terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O presidente “bom” e o presidente “mau”

 por Manlio Dinucci

Com as manifestações realizadas a 21 de Janeiro, muitos cidadãos de diversos países aceitaram comportar-se como seguidores e instrumentos de uma das facções em confronto nos EUA. Entre o beatificado Obama e o demonizado Trump, a escolha a fazer não é entre nenhum deles. É a escolha pela soberania nacional, pela paz, pelo direito de cada povo decidir do seu próprio destino, liberto da ingerência e da pressão dos EUA, da NATO, do imperialismo em geral.


Quebrando lanças pelos seus amos estado-unidenses, os europeus – em vez de lutar pela sua própria soberania – unem-se em coro ao concerto de críticas – nem sempre justificadas – sob a batuta das elites da margem ocidental do Atlântico. Invocando a «democracia», desfilam inclusivamente contra o resultado das eleições. Barack Obama foi designado «santo subito», ou seja “santo de imediato”: quando entrou na Casa Branca, em 2009, foi-lhe entregue a título preventivo o Premio Nobel da Paz pelos «seus extraordinários esforços para fortalecer a diplomacia internacional e a cooperação entre os povos».

Isso sucedeu enquanto a sua administração preparava já em segredo, através da secretaria de Estado Hillary Clinton, a guerra que 2 anos mais tarde destruiria o Estado líbio, guerra que se estenderia depois a Síria e Iraque através dos grupos terroristas, instrumentos da estratégia dos Estados Unidos e da NATO. Donald Trump, pelo contrário, foi demonizado de imediato, inclusivamente antes de entrar na Casa Branca. Acusam-no de usurpar o posto destinado a Hillary Clinton, graças a uma operação maléfica ordenada pelo presidente russo Vladimir Putin.

As “provas” vêm da CIA, inquestionavelmente perita em matéria de infiltrações e golpes de Estado. Basta recordar as suas operações destinadas a provocar guerras contra Vietnam, Camboja, Líbano, Somália, Iraque, Jugoslávia, Afeganistão, Líbia y Síria; ou os seus golpes de Estado em Indonésia, Salvador, Brasil, Chile, Argentina e Grécia. E as suas consequências: milhões de personas encarceradas, torturadas e assassinadas; milhões de pessoas deslocadas das suas terras, convertidas em refugiados, vítimas de uma verdadeira conversão em escravos.

E sobretudo as mulheres, adolescentes e meninas submetidas a escravatura, violadas, obrigadas a exercer a prostituição. Haveria que recordar tudo isso a quem, nos Estados Unidos e na Europa, organizaram em 21 de Janeiro a Marcha das Mulheres para defender precisamente essa paridade de género conquistada em duras lutas e constantemente questionada por posições sexistas, como as que Trump expressa. Mas não é por essa razão que se aponta o dedo a Trump numa campanha sem precedente no processo de transmissão do poder na Casa Branca.

O facto é que, nesta ocasião, os perdedores se negam a reconhecer a legitimidade do presidente eleito e estão a implementar um impeachment preventivo. Donald Trump está a ser presentado como uma espécie de Manchurian Candidate que, infiltrado na Casa Branca, estaria sob o controlo de Putin, inimigo dos Estados Unidos. Os estrategas neoconservadores, artífices desta campanha, tratam desse modo de impedir uma mudança de rumo na relação dos Estados Unidos com a Rússia, que a administração Obama fez retroceder aos tempos da guerra fria.

Trump é um «trader» que, embora continue a assentar a política estado-unidense na força militar, tem intenção de abrir uma negociação com a Rússia, provavelmente para debilitar a aliança entre Moscovo e Pequim. Na Europa, os que temem que se produza uma diminuição da tensão com a Rússia são antes de mais os dirigentes da NATO, que ganharam importância graças à escalada militar da nova guerra fria, e os grupos que detêm o poder nos países do leste – principalmente na Ucrânia, na Polonia e nos países bálticos – que apostam na hostilidade anti-russa para obter maior apoio militar e económico de parte da NATO e da União Europeia.

Nesse contexto, não é possível deixar de mencionar, nas manifestações de 21 de Janeiro, as responsabilidades dos que transformaram a Europa na primeira línea de enfrentamento, inclusivamente nuclear, com a Rússia. Teríamos que sair à rua, certamente, mas não como súbditos estado-unidenses que rechaçam um presidente “mau” mas exigindo um “bom”, para nos libertarmos do que nos amarra aos Estados Unidos, país que – não importa quem seja o seu presidente – exerce a sua influência sobre a Europa através da NATO.

Teríamos que manifestar-nos, mas para sair dessa aliança belicista, para exigir a retirada do armamento nuclear que os Estados Unidos têm armazenado nos nossos países. Teríamos que manifestar-nos para ter o direito a opinar, como cidadãs e cidadãos, sobre as opções em matéria de política externa que, indissoluvelmente ligadas às opções económicas e políticas internas, determinam as nossas condições de vida e o nosso futuro.

Fonte: Il Manifesto, http://www.investigaction.net/es/el-presidente-bueno-y-el-presidente-malo/#sthash.rGRUnNBL.dpuf

aqui:http://www.odiario.info/o-presidente-bom-e-o-presidente/

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Quatro milhões de salários mínimos

por José Goulão

Atribui-se a Adolph Hitler a expressão «quando ouço falar em cultura puxo logo da pistola». Verdade ou lenda, o que sabemos, sem rasto de dúvida, é que o conceito condiz com a pessoa e sua prática.



Créditos / Agência Lusa

Os governos dos países da NATO não dirão, palavra por palavra, que quando se fala em verbas para a aliança guerreira espezinham logo a cultura, sem dó nem piedade. Porém, nesta sociedade em que os números valem tantas vezes mais que as palavras, a crueza rigorosa das aritméticas desnuda o que os pudores de eufemismos patetas tentam encobrir.

Segundo números oficiais da Aliança Atlântica e os dados do Orçamento de Estado para 2017, as «despesas com a defesa» em Portugal, isto é, os gastos exigidos pela presença na NATO, elevam-se a cerca de 2550 milhões de euros no ano em curso. Alvejados, sem defesa, pela permanente guerra de números e estatísticas com que se pretende fazer a política moderna, os portugueses ficam sem saber, assim a seco, o que significa tal valor, se é muito ou pouco, justificado ou injustificado.

Trocados por miúdos, os 2550 milhões que os portugueses tiram dos seus bolsos para que a aliança continue a sangrar o Afeganistão, o Iraque e a Síria, apanhe os cacos da destruição que semeou na Líbia e sustente as estruturas nazis que implantou na Ucrânia representam um contributo individual forçado de 230 euros anuais. Significam ainda que o país deita fora sete milhões de euros por dia por pertencer à NATO, mesmo não cumprindo as recomendações dos chefes de Washington, os quais exigem dois por cento do PIB de cada Estado membro.

Portugal fica-se por 1,4 por cento do PIB, mas antes de choverem elogios a tamanha coragem perante os estrelados generais diga-se que há outros, muitos outros, aliás, bastante mais desafiadores: a começar pelo exemplo do governo direitista espanhol, mesmo aqui ao lado, que não vai além dos 0,9 por cento do PIB. Ou pela Bélgica, onde está a sede da NATO, com 0,85%. Ou a Hungria (um por cento), a Eslováquia e a República Checa (0,94 e 1,04%, respectivamente), o Luxemburgo (0,44%), a Holanda (1,17%), a Itália (1,11%). E que dizer do gigante alemão, sempre tão exigente com os outros, com os seus recatados 1,15%?

Olhando tais números e percentagens deduz-se elementarmente que haveria por aqui umas dezenas de milhões de euros a poupar para criar emprego, alimentar o crescimento económico e até apressar a subida do salário mínimo para 600 euros, mesmo que isso incomodasse mais a UGT do que a própria NATO.

Porque, em boa verdade e seguindo a certeira frieza dos números, os tais 2550 milhões de euros com que pagamos as guerras e as ameaças que conduzem o mundo no caminho do abismo, equivalem a bastante mais de quatro milhões de salários mínimos de 600 euros.

Muitos dirão que uma coisa não tem a ver com outra, os dinheiros pertencem a sacos diferentes, blá, blá, blá… Pois, mas dinheiro é dinheiro, a questão é geri-lo e estabelecer uma maneira justa, equitativa e pacífica de o fazer circular. Dinheiro para a NATO não circula, enterra-se em sangue e engenhos de morte.

Além disso, os militares portugueses não precisaram da NATO para nada quando fizeram o libertador 25 de Abril. Pelo contrário, concretizaram-no para incómodo da dita cuja NATO, que não se poupou em conspirações enquanto as coisas não voltaram ao seu redil. Podem ter a certeza de que as Forças Armadas Portuguesas, mesmo fora da NATO, continuariam a cumprir as suas missões para com o país.

Caso se fizessem umas poupanças relativas nas tais «despesas de defesa» – que não dos portugueses – bastaria uma insignificância de um por cento do bolo, apenas 25 milhões de euros, para fazer subir o salário mínimo de 557 para 600 euros ainda este ano. Uma questão de vontade política, não é?

Porque é a esta encruzilhada que chegamos quando se encaram de frente os monstruosos 2550 milhões de euros esbanjados com a NATO. Esse valor representa, lembrando a tal frase atribuída a Hitler, quase seis vezes mais do que o dinheiro atribuído este ano à cultura; e significa uma despesa duas vezes e meia superior ao investimento do Estado Português, imaginem, na agricultura, nas florestas (as que restam dos incêndios), no desenvolvimento rural e no mar precioso.

