quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Alucinações circulatórias da moeda e do capital fechando o ciclo


por José Martins [*]
 
Marx lembrava com satisfação, na Introdução à Crítica da Economia Política, a inspiradíssima frase de lorde Gladstone – o mais poderoso político e primeiro-ministro inglês da imperialista era vitoriana: "…nem mesmo o amor levou tanta gente à loucura como as cogitações sobre a essência da moeda…"

Acontece que, na última semana, mais de cento e cinquenta anos depois da morte do poderoso lorde britânico, sua frase reapareceu com cintilante atualidade nas cogitações dos economistas do sistema sobre estranhos movimentos ocorridos na variação dos "preços do dinheiro" (juros) na maior economia do planeta.

O foco do mercado saiu momentaneamente da política monetária e da popular taxa básica de juros do Federal Reserve Bank (Fed, banco central dos EUA). Ou mesmo das oscilações das principais moedas globais, do preço do ouro, etc.

Nesta semana aconteceram coisas mais preocupantes para a ordem e o progresso capitalista em todo o mundo. De repente, todas as atenções dos homens do mercado deslocaram-se para as curvas de juros (yelds) dos títulos de dívida dos governos nas principais economias do mundo; dos EUA, principalmente.

Da moeda para a quase-moeda. Ora, trata-se aqui justamente de um território da acumulação do capital como um todo (produção e circulação) em que a essência da moeda está mais longe do entendimento dos capitalistas e seus limitados economistas que em todas suas outras formas de aparecimento.

Muito mais distante ainda do entendimento das pessoas comuns em todo o mundo, que não têm a menor ideia nem do que sejam essas quase-moedas dos governos e outras misteriosas formas do valor.

Mesmo assim assistiram atônitos, no decorrer desta nesta semana, nos noticiários de televisão do horário nobre, os apresentadores informarem em tom grave de voz e testas franzidas de preocupação que estava ocorrendo uma inversão na curva de rendimentos dos títulos de 10 anos e de 2 anos do tesouro dos EUA !!!

Infelizmente, para o grande público da cidade global os movimentos materiais envelopados em categorias da economia política são muito mais difíceis de serem didaticamente esclarecidos que as encenações da política e de outras formas religiosas da civilização.

De todo modo, o mundo não para. Às vezes até acelera. Como nesta semana, quando aconteceu uma sucessão de fatos incríveis no processo de circulação do  dinheiro-capital para a definição da data e da profundidade da explosão da próxima crise de superprodução do capital global.

Observemos inicialmente a superficialidade dos fenômenos. Por volta das 14 horas de quinta feira (15) o rendimento da nota de 10 anos do Tesouro, que se move inversamente ao seu preço de venda, atingiu uma baixa de três anos na marca de 1,467%, abaixo do rendimento dos títulos a 2 anos de 1,475%, seu nível mais baixo desde outubro de 2017.

Ocorria então aquela incomum e perigosa inversão da curva de rendimentos de um título de longo prazo (10 anos) e de um de curto prazo (2 anos). Isto representa no fechado mundo da economia um paradoxo no fluxo natural do capital produtor de juros e, claro, uma grande preocupação no mercado.

Não é nem um pouco natural que os capitalistas passem a ser mais bem remunerados por emprestar ao governo dos EUA pelo prazo de 2 anos do que pelo prazo de 10 anos.

Essa inversão da curva de rendimentos não foi um fato isolado. Ocorreu simultaneamente a outra sinalização também muito importante para a definição do próximo choque periódico e crise do capital.

Além das peripécias dos títulos de 10 e de 2 anos, pela primeira vez na história os títulos de 30 anos do Tesouro dos EUA estavam pagando um rendimento abaixo de 2,0%, cravando 1,961%, após cair para até 1,941%. Veja no gráfico abaixo a evolução de longo prazo deste rendimento dos títulos de 30 anos.

Em 1989, os títulos de 30 anos do tesouro dos EUA pagava 10%. Na semana passada estava pagando menos de 2%. Essa queda histórica nos rendimentos dos títulos de longo prazo dos EUA é observada com muita preocupação pelos capitalistas. Por duas razões principais.

A primeira, porque a inversão dessa parte-chave da curva de juros tem sido historicamente um indicador que se repetiu e que antecipou a aproximação de todos (absolutamente todos) os choques cíclicos do pós-guerra, chamados de "recessão" pelos economistas vulgares.

A segunda preocupação é com o fato de que crescentes pressões cíclicas sobre o processo de produção e acumulação mundial levaram os capitalistas a tanto medo do seu futuro, no curto-prazo, que o estoque mundial dos títulos dos governos negociados a taxas negativas de rendimentos elevou-se exponencialmente em todo o mundo para um novo recorde dos últimos setenta anos.

O normal do mercado é que os capitalistas emprestem seu dinheiro ao governo com a promessa de ser pago de volta, acrescidos com juros, na data do vencimento. Juros positivos, portanto. Mas agora, à medida que os capitalistas se tornam cada vez mais desesperadas por um "porto seguro" para sua propriedade privada ameaçada pela próxima crise são os governos de grandes economias que são remunerados ao tomar dinheiro emprestado. Com juros negativos!

Essa história de juros negativos é muito menos normal do que aquela inversão da curva de rendimentos entre títulos de longo e de curto prazo observada acima.

Mesmo alguns bancos privados europeus já oferecem empréstimos aos seus fregueses com juros negativos. Você toma emprestado 10 euros agora e paga 9 euros daqui 10 anos. Dá para acreditar? Mesmo assim, pouca gente aparece para aproveitar essa "generosidade".

Assim, se aprofunda velozmente e se amplia neste final de ciclo econômico a clássica armadilha da liquidez  , na qual as taxas de juros cada vez mais baixas tornam-se, ao mesmo tempo, as maiores do mundo. O sistema de crédito desaparece.

Esse bizarro fenômeno ocorre na medida em que as pressões deflacionárias nos preços e lucros mundiais das mercadorias-capital dão o sinal de alerta aos capitalistas sobre uma nova e iminente interrupção da acumulação em todas as esferas da circulação capitalista.

A armadilha da liquidez, o desaparecimento do crédito e, finalmente, o derretimento da moeda, é resultado de um processo deflacionário de preços que se alastra por todo o mercado mundial.

