domingo, 15 de outubro de 2017

Choque de civilizações 2

por Thierry Meyssan

 Desde há 16 anos, inúmeros debates despertaram os peritos de política internacional para determinar os objectivos da estratégia norte-americana. É evidentemente mais fácil chegar a uma conclusão após este período do que no seu início. No entanto, muito poucos o fizeram e muitos persistem em defender teorias que tem sido desmentidas pelos factos. Apoiando-se nas conclusões deste debate, Thierry Meyssan alerta para a etapa seguinte prevista para os exércitos dos E.U. segundo os seus teorizadores anteriores a este período ; uma etapa que poderá ser em seguida posta em prática.


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Abu Bakr al-Baghdadi & Ashin Wirathu

As forças que idearam e planearam a aniquilação do «Médio-Oriente Alargado» consideravam esta região como um laboratório no qual eles iam testar a sua nova estratégia. Se em 2001, compreendiam os governos dos Estados Unidos, do Reino Unido e de Israel, entretanto, elas perderam o poder político em Washington e prosseguem o seu projecto económico-militar através de corporações multinacionais privadas.

Desenvolveram a sua estratégia usando, por um lado, os trabalhos do Almirante Arthur Cebrowski e do seu assistente Thomas Barnett no Pentágono, e por outro lado de Bernard Lewis e do seu assistente Samuel Huntington no Conselho de Segurança Nacional [1].

O seu objectivo é, ao mesmo tempo, adaptar o seu domínio às evoluções técnicas e económicas contemporâneas e de o estender aos países do antigo bloco soviético. No passado, Washington controlava a economia mundial através do mercado global da energia. Para o conseguir, impunha o dólar como moeda para todos os contratos de petróleo, ameaçando com a guerra qualquer contraventor. No entanto, este sistema não podia durar a partir da substituição parcial pelo gás russo, iraniano, catariano —e, em breve, sírio— do petróleo.

Reatando com o passado da origem criminosa de uma grande parte dos colonos norte-americanos, estas forças imaginaram dominar os países ricos extorquindo-os. Para ter acesso não apenas às fontes de energia fóssil, mas também às matérias-primas em geral, os Estados estáveis (ex-soviéticos incluídos) deveriam solicitar a «proteção» do exército dos EUA e, acessoriamente, a do Reino Unido, e de Israel.

Bastava para isso dividir o mundo em dois, globalizar as economias solventes e destruir qualquer capacidade de resistência no resto do mundo.

Esta visão, do mundo, é radicalmente diferente das que prevaleciam no Império Britânico e no sionismo. Esta mudança de paradigma só poderia ser posta em prática com uma forte mobilização consecutiva a um enorme choque psicológico, um «novo Pearl Harbor». O que veio a ser o 11-de-Setembro.

Ora, se este projecto parecia delirante e cruel, nós podemos constatar 16 anos mais tarde que não só ele está efectivamente em vias de concretização quanto, na mesma medida, encontra obstáculos inesperados.

A globalização económica dos países solventes era quase total quando um deles, a Rússia, se opôs militarmente à destruição das capacidades de resistência na Síria, isto após a integração forçada da Ucrânia na economia global. Washington e Londres ordenaram, pois, aos seus aliados sanções económicas contra Moscovo. Ao fazê-lo, eles interromperam o processo de globalização dos países solventes.

Lançando o seu projecto de «Rotas da Seda», a China investiu fortemente em países destinados à destruição. As forças que promovem o «novo mapa do mundo» reagiram com a criação de um Estado terrorista, cortando a antiga Rota da Seda no Iraque e na Síria, e transformando, para tal, o conflito ucraniano em guerra, cortando assim também o traçado original da segunda Rota da Seda.

Estas forças pensam actualmente estender o caos a uma segunda região, a Ásia do Sudeste. É pelo menos para lá que os jiadistas parecem migrar segundo o Comité anti-terrorista da ONU. Fazendo-o, estas forças fecham o episódio 2012-2016 no Médio-Oriente, sem anteciparem ou não uma guerra em torno dos curdos, e preparam a devastação do Sudeste da Ásia. Isso seria a segunda etapa do «choque de civilizações», depois dos muçulmanos contra os «judeus-cristãos» (sic) [2], eis os muçulmanos contra os budistas.
 
Tradução
Alva
[1] Network Centric Warfare : Developing and Leveraging Information Superiority, David S. Alberts, John J. Garstka & Frederick P. Stein, CCRP, 1999. The Pentagon’s New Map («O Novo Mapa do Pentágono-ndT), Thomas P. M. Barnett, Putnam Publishing Group, 2004. « The Roots of Muslim Rage », Bernard Lewis, Atlantic Monthly, septembre1990. « The Clash of Civilizations ? » & « The West Unique, Not Universal », Samuel Huntington, Foreign Affairs, 1993 & 1996 ; The Soldier and the State & The Clash of Civilizations and the Remaking of World Order («Os Militares e o Estado & Choque de Civilizações e o Refazer da Ordem Mundial»), Samuel Huntington, Harvard 1957 & Simon and Schulster 1996.
[2] A expressão judeus-cristãos designava exclusivamente até aos anos 90 a comunidade de judeus convertidos ao cristianismo em volta de São Tiago ; comunidade que foi dissolvida após o saque de Jerusalém pelos Romanos. No entanto, os cristãos ocidentais continuam a dar na sua prática um enorme destaque ao papel do Antigo Testamento, que eles defendem muitas vezes sem se darem conta dos pontos de vista judaicos em vez dos pontos de vista cristãos. Ao contrário, os cristãos do Oriente, fieis à tradição dos seus predecessores, só raramente fazem referência às escrituras judaicas e recusam lê-las durante a Eucaristia.

aqui:http://www.voltairenet.org/article198292.html

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

A Google é a NSA

– Não se deixe espiolhar:   Duckduckgo , o motor de pesquisa que não rastreia


por Phil Butler [*]
 
O Google quer ser os olhos do Big Brothers fitos sobre si. Todos os gurus da Internet sabem isto mesmo antes de a NSA ser descoberta a espionar tudo. Mas agora os rapazes da Moutain View [sede da Google] estão mais determinados do que nunca a filtrar a sua informação e a eliminar qualquer resquício de confiabilidade.

Se eu tivesse iniciado um artigo com o parágrafo acima há cinco anos atrás, instantaneamente teria sido etiquetado como um "teórico da conspiração" ou pior ainda. O que pensa disso, caro leitor? Será a ideia de tecnocratas e dos seus manipuladores enormemente endinheirados enlouquece-lo? Penso que sim. Mas se precisa de prova para além do óbvio, o manual de 160 páginas do Google conta-nos exactamente como eles planeiam alimentar-nos só com as "suas" notícias. O extenso manual é uma leitura pesada para a pessoa média, mas o livro fornece pormenores de uma maquinação orwelliana diferente de qualquer coisa já vista desde o aparelho de propaganda nazi. Preste muita atenção à "instrutiva" página 108 onde a Google dita quem cumpre e não cumpre seus critérios de classificação. A secção Falha de Cumprimento (Fails to Meet, FailsM) é um cilindro compressor da imprensa livre e sugere a ocultação de certas espécies de sítios web:

"Páginas que contradigam directamente factos históricos bem estabelecidos (ex.: infundadas teorias da conspiração), a menos que a consulta indique claramente que o utilizador está à procura de um ponto de vista alternativo".

Como de costume, a Google obscurece suas intenções reais com a ideia de que algum algoritmo super inteligente está a "filtrar" ou "aprender" resultados para ajudá-lo a ter uma vida melhor. Mais uma vez, a Google supõe fazer "o que é bom para nós" através da destruição de algumas fontes e a promoção de outras. Utilizando termos como "graduando linhas orientadoras para pesquisa de qualidade" e "graduando linhas orientadores para páginas de qualidade" os pequenos Maquiaveis da Google providenciam justificação para controlar o que você vê e lê na web. Censura e monopolização da informação e dos negócios na internet – esta é acusação contra os rapazes da Mountain View.