Saiba ainda o leitor que o Estado Português deita ao lixo com a NATO uma verba que excede em 200 milhões de euros os investimentos em sectores de ponta como a ciência, a tecnologia e o ensino superior. A dotação atlantista supera em 400 milhões a verba atribuída ao Ministério da Economia; e eleva-se a mais de mil milhões de euros (1516 contra os tais 2550 milhões) o desnível do tratamento entre a defesa do ambiente em Portugal e o financiamento das guerras além-fronteiras.

Sendo que as despesas com a NATO não cobrem os gastos em «missões» especiais, no fundo sempre ao serviço dos mesmos, como esse estranhíssimo regresso de tropas portuguesas a África, no caso à República Centro Africana; nem terá sido desse bolo que saíram os inusitados 200 mil euros com que o ministro da Defesa de um país sugado, fiscalizado, perseguido a partir de Bruxelas e a lutar contra a crise e a austeridade, Portugal, decidiu auxiliar o aparelho militar nazi que manda e desmanda na Ucrânia.

Tudo isto para testemunhar que, apesar dos inegáveis esforços já efectuados para aliviar um pouco os portugueses do garrote da austeridade, ainda existem montantes importantes que são de todos nós e podem ser geridos de modo bem diferente e muito mais útil – e pacífico – à comunidade.

Que tal transformar boa parte dos 2550 milhões desperdiçados com a NATO em investimento ao serviço da melhoria de vida dos portugueses?

aqui:http://www.abrilabril.pt/quatro-milhoes-de-salarios-minimos

domingo, 22 de janeiro de 2017

A questão não é Donald Trump – somos nós


por John Pilger
 
No dia da tomada de posse Trump como presidente, milhares de escritores nos Estados Unidos manifestarão sua indignação. "Para sanear e avançar...", diz Writers Resist, "desejamos superar o discurso político directo, em favor de um enfoque inspirado no futuro e nós, como escritores, podemos ser uma força unificadora para a protecção da democracia".

E acrescenta: "Instamos organizadores e oradores locais a evitarem utilizar nomes de políticos ou a adoptar "anti" linguagem como seu foco no evento do Writers Resist. É importante assegurar que organizações sem fins lucrativos, as quais estão proibidas de fazer campanhas políticas, se sentirão confiantes em participar e patrocinar estes eventos".

Portanto, o protesto real tem de ser evitado pois não está isento do pagamento de impostos.

Compare tal disparate com as declarações do Congresso de Escritores Americanos, efectuado no Carnegie Hall, Nova York, em 1935, e novamente dois anos depois. Foram eventos electrizantes, com escritores a discutirem como poderiam confrontar acontecimentos agourentos na Abissínia, China e Espanha. Telegramas de Thomas Mann, C Day Lewis, Upton Sinclair e Albert Einstein foram lidos ali, reflectindo o temor de que enormes forças haviam agora sido desencadeadas e que se tornara impossível discutir arte e literatura sem política ou, na verdade, acção política directa.

"Um escritor", afirmou a jornalista Martha Gellhorn no segundo congresso, "deve ser agora um homem de acção... Um homem que deu um ano de vida a greves siderúrgicas, ou aos desempregados, ou aos problemas do preconceito racial, não perdeu ou desperdiçou tempo. Ele é um homem que sabia a que pertencia. Se você pudesse sobreviver a tal acção, o que você teria a dizer posteriormente acerca da mesma é a verdade, necessária e real, e perdurará".

Suas palavras ressoam em meio a excitação e violência da era Obama e do silêncio daqueles que colaboram com seus enganos.

Que a ameaça do poder predatório – desencadeado desde muito antes da ascensão de Trump – tem sido aceite por escritores, muitos deles privilegiados e celebrados, e por aqueles que guardam os portões da crítica literária e da cultura, incluindo a cultura popular, é facto incontroverso. Não é com eles a impossibilidade de escrever e promover literatura destituída de política. Não é com eles a responsabilidade de falar alto, sem se preocupar com quem ocupa a Casa Branca.

Hoje, o falso simbolismo é tudo. A "identidade" é tudo". Em 2016, Hillary Clinton estigmatizou milhões de eleitores como "um cesto de miseráveis, racistas, sexistas, homofóbicos, xenófobos, islamófobos – o que quiser". O seu abuso foi apresentado num comício LGBT como parte da sua campanha cínica para persuadir minorias através do abuso da maioria da classe trabalhadora, principalmente branca. Divida e conquiste, chama-se a isto; ou política de identidade na qual raça e género ocultam classe e permitem que se trave a guerra de classe. Trump entendeu isto.

"Quando a verdade é substituída pelo silêncio", disse o poeta dissidente soviético Yevtushenko, "o silêncio é uma mentira".

Não se trata de um fenómeno americano. Há poucos anos, Terry Eagleton, então professor de literatura inglesa na Universidade de Manchester, observou que "pela primeira vez em dois séculos não há qualquer poeta, dramaturgo ou romancista britânico apto a questionar os fundamentos do modo de vida ocidental".

Nenhum Shelley fala aos pobres, nenhum Blake de sonhos utópicos, nenhum Byron amaldiçoa a corrupção da classe dominante, nenhum Thomas Carlyle e John Ruskin revela o desastre moral do capitalismo. William Morris, Oscar Wilde, HG Wells, George Bernard Shaw não têm equivalente hoje. Harold Pinter foi o último a levantar a sua voz. Dentre as insistentes vozes de hoje do consumismo-feminismo, nenhuma ecoa Virginia Woolf, a qual descrevia "as artes de dominar outro povo... de controlar, de matar, de adquirir terra e capital".

Há algo tanto de venal como de profundamente estúpido acerca de escritores famosos quando se aventuram fora do seu mundo mimado e abraçam uma "causa". No Guardian de 10 de Dezembro havia uma foto nebulosa de Barack Obama a olhar para os céus e as palavras "Amazing Grace" [1] e "Farewell the Chief".

A bajulação jorrava como uma torrente de tagarelice poluída página após página. "Ele foi uma figura vulnerável em muitos aspectos... Mas o encanto. O encanto amplo: na maneira e na forma, no argumento e no intelecto, com humor e frescura... [Ele] é um resplandecente tributo do que foi e do que pode ser outra vez... Parece pronto para continuar o combate e permanece um campeão formidável a ter do nosso lado... ... O encanto... os quase surreais níveis de encanto..."

Misturei estas citações. Há outras ainda mais hagiográficas e sem atenuantes. O apologista chefe do Guardian, Gary Younge, sempre foi cuidadoso em atenuar, ao dizer que o seu herói "podia ter feito mais": oh, mas houve as "soluções calmas, ponderadas e consensuais..."

Nenhum deles, contudo, pôde ultrapassar o escritor americano Ta-Nehisi Coates, o beneficiário de uma "licença de génio" no valor de US$625 mil concedida por uma fundação liberal. Num ensaio interminável para The Atlantic, intitulado "Meu Presidente era Negro", Coates deu novo significado a prostração. O "capítulo" final, intitulado "Quando você sai, leva tudo de mim consigo", um verso de uma canção de Marvin Gaye, descreve a visão dos Obamas "a saírem da limusine, a elevarem-se acima do medo, a sorrirem, a acenarem, a desafiarem o desespero, a desafiarem a história, a desafiarem a gravidade". A Ascensão, nada menos.

Um dos traços persistentes na vida política americana é um extremismo fanático que se aproxima do fascismo. Isto manifestou-se e reforçou-se durante os dois mandatos de Barack Obama. "Acredito no excepcionalismo americano com toda a fibra do meu ser", disse Obama, o qual expandiu o passatempo militar favorito da América, bombardeamento e esquadrões da morte ("operações especiais"), como nenhum outro presidente havia feito desde a Guerra Fria.

OBAMA: 71 BOMBAS POR DIA EM 2016

Segundo inquérito do Council on Foreign Relations, só em 2016 Obama despejou 26.171 bombas. Isto equivale a 71 bombas por dia. Ele bombardeou os povos mais pobres da terra, no Afeganistão, Líbia, Iémen, Somália, Síria, Iraque, Paquistão.

Toda terça-feira – como informou o New York Times – ele seleccionava pessoalmente aqueles que seriam assassinados por mísseis hellfire disparados de drones. Foram atacadas festas de casamento, funerais, pastores, bem como aqueles que tentavam recolher restos dos corpos classificados como "alvos terroristas". Um importante senador republicano, Lindsey Graham, estimou, aprovadoramente, que os drones de Obama mataram 4.700 pessoas. "Por vezes atingem-se pessoas inocentes e odeio isso", disse ele, "mas removemos alguns altos membros da Al Qaeda".

Tal como no fascismo dos anos 1930, grandes mentiras são entregues com a precisão de um metrónomo: graças aos media omnipresentes cuja descrição agora se ajusta àquela do promotor de Nuremberg. "Antes de cada grande agressão, com algumas poucas excepções de conveniência, eles iniciavam uma campanha de imprensa calculada para enfraquecer suas vítimas e preparar psicologicamente o povo alemão... No sistema de propaganda... havia a imprensa diária e a rádio, que foram as armas mais importantes".