Cerca de US$ 15 trilhões de títulos do governo em todo o mundo, ou 25% do mercado, já são negociados a taxas negativas, segundo o Deutsche Bank. Este número quase triplicou desde outubro do ano passado.

Acontece, neste exato momento, um processo inédito de armadilha da liquidez e deflação global no período pós-guerra. Nota-se no gráfico acima o importante fato que esse processo de entrada do capital produtor de juros no território dos rendimentos negativos inicia-se mundialmente no mês de agosto de 2014. Timidamente, até o início de 2016, acelerando-se nos anos seguintes. Finalmente, como já observado acima, o volume deste  entesouramento  é triplicado desde outubro do ano passado.

Deve ser devidamente registrado o seguinte: o fato de este fenômeno ser inédito nos últimos setenta e cinco anos ter ocorrido apenas recentemente, a partir de 2014, é muito importante para a análise da forma e magnitude específicas da iminente crise global.

Os bancos centrais globais têm afrouxado sua política monetária em níveis sem precedentes nos últimos setenta anos, com a dívida pública se expandindo descontroladamente na Europa e no Japão com taxas de juros zero ou negativas. Uma superprodução de moeda e de crédito para segurar os preços de produção das mercadorias-capital.

O montante da dívida global com rendimentos negativos continua a crescer e, à medida que os bancos centrais tentam reagir e se proteger da grande crise global que se aproxima eles contribuem para um declínio ainda maior nos rendimentos dos títulos.

Na Alemanha e sua poderosa economia industrial os títulos do governo de 30 anos foram negativos pela primeira vez na semana passada.

Agora, com a mais do que provável entrada dos títulos públicos estadunidenses nesta contabilidade da massa de títulos negociados com taxas de juros negativas, pode-se imaginar que essa bastarda massa de capital passaria a representar instantaneamente não mais apenas 25%, mas de 50 a 70% do total deste títulos públicos em todo o mundo.

Além desta gigantesca e inédita migração de massas de capital com taxas de juros negativas para os títulos públicos de longo prazo das principais economias vislumbra-se também a extensão e a violência da destruição de capital que deve ocorrer no período de crise que se aproxima. Uma massa de capital de aproximadamente US$ 30 trilhões a ponto de ser instantaneamente incinerada.

Em outras palavras, é bastante elevada a probabilidade da próxima reversão do período atual de expansão do ciclo para o próximo período de crise desembocar diretamente em uma crise geral ou catastrófica, como descrita por Rosa de Luxemburgo.

Uma crise catastrófica da economia mundial também seria inédita no período pós guerra dos últimos 75 anos. O mundo viraria de ponta-cabeça. Tudo se tornaria possível.

No mês passado, o presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi botou mais lenha na fogueira. Sinalizou, do mesmo modo que o Fed vem sinalizando nas duas últimas semanas, que o BCE reduzirá ainda mais as taxas de juros antes do final do ano, já que "um grau significativo de estímulo monetário continua sendo necessário para garantir condições financeiras favoráveis e apoiar a expansão da zona do euro".

Ao tentar salvar as condições financeiras do sistema ameaçadas pela derrocada econômica na produção de valor e de mais-valia os capitalistas destroem antes o seu sistema monetário e de crédito público.

É por isso que todas as crises periódicas de superprodução de capital são abertas por uma crise financeira, antes mesmo de alcançar a esfera produtiva e comercial. Este roteiro da realização da crise mistifica ainda mais as suas causas. Para os economistas em geral a crise econômica será sempre apenas mais uma crise meramente financeira ou de crédito.

Na maneira mais sofisticada desta mistificação, no caso dos marxistas keynesianos, será sempre uma crise de sobre-acumulação, não de superprodução de capital. Tudo é um problema circulatório. Relembrando mais uma vez Rosa de Luxemburgo, estes "epígonos de Marx" estacionaram no livro 2 de O Capital (o Processo de Circulação do Capital) e esqueceram de ler a sequência no Livro 3 (Processo de Conjunto da Produção e Circulação do Capital).

Na raiz destas dificuldades teóricas (com danosas consequências práticas) encontra-se a confusão que todos esses economistas vulgares fazem da relação orgânica entre  dinheiro-capital, de um lado, e, de outro lado, capital-dinheiro. O primeiro é capital produtor de juro, o segundo é capital produtor de lucro. Daí todos esses revisionismos teóricos dos marxistas do século 21 como "financeirização do capital" e outras asneiras.

Acontece que na dinâmica econômica, estritamente delimitada pelo ciclo periódico de superprodução e crise do capital, a lei da gravidade (ou do valor) da economia sempre se impõe sobre a desmesurada superprodução de juros ocorrida no período de expansão. Como deflação dos preços mundiais e abrupta redução da autonomia relativa da esfera financeira, além da sagrada autonomia igualmente relativa da política econômica dos governos.

Em um ciclo econômico completo, a grande massa da superprodução de capital criada no período expansivo consiste deste dinheiro-capital ou (capital-fictício) que, nas fases finais de encerramento do ciclo, como agora, perde progressivamente sua autonomia relativa frente à produção de valor e de mais-valia e se desvaloriza abruptamente.

Antecipa-se assim, na forma de uma crise de crédito e de uma gigantesca queima de capital, que ora se avizinha, a paralização da produção e a depressão econômica propriamente dita.

A maior parte deste entesouramento de mais de US$ 15 trilhões detectado pelo Deutsche Bank é de dinheiro-capital, capital produtor de juros, que migra em quase sua totalidade de uma infinidade de ativos financeiros do mercado de capitais, sistema bancário, etc., para o "porto seguro" dos títulos públicos.

Neste mês de agosto de 2019, este corrosivo processo de superprodução do conjunto do capital se aproxima de seu desenlace na medida exata em que os rendimentos ainda positivos dos títulos públicos dos EUA também se aproximam, como vimos acima, das taxas negativas que já toma conta das principais economias mundiais.

Anuncia-se inédita e planetária queima de capital. É exatamente nesta tão esperada revelação que reside a grande importância dos fatos ocorridos nesta semana com os enlouquecedores e essenciais movimentos da moeda na maior potência econômica do planeta e no resto do mundo.
18/Agosto/2019
 
[*] Economista.

Ver também:
  • Capital fictício
  • A atualidade de Marx face à financeirização: capital fictício, divida e juro
  • Crise: algumas perguntas e respostas

  • La crisis global y el capital ficticio

    O original encontra-se em criticadaeconomia.com/...