Há também a secção que se refere ao modo como a Google classifica o melhor dentre os melhores sítios de notícias intitulado "Um alto nível de perícia/ autoridade/ fidedignidade" ("A High Level of Expertise/ Authoritativeness/ Trustworthiness", EAT). O acrónimo EAT ("comer") deveria servir de pista acerca do facto de os utilizadores da pesquisa Google estarem prestes a serem comidos por alguma verdade trapalhona. Para os oligarcas da Google, "Páginas de alta qualidade" significam ou que o dono da página paga à Google ou que o sítio em causa serve muito bem aos mestres da Google – ponto. No topo da matriz de fontes estão jornais (High News 1) como The Washington Post e New York Times, seguidos por artigos no interior desses sítios (High News 2). A seguir na lista das páginas de autoridade estão sítios governamentais como o Departamento de Estado dos EUA e a Casa Branca e depois páginas categorizadas (acredite ou não) como "Grande Humor" ("High Humor"). Dessa forma, a Google excluiu a importância da verdade ou mesmo a importância da própria notícia em favor de "quem" a escreveu e da "realidade" que a Google quer que você aceite – a rede do Big Brother.

Melissa Dykes, da Truth Stream Media fez um vídeo acerca do novo esforço do Big Brother e o sítio web Escravos do governo também fez a sua parte. Estes últimos sugerem mesmo alternativas à utilização da Google Search àqueles que recusam as tendências totalitárias a que agora assistimos. Para pessoas que preferem boicotar o mal iminente tais como [os motores de pesquisa] Yandex e DuckDuckGo . Os escravos do governo também listam 400 sítios para noticiário independente fora da MATRIX da Google. Meu conselho para toda a gente é começar já a fazer a transição para longe da Google e do Facebook. A minha própria vasta experiência em tratar com pessoas voltadas para a técnica revelou serem gente sem qualquer moral, desejosas de fazer seja o que for para perpetuarem a sua dominação no digital. A Google destruiu milhões de profissões, rompeu o seu próprio código, seus juristas contornaram regras anti-trust e de práticas justas, evitaram impostos e colaboraram com as agências de inteligência contra o povo dos Estados Unidos. Todas estas afirmações não são apenas divagações do autor deste artigo. Remontando a 2014, John W. Whitehead escreveu acerca da NSA e do Google no Huffington Post :

"Simplesmente olhe em torno. Isto já está a acontecer. Graças a uma parceria insidiosa entre a Google e a National Security Agency (NSA) que se torna cada vez mais invasiva e mais subtil a cada dia que passa, "nós o povo" tornámo-nos pouco mais do que consumidores de dados mercantilizados a serem comprados, vendidos e pagos repetidamente".

Em 29 de Agosto o famoso criador do Zero Hedge, Tyler Durden, escreveu uma peça intitulada "Porque a Google fez a NSA", a qual revelava um projecto chamado INSURGE INTELLIGENCE , um projecto de jornalismo de investigação financiado colectivamente que havia divulgado um artigo sobre como a comunidade de inteligência dos Estados Unidos financiou, alimentou e cultivou a Google como parte de uma iniciativa para dominar o mundo através do controle da informação. Leu isto correctamente. Minhas afirmações anteriores de que Sergey Brin e Larry Page foram "ascendidos" por dinheiro desconhecido provavelmente estavam correctas. Apesar de eu ter presumido que George Soros ou Rockfeller estivessem por trás, é concebível que o Tio Sam fosse o fantasma na retaguarda. A notícia do Zero Hedge investiga um "estado profundo" nunca imaginado nos nossos piores pesadelos. A reportagem revela como o grupo do Pentagon Highlands Forum's está a capturar gigantes tecnológicos como a Google a fim de prosseguir a vigilância em massa. Além disso, a reportagem mostra como a comunidade de inteligência desempenhou um papel chave em esforços secretos para manipular os media e o público. As crises e guerra infindáveis com que nos deparamos são, em grande medida, devidas aos esforços da Google e de outras instituições tecnocráticas. O autor enquadra o modo como a administração Obama realmente consolidou este controle do "Big Brother":

"Com Obama, o nexo do poder corporativo, industrial e financeiro representados pelos interesses que participam no Pentagon Highlands Forum consolidou-se num grau sem precedentes".

Estas pessoas referem-se a sim próprias como "os guardas da portaria" ("the gatekeepers"). A sua arrogância só é ultrapassada pelo seu agnosticismo moral. Os êxito da era da informação, as dúbias minas de ouro do capital de risco de Sillicon Valley, os caminhos misteriosos pelos quais inovadores razoavelmente comuns foram impulsionados para as luzes dos holofotes advertem-nos quanto ao pântano subjacente descrito por Donald Trump. Mas é a imensidade da rede que deveria servir-nos de pista. Imagine o novo presidente a tomar posse e a defender-se de ataques tão bem quanto pode, só para descobrir que toda a máquina do governo dos EUA está influenciada por este controle. Depois de saber tudo isto é fácil teorizar sobre como Trump fez meia volta acerca de muitas questões. Ele deve ter sido subjugado. Ou fazia parte do plano desde o princípio.

Finalmente, se nos estendermos acerca destas notícias e incluirmos outros tecnocratas como Bill Gates ou Jeff Bezos, então o entendimento das crises mundiais provocadas pela má política dos EUA torna-se mais simples. Trata-se de uma corporação – tudo isto é uma corporação para a guerra e o atrito. Bezos a passear com o antigo general dos Fuzileiros Navais e actual secretário da Defesa, "Cão Louco" Mattis, na Amazon é simbólico. O posicionamento de Trump para com Israel, os sauditas ou mesmo a política interna diz-nos que aquelas promessas da campanha afundam na esteira da nau do estado profundo a pleno vapor. Se permitirmos à Google e aos demais actores continuarem sem controle...

Bem, vocês são tão capazes quanto eu de completar a sentença. Só rezo para que não seja demasiado tarde.
 

[*] Investigador e analista político.

O original encontra-se em journal-neo.org/2017/09/04/we-told-you-so-google-is-nsa/


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Washington parece um jardim-de-infância sob o efeito de LSD


por The Saker 
 
As últimas sanções e a resposta retaliatória da Rússia resultaram numa torrente de especulações nos media oficiais e na blogosfera — toda a gente tenta entender uma situação que parece sem sentido. Porque haveria o Senado dos Estados Unidos de adoptar sanções contra a Rússia quando a Rússia nada fez para provocar esse voto? Com a excepção de Rand Paul e Bernie Sanders todos e cada um dos senadores americanos votaram a favor dessas sanções. Porquê? Torna-se ainda mais estranho se pensarmos que o único grande efeito das sanções será provocar uma fractura, e possivelmente ainda mais contra-sanções , entre os Estados Unidos e a União Europeia. Fica claro que estas sanções vão ter efeito nulo sobre a Rússia e não creio que alguém pense a sério que os russos mudem o que quer que seja nas suas políticas. Porém, todos os senadores excepto Paul e Sanders votaram a favor. Será que faz sentido?

Vamos tentar perceber o que se passa.

Primeiro, vamos lembrar que qualquer político norte-americano, desde as municípalidades até ao Congresso, todos os senadores só pensam numa coisa quando votam — o que ganho eu com isso? — A última coisa que preocupa um senador americano é as consequências do seu voto na vida real. Isso quer dizer que para conseguir uma quase unanimidade (98%) numa votação realmente estúpida tinha de haver um lobby muito influente que utilizou "argumentos" muito fortes para conseguir tal voto. Lembremos que os Republicanos no Senado sabiam que estavam a votar contra a vontade do seu Presidente. E no entanto todos à excepção de Rand Paul votaram essas sanções, isso mostra o poder do lobby que os pressionou. Assim, quem teria esse poder?

O site "Business Pundit Expert Driven" felizmente postou um artigo que indica os dez lobbies mais poderosos em Washington D.C. São eles (na mesma ordem do artigo original):

Lobby técnico
Indústria mineira
Indústria da defesa
Indústria do agronegócio
Petróleo
Lobby financeiro
Grandes farmacêuticas
AARP (American Association of Retired Persons)
Lobby pró-Israel
NRA (National Rifle Association)

Ok, por que não? Podemos talvez reordená-los, dar-lhe nomes diferentes, juntar mais alguns (como, Complexo Industrial de Prisões" ou "Comunidade da inteligência", mas na generalidade a lista está bem.

É preciso entender que a maioria destes lobbies precisa de um inimigo para prosperar, será sem duvida o caso do Complexo Militar Industrial e a industria associada de alta tecnologia, e poderíamos pensar que o Petróleo, Minas e Agronegócio vêem na Rússia um competidor potencial. Mas um olhar mais atento aos interesses que estes lobbies representam diz-nos que estão mais interessados na política caseira e que a longínqua Rússia com a sua economia relativamente pequena não é o que lhes importa. O mesmo se passa com as Grandes Farmacêuticas, a AARP e o NRA. O que deixa o lobby de Israel como o único candidato potencial.

