quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

A terrível destruição futura da «Bacia das Caraíbas»

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Na altura em que o Presidente Trump anunciou a retirada das tropas de combate dos EUA do «Médio-Oriente Alargado», o Pentágono prossegue a implementação do plano Rumsfeld-Cebrowski. Trata-se, desta vez, de destruir os Estados da «Bacia das Caraíbas». Não do derrube de regimes pró-soviéticos, como nos anos 70, mas da destruição de todas as estruturas estatais regionais, sem levar em consideração se são amigos ou inimigos políticos. Thierry Meyssan analisa a preparação desta nova série de guerras.


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Numa série de artigos precedentes, tínhamos apresentado o plano do SouthCom visando provocar uma guerra entre Latino-americanos a fim de destruir as estruturas de Estado de todos os países da «Bacia das Caraíbas» [1].

Preparar uma tal guerra, que deveria suceder aos conflitos do «Médio-Oriente Alargado», no quadro da estratégia Rumsfeld-Cebrowski, exige uma década [2].

Após o período de desestabilização económica [3] e o de preparação militar, a operação propriamente dita deveria começar, nos anos a seguir, por um ataque à Venezuela desde o Brasil (apoiado por Israel), da Colômbia (aliada dos Estados Unidos) e da Guiana (ou seja, do Reino Unido). Ele seria seguido por outros, a começar contra Cuba e a Nicarágua (a «troïka da tirania» segundo John Bolton).

No entanto o plano inicial é susceptível de modificações, nomeadamente em razão do regresso das ambições imperiais do Reino Unido [4], que poderia influir sobre o Pentágono.

Eis aqui onde nos encontramos:

 

Evolução da Venezuela


O Presidente venezuelano, Hugo Chávez, desenvolvera relações com o «Médio-Oriente Alargado» dentro de uma base ideológica. Ele tinha-se aproximado particularmente do Presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, e do Presidente sírio, Bashar al-Assad. Juntos, haviam imaginado a possibilidade de fundar uma organização intergovernamental, o «Movimento dos Aliados Livres», sobre o modelo do «Movimento dos Não-Alinhados», ao encontrar-se este paralisado, no decorrer do tempo, pelo alinhamento de alguns dos seus membros com os Estados Unidos [5].

Se Nicolas Maduro mantém o mesmo discurso que Hugo Chávez, ele escolheu, no entanto, uma política externa completamente diferente. Prosseguiu, é certo, a aproximação com a Rússia e acolheu, por sua vez, bombardeiros russos na Venezuela. Assinou um contrato de importação de 600 000 toneladas de trigo para fazer face à escassez no seu país. Acima de tudo, prepara-se para receber US $ 6 mil milhões (bilhões-br) de dólares em investimentos, dos quais 5 no sector petrolífero. Os engenheiros russos irão tomar o lugar que pertencia aos venezuelanos, mas que estes deixaram vago.

Nicolas Maduro reorganizou as alianças do seu país sobre novas bases. Assim, forjou laços estreitos com a Turquia que é membro da OTAN, e cujo exército ocupa actualmente o Norte da Síria. Maduro deslocou-se quatro vezes a Istambul e Erdoğan uma vez a Caracas.

A Suíça era uma aliada de Hugo Chávez, que ele havia consultado a fim de redigir a sua Constituição. Temendo não poder mais refinar o ouro do seu país na Suíça, Nicolas Maduro encaminha-o agora para a Turquia que transforma o minério bruto em lingotes. No passado, este ouro ficava nos bancos suíços a fim de garantir os contratos petrolíferos. Agora, a liquidez foi igualmente transferida para a Turquia, enquanto o novo ouro tratado regressa à Venezuela. Esta orientação pode ser interpretada como estando baseada não mais em ideologia, mas, sim em interesses. Resta definir quais.

Simultaneamente, a Venezuela é alvo de uma campanha de desestabilização que começou com as manifestações das guarimbas, prosseguiu com a tentativa de Golpe de Estado de 12 de Fevereiro de 2015 («Operação Jericó»), depois por ataques sobre a moeda nacional e a organização da emigração.
Neste contexto, a Turquia forneceu à Venezuela a oportunidade de contornar as sanções dos EUA. As trocas comerciais entre os dois países multiplicaram-se por quinze em 2018.

Qualquer que seja a evolução do regime venezuelano, nada justifica o que se prepara contra a sua população.

 

Coordenação de meios logísticos


De 31 de Julho a 12 de Agosto de 2017, o SouthCom organizou um vasto exercício com mais de 3 000 homens vindos de 25 Estados aliados, entre os quais a França e o Reino Unido. Tratava-se de preparar um desembarque rápido de tropas na Venezuela [6].

 

A Colômbia


A Colômbia é um Estado, mas não uma nação. Nela, a sua população vive geograficamente separada segundo classes sociais, com enormes diferenças de nível de de vida. Quase nenhum colombiano se aventurou num bairro destinado a outra classe social que não a sua. Essa estrita separação tornou possível a multiplicação de forças paramilitares e, consequentemente, dos conflitos armados internos que fizeram mais de 220 000 vítimas numa trintena de anos.

No poder desde Agosto de 2018, o Presidente Iván Duque pôs em causa a frágil paz interna, concluída por seu predecessor, Juan Manuel Santos, com as FARC (mas não com o ELN). Ele não descartou a opção de uma intervenção militar contra a Venezuela. Segundo Nicolas Maduro, actualmente os Estados Unidos treinam 734 mercenários num campo de treino situado em Tona, tendo em vista uma acção de bandeira-falsa para desencadear a guerra contra a Venezuela. Tendo em vista as particularidades sociológicas da Colômbia, não é possível dizer, com certeza, se este campo de treino é controlado ou não por Bogotá.

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Rex Tillerson era o Director da ExxonMobil no momento da descoberta das jazidas petrolíferas da Guiana. Pouco depois, tornou-se no Secretário de Estado dos Estados Unidos.

 

A Guiana


No século XIX, as potências coloniais acordaram a fronteira entre a Guiana britânica (a actual Guiana) e a Guiana holandesa (actual Suriname), mas nenhum texto fixou a fronteira entre a zona britânica e a zona espanhola (actual Venezuela). De facto, a Guiana administra 160 000 km2 de florestas que continuam em disputa com o seu grande vizinho. Em virtude do Acordo de Genebra, de 17 de Fevereiro de 1966, os dois Estados recorreram ao Secretário-Geral das Nações Unidas (à época o birmanês U Thant). Mas, nada mudou desde aí, propondo-se a Guiana levar o assunto ao Tribunal (Corte-br) de Arbitragem da ONU, enquanto a Venezuela privilegia negociações directas.

Este diferendo territorial não parecia de urgente resolução porque a área contestada é uma floresta despovoada que se acreditava sem valor, mas é um imenso espaço que representa dois terços da Guiana. O acordo de Genebra foi violado 15 vezes pela Guiana, a qual autorizou, nomeadamente, a exploração de uma mina de ouro. Acima de tudo, surgiu em 2015 um grande desafio com a descoberta, pela ExxonMobil, de jazidas petrolíferas no Oceano Atlântico, precisamente nas águas territoriais da área contestada.

A população da Guiana é composta por 40% de Indianos, 30% de Africanos, 20% de Mestiços e por 10% de Ameríndios. Os Indianos estão muito presentes na função pública civil e os Africanos no exército.


Em 21 de Dezembro, uma moção de censura foi apresentada contra o governo do Presidente David Granger, um General pró-britânico e anti-venezuelano, no Poder desde 2015. Para surpresa geral, um deputado, Charrandas Persaud, votou contra o seu próprio partido e, numa indescritível barracada (bagunça-br), provocou a queda do governo, que apenas dispunha de um voto de maioria. Desde aí, reina a maior instabilidade: não se sabe se o Presidente Granger, que recebe tratamento de quimioterapia, estará à altura de assegurar a gestão dos assuntos correntes, enquanto, por uma porta traseira, Charrandas Persaud deixou o Parlamento com uma escolta e se escapou para o Canadá.

A 22 de Dezembro de 2018, na ausência de governo, o Ramform Thethys (arvorando o pavilhão das Baamas) e o Delta Monarch (Trinidad e Tobago) realizaram explorações submarinas na zona contestada por conta da Exxon-Mobil. Considerando que esta intrusão viola o acordo de Genebra, o exército da Venezuela perseguiu os dois navios. O Ministério guianês dos Negócios Estrangeiros (Relações Exteriores-br), em mera gestão corrente, denunciou o acto como hostil.

O Ministro da Defesa do Reino Unido, Gavin Williamson, declarou por outro lado ao Sunday Telegraph, de 30 de Dezembro de 2018, que a Coroa punha fim a filosofia de descolonização que, desde o caso do Suez em 1956, era a doutrina de Whitehall. Londres prepara-se para abrir uma nova base militar nas Caraíbas (de momento o Reino está apenas presente em Gibraltar, Chipre, Diego Garcia e nas Ilhas Falklands). Esta poderia ser em Montserrat (Antilhas) ou, mais provavelmente, na Guiana e deveria estar operacional em 2022 [7].

