terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Marionetas russas

por Serge Halimi



A 9 de Fevereiro de 1950, no auge da Guerra Fria, um senador republicano ainda desconhecido exclama o seguinte: «Tenho nas mãos a lista de duzentas e cinquenta pessoas que o secretário de Estado sabe serem membros do Partido Comunista e que, no entanto, determinam a política do Departamento de Estado». Joseph McCarthy acabava de entrar na história dos Estados Unidos pela porta da infâmia. A lista não existia, mas a vaga de histeria anti-comunista e de purgas que se seguiu foi bem real. E destruiu a vida de milhares de norte-americanos.

Em 2017, parece que está em causa nada menos do que a lealdade patriótica do próximo presidente dos Estados Unidos. Com o seu executivo de militares e multimilionários, há muitas razões para temer a sua entrada em funções. Contudo, o Partido Democrata e muitos meios de comunicação social ocidentais parecem obcecados com a ideia extravagante de que Donald Trump seria a «marioneta» do Kremlin [1]. E que ele deveria a eleição a um acto de pirataria de dados informáticos orquestrado pela Rússia. Já passou muito tempo desde a paranóia macartista, mas o Washington Post acaba de recuperar esta história mostrando-se inquieto com a existência de «mais de duzentos sítios que, voluntariamente ou não, publicam a propaganda russa ou a reproduzem» (24 de Novembro de 2016).

Sopram maus ventos sobre o Ocidente. Cada eleição, ou quase, é apreciada através do prisma da Rússia. Quer se trate de Trump nos Estados Unidos, de Jeremy Corbyn no Reino Unido, ou de candidatos tão diferentes como Jean-Luc Mélenchon, François Fillon ou Marine Le Pen em França, basta duvidar das medidas tomadas contra a Rússia, ou das conspirações atribuídas a Moscovo pela Central Intelligence Agency (CIA) – uma instituição que todos sabem ser infalível e irrepreensível –, para se ser suspeito de servir os desígnios do Kremlin. Num clima como este, mal se ousa imaginar a torrente de indignação que teriam suscitado a espionagem pela Rússia, em vez dos Estados Unidos, do telefone de Angela Merkel, ou a entrega pela Google a Moscovo, em vez da Agência Nacional de Segurança Americana (NSA), de milhares de milhões de dados privados recolhidos na Internet. Sem avaliar bem toda a ironia das suas palavras, Barack Obama ainda assim ameaçou a Rússia nestes termos: «Eles têm de compreender que nós também lhes podemos fazer aquilo que eles nos fazem a nós» [2].

Vladimir Putin não ignora que Washington pode inflectir a política de um outro Estado. Na Primavera de 1996, um presidente russo doente e alcoólico, artesão (corrupto) do caos social no seu país, de facto só sobreviveu a uma impopularidade descomunal graças ao apoio declarado, político e financeiro, das capitais ocidentais. E a um providencial enchimento das urnas. Boris Ieltsin, o menino bonito dos democratas de Washington, Berlim e Paris (apesar de ter feito disparos de canhão contra o Parlamento russo, provocando a morte de centenas de pessoas), foi portanto reeleito. A 31 de Dezembro de 1999, Ieltsin decidiu transmitir todos os seus poderes ao seu fiel primeiro-ministro, o delicioso Vladimir Putin…

sexta-feira 6 de Janeiro de 2017

 

Notas

[1] Segundo a expressão de Hillary Clinton, num debate televisivo com Donald Trump, a 19 de Outubro de 2016.
[2] Conferência de imprensa de 16 de Dezembro de 2016.

aqui:http://pt.mondediplo.com/spip.php?article1151

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

A produção perversa de um mito histórico

por José Goulão


Créditos / Agência Lusa
 
A História para consumo geral é escrita pelos vencedores e suas estruturas de domínio. E quando a História é ainda contemporânea e se confunde com a comunicação social, guiada por mecanismos de propaganda, dos mais grosseiros aos delicadamente sofisticados, a vantagem das forças dominantes torna-se esmagadora, entrando pelos domínios da mitologia inquestionável, servida por axiomas asfixiantes.

A morte não apaga as realidades nem os factos vividos; não os transforma, mesmo quando oportunisticamente manipulados por quem considera legítimo domar consciências, em mandamentos de uma doutrina de obediência colectiva, condenando os que não a aceitam à marginalidade do pariato eterno.