Tome-se a catástrofe na Líbia. Em 2011, Obama disse que o presidente líbio Muammar Gaddafi estava a planear "genocídio" contra o seu próprio povo. "Nós sabemos... que se esperássemos mais um dia, Bengazi, uma cidade da dimensão de Charlotte, poderia sofrer um massacre que teria repercutido por toda a região e manchado a consciência do mundo".

Era a conhecida mentira de milícias islamistas a enfrentarem a derrota diante das forças do governo líbio. Isto tornou-se a narrativa dos media. E a NATO – dirigida por Obama e Hillary Clinton – lançou 9.700 "incursões de ataque" contra a Líbia, das quais mais de um terço foram destinadas a alvos civis. Foram utilizadas ogivas com urânio; as cidades de Misurata e Sirte foram bombardeamentos em tapete. A Cruz Vermelha identificou sepulturas em massa e a UNICEF informou que "a maior parte [das crianças mortas] tinha menos de 10 anos de idade".

Sob Obama, os EUA estenderam operações secretas de "forças especiais" a 138 países, ou 70 por cento da população mundial. O primeiro presidente afro-americano lançou o equivalente a uma invasão em plena escala da África. Recordando a Partilha da África (Scramble for Africa) [2] no fim do século XIX, o US African Command (Africom) construiu uma rede de suplicantes entre regimes africanos colaborantes ansiosos por subornos e armamentos americanos. A doutrina "soldado para soldado" do Africom está incorporado nos oficiais estado-unidenses a todo nível de comando, desde o general até o primeiro-sargento. Só estão a faltar capacetes de cortiça.

É como se a magnífica história da libertação da África, desde Patrice Lumumba a Nelson Mandela, fosse remetida ao esquecimento por um novo mestre da elite negra colonial cuja "missão histórica", advertida por Frantz Fanon há meio século atrás, fosse a promoção de "uma capitalismo desenfreado embora camuflado".

Foi Obama quem, em 2011, anunciou o que se tornou conhecido como o "eixo na Ásia" ("pivot to Asia"), pelo qual quase dois terços das forças navais dos EUA seriam transferidas para a Ásia-Pacífico para "confrontar a China", de acordo com as palavras do seu secretário da Defesa. Não havia ameaça da China; todo o empreendimento era desnecessário. Foi uma provocação extrema para manter feliz o Pentágono e suas altas patentes.

Em 2014, a administração de Obama supervisionou e pagou por um golpe fascista na Ucrânia contra o governo eleito democraticamente, ameaçando a Rússia na fronteira ocidental através da qual Hitler invadira a União Soviética, com uma perda de 27 milhões de vida. Foi Obama que colocou mísseis na Europa do Leste apontados para a Rússia; e foi o vencedor do Prémio Nobel da Paz que aumentou as despesas com ogivas nucleares a um nível mais alto do que o de qualquer outra administração desde a guerra fria – tendo prometido, num discurso emotivo em Praga, "ajudar o mundo a livrar-se de armas nucleares".

Obama, o jurista constitucionalista, processou mais denunciantes do que qualquer outro presidente na história, muito embora a Constituição dos EUA os proteja. Ele declarou Chelsea Manning culpada antes do fim de um julgamento que foi uma farsa. Ele recusou-se a perdoar Manning [3] , que sofreu anos de tratamento desumano o qual a ONU afirma equivaler a tortura. Ele insistiu num caso inteiramente falso contra Julian Assange. Ele prometeu encerrar o campo de concentração de Guantanamo e não o fez.

Depois do desastre de relações públicas de George W. Bush, Obama, o fluente operador de Chicago via Harvard, foi encarregado de restaurar o que ele chama de "liderança" por todo o mundo. A decisão do comité do Prémio Nobel fazia parte disto: a espécie de enjoativo racismo reverso que beatificou o homem por nenhuma razão senão facto de que era atraente para sensibilidades liberais e, naturalmente, para o poder americano, ainda que não para as crianças que ele matava em países empobrecidos, principalmente muçulmanos.

Este é o Apelo de Obama. É o contrário de um apito de cão: inaudível para a maior parte das pessoas, mas irresistível para os embrutecidos e estúpidos, especialmente "cérebros liberais conservados no formaldeído da política de identidade", como disse Luciana Bohne. "Quando Obama entra numa sala", emocionou-se George Clooney, "você quer segui-lo para qualquer lugar, seja onde for".

William I. Robinson, professor na Universidade da Califórnia, e um de um não contaminado grupo de pensadores estratégicos americanos que conservou sua independência durante os anos do apito para cães, desde de o 11/Set, escreveu na semana passada:

"O presidente Barack Obama... pode ter feito mais do que ninguém para assegurar a vitória de [Donald] Trump. Se bem que a eleição de Trump tenha disparado uma rápida expansão de correntes fascistas na sociedade civil dos EUA, uma saída fascista para o sistema político é longe de inevitável... Mas esse combate requer clareza de como actuar diante de um precipício perigoso. As sementes do fascismo do século XXI foram plantadas, fertilizadas e regadas pela administração Obama e a elite liberal politicamente em bancarrota".

Robinson destaca que "tanto nas suas variantes do século XX ou no emergente século XXI o fascismo é, acima de tudo, uma resposta à profunda crise estrutural do capitalismo, tal como na década de 1930 e naquela que começou com o colapso financeiro de 2008... Há aqui uma linha quase recta desde Obama até Trump... A recusa da elite liberal a desafiar a voracidade do capital transnacional e sua marca da política de identidade serviu para eclipsar a linguagem das classes trabalhadoras e populares... empurrando trabalhadores brancos para dentro de uma "identidade" de nacionalismo branco e ajudando os neo-fascistas a organizá-los".

A terra preparada para a sementeira é a República de Weimar de Obama, uma paisagem de pobreza endémica, polícia militarizada e prisões bárbaras: a consequência de um extremismo "de mercado" o qual, sob a sua presidência, acelerou a transferência de US$14 milhões de milhões (trillion) de dinheiro público para empresas criminosas na Wall Street.

Talvez o seu maior "legado" seja a cooptação e desorientação de qualque oposição real. A especiosa "revolução" de Bernie Sanders não tem aplicação. A propaganda é o seu triunfo.

As mentiras acerca da Rússia – em cujas eleições os EUA intervieram abertamente – provocaram gargalhadas entre os mais importantes jornalistas do mundo. No país com a imprensa constitucionalmente a mais livre do mundo, o jornalismo livre agora existe só em honrosas excepções.

A obsessão com Trump é um encobrimento para muitos daqueles que se consideram "esquerda/liberais", como que a pedir decência política. Eles não são "esquerda", nem tão pouco especialmente "liberais". A maior parte das agressões da América ao resto da humanidade vieram das chamadas administrações liberais-democráticas – tal como a de Obama.

O espectro político da América estende-se do mítico central até à direita lunar. A "esquerda" são renegados sem lar que Martha Gellhorn descreveu como "uma fraternidade rara e absolutamente admirável". Ela excluiu aqueles que confundem política com uma fixação acerca dos seus umbigos.

Enquanto eles "curam" e "movem-se em frente", será que os que fazem campanhas do Writers Resist e outros anti-trumpistas reflectem acerca disto? Mais especificamente: quando será que um movimento genuíno de oposição se levanta? Revoltado, eloquente, um por todos e todos por um. Até que a política real retorno às vidas do povo, o inimigo não é Trump, somos nós próprios. 

17/Janeiro/2017 
 
[1] Amazing Grace: hino cristão publicado em 1779, com texto do poeta e clérigo inglês John Newton (1725–1807).
[2] The Scramble for Africa: é uma história da África escrita por Thomas Pakenham
[3] Em 19 de Janeiro, véspera do fim do seu mandato, Obama anunciou a comutação de parte da sentença de 45 anos de prisão de Chelsea Manning. No entanto, não lhe concedeu o perdão presidencial.


O original encontra-se em newmatilda.com/...

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

sábado, 21 de janeiro de 2017

A confissão do criminoso John Kerry

por Thierry Meyssan

 A guerra contra a Síria é a primeira a ser conduzida durante mais de seis anos na era digital. Inúmeros documentos que deveriam ter ficado como classificados, durante longo tempo, foram já publicados. Claro, foram-no em países diferentes de tal modo que a opinião pública internacional não tomou consciência disso, mas permitem, desde já, reconstituir os acontecimentos. A publicação de uma gravação de declarações feitas por John Kerry em privado, em Setembro último, revela a política do Secretário de Estado e obriga todos os observadores —e aqui, nós incluídos— a rever as suas análises precedentes.



A difusão pelo The Last Refuge da gravação completa do encontro entre o Secretário de Estado John Kerry e membros da Coligação Nacional (a 22 de Setembro de 2016, na delegação dos Países Baixos nas Nações Unidas) põe em causa aquilo que nós acreditávamos ter percebido quanto à posição dos EUA face à Síria.
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Em primeiro lugar, pensávamos que se Washington tinha lançado a operação dita «Primavera Árabe» para derrubar os regimes árabes laicos em favor dos Irmãos Muçulmanos, tinha permitido que os seus aliados empreendessem, sozinhos, a Segunda Guerra contra a Síria a partir de Julho de 2012. E que, com estes perseguindo os seus próprios fins (recolonização para a França e o Reino Unido, conquista do gaz para o Catar, expansão do wahhabismo, e vingança pela guerra civil libanesa, para a Arábia Saudita, anexação do Norte do país para a Turquia, segundo o modelo cipriota, etc.), o objetivo inicial teria sido abandonado. Ora, John Kerry afirma nesta gravação que Washington jamais parou de tentar derrubar a República Árabe Síria, o que implica que ele controlou cada etapa do trabalho dos seus aliados. De facto, durante os quatro últimos anos, os jiadistas foram comandados, armados e coordenados pelo Allied LandCom (Comando das Forças Terrestres) da OTAN sediado em Esmirna (Turquia).

