas especulativas, como um modelo de negócio – juntamente com a tolerância para a deflação da dívida – mantêm agora o mundo numa depressão profunda ao mesmo tempo que habilita uma classe de rentistas a tornar-se os senhores neofeudais deste século.

A pretensa oposição dos "mercados livres" à servidão/comunismo

Para além do vocabulário desta linguagem, o pensamento é moldado pela metáfora social e pela psicologia de grupo. Em 1928 o livro Propaganda , de Edward Bernays (1891-1996), sobrinho de Sigmund Freud, descreveu a então nova disciplina de relações públicas (seu eufemismo para propaganda) como uma forma de "governo invisível" para manipular eleitores e consumidores jogando com suas esperanças e temores. "Se entendemos o mecanismo e os motivos do espírito de grupo, não será possível controlar e arregimentar as massas de acordo com nossa vontade sem seu conhecimento?" [4] A chave desta técnica, a "engenharia do consentimento" [5] , como Bernays explicou posteriormente, serviu para os estrategistas de relações públicas e seus designados formadores de opinião mobilizarem o "instinto de manada" e criarem uma mentalidade de "nós contra eles" para induzir eleitores e consumidores a actuarem contra seus interesses reais.

Tendo feito campanha em favor de Woodrow Wilson para promover a entrada dos EUA na I Guerra Mundial como um combate contra os "hunos alemães", Bernays ajudou a tornar aceitável e até chique que as mulheres na década de 1920 fumassem, chamando os cigarros de "tochas de liberdade". Mais tarde, apoiou o derrube do presidente democraticamente eleito da Guatemala Jacobo Arbenz, em 1954, pela United Fruit Company ao chamá-lo de "comunista" [6] . A nova junta governativa patrocinada pelos EUA retratou a reversão da reforma agrária e da libertação da escravidão rural pela dívida como restauração dos mercados livres.

Éis como os neoliberais de hoje estruturam as suas políticas a fim de ganhar aceitação pública. "Libertação do comunismo" ("eles") é o meio usado para significar mercados livres ("nós") definidos como oposição à tributação progressiva e outras políticas sociais democráticas do real interesse dos eleitores e dos consumidores. À semelhança das companhias de tabaco que apresentaram médicos para garantir aos consumidores que fumar era saudável (e emagrecia!), os 1% de hoje exibem vencedores do Prémio Nobel de Economia para promover a economia do "gotejamento" e cortes de impostos para os ricos.

Uma extensão lógica da abordagem de Bernays foi o que Leo Strauss, um imigrante alemão que se tornou professor da Universidade de Chicago (1949-69). Strauss ensinou que a maneira de mobilizar pessoas a reboque de uma política era apelar à sua identidade de grupo incutindo o "nós" contra "eles" tal como Bernays havia explicado. Um conjunto de mitos era necessário para modelar a opinião pública, tal como a República de Platão [7] descrevia como uma "mentira nobre" (gennaion pseudos): "uma artimanha para algumas falsidades que venham a ser necessárias – alguma que seja nobre" para ganhar a aceitação das regras das elites como "almas de ouro". Foi o que fizeram os oligarcas gregos quando se auto-denominaram aristocracias ("os melhores"), alegando que as suas acções protegiam a cidade-estado das "almas de bronze" (reformadores populistas demonizados como "tiranos") que podiam ascender ao posto de guardiões do Estado, anular dívidas e redistribuir a terra.

Um outro colega de Strauss em Chicago (1950-1962), Frederick Hayek, amalgamou a Era Progressista de programas sociais, comunismo, nazismo e fascismo tudo junto como sendo intrusões nos "mercados livres" e, portanto, como "o caminho para a servidão". Sua retórica visava reverter o impulso dos economistas clássicos para acabar com os privilégios rentistas e, portanto, livrar a economia real da servidão: uma classe hereditária de senhores da terra e banqueiros que se aliaram a outros interesses de extracção de renda.

Por que é que os neoliberais apoiam os neoconservadores imperialistas

Os ideólogos anti governo chamam ao investimento público em infraestruturas para impedir o sector privado de extrair rendas de "o caminho da servidão", nada menos que isto. A geopolítica desempenha um papel, dado que os investidores dos EUA procuram controlar a obtenção de renda a partir dos recursos naturais e de monopólios públicos de outros países. Este impulso para o controlo une economistas neoliberais a militares neoconservadores que pressionam por "mudanças de regime" nos países que procuram proteger os seus mercados, o domínio público e sistemas bancários a fim de promover seu próprio crescimento e bem-estar.

Os neoconservadores seguidores de Strauss distorceram a "inteligência" em enganosos sofismas para moldaram uma ideologia de Guerra Fria na América [8] . O seu colega, professor em Chicago (1964-80) Albert Wohlstetter prestou-se a servir como conselheiro das teses dos instigadores da Guerra Fria, Paul Wolfowitz e Zalmay Khalizad, um imigrante afegão que mobilizou o apoio dos EUA para os Taliban contra o regime laico aliado da Rússia, inflamando grupos militares fundamentalistas para o derrube de governos do Médio Oriente que procuravam autonomia em relação ao controle dos EUA. Wolfowitz e Khalizad montaram uma campanha de difamação contra Saddam Hussein, muito semelhante à de Bernays contra a Guatemala, afirmando que o Iraque estava a patrocinar a Al Qaeda e tinha armas de destruição em massa [9] .

Os neoliberais criaram uma "nobre mentira" estilo nós-contra-eles ao apropriarem-se de Adam Smith, John Stuart Mill e outros economistas clássicos como se estes houvessem endossado cortes de impostos e a desregulamentação do sector financeiro, do imobiliário e de outros sectores de extracção de renda. Isto é o oposto daquilo que hoje eles realmente advogariam com o aperfeiçoamento da sua teoria da renda para medir e remover fiscalmente ganhos não merecidos.

Tais sofismas com "mentiras nobres" retratam a política económica e fiscal a favor da finança como uma fortaleza democrática contra governos suficientemente fortes para desafiar o poder da alta finança e os interesses seus aliados na extracção de renda. Os 1% procuram criar uma mitologia da tradição, uma dependência como a Síndrome de Estocolmo e uma pseudo-inevitabilidade histórica darwiniana, para orientar o público no apoio aos 1%, como o "nós" universal, enquanto demoniza os defensores dos interesses dos 99% como "eles".

Esta Teoria Económica Lixo do engano promove tratados neoliberais como "reformas" de leis, impostos e regras comerciais, revertendo as reformas reais da Era Progressista. "Peritos" (lobistas corporativos) são enfeitados com as insígnias de prestigiosos títulos académicos para redefinir "progresso" como se não houvesse alternativa racional à mudança do planeamento económico de um governo democrático para os centros financeiros do mundo. Esta nova guerra fria ideológica é administrada pelo FMI, BM e OMC, sob o controle dos Estados Unidos. Países que adoptem políticas que não sirvam a Wall Street e seus satélites financeiros considera-se que caminham para a falta de liberdade – aquela do "outro". Esta inversão do que se pensava ser progresso há um século é um simulacro de liberdade e uma mentira ignóbil – como a maior parte das mentiras ditas "nobres", quando se pensa a respeito. 