Como se previa ainda em vida, a morte transformou Mário Soares num mito histórico à velocidade da tecnologia de ponta. Para que não entrem em piloto automático os efeitos dos axiomas que balizam a queda no delito de opinião, cabe-me escrever, com toda a honestidade, que não estão minimamente em questão o antifascismo de Mário Soares nem a sua coragem para enfrentar a besta salazarenta, ainda que outros tenham sofrido bem mais dolorosamente as consequências de tal destemor e tantos louvores não tenham recebido, pelo contrário, sejam ainda alvo de insultos e pasto de mentiras difamatórias, mais cruéis ainda quando delas já não se podem defender.

Ponto assente: Mário Soares foi um corajoso antifascista.

Agora «pai da democracia» e «pai da liberdade»?

Os mitos históricos têm progenitores: a propaganda que fabrica a História regimental e os poderes que a alimentam e dela se nutrem, num descarado processo de parasitismo. Quanto ao pai da democracia, outro não é que não o povo que a pratica, quando não há esbirros ou mecanismos cínicos que o impeçam – à bruta ou através de processos de controlo e manipulação; os pais da liberdade são os cidadãos livres que a conquistam e a defendem, mas têm quase sempre pela frente aqueles que, graças a usos mais ou menos perversos do poder, sustentam estar escrito no destino haver uns cidadãos mais livres do que outros.

Decifrando a cacofonia que vem atordoando o país nestes dias, ladainhando mil e um monólogos redondos em torno de duas ou três mensagens propagandísticas feitas e refeitas, concluiu-se que Mário Soares foi, sim, um dos pais fundadores do tipo de regime financeiro, económico e político que hoje se aplica em Portugal, subsidiário do ordenamento não-democrático da União Europeia; e tutor de uma liberdade sem dúvida condicionada, para a maioria dos cidadãos, pelos instrumentos e tentáculos da mesma União Europeia.

A manipulação subjacente a tanto ruído ambiente, gritando para milhões o que poderia resumir-se em meia dúzia de frases simples, é a confusão abusiva entre democracia plena, prometida pela Revolução de 25 de Abril, e o regime de democracia parcial em funcionamento; e entre liberdade humanista e o labirinto de liberdades, condicionamento de direitos civis, laborais e sociais e austeridades em que se transformou a sociedade portuguesa, marioneta dos interesses convergentes que se empanturram em Bruxelas.

Mário Soares, o antifascista, cedo abandonou a dinâmica transformadora da Revolução de Abril, passando, no âmbito da sua acção e cargos, a desenvolver contactos com o embaixador norte-americano Frank Carlucci – futuro director da CIA – que se ingeria descaradamente, conspirando, nos assuntos portugueses; e do golpe de 25 de Novembro de 1975 ainda hoje sabemos apenas quanto baste do que interessa aos que dele tiraram proveito e proveitos; o soarismo que lhe sucedeu imprimiu marcas indeléveis que pouco correspondem às deixadas para trás por Mário Soares, no período antifascista.

Paradoxalmente, por uma caprichosa ironia a que, pelos vistos, nem os mais cuidados mitos históricos escapam, a figura tutelar do soarismo desaparece fisicamente num período em que o governo de Portugal resulta de uma solução política que contraria um dos mais rígidos axiomas soaristas – estando, até há pouco, rigorosamente bloqueada.

Recordando o percurso de Portugal desde 25 de Abril de 1974, se as realidades vividas pelo país forem encaradas livres de manipulações, enviesamentos e mentiras da propaganda, comprovam que os conceitos de democracia e liberdade aplicados pelo soarismo foram condicionados por um redil político (determinado por poderes financeiros e económicos); uma tal cerca marginalizou os que se afirmaram ideologicamente diferentes, logo acusados, sem provas, de serem adeptos de soluções ditatoriais ou não-democráticas – afastados sumariamente de soluções governativas mesmo que proporcionassem maiorias parlamentares estáveis.

Não foram raros os casos como esses registados ao longo de décadas, com a agravante perversa de os excluídos serem também acusados de não pretenderem governar, apesar de multiplicarem apelos ao entendimento, acabando o sistema patrocinado pelo soarismo de se enquistar no «arco da governação» só recentemente quebrado.

Os conceitos de liberdade e democracia do soarismo tiveram aplicações práticas orientadas pela vontade de tolher o potencial de desenvolvimento do país libertado popularmente em 25 de Abril de 1974, encafuando Portugal num colete-de-forças de bastidores no qual, durante tempo excessivo, foi privado das suas principais energias económicas, culturais e criativas, delapidado do património estatal, minado por interesses alheios. Enquanto isso, a vontade manifestada livremente pelo povo, em sucessivas eleições, foi ficando refém de entidades e organismos não-eleitos, ao serviço de poderes transnacionais nefastos para o povo, para os cidadãos que se crêem livres.

