quarta-feira, 1 de agosto de 2018

O crepúsculo da guerra

por Thierry Meyssan

 Se considerarmos a guerra na Síria não como um acontecimento em si, mas como a conclusão de um conflito mundial de um quarto de século, devemos interrogar-nos sobre as consequências da próxima cessação de hostilidades. A sua concretização marca a derrota de uma ideologia, a da globalização e do capitalismo financeiro. Os povos que não compreenderam isto, nomeadamente na Europa Ocidental, colocam-se a si próprios à margem do resto do mundo.


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Donald Trump e Vladimir Putin aquando da Cimeira bilateral de Helsínquia, a 16 de Julho de 2018.

As guerras mundiais não terminam simplesmente com um vencedor e um vencido. O seu fim traça os contornos de um novo mundo.

A Primeira Guerra mundial concluiu com a derrota dos impérios alemão, russo, austro-húngaro e otomano. O fim das hostilidades foi marcada pela instauração elaboração de uma organização internacional, a Sociedade das Nações (SDN) encarregada de abolir a diplomacia secreta e regular por arbitragem os conflitos entre os Estados-membros.

A Segunda Guerra mundial concluiu pela vitória da União Soviética sobre o Reich nazi e o Império nipónico do hakkō ichi’u [1], seguida de uma corrida entre os Aliados para ocupar os despojos da Coligação vencida. Ela deu origem a uma nova estrutura, a Organização das Nações Unidas (ONU), encarregada de prevenir novas guerras estabelecendo para tal o Direito Internacional em torno de uma dupla legitimidade : —a Assembleia Geral, onde cada Estado dispõe de um voto qualquer que seja o seu tamanho;— e um directório dos cinco principais vencedores, ou seja, o Conselho de Segurança.

A Guerra Fria não foi a Terceira Guerra Mundial. Ela não terminou com a derrota da União Soviética, antes com o seu próprio colapso. Não foi seguida pela criação de novas estruturas, mas, sim pela integração dos Estados da URSS no seio de organizações pré-existentes.

A III Guerra Mundial terá começado na Jugoslávia, terá prosseguido no Afeganistão, no Iraque, na Geórgia, na Líbia e no Iémene, para terminar na Síria. O seu campo de batalha circunscreveu-se aos Balcãs, ao Cáucaso e aquilo que se chama agora o «Médio-Oriente Alargado». Ela terá cobrado a vida a inúmeras populações muçulmanas ou cristãs ortodoxas, sem transbordar muito para o mundo ocidental. Ela está em vias de acabar depois da Cimeira Putin-Trump de Helsínquia.

As profundas transformações que mudaram o mundo durante os últimos 26 anos transferiram uma parte do Poder dos governos para outras entidades, quer administrativas, quer privadas, bem como o contrário. Por exemplo, vimos um exército particular, o Daesh (E.I.), se proclamar como um Estado soberano. Ou ainda, o General David Petraeus organizar o maior tráfico de armas da História quando dirigia a CIA, e prossegui-lo após a sua demissão em nome de uma empresa privada, o fundo especulativo KKR. [2].

Esta situação pode ser descrita como um confronto entre, por um lado, uma classe dirigente transnacional e, por outro, governos responsáveis perante os seus povos.

Contrariamente às imputações da propaganda que atribuem a causa das guerras a circunstâncias imediatas, estas encontram-se em rivalidades, ou ambições, profundas e antigas. Os Estados demoram anos a posicionarem-se uns contra os outros. Muitas vezes, apenas ao fim de bastante tempo é que conseguimos compreender os conflitos que nos devoram.

Por exemplo, muito poucos compreenderam o que se passava durante a invasão japonesa da Manchúria (1931) e esperaram a invasão da Checoslováquia pela Alemanha (1938) para compreender que as ideologias racistas provocavam a Segunda Guerra Mundial. Identicamente, raros foram os que compreenderam, desde a guerra na Bósnia-Herzegovina (1992), que a aliança entre a OTAN e o Islão político abria a via à destruição do mundo muçulmano [3].

Ainda hoje, apesar dos trabalhos de jornalistas e de historiadores, muitos não perceberam a enormidade da manipulação de que nós todos temos sido vítimas. Recusam admitir que a OTAN coordenava então auxiliares sauditas e iranianos em solo do continente europeu. Ora, é um facto (fato-br) impossível de desmentir [4].

