sábado, 13 de abril de 2019

A era da injustiça


por Paul Craig Roberts 
 
Twiter da mãe de Julian Assange. O dia 11 de Abril de 2019 deu-nos uma nova palavra para Judas:   Moreno — o presidente fantoche do Equador que vendeu Julian Assange a Washington por suas 30 moedas.

Nesta manhã a prisão de Assange dentro da embaixada equatoriana em Londres foi a primeira etapa na tentativa de Washington de criminalizar a Primeira Emenda da Constituição dos EUA.

O homem de Washington em Quito disse que revogou o asilo político de Assange e a sua cidadania equatoriana devido à sua liberdade de expressão.

Quando polícias de diversa raça e género arrastaram Assange para fora da embaixada nesta manhã, reflecti sobre a absoluta corrupção de três governos – dos EUA, Reino Unido e Equador – e das suas instituições.

A polícia britânica não mostrou vergonha quando carregou Assange desde a sua embaixada-prisão dos últimos sete anos até uma cela britânica como estação intermediária para outra americana. Se a polícia britânica tivesse qualquer integridade, toda a força policial teria ficado doente.

Se o parlamento britânico tivesse qualquer integridade, eles teriam bloqueado a contribuição de Londres para o julgamento espectáculo de Washington agora em preparação.

Se os britânicos tivessem um primeiro-ministro ao invés de uma agente de Washington, Assange teria sido libertado há muito tempo atrás e não mantido num aprisionamento de facto até que Washington aceitasse o preço de Moreno.

Se o embaixador equatoriano em Londres tivesse qualquer integridade, ter-se-ia demitido ao invés de chamar a polícia para levar Assange. Será o embaixador tão desalmado que possa viver tranquilo consigo próprio como o homem que ajudou Moreno a desonrar a reputação do Equador?

Se os jornalistas anglo-americanos tivessem qualquer integridade, eles levantar-se-iam em armas quanto à criminalização da sua profissão.

O presidente Trump sobreviveu a três anos de provação semelhante aos sete anos da provação de Assange. Trump sabe quão corruptas são as agências de inteligência e o Departamento de Justiça (sic) dos EUA. Se Trump tivesse qualquer integridade, ele poria um fim imediato à vergonhosa e embaraçosa perseguição à Assange através da emissão de perdão pré julgamento. Isto também poria fim ao re-aprisionamento ilegal de Manning.

Mas integridade não é algo que prospere em Washington, ou em Londres ou em Quito.

Quando o Departamento de Justiça (sic) não tem um crime com o qual acusar a vítima que pretende, o departamento repete continuamente a palavra "conspiração". Assange é acusado de estar em conspiração com Manning para obter e publicar dados secretos do governo, tais como o filme, o qual já era conhecido de um repórter do Washington Post o qual fracassou no seu jornal e na sua profissão ao permanecer silencioso quanto a soldados dos EUA cometerem crimes extraordinários sem remorso. Como soldado dos EUA, era realmente dever de Manning relatar os crimes e a falha de tropas estado-unidenses em desobedecerem a ordens ilegais. Supunha-se que Manning relatasse os crimes aos seus superiores, não ao público, mas ele sabia que o militares já haviam encoberto o massacre de jornalistas e civis e não queria um outro evento tipo My Lai nas suas mãos.

Não acredito na acusação contra Assange. Se a WikiLeaks rompeu o código para Manning, a WikiLeaks não precisava de Manning.

O alegado Grande Júri que alegadamente produziu a acusação foi conduzido em segredo ao longo de muitos anos enquanto Washington buscava algo que pudesse ser atribuído a Assange. Se houve realmente um grande júri, os jurados eram destituídos de integridade, mas como podemos saber se houve realmente um grande júri? Por que deveríamos nós acreditar em qualquer coisa que diga Washington depois das "armas de destruição em massa de Saddam Hussein", da "utilização por Assad de armas químicas contra o seu próprio povo", da "ogivas iranianas", da "invasão russa da Ucrânia", do "Russiagate" e assim por diante ad infinitum ? Por que acreditar que Washington desta vez está a contar a verdade?

Quando o grande júri foi secreto por causa da "segurança nacional", será que o julgamento também será secreto e as provas secretas? Será que teremos aqui um processo tipo Star Chamber no qual uma pessoa é acusada em segredo e condenada em segredo com provas secretas? Este é o procedimento utilizado por governos tirânicos que não dispõem de argumentos contra a pessoa que eles querem destruir.

Os governos em Washington, Londres e Quito são tão desavergonhados que não se importam em demonstrar a todo o mundo seu desrespeito à lei e a sua falta de integridade.

Talvez o resto do mundo seja ele próprio tão desavergonhado de modo a não haver consequências adversas para Washington, Londres e Quito. Por outro lado, talvez o enquadramento de Assange, a seguir à falcatrua do Russiagate e da desavergonhada tentativa de derrubar a democracia na Venezuela e instalar um agente de Washington como presidente daquele país, venha a tornar claro para todos que o chamado "mundo livre" é conduzido por um governo patife e sem lei. Washington está a acelerar o declínio do seu império pois deixa claro que não é digna de respeito.

Não se pode ter confiança alguma em que seja feita justiça em qualquer julgamento americano. No julgamento de Assange, a justiça não é possível. Com Assange condenado pelos media, mesmo um júri convencido da sua inocência irá condená-lo a fim de não enfrentar denúncias por libertar um "espião russo".

A condenação de Assange tornará impossível para os media relatarem fugas de informação que sejam desfavoráveis ao governo. À medida que o precedente se expandir, futuros promotores públicos apresentarão o caso de Assange como um precedente para processar críticos do governo que serão acusados de pretensos danos ao mesmo. A era da justiça e do governo responsável está a chegar ao fim.
11/Abril/2019 
 
Ver também:
  • twitter.com/wikileaks
  • defend.wikileaks.org
  • MINUTO A MINUTO: Arrestan a Julian Assange

  • Assange expôs a democracia burguesa e o estado burguês

    O original encontra-se em www.paulcraigroberts.org/2019/04/11/the-age-of-injustice/


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
  • Assange expôs a democracia burguesa e o estado burguês

    O original encontra-se em www.paulcraigroberts.org/2019/04/11/the-age-of-injustice/


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
  • Assange expôs a democracia burguesa e o estado burguês

    por Farooque Chowdhury [*]

     
    por Farooque Chowdhury [*]
     
    A prisão de Assange em Londres é agora uma notícia mundial. O público dos media agora está plenamente consciente dos desenvolvimentos que se centram neste denunciante. Assim, não é necessário descrever novamente os factos.

    De agora em diante, seguir-se-ão descrições das batalhas judiciais que se avizinham.

    E haverá mais algumas descrições:

    (1) A maneira ardilosa como os estados burgueses lidam com a questão da liberdade de expressão. O método ínvio dos estados burgueses também será exposto.
    (2) A verdadeira natureza do direito burguês e sua "neutralidade cega" serão expostas. Sua maneira bruta de lidar com a dissidência também será exposta.
    (3) A verdadeira natureza da democracia burguesa será exposta. Sua forma bruta também será exposta.

    Uma observação atenta e cuidadosa revelará tudo isso.

    O incidente de Assange fez um trabalho único: a revelação do estado burguês e, neste caso, do estado imperialista. Isto é uma boa lição para aqueles que confiam na democracia burguesa. Este incidente é suficiente para jogar fora todos os argumentos e palavras doces dos propagandistas – nos media ditos "de referência" e na academia – sobre a espécie de "democracia" que defendem.

    O que Assange realizou é um feito histórico. Ele revelou funcionalmente o Estado, o Estado burguês, o Estado imperialista, a brutalidade e as práticas desonestas a que a burguesia recorre para assegurar seu interesse – capital para a exploração. Desde há muito, Marx e Lenine e seus camaradas discutiram e expuseram a burguesia, seu carácter político, seu poder de Estado, sua crueldade. O que Assange fez foi apresentar evidências contemporâneas da verdadeira natureza e do carácter da burguesia, especialmente dos imperialistas. Todas as evidências estavam no "centro do coração", ou na "camada profunda do cérebro", ou na vida quotidiana – evidências da vida funcional do imperialismo. Estas eram as da sua política interna e externa, da sua diplomacia e da sua actividade militar. As evidências eram tão recentes que o imperialismo não encontrou argumentos, nem mesmo argumentos falsos para se defender.