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Em segundo lugar, John Kerry confirma nela que Washington não podia ir mais longe por causa do Direito Internacional e da posição da Rússia. Entenda-mo-nos: os Estados Unidos não pararam de ultrapassar o seu direito. Eles destruíram o essencial das infra-estruturas petrolíferas e de gaz do país, sob o pretexto de combater os jiadistas (o que está conforme ao Direito Internacional), mas sem para tal terem sido convidados pelo Presidente Assad (o que viola o Direito Internacional). Pelo contrário, eles não ousaram colocar as suas tropas no terreno e combater abertamente a República, tal como o fizeram na Coreia, no Vietname (Vietnã-br) e no Iraque. Para isso escolheram colocar os seus aliados na primeira linha(leadership from behind –- liderança pelos bastidores) e apoiar, sem grande discrição, mercenários, como na Nicarágua, com o risco de serem condenados pelo Tribunal Internacional de Justiça (o Tribunal interno da ONU). Washington não quer envolver-se numa guerra contra a Rússia. E esta, que não se havia oposto à destruição da Jugoslávia e da Líbia, levantou-se e empurrou a linha que não devia ser cruzada. Moscovo está à altura de defender a Lei pelo uso da força, se Washington se enfiar abertamente numa nova guerra de conquista.

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Em terceiro lugar, John Kerry confirma aí que Washington esperava uma vitória do Daesh (E.I.) sobre a República. Até aqui, —com base no relatório do general Michael Flynn, de 12 de Agosto de 2012, e do artigo de Robin Wright, no New York Times de 28 de Setembro 2013— tínhamos percebido que o Pentágono planeava criar um «Sunistão» a cavalo sobre a Síria e o Iraque afim de cortar a Rota da Seda. Ora, ele confessa que o plano ia muito mais longe que isso. Provavelmente, o Daesh devia tomar Damasco, depois ser corrido de lá por Telavive (isto é, recuar para o tal «Sunistão» que lhe havia sido atribuído). A Síria teria então sido dividida a Sul por Israel, a Leste pelo Daesh e a Norte pela Turquia.

Este ponto permite compreender porque Washington deu a impressão de não controlar nada mais, de «deixar andar» os seus aliados: com efeito, envolveu a França e o Reino Unido na guerra fazendo-lhes crer que poderiam recolonizar o Levante, quando, na realidade, tinha previsto dividir a Síria sem eles.
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Em quarto, ao admitir ter «apoiado» o Daesh(EI), John Kerry reconhecia tê-lo armado, o que reduz a zero a retórica da «guerra contra o terrorismo».

- Sabíamos desde o atentado contra a mesquita de al-Askari em Samarra, a 22 de Fevereiro de 2006, que o Daesh(inicialmente denominado «Emirado Islâmico no Iraque») fora criado pelo Director Nacional de Inteligência dos E.U., John Negroponte, e pelo coronel James Steele —no modelo do que eles tinham feito nas Honduras— para por um fim à Resistência iraquiana e instaurar uma guerra civil.
- Sabíamos desde a publicação pelo diário do PKK, Özgür Gündem, da acta da reunião de planificação realizada em Amã, a 1 de Junho de 2014, que os Estados Unidos tinham organizado a ofensiva conjunta do Daesh sobre Mossul e do Governo Regional do Curdistão iraquiano sobre Kirkuk.
- Agora, nós sabemos com certeza que Washington jamais parou de apoiar o Daesh.
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Em quinto lugar, nós interpretáramos o conflito entre, por um lado, o clã Allen/Clinton/Feltman/Petraeus e, por outro, a Administração Obama/Kerry, como tendo a ver com o apoio ou não ao Daesh. Mas, não se tratava de nada disso. Os dois campos não tiveram qualquer escrúpulo em organizar e apoiar os mais fanáticos dos jiadistas. O seu desacordo tem a ver exclusivamente com o recurso à guerra declarada —e ao conflito com a Rússia que ela arriscava implicar— ou à escolha duma actuação secreta. Apenas Flynn —o actual conselheiro de Segurança de Trump— se opôs ao jiadismo.

Se, dentro de poucos anos os Estados Unidos se afundassem tal como antes a União Soviética, a gravação de John Kerry poderia ser usada contra ele e contra Barack Obama perante um Tribunal Internacional —mas não perante o Tribunal Penal Internacional que está hoje em dia desacreditado—. Tendo reconhecido os excertos desta conversa, que foram publicados pelo New York Times, ele não poderia contestar a autenticidade do ficheiro completo. O apoio que Kerry declara ao Daesh viola várias Resoluções das Nações Unidas e constitui uma prova da sua responsabilidade e da de Obama nos crimes contra a humanidade cometidos pela organização terrorista.

Tradução
Alva

aqui:http://www.voltairenet.org/article194949.html

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Marionetas russas

por Serge Halimi



A 9 de Fevereiro de 1950, no auge da Guerra Fria, um senador republicano ainda desconhecido exclama o seguinte: «Tenho nas mãos a lista de duzentas e cinquenta pessoas que o secretário de Estado sabe serem membros do Partido Comunista e que, no entanto, determinam a política do Departamento de Estado». Joseph McCarthy acabava de entrar na história dos Estados Unidos pela porta da infâmia. A lista não existia, mas a vaga de histeria anti-comunista e de purgas que se seguiu foi bem real. E destruiu a vida de milhares de norte-americanos.

Em 2017, parece que está em causa nada menos do que a lealdade patriótica do próximo presidente dos Estados Unidos. Com o seu executivo de militares e multimilionários, há muitas razões para temer a sua entrada em funções. Contudo, o Partido Democrata e muitos meios de comunicação social ocidentais parecem obcecados com a ideia extravagante de que Donald Trump seria a «marioneta» do Kremlin [1]. E que ele deveria a eleição a um acto de pirataria de dados informáticos orquestrado pela Rússia. Já passou muito tempo desde a paranóia macartista, mas o Washington Post acaba de recuperar esta história mostrando-se inquieto com a existência de «mais de duzentos sítios que, voluntariamente ou não, publicam a propaganda russa ou a reproduzem» (24 de Novembro de 2016).

Sopram maus ventos sobre o Ocidente. Cada eleição, ou quase, é apreciada através do prisma da Rússia. Quer se trate de Trump nos Estados Unidos, de Jeremy Corbyn no Reino Unido, ou de candidatos tão diferentes como Jean-Luc Mélenchon, François Fillon ou Marine Le Pen em França, basta duvidar das medidas tomadas contra a Rússia, ou das conspirações atribuídas a Moscovo pela Central Intelligence Agency (CIA) – uma instituição que todos sabem ser infalível e irrepreensível –, para se ser suspeito de servir os desígnios do Kremlin. Num clima como este, mal se ousa imaginar a torrente de indignação que teriam suscitado a espionagem pela Rússia, em vez dos Estados Unidos, do telefone de Angela Merkel, ou a entrega pela Google a Moscovo, em vez da Agência Nacional de Segurança Americana (NSA), de milhares de milhões de dados privados recolhidos na Internet. Sem avaliar bem toda a ironia das suas palavras, Barack Obama ainda assim ameaçou a Rússia nestes termos: «Eles têm de compreender que nós também lhes podemos fazer aquilo que eles nos fazem a nós» [2].

Vladimir Putin não ignora que Washington pode inflectir a política de um outro Estado. Na Primavera de 1996, um presidente russo doente e alcoólico, artesão (corrupto) do caos social no seu país, de facto só sobreviveu a uma impopularidade descomunal graças ao apoio declarado, político e financeiro, das capitais ocidentais. E a um providencial enchimento das urnas. Boris Ieltsin, o menino bonito dos democratas de Washington, Berlim e Paris (apesar de ter feito disparos de canhão contra o Parlamento russo, provocando a morte de centenas de pessoas), foi portanto reeleito. A 31 de Dezembro de 1999, Ieltsin decidiu transmitir todos os seus poderes ao seu fiel primeiro-ministro, o delicioso Vladimir Putin…

sexta-feira 6 de Janeiro de 2017

 

Notas

[1] Segundo a expressão de Hillary Clinton, num debate televisivo com Donald Trump, a 19 de Outubro de 2016.
[2] Conferência de imprensa de 16 de Dezembro de 2016.

aqui:http://pt.mondediplo.com/spip.php?article1151

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

A produção perversa de um mito histórico

por José Goulão


Créditos / Agência Lusa
 
A História para consumo geral é escrita pelos vencedores e suas estruturas de domínio. E quando a História é ainda contemporânea e se confunde com a comunicação social, guiada por mecanismos de propaganda, dos mais grosseiros aos delicadamente sofisticados, a vantagem das forças dominantes torna-se esmagadora, entrando pelos domínios da mitologia inquestionável, servida por axiomas asfixiantes.

A morte não apaga as realidades nem os factos vividos; não os transforma, mesmo quando oportunisticamente manipulados por quem considera legítimo domar consciências, em mandamentos de uma doutrina de obediência colectiva, condenando os que não a aceitam à marginalidade do pariato eterno.