A Guiana é vizinha do Suriname (a Guiana Holandesa). O seu Presidente, Dési Bouterse, é acusado na Europa por tráfico de drogas; um caso anterior à sua eleição. Mas o seu filho, Dino, foi preso no Panamá, em 2013, muito embora tenha entrado com um passaporte diplomático. Ele foi extraditado para os Estados Unidos onde foi condenado a 16 anos de prisão por tráfico de drogas; na realidade porque acolheu o Hezbolla libanês no Suriname.

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O baptismo de Jair Bolsonaro nas águas do Jordão (Israel)

 

O Brasil


Em Maio de 2016, o Ministro das Finanças (Fazenda-br) do Governo de transição do líbano-brasileiro Michel Temer, Henrique Meirelles, designou o israelo-brasileiro Ilan Goldfajn como Director do Banco Central. Mereilles, ao presidir ao Comité Preparatório dos Jogos Olímpicos, também apelou ao Tsahal (FDI-ndT) para coordenar a Polícia e o Exército brasileiros e garantir, assim, a segurança dos Jogos. Controlando, ao mesmo tempo, o Banco Central, o Exército e a Polícia brasileiros, Israel não teve dificuldade em dinamizar o movimento de contestação face à incúria do Partido dos Trabalhadores.

Crendo que a Presidente Dilma Rousseff havia maquilhado (maquiado-br) as contas públicas, no quadro do escândalo Petrobras, muito embora sem que nenhum facto ficasse provado, os parlamentares destituíram-na em Agosto de 2016.
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Eduardo e Carlos, os filhos do Presidente Jair Bolsonaro.

Aquando da eleição presidencial de 2018, o candidato Jair Bolsonaro foi a Israel para ser baptizado nas águas do Jordão. Assim conquistou de forma massiva os votos dos evangélicos.

Ele fez-se eleger tendo o General Hamilton Mourão como Vice-presidente. Este último declarou, durante o período de transição, que o Brasil deveria preparar-se para enviar homens para a Venezuela como «força de manutenção de paz», assim que o Presidente Maduro fosse derrubado; declarações que constituem uma ameaça pouco velada e que o Presidente Bolsonaro tentou minorar.

Entretanto, numa entrevista, a 3 de Janeiro de 2019, ao canal SBT, o Presidente Bolsonaro referiu negociações com o Pentágono tendo em vista acolher uma base militar dos EUA no Brasil [8]. Esta declaração levantou uma forte oposição no seio das Forças Armadas para quem o país é capaz de se defender sozinho.

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Benjamin Netanyahu aquando da investidura do Presidente Bolsonaro. Israel tomou posições no Brasil.

Durante a sua investidura, a 2 de Janeiro de 2019, o novo Presidente acolheu o Primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu. Foi a primeira vez que uma personalidade israelita desta importância visitou o Brasil. Na ocasião, o Presidente Bolsonaro anunciou a próxima transferência da embaixada brasileira de Telavive para Jerusalém.

O Secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, que também esteve presente na investidura, anunciou junto com o Presidente Bolsonaro a sua intenção de lutar contra os «regimes autoritários» da Venezuela e de Cuba. De regresso aos Estados Unidos, ele fez escala em Bogotá para se encontrar com o Presidente colombiano, Iván Duque. Os dois homens acordaram em trabalhar para isolar diplomaticamente a Venezuela. A 4 de Janeiro de 2019, os 14 Países do Grupo Lima (entre os quais o Brasil, a Colômbia e a Guiana) reuniram-se para declarar como «ilegítimo» o novo mandato de Nicolas Maduro, que começa a 10 de Janeiro [9]; um comunicado que não foi subscrito pelo México. Além disso, seis dos Estados-membros apresentarão uma queixa ao Tribunal Penal Internacional contra o Presidente Nicolas Maduro por crimes contra a humanidade.

É hoje perfeitamente claro que está já em marcha o processo para a guerra. Forças enormes estão em jogo e, agora, pouco há que possa pará-las. É neste contexto que a Rússia estuda a possibilidade de estabelecer uma base aeronaval permanente na Venezuela. A ilha de La Orchila —onde o Presidente Hugo Chávez fora mantido prisioneiro durante o Golpe de Estado de Abril de 2002— permitiria estacionar bombardeiros estratégicos. O que seria uma ameaça muito maior para os Estados Unidos do que foram, em 1962, os mísseis soviéticos estacionados em Cuba.

Tradução
Alva
[1] « Plan to overthrow the Venezuelan Dictatorship – “Masterstroke” », Admiral Kurt W. Tidd, Voltaire Network, 23 février 2018. “O “Golpe de Mestre” dos Estados Unidos contra a Venezuela (Documento do Comando Sul)”, Stella Calloni, 13 de Maio de 2018; “Os Estados Unidos preparam uma guerra entre Latino-americanos”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 18 de Dezembro de 2018.
[2] The Pentagon’s New Map, Thomas P. M. Barnett, Putnam Publishing Group, 2004. “O projecto militar dos Estados Unidos pelo mundo”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 22 de Agosto de 2017.
[3] “Declaration of a National Emergency with Respect to Venezuela”, “Executive Order – Blocking Property and Suspending Entry of Certain Persons Contributing to the Situation in Venezuela”, by Barack Obama, Voltaire Network, 9 March 2015.
[4] “Brexit: Londres assume a sua nova política colonial”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 9 de Janeiro de 2019.
[5] « Assad et Chavez appellent à la formation d’un Mouvement des alliés libres » («Assad e Chavez apelam para a formação de um Movimento de Aliados Livres»- ndT), Réseau Voltaire, 28 juin 2010.
[6] “Grandes manobras ao redor da Venezuela”, Manlio Dinucci, Tradução Maria Luísa de Vasconcellos, Il Manifesto (Itália) , Rede Voltaire, 23 de Agosto de 2017.
[7] “We are opening new overseas bases to boost Britain” («Estamos a abrir novas bases ultramarinas para potenciar a Grã-Bretanha»- ndT), Christopher Hope, Sunday Telegraph, December 30, 2018.
[8] “‘Ficamos satisfeitos com a oferta da base militar’, diz Pompeo”, Eliane Cantanhêde, O Estado de S. Paulo, 6 Janeiro 2019.
[9] “Declaração do Grupo de Lima”, Rede Voltaire, 4 de Janeiro de 2019.

aqui:http://www.voltairenet.org/article204670.html

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Nova guerra fria e ameaças que emergem


por John Pilger [*]
Entrevistado por Jipson John e Jitheesh P.M. [**]
 
John Pilger. O seu recente documentário, The Coming War on China , mostra como os Estados Unidos estão em guerra com a China. Pode explicar o mecanismo dessa guerra secreta? Acha que a Ásia-Pacífico será a próxima região de intervenção imperialista? Como ocorrerá essa intervenção e quais serão as consequências?

É uma "guerra secreta" apenas porque a nossa percepção é moldada para ignorar a realidade. Em 2010, a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, viajou a Manila e incumbiu o recém-empossado presidente filipino, Benigno Aquino, de tomar posição contra a China pela sua ocupação das Ilhas Spratly e de aceitar a presença de cinco bases de Marines dos EUA. Manila entendia-se bem com Pequim, tendo negociado empréstimos bonificados para infraestruturas que necessitava muito. Aquino fez o que lhe foi dito e aceitou que uma equipa jurídica liderada pelos EUA contestasse as reivindicações territoriais da China no Tribunal Arbitral da ONU em Haia. O tribunal concluiu que a China não tinha qualquer jurisdição sobre as ilhas; um julgamento que a China categoricamente rejeitou. Foi uma pequena vitória numa campanha de propaganda americana visando retratar a China mais como territorialmente rapace do que como defensiva na sua própria região. O motivo foi o crescente receio da elite de segurança nacional/militar/mediática dos EUA de ter deixado de ser a potência dominante no mundo.

No ano seguinte, em 2011, o presidente Obama declarou uma "viragem para a China". Isso marcou a transferência da maioria das forças navais e aéreas dos EUA para a região da Ásia-Pacífico, o maior movimento de equipamentos militares desde a Segunda Guerra Mundial. O novo inimigo de Washington – ou melhor, um inimigo de novo – era a China, que atingira extraordinários patamares económicos em menos de uma geração.

Os Estados Unidos têm há muito tempo uma série de bases em torno da China, da Austrália às ilhas do Pacífico, passando pelo Japão, Coreia e Eurásia. Estas estão em vias de ser reforçadas e modernizadas. Quase metade da rede global dos EUA, que conta mais de 800 bases, cerca a China "como o laço corredio perfeito", disse um responsável do Departamento de Estado. Sob o pretexto do "direito à liberdade de navegação", navios de baixo calado dos EUA entram nas águas chinesas. Os drones americanos sobrevoam o território chinês. A ilha japonesa de Okinawa é uma vasta base americana, com os seus contingentes preparados para um ataque à China. Na ilha coreana de Jeju, os mísseis da classe Aegis são apontados a Xangai, a 640 quilómetros de distância. A provocação é constante.