 A integração na CEE sem qualquer auscultação da opinião popular, o arranque da liberalização sem fim do mercado de trabalho – com o seu cortejo de inseguranças e perda de direitos dos trabalhadores –, a abertura das portas ao FMI, a destruição da Reforma Agrária, o enfraquecimento do movimento sindical concertado através de uma coligação institucional com o PPD/PSD, a passadeira estendida às privatizações, com os resultados que estão bem à vista, as responsabilidades perante a desastrosa integração no euro – novamente sem que fosse pedida opinião ao povo – são marcos indeléveis no itinerário soarista até um país que continua a sofrer de desigualdades profundas, enquanto é vítima de ataques de entidades não-democráticas que menosprezam a sua soberania.

 O ser e o parecer muitas vezes não coincidem, e assim foi em Mário Soares quando, apesar do inflamado discurso anti-neoliberal dos últimos anos, não aproveitou, quando podia, as oportunidades para combater a ascensão e implantação interna do neoliberalismo, uma vez que dispôs dos instrumentos governativos e presidenciais para o fazer.

O caminho do país sujeito à influência soarista foi percorrido sob uma governação restringida sectariamente a um bloco bipartidário na prática, excluindo da democracia as forças que propunham alternativas de facto e não uma alternância que se foi institucionalizando, favorecendo interesses minoritários, a vertente privada e encorajando a corrupção atrelada a um processo nocivo de privatização do próprio Estado.

A imposição do chamado bloco central, apesar – repete-se – das numerosas propostas para materializar uma vontade popular maioritária que proporcionaria frequentes entendimentos governativos do PS com forças à sua esquerda, é a marca mais negativa para o país resultante das opções de Mário Soares, e da qual decorrem praticamente todas as outras. Com a agravante de ter permitido que esse procedimento fosse camuflado com a enorme mentira, resistente até há pouco, segundo a qual partidos como o PCP não tinham interesse em associar-se à acção governativa, remetendo-se a um papel «contestatário», logo decorativo.

Neste aspecto, ao corajoso antifascista que foi Mário Soares faltou o destemor para fazer vingar os interesses reais dos portugueses como cidadãos livres usufruindo de uma democracia plena. O soarismo rendeu-se às normas antidemocráticas impostas surdamente através da NATO, impedindo qualquer Partido Comunista de um país ocidental de chegar a plataformas governativas.

É certo que o humanista democrata-cristão italiano Aldo Moro pagou com a vida a ousadia de estabelecer acordos de incidência parlamentar com o PCI, comparáveis aos que existem agora em Portugal entre o PS e o PCP. A coragem que atribuem a Mário Soares na defesa da democracia teria sido então de uma importância determinante para os portugueses se a ela tivesse recorrido, até às últimas consequências, na interpretação da vontade popular.

Por ironia do destino, foi ainda em vida de Mário Soares que se deu a primeira ruptura com o edifício do soarismo limitador das potencialidades democráticas do sistema multipartidário. Quando se constrói um mito histórico, a obra só poderá dar-se por terminada quando reflectir a realidade global do percurso percorrido em vida, e não apenas os troços parciais de que alguns pretendem continuar a extrair vantagens, mesmo que seja à custa dos interesses de muitos e dos direitos de todos à democracia e liberdade plenas.

Nesse caso restrito, pode ser um mito histórico sectariamente útil; mas é incompleto, impreciso e, mais grave ainda – o que será insultuoso para o próprio – nocivo para o país, insuficientemente democrático, manipulador de consciências, enganador das gerações mais jovens e das que virão.

aqui:http://www.abrilabril.pt/producao-perversa-de-um-mito-historico

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Os Rebeldes do Futebol

Eric Cantona está despertando consciências através do caminho traçado por jogadores que se opuseram ao poder e que se tornaram ícones da resistência, além de se destacarem pela suas habilidades no esporte.

Em 2012, o cineasta francês Gilles Rof produziu um documentário inspirador.
“Queria fazer a série por causa da raiva que sentia das estrelas do futebol que são conduzidas apenas pelo dinheiro e pela fama. Isso não se encaixa sobre aquilo que sinto e sei sobre futebol”. As histórias de cinco ídolos do esporte que usaram suas influências na tentativa de mudar a realidade social e política de seus países.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Poderá Trump reparar a economia em 2017?