    O montante de dinheiro que o sistema imperialista mundial gasta para ter uma bela maquilhagem – uma face "humana" – é fácil de imaginar. Um olhar sobre a sua propaganda diária ajuda a perceber. Além disso, existem informações, um bocado de dados sobre esta actividade. Todo o público dos media mainstream sabe disso. Além disso, há estatísticas sobre o assunto – guerra, na verdade agressão e expedições para ocupação, despesas com publicidade, concessão de fundos para pesquisas que facilitam essas guerras, despesas com expedições diplomáticas. O montante chega à estratosfera se se considerarem os gastos dos media mainstream, ao serviço do sistema imperialista-capitalista.

    Todas essas quantias de dinheiro foram inúteis diante da revelação feita pela Wikileaks liderada por Assange. A cada revelação, a máquina vasta e monstruosamente poderosa permaneceu muda. Esta terrível máquina de dominação mundial não tinha nada a fazer, mas tentava persistentemente consertar sua "reputação". E, assim, fez de Assange o inimigo do sistema. No mundo contemporâneo, um tal inimigo individual é raro.

    Num sentido real, Assange contribuiu para a paz mundial pois tornou todos conscientes do poder imperialista bruto, seu atropelo a toda dissensão e suas actividades cruéis. O denunciante e sua associada – a Wikileaks – produziram uma mina de materiais didácticos. Os materiais de aprendizagem são sobre política, estado, diplomacia e forças armadas da burguesia. No futuro, isto será estudado cuidadosa e profundamente na academia e nos círculos políticos que tentam entender o sistema.

    No entanto, agora, o episódio londrino de Assange – negando-lhe asilo e prendendo-o – expõe o "belo" rosto do sistema burguês, no qual muitas pessoas ainda confiam. Tais pessoas são servas fiéis e desavergonhadas do sistema. Nos países capitalistas-imperialistas, tais pessoas servem ao sistema e tentam travar sua decadência; e nas "democracias compradoras", tais pessoas trabalham como representantes (proxies). Certamente, isso não impedirá que esse bando de traficantes de "democracia" entoe suas cantilenas quanto à "liberdade" de expressão. Mas, Assange – seu trabalho e seu papel – será discutido e estudado no futuro. Este estudo estender-se-á também à área do direito burguês.

    O último incidente de Londres centrado em Assange mostra a fraqueza do sistema imperialista – todo o sistema está a travar uma longa batalha contra um único indivíduo e nesta batalha, o indivíduo foi espulso para fora do abrigo moral e ético que toda pessoa tem direito. Todo o episódio de Assange mostra vulnerabilidades do sistema imperialista – uma única fuga de informação por um indivíduo ou um grupo de indivíduos pode expor o sistema; o sistema, com seu vasto mecanismo movido por seus vastos recursos, não consegue esconder suas malfeitorias, cuja exposição o torna vulnerável. Isso lembra um comentário de Fidel: uma agulha pode tirar todo o ar de um balão. Assange realizou este trabalho – um serviço à humanidade.
    11/Abril/2019
     
    Ver também:
  • twitter.com/wikileaks
  • defend.wikileaks.org

  • MINUTO A MINUTO: Arrestan a Julian Assange

    [*] Colaborador de Counter Currents, reside em Dhaka.

    O original encontra-se em countercurrents.org/...


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
  • domingo, 7 de abril de 2019

    As mentiras do Poder argelino

    por Thierry Meyssan

     Os critérios que se utilizam habitualmente na política para explica os jogos de poder não se aplicam à Argélia. Os seus dirigentes actuais são antes de mais impostores que fabricaram de si próprios, um a seguir a outro, falsas biografias para obter a consideração dos seus concidadãos. Passando de umas para outras, conseguiram chegar ao topo do Estado. E, aí se mantêm por vontade das grandes potências que fazem de conta que acreditam nas suas fábulas para melhor os manipular.


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    Desde há uma vintena de anos, a maioria das biografias dos dirigentes argelinos é falsificada. Todos reclamam ter-se batido pela libertação nacional face à Ocupação francesa, mas raros são os que efectivamente o fizeram. Os verdadeiros heróis foram afastados há muito tempo.

    Os média (mídia-br) internacionais descobrem com estupefacção a realidade sobre o Poder argelino que se esforçaram por dissimular até aqui. Este não é detido por um clã, mas por vários entre os quais a figura do Presidente Bouteflika é o ponto de equilíbrio.

     

    No Poder argelino, quem defende o quê ?


    Estes clãs travam uma batalha feroz entre si, o que os impediu não apenas de designar um sucessor para o Presidente cessante mas também um Primeiro-ministro. Finalmente, designaram três : Noureddine Bedoui, assistido por Ramtane Lamamra, ambos flanqueados por um terceiro, Lakhdar Brahimi.

    Tratemos de compreender bem a repartição de papéis:
    - Abdelaziz Bouteflika é um pequeno escroque que foi o secretário de Houari Boumediene e soube, no decorrer do tempo, inventar para si um passado [1]. Desde há vinte anos, ele usurpa a função presidencial graças a uma série de violações da Constituição e a eleições visivelmente manipuladas.
    Hospitalizado na Suíça, por duas semanas, para «avaliações médicas periódicas», diagnosticaram-lhe «problemas neurológicos e respiratórios». Constatando que era incapaz de dar o seu consentimento para os tratamentos, os médicos perguntaram quem era o seu tutor legal para os autorizar. Como resposta, repatriaram o moribundo incapaz sem o mostrar. Depois, difundiram na An Nahar TV breves imagens suas, datadas de 18 de Outubro de 2017, que foram apresentadas como filmadas a 11 de Março de 2019 [2]. Finalmente, difundiram uma nova carta, que lhe foi atribuída, para anunciar o prolongamento sine die do seu mandato.


    - Noureddine Bedoui foi designado, pela pessoa que detém a pena presidencial, como Primeiro-ministro. Até aqui, ele era Ministro do Interior e considerado próximo de um dos irmãos do presidente cessante, Nacer Bouteflika. Foi ele quem imaginou a possibilidade de atribuir um quinto mandato ao presidente inválido e supostamente recolhera seis milhões de assinaturas para o apoiar. O seu papel é o de fazer durar a ilusão presidencial.

    - Ramtane Lamamra foi nomeado Vice-primeiro-ministro. Era, até aqui, conselheiro do Presidente inválido, quer dizer, na realidade um dos detentores do Poder em seu lugar. Passa por representar os interesses da antiga potência colonial, a França.

    - Lakhdar Brahimi foi nomeado Presidente da Conferência Nacional encarregada de por em marcha a transição democrática, sempre anunciada e jamais iniciada. Este aposentado (85 anos) foi chamado por causa da sua folha de serviços: ele desempenhou um papel central na criação do actual sistema e representa os interesses da nova potência colonial: os Estados Unidos.

    Este personagem de primeiro plano não é nada daquilo que afirma ser. Vindo de uma família de colaboradores com o Ocupante francês, conseguiu fazer crer que havia, pelo contrário, participado na libertação nacional.

    • Em 1965, ele foi a última pessoa a receber Mehdi Ben Barka. Informou os Serviços Secretos marroquinos das suas intenções e facilitou, assim, o sequestro e assassinato do Secretário da Tricontinental.

    • Em 1982, no quadro dos esforços argelino-marroco-sauditas, ele conclui os Acordos de Taif que põem fim à guerra civil libanesa em troca da instauração de um regime confessional, totalmente ingovernável, colocando de facto o país sob controle eterno das grandes potências regionais e internacionais.

    • No fim de 1991, ele foi um dos 10 membros do Conselho Superior de Segurança argelino que destituiu o Presidente Chadli Bendjedid, anulou as eleições municipais e abriu a via a Abdelaziz Bouteflika para o Poder. [3].

    • Em 2000, ele forçou a criação de um Serviço de Informações no seio da Administração das Nações Unidas [4].

    • Em 2001, a pedido de Washington, ele concluiu os Acordos de Bona pondo fim à intervenção americano-britânica no Afeganistão e colocando Hamid Karzai e os narco-traficantes no Poder [5].

    • Em 2012, após a demissão de Kofi Annan do seu posto de mediador na Síria, ele foi nomeado, conjuntamente pela ONU e pela Liga Árabe, não como mediador mas como «representante especial».

    Longe de pôr em marcha o Plano de paz Lavrov-Annan, que havia sido aprovado pelo Conselho de Segurança, trabalha para aplicar o plano secreto do seu patrão, o número 2 das Nações Unidas, Jeffrey Feltman, para uma total e incondicional rendição da República Árabe Síria [6].