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .  
  • quarta-feira, 14 de agosto de 2019

    O fracasso total da diplomacia de Washington


    por Strategic Culture Foundation
     
    Cartoon iraniano. Aparentemente já não há qualquer tentativa, ou simulacro, de diplomacia por parte de Washington. Sanções e agressões são exercidas com descaramento. A Rússia, a China e mesmo os supostos aliados europeus dos Estados Unidos são sujeitos a sanções por Washington – numa rejeição arrogante a qualquer diálogo para resolver alegados diferendos.

    O presidente dos EUA, Donald Trump, evoluiu para uma certa atitude maximalista estridente nas relações internacionais. Ela pode ser resumida assim: do meu modo ou de modo nenhum.

    Um exemplo recente é a imposição de sanções ao ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Mohammad Javad Zarif. Isto indica que os EUA amputaram qualquer possibilidade de uma desescalada negociada de tensões no Golfo Pérsico.

    Zarif, do Irão, revelou nesta semana que quando estava numa visita diplomática aos EUA no mês passado foi-lhe dito por autoridades que era aguardado na Casa Branca para uma reunião com o presidente Trump. Se Zarif recusasse a "oferta" ele seria então colocado numa lista de sanções, informaram-no. Sob estas circunstâncias de coerção aparente o principal diplomata iraniano declinou o convite, só para descobrir posteriormente que fora na verdade punido com sanções. Que espécie de diplomacia americana é esta? Soa como uma oferta do tipo máfia, que não pode ser recusada.

    Esta abordagem "diplomática" com mão pesada sugere que não há de facto diplomacia alguma proveniente de Washington. O presidente Trump twittou na semana passada que o seu governo estava a "ficar sem opções" em relação ao Irão quanto às crescentes tensões no Golfo Pérsico. Parece que a Casa Branca está a "oferecer" falsas tentativas de negociação, enquanto ao mesmo tempo monta opções militares para atacar o Irão.

    Outro exemplo de diplomacia fracassada foi a renúncia, esta semana, do embaixador dos EUA na Rússia, John Huntsman. Ele abandonou o cargo em parte por frustração com a inutilidade de seu dever diplomático de facilitar o diálogo bilateral com Moscovo. A tarefa de Huntsman tornou-se insustentável devido ao maníaco animo anti-russo agora entranhado em Washington, pelo qual qualquer tentativa de diálogo é retratada como uma espécie de "acto de traição".

    Outro exemplo de repúdio da diplomacia pelos EUA é a ordem executiva de Trump esta semana de impor um embargo comercial total à Venezuela. Aquele país sul-americano está efectivamente a ser submetido à fome para submeter-se a Washington e aceitar que o presidente eleito Nicolas Maduro se retire, de acordo com o ditame dos EUA, a fim de permitir que um duvidoso político da oposição apoiado pelos EUA tome as rédeas do poder em Caracas.

    Estes exemplos, entre muitos outros, demonstram que Washington não tem intenção de buscar um discurso diplomático com outras nações e está totalmente empenhado em emitir ditames – ou utilizar outros meios; a fim de alcançar seus objectivos geopolíticos.

    O mais chocante e perigoso é que Washington está a operar na base do ultimato da soma zero. As premissas para os seus ditames são invariavelmente infundadas ou irracionais. A Rússia é tratada como um Estado pária por alegações bizarras de interferência nas eleições dos EUA; o Irão é tratado como um estado pária sob alegações vazias acerca de uma agressão iraniana; a Venezuela é tratada como um Estado pária com alegações contra um presidente eleito. A China é caluniada com alegações de ser um "manipulador da divisa". A Europa supostamente estaria "a aproveitar" os termos comerciais dos EUA. E assim por diante. É a tirania enlouquecida.

    O padrão do direito internacional e as normas da diplomacia estão a ser jogados no lixo do modo mais deliberado e selvagem possível, puramente na base do capricho americano e na sua agenda em causa própria de dominação.

    Esta é uma situação global extremamente perigosa, pois o viés político americano e o preconceito irracional estão a ser tornados padrão ao invés dos princípios do direito internacional e da soberania das nações. Não há diplomacia absolutamente nenhuma. Só a notificação das exigências americanas de obediência ao ditame irracional de Washington para satisfazer seus anseios de hegemonia.

    Não há outro meio de descrever a presente ilegalidade global do assumido poder americano e do seu farisaísmo senão considerá-la como uma forma de fascismo de estado-pária com esteróides.

    Quando a diplomacia, as negociações, o diálogo e o respeito pela soberania são totalmente desrespeitados por Washington – cuja única resposta são as sanções e a agressão militar – então deveríamos saber que a presente descrição do poder americano não é uma hipérbole. É uma descrição da realidade lamentável de que a diplomacia americana não existe mais. Está a tornar-se passado a possibilidade de conduzir relações normais com esse regime paranóico e sem lei. Um estado pária nuclear, também, capaz de destruir o planeta num capricho ou num impulso paranóico do seu cérebro doentio.

    Poderão os cidadãos americanos controlar um regime tão errático e irracional? O tempo dirá. Mas uma coisa parece certa, a paz mundial é continuamente ameaçada pelo regime de Washington, o qual opera dentro do seu próprio reino de fantasia e megalomania criminal.

    Está claro que a diplomacia dos EUA é um fracasso absoluto. Porque, na tortuosa megalomania guerreira de Washington, a diplomacia parece ter-se tornado totalmente irrelevante. O que é isso senão fascismo?
    09/Agosto/2019 
     
    O original encontra-se em
    www.strategic-culture.org/news/2019/08/09/washingtons-utterly-failed-diplomacy/


    Este editorial encontra-se em http://resistir.info/


    aqui:https://www.resistir.info/eua/fracasso_09ago19.html 

    segunda-feira, 12 de agosto de 2019

    Assange na prisão é "tratado pior do que um assassino"


    por John Pilger
    O imperialismo quer crucificar Assange, cartoon de Fernão Campos Julian Assange está a sofrer de uma saúde fraca em consequência do mau tratamento na prisão, de acordo com o jornalista John Pilger que recentemente visitou o fundador da WikiLeaks.

    Ao descrever as condições "em deterioração" de Assange, Pilger afirmou que ele está a ser tratado "pior do que um assassino" no presídio de Belmarsh, em Londres.