[2] George Lakoff, "Women, Fire and Dangerous Things," March 27, 2013, citado em Rebecca J. Rosen, "Millions of Americans are facing a serious financial problem that has no name." The Atlantic, May 7, 2016. Ver também Robert I. Levy, Tahitians: mind and experience in the Society Islands (Chicago: 1975).
[3] Anne Wilson Schaef. When Society Becomes an Addict (Harper, San Francisco, 1987) p. 10.
[4] Edward Bernays, Propaganda (1928), p. 47.
[5] "The Engineering of Consent", Annals of the American Academy of Political and Social Science 250 (March 1947), pp. 113–20.
[6] Stephen Schlesinger and Stephen Kinzer, Bitter Fruit. The Story of the American Coup in Guatemala (1999), pp. 78-90.
[7] Plato, Republic, Book 3, 414b-415d.
[8] Seymour Hersh, "Selective Intelligence", The New Yorker, May 12, 2003.
[9] Jim Lobe, "Leo Strauss's Philosophy of Deception", Alternet, May 18, 2003. www.alternet.org/story/15935/leo_strauss'_philosophy_of_deception . "Tal como Thomas Hobbes, Strauss acreditava que a natureza inerentemente agressiva do seres humanos só podia ser restringida só por um poderoso Estado nacionalista. Tal como ele escreveu "a espécie humana é intrinsecamente perversa e tem de ser governada". Contudo, "tal governação só pode ser estabelecida quando os homens estão unidos – e eles apenas podem ser unidos contra outro povo" Ver também, Scott Horton, "Will the Real Leo Strauss Please Stand Up?" The Harpers blog, July 31, 2016. harpers.org/blog/2008/01/willthe-real-leo-strauss-please-stand-up/


A primeira parte encontra-se em
resistir.info/m_hudson/intro_junk_1.html

O original é o capítulo introdutório do livro "J is for Junk Economics – A Guide to Reality in an Age of Deception" , de Michael Hudson, ISLET, 2017, 404 p., ISBN 978-3-9814842-5-0. Tradução de DVC, revisão de JF. O conteúdo completo do livro é este:

Table of Contents
Foreword: Economies – and Economic Theory – at the Crossroads
Preface and Acknowledgements
Introduction: Social Naming Disorder and the Vocabulary of Deception
A-to-Z GUIDE
A is for Adam Smith. Asset-Price inflation and Austerity
C is for Casino Capitalism and the Client Acadernics who praise it
D is for Debt Deflation and the Debt Peonage it leads to
E is for Economic Rent and "Euthanasia of the Rentier"
F is for Fictitious Capital and the FIRE Sector where it is concentrated.
G is for Grabitization and the Groundrent that is its main objective.
H is for Hubris
I is for Inner Contradiction and the Invisible Hand
J is Junk Bonds and Junk Economics.
K is for Kleptocrat
L is for Leamed Ignorance
M is for Marginalism and the Money Manager Capitalism
N is for Neofeudalism and its Neoliberal advocates
O is for Oligarchy
P is Ponzi Scheme and the Pension-Fund Capitalism that feeds it
Q is for Quandary
R is for Rentiers and the Race to the Bottom they sponsor
S is for Say's Law and Serfdom
T is Trickle-Down Economics
U is for Unearned Income
V is for the Vested Interests
W is for Wealth Addiction
X & Y are for X and Y Axes
Z is for Zero-Sum Activity.
ESSAYS AND ARTICLES
The 22 Most Pervasive Economic Myths of Our Time
Economics As Fraud
Methodology is Ideology, and Dictates Policy
Does Economics Deserve A Nobel Prize? Commonweal 1970
Hudson Bubble Model: From Asset-Price Inflation to Debt-Strapped Austerity (Formulas. and Charts)

AUTHOR INTERVIEW: KILLING THE HOST (Companion book)
Eric Draitser's 2015 CounterPunch Radio interview with Michael Hudson

ABOUT THE AUTHOR
(and Paul Craig Roberts' Hudson Bio)

BOOKS AND PUBLICATIONS BY MICHAEL HUDSON

A-TO-Z GUIDE - MINI INDEX


Esta 2ª parte do capítulo introdutório de "J is for Junk Economics" encontra-se em http://resistir.info/ .

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Denunciar o desastre social e o vocabulário do engano (1)


por Michael Hudson

 
... o declínio de uma linguagem deve em última análise ter causas políticas e económicas... Ela torna-se disforme e imprecisa porque nossos pensamentos são tolos, mas o desmazelo da nossa linguagem facilita termos pensamentos tolos. Argumento que este processo é reversível... Se alguém se livrar destes hábitos poderá pensar mais claramente e pensar claramente é um primeiro passo necessário rumo à regeneração política.
– George Orwell, "Política e língua inglesa" (1946)

“Você pode enganar algumas pessoas o tempo todo. São aquelas em que deveria se concentrar.
– George W. Bush (2001)
 


"A desordem social começa quando se deixa de chamar as coisas pelos seus nomes correctos. O primeiro passo para reformar um mundo mal estruturado é, portanto, a "rectificação dos nomes". Para Confúcio, isto significava restaurar o significado original das palavras.

A terminologia económica actual tem uma óbvia necessidade de tal renovação. Rejeitando a economia clássica de Adam Smith, John Stuart Mill e os seus críticos contemporâneos dos latifundiários e monopolistas, os defensores rendimento não merecido borraram e obscureceram a terminologia económica com eufemismos a fim de negar que há algo como almoços grátis. Os termos rentista (rentier) e usura (usury), que em séculos passados desempenharam um papel central, soam agora como anacrónicos e foram substituídos pelo "pensamento duplo" orwelliano.

Como sabem os publicitários, dar nome a um produto condiciona a forma como as pessoas o percepcionam. Uma vasta operação de relações públicas foi engendrada para inverter o sentido das palavras e fazer com que o preto pareça branco. Em nenhum outro lado esta táctica é tão política quanto na promoção da ideologia económica. O vocabulário actual acerca da riqueza e o seu deslize para uma economia de renda e usura é disfarçado com eufemismos como o progresso rumo a uma sociedade de lazer – não de servidão à dívida. Bolhas financeiras que inflacionam os preços para a compra de uma casa ou planos financeiros específicos de aposentadoria são chamadas de "criação de riqueza", não de "inflação dos preços dos activos alavancados por dívida, ao passo que a contracção de empresas industriais ( downsizing), a sua desintegração ou encerramento é chamada de "criação de valor", não de saqueio.

O vocabulário económico é definido pelos vencedores de hoje – a classe financeira rentista

Alice no país dos espelhos ( Through the Looking-Glass ), de Lewis Carroll, descobre que a definição das palavras depende de quem está no controle. "Quando uso uma palavra – disse Humpty Dumpty, num tom escarninho – ela significa apenas o que eu escolho que signifique – nem mais nem menos. ... A questão é, quem comanda – e isto é tudo".

Assim como a história é escrita pelos vitoriosos, do mesmo modo os direitos adquiridos patrocinam porta-vozes académicos e jornalistas a fim de moldar o vocabulário dos media de maneiras que descrevam a Wall Street a desempenhar um papel produtivo. Quanto mais predatório é o comportamento desta, mais necessário se torna moldar a opinião pública através do abuso de linguagem, concedendo prémios para explicar como "mercados livres" funcionam sem a "interferência" tributária ou a regulamentação da riqueza por parte do governo.

O actual consenso neoliberal de Washington reverte o liberalismo clássico ao favorecer a extracção predatória de renda, políticas fiscais regressivas e desregulamentação económica. Assim, "reforma" agora passa a significar desfazer aquilo que no século XX era considerado reforma. Políticas anti-laborais destinadas reduzir o poder dos sindicatos e a protecção no lugar de trabalho são rotuladas como reformas, tal como são reescritas as leis da bancarrota, revertendo a tendência para um tratamento mais humanitário dos devedores.

Em parte alguma o vocabulário do "duplo pensamento" é mais descarado do que na conquista financeira da Grécia pela "troika" da Eurozona: o Banco Central Europeu, a Comissão Europeia e o FMI. James Galbraith, assessor do ex-ministro das Finanças grego Yanis Varoufakis, foi questionado sobre se "as instituições (FMI, CE e BCE) teriam de resgatar a Grécia indefinidamente". Ele respondeu:
Não existe qualquer "resgate" aqui. Não há "resgate", não há "bailout", não há "reforma" em curso. Preciso insistir nisto, porque estas palavras infestam nosso discurso. Elas são plantadas pelos credores a fim de que pessoas incautas as utilizem, mas nada disso se verifica. O que está a acontecer é uma captura dos activos possuídos pelo Estado grego, pelas empresas e pelas famílias gregas. Não faz sentido dizer que isto tem algo a ver com a recuperação da economia grega ou com o bem-estar do povo grego. Ao contrário, esta política é absolutamente indiferente a tais considerações". [1]
Um vocabulário que retrata a classe financeira como produtiva

Todo grupo de pressão (special interest) procura afirmar-se como justo e equitativo. Banqueiros e latifundiários preferem naturalmente um vocabulário que os retratem como produtivos, ao invés de predadores. Consequentemente, o vocabulário anti-clássico actual redefine "mercados livres" como aqueles que são livres para os extractores de rendas. A fim de impedir a regulação, tributação ou nacionalização – e até mesmo obter subsídios públicos e garantias do governo – os lobistas dos sectores financeiro, seguros e imobiliário (FIRE) retratam a renda e o juro como reflectindo a contribuição dos seus receptadores para a riqueza comum e não os seus privilégios para extrair renda económica da economia.