     

    O papel dos islamistas


    Há várias narrativas da Década Negra (1991-2002) durante a qual 60.000 a 150.000 pessoas morreram. A única coisa certa, se analisarmos o longo período, é que as obras sociais wahhabitas substituíram o Estado nas zonas rurais, que o terrorismo islamista foi uma tentativa britânica para excluir a influência francesa, e que o Exército salvou o país ao mesmo tempo que alguns militares se passaram para o lado dos «degoladores».

    Quando tudo terminou, em 2004, o Presidente Bouteflika aliou-se pessoalmente aos «cortadores de gargantas» (islamistas [7]) contra os «erradicadores» (militares). Ele apresentou-se como um velho soldado capaz de fazer a paz com os seus inimigos. Na realidade, aliava-se aos islamistas para reduzir o poder do Exército e dos Serviços de Segurança que o haviam colocado no Poder.

    - Em 2013, Abdelaziz Bouteflika reestruturou o Departamento da Inteligência e da Segurança, retirando-lhe uma grande parte das suas atribuições e meios e colocando o General Mohamed Mediéne na aposentação.
    - Em 2014, autorizou o braço armado da FIS, o AIS ---responsável por dezenas de milhares de mortes--- a organizar um campo de treino à vista de todos.
    - Em 2016, fez com que o chefe do AIS, Madani Mezrag, fosse recebido por Ahmed Ouyahia (que ele nomeou pouco depois Primeiro-ministro) e anunciou que agora ele gozava de amnistia (anistia-br) e de imunidade.
    - Em Março de 2019, o seu clã fez saltar Madani Mezrag para a frente do palco a fim de fazer pesar a ameaça de uma nova guerra civil sobre a população que se manifestava.

    Neste contexto, a nomeação de Lakhdar Brahimi faz todo o sentido. Quando estava encarregue do dossier sírio na ONU e na Liga Árabe, ele bateu-se por uma «solução política» que incluía a prisão do Presidente Bashar al-Assad e a sua substituição por um professor da Sorbonne, Burhan. Ghalioun. Ora, este, colaborador da National Endowment for Democracy (NED/CIA), muito embora oficialmente partidário de uma Síria não-confessional, tinha sido o guionista dos discursos de Abbassi Madani, o chefe do FIS, durante o seu exílio no Catar.

    A Argélia Independente construiu-se, primeiro, no secretismo inerente à luta de libertação nacional.
    Depois esse secretismo foi mantido e usado por alguns para construir uma lenda e atribuírem-se um papel glorioso. Esta mistificação, repetida durante décadas, privou o povo da compreensão dos acontecimentos. Ela permitiu-lhes tornarem-se indispensáveis jogando para isso, ao mesmo tempo, com a ameaça (os «degoladores») e com a protecção (os «erradicadores»). Prisioneiros da sua própria mistificação, são hoje forçados a submeterem-se à chantagem da França e dos Estados Unidos.
     
    Tradução
    Alva
    [1] Bouteflika, une imposture algérienne, Mohamed Benchicou, Le Matin, 2003.
    [2] « Le report des élections algériennes et la bombe Brahimi », par Khalida Bouredji, Réseau Voltaire, 15 mars 2019.
    [3] Islam and democracy : the failure of dialogue in Algeria, Frédéric Volpi, Pluto Press, 2003 (p. 55 et suivantes).
    [4] « Rapport du Groupe d’étude sur les opérations de paix de l’Organisation des Nations Unies », Nations Unies A/55/305, ou S/2000/809.
    [5] « L’opium, la CIA et l’administration Karzai », par Peter Dale Scott, Traduction Anthony Spaggiari, Réseau Voltaire, 10 décembre 2010. « Le partenaire afghan de Monti », par Manlio Dinucci, Traduction Marie-Ange Patrizio, Il Manifesto (Italie), Réseau Voltaire, 9 novembre 2012.
    [6] “A Alemanha e a ONU contra a Síria”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Al-Watan (Síria) , Rede Voltaire, 28 de Janeiro de 2016.
    [7] Nós distinguimos a religião muçulmana da sua manipulação política, o islamismo, tal com é formulado pela Confraria dos Irmãos Muçulmanos. NdaR.

    aqui:https://www.voltairenet.org/article205682.html

    quarta-feira, 20 de março de 2019

    Das armas de destruição maciça iraquianas às armas químicas sírias

    por Thierry Meyssan

     Num relatório de 1 de Março de 2019, a Organização Para a Interdição das Armas Químicas atesta que jamais houve substâncias químicas proibidas em Duma (Síria) aquando do ataque de 7 de Abril de 2018 ; o bombardeamento tripartido de represálias (Estados Unidos, França, Reino Unido) era pois injustificado. Este escândalo é exactamente idêntico ao das pseudo-armas de destruição maciça iraquianas. Ele irá continuar a ser seguido por inúmeras outras mentiras enquanto os Ocidentais continuarem a fiar-se, de olhos fechados, nos seus média.


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    O comportamento dos jornalistas ocidentais é particularmente estranho : eles retomam as alegações dos seus dirigentes políticos considerando-as a priori como fundadas, mas não levam em conta os desmentidos fornecidos pelas instâncias internacionais. Mostram-se incapazes de colocar em causa as intoxicações que engoliram como boas.

     

    A justificação para a destruição do Iraque


    Assim, em 2003, retomaram unanimemente as alegações de George W. Bush, segundo quem o Iraque dispunha de armas de destruição maciça. Depois as de Tony Blair, segundo quem o Iraque dispunha de lançadores capazes de atingir o Ocidente em 45 minutos e de matar, assim, a população dispersando gás de combate. E, por fim, as do Secretário de Estado Colin Powell, segundo quem o Iraque abrigaria Osama Bin Laden.

    No entanto, na mesma época, a Comissão de controle, de verificação e de inspecção das Nações Unidas (Cocovinu), afirmava sem qualquer dúvida que as alegações de Bush e Blair eram falsas. Ora, esta Comissão era o único órgão que tinha acesso ao território iraquiano e que tinha podido levar a cabo todas as verificações que desejava. Nem a CIA, nem o MI6, que a contradiziam, tinham tido tal oportunidade.

    Lembremos, de passagem, que a França de Jacques Chirac se opôs à guerra contra o Iraque. Mas escolheu como argumento que «A guerra é sempre a pior das soluções» e não que as acusações anglo-americanas eram visivelmente mentirosas, tal como o havia constatado o órgão de controle adequado, a Cocovinu.

    Hoje em dia, reconstrói-se a História à força de filmes e de séries televisivas. Depois, acaba-se a dizer que se foi intoxicado. Mas, finge-se que os Serviços secretos norte-americanos e britânicos foram manipulados pelos seus dirigentes políticos e que ninguém tinha meio de saber a verdade. Isto é falso, e basta mergulharmos na imprensa da época para constatar que todos se entendiam para tentar desacreditar o Director da Comissão da ONU, o Sueco Hans Blix, que ousava fazer frente a maior potência mundial da altura. Foi o que estabeleceu como provado, treze anos mais tarde, a Comissão Chilcot [1] .

    Identicamente, passa-se em silêncio as acusações lançadas por Colin Powell no Conselho de Segurança da ONU [2], segundo quem Osama bin Laden vivia em Bagdade em 2002 e que os seus lugares-tenentes aí residiam, fabricando rícino. A partir do Iraque, garantia ele, eles preparavam atentados em França, no Reino Unido, em Espanha, na Itália, na Alemanha e na Rússia. Havia pois, que agir com urgência.

    Ora, crer em tais tretas (bobagens-br) supunha não conhecer nada do Partido Baas, no Poder no Iraque. Outra vez, mais do que admitir a sua ignorância, os jornalistas ocidentais preferiram esquecer este episódio.

     

    A cumplicidade dos média não mudou


    Nada mudou desde o ataque a Bagdade (Bagdá-br) pelos Estados Unidos e seus aliados: os médias (mídia-br) mentiram de novo, de propósito desta vez, para esconder a sua mentira involuntária precedente. Todos preferiram contar que haviam sido manipulados. Nenhum reconheceu ter cometido uma falha profissional ao ter desprezado as opiniões dos peritos das Nações Unidas.

    Os historiadores que se debruçaram sobre a propaganda de guerra mostraram que aqueles que querem uma guerra fabricam sempre uma inacreditável quantidade de provas e testemunhos falsos. Muito embora todos os jornalistas concordem reconhecer que «A primeira vítima de uma guerra é a Verdade» (Rudyard Kipling), nenhum tentou estabelecer um método que permitisse não ser intoxicado uma vez mais. É, no entanto, simples: basta manter a cabeça fria quando todo o mundo está excitado, não hesitando em ir contra a corrente e fazer o seu trabalho verificando, para tal, as suas fontes. Foi o que fizemos e o que nos valeu ser qualificado de «conspiracionista».