Como se previa ainda em vida, a morte transformou Mário Soares num mito histórico à velocidade da tecnologia de ponta. Para que não entrem em piloto automático os efeitos dos axiomas que balizam a queda no delito de opinião, cabe-me escrever, com toda a honestidade, que não estão minimamente em questão o antifascismo de Mário Soares nem a sua coragem para enfrentar a besta salazarenta, ainda que outros tenham sofrido bem mais dolorosamente as consequências de tal destemor e tantos louvores não tenham recebido, pelo contrário, sejam ainda alvo de insultos e pasto de mentiras difamatórias, mais cruéis ainda quando delas já não se podem defender.

Ponto assente: Mário Soares foi um corajoso antifascista.

Agora «pai da democracia» e «pai da liberdade»?

Os mitos históricos têm progenitores: a propaganda que fabrica a História regimental e os poderes que a alimentam e dela se nutrem, num descarado processo de parasitismo. Quanto ao pai da democracia, outro não é que não o povo que a pratica, quando não há esbirros ou mecanismos cínicos que o impeçam – à bruta ou através de processos de controlo e manipulação; os pais da liberdade são os cidadãos livres que a conquistam e a defendem, mas têm quase sempre pela frente aqueles que, graças a usos mais ou menos perversos do poder, sustentam estar escrito no destino haver uns cidadãos mais livres do que outros.

Decifrando a cacofonia que vem atordoando o país nestes dias, ladainhando mil e um monólogos redondos em torno de duas ou três mensagens propagandísticas feitas e refeitas, concluiu-se que Mário Soares foi, sim, um dos pais fundadores do tipo de regime financeiro, económico e político que hoje se aplica em Portugal, subsidiário do ordenamento não-democrático da União Europeia; e tutor de uma liberdade sem dúvida condicionada, para a maioria dos cidadãos, pelos instrumentos e tentáculos da mesma União Europeia.

A manipulação subjacente a tanto ruído ambiente, gritando para milhões o que poderia resumir-se em meia dúzia de frases simples, é a confusão abusiva entre democracia plena, prometida pela Revolução de 25 de Abril, e o regime de democracia parcial em funcionamento; e entre liberdade humanista e o labirinto de liberdades, condicionamento de direitos civis, laborais e sociais e austeridades em que se transformou a sociedade portuguesa, marioneta dos interesses convergentes que se empanturram em Bruxelas.

Mário Soares, o antifascista, cedo abandonou a dinâmica transformadora da Revolução de Abril, passando, no âmbito da sua acção e cargos, a desenvolver contactos com o embaixador norte-americano Frank Carlucci – futuro director da CIA – que se ingeria descaradamente, conspirando, nos assuntos portugueses; e do golpe de 25 de Novembro de 1975 ainda hoje sabemos apenas quanto baste do que interessa aos que dele tiraram proveito e proveitos; o soarismo que lhe sucedeu imprimiu marcas indeléveis que pouco correspondem às deixadas para trás por Mário Soares, no período antifascista.

Paradoxalmente, por uma caprichosa ironia a que, pelos vistos, nem os mais cuidados mitos históricos escapam, a figura tutelar do soarismo desaparece fisicamente num período em que o governo de Portugal resulta de uma solução política que contraria um dos mais rígidos axiomas soaristas – estando, até há pouco, rigorosamente bloqueada.

Recordando o percurso de Portugal desde 25 de Abril de 1974, se as realidades vividas pelo país forem encaradas livres de manipulações, enviesamentos e mentiras da propaganda, comprovam que os conceitos de democracia e liberdade aplicados pelo soarismo foram condicionados por um redil político (determinado por poderes financeiros e económicos); uma tal cerca marginalizou os que se afirmaram ideologicamente diferentes, logo acusados, sem provas, de serem adeptos de soluções ditatoriais ou não-democráticas – afastados sumariamente de soluções governativas mesmo que proporcionassem maiorias parlamentares estáveis.

Não foram raros os casos como esses registados ao longo de décadas, com a agravante perversa de os excluídos serem também acusados de não pretenderem governar, apesar de multiplicarem apelos ao entendimento, acabando o sistema patrocinado pelo soarismo de se enquistar no «arco da governação» só recentemente quebrado.

Os conceitos de liberdade e democracia do soarismo tiveram aplicações práticas orientadas pela vontade de tolher o potencial de desenvolvimento do país libertado popularmente em 25 de Abril de 1974, encafuando Portugal num colete-de-forças de bastidores no qual, durante tempo excessivo, foi privado das suas principais energias económicas, culturais e criativas, delapidado do património estatal, minado por interesses alheios. Enquanto isso, a vontade manifestada livremente pelo povo, em sucessivas eleições, foi ficando refém de entidades e organismos não-eleitos, ao serviço de poderes transnacionais nefastos para o povo, para os cidadãos que se crêem livres.

 A integração na CEE sem qualquer auscultação da opinião popular, o arranque da liberalização sem fim do mercado de trabalho – com o seu cortejo de inseguranças e perda de direitos dos trabalhadores –, a abertura das portas ao FMI, a destruição da Reforma Agrária, o enfraquecimento do movimento sindical concertado através de uma coligação institucional com o PPD/PSD, a passadeira estendida às privatizações, com os resultados que estão bem à vista, as responsabilidades perante a desastrosa integração no euro – novamente sem que fosse pedida opinião ao povo – são marcos indeléveis no itinerário soarista até um país que continua a sofrer de desigualdades profundas, enquanto é vítima de ataques de entidades não-democráticas que menosprezam a sua soberania.

 O ser e o parecer muitas vezes não coincidem, e assim foi em Mário Soares quando, apesar do inflamado discurso anti-neoliberal dos últimos anos, não aproveitou, quando podia, as oportunidades para combater a ascensão e implantação interna do neoliberalismo, uma vez que dispôs dos instrumentos governativos e presidenciais para o fazer.

O caminho do país sujeito à influência soarista foi percorrido sob uma governação restringida sectariamente a um bloco bipartidário na prática, excluindo da democracia as forças que propunham alternativas de facto e não uma alternância que se foi institucionalizando, favorecendo interesses minoritários, a vertente privada e encorajando a corrupção atrelada a um processo nocivo de privatização do próprio Estado.

A imposição do chamado bloco central, apesar – repete-se – das numerosas propostas para materializar uma vontade popular maioritária que proporcionaria frequentes entendimentos governativos do PS com forças à sua esquerda, é a marca mais negativa para o país resultante das opções de Mário Soares, e da qual decorrem praticamente todas as outras. Com a agravante de ter permitido que esse procedimento fosse camuflado com a enorme mentira, resistente até há pouco, segundo a qual partidos como o PCP não tinham interesse em associar-se à acção governativa, remetendo-se a um papel «contestatário», logo decorativo.

Neste aspecto, ao corajoso antifascista que foi Mário Soares faltou o destemor para fazer vingar os interesses reais dos portugueses como cidadãos livres usufruindo de uma democracia plena. O soarismo rendeu-se às normas antidemocráticas impostas surdamente através da NATO, impedindo qualquer Partido Comunista de um país ocidental de chegar a plataformas governativas.

É certo que o humanista democrata-cristão italiano Aldo Moro pagou com a vida a ousadia de estabelecer acordos de incidência parlamentar com o PCI, comparáveis aos que existem agora em Portugal entre o PS e o PCP. A coragem que atribuem a Mário Soares na defesa da democracia teria sido então de uma importância determinante para os portugueses se a ela tivesse recorrido, até às últimas consequências, na interpretação da vontade popular.

Por ironia do destino, foi ainda em vida de Mário Soares que se deu a primeira ruptura com o edifício do soarismo limitador das potencialidades democráticas do sistema multipartidário. Quando se constrói um mito histórico, a obra só poderá dar-se por terminada quando reflectir a realidade global do percurso percorrido em vida, e não apenas os troços parciais de que alguns pretendem continuar a extrair vantagens, mesmo que seja à custa dos interesses de muitos e dos direitos de todos à democracia e liberdade plenas.

Nesse caso restrito, pode ser um mito histórico sectariamente útil; mas é incompleto, impreciso e, mais grave ainda – o que será insultuoso para o próprio – nocivo para o país, insuficientemente democrático, manipulador de consciências, enganador das gerações mais jovens e das que virão.

aqui:http://www.abrilabril.pt/producao-perversa-de-um-mito-historico

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Os Rebeldes do Futebol

Eric Cantona está despertando consciências através do caminho traçado por jogadores que se opuseram ao poder e que se tornaram ícones da resistência, além de se destacarem pela suas habilidades no esporte.

Em 2012, o cineasta francês Gilles Rof produziu um documentário inspirador.
“Queria fazer a série por causa da raiva que sentia das estrelas do futebol que são conduzidas apenas pelo dinheiro e pela fama. Isso não se encaixa sobre aquilo que sinto e sei sobre futebol”. As histórias de cinco ídolos do esporte que usaram suas influências na tentativa de mudar a realidade social e política de seus países.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Poderá Trump reparar a economia em 2017?