Aparentemente as contas do Rendimento Nacional e do Produto Interno seguem esta reviravolta linguística ao descreverem juros e rendas como "ganhos", como se banqueiros e proprietários de terras ou imóveis produzissem PIB na forma de crédito e serviços de propriedade. Esta prática está em conflito com a definição de John Stuart Mill de que renda da terra é aquilo que os donos da propriedade são capazes de produzir "enquanto dormem" pela simples cobrança de taxas de acesso a lugares criados pela natureza e cujo valor depende da prosperidade geral da comunidade. Apresentar tais cobranças como "ganhos" por fornecer um "produto" económico é fingir que a extracção de renda reflecte um produto real, como se se tratasse de um serviço proveitoso.

O que está em causa é a definição clássica de renda económica como rendimento não merecido – o excesso de preço sobre o valor real do custo – uma reivindicação ou um privilégio que não reflecte um custo de produção necessário. Tais custos são em última análise redutíveis ao pagamento pelo trabalho. Com efeito, a Teoria do Valor Trabalho foi aperfeiçoada a fim de isolar a renda económica. Ao rejeitar a teoria clássica do valor e do preço, a teoria economia de hoje literalmente livre de valor está baseada no pressuposto de que nenhuma actividade é improdutiva ou extractiva [de renda].

Essa inversão da linguagem deturpa o que os principais economistas clássicos defendiam. Adam Smith e seus colegas reformadores são aclamados por terem favorecido os "mercados livres" e se oporem à "interferência" do governo. Mas aquilo a que eles realmente se opuseram foi a governos controlados pela aristocracia latifundiária, que dominava a política fiscal, por exemplo, pelo poder que detinha na Câmara dos Lordes da Grã-Bretanha para aplicar impostos aos trabalhadores e à indústria ao invés da terra e da finança. Smith criticou as aventuras militares e o colonialismo por darem origem a dívidas de guerra, emissão de títulos do governo a serem pagos com a tributação dos bens de consumo básicos.

No final do século XIX, movimentos reformistas foram ganhando poder. Com a influência de Darwin, quase toda a gente via o capitalismo industrial a evoluir para o que era generalizadamente chamado socialismo. Do socialismo cristão ao "socialismo ricardiano" de Mill e do socialismo utópico ao socialismo libertário de Henry George, o termo "socialismo" tinha uma ampla variedade de acepções. O socialismo marxista descreveu o capitalismo como sendo revolucionário ao levar inexoravelmente a uma mais forte propriedade e direcção pública da economia, frequentemente através de sistemas bancários nacionalizados.

Por surpreendente que possa parecer nos dias de hoje, as ideias clássicas de criação de um mercado livre seriam alcançadas através de reformas "socialistas". O seu objectivo comum era proteger as populações da obrigação de pagar preços que incluíam uma renda não proveniente do trabalho ou um imposto financeiro a pagar aos donos de terras e proprietários de recursos naturais, monopolistas ou detentores de títulos financeiros. Nesse sentido, os detentores de direitos adquiridos protestavam contra a regulamentação pública e a tributação. Eles opunham-se à propriedade pública ou mesmo à tributação de terras, monopólios naturais e bancos. Eles queriam arrecadar rendas e juros, não fazer terras, bancos e infraestruturas monopolistas de carácter público.

Hoje, os neoliberais e seus mascotes libertários procuram ter governos demasiados fracos para cumprirem o programa clássico de tributação da terra e dos recursos naturais, para regular ou impedir os monopólios, ou para proporcionar serviços económicos e financeiros básicos através do investimento público em infraestrutura. Ao denegrir a regulação como sendo "planeamento central", o efeito é abandonar o planeamento aos centros financeiros globais da Wall Street, City de Londres, Frankfurt, Bolsa de Paris, todos eles a fazerem lobby a favor dos seus clientes rentistas. Aqueles que se auto-classificam como libertários tornaram-se portanto anti-iluministas financeiramente patrocinados contra governos democraticamente estabelecidos.

Mercados livres, liberdade e o antídoto para a "falsa visão"

Denis Diderot (1713-1784) organizou a Encyclopédie como um projecto do Iluminismo francês. Publicada em fascículos de 1751 a 1772, continha um mapa do conhecimento humano de acordo com linhas que definiam o programa político do Iluminismo: "O bem do povo deve ser o maior objectivo do governo. Pelas leis da natureza e da razão, os governantes são investidos de poder para esse fim. E o maior bem do povo é a liberdade. Ela é para o Estado o que a saúde é para o indivíduo".

Hoje, o "bem maior do povo" de Diderot acabou por ser revertido pelo pensamento agora dominante na economia que defende a riqueza e o produto acumulado principalmente pelos rentistas, os mesmos que os fisiocratas franceses e seus amigos reformadores pretendiam tributar. A reacção anti-clássica de hoje redefine liberdade para identificar (to connote) liberdade aos predadores das sanções governamentais contra comportamentos socialmente destrutivos. Invertendo o objectivo clássico de libertar os mercados dos rentistas, os neoliberais consideram a regulação de monopólios e das taxas de juro, o investimento público em infraestrutura e a tributação da propriedade e do sector financeiro como sendo uma intrusão na sua liberdade. Isto é antitético à liberdade das populações da dependência a dívidas e ao crédito para ter acesso à habitação, educação, cuidados médicos e outras necessidades básicas.

O Dicionário filosófico de Voltaire (1764) estava intimamente associado à Encyclopédie e escrito num estilo aforístico com o seu humor e ironia habituais para torná-lo uma crítica mordaz e sarcástica à Igreja Católica Romana, à nobreza e ao palácio real. Voltaire à sua própria maneira fez algo semelhante a Orwell quando descrevia o carácter das Ideias falsas:
Temos homens cegos, homens zarolhos, homens vesgos, homens com visão de longo alcance, curtos de vista, fraca visão. Tudo isso corresponde a uma imagem bastante fiel de nossa compreensão; mas estamos mal familiarizados com a falsa visão.
... Por que nos deparamos frequentemente com mentes que são absolutamente falsas em coisas importantes? Por que estes mesmos siameses que nunca se deixam enganar quando se trata de contar-lhes três rúpias, acreditam firmemente nas metamorfoses de Sammonocodom ? ...Os maiores génios podem ter falsas opiniões sobre um princípio que aceitaram sem exame. ...Tudo o que certos tiranos das almas desejam é que os homens a que eles ensinam tenham juízos falsos.
Ao referir-se a um faquir sem dúvida para evitar citar o nascimento através de uma virgem e a ressurreição, Voltaire notou que "quanto mais subtil é a sua mente, mais falsa ela é e forma depois outras mentes tão falsas como a sua". Tais indivíduos "raciocinarão de modo distorcido em toda a sua vida". O meu próprio dicionário critica aos actuais economistas do "mercado livre" neoliberal e similares de raciocínios distorcidos baseados em falsos pressupostos, imune ao senso comum empírico.

O modo de raciocínio mais típico dos que têm Ideias falsas, explicou Voltaire, é "não examinar se o princípio é verdadeiro, mesmo quando se deduzem consequências precisas do mesmo". Este é o método de hoje na análise económica matemática, nas estatísticas do rendimento nacional e especialmente na teoria do comercial internacional e monetária. (Providencio uma lista de citações de vencedores do Prémio Nobel de Economia que seguem tais linhas religiosamente anti-científicas no meu artigo "Economics as Fraud" neste livro.)

A teoria económica neoliberal do "mercado livre" desempenha actualmente o papel que a religião desempenhava nos dias de Voltaire. Mas na academia o aviso que Voltaire deu aos seus leitores permanece verdadeiro: "É perigoso ter razão em assuntos nos quais os homens consagrados estão errados". Talvez por esta razão hoje em dia licenciados em ciências económica colocam as suas dúvidas de lado quando concorrem a uma posição para fazer carreira em universidades respeitáveis.