Em 3 de outubro, pela primeira vez desde a Guerra Fria, os Estados Unidos ameaçaram abertamente atacar a Rússia, a aliada mais próxima da China, com quem esta tem um pacto de defesa mútua. Os media interessaram-se pouco pela questão. A China está a armar-se rapidamente; de acordo com a literatura especializada, Pequim mudou sua postura nuclear, passando de um alerta baixo para um alerta alto.

Pessoas como Noam Chomsky dizem que o império americano está em declínio. Pensa realmente isso? Nos últimos tempos, vimos os Estados Unidos tentarem chegar a um acordo com a Coreia do Norte; antes, eles tentaram reestabelecer relações diplomáticas com Cuba. O que indicam esses episódios? Acha que o mundo se está a diversificar?

O império americano enquanto ideia pode estar em declínio, a ideia de uma única potência dominante e a dolarização da economia mundial, mas o poder militar dos EUA nunca foi tão ameaçador. Uma nova guerra fria conduz ao isolamento dos Estados Unidos e é um perigo para todos nós. No início do século XXI, Norman Mailer [jornalista e romancista norte-americano] escreveu que o poder americano havia entrado em uma era "pré-fascista". Outros sugeriram que já estamos lá.

Disse que um dos triunfos do século XXI em matéria de relações públicas foi o slogan de Obama "a mudança em que acreditamos". Disse também que a campanha mundial de assassínios de Obama foi sem dúvida a mais dispendiosa campanha de terrorismo desde o 11 de Setembro de 2001. Por que foi tão duro com Obama, que ganhou o Prêmio Nobel da Paz? Que acha de Donald Trump e da sua presidência?

As guerras deste Prémio Nobel da Paz. Eu não fui duro com Obama. Foi Obama quem foi duro com grande parte da humanidade, ao contrário da sua muitas vezes absurda imagem mediática. Obama foi um dos mais violentos presidentes americanos. Lançou ou apoiou sete guerras e deixou o poder sem que nenhuma delas fosse resolvida: um recorde. Durante o seu último ano como presidente, em 2016, lançou 26.171 bombas, segundo o Conselho de Relações Exteriores. É uma estatística interessante; trata-se de três bombas a cada hora, 24 horas por dia, principalmente sobre civis. A técnica de bombardeamento adoptada por Obama foi o assassínio por meio de drones. Todas as terças-feiras, relatava o New York Times, ele escolhia os nomes daqueles que iriam morrer num "programa" de execuções extrajudiciais. Todos os homens em idade militar no Iémen e nas fronteiras do Paquistão eram considerados inteiramente como animais. Ele multiplicou as operações das forças especiais dos EUA no mundo, especialmente em África. Juntamente com a França e a Grã-Bretanha ele e sua secretária de Estado, Hillary Clinton, destruíram a Líbia como Estado moderno com o falso e familiar pretexto de que o seu líder estava prestes a cometer um massacre de "inocentes". Isso conduziu directamente ao crescimento dos medievalistas Daesh [ou Estado Islâmico] e uma vaga de emigração de África para a Europa. Ele derrubou o presidente democraticamente eleito da Ucrânia e instalou um regime abertamente apoiado pelo fascismo – como uma provocação deliberada à Rússia.

A concessão do Prémio Nobel da Paz a Obama foi uma impostura. Em 2009, esteve no centro de Praga e prometeu ali ajudar a criar um mundo "livre de armas nucleares". Na verdade, aumentou o número de ogivas nucleares americanas e autorizou um programa de construção nuclear de longo prazo de US$1000 milhões. Processou mais denunciantes, reveladores da verdade, do que todos os presidentes dos EUA juntos. O seu principal êxito, pode dizer-se, foi pôr fim ao movimento anti-guerra norte-americano. Os manifestantes regressaram a casa dando crédito às mensagens de 'esperança' e 'paz' de Obama e começaram a acreditar nisso. A única diferença de Obama foi ter sido o primeiro presidente negro na terra da escravidão. Em quase todos os outros aspectos, ele era apenas outro presidente americano cuja constante afirmação era que os Estados Unidos eram "a única nação indispensável", o que presumia que outras nações seriam dispensáveis.

Talvez a inteligência de Obama residisse na imagem que ele próprio e outros fabricaram e cultivaram com sucesso. Donald Trump também pode ser descrito como apenas outro presidente americano (violento). O que o distingue é que ele é uma caricatura. Muitos membros da elite americana detestam Trump, não por causa de seu comportamento pessoal, mas por causa de um embaraço muito mais profundo; ele é a imagem crua da América, sem a máscara.

O seu filme The War on Democracy documenta o golpe de Estado orquestrado pelos Estados Unidos contra Hugo Chávez, que se opunha ao imperialismo, com a ajuda da burguesia de direita e capitalista da Venezuela. Isso não era novo para a maioria dos países latino-americanos. Hoje, porém, vemos cada vez mais países do continente resistindo ao imperialismo americano. Fora de Cuba e da Venezuela, governos de esquerda estão no poder em países como a Bolívia e o Equador. Qual é o significado disso? Hoje em dia, também ouvimos histórias de ofensivas de direita em países como a Venezuela e o Brasil. Como avalia o actual cenário político latino-americano?

Não concordo que "mais e mais países [na América Latina] estejam a resistir ao imperialismo dos EUA". Pode ter sido verdade quando Hugo Chávez ainda estava vivo; mas mesmo então, os Estados Unidos nunca desistiram da sua influência no continente. Hoje, há apenas Bolívia, Nicarágua e, claro, Venezuela, a Venezuela em luta pela sobrevivência. A maior parte da América Latina está de volta à influência de Washington, especialmente o Brasil. O Equador, anteriormente esclarecido, é outro exemplo eloquente. O governo obsequioso de Lénine Moreno convidou as tropas norte-americanas a voltarem e ameaçou abandonar Julian Assange. A opressão económica do FMI está novamente a prejudicar a Argentina. Versões do Consenso de Washington, conhecido como neoliberalismo, dominam quase todo o continente. Cuba está calma, o que é compreensível.

Nos últimos anos, vimos denunciantes como Julian Assange e Edward Snowden revelarem documentos confidenciais que mostravam como funciona o sistema de poder. Notará que o WikiLeaks não fez nada mais do que The New York Times e The Washington Post haviam feito num celebrado passado – revelaram a verdade sobre guerras de rapina e as maquinações de uma elite corrupta.

Disse que "o WikiLeaks é um marco no jornalismo". Qual é a importância dessas revelações? O que é que elas nos ensinam?

O WikiLeaks fez muito mais do que o New York Times e o Washington Post com todos os louros que estes têm. Nenhum jornal conseguiu igualar – ou chegar perto – os segredos e mentiras do poder que Assange e Snowden revelaram. O facto de os dois homens serem fugitivos testemunha o recuo das democracias liberais em relação aos princípios da liberdade e da justiça. Por que o WikiLeaks é um marco no jornalismo? Porque as suas revelações nos disseram, com 100% de precisão, como e porquê uma grande parte do mundo é dividida e dirigida.

Como analisa a evolução do panorama dos media na era digital? Por um lado, a Internet abriu uma vasta via de espaço livre ou de plataforma independente. A Internet oferece um espaço contra-narrativo, ao qual os grandes media corporativos não prestam atenção. Mas, por outro lado, grandes monopólios digitais controlam o espaço digital. Como vê a situação? Quais são os desafios a enfrentar?

Os desafios são tão grandes quanto os povos o permitem. Os dados digitais são a nova corrida ao ouro do capitalismo; a vigilância digital é o novo adversário da democracia. Ambos diferem apenas na forma e na escala das infinitas variedades de poder a que os povos tiveram de resistir desde o início da história. Hoje, todos nós temos um pé no mundo digital; temos a Internet, que é poder. A maneira como aplicamos este poder, ao invés de o banalizar, depende da nossa vontade de adoptar princípios imemoriais de resistência.

Está envolvido em reportagens de guerra há mais de cinco décadas. Cobriu a maioria das grandes guerras, incluindo a Guerra do Vietname, a guerra no Iraque e a guerra no Afeganistão. Um certo número de países pratica uma política de armamento crescente como política económica. O papel das grandes empresas de venda armas também é importante. O que é a economia política da guerra?

A economia política da guerra na era moderna é a economia política dos Estados Unidos. Os Estados Unidos privam cerca de 80 milhões dos seus cidadãos de cuidados de saúde adequados e gastam quase 60% do seu orçamento discricionário federal na preparação para a guerra. A Índia também tem uma economia de guerra. Em 2018, a Índia ficou entre os cinco países que mais gastaram no campo militar, com um orçamento militar de US$63,9 mil milhões, o que supera o da França. Quase metade do orçamento nacional é dedicado a gastos militares. Quando fui à Índia pela primeira vez, descobri outro mundo dentro de bases militares, habitado por pessoas saudáveis e bem nutridas, com água potável e crianças educadas. No exterior dessas bolhas magníficas, a Índia conta mais crianças subnutridas do que qualquer outro país do mundo.