– Informação lixo e capacidade de julgamento lixo dominam o ocidente

por Paul Craig Roberts 
 
Cartoon de Gary. O mundo ocidental e aquela parte do mundo que partilha as explicações ocidentais vive num mundo ficcional. Vemos isto por toda a parte para onde olhamos – nas alegadas maquinações da Rússia para eleger Donald Trump presidente dos EUA; nas afirmações de que Saddam Hussein e suas (não existentes) armas de destruição em massa eram uma ameaça aos EUA (uma nuvem em cogumelo sobre cidades americanas); que Assad da Síria utilizava armas químicas contra o seu próprio povo; que o Irão tem um programa de armas nucleares; que uns poucos árabes sauditas burlaram a totalidade do serviços de inteligência dos EUA, da UE e de Israel e assestaram a maior humilhação da história humana à "única super-potência do mundo"; que a Rússia invadiu a Ucrânia e poderia a qualquer momento invadir os países bálticos e a Polónia; que a taxa de desemprego dos EUA é de 4,6%; que o excedente comercial da China com os EUA deve-se à manipulação da divisa chinesa; e assim por diante.

Alegadamente vivemos numa era científica de informação, mas que bem pode decorrer de uma informação orquestrada defeituosa? Na medida em que falsas notícias apresentadas pelas presstitutas serve poderosos interesses privados e governamentais, como podemos saber a verdade acerca de alguma coisa?

Por exemplo: considere a afirmação encontrada por toda a parte em declarações do governo e dos media dos EUA de que o maciço défice comercial com a China resulta da manipulação da divisa chinesa, mantendo o yuan subvalorizado em relação ao US dólar.

Esta afirmação falsa, a qual é amplamente aceite como verdade mesmo por autores russos em sítios web russos ( www.strategic-culture.org/... (pegged) ao US dólar. Ela move-se com o dólar. Ao longo da última década a China ajustou a sua divisa ao dólar e permitiu uma ascensão do valor da divisa chinesa de 8,1 yuan para 6,9 yuan por US dólar. (O yuan alcançou uma força de 6 por dólar, mas um dólar em ascensão estava a alcançar o yuan, levando a China a ampliar a flutuação a fim de evitar uma apreciação indevida por causa da ascensão do US dólar em relação a outras divisas asiáticas e europeias.) Como uma ascensão do yuan pode ser "manipulação da divisa"? Não espere resposta dos media financeiros presstitutos ou dos economistas lixo que incluem os que professam a teoria económica neoliberal.

A função do mito da manipulação chinesa da divisa é ocultar o facto de que o maciço défice comercial dos EUA com a China deve-se às corporações estado-unidenses que deslocalizam para a China a sua produção destinada ao mercado estado-unidense. Quando corporações dos EUA trazem bens e serviços produzidos externamente para venda nos EUA, eles entram como importações, inchando portanto o défice comercial. O mito acerca da manipulação da divisa transfere para a China a culpa das corporações estado-unidenses, embora de facto seja o retorno de produção deslocalizada, tal como a dos computadores Apple, para venda a americanos que incha o défice comercial dos EUA.

As corporações dos EUA produzem no exterior porque os custos do trabalho muito mais baixos resultam em lucros mais altos, em preços de acções mais elevados para accionistas e em bónus de desempenho para executivos. Uma das causas principais para as altas médias do Dow Jones e da pioria do rendimento e da distribuição de riqueza nos EUA é a deslocalização de empregos. Em 2016 as pessoas mais ricas acrescentaram US$237 mil milhões à sua riqueza, ao passo que a subida em empréstimos a estudantes, empréstimos para automóveis e dívida em cartões de crédito combinadas com rendimento estagnado ou declinante deixou os americanos comuns mais pobres. Durante o século XXI, o endividamento familiar subiu de cerca de 70% do PIB para cerca de 80%. O rendimento pessoal não subiu de acordo com a dívida pessoal.

A deslocalização de empregos beneficia apenas um pequeno número de accionistas e executivos – e impõe custos externos maciços à sociedade americana. Antigos estados manufactureiros prósperos estão em depressão de longo prazo. Caíram os rendimentos reais medianos das famílias. Valores imobiliários em áreas manufactureiras abandonadas caíram. A base fiscal desgastou-se. Os sistemas de pensões dos governos estaduais e locais não podem atender às suas obrigações. A rede da segurança social está a desfazer-se.

Para se ter uma ideia dos custos externos que a deslocalização impõe à população americana vá à net e olhe as fotos da decrépita Detroit, antigamente uma potência industrial. Escolas e bibliotecas estão abandonadas. Edifícios públicos estão abandonados. Fábricas estão abandonadas. Lares estão abandonados. Igrejas estão abandonadas. Aqui está uma descrição num vídeo de 4 minutos: https://www.youtube.com/watch?v=pcTYqnL2Bgw

E não se trata só de Detroit. No meu livro, The Failure of Laissez Faire Capitalism (Clarity Press, 2013), informo dados do Censo de 2010 dos EUA. A população de Detroit, anteriormente a quarta maior cidade da América, declinou em 25 por cento na primeira década do século XXI. Gary, Indiana, perdeu 22 por cento da sua população. Flint, Michigan, perdeu 18 por cento. Cleveland, Ohio, perdeu 17 por cento. Pittsburg, Pennsylvania, perdeu 7 por cento. South Bend perdeu 6 por cento. Rochester, New York, perdeu 4 por cento. St. Louis, Missouri, perdeu 20 por cento. Estas cidades foram outrora o centro de poder da manufactura e da indústria americana.

Ao invés de contar a verdade, os media financeiros presstitutos e a corrupta profissão económica dos EUA ocultaram os maciços custos sociais e externos da deslocalização de empregos sob a afirmação totalmente falsa de que a mesma é boa para a economia. No meu livro, chamo à pedra serviçais corporativos tais como Matthew Slaughter de Dartmouth e Michael Porter de Harvard, os quais produziram com total incompetência ou conivência relatórios erróneos dos grandes benefícios para os americanos de terem os seus empregos dados a chineses e deixarem cidades americanas em ruínas.

Ao longo da sua história os EUA sofreram com mentiras públicas, mas não ao ponto a que chegaram os regimes de Clinton, George W. Bush e Obama em que as mentiras tornaram-se tão omnipresentes que a verdade desapareceu.

Considere o relatório do emprego de Novembro. Disseram-nos que a taxa de desemprego caiu para 4,6% e que nos EUA foram criados 178 mil novos empregos no mês de Novembro. A recuperação está em curso, etc. Mas o que são os factos reais?

A taxa de desemprego não incluiu trabalhadores desencorajados que foram incapazes de encontrar emprego e cessaram de procurar, o que é caro, exaustivo e desmoralizador. Por outras palavras, pessoas desempregadas estão a ser empurradas para a categoria dos desencorajados mais depressa do que podem encontrar empregos. Esta é a explicação para a baixa taxa de desemprego. Além disso, esta afirmada baixa taxa de desemprego é incompatível com a taxa declinante de participação da força de trabalho. Quando empregos estão disponíveis, as pessoas entram na força de trabalho a fim de aproveitar das oportunidades de emprego e a taxa de participação da força de trabalho sobe.

O relatado pelos presstitutos financeiros aumenta a fraude. Dão-nos o número de 178 mil novos empregos em Novembro. E assim é. Contudo, os dados divulgados pelo Bureau of Labor Statistics mostram aspectos problemáticos dos dados. Exemplo: só 9.000 dos apregoados 178 mil empregados são a tempo inteiro (definido como 35 horas por semana). Outubro assistiu a uma perda de 103 mil empregos a tempo inteiro em relação a Setembro. E Setembro teve menos 5.000 empregos a tempo inteiro do que Agosto. Ninguém explica como é que uma economia a perder empregos a tempo inteiro pode estar em recuperação.

A distribuição etária dos novos empregos de Novembro é perturbante. 77 mil dos empregos foram para aqueles com 55 ou mais anos de idade. Só 4 mil empregos foi para as idades de 25 a 34 anos, em que se constitui família.

O estado civil da distribuição dos empregos também é perturbador. Em Novembro houve menos 95 mil homens casados empregados com esposa presente e 74 mil menos mulheres casadas com esposo presente do que em Outubro. Em Outubro houve 333 mil menos homens casados e 87 mil menos mulheres casadas empregadas do que em Setembro.

Pode-se concluir destas grandes diferenças de mês para mês que as estatísticas oficiais não são boas, o que pode muito bem ser o caso. Exemplo: como enfatizei nos meus relatos sobre os comunicados mensais do emprego em folha de pagamento, há sempre um grande número de novos empregos para empregados de mesa e atendedores em bares. Mas o movimento em restaurantes declinou durante nove meses consecutivos. Por que restaurantes contratam mais empregados quando o movimento declina?

Como John Williams (shadowstats.com) nos informnou, os apregoados empregos em folha de pagamento mensal consistem inteiramente de acréscimos a partir de estimativas de um modelo enviesado de nascimentos/mortes e de manipulações de ajustamentos sazonais. Por outras palavras, os novos empregos relatados podem ser só ilusões estatísticas.

John Williams também enfatiza que os apregoados números do crescimento do PIB real podem ser inteiramente produtos da subestimação da inflação. Alguns anos atrás das medidas da inflação foram "reformadas" a fim de trapacear os ajustamentos da Segurança Social de acordo com o custo de vida. Em lugar de um índice ponderado que calculasse o custo de um padrão de vida constante, foi introduzida um substituto. No índice reformado, se o preço de um ítem no índice ascende, um ítem de preço mais baixo é substituído no seu lugar, negando assim o impacto inflacionário da subida do preço. Além disso, subidas de preços são definidas como "melhorias de qualidade". Claramente, isto é um índice concebido para subestimar a subida de preços.

No final das contas, a recuperação alegadamente a caminho desde Junho de 200 pode ser uma ilusão estatística produzida por uma medida enviesada da inflação.