    "Ele está isolado, medicado e são-lhe negadas as ferramentas para combater as falsas acusações relativas a uma extradição para os EUA. Agora temo por ele. Não o esqueçam", escreveu Pilger em mensagem no seu twitter .

    E acrescenta:   "Ao visitá-lo vislumbrei o tratamento bárbaro que lhe é aplicado, com isolamento, negação de exercício adequado, de acesso à biblioteca, ao computador portátil. Ele não pode preparar a sua defesa. Ele está mesmo impedido de efectuar telefonemas aos seus advogados nos EUA. Em 4 de Junho o seu advogado britânico escreveu ao governador. [A resposta foi] silêncio. Tudo fora da lei.

    Assange foi preso na Embaixada equatoriana em Londres no dia 11 de Abril e recebeu uma sentença de 50 semanas por fugir da liberdade condicional numa investigação sueca que envolvia um alegado assalto sexual.

    Agora com 48 anos, Assange enfrenta extradição para os Estados Unidos, onde é acusado de posse e disseminação de informação classificada. Se for considerado culpado pode receber uma sentença de até 175 anos de prisão.

    Assange tem estado na mira de Washington desde há anos, com a sua organização a ganhar notoriedade depois de publicar um vídeo que mostrava militares dos EUA a atacar jornalistas e civis no Iraque em Julho de 2007.
     

    Ver também:

  • 'Slow, cruel assassination': Assange's mother blasts US & UK for treatment of whistleblower ("Assassínio lento e cruel": a mãe de Assange amaldiçoa os EUA & Reino Unido pelo tratamento do denunciante)
  • Julian Assange faces 'TORTURE' if extradited to US – UN rapporteur warns (Julian Assange enfrenta tortura se extraditado para os EUA, adverte relator da ONU)

  • UN expert criticizes States for ‘ganging up’ on Wikileaks’ Assange; warns against extradition, fearing ‘serious’ rights violations (Perito da ONU critica Estados por conspirarem acerca de Assange; manifesta-se contra a extradição, temendo graves violações de direitos humanos)

    O original encontra-se em www.rt.com/news/466039-assange-pilger-prison-treatment-fear/


    Este texto encontra-se em http://resistir.info/ .
  • terça-feira, 30 de julho de 2019

    Revelações sobre os atentados de 2004 e 2017 em Espanha

    por
    As recentes revelações sobre os atentados sobrevindos em Barcelona e em Cambrils em 2017 —tal como as anteriores sobre o atentado de 2004 em Madrid— suscitam exactamente as mesmas legítimas questões que as colocadas em outros países a propósito de outros atentados. Porquê, por todo o lado, os terroristas islamistas aparecem ligados à OTAN ?