Da mesma forma, recusam admitir que a Alcaida, acusada pelos Estados Unidos de ter perpetrado os atentados do 11-de-Setembro, acabou a combater sob ordens da OTAN na Líbia e na Síria. No entanto, é um outro facto impossível de desmentir [5].

O plano inicial que previa levantar o mundo muçulmano contra o mundo ortodoxo transformou-se com o decorrer dos eventos. Não houve «guerra de civilizações». O Irão xiita voltou-se contra a OTAN, que ele serviu na Jugoslávia, e aliou-se à Rússia ortodoxa para salvar a Síria multi-confessional.

Devemos abrir os olhos quanto à História e preparar-mo-nos para o alvorecer de um novo sistema mundial, onde alguns dos nossos amigos de ontem se tornaram nossos inimigos e vice-versa.
Em Helsínquia, não foram os Estados Unidos que concluíram um acordo com a Federação da Rússia. Foi apenas a Casa Branca. Porque o inimigo comum é um grupo transnacional exercendo um poder sobre os Estados Unidos. Considerando que é ele, e não o Presidente eleito, quem representa os EUA, não hesitou, aliás, em acusar imediatamente o Presidente Trump de traição.

Este grupo transnacional conseguiu fazer-nos crer que as ideologias estão mortas e que a História acabou. Ele apresentou a globalização, quer dizer a dominação anglo-saxónica através da extensão da língua e do modo de vida norte-americano, como a sequência do desenvolvimento de técnicas de transporte e de comunicação. Garantiu-nos que um sistema político único seria ideal para todos os homens : ---a democracia (isto é o «governo do Povo, pelo Povo, para o Povo»)--- e que era possível impô-lo a todos pela força. Finalmente, ele apresentou a liberdade de circulação de pessoas e capitais como a solução para todos os problemas de mão de obra e de investimento.

Estas asserções, que todos nós aceitamos no nosso quotidiano, não resistem, no entanto, a um minuto de reflexão.

Atrás destas mentiras, este grupo transnacional tem erodido sistematicamente o Poder dos Estados e amassado fortunas.

O campo que emerge vitorioso desta longa guerra defende, pelo contrário, a ideia que, para escolher o seu destino, os homens devem se organizar em Nações definidas, seja a partir de uma terra, seja de uma História ou de um projecto comum. Por conseguinte, ele apoia as economias nacionais contra a finança transnacional.

Acabamos de assistir ao Campeonato (Copa-br) do Mundo de futebol. Se a ideologia da globalização tivesse vencido, teríamos de apoiar não apenas nossa equipa nacional, mas também as de outros países em função da sua pertença a estruturas supranacionais comuns. Por exemplo, os Belgas e os Franceses teriam de se apoiar mutuamente agitando bandeiras da União Europeia. Ora, isso não ocorreu a nenhum dos fãs. Medimos, pois, aqui o fosso que separa, por um lado, a propaganda com que nos espetam e que nós repetimos e, por outro lado, o nosso comportamento espontâneo. Apesar das aparências, a vitória superficial do globalismo não mudou aquilo que somos.

Não é evidentemente por um acaso que a Síria, onde foi imaginada e moldada a ideia de Estado, há vários milhares de anos, é a terra onde esta guerra se concluí. Foi por ter um verdadeiro Estado, que jamais deixou de funcionar, que a Síria, o seu povo, o seu exército e o seu Presidente foram capazes de resistir ao ataque da mais gigantesca coligação da História, composta por 114 Estados membros das Nações Unidas.

Tradução
Alva
[1] Le hakkō ichi’u (“os oito cantos do mundo sob um único tecto”) é a ideologia do Império japonês. Ela impõe a superioridade da raça nipónica e o seu direito a dominar a Ásia.
[2] “Milhares de milhões de dólares de armas contra a Síria”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 18 de Julho de 2017.
[3] Les Dollars de la terreur : Les États-Unis et les islamistes, Richard Labévière, Grasset, 1999.
[4] Wie der Dschihad nach Europa kam. Gotteskrieger und Geheimdienste auf dem Balkan («Como a Jiade chegou à Europa. Guerreiros de Deus e Serviços de Inteligência nos Balcãs»- ndT), Jürgen Elsässer, Kai Homilius Verlag, 2006. Version française : Comment le Djihad est arrivé en Europe (préface de Jean-Pierre Chevènement), Xenia, 2006.
[5] Sous nos yeux. Du 11-septembre à Donald Trump («Sob os Nossos Olhos. Do 11 de Setembro a Donald Trump»- ndT), Thierry Meyssan, Demi-Lune 2017.