O que os americanos podem esperar da economia em 2017? Primeiro, alguma perspectiva. A derrota da estagflação pela política do lado da oferta do presidente Reagan deu uma boa economia ao regime Clinton. A melhoria da economia dos EUA não foi totalmente uma coisa boa, porque ela mascarou as consequências adversas da deslocalização de empregos que começou a sério após o colapso soviético em 1991.

O colapso soviético encorajou a mudança de atitude dos governos indiano e chinês em relação ao capital estrangeiro. A Wall Street e grandes retalhistas como a Walmart forçaram a relocalização de grande parte da manufactura dos EUA para a China, que foi seguida após a ascensão da internet de alta velocidade pela deslocalização de empregos profissionais qualificados, como os de engenharia de software, para a Índia. Estas relocalizações da actividade económica dos EUA em locais estrangeiros esvaziaram a economia estado-unidense e reduziram as oportunidades de emprego para americanos.

O crescimento do rendimento da família real mediana cessou. Sem aumentos em gastos de consumo para impulsionar a economia, o Federal Reserve substituiu um crescimento na dívida do consumidor para [compensar] o crescimento faltante no rendimento real da família mediana. Mas o crescimento da dívida do consumidor é limitado pela falta de crescimento no rendimento do mesmo. Portanto, uma economia dependente da expansão da dívida está limitada na sua capacidade de expansão. Ao contrário do governo federal, o povo americano não pode imprimir dinheiro para pagar as suas contas.

Único entre aqueles a competirem por cargo político, o presidente eleito Trump apontou a deslocalização de empregos como uma desgraça para o povo e a economia americanas. Está para ser visto o que ele pode fazer quanto a isso, pois a deslocalização de empregos serve os interesses das corporações globais e dos seus accionistas.

Desde há muitos anos as informações de empregos em folha de pagamento mensal mostram que os EUA descem a um status de Terceiro Mundo, com a grande maioria dos apregoados novos empregos em serviços internos não comerciais de baixo pagamento. As projecções de emprego a 10 anos da BLS mostram poucos novos empregos que exijam um grau universitário. Se empregos de alto valor acrescentado e alta produtividade da classe média não puderem ser trazidos de volta para os EUA, o futuro económico americano é de declínio contínuo para o status de Terceiro Mundo.

Considerando os constrangimentos do consumidor, uma grande fatia de lucros corporativos veio da poupança no custo do trabalho com a deslocalização de empregos. Para corporações como a Apple, cujos produtos são quase totalmente produzidos em fábricas chinesas, não há mais lucros a serem garantidos com a exportação de empregos. Para manter os lucros a fluírem, a Apple planeia substituir o trabalho barato do trabalho chinês por robots, aos quais não se tem de pagar qualquer salário. O que mostra melhor a desconexão entre capital e trabalho do que robotizar fábricas chinesas diante de um excesso de oferta de trabalho?

O manual económico de Paul Samuelson ensinava a falácia da composição, o que é bom para o indivíduo por não ser bom para o grupo. Os economistas keynesianos aplicaram isto às poupanças. Poupar é bom para o indivíduo, mas se a poupança agregada excede o investimento, a procura agregada cai, destruindo rendimento, emprego e poupança.

Este é o caso com a deslocalização de empregos. Ela pode aumentar lucros para a firma, mas diminui o rendimento agregado da população e limita o crescimento das vendas. O que a deslocalização de empregos faz quanto a isto será feito em maior escala pela robótica.

Quando leio economistas as presstitutas financeira a glorificarem as poupanças de custos da robótica, pergunto-me onde está a sua mente ou se eles têm alguma. Robots não compram casa, mobiliário e electrodomésticos para casas, carros, alimentos, vestuário, férias, entretenimento. Quando robots tiverem os empregos, de onde os humanos obterão rendimentos para comprar os produtos produzidos por robots?

Esta questão não examinada tem extraordinárias implicações para os direitos de propriedade e a organização social da sociedade. As patentes robóticas não são amplamente detidas. Portanto, num mundo robotizado, rendimento e riqueza seriam concentrados nas mãos de umas relativamente poucas pessoas. Como a robótica aumenta lucros e reduz salários, a desigualdade económica aumentará drasticamente. Na verdade, haveria qualquer rendimento ou riqueza afinal de contas? O único meio com que humanos poderiam sobreviver à sua substituição por robots seria tornarem-se outra vez agricultores auto-suficientes em rendimento monetário para comprarem produtos fabricados por robots. Quando poucos seriam capazes de comprar produtos feitos pelos robots, qual seria a fonte de rendimento e riqueza para os proprietários da robótica?

É disparate que políticas monetárias e orçamentais macroeconómicas (tais como baixas taxas de juro e cortes fiscais) possam manter pleno emprego frente à exportação de empregos e à robótica. Estou convencido de que se a robótica está em vias de suplantar o trabalho humano, as patentes terão de ser socializadas e o rendimento distribuído numa base relativamente igual por toda a sociedade.

Assim, pode Trump consertar a economia em 2017?

Não há nada que possa ser consertado a menos que as escadas da mobilidade ascendente que fizeram os EUA uma sociedade da oportunidade possam ser repostas no lugar. Isto exigirá trazer de volta os empregos deslocalizados da classe média ou, assumindo que novos empregos de alto valor acrescentados pudessem ser criados, impedir estes novos empregos de serem transferidos para fora.

Há um meio de fazer isto. É basear a taxa fiscal corporativo sobre a localização geográfica onde corporações acrescentam valor ao seu produto. Se corporações acrescentam valor internamente com trabalho estado-unidense, a taxa fiscal seria baixa. Se o valor é acrescentado no exterior, a taxa fiscal seria elevada. A taxa fiscal pode ser ajustada para compensar os benefícios de custos mais baixos no estrangeiro.

Apesar da propaganda acerca de globalismo e livre comércio, a economia dos EUA foi construída sobre a protecção e a sua força era o mercado interno. A prosperidade dos EUA nunca esteve dependente de exportações. E como o US dólar e a divisa de reserva mundial, os EUA não precisam exportar a fim de pagar pelas suas importações. Eis porque os EUA podem tolerar os défices comerciais causados pela deslocalização de empregos.

O globalismo é um cozinhado feito pelos economistas lixo neoliberais em cumplicidade com os grandes bancos, a Wall Street e corporações multinacionais. O globalismo é um disfarce para a exploração dos muitos em proveito dos poucos. Os alegados benefícios do globalismo foram utilizados para justificar a deslocalização de empregos e enriquecer executivos e accionistas de corporações.

É a economia interna que é importante, não a economia global. A população sofredora nas áreas centrais da América finalmente aprendeu esta lição e elegeu Trump.

Pode Trump por no roteiro "A fuga do globalismo?" Ele poderia perder o combate. O globalismo foi institucionalizado. As grandes corporações que deslocalizaram a sua produção para mercados dos EUA opor-se-iam aos movimentos contra a deslocalização de empregos. Assim como todos os seus serviçais na profissão económica e nos media financeiros. Não sei a medida em que o globalismo se enraizou nas mentes dos povos da Ásia, África e América do Sul, mas na Europa – mesmo na Rússia de Putin – povos são doutrinados (brainwashed) na crença de que não podem sair do globalismo sem pagar um enorme preço económico.

GREGOS E PORTUGUESES

Considere por exemplos os gregos. Para benefício dos balanços de um punhado de bancos europeus do norte (e talvez dos EUA), os povos grego e português são forçados a austeridade extrema, resultando em tão alto desemprego e queda livre de padrões de vida que mulheres têm sido obrigadas a prostituírem-se a fim de sobreviver. Esta consequência totalmente desnecessária verificou-se porque os povos e governos grego e português estão com os cérebros tão lavados que acreditam não poderem sobreviver como países independentes sem o globalismo e entrada para o globalismo providenciada pela condição de membro da UE. No Reino Unido, 45% da população sofre da mesma concepção errada.

O globalismo é a técnica mais recente pela qual o capitalismo saqueia e destrói. No mundo ocidental são as classes trabalhadoras e médias que são saqueadas dos seus empregos e carreiras. Na Ásia, África e América Latina comunidades agrícolas auto-suficientes são saqueadas da sua terra e forçadas à monocultura como trabalhadores que produzem cultivos de exportação. Países antigamente auto-suficientes em alimentos tornaram-se dependente de importações alimentares e as suas divisas, que arcam com esse fardo, são sujeitas à especulação e manipulação infindável.

Foi a ignorância universal ou os subornos que obrigaram governos por toda a parte a entregar suas populações ao globalismo?

Jornalistas de vanguarda, tais como Chris Hedges, que viram e relataram um bocado, concluíram que o destino do mundo está em tão poucas mãos que actuam apenas no seu estreito auto-interesse que unicamente a revolução pode corrigir o desequilíbrio entre o interesse de um punhado de oligarcas e a massa da humanidade. A posição de Hedge não é fácil de contestar.

Trump, ao descer dentro do poço de serpentes que é Washington, DC, precisa recordar o que aconteceu ao presidente Jimmy Carter. De facto, a melhor coisa que Trump pode fazer para a sua presidência é passar algum tempo com Carter antes de tomar posse.

Carter era um homem de fora, uma pessoa de princípios, e o establishment de Washington não o queria. Eles reduziram a sua eficácia ao tramarem seu director do orçamento e seu chefe de equipe. O mesmo pode acontecer a Trump, assumindo que ele é capaz de conseguir que seus nomeados sejam confirmados pelo Senado, mas membros do mesmo estão aliados à CIA contra Trump.