     

    A justificação da guerra contra a Síria


    Assim, a propósito da guerra na Síria, todos continuam a crer, de olhos fechados, que os acontecimentos começaram como «uma revolução contra uma ditadura», que o «regime» respondeu «massacrando o seu próprio povo» à força de «torturas», de «barris de bombas» e «de armas químicas», o que forçou a população à violência. Ora, tudo isto é, ou estúpido (tal como foi o caso com o suposto convite a Osama bin Laden pelo Presidente Saddam Husein), ou desmentido pelas missões internacionais (como com a Cocovinu).

    A «revolução contra a ditadura»foi formalmente desmentida pela única organização que teve a capacidade de julgar: uma Missão internacional da Liga Árabe que foi autorizada a viajar por todo o lado na Síria e que dispunha do pessoal necessário para cobrir todo o território (de 24 de Dezembro de 2011 a 18 de Janeiro de 2012) [3]. Mas, os jornalistas preferem sempre acreditar nos governos ocidentais, mais do que nos órgãos que possuem os meios de verificação.

    As fotografias de mortos sob «torturas», atribuídas pelo Relatório César à Síria são, na realidade, as dos mortos sob a tortura dos jiadistas. Basta reflectir um pouco: César declara tê-las feito para o Exército árabe sírio, mas diz não conhecer a identidade dos defuntos. Que interesse teria nisto Damasco, estabelecer um arquivo fotográfico sem nenhuma informação sobre as vítimas?

    Os «barris de bombas» são uma outra lenda igualmente estúpida: por que é que o Exército árabe sírio utilizaria bombas artesanais quando dispõe de bombas sofisticadas fornecidas pela Rússia?

     

    Após as armas de destruição maciça iraquianas, as armas químicas sírias


    O mais interessante é a acusação de utilização de armas químicas. A Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ/ OPCW) apresentou o seu relatório a 1 de Março de 2019. Ela fora incumbida de lançar luz sobre o alegado ataque de 7 de Abril de 2018 em Duma, o que foi, unilateralmente, sancionado com um bombardeamento da Síria pelos Estados Unidos, França e Reino Unido na semana seguinte. É uma pérola: muito embora não o explicite, ele confirma, ponto por ponto, que tudo neste caso foi uma montagem.

    Note-se que, após o ataque à Ghuta, cinco anos antes, a Síria havia aderido à Convenção para a Proibição. Os seus stocks (estoques-br) de armas químicas foram colocados sob sequestro, depois destruídos conjuntamente pelos Estados Unidos e pela Rússia, sob o controle da OPAQ. Pretender que Damasco dispunha ainda de armas químicas após esta destruição é, pois, antes de mais atacar o trabalho realizado por Haia, Moscovo e Washington.

    Em 2018, o Departamento de Estado havia afirmado dispor de provas credíveis de «utilização de gás sarin pela Síria» contra os «democratas», enquanto a Rússia denunciou uma encenação encomendada pelo Reino Unido. O Ministro britânico dos Negócios Estrangeiros (Relações Exteriores-br), Boris Johnson, indignara-se com fleuma destas acusações «grotescas, bizarras», desta «mentira descarada».
    Ora,
    - O ataque era alegado por três fontes, todas elas britânicas: os "Capacetes Brancos" (uma ONG controlada pelo MI6), o "Observatório Sírio dos Direitos Humanos" (um ramo da Irmandade Muçulmana alimentado pelo MI6), e o "Exército do Islão" (um grupo armado fundado por Zohran Allouche, cuja família inteira vivia à época em Londres, numa luxuosa residência guardada pela polícia).
    - A missão da OPAQ foi impedida pelo "Exército do Islão" de contar os corpos das vítimas e de as autopsiar. Ela só foi autorizada a entrar em Duma depois de eles terem sido «incinerados»; uma maneira desconhecida de tratar os cadáveres no islão e que não tinha justificação de um ponto de vista de saúde pública.
    - As amostras atestam, segundo a OPAQ, que nenhuma substância química proibida foi utilizada em Duma. Nenhuma.
    - A organização admite, no entanto, que dois obuses poderiam ter sido atirados para o local da alegada contaminação e que eles poderiam ter contido uma substância tóxica clorada. No entanto, o cloro ao ar livre dispersa-se. Ele apenas pode matar num espaço confinado. É por isso que jamais figurou na lista de armas proibidas e é utilizado por todos como produto de manutenção.

    Note-se de passagem que o "Exército do Islão" (Jaish al-Islam), é aquela organização «democrata» que decapitou em série os «cães de Bashar» (ou seja, os sírios que se recusavam a insultar o Presidente herético Bashar al-Assad [4]). Ele tornou-se célebre ao condenar igualmente à morte os Sírios que se assumiam como homossexuais jogando-os dos telhados abaixo. Foi o seu chefe, Mohamed Allouche, apoiado pelo Ocidente, que presidiu a delegação da «oposição moderada» às negociações da ONU em Genebra.

    Em suma, os bombardeamentos da Síria pelos Estados Unidos, França e Reino Unido não apenas violavam o Direito Internacional, como eram injustificados.

     

    O tratamento do relatório da OPAQ pela imprensa


    Se a imprensa ocidental fosse honesta, teria dado conta fielmente do relatório da OPAQ. Não foi o caso. Os jornalistas anglo-saxões ficaram sobremaneira mudos e só excepcionalmente referiram a informação. Os seus homólogos franceses mostraram-se mais capciosos.

    Eles lembraram que, no passado, um relatório do Mecanismo Conjunto da ONU/OPAQ havia confirmado a utilização de armas químicas pela Síria. Omitiram referir que o Conselho de Segurança da ONU rejeitara esse relatório porque o Mecanismo não havia respeitado as regras da OPAQ.
    Outros insinuaram que a missão estabelecera a utilização de cloro em Duma. Omitiram o detalhe de que a OPAQ estimava como provável a utilização de um agente tóxico contendo cloro, usado como arma, e como possível a sua dispersão por dois obuses. Acima de tudo, evitaram indicar que ao ar livre o cloro não é um veneno mortal, antes um agente irritante; razão pela qual não é uma arma química proibida.

    Provavelmente, vocês perguntam-se porque é que não viram artigos de teor real, e porque é que não ouviram os pedido de desculpa de Theresa May e de Macron e Trump? Simplesmente porque a imprensa não faz o seu trabalho de informar e os dirigentes ocidentais não têm vergonha na cara.
    Tradução
    Alva
    [1] A Comissão Chilcot, destinada a investigar a entrada do Reino Unido em guerra no Iraque, fora lançada pelo Primeiro-ministro britânico Gordon Brown. Ela dissecou as mentiras do governo do seu predecessor, Tony Blair, e acabou a apresentar o seu relatório apenas ao Primeiro-ministro seguinte, David Cameron.
    [2] « Discours de M. Powell au Conseil de sécurité de l’ONU - Partie 6/7 » («Discurso de C. Powell no C.S. da ONU-Parte 6/7»-ndT), Colin L. Powell, Réseau Voltaire, 11 février 2003.
    [3] A missão da Liga Árabe foi interrompida assim que apresentou o seu primeiro relatório julgado muito favorável à Síria, a qual se havia condenado à partida : « Rapport du chef de la Mission des observateurs de la Ligue Arabe en Syrie pour la période du 24/12/2011 au 18/01/2012 », Réseau Voltaire, 2 février 2012.
    [4] Bashar al-Assad é alauíta. Esta religião é um sincretismo da religião muçulmana, a qual considera o profeta Ali como uma reencarnação de Cristo. Os alauítas apenas aceitam como revelados os princípios que figuram ao mesmo tempo nos Evangelhos e no Corão. A Confraria dos Irmãos Muçulmanos, que busca, pelo contrário, opor cristãos e muçulmanos, considera-os heréticos que merecem a morte.
    Thierry Meyssan
    Thierry Meyssan Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: Sous nos yeux. Du 11-Septembre à Donald Trump. Outra obras : L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación (Monte Ávila Editores, 2008).
     

    segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

    Acerca da Venezuela


    por Michael Hudson
    entrevistado por The Saker

    Há uma grande controvérsia sobre o verdadeiro perfil da economia venezuelana e se a reforma e as políticas de Hugo Chávez e Nicolau Maduro foram cruciais para o povo da Venezuela ou se foram completamente equivocadas e precipitaram as crises actuais. Toda a gente parece ter opiniões muito fortes sobre isso. Mas eu não, simplesmente porque não tenho a perícia necessária para ter tais opiniões. Decidi então perguntar a um dos mais respeitados economistas independentes, Michael Hudson, por quem tenho imenso respeito e cujas análises (incluindo as que ele escreveu em parceria com Paul Craig Roberts ) parecem ser as mais confiáveis e honestas possíveis. Na verdade, Paul Craig Roberts considera Hudson o " melhor economista do mundo "!
    Sou profundamente grato a Michael por suas respostas. Espero que contribuam para um entendimento honesto e objectivo do que realmente está a acontecer na Venezuela.
    The Saker 
     
    The Saker: Poderia resumir o estado da economia da Venezuela quando Chávez chegou ao poder?