"Lobby de Israel claro que é um nome inadequado. O lobby de Israel tem muito pouco interesse em Israel como país, ou sequer o povo israelense. Melhor seria chamar-lhe Lobby Neocon. Aliás, temos de verificar que o Lobby Neocon não está na lista acima referida. Por um lado, não representa os interesses dos Estados Unidos. Por outro, não representa os interesses de Israel. Representa antes os interesses de um grupo específico das elites reinantes dos Estados Unidos, na realidade muito inferior a 1% da população, em que todos partilham uma ideologia comum de dominação mundial típica dos neocons.

São os sujeitos que apesar do seu férreo controlo de cem por cento da media e do Congresso perderam a eleição presidencial para Donald Trump e que estão apostadas no seu impeachment. São indivíduos que simplesmente usam a Rússia, como um fulcro propagandístico para passar a noção de que Trump e o seu meio são agentes russos e o próprio Trump é uma espécie de "candidato presidencial da Manchúria".

Lembremo-nos que o registo histórico mostra que apesar de os neocons serem especialmente motivados não são muito inteligentes. Sim, eles têm a espécie de determinação ideológica raivosa que lhes permite conseguir alcançar uma influencia totalmente desproporcional sobre as politicas dos EUA, mas quando vemos o que realmente escrevem e ouvimos o que dizem, percebe-se de imediato que são indivíduos medíocres com uma mentalidade paroquiana que os torna tanto muito previsíveis como muito irritantes para as pessoas em torno deles. Ultrapassam sempre os seus limites e acabam estupefactos e horrorizados quando todas as suas conspirações e planos desmoronam sobre si.

Creio que é exactamente o que está a acontecer agora.

Primeiro, os neocons perderam as eleições. Para eles foi um choque e um pesadelo. Os "deploráveis" votaram contra as instruções de propaganda, totalmente claras que os media lhes deram. Segundo, os neocons voltaram a sua fúria contra Trump e conseguiram neutralizá-lo, mas só ao custo de enfraquecerem terrivelmente os próprios Estados Unidos! Recapitulemos: em 6 meses de administração Trump os EUA já conseguiram ameaçar directamente o Irão, a Síria, a RDPC e em todos os casos com resultados zero. Pior, o comportamento de Trump para com a Europa e a propaganda anti-Trump dentro da Europa colocaram agora a UE e os EUA numa rota colisão. É espantoso: para a Rússia as tensões actuais entre os EUA e a União Europeia são um sonho realizado e nem sequer fizeram nada para isso — tudo foi feito através da estupidez auto-derrotante dos americanos que criaram esta situação completamente ex nihilo!

Assim enquanto Kim Jong-un lança mísseis no 4 de Julho, o Exército Sírio aproxima-se de Deir ez-Zor, a Ucrânia transforma-se numa Somália, a economia russa volta a crescer e a popularidade de Putin está cada vez mais alta, os neocons estão a ficar totalmente fora de si e, como é típico das pessoas que perdem o controle, não fazem nada com lógica e sim o habitual: esbofetear sanções (mesmo que sejam totalmente ineficazes) e enviar mensagens (mesmo que sejam totalmente ignoradas). Por outras palavras os neocons empenham-se agora em pensamento mágico, optam por iludirem-se acerca do seu poder e influencia e estão a enfrentar o seu fracasso generalizado (full-spectrum) ao pretenderem que os seus votos no Congresso importam. A verdade é que não são.

É aqui que temos de examinar a outra noção errada neste caso, que a reacção russa a estas sanções mais recentes é realmente acerca delas. Não é.

Primeiro, derrubemos o mito de que tais sanções estão a prejudicar a Rússia. Na verdade não estão. Mesmo os da Bloomsberg, 100% russofóbicos começam a perceber que na realidade estas sanções tornaram Putin e a Rússia mais fortes . Segundo, há a questão do tempo: ao invés de reagir com contra-sanções os russos subitamente decidiram reduzir a quantidade de pessoal diplomático norte americano na Rússia e confiscar duas instalações diplomáticas dos EUA numa retaliação clara à expulsão dos diplomatas russos e a ocupação de edifícios diplomáticos por Obama no ano passado. Por que não?

Muitos observadores dizem que os russos são "ingénuos" em relação ao Ocidente e aos EUA, que Putin "deseja" melhores relações e que essa esperança o paralisou. Outros dizem que Putin é "fraco" ou está mesmo "em conluio" com o Ocidente. É um absurdo total.

As pessoas tendem a esquecer que Putin foi um oficial superior dos serviços de inteligência externa do KGB, o chamado "Primeiro Directorado Principal (PGU). Além disso, Putin revelou recentemente que trabalhou na altamente secreta Direcção S do PGU e que era responsável por contactos com uma rede de espiões soviéticos ilegais na Alemanha Oriental (onde Putin actuava sob a cobertura oficial de director Casa da Amizade URSS-RDA). Se o PGU era a "elite da elite" do KGB da sua parte mais secreta, então o Directorado S era a "elite da elite" do PGU e o seu cerne mais secreto. Isto, definitivamente, não é uma carreira para "ingénuos" ou "fracos", para dizê-lo suavemente. E acima de tudo, os oficiais do PGU eram "especialistas no Ocidente" em geral e nos Estados Unidos em especial porque os EUA, eram sempre considerados como o "inimigo principal" (ainda que a maior parte dos responsáveis do PGU considerasse que os britânicos eram o seu adversário mais capaz, perigoso e sorrateiro). Considerando o nível soberbo de educação e treino dado a estes oficiais, diria que os oficiais do PGU estavam entre os melhores especialistas do Ocidente de qualquer parte do mundo. A sua sobrevivência e a sobrevivência dos seus colegas dependia da sua compreensão correcta do mundo ocidental. Quanto a Putin, pessoalmente, sempre actuou de um modo muito deliberado e calculado e não há razão para pensar que desta vez, após as ultimas sanções dos EUA, tenha havido uma erupção emocional no Kremlin. Podem ter a certeza de que esta ultima reacção russa é o resultado de uma conclusão cuidadosa e a formulação de um objectivo preciso e há muito delineado.

Diria que a chave para a compreensão correcta da resposta russa está no facto de as ultimas sanções dos Estados Unidos conterem uma ideia sem procedentes e, francamente, com características chocantes: as novas medidas retiraram ao Presidente autoridade para revogar as sanções. Em termos práticos: se Trump quisesse por em vigor algumas dessas sanções, teria de enviar uma mensagem oficial ao Congresso o qual teria então trinta dias para aprovar ou rejeitar a acção proposta. Por outras palavras, o Congresso agora sequestrou o poder da Presidência para dirigir a politica externa e encarregou-se até da micro-administração da politica externa norte americana.

Isso, meus amigos, é claramente um golpe de estado constitucional e uma grave violação dos princípios da separação de poderes que é o cerne do sistema político dos Estados Unidos.

É também um testemunho vivo da total depravação do Congresso dos EUA que não tomou essas medidas quando o presidente "ultrapassou o Congresso e começou guerras sem a necessária autoridade congressual, mas que agora toma abertamente as rédeas da politica externa americana para impedir o risco de "quebrar a paz" entre a Rússia e os Estados Unidos.

E a reacção de Trump?

Ele declarou que a assinaria a lei. [NR]

Sim, o homem quer por a sua assinatura no texto que representa um golpe de estado ilegal contra a sua própria autoridade e contra a Constituição que jurou defender.

Atenta a isso, a reacção russa é muito simples e compreensível: eles desistiram de Trump.

Não que tivessem muita fé nele, mas sempre sentiram fortemente que a eleição de Trump talvez pudesse dar ao mundo uma oportunidade realmente histórica para mudar a dinâmica desastrosa iniciada pelos neocons no tempo de Obama e talvez devolver às relações internacionais uma aparência de sanidade. Infelizmente, isto não aconteceu. Trump revelou-se uma massa demasiado cozida cujo único feito real era exprimir suas ideias em 140 caracteres ou menos. Mas na coisa crucial, vital, em que Trump precisava absolutamente de ter êxito — esmagar impiedosamente os neocons — ele fracassou totalmente. Pior: a sua única reacção às múltiplas tentativas deles para derrubá-lo foram todas as vezes respondidas com toscas tentativas tontas de apaziguamento.