Síndrome do Vietname

A Guerra do Vietname foi um dos capítulos mais sangrentos e mortíferos do pós-guerra. Começou as suas reportagens de guerra no Vietname. Esta foi a primeira guerra televisionada. A Guerra do Vietname é a história do massacre de mais de três milhões de pessoas. Poderia falar-nos do horror que viu no Vietname? Qual foi o papel dos media ocidentais no Vietname? Recentemente, captou a tentativa de reescrever a história da Guerra do Vietname em manuais escolares norte-americanos. A própria recordação do Vietname assombra o Estado mais poderoso do mundo?

Não tenho certeza de que "assombrar" seja a palavra certa. O que incomoda os apologistas americanos é que o exército de "nação indispensável" foi expulso da Ásia por uma nação de camponeses, que ela sofreu uma derrota humilhante. Desde então, eles têm procurado um "melhor resultado", reescrevendo o que chamaram de "síndrome do Vietname", um eufemismo para o embaraço prolongado causado por uma catástrofe.

A série de documentários épicos de Ken Burns para a Public Broadcasting em 2017 começou com a seguinte declaração: "A guerra foi desencadeada de boa-fé por pessoas honestas como resultado de mal-entendidos fatais, do excesso de confiança dos norte-americanos e dos mal-entendidos da guerra fria". A desonestidade desta declaração ignora os muitos falsos pretextos que levaram à invasão do Vietname, como o "incidente" do golfo de Tonquim em 1964. Não houve boa-fé. A fé era podre e cancerosa e mais de quatro milhões de pessoas morreram.

Vi algo do sofrimento: o facto de o comandante norte-americano, general William Westmoreland, ter tomado por alvo civis a quem chamava "baratas". No delta do Mekong, após um bombardeamento, havia um cheiro de napalm e árvores petrificadas enfeitadas com pedaços de corpos. Também testemunhei heroísmo. Em 1975, encontrei a única sobrevivente de uma bateria antiaérea vietnamita, todas adolescentes; estava ajoelhada diante dos novos túmulos de seus camaradas.

O terrorismo é o produto de Estados

Questionou a guerra dos EUA contra o terrorismo como um exemplo de hipocrisia e de duplicidade. Porque diz isso? Se assim for, a questão é de saber como parar o terrorismo. Até que ponto a ameaça do terrorismo é um desafio para uma vida moderna e cívica?

A grande maioria do terrorismo é o produto de Estados. O Iémen é actualmente vítima de incessantes actos de terrorismo por parte do Estado saudita, que patrocinou outras formas de terrorismo, nomeadamente os ataques de 11 de Setembro. A "guerra contra o terrorismo" lançada em 2001 pelo presidente dos EUA, George W. Bush, foi na verdade, uma guerra de terror, matando milhões de pessoas, na sua maioria muçulmanos. Estados poderosos, como os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, tornaram o terrorismo uma arma "estratégica"; o apoio ao jihadismo na Líbia e na Síria é um exemplo notável disso. A conclusão é ou deveria ser óbvia: quando os governos pararem de promover o terrorismo, os ataques sangrentos nas suas próprias cidades provavelmente acabarão.

Disse que os Estados Unidos têm ao mesmo tempo "bons terroristas" e "maus terroristas". Quem são os bons e os maus terroristas da América?

A designação pode mudar sem aviso prévio. Actualmente, os sauditas são "bons terroristas"; na verdade, nem são chamados de terroristas. Os extremos terroristas maus – Al Qaeda – são agora bons terroristas que lutam ao lado dos Estados Unidos na sua longa guerra contra os xiítas. Historicamente, os curdos sempre foram ao mesmo tempo bons e maus terroristas; no Iraque, os curdos eram bons; na Turquia, eram maus. A designação assentava em eles estarem ou não lutando contra o mais recente inimigo dos Estados Unidos.

Nas últimas décadas do século XX, o mundo viu a região da Ásia Ocidental tornar-se o ponto quente da intervenção ocidental. Depois do 11 de Setembro de 2001, essa intervenção tomou a forma de duas guerras: a guerra no Afeganistão e a guerra no Iraque. A islamofobia atingiu novos picos no Ocidente. A teoria do choque de civilizações encontrou campeões na máquina estatal, sendo George Bush o melhor exemplo. Como situa historicamente os interesses ocidentais no Médio Oriente e a ascensão da islamofobia no Ocidente?

Secret Affairs. Recomendo o trabalho do historiador britânico Mark Curtis, cujo livro Secret Affairs relata a estreita relação entre o estado britânico e o islamismo extremista. O que está claro é que organizações como Daesh e Al-Qaeda eram o produto dos governos imperiais ocidentais.

No Afeganistão, os mujahidin poderiam ter permanecido como uma influência tribal se não fosse a Operação Ciclone, um plano liderado pelos Estados Unidos para transformar o Islão extremista numa força que expulsaria a União Soviética e derrubaria o estado soviético. O que o Ocidente temia no Médio Oriente era o que Gamal Abdel Nasser, no Egipto, chamava "pan-arabismo". Temia que os povos árabes se desembaraçassem das cadeias do tribalismo e do feudalismo e controlassem e desenvolvessem os seus próprios recursos. Por esta razão, o único governo progressista no Afeganistão foi declarado "comunista" e destruído. Pela mesma razão, os palestinos são mantidos num estado de opressão interminável.

Com os Estados Unidos reconhecendo Jerusalém como capital de Israel em 9 de Dezembro de 2017, o sofrimento e o medo dos palestinos aumentaram. Como disse, eles são refugiados no seu próprio território. Descreveu a agressão contra a Palestina como a ocupação militar mais longa da história moderna. poderia dizer-nos algo mais sobre a questão palestina? Quais são os interesses estratégicos e geopolíticos dos Estados Unidos na região? Qual é o caminho para ser feita justiça aos palestinos?

Um dos principais objectivos dos Estados Unidos é manter o Médio Oriente num estado de incerteza, instável e dividido por guerras tribais. John Bolton, o conselheiro de segurança nacional dos EUA, disse-o com grande satisfação. Foi assim que os britânicos controlaram a região. O centro de concepção dessa "política" é Israel, um anacronismo imperial imposto ao Médio Oriente quando o mundo se descolonizava. Como o historiador israelense Ilan Pappe documenta no seu último livro, Israel foi concebido como uma prisão para seus povos autóctones, os palestinos. Toda a hipocrisia ocidental reside em Israel. Bashar al-Assad é designado como um monstro, mas Benjamin Netanyahu, um monstro supremo, goza de impunidade para controlar os palestinos e, em grande medida, o Congresso dos EUA, a Casa Branca e as Câmaras do Parlamento em Londres.

Essa impunidade manifestou-se recentemente quando Jeremy Corbyn, o líder trabalhista britânico que pode vir a ser o próximo primeiro-ministro britânico, foi alvo de uma campanha inteiramente falsa que o difama como anti-semita. Em vez de a rejeitar com desprezo, Corbyn curvou-se a ela e traiu os seus muitos anos de apoio aos direitos dos palestinos aceitando uma definição de sionismo que negava a Israel o seu verdadeiro estatuto de estado racista. No momento em que escrevo, os soldados israelenses massacram regularmente palestinos em Gaza, incluindo crianças. Desde março [2018], 77 palestinos desarmados tiveram que ser amputados, incluindo 14 crianças; 12 ficaram paralisadas por toda a vida após serem baleados nas costas. Nem um único israelense ficou ferido.

Aquilo a que chamamos globalização é, na verdade, o capitalismo neoliberal. Você provavelmente foi o primeiro a revelar o primeiro experimento de programa de ajustamento estrutural na Indonésia na década de 1960. Diz que não há diferença entre a implacável intervenção do capital internacional nos mercados estrangeiros hoje e os de antes, quando eram apoiados por canhoneiras. Como jornalista familiarizado com o funcionamento do Estado profundo, poderia falar-nos sobre a evolução das experiências económicas neoliberais? Como funciona isso hoje em dia?

O neoliberalismo é uma extensão do que antes era chamado monetarismo, as duas versões exóticas ou extremas do capitalismo dominante. No Ocidente, sob a liderança de Margaret Thatcher e Ronald Reagan e seus homólogos europeus, foi declarada uma "sociedade a dois terços". O terço superior seria enriquecido e pagaria pouco ou nenhum imposto. O terço médio seria "ambicioso", alguns de entre eles seriam "bem-sucedidos" num mundo impiedosamente competitivo e outros ficariam irrevogavelmente endividados. O terço inferior seria abandonado ou ser-lhe-ia oferecido um empobrecimento estável em troca da sua obediência. A relação entre as pessoas e o Estado mudaria de benigna para maligna. Uma nova classe de gestores educados no espírito empresarial dos Estados Unidos, com a sua própria "cultura" e vocabulário, supervisionaria a conversão da social-democracia numa autocracia de empresa. O "debate" público, gerido por meios de comunicação totalmente integrados, seria dominado por "políticas de identidade", todas as noções de classe banidas como "falsidades". Falsos demónios estrangeiros (liderados pela Rússia, seguidos de perto pela China) seriam designados como "inimigos necessários".