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    Em 15 de Julho de 2019, o quotidiano republicano espanhol, Público, publicava, sob a assinatura de Carlos Enrique Bayo, o início de uma investigação, em quatro partes, sobre as relações entre o cérebro dos atentados de Catalunha de 2017 e os Serviços Secretos espanhóis [1].
    Em Espanha, a espionagem e a contra-espionagem derivam de uma única instituição, o CNI (Centro Nacional de Inteligencia). Muito embora ele dependa administrativamente do Ministério da Defesa, o seu director tem o nível protocolar de ministro.
    Os documentos publicados pelo quotidiano atestam que, contrariamente à versão oficial, o Imã de Ripoll, o Marroquino Abdelbaki Es-Satty,
    - estava já radicalizado há muito tempo ;
    - que ele havia sido recrutado como informador pelos Serviços de Inteligência ;
    - que estes haviam falsificado o seu dossier na Justiça, para lhe evitar a expulsão, na sequência da sua condenação por tráfico de drogas ;
    - que um «um esconderijo secreto para mensagens» lhe tinha sido atribuído para tratar com o seu oficial a cargo ;
    - e que os telefones dos seus cúmplices eram escutados.
    Acima de tudo, eles atestam que :
    - o CNI seguia passo a passo os terroristas ;
    - conhecia os alvos para os atentados ;
    - e mantinha a vigilância, pelo menos quatro dias, antes da data em que os crimes foram cometidos.
    Porquê é que o CNI não impediu estes atentados ?
    Porquê é que escondeu o que sabia ?
    Porquê é que já tinha em 2008 —quer dizer antes do recrutamento de Abdelbaki Es-Satty como informador — escondido elementos à Guarda Civil a fim de o proteger da investigação sobre o atentado de Madrid de 11 de Março de 2004 (dito «11-M») ?
    Com efeito, Es-Satty estava já implicado na «Operação Chacal», o que o ligava aos atentados de Casablanca de 16 de Maio de 2003 [2], assim como ainda a um outro no Iraque contra as forças italianas [3].
    Estas revelações trazem à memória os acontecimentos do 11-M, o mais gigantesco atentado sobrevindo na Europa após o 11 de Setembro de 2001, que provocou cerca de 200 mortos e 2. 000 feridos. Ora, se os executantes desta operação foram realmente julgados, continua a ignorar-se quem foram os comanditários.
    - Acontece que a maior parte dos executantes eram informadores da polícia ;
    - A OTAN realizou secretamente em Madrid, na véspera do atentado, um exercício em que o cenário era o mesmo do atentado [4] — cenário que não podia ser do conhecimento dos terroristas muito embora eles o tenham representado ;
    - Uma importante equipa da CIA deixou precipitadamente a Espanha no dia seguinte ao atentado [5].
    Atribuiu-se então primeiro este atentado aos independentistas vascos da ETA, depois aos islamistas.
    Nós tínhamos publicado uma investigação de Mathieu Miquel a este propósito. Aí, ele mostrava a solidez da hipótese de ter sido uma operação da OTAN sob falsa-bandeira [6].
    Muito embora involuntariamente, esta foi confirmada pelo muito atlantista antigo Primeiro-ministro José-Maria Aznar. No início da «Primavera Árabe», ele revelou que o chefe da Alcaida na Líbia, Aldelhakim Belhaj, estava implicado no atentado do 11-M, mas não tinha podido ser preso e julgado [7]. Ora, este havia-se tornado com a ajuda da OTAN o governador militar de Tripoli. Depois, de acordo com o diário monárquico espanhol ABC, ele «deslocou-se para a Síria para "ajudar" a revolução», na verdade, de facto, para criar o Exército sírio livre por conta da França [8] ; Segundo o Embaixador russo no Conselho de Segurança, Vitali Tchurkine, Belhaj e os seus homens haviam sido transportados da Líbia para a Turquia pela ONU sob cobertura da assistência aos refugiados ; Segundo um pedido do Procurador-geral do Egipto, Hichem Baraket, à Interpol, tornara-se Emir do Daesh(EI) para o Magrebe em 2015 [9]. Ele governa hoje em dia o Leste da Líbia com o apoio militar da Turquia e do Catar e, o político, das Nações Unidas.
    Recordemos que os historiadores estabeleceram a responsabilidade da OTAN durante a Guerra Fria pelos assassínios, atentados e Golpes de Estado nos Países membros da Aliança [10]. Segundo a literatura interna da Aliança, os Serviços Secretos da OTAN estavam colocados sob a responsabilidade conjunta do MI6 britânico e da CIA norte-americana.
    Regressemos aos atentados da Catalunha. Segundo os documentos do Público, o Imã de Ripoll, Abdelbaki Es-Satty, tinha-se radicalizado há muito tempo, o que o CNI tinha negado até aqui. Ele militava no seio do Ansar al-Islam, um grupo que se fundiu progressivamente no Estado Islâmico do Iraque, esse mesmo tendo-se tornado no Daesh (E.I.).
    Ora, o Ansar al-Islam foi liderado pelo Mullá curdo Krekar. Este está hoje confinado em prisão domiciliar na Noruega. No entanto, de acordo com o quotidiano curdo Turco Özgür Gündem (actualmente fechado por ordem do Presidente Erdogan), a CIA organizou uma reunião secreta em Amã (Jordânia) para planear (planejar-br) a conquista do Iraque pelo Daesh (EI) [11]. O jornal publicou um relatório dos Serviços Secretos turcos que o PKK lhes havia roubado. Parece que o Mullá Krekar, então sob prisão, participara nela. Ele viera da Noruega, num avião especial da OTAN, e depois foi silenciosamente devolvido à sua prisão.
    Este caso provocou grande agitação em Espanha onde o Parlamento da Catalunha criou uma comissão de inquérito sobre os atentados, e onde o Ensemble para a Catalunha (o partido independentista de Carles Puigdemont) encharcou de perguntas o governo de Pedro Sánchez no Congresso dos Deputados.
    Os independentistas catalães sugerem que o Governo espanhol deliberadamente permitiu que fosse cometido o atentado contra a população catalã. É certamente politicamente hábil, mas não passa de uma conjectura difamatória.
    Os factos —e nós atemo-nos a eles— são que nestes atentados em Espanha como num enorme número de atentados islamistas, no Ocidente e no mundo árabe :
    - geralmente elementos do aparelho de Estado estavam com antecedência muitíssimo bem informados ;
    - os terroristas estavam sempre ligados à OTAN.
    É claro, tudo isto pode não passar de puras coincidências, mas desde 2001 elas repetem-se uma e outra vez, quaisquer que sejam o lugar e os protagonistas.
    Tradução
    Alva
    [2] Les attentats de Casablanca et le complot du 11 septembre, Omar Mounir, Marsam, 2004.
    [3] “The Road to Las Ramblas”, Zach Campbell, The Intercept, September 3, 2018.
    [4] « La OTAN simuló un atentado en Europa con 200 muertos », Carlos Segovia, El Mundo, 14 de marzo de 2004.
    [6] « 11 mars 2004 à Madrid : était-ce vraiment un attentat islamiste ? », « Attentats de Madrid : l’hypothèse atlantiste », Mathieu Miquel, Réseau Voltaire, 11 octobre et 6 novembre 2009.
    [8] «Islamistas libios se desplazan a Siria para "ayudar" a la revolución», Daniel Iriarte, ABC, Red Voltaire, 17 de diciembre de 2011.
    [9] “Segundo a Interpol, Abdelhakim Belhaj é o chefe do Emirado Islâmico no Magrebe”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 26 de Fevereiro de 2015.
    [10] NATO’s secret armies: operation Gladio and terrorism in Western Europe, Daniele Ganser, Routledge, 2005.
    [11] « Yer : Amman, Tarih : 1, Konu : Musul », Akif Serhat, Özgür Gündem, 6 juillet 2014.

    aqui:https://www.voltairenet.org/article207158.html

    sexta-feira, 5 de julho de 2019

    Novos hierarcas não eleitos da UE darão continuidade à desordem actual

    por John Laughland [*]
     
    Os novos senhores da UE. Apesar de tudo o que aconteceu na UE nos últimos cinco anos, os seus estados membros resolveram seleccionar quatro políticos que encarnam a continuidade total com todas as políticas que levaram a UE à desordem actual.

    Nenhuma das recentes calamidades persuadiu o bloco a alterar, ainda que ligeiramente, a sua rota. Nem a ascensão de partidos anti-sistema na Itália, Alemanha, França, Finlândia e alhures. Nem a ascensão de forças [ditas] patrióticas na Polónia e na Hungria. E nem o Brexit, o qual em termos económicos é o equivalente à perda não de um estado membro mas sim de 20 – e que destruirá as actuais disposições orçamentais da UE.

    Os quatro homens e mulheres cujas nomeações foram marteladas na terça-feira estão todos determinados a criar uns "Estados Unidos da Europa" (para citar a futura nova presidente da Comissão Europeia, Ursula von de Leyen) e portanto a prosseguir exactamente com a mesma integração europeia que está a provocar tanta tensão interna em estados membros da UE e suas instituições. Além disso, três dos quatro vêm dos estados nucleares da UE, os membros fundadores originais em 1951, sem nenhum da "nova Europa" no Leste ou no Centro da mesma. É como se, neste tempo de crise profunda, a UE quisesse retornar às suas fontes de cerca de 70 anos atrás, ao invés de reinventar-se novamente para enfrentar os novos desafios do século XXI.

    Ursula von de Leyen. O anúncio mais gritante é naturalmente o do lugar de topo, o da ministra da Defesa alemã Ursula von der Leyen como presidente da Comissão. Porque a Comissão tem um monopólio sobre todo o processo legislativo e executivo nas instituições da UE, este corpo é o motor que conduz toda a máquina. O parlamento, em comparação, é destituído de poderes. O facto de a Alemanha ter agora adquirido controle da mais importante instituição da UE é notável, nem que seja porque é a primeira vez que um alemão teve este posto desde o primeiro presidente da Comissão, Walter Hallstein, que ocupou o cargo entre 1958 e 1967. Nas décadas que decorreram, e especialmente desde 1990, a Alemanha emergiu como a potência hegemónica na UE e nada é decidido em Bruxelas sem o acordo de Berlim.