aqui:https://www.voltairenet.org/article202233.html

domingo, 17 de junho de 2018

O curioso caso do silêncio da esquerda sobre Julian Assange


por John Pilger e Dennis J Bernstein [*]
 
Numa comunicação recente entre Randy Credico (produtor de rádio e apoiante de Assange) e Adam Schiff (membro do Comité Judiciário da Câmara dos Representantes), o temor de Assange de prisão e extradição para os EUA foi confirmado pelo líder da histeria Russia-gate.

Credico recebeu a seguinte resposta de Schiff após a reunião com a equipe do congressista, na qual Credico tentava ligar Assange a Schiff: "Nosso comité estaria desejoso de entrevistar Assange quando ele estiver sob a custódia dos EUA e não antes".

Dennis Bernstein conversou com John Pilger, um amigo próximo e apoiante de Assange em 29 de Maio. A entrevista começou com a declaração de Bernstein apresentada por Pilger no Fórum Esquerda no último fim-de-semana em Nova York num painel dedicado a Assange intitulado: "Russia-gate e WikiLeaks".

Declaração de Pilger

"Há um silêncio entre muitos que se consideram esquerda. O silêncio é Julian Assange. Quando todas as falsas acusações caíram por terra, quando todas as falsificações sujas se mostraram ser trabalho de inimigos políticos, Julian levanta-se vingado como um dos que revelaram um sistema que ameaça a humanidade. O vídeo Dano Colateral, os registos de guerra do Afeganistão e do Iraque, as revelações do Cablegate, as revelações da Venezuela, as revelações dos email de Podesta ... este são apenas algumas das tempestades de verdade bruta que explodiram através das capitais das potências opressoras. A falsificação do Russia-gate, a conivência de uma media corrupta e a vergonha de um sistema legal que persegue os que contam a verdade e não foi capaz de conter a verdade bruta das revelações da WikiLeaks. Eles não venceram, ainda não, e eles não destruíram o homem. Só o silêncio das pessoas boas permitirá que vençam. Julian Assange nunca esteve tão isolado. Ele precisa do vosso apoio e da vossa voz. Agora mais do que nunca é tempo de exigir justiça e o direito de livre expressão para Julian. Obrigado.

Dennis Bernstein: Continuamos a nossa discussão do caso de Julian Assange, agora na embaixada equatoriana na Grã-Bretanha. John Pilger, é bom conversar consigo outra vez. Mas é uma tragédia profunda, John, o modo como eles estão a tratar Julian Assange, este jornalista e editor prolífero de quem muitos outros jornalistas dependeram no passado. Ele foi deixado totalmente no frio para defender-se por si próprio.

John Pilger: Nunca vi algo assim. Há uma espécie de silêncio misterioso em torno do caso de Julian Assange. Julian foi inocentado de todos os modos possíveis e ainda está isolado como poucas pessoas estão nestes dias. Ele está desligado das próprias ferramentas da sua actuação, não lhe são permitidos visitantes. Estive em Londres recentemente e não pude vê-lo, embora falasse com pessoas que o tinham visto. Rafael Correa, o antigo presidente do Equador, disse recentemente que encarava o que estão agora a fazer a Julian como tortura. Foi o governo Correa que deu refúgio político a Julian, o qual foi agora traído pelo seu sucessor, o governo liderado por Lenin Moreno, o qual está outra vez absorvido pelos Estados Unidos conforme a tradição, com Julian como pião e vítima.