Para a Rússia isso significa que o presidente Trump foi agora substituído pelo "Congresso Presidente".

Uma vez que é absolutamente impossível fazer qualquer coisa com este Congresso, os russos vão agora empenhar-se em medidas unilaterais vantajosas tais como reduzir dramaticamente o número de diplomatas americanos na Rússia. Para o Kremlin, essas sanções são não tanto uma provocação inaceitável mas sim um pretexto ideal para iniciar uma série de politicas internas russas. Livrarem-se dos empregados americanos na Rússia é apenas um primeiro passo.

A seguir, a Rússia utilizará o comportamento francamente errático dos americanos para proclamar urbi et orbi que estes são irresponsáveis, incapazes de tomarem decisões adultas e basicamente que "foram à pesca". Os russos já fizeram isso quando declararam a dupla Obama-Kerry como недого ворос пособны (nedogovorosposobny: "incapazes de acordos", mais aqui acerca deste conceito). Agora com Trump a assinar a sua própria demissão constitucional, com Tillerson incapaz de calar Nikki nas Nações Unidas e com Mattis e McMaster a lutarem por planos grandiosos para parar a "não vitória" no Afeganistão, a dupla Obama-Kerry começa a parecer quase adulta.

Francamente, para os russos é o momento de ir embora.

Prevejo que os loucos neocons não vão parar até conseguir o impeachment de Trump. Além disso, prevejo que os Estados Unidos não lançarão quaisquer intervenções armadas importantes (até porque os Estados Unidos já não têm países que possam atacar com segurança e com facilmente). Algumas "intervenções pretendidas" (como o malfadado ataque de mísseis na Síria) podem ser bastante possíveis e mesmo prováveis. Este golpe interno em câmara lenta contra Trump irá absorver a maior parte da energia para os realizar e deixar a politica externa como simplesmente uma espécie de subproduto da política interna dos Estados Unidos.

Os europeus do leste estão agora totalmente entalados. Vão continuar a observar incrédulos o desastre crescente da Ucrânia enquanto fazem jogos estúpidos pretendendo serem duros com a Rússia (o último exemplo desta espécie de "ladrar atrás da cerca" pôde ser visto no patético encerramento do espaço aéreo da Roménia a um avião civil que transportava o vice primeiro ministro russo Dmitri Rogozin entre os passageiros). Os europeus reais (do ocidente) gradualmente cairão em si e começarão a fazer negócios com a Rússia. Mesmo Emanuel Macron de Rothschild, da França, provavelmente se demonstrará como um parceiro mais adulto do que o Donald.

Mas a verdadeira acção estará alhures — no Sul, no Leste e no Extremo Oriente. A verdade simples é que o mundo simplesmente não pode ficar à espera de que os americanos recuperem o juízo. Há uma série de assuntos cruciais que precisam de ser urgentemente enfrentados, uma série de imensos projectos que precisam ser realizada e um mundo muito diferente e multi-polar que precisa ser fortalecido. Se os americanos querem recusar-se a salvarem-se disto tudo, se querem deitar abaixo a ordem constitucional que os Pais Fundadores criaram e se querem funcionar apenas no reino do ilusório que nada tem a ver com a realidade — estão no seu direito e é o seu problema.

Washington DC começa a parecer um jardim-de-infância sob o efeito de LSD — algo engraçado e desagradável. Os garotos não parecem muito espertos: uma mistura de valentões e idiotas invertebrados. Alguns deles têm os dedos no botão nuclear e isso é absolutamente assustador. O que os adultos têm de fazer agora é descobrir uma maneira de manter os garotos ocupados e distraídos e distraí-los para que não apertem o maldito botão sem querer. E esperar. Esperar pela reacção inevitável de um país que é muito melhor e mais forte que os seus governantes e que agora precisa desesperadamente de um verdadeiro patriota para acabar com as Feiticeiras de Sabbath em Washington DC.

Vou encerrar esta coluna com uma nota pessoal. Acabei de atravessar os Estados Unidos, literalmente, do Rio Rogue no Oregon à costa leste da Florida. Durante essa longa viagem vi não só paisagens de tirar o fôlego mas também belas pessoas que se opõem ao baile satânico em DC com todas as fibras do seu ser e que querem o seu pais livre dos degenerados poderes demoníacos que se apossaram do Governo Federal. Vivi um total de 20 anos nos EUA e aprendi a amar e apreciar profundamente as muitas pessoas boas, decentes e honradas que aqui vivem. Longe de ver o povo americano como inimigo da Rússia, vejo-o como aliado natural, ainda que seja por termos o mesmo inimigo (os neocons em DC) e nenhuma razão objectiva para conflitos, nenhuma de qualquer espécie. De resto, americanos e russos são muito semelhantes, por vezes de um modo cómico. Tal como durante a Guerra-Fria nunca perdi a esperança no povo russo, agora recuso-me a perder a esperança no povo americano. Sim, o governo federal americano é desgostante, mau, nojento, estúpido, degenerado e absolutamente satânico, mas o povo dos Estados Unidos não é. Longe disso. Não sei se este país conseguirá sobreviver a este regime como EUA unitário ou se vai romper-se em várias entidades diferentes (algo que acho muito possível), mas creio que o povo americano sobreviverá e vencerá tal como o povo russo sobreviveu aos horrores das décadas de 1980 e 1990.

Neste momento os Estados Unidos parecem despenhar-se num precipício muito semelhante àquele em que mergulhou a Ucrânia (aliás não é surpreendente, as mesmas pessoas infligem os mesmos desastre em quaisquer países que infectem com a sua presença). A grande diferença é que o seu imenso e inexplorado potencial irá recuperá-lo. Poderá não ser uma Ucrânia em dez anos, mas será definitivamente um país norte-americano, talvez diferente do único actual ou talvez mesmo com vários estados sucessores derivados.

Mas por enquanto, só posso repetir o que os habitantes da Florida dizem quando um furacão se abate sobre eles "aferrem-se ao chão" e preparem-se para os tempos difíceis e perigosos que estão para vir.
31/Julho/2017 
 
[NR] A lei das sanções contra a Rússia, Irão e Coreia do Norte foi assinada em 02/Agosto/2017.

O original encontra-se em thesaker.is/sanctions-smoke.and-mirrors-from-a-kindergarten-on-lsd/ .
Tradução de MA, revisão de JF.


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Divergências no seio do campo anti-imperialista

por Thierry Meyssan

 Quando o seu país foi atacado pelos jiadistas, em 2011, o Presidente Bachar al-Assad reagiu a contra-corrente: em vez de reforçar os poderes dos serviços de segurança, ele diminuiu-os. Seis anos mais tarde, o seu país está em vias de sair vencedor da mais importante guerra desde a do Vietname. O mesmo tipo de ataque está em vias de se produzir na América Latina, onde suscita uma resposta muito mais dentro do habitual. Thierry Meyssan expõe aqui a diferença de análise e estratégia dos Presidentes Assad por um lado, Maduro e Morales pelo outro. Não se trata de colocar esses líderes em compita, mas de apelar a cada um deles para extrair lições políticas e tomar em boa conta a experiência das últimas guerras.

 Em Maio de 2017, Thierry Meyssan explicava na Russia Today em que é que as elites sul-americanas se enganam quanto ao imperialismo dos EUA. Ele insistia acerca da mudança de paradigma dos conflitos armados actuais e a necessidade de repensar, radicalmente, a maneira de defender a pátria.


A operação de desestabilização da Venezuela prossegue. Numa primeira fase, grupúsculos violentos, manifestando-se contra o governo, mataram transeuntes, ou seja cidadãos que se tinham juntado a eles. Num segundo tempo, os grandes distribuidores de géneros alimentares montaram uma rotura de abastecimentos nos supermercados. Depois, alguns membros das forças da ordem atacaram dois ministérios, apelaram à rebelião e entraram na clandestinidade.

A imprensa internacional não cessa de atribuir ao «regime» os mortos das manifestações enquanto que numerosos vídeos atestam que eles foram deliberadamente assassinados pelos próprios manifestantes. Com base nestas falsas informações, ela qualifica o Presidente Nicolas Maduro de «ditador» como já o havia feito, seis anos atrás, vis-à-vis a Mouamar Kadhaffi e a Bachar al-Assad.

Os Estados Unidos utilizaram a Organização dos Estados Americanos (OEA) contra o Presidente Maduro da mesma maneira como usaram anteriormente a Liga Árabe contra o Presidente al-Assad. Caracas, sem esperar ser excluída da Organização denunciou tal método e abandonou-a ela própria.