    Michael Hudson: A Venezuela foi uma monocultura do petróleo. Suas receitas de exportação eram gastas em grande parte na importação de alimentos e de outras necessidades que poderiam ter produzido internamente. Seu comércio era em grande parte com os Estados Unidos. Portanto, apesar de sua riqueza em petróleo, a dívida externa aumentou.

    Desde o início, as companhias petrolíferas americanas temiam que a Venezuela pudesse algum dia usar suas receitas petrolíferas para beneficiar a população em geral, em vez de permitir que a indústria petrolífera dos EUA e sua aristocracia compradora local desviassem sua riqueza. Assim, a indústria do petróleo – apoiada pela diplomacia dos EUA – manteve a Venezuela como refém de duas maneiras.

    Em primeiro lugar, as refinarias de petróleo não foram construídas na Venezuela, mas em Trinidad e nos estados do sul da Costa do Golfo dos EUA. Isso permitiu que as companhias de petróleo dos EUA – ou o governo dos EUA – deixassem a Venezuela sem um meio de "avançar sozinha" e prosseguir uma política independente com seu petróleo, uma vez que precisava ter esse petróleo refinado. Não ajuda ter reservas de petróleo se não conseguir refiná-lo para que seja utilizável.

    Segundo, os banqueiros centrais da Venezuela foram persuadidos a comprometer suas reservas de petróleo e todos os activos do sector estatal de petróleo (incluindo a Citgo) como garantia colateral da sua dívida externa. Isso significava que, se a Venezuela não pagasse (ou fosse forçada a incumprimento por bancos norte-americanos que se recusassem a efectuar pagamentos atempados sobre a sua dívida externa), os detentores de títulos e grandes petrolíferas dos EUA estariam em posição legal de tomar posse dos activos petrolíferos venezuelanos.
    Tais políticas pró EUA tornaram a Venezuela uma oligarquia latino-americana tipicamente polarizada. Apesar de ser nominalmente rica em receitas petrolíferas, sua riqueza estava concentrada nas mãos de uma oligarquia pró EUA que deixava o seu desenvolvimento interno ser pilotado pelo Banco Mundial e pelo FMI. A população indígena, especialmente sua minoria racial rural bem como a subclasse urbana, foi excluída da participação na riqueza do petróleo do país. A recusa arrogante da oligarquia a compartilhar a riqueza, ou mesmo tornar a Venezuela auto-suficiente em elementos essenciais, tornou a eleição de Hugo Chávez um resultado natural.

    The Saker: Poderia descrever as várias reformas e mudanças introduzidas por Hugo Chávez? O que ele fez de certo e o que fez de errado?

    Michael Hudson: Chávez procurou restaurar uma economia mista para a Venezuela, utilizando suas receitas governamentais – principalmente do petróleo, é claro – para desenvolver infraestrutura e gastos internos em saúde, educação, emprego para elevar padrões de vida e produtividade para o seu eleitorado.

    O que ele não conseguiu fazer foi sanar o desfalque sistemático e aumentar o rendimento do sector petrolífero. E foi incapaz de conter a fuga de capitais da oligarquia, levando sua riqueza e movendo-a para o exterior.

    Isso não era "errado". Simplesmente leva muito tempo mudar a ruptura de uma economia – enquanto os EUA usam sanções e "truques sujos" para travar esse processo.

    O Saker: Quais são, na sua opinião, as causas da actual crise económica na Venezuela – devem-se primariamente a erros cometidos por Chávez e Maduro ou a causa principal é sabotagem, subversão e sanções dos EUA?

    Michael Hudson: Não há qualquer modo de Chávez e Maduro poderem ter seguido uma política pró venezuelana destinada a alcançar a independência económica sem incitar a fúria, a subversão e as sanções dos Estados Unidos. A política externa americana continua tão focada no petróleo quanto estava quando invadiu o Iraque sob o regime de Dick Cheney. A política dos EUA é tratar a Venezuela como uma extensão da economia estado-unidense, gerando um excedente comercial de petróleo para gastar nos Estados Unidos ou transferindo suas poupanças para bancos dos EUA.

    Ao impor sanções que impedem a Venezuela de ter acesso a seus depósitos em bancos dos EUA e aos activos da sua estatal Citco, os Estados Unidos estão a tornar impossível a Venezuela pagar a sua dívida externa. Isso é forçá-la ao incumprimento, o que os diplomatas norte-americanos esperam usar como desculpa para arrestar os recursos petrolíferos da Venezuela e confiscar seus activos estrangeiros, da mesma forma que o hedge fund de Paul Singer tentou fazer com os activos estrangeiros da Argentina.
    Assim como a política dos EUA sob Kissinger era fazer a "economia do Chile gritar", os EUA estão a seguir o mesmo caminho contra a Venezuela. Eles estão utilizando esse país como um "efeito demonstração" para advertir os demais países a não actuarem de acordo com seus próprios interesses de modo a impedir que seus excedentes económicos sejam absorvidos pelos investidores americanos.

    O Saker: O que na sua opinião Maduro deveria fazer (supondo que permaneça no poder e os EUA não o derrubem) para resgatar a economia venezuelana?

    Michael Hudson: Não consigo pensar em nada que o presidente Maduro possa fazer que ele já não esteja fazendo. Na melhor das hipóteses, ele pode buscar apoio estrangeiro – e demonstrar ao mundo a necessidade de um sistema financeiro e económico internacional alternativo.

    Ele já começou a fazer isso ao tentar retirar o ouro da Venezuela do Banco da Inglaterra e do Federal Reserve. Isso está se transformando em "guerra assimétrica", o que ameaça dessacralizar o padrão dólar nas finanças internacionais. A recusa da Inglaterra e dos Estados Unidos em conceder ao governo eleito o controle de seus activos estrangeiros demonstra a todo o mundo que só diplomatas e tribunais dos EUA podem fazer isso e que controlarão países estrangeiros como uma extensão do nacionalismo norte-americano.

    O preço do ataque económico dos EUA à Venezuela é, portanto, para fracturar o sistema monetário global. O movimento defensivo de Maduro está mostrando a outros países a necessidade de se protegerem de se tornarem "outra Venezuela", encontrando um novo porto seguro e agente pagador para seu ouro, reservas cambiais e financiamento da dívida externa, longe das áreas do dólar, da libra esterlina e do euro.

    O único modo de Maduro combater com êxito é no nível institucional, elevando a aposta a fim de movê-la para "fora da caixa". Seu plano – e, naturalmente, um plano de longo prazo – é ajudar a catalisar uma nova ordem económica internacional independente do padrão dólar americano. Isto funcionará no curto prazo só se os Estados Unidos acreditarem que podem emergir deste combate como um corretor financeiro honesto, como um sistema bancário honesto e um defensor de regimes democraticamente eleitos. A administração Trump está a destruir esta ilusão de um modo mais perfeito do que qualquer crítico anti-imperialista ou rival económico poderia fazê-lo!


    A longo prazo, Maduro também deve desenvolver a agricultura venezuelana, seguindo as mesmas linhas com que os Estados Unidos protegeram e desenvolveram a sua agricultura sob a legislação do New Deal dos anos 1930 – serviços de extensão rural, crédito rural, aconselhamento de sementes, organizações de marketing estatais para compra de colheitas e fornecimento de mecanização, e a mesma espécie de apoio aos preços que os Estados Unidos tem utilizado desde há muito para subsidiar o investimento agrícola interno a fim de aumentar a produtividade.

    The Saker: E quanto ao plano de introduzir uma cripto moeda com base no petróleo? Será isso uma alternativa eficaz ao Bolívar venezuelano moribundo?