A terminologia eufemística é usada para tornar populares políticas que de outra forma seriam impopulares ou pelo menos para ganhar tempo confundindo algumas das partes lesadas. Se o objectivo é enfraquecer os sindicatos, rebaixar níveis salariais e reduzir a protecção no local de trabalho, a táctica de relações públicas adequada é tentar cooptar os trabalhadores chamando a tais programas "capitalismo do trabalho" como fez o general Pinochet no Chile após o golpe militar de 1973, ou "capitalismo popular' como a sua admiradora Margaret Thatcher na Grã-Bretanha após a vitória conservadora de 1979. Igualmente, para confundir assuntos adoptando um vocabulário falso para complementar uma falsa narrativa, lobistas das privatizações caracterizaram a regulamentação pública e a protecção dos consumidores como "interferência". Na verdade, é o que em 1944 Frederick Hayek chamou de O caminho da servidão (The Road to Serfdom) – como se o neoliberalismo não fosse o caminho para uma nova servidão e a escravidão pela dívida (debt peonage).

O currículo académico foi sequestrado a fim de substituir a economia política clássica por uma ideologia aparentemente despolitizada, mas que é realmente uma ideologia a favor dos rentistas. Ao simbolismo matemático foi dado o papel santificador que no passado era concedido ao latim. Macaqueando as ciências naturais, economistas refugiam-se em abstrusos modos de expressão. Quanto mais complexa a matemática, mais simplistas e banais tendem a ser as relações postuladas e as conclusões. A maior parte da matemática refere-se a escolhas entre diferentes "menus" de bens e serviços, sem muita análise de como foram estes produzidos, ou sobre as consequências para toda a economia a longo prazo de comprar a crédito ao invés de cash.

Teorias económicas que incidem sobre a troca de bens e serviços sem discutir os meios de adquirir controle sobre a riqueza desviam a atenção do exame daquilo que é mais importante na modelação da economia. Em última análise, o que está em causa é se o jargão económico considera que a economia "real" da produção e do consumo é mais real do que os interesses da finança e da propriedade.

Não é possível resgatar bancos através de bail-outs e de alguma forma dar capacidade aos devedores para pagar. Um lado ou o outro deve perder. É por isso que o problema económico é em última análise o da insolvência, não de mera falta de liquidez temporária. O grande problema económico é se as dívidas devem ser reestruturadas para reflectirem a capacidade de pagamento, ou se os níveis de crescimento e padrões de vida devem ser sacrificados a fim de preservar o valor que os credores reclamam.

(Continua) 

[1] James Galbraith e J. Luis Martin, "The Poisoned Chalice", Open Democracy, 01/Setembro/2015, opendemocracy.net/...

 

O original é o capítulo introdutório do livro "J is for Junk Economics – A Guide to Reality in an Age of Deception" , de Michael Hudson, ISLET, 2017, 404 p., ISBN 978-3-9814842-5-0. Tradução de DVC, revisão de JF. O conteúdo completo do livro é este:
Table of Contents
Foreword: Economies – and Economic Theory – at the Crossroads
Preface and Acknowledgements
Introduction: Social Naming Disorder and the Vocabulary of Deception
A-to-Z GUIDE
A is for Adam Smith. Asset-Price inflation and Austerity
C is for Casino Capitalism and the Client Acadernics who praise it
D is for Debt Deflation and the Debt Peonage it leads to
E is for Economic Rent and "Euthanasia of the Rentier "
F is for Fictitious Capital and the FIRE Sector where it is concentrated.
G is for Grabitization and the Groundrent that is its main objective.
H is for Hubris
I is for Inner Contradiction and the Invisible Hand
J is Junk Bonds and Junk Economics.
K is for Kleptocrat
L is for Leamed Ignorance
M is for Marginalism and the Money Manager Capitalism
N is for Neofeudalism and its Neoliberal advocates
O is for Oligarchy
P is Ponzi Scheme and the Pension-Fund Capitalism that feeds it
Q is for Quandary
R is for Rentiers and the Race to the Bottom they sponsor
S is for Say's Law and Serfdom
T is Trickle-Down Economics
U is for Unearned Income
V is for the Vested Interests
W is for Wealth Addiction
X & Y are for X and Y Axes
Z is for Zero-Sum Activity.
ESSAYS AND ARTICLES
The 22 Most Pervasive Economic Myths of Our Time
Economics As Fraud
Methodology is Ideology, and Dictates Policy
Does Economics Deserve A Nobel Prize? Commonweal 1970
Hudson Bubble Model: From Asset-Price Inflation to Debt-Strapped Austerity (Formulas. and Charts)

AUTHOR INTERVIEW: KILLING THE HOST (Companion book)
Eric Draitser's 2015 CounterPunch Radio interview with Michael Hudson

ABOUT THE AUTHOR
(and Paul Craig Roberts' Hudson Bio)

BOOKS AND PUBLICATIONS BY MICHAEL HUDSON

A-TO-Z GUIDE - MINI INDEX


 

Esta 1ª parte do capítulo introdutório de "J is for Junk Economics" encontra-se em http://resistir.info/ .

sábado, 1 de julho de 2017

Islão e clericalismo no Médio-Oriente Alargado

por Thierry Meyssan

 No Ocidente é de bom tom dissertar sobre «a compatibilidade do Islão com a Democracia» ou sobre «o Islão e o Laicismo». Estas problemáticas deixam supor que, por natureza, o Islão seria clerical. Que não constituiria portanto uma religião, mas, sim uma corrente política. Assim, os muçulmanos mais «radicais» seriam terroristas e inversamente.
Ora, desde há um mês o Médio-Oriente Alargado, de população maioritariamente muçulmana, está em vias de se dividir entre fieis desta religião e partidários de uma política que os manipula.


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Um homem político pode ser ateu, agnóstico ou crente. Mas, o facto de pretender servir a Deus não faz do seu partido político uma Igreja.

Alguns dos nossos leitores compreenderam mal uma crónica precedente sobre a evolução do mundo muçulmano. Vou, pois, aclarar questões relativas ao Islão antes de descrever o mais precisamente possível a sua situação actual.

Em primeiro lugar, se têm uma ideia feita quanto ao Islão, é porque vocês não conhecem mais do que uma única das suas versões, já que de Marrocos até ao Xinjiang esta religião assume as formas mais variadas. Quer seja no plano litúrgico ou jurídico, não há qualquer semelhança entre o Islão de Sarjah (um dos Emirados A. Unidos- ndT) e o de Java.

Esta religião pode ser abordada a partir de uma leitura literal do Alcorão, ou a partir da sua leitura contextualizada, ou, ainda, a partir de uma crítica da autenticidade do texto corânico actual.

Durante os primeiros quatro séculos do Islão, todos os muçulmanos concordavam com a necessidade de interpretar o Alcorão, o que se traduziu na elaboração de quatro sistemas jurídicos distintos (hanafita, malequita, shafiita e hanbalita), segundo as culturas locais. Mas no fim do século X, constatando a expansão desta religião e temendo que ela acabasse por se dividir, o califa sunita interditou que se levasse a interpretação mais longe. Apenas os xiitas a continuaram. Desde então, o Islão adapta-se como pode às exigências do seu tempo.

Contrariamente às aparências, se nos recusarmos a interpretar o texto, não o conseguimos compreender tal e qual ele foi redigido, mas unicamente através da sua própria cultura. Sabendo que Maomé viveu na Arábia, os Sauditas tomam como certo que compreendem de forma espontânea o sentido do Alcorão como se a sua sociedade e a sua língua não tivessem evoluído desde há 1.400 anos. Para eles, tal como no século XVIII para Mohammed ben Abdel Wahhab, Maomé reforçou os valores do tribalismo nómada. São estes os «wahhabitas». Por exemplo, o Alcorão condena os ídolos, por isso os wahhabitas destroem as estátuas de deuses antigos, o que Maomé jamais fez, mas que corresponde à sua cultura beduína. No século VIII, os cristãos bizantinos tiveram que enfrentar igualmente os «iconoclastas» sauditas que destruíam, em nome de Cristo, as decorações das Igrejas.
-O tribalismo nómada não tem sequer a própria noção de História. Os wahhabitas destruíram a casa do Profeta, em Meca, porque ela se havia tornado num local de peregrinação, portanto, segundo eles, de idolatria. Mas eles não pararam por aí. Nestes últimos anos destruíram toda a antiga e magnífica cidade de Meca porque culturalmente não atribuem qualquer significado a essas relíquias.