A unidade europeia é propaganda

A experiência da União Europeia foi saudada como um sinal de unidade dos europeus e um modelo na era pós-socialista. Mas o Brexit foi um grande golpe que atingiu essa propaganda. Qual é o seu ponto de vista sobre a UE? Como analisa o Brexit e reivindicações semelhantes?

A União Europeia é basicamente um cartel. Não há "livre comércio". Existem regras de exclusividade estabelecidas e controladas pelos bancos centrais, principalmente o banco central alemão, com benefícios para os membros mais fracos, nomeadamente o movimento transfronteiriço de mão-de-obra, embora isso seja agora posto em causa. O objectivo central da UE é a protecção e o fortalecimento do poder económico dos mais fortes. Bruxelas é uma burocracia centralizada; a democracia é mínima. A "unidade europeia" de que fala é propaganda, promovida por aqueles que mais recebem da UE. O esmagamento da Grécia é uma lição que a maioria dos britânicos parece ter entendido.

O seu trabalho concentra-se em quem controla o destino da humanidade, de que forma nações poderosas, grandes empresas, a burguesia, lobbies poderosos fazem as leis e regras do mundo. A democracia parece ser a vítima. Apesar disso, temos histórias inspiradoras em todo o mundo sobre a resistência contra essas forças poderosas. Está optimista e com esperança quanto a um mundo melhor?

Existem forças inspiradoras de resistência em muitos países, incluindo a Índia. Desde a minha primeira reportagem na Índia, na década de 1960, emocionou-me o desejo das pessoas comuns, especialmente dos agricultores, de defender a justiça na sua vida. A recente grande marcha [de 23 de Setembro a 2 de Outubro] de 50 mil agricultores de [Haridwar] em Uttar Pradesh, em Nova Deli, era típica. Disciplinados, políticos e engenhosos, eles têm muito a ensinar àqueles de nós que no Ocidente imaginam que o protesto consiste em gozar com Trump ou assinar uma petição dirigida ao deputado da sua zona. Quando o governo de Deli permitiu que a polícia atacasse os agricultores no aniversário de Mahatma Gandhi, eles reagiram. A promessa política destes movimentos talvez seja a mais notável evocação revolucionária no mundo hoje.

Eles representam a luta dos povos e da agricultura em todo o mundo contra os bulldozer neoliberais do "desenvolvimento urbano": o roubo do espaço humano e a sua conversão numa mercadoria grotesca e lucrativa. O facto de os governos indianos não terem reagido aos suicídios de mais de 300 mil agricultores é uma tragédia histórica, mas pode ser revertida a qualquer momento. De certo modo, os agricultores indianos representam-nos a todos. Como escreve Vandana Shiva, a sua difícil situação e a sua resistência constituem uma advertência: a menos que a segurança sobre a terra, a segurança sobre as sementes e a agricultura pertençam ao povo, a colonização dos campos do mundo por gente como a Monsanto é uma ameaça tão séria para a existência humana quanto as alterações climáticas [NR] . Claro que as pessoas nunca estão paradas. Eles "levantar-se-ão como um leão depois de acordar…", como escreveu Percy Bysshe Shelley… Quando a resistência não é visível, é ainda uma "semente sob a neve". Nunca conheci tanta sensibilização do público como hoje, mas reina também a confusão. O "populismo" dos ocidentais, tantas vezes deturpado como reaccionário, exprima ao mesmo tempo a disposição de resistir e uma desorientação sobre como o fazer. Isso vai mudar. O que nunca muda é o medo dos poderosos do poder das pessoas comuns.

O tipo de jornalismo que pratica é realmente um desafio, e difícil. Através de seus documentários, artigos e outros trabalhos jornalísticos, questionou os Estados mais poderosos do mundo e suas fraudes democráticas. O que moldou o seu ponto de vista para se tornar uma voz dissidente no jornalismo? Quais são as suas influências e o que é que o mantém atento?

Hoje, a maioria dos jornalistas estabelecidos são estafetas do poder. Não são o mainstream, que é uma palavra orwelliana. Um mainstream real tolera a dissidência, não a censura. O que é que moldou o meu ponto de vista? O facto de relatar a luta das sociedades pelo mundo afora, incluindo os seus triunfos, por mínimos que sejam, continua sendo uma influência duradoura. Ou talvez essas influências tenham início cedo na vida. "Apoiamos os oprimidos", disse-me minha mãe um dia, quando eu era pequeno. Eu gosto disso.
 
02/Janeiro/2018 
 
[NR] Um falso problema, como se mostra aqui: Uma impostura científica

[*] http://johnpilger.com
[**] Membros do Tricontinental: Institute for Social Research, colaboradores de The Indian Express, The Wire e Monthly Review. Contactos: jipsonjohn10@gmail.com e jitheeshpm91@gmail.com

O original encontra-se em frontline.thehindu.com/cover-story/article25661115.ece
e a tradução em www.odiario.info/nova-guerra-fria-e-ameacas-iminentes/ (efectuadas correcções)


Esta entrevista encontra-se em http://resistir.info/ .

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Os Estados Unidos recusam bater-se para os financeiros transnacionais

por Thierry Meyssan

 A retirada dos EUA da Síria e do Afeganistão, assim como a demissão do General Mattis, atestam a viragem em curso na ordem mundial. Os Estados Unidos já não são os primeiros. Nem no plano económico, nem no plano militar. Eles recusam continuar a bater-se exclusivamente pelos interesses de financeiros transnacionais. As alianças que encabeçavam vão começar à desmoronar-se sem que, no entanto, os seus antigos aliados admitam a subida de poderio da Rússia e da China.


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Donald Trump recusa que os seus concidadãos continuem a pagar para realizar o sonho imperial dos financeiros globais.
 
O anúncio da retirada parcial das forças norte-americanas do Afeganistão, e total da Síria, soou como um trovão, a 19 de Dezembro de 2018. Ele foi seguido, no dia seguinte, pela demissão do Secretário da Defesa, James Mattis. Contrariamente às afirmações dos opositores do Presidente Trump, os dois homens estimam-se e a sua divergência não tem a ver com estas retiradas, mas, antes com a maneira de gerir as suas consequências. Os Estados Unidos estão perante uma escolha que vai marcar uma ruptura e fazer bascular o mundo.

Antes de mais, para não se entrar num contra-senso, convêm lembrar as condições e o objectivo da colaboração de Trump e Mattis.

Aquando do seu acesso à Casa Branca, Donald Trump havia tratado de se rodear de três altos militares dispondo de suficiente autoridade para reorientar as Forças Armadas. Michael Flynn, John Kelly e, sobretudo, James Mattis, partiram ou estão na porta de saída. Todos eles três, são grandes soldados que em conjunto chocaram com a hierarquia na era Obama [1]. Não aceitavam a estratégia, implementada pelo Embaixador John Negroponte, de criação de grupos terroristas encarregues de fomentar uma guerra civil no Iraque [2]. Os três comprometeram-se com o Presidente Trump a retirar o apoio de Washington aos jiadistas. No entanto, cada um deles tinha a sua própria visão sobre o papel dos Estados Unidos no mundo e acabaram por entrar em choque com o Presidente.
A tempestade que as eleições intercalares haviam adiado chegou [3]. É chegado o momento de repensar as Relações Internacionais .

 

A Síria


Quando em Abril, de acordo com as seus promessas, Donald Trump evocara a retirada dos EUA da Síria, o Pentágono tinha-o convencido a ficar. Não que alguns milhares de homens pudessem inverter o curso da guerra, mas porque a sua presença era um contrapeso à influência russa e um apoio a Israel.

No entanto, a transferência para o Exército Árabe Sírio de armas de defesa russas, nomeadamente mísseis S-300 e radares ultra-sofisticados coordenados por um sistema de gestão automatizada Polyana D4M1, alterou o equilíbrio de forças [4]. Agora, desde há três meses, dia a dia, o espaço aéreo sírio mostrou-se inviolável. Como resultado, a presença militar dos EUA torna-se contraproducente: não mais qualquer ataque terrestre dos mercenários pró-EUA poderá ser apoiado pela aviação norte-americana sem esta correr o risco de perder aeronaves.

Ao retirar-se agora, o Pentágono evita a prova de força e a humilhação de uma inevitável derrota. Com efeito, a Rússia recusou dar sucessivamente aos Estados Unidos e a Israel os códigos de segurança dos mísseis fornecidos à Síria. Quer dizer que Moscovo, após anos de arrogância do Ocidente, recusou a partilha do controle da Síria que havia aceite aquando da primeira conferência de Genebra, em 2012, e que Washington violara algumas semanas mais tarde.

Por outro lado, Moscovo afirmou, há já muito tempo, que a presença dos EUA é ilegal à luz do Direito Internacional e que a Síria pode legitimamente defender-se.