No entretanto o governo Maduro apresenta duas falhas no seu activo:
- uma grande parte dos seus eleitores não se deslocou às urnas aquando das eleições legislativas de Dezembro de 2015, deixando a oposição arrecadar a maioria no Parlamento.
- deixou-se surpreender pela crise dos géneros alimentícios, quando, no passado, este tipo de manobra já tinha sido montado no Chile contra Allende e na Venezuela contra Chávez. Precisou de várias semanas para montar novos circuitos de aprovisionamento.

Com toda a probabilidade, o conflito que começa na Venezuela não irá parar nas suas fronteiras. Ele abrasará todo o Noroeste do continente sul-americano e as Caraíbas.

Um passo suplementar foi franqueado com preparativos militares contra a Venezuela, a Bolívia e o Equador, a partir do México, da Colômbia e da Guiana Inglesa. Esta coordenação é operada pela equipe do antigo Gabinete Estratégico para a Democracia Global (Office of Global Democracy Strategy); uma unidade criada pelo Presidente Bill Clinton, depois prosseguida pelo Vice-presidente Dick Cheney e pela sua filha Liz. A existência deste foi confirmada por Mike Pompeo, o actual director da CIA. O que levou, portanto, à menção na imprensa pelo presidente Trump da existência de uma opção militar dos Estados Unidos.

Para salvar o seu país, a equipe do Presidente Maduro recusou seguir o exemplo do Presidente al-Assad. Segunda ela, as situações são completamente diferentes. Os Estados Unidos, principal potência capitalista, atacariam a Venezuela afim de lhe roubar o seu petróleo, de acordo com um esquema muitas vezes repetido no passado, em três continentes. Este ponto de vista acaba de ser apoiado por um discurso recente do Presidente boliviano, Evo Morales.

Lembre-mo-nos que em 2003 e 2011, o Presidente Saddam Hussein, o Guia Muammar Kadhafi e muitos conselheiros do Presidente Assad mantinham a mesma análise. Segundo eles, os Estados Unidos implicaram-se sucessivamente no Afeganistão e no Iraque, depois na Tunísia, no Egipto, na Líbia e na Síria unicamente para fazer cair os regimes que resistiam ao seu imperialismo e controlar os recursos de hidrocarbonetos do Médio-Oriente Alargado. Inúmeros autores anti-imperialistas seguem esta análise, na actualidade, por exemplo tentando explicar a guerra contra a Síria pela interrupção do projecto do gasoduto catariano.

Ora, esta análise mostrou-se errada. Os Estados Unidos não buscavam nem derrubar os governos progressistas (Líbia e Síria), nem roubar o petróleo e gás da região, mas, sim destruir os Estados, para reenviar as populações à pré-história, para a época em que «o homem era o lobo do homem».

Os derrubes de Saddam Hussein e de Muammar Gaddafi não restabelecerem a paz. As guerras continuaram apesar da instalação de um governo de ocupação no Iraque, depois governos na região incluindo colaboradores do imperialismo opostos à independência nacional. Elas continuam ainda atestando que Washington e Londres não queriam derrubar regimes, nem defender democracias, mas antes esmagar os povos. É uma constatação fundamental que altera a nossa compreensão quanto ao imperialismo contemporâneo.

Esta estratégia, radicalmente nova, foi ensinada por Thomas PM Barnett desde o 11- de-Setembro de 2001. Ela foi publicamente revelada e exposta em Março de 2003 —quer dizer precisamente antes da guerra contra o Iraque— num artigo na Esquire, depois no livro homónimo do Pentágono The Pentagon’s New Map («O Novo Mapa do Pentágono»- ndT), mas ela parece tão cruel que ninguém imaginou que pudesse vir a ser posta em acção.

Trata-se para o imperialismo de dividir o mundo em dois : de um lado uma zona estável que beneficia do sistema, do outro um caos espantoso onde ninguém pense sequer em resistir, mas unicamente em sobreviver; uma zona na qual as multinacionais possam extrair as matérias primas, das quais precisam, sem terem que dar satisfações a ninguém.

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Segundo este mapa, extraído de um Powerpoint de Thomas P. M. Barnett durante uma conferência no Pentágono em 2003, todos os Estados da zona rosada devem ser destruídos. Este projecto nada tem a ver nem com a luta de classes, no plano nacional, nem com a exploração dos recursos naturais. Depois do Médio-Oriente Alargado, os estrategas dos EU preparam-se para reduzir a ruínas o Noroeste da América Latina.

Desde o século XVII e a guerra civil britânica, o Ocidente desenvolveu-se entre o medo do caos. Thomas Hobbes ensinou-nos a suportar a “Razão de Estado”, em vez de arriscar reviver esse tormento. A noção de caos só nos voltou a ser trazida com Leo Strauss, após a Segunda Guerra Mundial. Este filósofo, que formou pessoalmente numerosas personalidades do Pentágono, entendia construir uma nova forma de Poder mergulhando uma parte do mundo no inferno.

A experiência do jiadismo no Médio-Oriente Alargado mostrou-nos o que é o caos.

Tendo reagido como se esperava dele aos acontecimentos de Daraa (março-abril de 2011), enviando o exército para reprimir os jiadistas da mesquita al-Omari, o Presidente al-Assad foi o primeiro a compreender aquilo que se passava. Longe de aumentar os poderes das forças de segurança para reprimir a agressão externa, ele deu ao povo os meios para defender o país.

Primeiro, levantou o estado de emergência, dissolveu os tribunais de excepção, libertou as comunicações de Internet, e proibiu às forças armadas de fazer uso das suas armas quando isso pudesse colocar em risco inocentes.

Estas decisões contra-a-corrente implicavam pesadas consequências. Por exemplo, aquando do ataque a um comboio militar em Banias, os soldados abstiveram-se de usar as suas armas em legítima defesa. Arriscaram ser mutilados pelas bombas dos atacantes, e até morrer, mais do que atirar, pelo risco de ferir os habitantes que os viam ser massacrados sem intervir.

Como muitos, à época, eu pensei que se tratava de um Presidente fraco e de soldados demasiado leais, que a Síria ia ser esmagada. No entanto, seis anos mais tarde, Bashar al-Assad e os exércitos sírios ganharam a sua aposta. Se a princípio, os soldados lutaram sozinhos contra a agressão estrangeira, pouco a pouco, cada um dos cidadãos foi-se envolvendo, cada um em seu posto, afim de defender o país. Os que não puderam ou não quiseram resistir exilaram-se. Claro, os Sírios têm sofrido muito, mas a Síria é o único Estado no mundo, após a guerra do Vietname (Vietnã-br), a ter resistido até que o imperialismo se cansa e desiste.

Em segundo lugar, face à invasão de uma multidão de jiadistas originários de todas as comunidades muçulmanas, desde Marrocos até à China, o Presidente Assad decidiu abandonar uma parte do território para conseguir salvar o seu Povo.

O Exército Árabe Sírio recuou para a zona da “Síria útil”, quer dizer para as cidades, abandonando as zonas rurais e os desertos aos agressores. Enquanto Damasco velava, sem nenhuma falha, pelo aprovisionamento de alimentos a todas as regiões que controlava. Contrariamente a uma ideia feita no Ocidente, apenas houve fome nas áreas controladas pelos jiadistas e em algumas cidades sitiadas por eles; os «rebeldes estrangeiros» (perdoem o “oxímoro”), aprovisionados pelas associações «humanitárias» ocidentais, utilizaram a distribuição de pacotes de alimentos para controlar as populações que eles próprios submetiam à fome.

O povo sírio constatou por si próprio que apenas a República, e não, os Irmãos Muçulmanos e seus jiadistas, o alimentava e o protegia.

Em terceiro lugar, o Presidente Assad traçou, aquando de um discurso pronunciado a 12 de Dezembro de 2012, a maneira como ele pensava refazer a unidade política do país.

Ele indicou, nomeadamente, a necessidade de redigir uma nova constituição e de submetê-la à adopção por uma maioria qualificada do Povo, depois proceder à eleição democrática da totalidade dos responsáveis institucionais, neles incluído o Presidente, é claro.

À época, os Ocidentais fizeram troça da pretensão do Presidente Assad em convocar eleições em pleno período de guerra. Hoje em dia, todos os diplomatas envolvidos na resolução do conflito, incluindo os das Nações Unidas, apoiam o plano Assad.