Deveria ser um "Herói constitucional"

Mas realmente isto deve-se basicamente ao governo britânico. Embora ele ainda esteja numa embaixada estrangeira e realmente tenha a nacionalidade equatoriana, o seu direito de passagem para fora da embaixada deveria ser garantido pelo governo britânico. O Grupo de Trabalho sobre Detenções Arbitrárias das Nações Unidas ( Working Group on Arbitrary Detention ) deixou isso claro. A Grã-Bretanha tomou parte numa investigação, a qual determinou que Julian era um refugiado político e que uma grande perversão da justiça lhe fora imposta. É muito bom que esteja a fazer isto, Dennis, porque mesmo nos media não convencionais há este silêncio acerca de Assange. As ruas do lado de fora da embaixada estão virtualmente vazias, mas deveriam estar cheias de pessoas a dizerem estamos consigo. Os princípios envolvidos neste caso são claríssimos. O número um é o da justiça. As injustiças feitas a este homem são legião, tanto em termos do falso processo sueco como agora no facto de que ele deve permanecer na embaixada e não pode deixá-la sem ser preso, extraditado para os Estados Unidos e acabar num buraco infernal. Mas é também acerca da liberdade de expressão, acerca do nosso direito a saber, o qual está cristalizado na Constituição dos Estados Unidos. Se a Constituição fosse adoptada literalmente, Julian seria realmente um herói constitucional. Ao invés disso, entendo a acusação que eles estão a tentar cozinhar como uma acusação de espionagem! É demasiado ridículo. Esta é a situação tal como a vejo, Dennis. Não é uma situação feliz, mas sim uma situação a que o povo deveria acorrer rapidamente.

DB: Os seu irmãos jornalísticos parecem-se com os seus perseguidores. Eles querem apoiar aberrações como o congressista Adam Schiff do Russia-gate e como Mike Pompeo, os quais gostariam de ver Assange na prisão para sempre ou mesmo executado. Como é que responde a jornalistas que actuam como perseguidores, alguns dos quais utilizaram o seu material para escrever notícias? Este é um tempo terrível para o jornalismo.

JP: Você está absolutamente certo. É um tempo terrível para o jornalismo. Nunca vi uma coisa assim na minha carreira. Dito isto, não é novo. Sempre houve um chamado media mainstream o qual realmente representa o grande poder nos media. Isto sempre existiu, particularmente nos Estados Unidos. O Prémio Pulitzer deste ano foi concedido a The New York Times e The Washington Post por caça a feiticeiras em torno do Russia-gate! Eles foram louvados pela "profundidade das suas investigações". As suas investigações não mostraram nem um fragmento de prova real a sugerir qualquer intervenção russa séria na eleição de 2016.

Tal como Webb

O caso Julian Assange recorda-me o caso Gary Webb. Bob Parry foi um dos poucos apoiantes de Gary Webb nos media. A série "Aliança negra" de Webb continha evidência de que o tráfico de cocaína estava em curso com a conivência da CIA. Posteriormente Webb foi perseguido por colegas jornalistas e, incapaz de encontrar trabalho, acabou por cometer suicídio. O Inspector-Geral da CIA justificou-o posteriormente. Agora, Julian Assange está muito distante de atentar contra a sua própria vida. A sua resiliência é notável. Mas ele ainda é um ser humano e tem sido massacrado.

Provavelmente o que é mais duro para ele é a absoluta hipocrisia das organizações noticiosas – como The New York Times, o qual publicou "Registos de guerra" e "Cablegate" da WikiLeaks, The Washington Post e The Guardian, os quais tomaram uma vingança deliciosa a atormentar Julian. Mas a sua cobertura de Snowden deixou-o em Hong Kong. Foi a WikiLeaks que conseguiu tirar Snowden de Hong Kong e pô-lo em segurança.

Profissionalmente, considero isto uma das coisas mais repugnantes e imorais que já vi na minha carreira. A perseguição a este homem por enormes organizações de media que extraíram grandes benefícios da WikiLeaks. Um dos grandes atormentadores de Assange, Luke Harding de The Guardian, ganhou muito dinheiro com uma versão Hollywood de um livro que ele e David Lee escreveram e no qual basicamente atacam a sua fonte. Suponho que seja preciso ser psiquiatra para entender tudo isto. O meu entendimento é que muitos destes jornalistas estão envergonhados. Eles percebem que WikiLeaks fez o que eles deveriam ter feito há muito tempo e que é dizer-nos como os governos mentem.

DB: Uma coisa que me perturba muito é o modo como a imprensa corporativa ocidental especula acerca do envolvimento russo na eleição estado-unidense de 2016, que foi um golpe (hack) através de Julian Assange. Qualquer investigador sério desejaria saber quem seria motivado para isso. E ainda a possibilidade de que possa ser a dúzia ou mais de pessoas irritadas que foram trabalhar para a máquina da Clinton e aprenderam dali de dentro que o DNC [Comité Nacional Democrático] fazia tudo para se livrar de Bernie Sanders... isto não faz parte da narrativa!