Se nos referirmos à sua leitura literal, seremos «fundamentalistas». Em geral, pensa-se numa vida tal como a dos companheiros do profeta. Neste caso é-se, então, um «salafista», já que nos tentamos aproximar dos piedosos ancestrais (os «salafs»). Este movimento, nascido no século XIX, no Egipto, constituiu-se em resposta ao wahabismo e era extremamente liberal. Ora, no entretanto tornou-se muito repressivo.

Por exemplo, a maioria dos salafistas actuais proíbe o consumo de álcool, mas alguns xeques afirmam o contrário, que é lícito beber com moderação. Todos acham a sua justificação no Alcorão, o qual comporta três passagens aparentemente contraditórias sobre este assunto. _ Todas as religiões são confrontadas com esta impossibilidade de reproduzir um passado que ninguém pode reconstituir. Por exemplo, no século XX, o movimento carismático entre os cristãos levou a entendimentos opostos sobre a sexualidade segundo eram baseados directamente nos Evangelhos ou na moral das Epístolas de Paulo.

Desde há alguns anos, sob a influência do trabalho realizado por exegetas europeus a propósito da redacção de textos bíblicos, alguns autores questionam a autenticidade do texto corânico. _ Em primeiro lugar, de maneira a afirmar a sua autoridade, o califa de Damasco fez coligir textos atribuídos a Maomé a partir dos quais ele constituiu o Alcorão, depois mandou queimar todas as outras antologias. Além disso, a palavra «Maomé» não designa uma pessoa específica, é um título dado aos sábios. É, pois, possível que o Alcorão reproduza as palavras de vários Profetas o que parece ser corroborado pela presença de estilos literários diferentes no texto canónico.

Os arqueólogos descobriram textos corânicos anteriores à versão canónica. Existem diferenças, por vezes significativas, entre estes textos escritos com alfabetos distintos. Além disso, quanto ao Alcorão canónico, propriamente dito, foi escrito com um alfabeto simplificado que só foi completado mais tarde, no século VIII. Esta transcrição é em si mesma uma interpretação e é possível que ela tenha sido por vezes mal feita. _ Claramente, algumas suratas (capítulos -ndT) do Alcorão retomam textos mais antigos utilizados pelos cristãos da região. Elas não foram compostas em árabe, mas em aramaico e certas palavras originais foram conservadas no texto definitivo. A sua leitura contemporânea é objecto de inúmeras incompreensões. Assim —não mexe sequer com os kamikaze do Daesh (E.I.) que esperam a sua recompensa no paraíso— a palavra «houri» significa «uvas brancas», e não «virgens de olhos grandes» (ndT= os suicidas do Daesh explodem-se crendo que no paraíso terão 72 virgens de prémio).

Resumindo, as coisas são bastante simples: o Islão é a religião do Alcorão. No entanto a tradição confere uma importância quase igual à lenda dourada do Profeta, as Hadiths. Trata-se de obras escritas muitas vezes centenas de anos mais tarde por pessoas que não podiam ter sido testemunhas dos factos que relatam. Estes factos são muito mais numerosos daquilo que seria possível ter ocorrido em toda uma única vida. Ilustram opiniões muito diversas e opostas. Algumas são de um nível intelectual impressionante e podem servir para justificar seja o que for. O crédito indevidamente atribuído a estes escritos fantasiosos deformou profundamente a transmissão da mensagem corânica.

Na prática, todas estas discussões mascaram uma outra, essencial: muito embora a religião seja o que tenta conectar o homem com Deus, acaba necessariamente por ser o lugar de todos as golpadas. Porque, como se pode pretender conhecer a Deus se ele é de uma natureza radicalmente diferente e superior à nossa? E, supondo que Ele se tenha expresso através dos profetas, como se pode pretender compreender o que Ele nos teria dito? Notai que, nesta perspectiva, a questão da existência de Deus —quer dizer de uma consciência superior à nossa— não faz mais nenhum sentido. É, por exemplo, o que defendiam entre os cristãos São Gregório de Nazianze ou São Francisco de Assis.

Sempre nesta perspectiva, os homens que buscam aproximar-se de Deus —isto é, não a aplicar a Sua Lei, mas a fazer evoluir a natureza humana para a tornar mais consciente— têm tendência a partilhar a sua experiência e, portanto, a formar Igrejas. Para funcionar estas tendem a formar profissionais, sacerdotes ou imãs. No cristianismo esta função só apareceu a partir do IIIº século, ou seja várias gerações após a morte de Jesus. Em todas as religiões, estes clérigos acabam por desfrutar de um estatuto intermediário entre os laicos e Deus. No entanto, nenhum dos fundadores das grandes religiões criou, por si próprio, nenhuma Igreja, ou clero.

Assim como a Europa experimentou um tremendo retrocesso com as grandes invasões que destruíram o Império Romano (os Hunos e os Godos), do mesmo modo o mundo muçulmano experimentou também um retrocesso com as invasões mongóis (Gengis Khan e Tamerlão). Se este trauma só durou três séculos na Europa, ele foi artificialmente prolongado no mundo árabe pelas colonizações otomana e europeia. Embora isso nada tenha a ver com a história do cristianismo, nem com a do islão, surgem clérigos que pretendem que esses retrocessos são a consequência do pecado, que se teria generalizado. Para regressar à idade de ouro, bastaria pois seguir os seus ensinamentos, e não tratar de reconstruir.

Inexoravelmente, clérigos metem-se na política e pretendem impor a sua visão das coisas em nome de Deus. Segue-se uma disputa rival entre eles e os laicos. Assim, em França, logo que o trauma das grandes invasões foi ultrapassado, a realeza laica, muito embora sendo considerada de «direito divino», entrou em conflito com o papado clerical. No mundo árabe, o qual não passa de uma minoria no seio do mundo muçulmano, este conflito surgiu com a descolonização e os movimentos de independência. Os líderes nacionalistas (Nasser, Ben Barka) chocaram-se com os Irmãos Muçulmanos. Durante a Guerra Fria, os primeiros foram apoiados pelos Soviéticos e os segundos pela OTAN. A dissolução da URSS enfraqueceu o campo nacionalista e traduziu-se numa vaga islamista. Além disso, a «Primavera Árabe» foi uma operação da OTAN para eliminar definitivamente os nacionalistas em favor dos Irmãos Muçulmanos. As multidões que apoiaram estes movimentos não procuravam, de forma nenhuma, a instauração de democracias. Pelo contrário, estavam convencidas que colocando os Irmãos Muçulmanos no Poder, elas criariam uma sociedade ideal e uma nova Idade de Ouro islâmica. Depois, acabaram no maior desencanto.

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O partido político dos Irmãos Muçulmanos foi reconstituído, em 1951, pelos serviços secretos britânicos sobre as ruínas da organização homónima de Hassan el-Banna. Ele é a matriz do terrorismo no mundo muçulmano, tendo formado a totalidade dos chefes das organizações terroristas, de Osama Ben Laden a Abou Bakr al-Baghdadi. Este partido político e as suas organizações armadas trabalham em colaboração com as potências imperialistas. Nada há de religioso neles.


Importa compreender que os Irmãos Muçulmanos e as suas organizações jiadistas, Alcaida e Daesh (E.I.), não são muçulmanos radicalizados tal como gostam de fingir no Ocidente. Trata-se de movimentos políticos, não de religiosos. O facto de que eles citam constantemente passagens do Alcorão não os torna, a propósito, religiosos. São apenas clericais.

A reviravolta contra a «Primavera Árabe» começou, em Junho de 2013, no Egipto, onde 33 milhões de cidadãos marcharam durante cinco dias contra a ditadura do Irmão Mohamed Morsi e em favor da restabelecimento da ordem constitucional pelo exército. A totalidade —sem excepção— dos partidos políticos e organizações religiosas uniu-se em torno do exército contra os Irmãos Muçulmanos, quer dizer em favor da laicidade e contra o clericalismo. Nos meses que se seguiram, o chefe do exército, o General Abdel Fattah al-Sissi, que ambicionava ser eleito presidente, transmitiu à Arábia Saudita documentos apreendidos na sede dos Irmãos. Eles atestaram que membros da Confraria preparavam a partir do Catar o derrube dos Saud. A resposta de Riade não se fez esperar : prisão de alguns membros da Irmandade na Arábia, atentados no Catar e apoio incondicional à eleição do General al-Sissi.