Enquanto os comandos jiadistas circulavam por todo o país, nomeadamente em Damasco, e assassinavam políticos em suas casas com suas famílias, o Presidente Assad encorajava os seus opositores internos a pronunciarem-se. Ele garantiu a segurança do liberal Hassan al-Nouri e do marxista Maher al-Hajjar afim de que assumissem, também, o risco de se apresentarem à eleição presidencial de Junho de 2014. Apesar do apelo ao boicote pelos Irmãos Muçulmanos e pelos governos Ocidentais, apesar do terror jiadista, apesar da presença no exílio, no exterior, de milhões de cidadãos, 73,42% dos eleitores responderam presente.

Identicamente, desde o início da guerra, ele criou um Ministério da Reconciliação Nacional, o que jamais se vira num país em guerra. Ele confiou-o ao presidente de um partido aliado, o SSNP, de Ali Haidar. Este negociou e concluiu mais de um milhar de acordos promovendo a amnistia(anistia-br) de cidadãos que havia pegado em armas contra a República e a sua integração no seio do Exército Árabe Sírio.

Durante esta guerra, o Presidente Assad jamais usou a força contra o seu próprio Povo, por muito mal que digam aqueles que o acusam gratuitamente de torturas generalizadas. Assim, por exemplo, ele nunca estabeleceu a conscrição em massa, o recrutamento obrigatório. É sempre possível a um jovem escapar ao serviço militar. Procedimentos administrativos permitem a qualquer cidadão do sexo masculino escapar ao serviço nacional se ele não quiser defender o seu país de armas na mão. Apenas os exilados, que não tiveram a oportunidade de proceder a estas “démarches” podem estar em contravenção das leis.

Durante seis anos, o Presidente Assad não parou de, por um lado, apelar ao seu povo, de lhe conferir responsabilidades e, por outro, de tentar alimentá-lo e protegê-lo tanto quanto podia. Ele assumiu sempre o risco de dar antes de receber. É por isso que, hoje em dia, ele ganhou a confiança do seu Povo e pode contar com o apoio activo.

As elites sul-americanas enganam-se quando continuam a luta das décadas precedentes por uma mais justa distribuição das riquezas. A luta principal não é mais entre a maioria do povo e uma pequena classe de privilegiados. A escolha que se colocou aos povos do Médio-Oriente Alargado e à qual os Sul-americanos terão que responder, por sua vez, é a de defender a Pátria ou morrer.

Os factos provam-no: o imperialismo contemporâneo não visa mais, em especial, meter a mão nos recursos naturais. Ele domina o mundo e pilha sem escrúpulos. Agora, o que ele pretende, também, é esmagar os Povos e destruir as sociedades das regiões nas quais explora já os recursos.

Nesta era de destruição, apenas a estratégia de Assad permite ficar de pé e livre.
 
Tradução
Alva

aqui:http://www.voltairenet.org/article197501.html

domingo, 13 de agosto de 2017

Venezuela: Rupturas na narrativa


por Thierry Deronne
 
Em 2 de agosto pouco depois de uma forte mobilização cidadã que se manifestou pela eleição da Assembleia Constituinte, os venezuelanos puderam ver na Globovision (uma das televisões privadas maioritárias do país) Henry Ramos Allup, um dos mais beligerantes líderes da oposição declarar: "decidimos participar nas eleições regionais, na dos presidentes de câmara e nas presidenciais". [1] Um sector importante da direita demarca-se assim publicamente das violências da extrema-direita de Leopoldo Lopez e admite publicamente a validade do Centro Nacional Eleitoral (CNE), que até à pouco denegria como instrumento chavista. Legitimar o retorno à via democrática preconizado pelo presidente Maduro? A "história contada" a toda a hora, destilada todos os dias, por todos os meios e que em consequência a quase totalidade dos cidadãos ocidentais acreditam, começa a rodar no vazio.

Quanto mais tempo passa, mais o mamute da concentração mundial dos media tem dificuldades em impedir a difusão de elementos que lhe escapam. A imagem de uma guerra civil ou de uma oposição democrática em luta contra um regime repressivo já não se mantém. Sabe-se que a maioria das vítimas foi causada pelas violências da extrema-direita [2] , que esta violência está confinada a alguns por cento do território – zonas ricas ou paramilitarizadas (municípios de direita e fronteira com a Colômbia) – que a grande maioria vive em paz e rejeita estas violências, incluindo eleitores de direita [3] . O "regime" (na realidade um governo eleito) prendeu e julgou rapidamente os membros das forças da ordem que fizeram uso de força de excessiva [4]


 
 
É preciso destruir o perigoso exemplo de uma Assembleia Constituinte. Enquanto em 4 de agosto militantes chavistas, feministas, ecologistas, militantes da cultura popular ou contra a especulação imobiliária estreiam em Caracas os seus lugares de deputados constituintes [5] os grandes media fazem tudo para denegrir o sufrágio dos venezuelanos tornando credíveis as denúncias de "fraude" lançadas desde Londres pelo diretor da Smartmatic – uma sociedade comercial que forneceu máquinas ao Centro Nacional Eleitoral (CNE) mas que não tem acesso aos dados da votação [6] .

Os media não mencionam uma fonte bem mais séria. Após terem observado o escrutínio localmente, o Conselho dos Peritos Eleitorais da América Latina (CEELA) formado por juristas e ex-presidentes de tribunais eleitorais de vários países da América Latina concluiu que "o resultado das eleições na Venezuela é verídico e fiável". O CEELA "utilizou o mesmo sistema que utilizou em todas as eleições, incluindo as de 2015 em que a oposição obteve a maioria dos lugares na Assembleia Nacional". Este sistema eleitoral, qualificado pelo observador Jimmy Carter de "melhor do mundo" [7] permite a "a qualquer pessoa verificar que os votantes foram efetivamente os 8 089 320 anunciados pelo CNE" [8] .

Uma das consequências da velocidade emocional, da comunicação instantânea por satélite, da falta de contexto, etc que caracterizam qualquer campanha de propaganda chama-se a obrigação da média . Por um lado, milhares de órgãos de comunicação martelam-nos exatamente a mesma versão, por outro a Venezuela real permanece distante e de difícil acesso. A maioria dos cidadãos, intelectuais e ativistas é reduzida a fazer uma média forçosamente frágil entre a enorme quantidade de mentiras diárias e uma minoria com verdade. O que dá, no melhor dos casos é que "há uma luta entre blocos, há problemas de direitos humanos, há uma simetria na violência, uma guerra civil e condeno a violência venha do onde vier, etc..." E no pior, o prazer cobarde de repetir os títulos de 99% dos media sem nada saber da Venezuela, de gritar com a matilha para se sentirem poderosos, de apontar o dedo e ir caçar os "partidários do ditador". Em França sobretudo, mas também em Espanha, a Venezuela é substituída por um ecrã em branco para sessões de ajustes de contas entre correntes políticas. O problema é que a quantidade de repetição, mesmo se cria uma qualidade de opinião não faz por si uma verdade. O número de títulos ou de imagens idênticas poderia ser mil vezes mais elevado que isso não significaria que nos falassem do real.

Como, portanto, voltar a conectar-se ao real? Quando o Movimento dos Sem Terra no Brasil, o conjunto dos movimentos sociais [9] , os principais partidos de esquerda da América Latina [10] ou as 28 organizações venezuelanas de direitos humanos [11] denunciam a violenta desestabilização da democracia venezuelana e apoiam a mobilização dos cidadãos para eleger uma Assembleia Constituinte, dispõe-se então de um vasto leque de conhecimentos mais profundos da realidade provenientes de organizações democráticas, que a uma "ciência-política" europeia "média" obrigada a preservar um mínimo de "respeitabilidade" nos media para proteger a sua carreira.

Para não deixar assassinar Salvador Allende de novo e não agredir os que rejeitam a febre da propaganda, que se descobrirá amanhã que tinham razão sobre a Venezuela, a sociedade ocidental necessita de uma democratização radical dos meios de comunicação social – o desenvolvimento do pluralismo de informação em França é obrigação legal do CSA [12] e paralelamente a criação e multiplicação de meios de comunicação fora da esfera privada quer sejam públicos quer associativos, criar novas escolas onde sejam restabelecidos como fatores centrais de um jornalismo ao serviço dos cidadãos: o tempo de investigação, a aquisição de cultura histórica, a possibilidade de viajar aos locais [13] e escutar um sector tão vivo como o dos movimentos sociais.