Oitocentas mil revelações sobre a Rússia

JP: O que aconteceu a Sanders e o modo como ele foi esmagado pela organização da Clinton, toda a gente sabe que isto é a notícia. E agora temos o DNC a processar a WikiLeaks! Há uma espécie de elemento farsesco nisto. Quero dizer, nada disto veio dos russos. Que a WikiLeaks de algum modo estivesse na cama com os russos é ridículo. A WikiLeaks publicou cerca de 800 mil grandes revelações acerca da Rússia, algumas delas extremamente críticas do governo russo. Se você for um governo e fizer algo inconveniente ou estiver a mentir ao seu povo e a WikiLeaks obtiver os documentos para mostrá-lo, eles publicarão não importa quem seja você, seja dos Estados Unidos ou da Rússia.

DB: Randy Credico, devido ao seu trabalho e à sua decisão de dedicar uma série de artigos à perseguição de Julian Assange recentemente encontrou-se ele próprio sob ataque. Ele foi a um churrasco para a imprensa na Casa Branca e, depois de ter uma linda discussão com o congressista Schiff, ele gritou: "E sobre Julian Assange?" A sala estava cheia de reporters mas Randy foi atacado e arrastado para fora. Era como se toda a gente ali ficasse embaraçada ao reconhecer que um dos seus irmãos estava a ser brutalizado.

JP: Randy gritou algumas verdades. Isto é muito semelhante ao que aconteceu a Ray McGovern. Ray é um antigo membro da CIA mas um homem com princípios. Posso sugerir que agora ele é um renegado.

DB: Era histérico observar estes quatro guardas armados que se mantiveram a gritar "Pare de resistir, pare de resistir!" enquanto lhe batiam de modo infernal!

JP: Penso que a imagem de Ray a ser arrastado foi particularmente tocante. Estes quatro pesos-pesados, obviamente jovens mal treinados a tratarem Ray com grosseria, o qual tem 78 anos. Para mim houve algo extremamente emblemático quanto a isso. Ele enfrentou até ao desafio o facto de que a CIA estava prestes a entregar a sua liderança a uma pessoa que fora encarregada das torturas. É tanto chocante como surreal, o que naturalmente o caso Julian Assange também é. Mas o jornalismo real deveria ser capaz de penetrar o chocante e o surreal e contar a verdade. Há demasiado conluio agora, com todos estes desenvolvimentos sombrios e ameaçadores. É quase como se a palavra "jornalismo" estivesse a tornar-se deteriorada.

DB: Há certamente um bocado de conluio quanto a Israel. Assim, a palavra "conluio" é bastante apropriada.

JP: Esse é o conluio final. Mas é conluio através do silêncio. Nunca houve um conluio como este entre os EUA e Israel. Isto sugere uma outra palavra e esta é "imunidade". Há uma imunidade moral, uma imunidade cultural, uma imunidade geopolítica, uma imunidade legal e certamente uma imunidade dos media. Vemos o tiroteio sobre mais de 60 pessoas no dia da inauguração da nova embaixada dos EUA em Jerusalém. Israel tem algumas das mais perversas munições experimentais do mundo e eles dispararam-nas sobre o povo estava a protestar contra a ocupação da sua pátria e tentava recordar o povo da Nakba e o direito de retorno. Nos media isto foi descrito como "choques". Embora aquilo se tornasse tão mau que The New York Times numa edição posterior mudou a manchete da sua primeira página para dizer que Israel estava realmente a matar pessoas. Um momento raro, na verdade, em que a imunidade, o conluio, foi interrompido. Toda a conversa sobre o Irão e armas nucleares sem qualquer referência à maior potência nuclear no Médio Oriente.

DB: O que você diria acerca das contribuições feitas por Julian Assange nesta era de censura e covardia no jornalismo? Onde é que isto entra no quadro?