A situação dos Saud era tanto mais complicada quanto
- nem toda a Confraria estava implicada no complô;
- desde 1961, eles eram os patrocinadores da Confraria via Liga Islâmica Mundial;
- e que o seu regime estava encostado ao wahhabismo, portanto de natureza clerical como os Irmãos Muçulmanos.

Os Saud deram carta branca aos Nayef para reprimir os putschistas e restabelecer a ordem. Eles agiram como o tinham feito em 1990, aquando da revolta dos sourouristas. À época, um líder dos Irmãos Muçulmanos, Mohammed Sourour, conseguira convencer os wahabitas sauditas a tomar o Poder. Foram precisos cinco anos para derrotar a rebelião [1].

Foi este passado que ressurgiu quando, em Maio de 2017, o Presidente Donald Trump veio a Riade ordenar às potências muçulmanas para acabar com os Irmãos Muçulmanos. Os Saud decidiram desta vez reagir rompendo não só com a Irmandade, mas também abandonando o islão político. Que fique claro : o facto de tomar o partido do laicismo não muda em nada o de ser fundamentalista, salafista. A monarquia do rei Salman encontra-se na mesma posição que a monarquia francesa de Filipe, o Belo.
Para acompanhar esta evolução decisiva, o conselho de família dos Saud aceitou, por 31 votos contra 4, preparar a abdicação do rei Salman, pôr fim à regra adélfica de sucessão ao trono, saltando duas gerações, e designar o Príncipe Mohammed ben Salman (filho do actual rei, Salman -ndT) como o seu próximo rei.

Por seu lado, o Catar e a Confraria aproximaram-se imediatamente da Turquia e do Paquistão. Acima de tudo, estabeleceram aliança com o Irão, do qual combatem ainda os Guardiões da Revolução nos campos de batalha da Síria e do Iémene, mas cujo governo, do Xeque Rohani, partilha a sua concepção clerical de Islão.

Esta reviravolta do Irão põe em evidência a oposição entre o seu poder político e o seu poder militar. Ela apoia-se no pacto feito entre Hassan al-Banna, o fundador da primeira Confraria dos Irmãos Muçulmanos, e o jovem Aiatola Khomeiny. Um pacto segundo o qual os Irmãos não lançariam guerra de religião entre sunitas e xiitas, compromisso que voou em estilhaços com o Daesh (E.I.).
Sobretudo, apoia-se nas ambiguidades da Revolução de 1979, ao mesmo tempo movimento laico anti-imperialista e processo identitário clerical, e na evolução da função do Guia Ali Khamenei, tanto líder da Revolução mundial como político local encarregue dos equilíbrios entre facções.

Tendo em vista as treze exigências transmitidas pela Arábia Saudita e o Egipto ao Catar, é pouco provável que o conflito entre laicos e de clericais se resolva rapidamente. A questão que se põe é a de saber se os Ocidentais compreenderão o que se joga actualmente no «Médio-Oriente Alargado». Eles que apresentaram o Presidente Ahmadinejad como um clerical, eles que apresentaram o Irmão Morsi como não tendo falsificado a sua eleição, e como tendo sido derrubado por um golpe de Estado; os mesmos que pretendem que a Líbia e a Síria não foram atacadas a partir do exterior mas que foram palco de revoluções democráticas. É que à força de mentirmos a nos próprios perdemos o contacto com a realidade.
 
Tradução
Alva
[1] Foi neste contexto que o chefe dos Serviços secretos, o Princípe Turki, exfiltrou o seu agente Osama Ben Laden para o Sudão.

aqui:http://www.voltairenet.org/article196967.html

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Pedrógão, uma raiva sem fim...

por Agostinho Lopes

Quem destruiu o aparelho do Estado para as Florestas portuguesas? E em nome de quê? E por ordem de quem? Estando tudo ou quase tudo cadastrado neste país, os homens, as casas, os carros, os contribuintes, porque nunca avançou o cadastro florestal? Quem fez avançar a ideia de que o problema dos incêndios florestais é da floresta abandonada? De terra sem dono? Dos pequenos proprietários que não cuidam das suas terras?

Créditos / Associação Bombeiros para Sempre

Não sei porque não posso espumar de raiva, pelos mortos queimados da tragédia de sábado. E por isso cresce-me uma tal raiva capaz de pegar fogo à água que habitualmente o apaga. Uma raiva de lágrimas e palavrões, daqueles que arrebentam penedos…

Vamos ter missas de pesar… comícios de soluções… conferências de imprensa de estudos e planos…

Vamos ter tudo o que é habitual em casos que tais, comissões parlamentares eventuais, investigações da PJ, declarações da Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC), discursos de ministros (por baixo, do, da Agricultura e da, da Administração Interna), de ex-ministros e até de ex-primeiros-ministros… Vamos ter tudo, tudo o que tivemos em vezes que tais… (perdoa-me Gedeão, a mal amanhada paráfrase…).

Vamos ter pena dos mortos, das árvores que arderam (até o eucalipto vai ter o seu avé-maria), dos coelhos e raposas, e até dos calhaus que com o calor racharam (só é pena que outros calhaus não rachem, mesmo de frio, já servia!).

Senhores, senhores, já tudo foi dito e escrito. Há muito. Há décadas. Já não posso mais ouvir falar de certas coisas. Já não aguento tanta repetição. Tanto disco riscado! Tanto relatório. Tanta comissão.
Tanta chuva onde já choveu. Tanto sol na eira e chuva no nabal! Por que razão não se quer gritar alto, tão alto, que as trombetas do Apocalipse parecerão ronronar de gato… que não se fez nem faz o que se tem de fazer, porque isso custa pilim… porque isso no Orçamento do Estado implica com o défice, com a dívida, com o grupo do euro, com o Semestre Europeu e o Programa de Estabilidade, com o Moscovici e o Juncker, com o Schäuble e a Merkel, com as e os… a todos!

Porque isso, chegado Outubro, vêm umas pingas e tudo fica resolvido, cai no borralho, e até serve para assar castanhas… E lá vêm mais umas reformas da floresta, mais uma catrefa de decretos-leis, portarias e despachos, oh sim muitos despachos, que a despachar para o dia de S. Nunca em Fevereiro com 30 dias, é fácil, é barato e não chateia os senhores de Bruxelas… Haverá até, para entreter os senhores deputados umas propostas de lei, em assuntos que são da competência legislativa da Assembleia da República… Senhores, não há paciência para tanto estrume…

Pobre do Diário da República, que não há folhas que lhe cheguem para tanta lei… para tanta decisão oficial e legal… para tanta recomendação… E quatro vezes pobre, a floresta, que não lhe bastando os incêndios, ainda tem o Diário da República nas suas três séries, mais o Diário da Assembleia da República a consumir o papel das árvores que sobraram dos incêndios para escrutinar e registar os incêndios florestais…

Vamos repetir tudo de novo outra vez? Oiçam os dentes a ranger! Vejam os olhos a deitar lume. Vejam a boca a espumar. Só não dou coices porque… mas é o que apetecia. E o problema não é ser assemelhado ao animal… mas porque não tenho à beira quem os merece.

Vamos ver:

Conhece-se o que são os matos, os pinhais, as bouças, a dita floresta do Norte e Centro de Portugal? Sabe-se que é uma floresta de pequenos proprietários. Imbricada até ao sabugo com as também pequenas explorações agrícolas. Sabe-se? Então se se sabe porque não se actua em conformidade?

Sabe-se que é «abandonada» porque a madeira nada dá… e sabe-se quem compra a «madeira», ou a cortiça… o Belmiro, o Queiroz Pereira, o Amorim… E senhores, gastam-se milhões de euros de dinheiros públicos – nacionais e comunitários – a subsidiar as fábricas desses senhores, e depois não há massa para os sapadores florestais, para o cadastro, para as equipas de análise do fogo, para as faixas de gestão de combustível???