Caracas, 4 de agosto 2017 

Fotos (Invisíveis nos nossos media): Assembleia Constituinte a instalar-se no Congresso em Caracas, 4 de agosto.

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Notas
1 – Ver entrevista completa na televisão privada Globovision: www.youtube.com/watch?v=9unGt_pSCnM . Na Venezuela a maioria dos media, como a economia em geral são privados e opõem-se às políticas sociais do governo. Ler Thomas Cluzel ou l'interdiction d'informer sur France Culture
2 – Para um gráfico e um quadro exato e completo das vítimas, dos sectores sociais, dos responsáveis e pessoas condenadas, ver venezuelanalysis.com/analysis/13081 ; Sobre os assassinatos racistas da direita: Sous les Tropiques, les apprentis de l'Etat Islamique , 27 juillet 2017; Le Venezuela est attaqué parce que pour lui aussi "la vie des Noirs compte" (Truth Out) 24 de julho de 2017
3 – Sobre as sondagens da firma privada Hinterlaces: Nouveaux sondages surprises au Venezuela (juillet 2017)
4 – Sobre prisões de membros das forças da ordem, ver Direitos Humanos na Venezuela, dois pesos e duas medidas. venezuelanalysis.com/analysis/13081 E um quadro completo da situação em venezuelanalysis.com/analysis/13081
5 – Sobre a mobilização popular para eleger a Constituinte: venezuelainfos.wordpress.com/... pode-se ler entre outros: Quels sont les enjeux du vote du 30 juillet pour l'Assemblée Nationale Constituante ? 28 juillet 2017, De qui ont peur les Etats-Unis et la droite mondiale? 28 juillet 2017, Génération "chaviste rebelle": les visages et les voix des candidat(e)s député(e)s à la Constituante, par Angele Savino (L'Huma) 27 de julho de 2017
6 – Ver "O CNE rejeita as alegações de fraude" www.cne.gob.ve/web/sala_prensa/noticia_detallada.php?id=3554
7 – Former US President Carter : Venezuelan Electoral System "Best in the World" ",
venezuelanalysis.com/news/7272
8 – Informações dadas em conferência de imprensa da CEELA e retomadas por El Universal (jornal da oposição) www.eluniversal.com/...
9 – Reunião de movimentos sociais do Brasil com lista de assinaturas: baraodeitarare.org.br/...
10 – Les partis de gauche et les mouvements sociaux d'Amérique Latine appuient un peuple qui écrit sa constitution à la barbe de l'Empire. 21 de julho de 2017
11 – 28 organisations des droits humains demandent le respect du droit au suffrage pour l'Assemblée Constituante 29 de julho de 2017
12 – Com efeito, segundo a lei, uma das obrigações do Conseil Supérieur de l'Audiovisuel (CSA), as obrigações da lei francesa n° 86-1067 de 30 setembro 1986, modificada e completada relativa à liberdade de comunicação (e que se gostaria de ver aplicada) diz: Artigo 29: o CSA vela para que uma parte suficiente dos recursos em frequência seja atribuída aos serviços editados por uma associação e realizando uma missão de comunicação social de proximidade, entendida como para favorecer as trocas entre grupos sociais e culturais de expressão das diferentes correntes socioculturais, a manutenção do desenvolvimento da proteção do ambiente ou a luta contra a exclusão.
13 – A entrada em força dos grandes acionistas privados no campo mediático levou a cortes nos orçamentos e por consequência à supressão de correspondentes estrangeiros e ao aumento da dependência de agências como a AFP, Reuters ou EFE. Ora estas recentemente procederam ao blanchi le terrorisme d'extrême droite en le relookant comme un "combat pour la liberté" (Reuters) ou fizeram passar les photos d'électeurs chavistes pour des électeurs de droite (EFE) .


O original encontra-se em www.legrandsoir.info/venezuela-ruptures-du-storytelling.html .
Tradução de DVC.


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

sábado, 12 de agosto de 2017

O chamamento da guerra nuclear


por John Pilger
 
O comandante do submarino dos EUA diz: "Todos nós vamos morrer um dia, alguns mais cedo e outros mais tarde. O perturbador sempre foi que nunca se está pronto para isso, pois não se sabe quando é que chega o momento. Bem, agora sabemos e não há nada a fazer".

Ele diz que estará morto em Setembro. Levará cerca de uma semana para morrer, embora ninguém possa estar muito certo. Os animais viverão mais.

A guerra acabou em um mês. Os Estados Unidos, a Rússia e a China foram os protagonistas. Não está claro se foi começada por acidente ou por erro. Não houve vitorioso. O hemisfério norte está contaminado e agora sem vida.

Uma cortina de radioactividade está a mover-se rumo à Austrália e Nova Zelândia, ao sul da África e à América do Sul. Em Setembro, as últimas cidades e aldeias sucumbirão. Tal como no norte, a maior parte dos edifícios permanecerão intactos, alguns iluminados pelos últimos vislumbres de luz eléctrica.

Este é o modo como o mundo acaba
Não com um estrondo, mas com um suspiro


Estas linhas do poema de T.S. Eliot, The Hollow Men (Os homens vazios), surgem no início do romance On the Beach (Na praia) de Nevil Shute, o qual me deixou próximo às lágrimas. Os endossos impressos na capa diziam o mesmo.

Publicado em 1957 na altura da Guerra Fria, quando tantos escritores estavam silenciosos ou acovardados, é uma obra-prima. A princípio a linguagem sugere uma relíquia refinada; mas nada do que li sobre guerra nuclear é tão implacável como a sua advertência. Nenhum outro livro é tão urgente.

Alguns leitores recordarão o filme a branco e preto de Hollywood estrelado por Gregory Peck como comandante da US Navy que leva seu submarino para a Austrália a fim de aguardar o espectro silencioso e informe descer sobre o último ser vivo do mundo.

Li On the Beach pela primeira vez há poucos dias, terminando-o quando o Congresso dos EUA aprovou uma lei para travar guerra económica à Rússia, a segunda mais letal potência nuclear do mundo. Não havia justificação para esta votação insana, excepto a ânsia da pilhagem.

As "sanções" também se destinam à Europa, principalmente à Alemanha, a qual depende do gás natural russo, e a companhias europeias que fazem negócios legítimos com a Rússia. Naquilo que passou por debate no Capitol Hill, o mais palrador dos senadores não deixou dúvida de que o embargo se destinava a forçar a Europa a importar o dispendioso gás americano.

Seu objectivo principal parece ser a guerra – a guerra real. Nenhuma provocação tão extrema pode sugerir qualquer outra coisa. Eles parecem almejar isto, muito embora os americanos tenham pouca ideia do que é a guerra. A Guerra Civil de 1861-65 foi a última no seu território. Guerra é o que os Estados Unidos fazem aos outros.

O único país a ter utilizado armas nucleares contra seres humanos. Desde então eles destruíram grande número de governos, muitos deles democracias, e destruíram sociedades inteiras – os milhões de mortos no Iraque foram um fracção da carnificina na Indochina, a qual o presidente Reagan chamou de "nobre causa" e o presidente Obama corrigiu como a tragédia de um "povo excepcional". Ele não estava a referir-se aos vietnamitas.

Ao filmar no ano passado no Lincoln Memorial, em Washington, ouvi acidentalmente um guia do National Parks Service a dar uma lição a um grupo de escolares adolescentes: "Ouçam", disse ele. "Nós perdemos 58 mil jovens soldados no Vietname e eles morreram a defender a vossa liberdade".

De repente, a verdade era invertida. Nenhuma liberdade foi defendida. A liberdade foi destruída. Um país de camponeses foi invadido e milhões do seu povo foram mortos, mutilados, expulsos, envenenados, 60 mil dos invasores puseram fim à sua própria vida. Ouçam, realmente.

Uma lobotomia é executada a cada geração. Os factos são removidos. A história é expurgada e substituída pelo que a revista Time chama "um eterno presente". Harold Pinter descreveu isto como "manipulação de poder à escala mundial, mascarando-se como uma força para o bem universal, um brilhante, mesmo brilhante, acto de hipnose com grande êxito [o que quer dizer] que nunca aconteceu. Nada alguma vez aconteceu. Mesmo enquanto estava a acontecer não estava a acontecer. Não importava. Não tinha interesse".

Aqueles que se auto-denominam liberais ou tendenciosamente "a esquerda" são participantes ávidos desta manipulação e desta lavagem cerebral, a qual hoje reverte a um nome: Trump.