JP: Penso que representa algo de modo fundamental para a informação. Se remontar à época em que a WikiLeaks começou, quando Julian estava assente no seu quarto de hotel em Paris começando a montar tudo, uma das primeiras coisas que ele escreveu foi que há uma moralidade na transparência, que temos o direito de conhecer o que aqueles que pretendem controlar as nossas vidas estão a fazer em segredo. O direito a conhecer o que os governos estão a fazer em nosso nome – em nosso favor ou no nosso prejuízo – é o nosso direito moral. Julian sentia isso muito apaixonadamente. Houve momentos em que ele podia ter-se comprometido ligeiramente a fim de possivelmente ajudar na sua situação. Houve vezes em que lhe disse: "Por que você simplesmente suspende aquilo por um momento e concorda com isso?". Naturalmente, eu sabia antecipadamente o que seria a sua resposta e esta era "não". A enorme quantidade de informação que veio da WikiLeaks, particularmente nos últimos anos, representou um extraordinário serviço público. Eu estava a ler outro dia na WikiLeaks um telegrama de 2006 da Embaixada dos EUA em Caracas dirigido a outras agências na região. Isto foi quatro anos depois de os EUA tentarem livrar-se de Chavez através de um golpe. Ali se pormenorizava como a subversão deveria actuar. Naturalmente, eles vestiam isso como um trabalho de direitos humanos e assim por diante. Eu lia este documento oficial a pensar como a informação contida nele valia por anos da espécie de reportagem distorcida vinda da Venezuela. Também nos recorda que a chamada "intromissão" da Rússia nos EUA é apenas insensatez. A palavra "intromissão" não se aplica à espécie de acção implicada neste documento. Ela é a intervenção nos assuntos de outro país.

A WikiLeaks tem feito isso por todo o mundo. Ela dá às pessoas a informação a que elas têm direito. Elas têm o direito de descobrir a partir dos chamados "Registos de guerra" ("War Logs") a criminalidade das nossas guerras no Afeganistão e no Iraque. Elas têm o direito de descobrir acerca do Cablegate. Foi quando, numa observação da Clinton, soubemos que a NSA estava a reunir informação pessoal sobre membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas, incluindo os números dos seus cartões de crédito. Você pode ver porque Julian Assange fez inimigos. Mas ele também deveria ter um enorme número de amigos. Isto é informação crítica pois ela nos diz como o poder funciona e nunca aprenderemos o suficiente acerca disso. Penso que a WikiLeaks abriu um mundo de transparência e deu substância à expressão "direito a conhecer". Isto deve explicar porque ele é tão atacado, porque está tão ameaçado. Para a grande potência o inimigo não são tipos do Taliban, somos nós.

DB: E quem pode esquecer a divulgação do filme "Assassinato colateral" de Chelsea Manning?

JP: Essa espécie de coisa não é incomum. O Vietname pretendia ser a guerra aberta, mas realmente não era. Não havia as câmaras em torno. É na verdade informação chocante mas ela informa o povo e devemos agradecer à coragem de Chelsea Manning por isso.

DB: Sim, e graças a isso ele ficou sete anos em confinamento solitário. Eles querem processar Assange e talvez enforcá-lo nas vigas do Congresso, mas e quanto a Judith Miller e The New York Times que põem o ocidente em guerra? São infindáveis os exemplos horrendos do que passa por ser jornalismo, em contraste com a admirável contribuição feita por Julian Assange. 

11/Junho/2018 
 
[*] Dennis J. Bernstein: jornalista da Pacifica Radio Network, autor de Follow the Money e Special Ed: Voices from a Hidden Classroom, dbernstein@igc.org.

O original encontra-se em www.mintpressnews.com/silence-julian-assange/243665/


Este diálogo encontra-se em https://resistir.info/ .
 
 

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Os media e as armas nucleares




Independentemente de quem possui as armas nucleares, não há a menor dúvida de que constituem uma ameaça real à segurança e ao futuro da humanidade.

Créditos / flashbak.com

Por estes dias, o Conselho Português para a Paz e a Cooperação (CPPC) está a dinamizar uma importante campanha de angariação de subscritores de uma petição com vista à assinatura (e ratificação), por Portugal, do Tratado de Proibição das Armas Nucleares, adoptado pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 7 de Julho passado.

A iniciativa não tem tido acolhimento nos media, seguramente muito ocupados com outros temas e pouco inclinados a promover a discussão de assuntos de importância vital para a comunidade, mas cuja utilidade imediata – e imediatamente mensurável em audiência – não vislumbrarão.