Por favor, não brinquem com a gente, feitos sátrapas de meia tigela. Por que razão não se recompõe o corpo de guardas florestais, constatado o crime público que foi a sua liquidação? Custa dinheiro ao erário público? Pois custa, que ninguém trabalha de borla. Nem os da Santa Casa… Cresce o número de funcionários públicos, e isso mexe com a despesa orçamental, e sobretudo com os bonzos de Bruxelas? Pois mexe, mas a não ser que os convençam a ingressar nos corpos de bombeiros voluntários – e podia ser uma forma da burocracia bruxelense fazer férias activas – não há maneira…

Por que razão o número de Equipas de Sapadores Florestais – 500 – previsto num Plano oficial de técnicos florestais da passagem do século, 2000, se me não engano, há tanto tempo foi, continua a meio pau? Porquê? Falta de graveto? Mas ele há tanto na nossa floresta…

(Mas não se seja injusto. Os que liquidaram o corpo de guardas florestais, os mesmos que nada fazem para que o número de Equipas de Sapadores chegue aos 500, previsto há quase duas décadas, gente que passa os dias a falar da qualificação dos portugueses, têm avançado com a interessante hipótese de resolver o problema da carência de recursos humanos da floresta portuguesa pelo recurso (repetição adequada) a trabalhadores desempregados e reclusos! Como quem diz, para quem é, (a floresta portuguesa) bacalhau basta, isto quando o bacalhau era a pataco… É claro que nem os desempregados nem os reclusos têm alguma responsabilidade nesta miserável instrumentalização…).

Por que razão as faixas de gestão de combustível, as primárias pelo menos, constando de sucessiva legislação – desde o Decreto-Lei 124/2006 – não estão concretizadas? Não acham que 10 anos deviam chegar? Falta de quê? De vontade? De verba? De um comando único e eficaz de todos estes processos da floresta portuguesa, prevenção e combate, espartilhados por não sei quantos ministérios, certamente para que ninguém verdadeiramente possa assumir as responsabilidades dos desastres que, fatais como o destino, fatais como dizem que era o fado, fatais como a brutalidade da morte que tão brutalmente cortou cerce a vida a 64 homens e mulheres deste país!

Quem destruiu o aparelho do Estado para as Florestas portuguesas? E em nome de quê? E por ordem de quem? Estando tudo ou quase tudo cadastrado neste país, os homens, as casas, os carros, os contribuintes, porque nunca avançou o cadastro florestal, que todos, suma hipocrisia, diziam e dizem ser condição necessária para a boa gestão florestal. Quem fez avançar a ideia de que o problema dos incêndios florestais é da floresta abandonada? De terra sem dono? Dos pequenos proprietários que não cuidam das suas terras?

E logo, faz-se uma lei para que essa terra possa ser roubada, faz-se outra lei para criar uma bolsa ou banco de terras, dão-se uns «incentivos fiscais» a uns fundos de investimento, que vem a correr da Bolsa de Nova Iorque para a arrendar/comprar e plantar rosas e orquídeas… (Senhor, Senhor porque lhes não dais juizinho!!!).

Poderão alguns, com alguma razão, dizer que não se deve brincar com coisas sérias. Mas o que dizer do sucedido com o anterior governo PSD/CDS e a ministra Cristas que, depois de excluir do Regime Florestal total a Herdade do Ribeiro do Freixo, de 320 hectares, e desanexá-la da tutela pública para dar movimento (privatizá-la!) à sua bolsa de terras, devolveu à tutela pública a Mata da Margaraça de 67,578 hectares de propriedade pública para «compensar». Baralhados?
Como bem percebem os especialistas em algoritmos, 320 hectares na Floresta 4.0 valem o mesmo que 67,578 hectares, dos antigos agrimensores. E que o público se compensa com público, mesmo que em escala reduzida! Foi o Decreto 9/2015, diploma que também ninguém sabe bem o que é…

Quem são os responsáveis pela floresta em mancha contínua de pinheiro ou eucalipto? (E agora parece que já não lhes serve esse eucalipto…) Quem sacudiu os povos dos baldios do que era seu, para lá pôr pinheiro? Quem defendeu uma política agrícola de liquidação da pequena agricultura para lá pôr eucalipto? E o problema é que acham, continuam a achar, depois de tudo o que aconteceu, e do que vai acontecer ainda, que estão com o passo certo… E, contrariamente à bem conhecida anedota, sabem que não vão com o passo trocado, mas a toque de caixa de quem considera a floresta portuguesa o seu banco Fort Knox! A quem devem preito de menagem…

Dizemos isto, mas não nos sai da boca este sabor a raiva e lama, a raiva e carvão negro, a raiva e a um infinito lamento… Eram as horas certas em todos os relógios (perdoa-me Garcia Lorca), mas nos nossos relógios só podem rimar a raiva e a dor pelo que não podia ter acontecido… no sábado 17 de Junho de 2017, em Pedrógão Grande.

Que raiva e dor não poder fazer nada, quando tanto podia ter sido feito!

aqui:http://www.abrilabril.pt/pedrogao-uma-raiva-sem-fim

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Terrorismo na Grã-Bretanha: O que é que a primeira-ministra sabia?


por John Pilger
 
O indizível na campanha eleitoral britânica é isto. As causas da atrocidade de Manchester – na qual 22 pessoas, jovens na maior parte, foram assassinadas por um jihadista – estão a ser omitidas a fim de proteger segredos da política externa britânica.

Questões críticas – tais como porque o serviço de segurança MI5 manteve "activos" terroristas em Manchester e porque o governo não advertiu o público da ameaça em seu meio – permanecem sem resposta, desviadas pela promessa de uma "revisão" interna.

O alegado bombista suicida, Salman Abedi, fazia parte de um grupo extremista, o Libyan Islamic Fighting Group (LIFG), que prosperou em Manchester e foi cultivado e utilizado pelo MI5 durante mais de 20 anos.

O LIFG está proscrito na Grã-Bretanha como uma organização terrorista que pretende um "estado islâmico linha dura" na Líbia e "faz parte de um movimento extremista global mais vasto, inspirado pela al Qaida".

Há uma "arma fumegante": quando Theresa May foi secretária do Interior permitiu aos jihadistas da LIFG viajarem desembaraçadamente por toda a Europa e foram encorajados a empenharem-se na "batalha": primeiro para remover Muammar Kadafi da Líbia, a seguir para juntarem-se a grupos filiados à al Qaida na Síria.

No ano passado, o FBI confirmadamente colocou Abedi numa "lista de terroristas a observar" e advertiu o MI5 de que o seu grupo estava à procura de um "alvo político" na Grã-Bretanha. Por que não foi ele detido e a rede em torno dele impedida de planear e executar a atrocidade de 22 de Maio?

Estas questões levantam-se por causa de uma fuga do FBI que demoliu a interpretação do "lobo solitário" apresentada após o ataque de 22 de Maio – daí o pânico e o ultraje não característico de Londres em relação a Washington e as desculpas de Donald Trump.

A atrocidade de Manchester põe em causa a política externa britânica ao revelar a sua aliança faustiana com o Islão extremista, especialmente a seita conhecida como Waabismo ou Salafismo, cujo principal guardião e banqueiro é o reino petrolífero da Arábia Saudita, o maior cliente de armas da Grã-Bretanha.

Este casamento imperial remonta à Segunda Guerra Mundial e aos primeiros dia da Fraternidade Muçulmana no Egipto. O objectivo da política britânica era travar o pan-arabismo. Estados árabes desenvolviam então um laicismo moderno, afirmando sua independência em relação ao ocidente imperial e controlando seus recursos. A criação de um Israel voraz destinava-se a apressar isto. O pan-arabismo foi então esmagado, o objectivo agora é a divisão e conquista.

Em 2011, segundo o Middle East Eye , o LIFG em Manchester era conhecido como os "rapazes de Manchester". Implacavelmente opostos a Muammar Kadafi, eles eram considerados de alto risco e um certo número deles estava sob control orders [1] do Ministério do Interior – prisão domiciliar – quando estalaram as manifestações anti-Kadafi na Líbia, um país forjado a partir de uma miríade de inimizades tribais.

Subitamente as control orders foram levantadas. "Permitiram-me ir, sem fazerem perguntas", disse um membro da LIFG. O MI5 devolveu seus passaportes e a polícia anti-terrorismo no aeroporto de Heathrow foi instruíd para que os deixassem embarcar nos seus voos.