    Michael Hudson: Só um governo nacional pode emitir uma moeda. Uma cripto divisa ligada ao preço do petróleo tornar-se-ia um veículo de hedging, propenso a manipulações e oscilações de preços por parte de vendedores e compradores. Uma divisa nacional deve ser baseada na capacidade de tributar, e a principal fonte tributária da Venezuela é a receita do petróleo, a qual está a ser bloqueada a partir dos Estados Unidos. Assim, a posição da Venezuela é como aquela do marco alemão que sai de sua hiper-inflação do início da década de 1920. A única solução envolve suporte a balança de pagamentos. Parece que o único apoio desse tipo virá de fora da esfera do dólar.

    A solução para qualquer hiper-inflação deve ser negociada diplomaticamente e ser apoiada por outros governos. Minha história do comércio internacional e da teoria financeira, Trade, Development and Foreign Debt , descreve o problema das reparações alemãs e como a sua hiper-inflação foi resolvida pelo Rentenmark.
    A tributação sobre a renda económica da Venezuela recairia sobre o petróleo e os imóveis de luxo, bem como os preços monopolísticos, e sobre os altos rendimentos (principalmente os rendimentos financeiros e de monopólio). Isso requer uma lógica para enquadrar essa política fiscal e monetária. Tenho tentado explicar como alcançar a independência monetária e, portanto, política durante o último meio século. A China está aplicando essa política de forma mais eficaz. Ela é capaz de fazer isso porque é uma economia grande e auto-suficiente em bens essenciais, gerando um excedente de exportação suficientemente grande para pagar suas importações de alimentos. A Venezuela não está em tal posição. É por isso que está procurando apoio da China neste momento.

    O Saker: Quanta assistência a China, a Rússia e o Irão fornecem e o que podem fazer para ajudar? Pensa que esses três países juntos podem ajudar a contrariar a sabotagem, subversão e sanções dos EUA?

    Michael Hudson: Nenhum destes países tem capacidade para refinar o petróleo venezuelano. Isso faz com que se torne difícil para eles receberem pagamentos em petróleo venezuelano. Apenas um contrato de fornecimento de longo prazo (pago antecipadamente) seria viável. E mesmo nesse caso, o que a China e a Rússia fariam se os Estados Unidos simplesmente apreendessem suas propriedades na Venezuela, ou se recusassem a permitir que a companhia petrolífera russa tomasse posse da Citco? Nesse caso, a única resposta seria confiscar investimentos dos EUA no seu próprio país como compensação.

    Pelo menos a China e a Rússia podem providenciar um mecanismo de compensação bancária (clearing) alternativo ao SWIFT, de modo a que a Venezuela possa ultrapassar o sistema financeiro dos EUA e impedir seus activos de serem capturados à vontade pelas autoridades norte-americanas ou por detentores de títulos. E, naturalmente, eles podem providenciar abrigos seguros para grande parte do ouro da Venezuela que ela possa recuperar de Nova York e de Londres.

    Portanto, olhando para o futuro, a China, Rússia, Irão e outros países precisam criar um novo tribunal internacional para arbitrar as próximas crises diplomáticas e suas consequências financeiras e militares. Tal tribunal – e seu banco internacional associado como uma alternativa ao FMI e Banco Mundial controlados pelos EUA – precisa de uma ideologia clara a fim de enquadrar um conjunto de princípios de nacionalidade e de direitos internacionais com poder para implementar e fazer aplicar seus julgamentos.

    Isso confrontaria os estrategas financeiros dos EUA com uma escolha: se continuarem a tratar o FMI, o Banco Mundial, a ITO e a NATO como extensões da política externa dos EUA cada vez mais agressiva, assumirão o risco de isolar os Estados Unidos. A Europa terá que escolher se quer continuar a ser um satélite económico e militar dos EUA, ou se lança na Eurásia.


    No entanto, Daniel Yergin informa no Wall Street Journal (7/Fevereiro) que a China está a tentar cobrir suas apostas abrindo uma negociação com o grupo de Guaidó, aparentemente para obter o mesmo acordo que negociou com o governo de Maduro. Mas um tal acordo parece improvável de ser honrado na prática, dada a animosidade dos EUA em relação à China e confiança total de Guaido no apoio encoberto dos EUA.


    The Saker: A Venezuela manteve grande parte ouro no Reino Unido e dinheiro nos EUA. Como Chávez e Maduro puderam confiar nesses países? Ou será que não tinham outra escolha? Existem alternativas viáveis a Nova York e Londres ou ainda são o "único lugar possível" para os bancos centrais do mundo?

    Michael Hudson: Nunca houve confiança real no Banco da Inglaterra ou no Federal Reserve, mas parecia impensável que se recusassem a permitir que um depositante oficial retirasse seu próprio ouro. O lema habitual é "Confie, mas verifique". Mas a relutância (ou incapacidade) do Banco da Inglaterra de verificar significa que o outrora impensável agora aconteceu: Será que esses bancos centrais venderam esse ouro no pós London Gold Pool e em mercados sucessores de commodities na sua tentativa de manter baixo o preço de modo a manter a aparência solvente de um padrão dólar norte-americano?

    Paul Craig Roberts descreveu como esse sistema funciona. Existem mercados a termo para divisas, acções e títulos. O Federal Reserve pode oferecer-se para comprar uma acção em três meses a, digamos, 10% sobre o preço actual. Especuladores venderão as acções, aumentando o preço para aproveitar a promessa do "mercado" de comprar as acções. Então, depois de se passarem os três meses, o preço terá subido. Isso é, em grande medida, o modo como a "Plunge Protection Team" dos EUA tem apoiado o mercado de acções dos EUA.

    O sistema funciona ao contrário para restringir os preços do ouro. Os bancos centrais que detêm ouro podem se reunir e se oferecer para vender ouro a um preço baixo em três meses. "O mercado" vai perceber que, com ouro a baixo preço sendo vendido, não adianta comprar mais ouro e aumentar os preços. Portanto, o mercado de liquidação antecipada molda o mercado actual.

    A questão é: têm compradores de ouro (como os governos russo e chinês) comprado tanto ouro que o Fed dos EUA e o Banco da Inglaterra tiveram realmente de "compensar" suas vendas futuras e esgotar seu ouro de forma constante? Nesse caso, eles teriam estado a "viver para o momento", mantendo os preços do ouro baixos por tanto tempo quanto pudessem, sabendo que, uma vez que o mundo retorne ao padrão gold exchange pré-1971 para défices intergovernamentais de balança de pagamentos, os EUA ficarão sem ouro e serão incapazes de manter seus gastos militares no exterior (para não mencionar seu défice comercial e o desinvestimento estrangeiro nos mercados de acções e títulos dos EUA). Meu livro sobre o Super-imperialismo explica por que o esgotamento do ouro forçou o fim da Guerra do Vietname. A mesma lógica se aplicaria hoje à vasta rede de bases militares dos EUA por todo o mundo.

    A recusa da Inglaterra e dos EUA em pagar a Venezuela significa para outros países que reservas oficiais estrangeiras de ouro podem ser apresadas e mantidas como reféns da política externa dos EUA, e até mesmo julgamentos de tribunais americanos para conceder esse ouro a credores estrangeiros ou a quem quer que inicie um processo judicial sob a lei dos EUA contra esses países.

    Essa tomada de reféns agora torna urgente que outros países desenvolvam uma alternativa viável, especialmente quando o mundo se desdolariza e um gold-exchange standard continua a ser a única maneira de restringir o défice da balança de pagamentos induzido pelos militares dos Estados Unidos ou qualquer outro país a preparar um ataque militar. Um império militar é muito caro – e o ouro é uma restrição "pacífica" aos défices de pagamentos induzidos pelos militares. (Eu explico os pormenor no meu Super Imperialism: The Economic Strategy of American Empire (1972), atualizado em alemão como Finanzimperium (2017).

    Os EUA exageraram na destruição do fundamento da ordem financeira global centrada no dólar. Essa ordem permitiu que os Estados Unidos fossem "a nação excepcional" capaz de administrar défices na balança de pagamentos e dívida externa que não tem intenção (ou capacidade) de pagar, alegando que os dólares perdidos pelos seus gastos militares estrangeiros "abastecem" outros países com suas reservas do banco central (mantidas na forma de empréstimos ao Tesouro dos) para financiar o défice orçamental dos EUA e seus gastos militares, bem como o défice da balança de pagamentos dos EUA em grande medida de origem militar.