Trump é louco, um fascista, um tolo da Rússia. Ele também é uma prenda para "cérebros liberais conservados no formaldeído da política de identidade", escreveu Luciana Bohne de modo inesquecível. A obsessão com Trump como homem – não Trump como um sintoma e uma caricatura de um sistema duradouro – atrai grande perigo para todos nós.

Enquanto prosseguem suas fossilizadas agendas anti-russas, media narcisistas tais como o Washington Post, a BBC e o Guardian omitem a essência da mais importante narrativa política do nosso tempo pois fomentam a guerra numa escala de que não posso recordar-me ao longo da minha vida.

Em 3 de Agosto, em contraste com a extensão que o Guardian tem dado à idiotice de que os russos conspiraram com Trump (o que recorda a difamação da extrema-direita de John Kennedy como "agente soviético"), o jornal enterrou, na página 16, a notícia de que o presidente dos Estados Unidos fora forçado a assinar uma lei do Congresso declarando guerra económica à Rússia. Ao contrário de todas as outras assinaturas de Trump, esta foi efectuada em segredo virtual e acrescentada com uma advertência do próprio Trump de que era "claramente inconstitucional".

Está a caminho um golpe contra o homem na Casa Branca. Não por ele ser um ser humano odioso, mas sim porque firmemente deixou claro que não quer guerra com a Rússia.

Este vislumbre de sanidade, ou de simples pragmatismo, é anátema para os administradores da "segurança nacional" que defendem um sistema baseado na guerra, vigilância, armamentos, ameaça e capitalismo extremo. Martin Luther King chamou-os "os maiores fornecedores de violência no mundo de hoje".

Eles cercaram a Rússia e a China com mísseis e um arsenal nuclear. Eles utilizaram neo-nazis para instalar um regime instável e agressivo na fronteira da Rússia – o caminho pelo qual Hitler invadiu, provocando as mortes de 27 milhões de pessoas. O seu objectivo é desmembrar a moderna Federação Russa.

Em resposta, "parceria" é uma palavra usada incessantemente por Vladimir Putin – qualquer coisa, parece, que possa travar nos Estados Unidos um impulso evangélico para a guerra. A incredulidade na Rússia pode agora ter-se transformado em medo e talvez uma certa resolução. Os russos quase certamente têm contra-ataques nucleares preparados. Ensaios de ataques aéreos não são incomuns. A sua história diz-lhes para estarem preparados.

Protestos contra o Talisman Sabre. A ameaça é simultânea. A Rússia é a primeira. A China é a seguir. Os EUA acabam de completar um enorme exercício militar com a Austrália conhecido como Talisman Sabre . Eles treinaram um bloqueio dos Estreitos de Malaca e do Mar do Sul da China, através dos quais passam as linha económicas vitais da China.

O almirante a comandar a frota estado-unidense do Pacífico disse que, "se necessário", ele atacaria a China com armas nucleares. Que ele dissesse tal coisa publicamente na actual atmosfera pérfida começa a tornar facto a ficção de Nevil Shute.

Nada disto é considerado notícia. Nenhuma ligação é feita quando se recorda o festim sangrento de Passchendaele um século atrás. A reportagem honesta já não é bem vinda na maior parte dos media. Pessoas enfatuadas, conhecidas como sabichonas, dominam: editores são administradores de info-entretenimento ou da linha do partido. Onde outrora havia edição, há agora o despejar de clichés para trituração. Aqueles jornalistas que não cumprem são defenestrados.

A urgência tem muitos antecedentes. No meu filme, The Coming War on China (A guerra vindoura à China), John Bordne, membro da equipe de combate de mísseis da US Air Force baseada em Okinawa, Japão, descreve como em 1962 – durante a crise cubana dos mísseis – foi dito a ele e aos seus colegas "para lançar todos os mísseis" a partir dos seus silos.

Armados com o nuclear, os mísseis destinavam-se tanto à China como à Rússia. Um oficial júnior questionou isto e a ordem acabou por ser revogada – mas só depois de terem sido emitidas com revólveres apontados e ordem para atirar numa equipe de míssil se eles não cumprissem.

Na altura da Guerra Fria, a histeria anti-comunista nos Estados Unidos era tal que responsáveis estado-unidenses que foram à China em negócios oficiais foram acusados de traição e despedidos. Em 1957 – o ano em que Shute escreveu On the Beach – nenhum responsável no Departamento de Estado podia falar a língua do país mais populoso do mundo. Falantes de mandariam eram expurgados sob restrições agora reflectidas na lei que o Congresso acabou de aprovar, destinada à Rússia.

A lei foi bipartidária. Não há diferença fundamental entre Democratas e Republicanos. Os termos "esquerda" e "direita" são sem significado. A maior parte das guerras modernas da América foram iniciadas não por conservadores mas sim por liberais democratas.

Quando Obama terminou o seu mandato havia presidido um recorde de sete guerras, incluindo a mais longa guerra da América, e uma campanha sem precedentes de mortes extrajudiciais – assassinatos – através de drones.

OBAMA: TRÊS BOMBAS POR HORA, 24 HORAS POR DIA

No seu último ano de mandato, segundo um estudo do Council on Foreign Relations, o "relutante guerreiro liberal", lançou 26.171 bombas – três bombas por hora, 24 horas por dia. Tendo prometido ajudar a "livrar o mundo" de armas nucleares, o laureado com o Prémio Nobel da Paz construiu mais ogivas nucleares do que qualquer outro presidente desde a Guerra Fria.

Trump é um fraco em comparação. Foi Obama – com a sua secretária de Estado Hillary Clinton ao lado – quem destruiu a Líbia como estado moderno e lançou a debandada humana para a Europa. Internamente, grupos de imigração conhecem-no como o "deportador em chefe".

Um dos últimos actos de Obama como presidente foi assinar uma lei que entrega um recorde de US$618 mil milhões ao Pentágono, reflectindo a ascendência crescente do militarismo fascista na governação dos Estados Unidos. Trump endossou isto.

Enterrado nos pormenores estava o estabelecimento de um "Centro para Análise de Informação e Resposta". Isto é um ministério da verdade. A sua tarefa é providenciar uma "narrativa oficial dos factos" que nos preparará para a possibilidade real da guerra nuclear – se nós o permitirmos.
04/Agosto/2017 
 
O original encontra-se em johnpilger.com/articles/on-the-beach-2017-the-beckoning-of-nuclear-war e em www.globalresearch.ca/on-the-beach-2017/5602709

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Os média e os ursos polares


Comentando um estudo científico, Os ataques dos ursos polares contra humanos: implicações das alterações climáticas [1], os média (mídia-br) internacionais soam o alarme: impulsionados pelo aquecimento global, os ursos polares estariam a atacar os humanos.

Ora, esse não é o sentido deste estudo que versa, na realidade, sobre o comportamento animal e não sobre as alterações climáticas [2].

Além disso, o estudo enumera o conjunto de casos de ataques a humanos por ursos polares desde há um século, tendo o mais recente ocorrido há seis anos atrás, em 2011. Mas não examina a alta exponencial de possibilidades de ocorrência de tais ataques em relação com o crescente número de humanos que frequentam agora o habitat natural dos ursos polares.

Esta campanha ocorre no contexto da saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris sobre o clima, ou seja, da retirada dos EUA da Bolsa de Carbono, a qual deverá enriquecer os seus inventores. Esta bolsa foi criada por David Blood (antigo director do banco Goldman Sachs) e Al Gore (antigo Vice-presidente dos Estados Unidos). Os seus estatutos foram redigidos por Barack Obama (futuro Presidente dos Estados Unidos) [3].

Tradução
Alva

[1] «Polar bear attacks on humans: Implications of a changing climate» («Ataques de ursos polares a humanos : Implicações de um clima em mudança»- ndT), Wildlife Society Bulletin, 2 juillet 2017.
[2] «Polar bears hurt by climate change are more likely to turn to a new food source — humans» (Por exemplo : «Ursos polares atingidos pela mudança climática mais propensos a virarem-se para uma nova fonte alimentar – humanos»- ndT), Cleve R. Wootson Jr., The Washington Post, July 13, 2017.
[3] «1997-2010 : L’écologie financière», par Thierry Meyssan, Оdnako (Russie) , Réseau Voltaire, 26 avril 2010.


aqui: http://www.voltairenet.org/article197162.html

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