Foi transitório o interesse mediático (aliás sem grande entusiasmo) pelo tema quando, a 6 de Outubro, foi anunciada a atribuição do Prémio Nobel da Paz à Campanha Internacional pela Abolição das Armas Nucleares (ICANW, no acrónimo em Inglês), cujo trabalho empenhado e decisivo deve ser justamente destacado.

Setenta e dois anos depois do lançamento das bombas nucleares sobre Hiroshima (6 de Agosto de 1945) e Nagazaki (três dias depois), no Japão, com a morte imediata, ou nos meses seguintes, de 215 mil pessoas, não obstante o apelo à eliminação das armas nucleares aprovado pela então jovem ONU, em 24 de Janeiro de 1946 (menos de seis meses após a tragédia), e apesar de o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (1 de Julho de 1968) impor o desarmamento geral e a eliminação total dos arsenais nucleares, o risco de uma catástrofe é real e nenhum passo decisivo foi dado para cumprir aqueles objectivos.

Nove países (Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido, França, Índia, Paquistão, Israel e Coreia do Norte) possuem um total de cerca de 15 mil ogivas nucleares. Além daqueles, cinco outros (Bélgica, Alemanha, Itália, Holanda e Turquia) têm estacionadas armas nucleares nos respectivos territórios. E outros 23 – Portugal, Coreia do Sul e Japão incluídos – fazem parte de «alianças nucleares», com a NATO à cabeça, que os colocam nas rotas destes dispositivos de morte cuja eficácia a imaginação do cidadão comum não alcança.

Uns dois terços dos países do mundo – praticamente o hemisfério sul – estão livres de armas nucleares, mas só por ingenuidade se pode crer que estarão ao abrigo de uma conflagração nuclear, seja pela detonação deliberada de um engenho, seja por erro ou por acidente.

Desde praticamente os alvores da era nuclear militar que os movimentos de cientistas, com os físicos Frédéric Joliot-Curie, Albert Einstein e Joseph Rotblat e o filósofo e matemático Bertrand Russel à cabeça, aos quais se juntaram inúmeros outros intelectuais, alertaram para os elevados riscos que impendem sobre a humanidade e se empenharam contra a bomba nuclear.

Dos artigos publicados imediatamente após o lançamento da bomba de Hiroshima e dos programas de rádio, nomeadamente de Russel, ao Apelo de Estocolmo (1950), passando por inúmeros artigos e entrevistas, debates e manifestos, milhares de intelectuais não cessaram de avisar para a elevada probabilidade de destruição maciça e em larguíssima escada – seja por impacto direito da deflagração, seja pelo transporte de cinzas e poeiras radioactivas, transportando radioisótopos que permanecerão activos por milhares e até dezenas de milhares de anos.

Embora se registe uma (ainda muito incompleta) redução das armas nucleares (eram mais de 20 mil em 2010 e mais de 70 mil nos anos 1980), a crescente sofisticação dos arsenais, à força de vultuosos investimentos, a mobilidade e a capacidade de propulsão são surpreendentes e muito perigosas.
Estima-se, por exemplo, que dois terços das 300 ogivas francesas estejam embarcadas em mísseis balísticos em submarinos e podem alcançar dez mil quilómetros de distância.

Independentemente de quem possui as armas nucleares, não há a menor dúvida de que constituem uma ameaça real à segurança e ao futuro da humanidade e de que, apesar da retórica desculpabilizadora baseada na invocada necessidade de dissuasão tão frequente e hipocritamente usada no discurso «diplomático» dos detentores de armas e dos seus seguidores, estamos perante uma séria questão de ética da legitimidade.

Não são apenas as convenções de direito internacional humanitário que proíbem os ataques indiscriminados, ou as armas que, pela sua natureza, possam causar danos supérfluos ou ferimentos desnecessários e que impõem o princípio de que o direito dos países em conflito a escolher os métodos e meios de combate não é ilimitado.

É sobretudo a exigível sã consciência de que qualquer ser humano deve possuir acerca dos limites ao seu poder, de que a ninguém é lícito decidir sobre a vida ou a morte dos povos e o destino da própria humanidade, assim como, por maiores que sejam as divergências, não há uso benigno possível para o poder de destruição tão letal e tão extenso hoje ao alcance do homem.