    A Alemanha também domina o Parlamento Europeu: quatro dos sete grupos no parlamento, e portanto mais de dois terços dos membros, são liderados por alemães. Quando Angela Merkel se prepara para deixar o gabinete em Berlim ela, portanto, pode estar certa de que o seu legado subsistirá, na verdade aumentará, em Bruxelas e em Estrasburgo, onde as instituições da UE serão controladas pelos seus aliados políticos mais próximos e seus herdeiros.

    A contribuição específica de Ursula von der Leyen, além da sua nacionalidade e do seu status como aliada estreita de Angela Merkel, é que uma apoiante comprometida não só do conceito de uma Europa federal como também de um exército da UE. Como ministra da Defesa, ela anteriormente anunciou planos para investir €130 mil milhões nos militares da Alemanha ao longo de 15 anos, bem como um aumento de 10 por cento em 2019 para subir este valor para €50 mil milhões. Se esta remilitarização for vestida com roupas "europeias", então as tensões da Guerra Fria no continente europeu só poderão crescer, algo que a sra. von der Leyen deseja claramente: ela é notória por ser um dos piores falcões anti-russos na Alemanha e na Europa.

    Dificilmente as coisas são melhores com a menos importante das quatro nomeações, aquela de Josep Borrell como chefe da política externa. Assim como von der Leyen disse que a Rússia já não é mais um parceiro, em Maio também Borrell descreveu a Rússia como "um velho inimigo". A Rússia convocou o embaixador espanhol em Moscovo ao Ministério dos Negócios Estrangeiros para protestar. Borrell partilha com von der Leyen uma crença dogmática mais auto-contraditória numa "defesa europeia compatível com a NATO". A NATO é na realidade dominada pelos Estados Unidos. E apesar de ele ter sido crítico da tentativa do governo estado-unidense de forças uma mudança de regime em Caracas, Borrell no entanto apoia o "reconhecimento" de Juan Guaidó como presidente da Venezuela: tal como sua posição sobre a defesa, este compromisso é também auto-contraditório porque se Guaidó fosse realmente o presidente legal da Venezuela, como proclama Borrell, então o jovem fantoche dos EUA teria todo o direito de remover Nicolas Maduro à força.

    Charles Michel, o novo presidente do Conselho Europeu, é o segundo belga a ter ocupado este posto essencialmente honorífico: Herman van Rompuy foi nomeado como o primeiro presidente em 2009 (o segundo foi Donald Tusk, Michel é o terceiro). Diz-se frequentemente da Bélgica que tem sete parlamentos mas nenhum estado: agora Michel terá 27 governo mas ainda nenhum estado. Seria difícil imaginar um político mais conformista do que Charles Michel: este criado liberal nunca pronunciou uma palavra original na sua vida. Além disso, tal como Ursula von der Leyen, ele tem a política da UE no sangue. Tal como Ernst Albrecht, pai de Ursula von der Leyen, o qual foi um responsável superior da Comissão Europeia antes de se tornar ministro presidente da Baixa Saxónia (Ursula nasceu em Bruxelas e frequentou a Escola Europeia), o pai de Charles Michel, Louis, foi um ministro dos Negócios Estrangeiros belga e comissário europeu. Duas das quatro nomeações de ontem são portanto dinásticas, enfatizando a casta – à semelhança da classe política europeia – à qual dever-se-ia talvez acrescentar Josep Borrell que é um antigo presidente do Parlamento Europeu e antigo presidente do Instituto da Universidade Europeia, em Florença.

    Em suma, nenhum dos quatro brilha como uma personalidade ao passo que vários deles têm sido envolvidos em escândalos financeiros – Borrell for deixar de declarar €300 mil por um trabalho de um ano em consultoria em 2012 e Lagarde por aprovar um pagamento do Estado a um amigo de Nicolas Sarkozy. Leyen tem sido muitas vezes acusada de incompetência como ministro, mais preocupada com o seu penteado perfeito do que em dirigir as forças armadas alemãs. Todos os quatro sobreviveram na política, na maior parte dos casos durante décadas, precisamente porque nunca se desviaram da linha do partido e ao invés chegaram onde estão fazendo como lhes dizem.

    Quanto ao homem eleito na quarta-feira como presidente do Parlamento Europeu, ele não tem poder de todo. O pouco poder que o Parlamento Europeu tem é o do interesse dos seus membros. A eleição de David-Maria Sassoli representa um novo prego no caixão da representação política porque ele representa uma força gasta na política italiana. Como membro do Partido Democrático, ele posiciona-se pela velha ordem a qual em 2018 foi varrida para longe em Roma quando a nova esquerda do 5 Estrelas e a nova direita da Liga construíram uma aliança para por de lado os velhos partidos. Acima de tudo, Sassoli foi vice-presidente no parlamento anterior e portanto a sua eleição agora é também uma expressão de continuidade.

    Em suma, confrontada com uma crise existencial e uma grave falta de credibilidade, a mensagem da UE aos seus eleitores e ao mundo é: Business as usual.
    03/Junho/2019 


    [*] Doutorado em filosofia pela Universidade de Oxford, ensinou nas universidades de Paris e Roma, é historiador e especialista em assuntos internacionais.

    O original encontra-se em www.rt.com/op-ed/463298-eu-parliament-council-commission/


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .


    domingo, 30 de junho de 2019

    "Perseguição colectiva" a Assange deve cessar, afirma perito da ONU

    – Um comunicado de imprensa que os media portugueses silenciaram


    por Gabinete do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos

    '.

    GENEBRA (31/Maio/2019) – Um perito da ONU que visitou Julian Assange numa prisão em Londres afirma temer que os seus direitos humanos possam ser seriamente violados se ele for extraditado para os Estados Unidos e condena o deliberado e concertado abuso infligido durante anos ao co-fundador da Wikileaks.

    "Minha mais urgente preocupação é que, nos Estados Unidos, o Sr. Assange seria exposto a um risco real de sérias violações dos seus direitos humanos, incluindo sua liberdade de expressão, seu direito a um julgamento justo e a proibição de tortura e outros tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes, bem como punições", afirmou Nils Melzer, o Relator Especial da ONU sobre tortura.