Reaganistas tiveram uma experiência semelhante na administração Reagan. Este tinha experiência política como governador da Califórnia, o maior estado, mas ele era um estranho ao establishment republicano, cujo candidato para a nomeação presidencial era George H.W. Bush.

Reagan derrotou Bush na nomeação, mas foi aconselhado pelos republicanos, os quais recordavam o massacre de Goldwater quando as forças de Rockefeller voltaram-se contra ele por não escolher o derrotado Rockefeller como seu companheiro para a vice-presidência, o que custou a eleição a Goldwater, ao escolher Bush como vice-presidente. Do contrário, Reagan descobrir-se-ia, tal como Goldwater, a correr contra os establishments tanto democrata como republicano.

O primeiro mandato de Reagan verificou-se com o principal operacional de George H.W. Bush como chefe de equipe da Casa Branca. Isto confrontou-me com problemas como secretário assistente do Tesouro para Política Económica, onde eu era o ponta de lança para a política económica do lado da oferta de Reagan.

Ambos os establishments político-partidários estão mais interessados em controlar o partido do que em fazer bem para o país. Durante os quatro anos do presidente Carter, a principal preocupação do establishment democrata foi recuperar controle do partido às forças que haviam enviado um estranho para a Casa Branca. Durante os oito anos de Reagan, a principal preocupação do establishment republicano era recuperar o controle do Partido Republicano aos reaganistas.

É provável que Trump agora experimente em grande escala o que os presidentes Carter e Reagan experimentaram. O esforço será feito no sentido de forçá-lo a compromissos e neutralizar a sua agenda. Ironicamente, este ataque determinado a Trump está a ser ajudado pela esquerda, forças progressistas que se preparam para ganhos [políticos] pelo interesse de Trump em favor das classes trabalhadora e média e da paz com a Rússia. Muitos dos sítios web liberais, progressistas e de esquerda já estão a solicitar doações a fim de combater contra Trump.

Assim, mesmo quando conseguimos um presidente que pode tentar representar os interesses do povo americano, aqueles que dizem falar a favor do povo juntam-se aos oligarcas no ataque a Trump. O lado esquerdo do espectro parece sempre, como o lado direito, acatar seus odiados. Trump é um bilionário = odiado. Trump nomeou um magnata da energia = odiado. Trump nomeou dois generais de três estrelas = belicista e mais odiado.

Os liberais, progressistas e de esquerda não podem transcender seus espantalhos. Naturalmente, eles podem estar correctos. Entretanto, como tenho enfatizado, Trump escolheu independentes que se têm manifestado contra o establishment. Além disso, trata-se de homens fortes, como Trump, o que dá trabalho para deitar abaixo. O presidente da Exxon quer negócios de energia, não a guerra, com a Rússia. O gen. Flynn é um dos que revelou na televisão que Obama utilizava o ISIS para derrubar a Síria contra a recomendação da Defense Intelligence Agency. O gen. Mattis foi um dos que contestou a eficácia da tortura.

Os principais nomeados de Trump são pessoas que desafiaram o Establishment. A variedade habitual de nomeados aprovados pelo establishment não pode provocar mudança em Washington.

Os liberais, progressistas e de esquerda deveriam estar felizes com a perspectiva de um governo com gente de fora do Establishment. Ao invés disso, os liberais, progressistas e de esquerda alinharam-se com o Establishment na oposição a Trump.

Todos os dias recebo meia dúzia de pedido de doações para "ajudar-nos a combater Donald Trump". O que é que estas pessoas pensam? Por que querem combater alguém a que todo o establishment político dos EUA se opõe? O que elas deveriam tentar em primeiro lugar é obter a confiança de Trump e ganhá-lo para a sua agenda, como fez o general Mattis.

Não posso assegurar-lhe que Trump não é um outro falsário como Obama. Mas é um erro começar com esta suposição. Por que cancelar antecipadamente a única pessoa com a coragem para por a sua vida em risco e enfrentar o corrupto e perverso establishment de Washington?

Por que ajudar o Establishment a derrotar Trump? Se Trump trair americanos, podemos voltar-nos então contra ele, ou podemos decidir se Chris Hedges está correcto em que só a revolução pode rectificar esta situação.
03/Janeiro/2017
 
O original encontra-se em www.paulcraigroberts.org/...

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

O Ocidente reescreve o passado

por Manlio Dinucci


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1984

“Massacre de Berlim, por que o terrorista deixou seus documentos” – pergunta o “Corriere della Sera”, falando de “esquisitices”. Para obter a resposta basta dar uma olhada no passado recente, mas disso não há mais memória. Foi reescrita pelo “Ministério da Verdade” que – imaginado por George Orwell no seu romance de ficção política “1984”, crítico do “totalitarismo stalinista” – tornou-se realidade nas “democracias ocidentais”.

Assim, foi eliminada a história documentada dos últimos anos. A história da guerra dos EUA e da Otan contra a Líbia, decidida – o que está provado nos emails de Hillary Clinton – para bloquear o plano de Kadafi de criar uma moeda africana em alternativa ao dólar e ao franco CFA [1]. Guerra iniciada com uma operação secreta autorizada pelo presidente Obama, financiando e armando grupos islâmicos antes classificados como terroristas, entre os quais os núcleos do futuro Isis (o chamado Estado Islâmico na sigla em inglês). Depois abastecidos de armas através de uma rede da CIA (documentada pelo “New York Times” em março de 2013 [2]) quando, depois de ter contribuído para derrubar Kadafi, passaram em 2011 à Síria para derrubar Assad e em seguida atacar o Iraque (no momento em que o governo de Al-Maliki se distanciava do Ocidente, aproximando-se de Pequim e Moscou [3]).

Foi eliminado o documento da agência de inteligência do Pentágono (datado de 12 de agosto de 2012, desclassificado em 18 de maio de 2015 [4]), no qual se afirma que “os países ocidentais, os Estados do Golfo e a Turquia apoiam na Síria as forças que tentam controlar as áreas orientais” e, com tal escopo, existe “a possibilidade de estabelecer um principado salafita na Síria oriental”.

Foi eliminada a documentação fotográfica do senador estadunidense John McCain que, em missão na Síria por conta da Casa Branca, se encontra em maio de 2013 com Ibrahim al-Badri, o “califa” à frente do Isis [5].

Ao mesmo tempo, inspirando-se na “novilíngua” orwelliana, adapta-se caso a caso a linguagem política-midiática: os terroristas são definidos como tal somente quando aterrorizam a opinião pública ocidental para que esta apoie a estratégia dos EUA/Otan, mas são chamados de “opositores” ou “rebeldes” quando provocam massacres de civis na Síria.

Usando a “novilíngua” das imagens, esconde-se durante anos a dramática condição da população de Alepo, ocupada pelas formações terroristas apoiadas pelo Ocidente, mas, quando as forças sírias apoiadas pela Rússia começam a libertar a cidade, mostra-se diariamente “o martírio de Alepo”.
Porém, esconde-se a captura por parte das forças governamentais, em 16 de dezembro, de um comando da “Coalizão pela Síria” — formado por 14 oficiais dos Estados Unidos, Israel, Arábia Saudita, Catar, Turquia, Jordânia, Marrocos — que, a partir de um bunker no Leste de Alepo, coordenava os terroristas de Al Nusra e outros [6].

Com esse pano de fundo se pode responder à pergunta do “Corriere della Sera”: como já tinha ocorrido no massacre de “Charlie Hebdo” e em outros, os terroristas esquecem ou deixam voluntariamente um documento de identidade para logo ser identificado e assassinado.

Em Berlim, foram verificadas outras “esquisitices”: invadindo o caminhão logo depois do massacre, a polícia e os serviços secretos não se aperceberam de que sob o banco do motorista estavam a carteira de identidade do tunisiano e muitas fotos. Mas prendem um paquistanês, que depois de um dia é solto por insuficiência de provas. Nesse momento, um agente particularmente especializado vai olhar debaixo do banco do motorista e descobre o documento de identidade do terrorista. Interceptado por acaso em plena noite e assassinado por uma patrulha na estação de trem de Sesto San Giovanni (Milão), a um quilômetro de onde tinha partido o caminhão polonês usado parao massacre.

Tudo documentado pelo “Ministério da Verdade”.
Tradução
José Reinaldo Carvalho
Editor do site Resistência


[1] “A recolonização da Líbia”, Manlio Dinucci, Tradução Choldraboldra, Il Manifesto (Itália) , Rede Voltaire, 14 de Março de 2016.
[2] «Arms Airlift to Syria Rebels Expands, With Aid From C.I.A.», C. J. Chivers & Eric Schmitt, “Syrian Rebels Hit Central Damascus Square With Mortar Shells”, Anne Barnard, The New York Times, 24 & 25 mars 2013.
[3] “Jihadismo e indústria petrolífera”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Al-Watan (Síria) , Rede Voltaire, 23 de Junho de 2014.
[4] “DIA Report on Syrian Jihadists”.
[5] “John McCain, chefe de orquestra da «primavera árabe», e o Califa”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 18 de Agosto de 2014.
[6] “O Conselho de Segurança reúne-se à porta fechada após a prisão de oficiais da OTAN em Alepo”, “Detenção de jiadistas e de oficiais estrangeiros em Alepo-Leste”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 17 & 22 de Dezembro de 2016.

aqui:http://www.voltairenet.org/article194727.html