    Dado o facto de que a UE está a actuar como um ramo da NATO e do sistema bancário dos EUA, essa alternativa teria de ser associada à Organização de Cooperação de Xangai e o ouro teria que ser mantido na Rússia e/ou na China.


    O Saker: O que outros países da América Latina, como Bolívia, Nicarágua, Cuba e, talvez, o Uruguai e o México podem fazer para ajudar a Venezuela?

    Michael Hudson : A melhor coisa que os países vizinhos da América Latina podem fazer é criar um veículo para promover a desdolarização e, com isso, uma instituição internacional para supervisionar a amortização (writedown) de dívidas que estejam além da capacidade dos países de pagar sem impor austeridade e portanto destruírem suas economias.

    Também é necessária uma alternativa ao Banco Mundial que fizesse empréstimos em moeda nacional, sobretudo para subsidiar o investimento na produção interna de alimentos de modo a proteger a economia contra sanções alimentares estrangeiras – o equivalente a um cerco militar a fim de forçar a rendição, impondo condições pela fome. Esse Banco Mundial para Aceleração Económica promoveria em primeiro lugar o desenvolvimento da autoconfiança dos seus membros, ao invés de promover a competição pelas exportações, ao mesmo tempo que sobrecarrega os mutuários com dívida externa que os tornaria propensos ao tipo de chantagem financeira que Venezuela está a experimentar.

    Sendo um país católico romano, a Venezuela pode pedir apoio do Papa para uma redução de dívidas (write-down) e uma instituição internacional para supervisionar a capacidade de pagar por parte de países devedores sem impor austeridade, emigração, despovoamento e privatização forçada do domínio público.

    Dois princípios internacionais são necessários. Primeiro, nenhum país deveria ser obrigado a pagar dívida externa numa divisa (como o dólar ou seus satélites) cujo sistema bancário actua para impedir o pagamento.

    Segundo, nenhum país deveria ser obrigado a pagar a dívida externa ao preço de perder sua autonomia interna como Estado: o direito de determinar sua própria política externa, de tributar e criar sua própria moeda e de ser livre de ser obrigado a privatizar seus activos públicos para pagar credores estrangeiros. Qualquer dívida desse tipo é um "mau empréstimo" ("bad loan"), que reflecte a própria irresponsabilidade do credor ou, pior ainda, a perniciosa apreensão de activos num arresto hipotecário que era o principal objectivo do empréstimo.


    The Saker: Muito obrigado por tomar tempo para responder às minhas perguntas!

    Ver também:
  • A brilhante estratégia de Trump para desmembrar a hegemonia do dólar americano
  • Telefonema de Washington fez avançar Guaidó
  • O roubo do ouro da Venezuela e outras histórias
  • Para saber tudo sobre o golpista Juan Gaidó
  • O bloqueio provocou uma perda de US$350 mil milhões para a Venezuela
  • Todo lo que no se sabe sobre Venezuela

    O original encontra-se em thesaker.is/saker-interview-with-michael-hudson-on-venezuela-february-7-2019/


    Esta entrevista encontra-se em http://resistir.info/
  •  
  • aqui:https://www.resistir.info/venezuela/hudson_06fev19.html 
  •  
     

    terça-feira, 29 de janeiro de 2019

    União Europeia ao lado de Trump contra a Venezuela

    por José Goulão

    É importante, para memória futura e inevitável exigência de responsabilidades políticas e humanitárias, anotar os governos que, na Venezuela, virão a ser responsáveis por uma chacina de vidas humanas.
    Encontro do Ministro dos Negócios Estrangeiros português, Augusto Santos Silva, e do Secretário de Estado norte-americano Michael Pompeo, em Washington, Junho de 2018.  
    Encontro do Ministro dos Negócios Estrangeiros português, Augusto Santos Silva, e do Secretário de Estado norte-americano Michael Pompeo, em Washington, Junho de 2018. Créditos / US Department of State

    Uma semana de atraso é caricata para funcionar como disfarce para uma subserviência rasteira anunciada. A União Europeia, com o governo português bem na linha da frente, segue a estratégia intervencionista e potencialmente fascista de Donald Trump na Venezuela. É importante, para memória futura e inevitável exigência de responsabilidades políticas e humanitárias, começar a anotar, um por um, os governos que virão a ser responsáveis por uma chacina de vidas humanas que poderá ser o resultado de uma de duas vias: a guerra civil, na esteira da Síria; ou uma ditadura fascista, a exemplo de Pinochet e alguns outros.

    No seguidismo em relação à estratégia de Trump, a União Europeia assume a sua conivência com o golpe na Venezuela de uma maneira que contraria a maioria dos Estados membros da Organização dos Estados Americanos, apesar de esta entidade ser habitualmente considerada uma simples correia de transmissão dos desejos e interesses de Washington.

    Do alto dos seus púlpitos ou na telegrafia dos seus twitters, os dirigentes da União Europeia dirão que não, nada têm com a decisão de Trump, porque o presidente norte-americano reconheceu Juan Guaidó ao mesmo tempo que este se autoproclamou, enquanto eles têm a boa vontade de dar uma semana a Nicolás Maduro para convocar eleições presidenciais. Caso contrário… reconhecerão Guaidó. Uma posição muito diferente, como se percebe; sabendo desde logo que Maduro não aceitará um ultimato para abdicar de um mandato constitucionalmente legítimo, assente em eleições democráticas, livres, não contestadas institucionalmente e realizadas apenas há oito meses. Poderiam até ter sido mais recentes, mas foram antecipadas para Maio de 2018 por exigência da oposição.

    É interessante ouvir o titular das Necessidades exigir eleições democráticas e livres a Maduro. Sobretudo por ser o mesmo ministro a quem não consegue ouvir-se qualquer reparo ao actual governo fascista da Ucrânia, nascido de eleições com abstenção idêntica às presidenciais da Venezuela. Não por ter havido um qualquer «boicote» de qualquer oposição; tão só porque a Ucrânia estava – como está – em situação de guerra e cerca de meio país vive acossado pelo poder de forças armadas e milícias fascistas, razão de peso para os cidadãos não irem às urnas.

    Se o senhor ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal e alguns dos seus parceiros, entre eles alguns com as mãos sujas de sangue na Síria, entendem que a liberdade e a democracia da Ucrânia são exemplares e a solução é repetir em Caracas o famoso golpe de Maidan, em Kiev1, não precisam de fingir que entre eles e Trump ainda vai uma semana de diferença.

     

    Nada de novo a rolar


    A linguagem própria da comunicação mainstream recusa-se a usar a expressão «golpe de Estado» para identificar o que está a passar-se em Caracas como resultado das tramas urdidas em Washington. Trata-se apenas, como dizem Trump, Bolton e Pompeo, enormes vultos das liberdades e dos valores democráticos, de «restaurar a democracia» na Venezuela. Um passo absolutamente necessário porque o presidente democraticamente eleito é «um usurpador», enquanto um autoproclamado «presidente interino», invocando a Constituição do país para a violar, é um «legítimo» chefe de Estado – mesmo que nunca se tenha candidatado a presidente e use o cargo de presidente do Parlamento, em que também se autodesignou, para se apropriar de atribuições de outros órgãos institucionais. Uma verdadeira lição de separação de poderes.

    Nada é novo neste mecanismo tão democrático. Passando, deste feita, ao lado da Ucrânia e fixando-nos apenas no «quintal das traseiras» dos Estados Unidos – a doutrina Monroe está de boa saúde e recomenda-se – «restaurações democráticas» assim sucedem-se há mais de dez anos na região.

     

    Honduras


    Muitos ainda terão na memória o caso das Honduras, em 2009, onde o presidente democraticamente eleito foi deportado para a Costa Rica, deposto pelo presidente do Parlamento com assessoria de outro grande democrata, John Negroponte – uma vida ao serviço do intervencionismo de sucessivos presidentes norte-americanos. Alguém que, também nas Honduras, mas noutra fase da democracia recomendada pelo Departamento de Estado, tinha aconselhado a criação de esquadrões da morte, mostrando assim uma vasta amplitude de meios ao dispor para atingir os fins pretendidos.

    A partir de então, as Honduras vivem uma história de eleições falsificadas, mas todas elas aceites em Washington, Bruxelas, Paris, Berlim ou Lisboa como perfeitamente válidas, segundo os cânones da democracia. Viveu-se recentemente mais um episódio da saga, em que a manipulação foi tão grosseira que Washington e a Organização dos Estados Americanos demoraram um mês a validar os resultados. Mas validaram-nos – e nisso não verá o ministro Santos Silva qualquer ofensa à democracia, a legítima, a que proporciona os resultados que os democratas sem mácula consideram apropriados ao país.