    "Estou particularmente alarmado com o recente anúncio pelo Departamento de Justiça dos EUA de 17 novas acusações contra o Sr. Assange sob a Lei da Espionagem, a qual actualmente prevê até 175 anos de prisão. Isto pode resultar numa sentença de prisão perpétua sem liberdade condicional, ou possivelmente mesmo a pena de morte, se novas acusações forem acrescentadas no futuro", disse Melzer, o qual reiterou também preocupações quanto à saúde de Assange.

    Embora Assange não seja mantido em confinamento solitário, o Relator Especial disse que está gravemente preocupado com a frequência e duração limitada das visitas de advogados e de que a sua falta de acesso aos ficheiros e documentos do processo tornem impossível para ele preparar adequadamente a sua defesa em qualquer dos complexos processos judiciais que se acumulam contra ele.

    "Desde 2010, quando a Wikileaks começou a publicar provas de crimes de guerra e de tortura cometidos pelas forças dos EUA, temos assistido a um esforço sustentado e concertado de vários Estados para conseguir que o Sr. Assange seja extraditado para os Estados Unidos para processo, o que levanta preocupações sérias sobre a criminalização do jornalismo investigativo em violação tanto da Constituição dos EUA como da lei internacional dos direitos humanos", disse Melzer.

    "Desde então, tem havido uma implacável e desenfreada campanha de assédio público, intimidação e difamação contra Assange, não só nos Estados Unidos como também no Reino Unido, Suécia e, mais recentemente, no Equador". Segundo o perito, isto incluiu um fluxo infindável de declarações humilhantes, degradantes e ameaçadoras na imprensa e nos medias sociais, assim como de figuras políticas importantes e até mesmo magistrados judiciais envolvidos em processos contra Assange.

    "No decorrer dos últimos nove anos o Sr. Assange tem sido exposto a abuso persistente e cada vez mais severo que vai da perseguição judicial sistemática e arbitrária até o confinamento na embaixada equatoriana, ao seu isolamento opressivo, importunação e vigilância dentro da embaixada e de deliberado ridículo colectivo, insultos e humilhação, para dar azo a instigação de violência e mesmo apelos repetidos ao seu assassínio".

    '. Durante a sua visita à prisão em 9 de Maio Melzer foi acompanhado por dois peritos médicos especializados no exame de vítimas potenciais de tortura e outros maus tratos.

    A equipe pôde falar com Assange confidencialmente e efectuar uma avaliação médica completa.

    "Era óbvio que a saúde do Sr. Assange fora seriamente afectada pelo ambiente extremamente hostil e arbitrário a que tem estado exposto durante muitos anos", disse o perito. "O mais importante, em acréscimo a sofrimentos físicos, o Sr. Assange mostrou todos os sintomas típicos de prolongada exposição à tortura psicológica, incluindo extrema tensão, ansiedade crónica e trauma psicológico intenso".

    "A evidência é esmagadora e clara", afirmou o perito. "O Sr. Assange tem sido deliberadamente exposto, por um período de vários anos, a formas progressivamente severas de tratamento ou punição cruel, desumana ou degradante, cujos efeitos cumulativos só podem ser descritos como tortura psicológica.

    "Condeno, nos mais fortes teremos, o abuso deliberado, concertado e de natureza constante infligidos ao Sr. Assange e deploro seriamente o fracasso constante de todos os governos envolvidos para tomar medidas a fim de proteger seus direitos humanos mais fundamentais e sua dignidade", declarou o perito. "Ao exibir uma atitude de complacência, na melhor das hipóteses, e de cumplicidade, na pior, estes governos criaram uma atmosfera de impunidade que encoraja o aviltamento e abuso sem limites do Sr. Assange".

    Em cartas oficiais enviadas antes desta semana, Melzer instou os quatro governos envolvidos a coibirem-se de disseminar, instigar ou tolerar declarações ou outras actividades prejudiciais aos direitos humanos e dignidade do Sr. Assange e a tomarem medidas para proporcionar-lhe o adequado alívio e reabilitação pelo dano passado. Ele mais uma vez apelou ao Governo Britânico para não extraditar Assange para os Estados Unidos ou para qualquer outro Estado que falhe em proporcionar garantias confiáveis contra a sua adiantada transferência para os Estados Unidos. Ele também recordou ao Reino Unidos a sua obrigação de assegurar o acesso desimpedido de Assange a conselhos legais, documentação e preparação adequada proporcional à complexidade dos processos pendentes.

    "Em 20 anos de trabalho com vítimas de guerra, violência e perseguição política nunca vi um grupo de Estados democráticos confabulados para deliberadamente isolar, demonizar e abusar de um indivíduo isolado por tão longo tempo e com tão pouco respeito pela dignidade humana e a regra da lei", afirmou Melzer. "A perseguição colectiva de Julian Assange deve acabar aqui e agora!"
    O Sr. Nils Melzer, Special Rapporteur on torture and other cruel, inhuman or degrading treatment or punishment (Relator especial sobre tortura e outros tratamentos ou punições crueis, desumanos e degradantes); faz parte do que é conhecido como os Special Procedures do Conselho de Direitos Humanos. Special Procedures, o maior corpo de peritos independentes no sistema de Direitos Humanos das Nações Unidas, é o nome geral dos mecanismos de apuramento independente de factos e monitoração do Conselho que trata ou de situações específicas de país ou de questões temáticas em toda a parte do mundo. Os peritos do Special Procedures trabalham numa base voluntária; eles não são funcionários da ONU e não recebem um salário pelo seu trabalho. Eles são independentes de qualquer governo ou organização e actuam na sua capacidade individual.

  • Para mais informação e solicitações do media, favor contactar o Sr. Christophe Peschoux,
    +41 22 917 9381 / cpeschoux@ohchr.org ).
  • Para investigações do media relativas a outros peritos independentes da ONU contactar por favor Jeremy Laurence, UN Human Rights – Media Unit (+41 22 917 9383 /  jlaurence@ohchr.org ).



  • Démasquer la torture de Julian Assange , de Nils Melzer

    Este comunicado de imprensa do Gabinete do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos encontra-se em
    https://www.ohchr.org/EN/NewsEvents/Pages/DisplayNews.aspx?NewsID=24665&LangID=E


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
  • segunda-feira, 10 de junho de 2019

    No Ocidente, é só mentiras

    Por Thierry Meyssan

    Thierry Meyssan reage à comemoração do desembarque na Normandia, ao do massacre de Tiananmen e à campanha para a eleição do Parlamento Europeu. Ele salienta que os Ocidentais não cessam conscientemente de mentir e de se auto-congratular a propósito. Ora, só a Verdade liberta.