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O General Aharon Haliva veio a Moscovo à cabeça de uma delegação israelita, a 17 de Dezembro de 2018. Ele informou os seus homólogos russos das operações em curso pelo Tsahal (FDI-ndT) e pediu-lhes os códigos dos mísseis sírios. Em vão.
 

 As suas consequências


A decisão de retirada da Síria tem sérias consequências.

1— O pseudo-Curdistão

O projeto ocidental de criação de um Estado colonial, no Nordeste da Síria, que seria atribuído aos Curdos não verá a luz do dia. Além disso, cada vez menos Curdos o apoiavam, considerando que essa conquista seria comparável à proclamação unilateral de um estado, Israel, pelas milícias judias, em 1948.

Como já explicamos bastantes vezes, o Curdistão apenas é legítimo dentro das fronteiras que lhe foram reconhecidas em 1920 pela Conferência de Sèvres, isto é, na actual Turquia e não em outro lugar [5]. Os Estados Unidos e a França encaravam, há algumas semanas ainda, criar um pseudo-Curdistão em terra árabe e em fazê-lo administrar, sob mandato da ONU, pelo antigo Ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Bernard Kouchner [6].

2— A estratégia Cebrowski

O projecto prosseguido pelo Pentágono, desde há dezassete anos, no «Médio-Oriente Alargado» não verá a luz do dia. Concebido pelo Almirante Arthur Cebrowski, visava destruir todas as estruturas estatais desta região, à excepção das de Israel, da Jordânia e do Líbano [7]. Este plano, que se lançou do Afeganistão à Líbia e ainda funciona, começa a terminar no solo sírio.
Está completamente fora de questão que os Exércitos dos EUA se batam, às custas do contribuinte,
para interesse exclusivo dos financeiros globais, mesmo que norte-americanos.

3— A supremacia militar norte-americana

A ordem do mundo pós-soviético, fundada sobre a superioridade militar norte-americana está morta. Que tal seja difícil de admitir nada muda aos factos. A Federação da Rússia é agora mais poderosa, tanto em termos convencionais (desde 2015) como nucleares (desde 2018 [8]). O facto de os Exércitos russos serem um terço menores que os dos Estados Unidos e de apenas disporem de poucas tropas no estrangeiro descarta a hipótese de um imperialismo de Moscovo.

 

Vencedores e vencidos


A guerra contra a Síria vai terminar nos próximos meses por falta de mercenários. O fornecimento de armas por certos Estados coordenados pelo fundo KKR pode fazer durar o crime, mas não oferece esperança de mudar o curso dos acontecimentos.

Sem dúvida nenhuma, os vencedores desta guerra são a Síria, a Rússia e o Irão, enquanto os vencidos são os 114 Estados que aderiram aos «Amigos da Síria». Alguns não esperaram pela derrota para corrigir a sua política externa. Assim, os Emirados Árabes Unidos acabam de anunciar a reabertura próxima da sua embaixada em Damasco.

O caso dos Estados Unidos é, no entanto, mais complexo. As Administrações Bush Jr. e Obama carregam a responsabilidade total por esta guerra. Foram elas que a planearam e realizaram no quadro de um mundo unipolar. Pelo contrário, o candidato Donald Trump acusou estas Administrações de não defender os cidadãos norte-americanos, mas, antes de servir a finança transnacional. Tornado Presidente, Trump não descansou em cortar o apoio do seu país aos jiadistas e de retirar os seus homens do Médio-Oriente Alargado. Ele deve, portanto, ser também considerado como um dos vencedores desta guerra e poderá logicamente descartar a obrigação do seu país em pagar danos de guerra para as corporações transnacionais envolvidas [9]. Para ele, deve-se agora reorientar as Forças Armadas para a defesa do território, pôr fim ao conjunto do sistema imperial e desenvolver a economia dos EUA.

 

O Afeganistão


Desde há vários meses, os Estados Unidos negoceiam discretamente com os Talibã as condições da sua retirada do Afeganistão. Uma primeira ronda de contacto, por intermédio do Embaixador Zalmay Khalilzad, realizou-se no Catar. Uma segunda ronda acaba de começar nos Emirados Árabes Unidos. Para além das duas delegações, dos EUA e dos Talibã, participam nela a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Paquistão. Uma delegação do governo afegão chegou ao local na esperança de participar.

Faz dezassete anos desde que os Estados Unidos e o Reino Unido invadiram o Afeganistão, oficialmente em retaliação pelos atentados do 11-de-Setembro. Na realidade, esta guerra deu seguimento às negociações de 2001, em Berlim e Genebra. Ela não visa estabilizar este país para o explorar economicamente, antes aí destruir qualquer forma de Estado organizado para controlar a sua exploração. O que é conseguido pois a cada dia que passa a situação está pior do que antes.

Lembremos que as desgraças do Afeganistão começaram durante a presidência Carter. O Conselheiro de Segurança Nacional, Zbigniew Brzeziński, apelou aos Irmãos Muçulmanos e a Israel para lançarem uma campanha de terrorismo contra o governo comunista [10]. Apertado, este fez apelo aos Soviéticos a fim de manter a ordem. Seguiu-se uma guerra de quatorze anos continuada por uma guerra civil, depois pela invasão anglo-americana.

Depois de quarenta anos de destruições ininterruptas, o Presidente Trump afirma que a presença militar dos EUA não é a solução para o Afeganistão, é antes o problema.

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O General James Mattis comprometeu-se em dissociar as Forças Armadas dos EUA dos jiadistas, não a desarticular a aliança em torno dos Estados Unidos.

 

O lugar dos Estados Unidos hoje em dia no mundo


Ao retirar metade das tropas dos EUA legalmente estacionadas no Afeganistão, e a totalidade das que ocupam ilegalmente a Síria, o Presidente Trump cumpre uma das suas promessas eleitorais. Ainda lhe restará retirar os 7.000 homens que permanecerão no local.

É neste contexto que o General Mattis colocou uma questão de fundo na sua carta de demissão [11]. Escreveu ele : «Uma das minhas convicções fundamentais sempre foi a de que a nossa força enquanto nação está intrinsecamente ligada à força de nosso sistema único e completo de alianças e parcerias. Muito embora os Estados Unidos continuem a ser a nação indispensável no mundo livre, nós não podemos proteger os nossos interesses, nem desempenhar eficazmente este papel, sem manter sólidas alianças e fazer prova de respeito em relação a estes aliados. Tal como vós, eu digo desde o princípio que as Forças Armadas dos Estados Unidos não deveriam ser o gendarme do mundo. Em vez disso, devemos utilizar todas as ferramentas do Poder Americano para garantir a defesa comum, nomeadamente assegurando para tal uma liderança eficaz às nossas alianças. Esta força foi demonstrada por 29 democracias com o seu compromisso em se baterem ao nosso lado após o atentado do 11-de-Setembro contra a América. A coligação (coalizão-br) de 74 nações contra o Daesh (E.I.) é outra prova disso» [12].

Por outras palavras, James Mattis não contesta o bom fundamento da retirada das tropas dos EUA do Afeganistão e da Síria, mas, sim o que vai provavelmente seguir-se: o desfazer de alianças em torno dos Estados Unidos e, por fim, o possível desmantelamento da OTAN. Para o Secretário da Defesa, os Estados Unidos devem tranquilizar os seus aliados dando-lhes a impressão que sabem o que fazem e que são os mais fortes. Pouco importa que isso seja verdadeiro ou não, trata-se de manter, custe o que custar, a coesão entre os aliados. Enquanto que para o Presidente, o perigo está em casa. Os Estados Unidos perderam já a sua posição cimeira na economia, em proveito da China, e agora a sua posição cimeira militar para a Rússia. É preciso deixar de ser o zarolho a guiar os ceguinhos e ocupar-se antes de mais dos seus.

Neste assunto, James Mattis age como um soldado. Ele sabe que uma nação sem aliados está derrotada à partida. Enquanto Donald Trump pensa como um líder de negócios. Deve-se, antes de mais, sanear as subsidiárias deficitárias que ameaçam falir a nossa empresa.