O derrube de Kadafi, que controlava as maiores reservas de petróleo da África, fora planeado há muito em Washington e Londres. Segundo a inteligência francesa, o LIFG fez várias tentativas de assassinato de Kadafi na década de 1990 – financiadas pela inteligência britânica. Em Março de 2011, a França, Grã-Bretanha e EUA agarraram a oportunidade de uma "intervenção humanitária" e atacaram a Líbia. Eles foram acompanhados pela NATO sob a cobertura de uma resolução da ONU para "proteger civis".

Em Setembro último, um inquérito do Comité Especial de Negócios Estrangeiros da Câmara dos Comuns concluiu que o então primeiro-ministro David Cameron havia levado o país à guerra contra Kadafi com base numa série de "suposições erróneas" e que o ataque "levara à ascensão do Estado Islâmico na África do Norte". O comité da Câmara dos Comuns citou a chamada descrição "concisa" de Barack Obama quanto ao papel de Cameron na Líbia: um "espectáculo de merda" ("shit show").

De facto, Obama foi um actor principal no "espectáculo de merda", pressionado pela sua belicista secretária de Estado Hillary Clinton e pelos media que acusavam Kadafi de planear "genocídio" contra o seu próprio povo. "Sabemos... que se esperarmos mais um dia", disse Obama, "Bengazi, uma cidade da dimensão de Charlotte, poderia sofrer um massacre que teria repercutido por toda a região e manchado a consciência do mundo".

A estória do massacre foi fabricada pelas milícias salafistas que se defrontavam com a derrota diante das forças do governo líbio. Eles disseram à Reuters que seria "um banho de sangue real, um massacre como o que vimos em Ruanda". O comité da Câmara dos Comuns relatou: "A proposta de que Muammar Kadafi teria ordenado o massacre de civis em Bengazi não era confirmada pelas evidências disponíveis".

A Grã-Bretanha, a França e os Estados Unidos efectivamente destruíram a Líbia como um estado moderno. Segundo os seus próprios registos, a NATO lançou 9.700 "incursões de bombardeamento", das quais mais de um terço atingiram alvos civis. Eles incluíram bombas de fragmentação e mísseis com ogivas de urânio [empobrecido]. As cidades de Misurata e Sirte sofreram bombardeamento em tapete. A UNICEF, a organização das Nações Unidas para a Infância, informou que uma alta proporção das crianças mortas "tinham menos de dez anos de idade".

Mais do que "provocar a ascensão" do Estado Islâmico – o ISIS já havia fincado raízes nas ruínas do Iraque após a invasão de Blair e Bush em 2003 – estes supremos medievalistas agora tinham todo o Norte da África como base. O ataque também desencadeou uma debandada de refugiados a fugirem para a Europa.

Cameron foi celebrado em Tripoli como um "libertador", ou imaginou que era. As multidões a aplaudirem-no incluíam aqueles SAS abastecidos e treinados pela Grã-Bretanha e inspirados pelo Estado Islâmico, tais como os "rapazes de Manchester".

Para os americanos e britânicos, o verdadeiro crime de Kadafi era a sua independência iconoclasta e o seu plano de abandonar o petrodólar, um pilar do poder imperial americano. Ele audaciosamente havia planeado financiar uma divisa comum africana apoiada pelo ouro, estabelecer um banco para toda a África e promover uma união económica entre países pobres com recursos valiosos. Quer isto pudesse ou não acontecer, a própria ideia era intolerável para os EUA quando se preparavam para "entrar" na África e subornar governos africanos com "parcerias" militares.

O ditador caído escapava. Um avião da Royal Air Force localizou seu comboio e nas ruínas de Sirte ele foi sodomizado com uma faca por um fanático descrito nos noticiários como "um rebelde".

Tendo saqueado o arsenal de US$30 mil milhões da Líbia, os "rebeldes" avançaram para o Sul, aterrorizando cidades e aldeias. Ao atravessarem o Mali sub-saariano, destruíram a frágil estabilidade daquele país. Os sempre-ansiosos franceses enviaram aviões e tropas à sua antiga colónia "para combater a al Qaida", ou a ameaça que haviam ajudado a criar.

Em 14 de Outubro de 2011, o presidente Obama anunciou que estava a enviar tropas de forças especiais para o Uganda para ingressar na guerra civil dali. Nos meses seguintes, tropas de combate dos EUA foram enviadas para o Sul do Sudão, Congo e República Centro-Africana. Com a Líbia garantida, uma invasão americana do continente africano estava em curso, amplamente não noticiada.

Em Londres, uma das maiores feiras de armas do mundo foi encenada pelo governo britânico. O burburinho nos stands era o "efeito demonstração na Líbia". A Câmara de Comércio e Indústria de Londres efectuou uma apresentação prévia intitulada "Médio Oriente: Um vasto mercado para companhias de defesa e segurança do Reino Unido". O hospedeiro era o Royal Bank of Scotland, um grande investidor em bombas de fragmentação (cluster), as quais foram utilizadas extensamente contra alvos civis na Líbia. A publicidade das armas feitas pelo banco louvava as "oportunidades sem precedentes para companhias de defesa e segurança do Reino Unido".

No mês passado, a primeira-ministra Theresa May esteve na Arábia Saudita, a vender mais de £3 mil milhões [€3,4 mil milhões] de armas britânicas que os sauditas têm utilizando contra o Iémen. Baseados em salas de controle em Riad, conselheiros militares britânicos assistem os sauditas nos raids de bombardeamento, os quais mataram mais de 10 mil civis. Há agora sinais claros de fome ali. Uma criança iemenita morre a cada 10 minutos de doenças evitáveis, afirma a UNICEF.

A atrocidade de 22 de Maio em Manchester foi o produto deste estado de violência implacável em lugares distantes, muitos deles com patrocínio britânico. As vidas e os nomes das vítimas quase nunca são por nós conhecidos.

Esta verdade custa a ser ouvida, assim como custa a ser ouvida quando o Metro de Londres foi bombardeado em 7 de Julho de 2005. Ocasionalmente, um membro do público rompe o silêncio, tal como o londrino do Leste que se postou frente à câmara e ao repórter da CNN e disse: "Iraque! Nós invadimos o Iraque. O que esperávamos nós? Vão em frente".

Numa grande assembleia dos media a que compareci, muitos dos importantes hóspedes diziam "Iraque" e "Blair" como uma espécie de catarse do que não ousavam dizer profissionalmente e publicamente.

Contudo, antes de invadir o Iraque, Blair foi advertido pelo Joint Intelligence Commitee de que "a ameaça da al Qaida aumentará desde o princípio de qualquer acção militar contra o Iraque... A ameaça mundial de outros grupos e indivíduos terroristas islâmicos aumentará significativamente".

Assim como Blair trouxe para a Grã-Bretanha a sua violência e o banho de sangue de George W Bush, também David Cameron apoiado por Theresa May agravou o seu crime na Líbia e a suas horrendas consequências, incluindo aqueles mortos e estropiados na Manchester Arena em 22 de Maio.

Não surpreendentemente, as consequências retornam. Salman Abedi actuou sozinho. Ele era um pequeno criminoso, não mais do que isso. Desvaneceu-se a rede extensa revelada na semana passada pela fuga americana. Mas as perguntas não.

Como é que Abedi foi capaz de viajar livremente através da Europa até a Líbia e voltar a Manchester só poucos dias antes de cometer seu crime terrível? Foi Theresa May informada pelo MI5 que o FBI o havia rastreado como fazendo parte de um planeamento de célula islâmica para atacar um "alvo político" na Grã-Bretanha?

Na actual campanha eleitoral, o líder trabalhista Jeremy Corbyn fez uma referência cautelosa a uma "guerra ao terror que fracassou". Como ele sabe, isto nunca foi uma guerra ao terror mas sim uma guerra de conquista e subjugação. Palestina, Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria. Dizem que o Irão será a seguir. Antes disso haverá uma outra Manchester, quem terá a coragem de dizer isso? 

31/Maio/2017 
 
[1] Control order: é uma ordem dada pela Secretaria do Interior do Reino Unido para restringir uma liberdade individual com o objectivo de "proteger membros do público de um risco de terrorismo. Sua definição e poderes foram estabelecidos pelo Parlamento no Prevention of Terrorism Act 2005.

O original encontra-se em johnpilger.com/articles/terror-in-britain-what-did-the-prime-minister-know

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

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