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    A propaganda, é um meio de propagar ideias, verdadeiras ou falsas. No entanto, mentir a si próprio é apenas não assumir os seus erros, tentar convencer-se a si mesmo de que se é perfeito, fugir para a frente.

    O paroxismo desta atitude é ilustrado pela Turquia. Ela persiste na negação de ter tentado fazer desaparecer as suas minorias não-muçulmanas, em várias vagas, durante uma geração, de 1894 a 1923. Os Israelitas (israelenses-br) também não são, de modo nenhum, maus. Eles, que pretendem ter criado o seu Estado para oferecer uma vida digna aos Judeus sobreviventes do extermínio pelos nazistas, quando, na realidade, Woodrow Wilson se havia já comprometido a fundar tal Estado em 1917 e quando, hoje em dia em Israel, mais de 50.000 sobreviventes dos campos da morte vivem miseravelmente abaixo do limiar da pobreza. Mas, os Ocidentais são os únicos a estabelecer consensos acerca das suas mentiras, a professá-las como verdades reveladas.

     

    O desembarque na Normandia


    Por estes dias, celebramos o 75º aniversário do desembarque na Normandia. Segundo os média (mídia-br), quase unânimes, os Aliados lançaram então a libertação da Europa do jugo nazista.

    Ora, todos nós sabemos que é falso.

    - O desembarque não foi obra dos Aliados, mas quase exclusivamente do Império Britânico e da Força Expedicionária norte-americana.

    - Não visava «libertar a Europa», mas correr para Berlim», a fim de arrebanhar os despojos do III Reich que poderiam ser apanhados pelos vitoriosos exércitos soviéticos.

    - Ele não foi acolhido com alegria pelos Franceses, mas, pelo contrário, com horror: Robert Jospin (o pai do antigo Primeiro-ministro Lionel Jospin) denunciou no cabeçalho do seu jornal a importação pelos Anglo-Saxões da guerra para França. Nessa altura, os Franceses enterravam os seus 20. 000 mortos, vitimados sob os bombardeamentos anglo-saxónicos, feitos unicamente como manobra de diversão do ataque. Ao mesmo tempo, uma enorme manifestação acontecia em Lyon em torno do «chefe de Estado», o ex-Marechal Philippe Pétain, para recusar o domínio anglo-saxónico. E, jamais, nunca absolutamente, o chefe da França livre, o General Charles De Gaulle, aceitou participar na mínima comemoração deste sinistro desembarque.

    A História é mais complicada que os filmes de westerns. Não há os «bons» e os «maus», mas, sim homens que tentam salvar os seus próximos com mais ou menos humanidade. No máximo, evitamos as burrices de Tony Blair, o qual, aquando das comemorações do 60º aniversário, fez chiar a imprensa britânica ao pretender, no seu discurso, que o Reino Unido havia entrado na guerra para salvar os judeus da «Shoá» —mas não os ciganos do mesmo massacre, claro—. Quando a destruição dos judeus da Europa só começou, pois, após a conferência de Wansee, em 1942.

     

    O massacre de Tiananmen


    Estamos a celebrar o triste aniversário do massacre de Tiananmen. Continuamos a ler que o cruel regime imperial chinês massacrou milhares dos seus cidadãos, pacificamente reunidos na praça principal de Pequim, unicamente porque reclamavam um pouco de liberdade.

    Ora, todos nós sabemos que isso é falso.

    - O "sit-in" (protesto sentado- ndT) na Praça da Paz Celestial (Tienanmen) não foi uma coisa de Chineses comuns, mas de uma tentativa de golpe de Estado pelos partidários do antigo Primeiro-ministro Zhao Ziyang.

    - Dezenas de soldados foram linchados, ou queimados vivos na praça, pelos «pacíficos manifestantes» e centenas de veículos militares foram destruídos, antes de qualquer intervenção dos homens de Den Xiaoping contra eles.

    - Os especialistas dos EUA em «revoluções coloridas», entre os quais Gene Sharp, estavam presentes na praça para organizar os homens de Zhao Ziyang.

     

    A União Europeia


    Acabámos de votar para designar os deputados ao Parlamento Europeu. Durante semanas, fomos inundados de slogans que nos asseguravam que «A Europa, é a paz e a prosperidade», e que a União Europeia é o culminar do sonho europeu.

    Ora, todos nós sabemos que isso é falso.

    - A Europa, é um continente —«de Brest a Vladivostok», segundo a fórmula de Charles De Gaulle— e é uma cultura de abertura e de cooperação, não a União Europeia, que não passa de uma administração anti-russa, na continuidade da corrida para Berlim iniciada com o desembarque na Normandia.

    - A União Europeia, não é a paz em Chipre, mas a covardia face à ocupação militar turca. Não é a prosperidade, mas, sim, a estagnação económica quando o resto do mundo se desenvolve a toda velocidade.

    - A União Europeia não tem nenhuma relação com o sonho europeu do período de entre as duas guerras. Os nossos ancestrais ambicionavam unir os regimes políticos que servem o interesse geral —as Repúblicas, no sentido etimológico—, conforme à cultura europeia, situados quer no continente ou fora do continente. Aristide Briand defendia que a Argentina (um país de cultura europeia na América Latina) fizesse parte dela, mas não o Reino Unido (uma sociedade de classes).

    Et cetera, etc ...

     

    Os Europeus caminham como cegos


    Os Europeus devem distinguir o verdadeiro do falso. Podemos alegrar-nos com a queda do Hitlerismo, sem, no entanto, nos convencermos de que os Anglo-Saxões nos salvaram. Podemos denunciar a brutalidade de Den Xiaoping sem negar que, desse modo sangrento, ele salvou o seu país do regresso ao colonialismo. Podemos felicitar-nos por não ter sido dominados pela União Soviética sem, portanto, nos orgulharmos de ser os lacaios dos Anglo-Saxões.

    No Ocidente, continuamos a mentir a nós próprios para mascarar os nossos actos de covardia e os nossos crimes. Depois, ficamos espantados por não conseguir resolver nenhum problema humano.
     
    Tradução
    Alva
     
    aqui:https://www.voltairenet.org/article206701.html

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