Tradução
Alva


[1] Cobra II: The Inside Story of the Invasion and Occupation of Iraq, Michael Gordon & Bernard Trainor, Atlantic Book, 2006.
[2] ISIS is US: The Shocking Truth Behind the Army of Terror, George Washington’s Blog, Wayne Madsen, Webster Griffin Tarpley, Syrian Girl Partisan, Progressive Press, 2016.
[3] “Relações internacionais: a calma antes de que tempestade?”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 9 de Outubro de 2018.
[4] “Por que os Estados Unidos estão de repente se retirando da Síria?”, Valentin Vasilescu, Tradução Marisa Choguill, Rede Voltaire, 21 de Dezembro de 2018.
[5] “Os projectos de Curdistão”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 5 de Setembro de 2016.
[6] “Bernard Kouchner entra ilegalmente na Síria”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 12 de Dezembro de 2018.
[7] The Pentagon’s New Map, Thomas P. M. Barnett, Putnam Publishing Group, 2004. “O projecto militar dos Estados Unidos pelo mundo”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 22 de Agosto de 2017.
[8] “Excerto do discurso pronunciado por Vladimir Putin referente à Defesa”, Vladimir Putin, Tradução Maria Luísa de Vasconcellos, 1 de Março de 2018. “O novo arsenal nuclear russo restabelece a bipolaridade do mundo”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, 7 de Março de 2018. “Os meios russos de defesa hipersónica”, Valentin Vasilescu, Tradução Alva, Rede Voltaire, 15 de Junho de 2016.
[9] “Penhorar transnacionais para reconstruir a Síria ?”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 14 de Agosto de 2018.
[10] « Brzezinski : "Oui, la CIA est entrée en Afghanistan avant les Russes …" », par Zbigniew Brzeziński, Le Nouvel Observateur (France) , Réseau Voltaire, 15 janvier 1998. Charlie Wilson’s War: The Extraordinary Story of the Largest Covert Operation in History, George Crile III, Atlantic Monthly Press, 2003.
[11] “Resignation letter from James Mattis”, by James Mattis, Voltaire Network, 20 December 2018.
[12] “One core belief I have always held is that our strength as a nation is inextricably linked to the strength of our unique and comprehensive system of alliances and partnerships. While the US remains the indispensable nation in the free world, we cannot protect our interests or serve that role effectively without maintaining strong alliances and showing respect to those allies. Like you, I have said from the beginning that the armed forces of the United States should not be the policeman of the world. Instead, we must use all tools of American power to provide for the common defense, including providing effective leadership to our alliances. 29 democracies demonstrated that strength in their commitment to fighting alongside us following the 9-11 attack on America. The Defeat-ISIS coalition of 74 nations is further proof.”

aqui:http://www.voltairenet.org/article204455.html

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

O pesadelo de Polanyi


por Alejandro Nadal [*]
 
Karl Polanyi. Para entender o dano que o neoliberalismo provocou nas nossas sociedades é preciso tomar alguma distância histórica. A perspectiva a partir de horizontes temporais longos permite questionar os mitos e lendas que impedem uma crítica correcta da economia de mercado e do capitalismo. Um olhar sobre o passado ajuda a compreender que as feridas no tecido social não são superficiais e são acompanhadas por uma perigosa mutação até na própria forma de pensarmos.

A primeira coisa que a perspectiva histórica ensina é que a sociedade de mercado nem sempre existiu. Este é o achado fundamental de Karl Polanyi , autor da obra magistral A grande transformação. Apesar de os mercados serem conhecidos desde os fins da chamada idade da pedra, as relações puramente mercantis estavam balizadas por outro tipo de relações sociais que nada tinham a ver com preços e muito menos com uma finalidade de lucro. Para dizê-lo nas palavras de Polanyi, não é a mesma coisa uma sociedade com mercados e uma sociedade de mercado.

Nenhuma sociedade pode sobreviver sem um sistema económico. Mas o sistema económico baseado na ideia de um mercado auto-regulado é uma novidade na história. Na antiguidade existiram mercados de todo tipo de bens, desde tecidos e sandálias até utensílios e alimentos. Havia preços e moedas. Mas as relações mercantis estavam submersas numa matriz de relações sociais cuja racionalidade não era obter lucro ou benefício económico. Como diz Polanyi, aquelas relações mercantis estavam encapsuladas em outro tipo de relações sociais.

As coisas mudaram há uns 200 anos. A sociedade do século XVIII foi testemunha desta mudança portentosa e saudou-a como se se houvesse alcançado o ápice da civilização. A admiração cresceu com o mito de que essa transformação culminava um processo cujo motor era uma suposta propensão natural dos seres humanas à troca, para utilizar as palavras de Adam Smith. Essa crença é o que anima a mitologia sobre uma evolução natural que conduziu à sociedade de mercado.

A realidade é que não há nada natural na expansão do tecido mercantil. Nos povoados e cidades da Europa medieval o comércio era visto com receio e como ameaça às instituições sociais. Por isso era regulado de maneira estrita, com a obrigação de tornar públicos os pormenores de preços e prazo para qualquer transacção mercantil e a proibição de utilizar intermediários. Além disso, manteve-se uma separação rigorosa entre o comércio local e o de longas distâncias. Os comerciantes dedicados a estas últimas actividades estavam impedidos de exercer o comércio a retalho. Os mercados foram sempre uma dimensão acessória das relações sociais.

O surgimento de estados unificados territorialmente impulsionou a destruição das barreiras proteccionistas dos povoados e primeiras aglomerações urbanas, além de projectar a política do mercantilismo a um primeiro plano. Assim foi aberta a porta para a criação de mercados nacionais. Se as relações de mercado chegaram a cobrir com o seu manto toda a trama de relações sociais, isso resultou da acção do poder público ou do que Polanyi chamou estímulos artificiais, não de uma pretensa evolução natural.

A sociedade de mercado que se impôs em fins do século XVIII tinha na sua lógica a necessidade de converter tudo o que tocava numa mercadoria. Entre outras coisas precisou da mercantilização de bens (como a terra), que anteriormente não haviam sido objecto de transacções num mercado. Só assim podia pretender o título de mercado auto-regulado. Quando chegou a revolução industrial, a sociedade de mercado já havia transformado a estrutura das relações sociais que havia imperado na Europa. O capitalismo nascido nas relações agrárias na Inglaterra completou o processo ao converter o trabalho em mercadoria e em outro espaço de rentabilidade.

O neoliberalismo e a globalização das últimas três décadas também foram impostos pela acção do Estado. E o que antes fora visto como uma ameaça para as instituições converteu-se numa realidade tóxica para o tecido social. Tudo o que nos rodeia e até o nosso próprio corpo foi transformado em espaço de rentabilidade para as relações mercantis. O pior pesadelo de Polanyi tornou-se realidade.

Nas costas de uma teoria económica requentada e refuncionalizada para servir de sustento ideológico, o neoliberalismo dependeu da astúcia do capital para criar novos espaço de rentabilidade. As forças do mercado geral deformaram as instituições sociais e criaram uma cultura do sentido comum que a cada dia nos afasta mais da humanidade e do universo. Forjaram uma cultura popular que gira em torno da competição e do individualismo possessivo, com consequências nefastas para os grupos mais vulneráveis. A história do neoliberalismo é um pesadelo do qual urge despertar. 

30/Novembro/2018
[*] Economista, mexicano.

O original encontra-se em www.lahaine.org/mundo.php/la-pesadilla-de-polanyi


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

O enredo da provocação no estreito de Kerch

 


O cenário de guerra continua a aprontar-se nas fronteiras da Rússia. A provocação de domingo passado já fez o seu caminho, mas outras poderão promover novos passos para uma situação incontrolável.

 Voluntários neonazis do Batalhão de Azov (integrado na Guarda Nacional Ucraniana) manifestam-se, em frente ao parlamento da Ucrânia, em Kiev, em apoio do presidente Piotr Poroshenko, após o incidente em Kerch entre barcos ucranianos e russos.
Voluntários neonazis do Batalhão de Azov (integrado na Guarda Nacional Ucraniana) manifestam-se, em frente ao parlamento da Ucrânia, em Kiev, em apoio do presidente Piotr Poroshenko, após o incidente em Kerch entre barcos ucranianos e russos. Créditos / Independent/EPA


Os acontecimentos em curso no Estreito de Kerch, que liga o Mar Negro ao Mar de Azov, têm que se lhe diga. É que, muito para lá do óbvio carácter provocatório do comportamento do regime neonazi da Ucrânia, está a cumprir-se uma agenda secreta menos óbvia e potencialmente mais perigosa do que os factos a que vamos assistindo. Até onde nos levará este caminho? Sem fazer futurologia, poderemos fazer uma ideia repescando antecedentes, identificando protagonistas e antecipando desenvolvimentos, alguns dos quais estão inscritos no calendário.

Dois navios militares e um rebocador ucranianos dirigiam-se no domingo passado ao Estreito de Kerch, em rota do Mar Negro para o Mar de Azov, ao que parece com destino à cidade de Mariupol, quando foram interceptados a tiro por navios russos. Registaram-se três feridos sem extrema gravidade, os barcos foram apresados, os tripulantes detidos.

Mais uma malfeitoria da Rússia do inqualificável Putin, informa, a uma só voz, a comunicação social mainstream, sem dar-se ao trabalho de aprofundar minimamente a situação. Nem é preciso. De acordo com os dogmas estabelecidos, o regime da Ucrânia é neonazi mas “democrático”, goza das boas graças de entidades acima de quaisquer suspeitas como a União Europeia e a NATO; e a Rússia é a Rússia, fica tudo dito.


Andrey Dratch é um dos marinheiros ucranianos aprisionados pelo FSB russo no decorrer do incidente no estreito de Kerch, em 25 de Novembro de 2018. Créditos
Mas aprofundemos a situação por nossa conta e risco.