Porém, os media não proporcionam o mínimo debate sobre um tema tão decisivo na vida dos povos. Pode ser por indiferença – o que é deplorável –, ou até pode ser por um critério de prioridades na agenda – o que é preocupante –, mas a escassez ou mesmo ausência de discussão e reflexão no espaço público deixam os cidadãos e os próprios jornalistas desarmados perante o arsenal argumentativo dos detentores de armas nucleares e seus vassalos e seguidores.

É assim que pouco ou nada se questiona a posição seguidista do Governo português, que esteve fora das negociações do novo Tratado e evidentemente não quer assinar (e muito menos fazer ratificar) o Tratado de Proibição de Armas Nucleares, com o singelo argumento segundo o qual esse acto, «que declara ilegais as armas nucleares» não seria compaginável com a circunstância de ser membro da NATO, que «é uma aliança nuclear».

Esta é aliás o maior detentor de ogivas do mundo: além das 6800 dos Estados Unidos, 300 da França e 215 do Reino Unido, sem contar com as 80 do amigo Israel1.

Ou que se come e cala, numa obediente «independência» jornalística, incensando acriticamente a doutrina da NATO (herdeira ideológica da doutrina de hegemonia planetária que os Estados Unidos deixaram tragicamente plasmada nos ataques a Hiroshima e Nagasaki, quando já era mais do que evidente, desde 1944, que a Alemanha nazi não possuía a bomba atómica), ou se questiona o poder ilegítimo que a Aliança Atlântica outorga a si própria de impor a sua paz ao mundo, aliás bem patente no seu comunicado de 20 de Setembro, a propósito da abertura às assinaturas do Tratado de Proibição das Armas Nucleares.

Continuaremos a calar?

  • 1. Usa-se aqui, tal como em relação aos restantes detentores de arsenais nucleares, a informação regular do Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo (SIPRI, no acrónimo em Inglês), que não consta como insuspeita quanto ao independência, pelo menos nos media mainstream…, mas é mencionada, por vezes, a hipótese de Israel possuir realmente umas 200 ogivas.
aqui:https://www.abrilabril.pt/os-media-e-armas-nucleares

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Diplomatas russos expulsos poderão voltar depois de matarem alguns palestinos


por Waterford Whispers
 
Faixa de Gaza. Dúzias de países que em Março último expulsaram diplomatas russos concordaram em permitir o retorno dos mesmos depois serem informados que nesta semana eles atiraram e mataram palestinos na faixa de Gaza.

Deportados da Irlanda, EUA, França, Itália e Alemanha, em solidariedade com o Reino Unidos sobre um alegado ataque a espião ainda envolto em mistério, mais de 150 diplomatas russos foram a Israel na semana passada com a esperança de retornarem aos países que lhes foram designados.

"Assassinar palestinos a sangue frio actualmente parece ser o único meio de caírem nas boas graças, como mostraram nossos amigos israelenses que parecem ser imunes a expulsões", explicou o ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Sergei Lavrov, enquanto apontava para uma parede com fotografias de homens, mulheres e crianças que os diplomatas assassinaram a sangue frio. "Assim, decidimos enviar todos os nossos diplomatas expulsos a uma orgia de matanças em Gaza a fim de apaziguar nossos senhores supremos. Felizmente parece que funcionou".

A seguir à confirmação das mortes, foi imediatamente concedido a cada diplomata o acesso ao seu país designado, com o ministro irlandês dos Negócios Estrangeiros, Simon Coveney, declarando estar muito satisfeito com o responsável russo anteriormente expulso:   "Vi fotos dos palestinos mortos que ele liquidou e estou deliciado em saudar o retorno do nosso amigo russo a Dublim para ele realizar tudo o que quiser aqui".

O ousado movimento da Rússia ocorreu depois de dúzias de palestinos terem sido mortos esta semana por soldados israelenses com pouca ou nenhuma acção internacional por parte das chamadas "nações soberanas".

"É óbvio que uma vez que estejamos ao lado dos israelenses, podemos fazer o que quer que seja com nula repercussão internacional", concluiu o ministro russo dos Negócios Estrangeiros.
19/Maio/2018
 
O original encontra-se no sítio web irlandês Waterford Whispers News .

Esta sátira encontra-se em http://resistir.info/


aqui:http://resistir.info/russia/satira_19mai18.html
 

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Marionetas russas

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