     

    Paraguai


    Depois, em 2011, chegou a vez do Paraguai, onde um ex-bispo católico, à frente de uma vasta coligação progressista, teve a inusitada coragem de enfrentar séculos de poder dos terratenientes, os latifundiários.

    O que foi ele fazer!?... Sob a batuta da embaixadora norte-americana, logo no Parlamento houve quem encontrasse maneira de transformar maiorias em minorias, legitimidade em impeachment presidencial; o ex-bispo retirou-se, substituído pelo seu vice-presidente, e o fascismo banqueiro e latifundiário reinstalou-se, um pouco mais benévolo que o do carniceiro Stroessner, mas fascismo social, militar, sob capa política «democrática». Nada que ofenda as sensibilidades do homem das Necessidades e dos seus parceiros de Lisboa a Budapeste, de Bruxelas a Varsóvia.

     

    Equador, Brasil


    A embaixadora norte-americana transitou de Assunción para Brasília e em terras brasileiras o Congresso, sintonizado com uma justiça muito justiceira, declarou o impeachment da presidenta e o vice-presidente subiu de posto.

    Os acontecimentos daí resultantes, iniciados em fins de 2015, ainda estão em curso com novas e profícuas benfeitorias para a democracia, moldada esta em forma de Bolsonaro com o mesmo barro de que foi feito Trump. E para isso foi mesmo preciso prender Lula da Silva para não ganhar as eleições, uma vez que não tinha rival por próximo.

    Em paralelo, o presidente progressista do Equador foi posto de lado e a contas com a justiça enquanto o seu vice-presidente assumia funções e foi agora um dos primeiros a dar a mão a Guaidó contra Maduro, o «usurpador».

    Verdadeiramente independentes e soberanos, sobraram, na América Latina, a Bolívia – sempre sob várias ameaças – Nicarágua, Cuba e a Venezuela. A «troika da tirania», como tão apropriadamente a baptizou, recentemente, o conselheiro para a Segurança Nacional da administração de Donald Trump, John Bolton.

    É contra esses países, e também contra o México, que agora se desviou perigosamente do guião, que está em curso a operação «restaurar a democracia». E o Brasil, o Paraguai, as Honduras e o Equador são bons exemplos de «democracias restauradas».

     

    Petróleo e democracia


    É um dogma: petróleo e democracia andam sempre de mãos dadas. E a relação é directamente proporcional, portanto quanto mais petróleo, mais democracia.

    Sabemos bem que assim é. Na Arábia Saudita, por exemplo, onde existem as segundas maiores reservas petrolíferas; e no Koweit e Emirados Árabes Unidos, sétimo e oitavo no ranking dos mais dotados, como pode apurar-se na página 12 da publicação BP Statistical.

    Conhecemos igualmente os casos de países onde não havia democracia e agora ela jorra abundantemente, para não haver infracções ao dogma que rege as coisas do mundo. Por exemplo, no Iraque e na Líbia, quintas e nonas maiores reservas mundiais, onde apropriadas guerras «restauraram a democracia» para franquear o acesso livre às riquezas do subsolo.

    Mas houve e há casos onde abunda o petróleo e faltava, ou ainda falta, a inerente democracia que determina a sua partilha segundo o modelo transnacional.

    Era assim no Brasil e no Equador, mas o problema está em vias de resolução. Sobretudo no Brasil, onde nos tempos de Lula da Silva foram detectadas reservas de petróleo que catapultaram o país para um surpreendente e apetitoso terceiro lugar do ranking – 200 mil milhões de barris, menos 66 mil milhões que a Arábia Saudita. Uma riqueza fabulosa que corria o risco de ficar ao serviço dos interesses egoístas do povo do Brasil, e não da grande irmandade mundial.

    Como todos acabamos de perceber, agora que a Petrobrás vai a caminho do grande leilão mundial, a democracia e o petróleo deram as mãos também no Brasil. Tal como no Equador, pouco falado mas ainda assim o 19º país em reservas petrolíferas, do mesmo nível das que estão detectadas no México – onde a empresa pública petroleira, a Pemex, continua sob pressão para deixar de o ser.

    Mas há um país onde existe uma situação intolerável, um caso em que o governo teima em manter nas mãos da população o usufruto das riquezas petrolíferas. E que riquezas!

    Nada mais, nada menos, que a maior potência do mundo em reservas petrolíferas, com 300 mil milhões de barris, mais 37 mil milhões que a famosíssima Arábia Saudita, mais cem mil milhões que o Brasil.

    A Venezuela!

    Tanta riqueza não pode estar apenas na mão do povo de um país. É reparti-la, entregá-la às transnacionais que verdadeiramente conhecem o sector e o fazem verter para o mundo inteiro, tão democraticamente como ordenam o mercado e a inquestionável ordem neoliberal.

    E o mercado é oprimido na Venezuela. Torna-se necessário «restaurar a democracia» para que ele se sinta livre e o petróleo jorre para todos. É simplesmente o que está a acontecer pelas mãos do eleito Guaidó, embora ninguém o tenha elegido para o cargo que ocupa e do qual se permite fazer ultimatos aos «usurpadores».

     

    Lei eleitoral à medida


    Juan Guaidó demonstrou, nas últimas horas, estar compenetrado do seu papel. E também ele dá ordens ao governo legítimo, tal como os senhores do mundo e da democracia, mas a genuína: ele exige eleições, mas que não sejam realizadas segundo o sistema legal em vigor mas com outro – que ele e os mentores externos ditarão, tal como mandam que se realizem eleições para que o golpe seja perfeito, isto é, não pareça um golpe.

    Pelo que tem vindo a perceber-se, os interesses que fizeram avançar Guaidó já demonstraram que a sua democracia se constrói à base de ultimatos, arbitrariedades e jogos fraudulentos entre os conceitos de legitimidade e ilegitimidade.

    Deduz-se, por isso, que não excluirão quaisquer meios para atingir os objectivos que já estabeleceram entre si.

    Um deles é o recurso à agressão militar. Não tardará que Guaidó, fazendo uso dos poderes que lhe foram conferidos por interesses externos, chame países «amigos» como o Brasil, a Colômbia – que é parceiro da NATO – ou o Paraguai, para que reponham a «ordem democrática».

     Talvez, por este caminho, as pretendidas eleições decorram manu militari, como na Ucrânia, onde os resultados foram tão bons.
    Ou talvez não.

    Pode acontecer que as instâncias legítimas da Venezuela e o povo resistam às agressões, sejam elas políticas ou militares. E que não entreguem sem lutar o que tanto custou a conquistar.

    Se os poderes externos insistirem, no horizonte está o pior dos pesadelos de um país, a guerra civil.
    Daí à carnificina não será preciso dar mais qualquer passo. Temos ainda diante de nós o caso da Síria, que se iniciou na sequência de ultimatos impostos a um governo legítimo e soberano, na sequência de manifestações orquestradas do exterior – como está abundantemente provado.

    Ou, em alternativa, no horizonte está também a imposição de um regime fascista de onde nascerá, radiosa, a democracia.

    Pode ainda acontecer, no limite, que o presidente legitimamente em funções na Venezuela, fazendo uso dos poderes que a Constituição lhe confere, peça socorro a países amigos, que os tem.

    Não será difícil vaticinar que tempos dolorosos se avizinham da Venezuela e dos povos da América Latina.

    Mais difícil será prever como tudo irá acabar. E que nunca mais nenhum governo da União Europeia tenha o desplante e a ousadia de queixar-se dos crimes de Donald Trump.

    Para todos os efeitos, já são conhecidos alguns responsáveis pelo que vier a acontecer. E o governo português não estará isento da sua quota-parte. A comunidade portuguesa na Venezuela bem poderá queixar-se da armadilha que lhe foi montada pelos que mandam em Lisboa.

    • 1. Em 2017 passou desapercebida uma notícia transmitida pela Reuters sobre a realização na Venezuela, nos meios ligados à oposição de direita, de sessões de cinema onde se passava um documentário favorável ao golpe de Maidan, com o objectivo de ensinar aos jovens direitistas venezuelanos as técnicas de armamento e a táctica de luta de rua utilizada pelos grupos pró-Maidan. A notícia não informa a mão generosa que propiciou tal peça formativa, mas não é difícil adivinhar.
    aqui:https://www.abrilabril.pt/internacional/uniao-europeia-ao-lado-de-trump-contra-venezuela

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