Está comprovadíssimo que:

- Os navios militares ucranianos receberam advertências russas por rádio informando as tripulações de que o estreito estava fechado por razões de tráfego e segurança;

- Os comandantes das três embarcações fizeram-se de surdos em relação aos avisos: “ignorámos deliberadamente os pedidos russos para não avançarmos mais”, confessou o comandante Volodymir Lesovoy;

- Os navios ucranianos transportavam armamento e munições: armas ligeiras e armas automáticas de grande calibre, de acordo com a mesma confissão;

- A bordo seguiam agentes dos serviços militares de espionagem (SBU), segundo revelou o director desta entidade, Vasyl Hrytsak;

- “Estava consciente de que as acções da Marinha Ucraniana no Estreito de Kerch eram provocatórias”, afiançou ainda o comandante Lesovoy.1

 Foi, portanto, um dos responsáveis ucranianos envolvidos na operação quem a qualificou: “uma provocação”.

Em que contexto?

 

É muito importante conhecer o contexto geográfico e geopolítico em que este incidente ocorre.
A Rússia e a Ucrânia partilham águas territoriais tanto no Mar Negro como no Mar de Azov segundo normas estabelecidas por um acordo bilateral estabelecido em 2003. A situação, porém, alterou-se a partir do golpe de Estado fascista na Ucrânia, em 2014, seguido pela reintegração da Crimeia na soberania russa, conforme decisão tomada por grande maioria, em referendo, pela população da península. Uma vez que a Crimeia se tornou território russo, a segurança do Estreito de Kerch passou a ser assumida por Moscovo, pela aplicação automática dos artigos 19 e 21 da Lei Internacional Marítima. Foi neste âmbito que as autoridades russas pediram aos navios ucranianos para não avançarem, uma vez que tinham encerrado temporariamente a passagem devido a manobras de tráfego e à segurança da nova ponte que, desde o início deste ano, liga o território continental russo à Península da Crimeia.

Deve dizer-se que, apesar do agravamento das tensões entre os dois países vizinhos, sobretudo a partir de 2014, os navios ucranianos, tanto civis como militares, têm passado normalmente o Estreito de Kerch segundo as normas internacionais, neste caso aplicadas através de meios russos.

No entanto, assim como não reconhece a reintegração da Crimeia na Rússia, a Ucrânia não aceita agora que a segurança no Estreito de Kerch seja garantida por Moscovo, ponto de partida para a violação da Lei Marítima Internacional por parte de Kiev. Uma situação que não tinha antecedentes, apesar de, repete-se, as relações entre a Ucrânia e Moscovo se terem deteriorado sobretudo a partir de 2014.

Pelo que é legítimo registar que alguma coisa determinou a mudança de comportamento da Ucrânia.

 

Antecedentes

 


É certo que durante todo este ano foram observados sinais de que as tensões estavam a aumentar na região do Mar de Azov. Um navio de pesca russo, registado na Crimeia, foi apresado e a sua tripulação humilhada no dia 24 de Março. As autoridades ucranianas recusaram-se a tratar os tripulantes como cidadãos estrangeiros e, depois de maus tratos psicológicos e físicos, acabaram por permitir que seguissem para a península mas confiscando-lhes os passaportes, atitude que viola normas internacionais.

Em Outubro, outra embarcação russa, desta feita um petroleiro, foi retida no porto ucraniano de Khersen.

O clima regional deteriorou-se, principalmente, a partir da inauguração da ponte ligando o território continental russo à Crimeia, sobre o Estreito de Kerch, uma obra que reforçou a agressividade da Ucrânia face à irreversibilidade da mudança de soberania da península.

Embora as tensões tenham vindo a convergir em torno das normas de passagem do Estreito de Kerch, registaram-se outros acontecimentos de âmbito mais geral e regional que devem ser encarados à nova luz projectada pelo incidente de domingo passado.

Um deles foi a decisão do Tribunal Constitucional de Kiev no sentido de alterar a Constituição do país de modo a abrir caminho para a integração na União Europeia e na NATO.

O procedimento nada tem de surpreendente – a NATO e a União Europeia fomentaram o golpe que facilitou este passo – mas causa fissuras no tecido político e demográfico do país, além de ultrapassar mais uma linha vermelha em relação às posições russas quanto à instalação da NATO nas suas fronteiras.

No dia 7 de Novembro, o governo da Ucrânia aprovou a Resolução 934 que produz alterações às normas sobre a aplicação da lei marcial, nomeadamente no que diz respeito à evacuação obrigatória de populações e à definição de categorias populacionais para estabelecer o modo como deve decorrer o processo. Em particular, o documento estipula “as tarefas e funções do comando militar, ministérios, outras autoridades executivas centrais, órgãos estaduais e órgãos de evacuação temporária para a implementação de medidas de um regime legal de lei marcial”.

Em suma, nos últimos meses vêm-se registando alguns acontecimentos na Ucrânia, sobretudo este cuidado especial com a actualização da lei marcial, reveladores de que os acontecimentos no Estreito de Kerch não surgem do nada, encaixando-se antes numa cadeia de premeditação propícia a criar um incidente específico – “uma provocação”, como confessou o comandante Volodymir Lesovoy.

 

Para quê?

 

A situação internacional e regional actual abre várias pistas sobre a razão de ser e a utilidade deste episódio.

A imposição da lei marcial é uma delas – e já foi consumada. Através desta decisão, o presidente da Ucrânia e a estrutura nazi-fascista que o envolve, com pólo no Batalhão Azov e respectivas ramificações, ficam de mãos livres para prosseguir o seu caminho no sentido da pretendida instauração plena de uma ditadura, sempre a pretexto do combate à “ameaça russa”.

Confrontado com eleições marcadas para Março de 2019 e creditado pelas sondagens nuns minguados oito por cento de popularidade, o presidente Piotr Porochenko só tem a ganhar em consagrar-se o mais rapidamente possível como comandante-em-chefe de uma nação em estado de guerra contra um inimigo poderoso.

A partir de agora, e pelo menos até finais de Janeiro – estas situações são facilmente prorrogáveis –, o presidente pode ilegalizar partidos, reforçar a censura à comunicação social, aterrorizar estratos populacionais com invasões de residências, prisões arbitrárias e confiscação abusiva de materiais. E também reforçar a ofensiva militar e a repressão de índole fascista sobre as populações da região de Donbass, sobretudo Donetsk e Lugansk. Quem sabe se Porochenko não conseguirá mesmo evitar as eleições presidenciais, facilmente adiáveis como prorrogáveis são os estados de excepção, desde que continue nas boas graças do Batalhão Azov cumprindo a sua agenda fascista.

Este facto não fere, como não feriu em 2014, as férreas convicções “democráticas” da União Europeia e da NATO, que já garantiram estar sempre do lado da Ucrânia, como disse alto e bom som o secretário-geral da aliança militar, Jens Stoltenberg; ou como fez o próprio Conselho de Segurança da ONU, ao tomar o partido de Kiev quanto ao processo de discussão do incidente do Estreito de Kerch.

Palavras e actos que, em nível subliminar, contemplam respostas aos apelos menos diplomáticos feitos pelo ex-comandante da NATO James Stavridis – “metam o Putin na ordem!” – e pelo embaixador ucraniano em Berlim, Andrij Melnik - “ponham o Putin no lugar!”

Melnik pediu ainda mais: novas sanções contra a Rússia, a que Trump e Bruxelas se preparam para fazer a vontade; bloqueio de todas as importações de gás natural e petróleo da Rússia e “congelamento” do gasoduto NordStream 2, que tem início em território russo e termo na Alemanha.

Este assunto já fia mais fino: a senhora Merkel parece não estar pelos ajustes e muitos governos europeus não estarão dispostos a pagar a energia a preços descomunais por causa de três tiros num barco de dois canos nos apertos da entrada do Mar de Azov.

A situação tem ainda, obviamente, outras repercussões latentes, relacionadas com o previsto diálogo entre Trump e Putin, à margem da próxima reunião do G20. De Bruxelas a Washington há muita gente que não deseja encontros entre os dois presidentes, por causa do mito segundo o qual o dirigente russo “mete no bolso” o norte-americano. E o estado a que as coisas chegaram pode fazer-lhes a vontade; ou, pelo menos, concentrar na falsa questão ucraniana as palavras que deveriam dedicar-se a problemas reais como a Síria e a Península da Coreia, por exemplo.

Agora com poderes reforçados, o presidente Porochenko já pediu mais navios de guerra da NATO para o Mar Negro; e a Rússia, pelo sim pelo não, vai despachar sistemas defensivos S-400 para a Península da Crimeia.

Isto é, o cenário de guerra continua a aprontar-se nas fronteiras da Rússia; e se a provocação de domingo passado já fez o seu caminho, outras poderão promover novos passos para uma situação incontrolável.

Com a Europa “democrática” e a aliança militar “democrática” encorajando, dando força e cobrindo sempre a Ucrânia fascista como sua ponta de lança.

  • 1. A transcrição completa das declarações do comandante Lesovoy e dos marinheiros Andrey Dratch e Sergey Tsybizov pode ser lida aqui.
aqui:https://www.abrilabril.pt/internacional/o-enredo-da-provocacao-no-estreito-de-kerch

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