– Informação lixo e capacidade de julgamento lixo dominam o ocidente

por Paul Craig Roberts 
 
Cartoon de Gary. O mundo ocidental e aquela parte do mundo que partilha as explicações ocidentais vive num mundo ficcional. Vemos isto por toda a parte para onde olhamos – nas alegadas maquinações da Rússia para eleger Donald Trump presidente dos EUA; nas afirmações de que Saddam Hussein e suas (não existentes) armas de destruição em massa eram uma ameaça aos EUA (uma nuvem em cogumelo sobre cidades americanas); que Assad da Síria utilizava armas químicas contra o seu próprio povo; que o Irão tem um programa de armas nucleares; que uns poucos árabes sauditas burlaram a totalidade do serviços de inteligência dos EUA, da UE e de Israel e assestaram a maior humilhação da história humana à "única super-potência do mundo"; que a Rússia invadiu a Ucrânia e poderia a qualquer momento invadir os países bálticos e a Polónia; que a taxa de desemprego dos EUA é de 4,6%; que o excedente comercial da China com os EUA deve-se à manipulação da divisa chinesa; e assim por diante.

Alegadamente vivemos numa era científica de informação, mas que bem pode decorrer de uma informação orquestrada defeituosa? Na medida em que falsas notícias apresentadas pelas presstitutas serve poderosos interesses privados e governamentais, como podemos saber a verdade acerca de alguma coisa?

Por exemplo: considere a afirmação encontrada por toda a parte em declarações do governo e dos media dos EUA de que o maciço défice comercial com a China resulta da manipulação da divisa chinesa, mantendo o yuan subvalorizado em relação ao US dólar.

Esta afirmação falsa, a qual é amplamente aceite como verdade mesmo por autores russos em sítios web russos ( www.strategic-culture.org/... (pegged) ao US dólar. Ela move-se com o dólar. Ao longo da última década a China ajustou a sua divisa ao dólar e permitiu uma ascensão do valor da divisa chinesa de 8,1 yuan para 6,9 yuan por US dólar. (O yuan alcançou uma força de 6 por dólar, mas um dólar em ascensão estava a alcançar o yuan, levando a China a ampliar a flutuação a fim de evitar uma apreciação indevida por causa da ascensão do US dólar em relação a outras divisas asiáticas e europeias.) Como uma ascensão do yuan pode ser "manipulação da divisa"? Não espere resposta dos media financeiros presstitutos ou dos economistas lixo que incluem os que professam a teoria económica neoliberal.

A função do mito da manipulação chinesa da divisa é ocultar o facto de que o maciço défice comercial dos EUA com a China deve-se às corporações estado-unidenses que deslocalizam para a China a sua produção destinada ao mercado estado-unidense. Quando corporações dos EUA trazem bens e serviços produzidos externamente para venda nos EUA, eles entram como importações, inchando portanto o défice comercial. O mito acerca da manipulação da divisa transfere para a China a culpa das corporações estado-unidenses, embora de facto seja o retorno de produção deslocalizada, tal como a dos computadores Apple, para venda a americanos que incha o défice comercial dos EUA.

As corporações dos EUA produzem no exterior porque os custos do trabalho muito mais baixos resultam em lucros mais altos, em preços de acções mais elevados para accionistas e em bónus de desempenho para executivos. Uma das causas principais para as altas médias do Dow Jones e da pioria do rendimento e da distribuição de riqueza nos EUA é a deslocalização de empregos. Em 2016 as pessoas mais ricas acrescentaram US$237 mil milhões à sua riqueza, ao passo que a subida em empréstimos a estudantes, empréstimos para automóveis e dívida em cartões de crédito combinadas com rendimento estagnado ou declinante deixou os americanos comuns mais pobres. Durante o século XXI, o endividamento familiar subiu de cerca de 70% do PIB para cerca de 80%. O rendimento pessoal não subiu de acordo com a dívida pessoal.

A deslocalização de empregos beneficia apenas um pequeno número de accionistas e executivos – e impõe custos externos maciços à sociedade americana. Antigos estados manufactureiros prósperos estão em depressão de longo prazo. Caíram os rendimentos reais medianos das famílias. Valores imobiliários em áreas manufactureiras abandonadas caíram. A base fiscal desgastou-se. Os sistemas de pensões dos governos estaduais e locais não podem atender às suas obrigações. A rede da segurança social está a desfazer-se.

Para se ter uma ideia dos custos externos que a deslocalização impõe à população americana vá à net e olhe as fotos da decrépita Detroit, antigamente uma potência industrial. Escolas e bibliotecas estão abandonadas. Edifícios públicos estão abandonados. Fábricas estão abandonadas. Lares estão abandonados. Igrejas estão abandonadas. Aqui está uma descrição num vídeo de 4 minutos: https://www.youtube.com/watch?v=pcTYqnL2Bgw

E não se trata só de Detroit. No meu livro, The Failure of Laissez Faire Capitalism (Clarity Press, 2013), informo dados do Censo de 2010 dos EUA. A população de Detroit, anteriormente a quarta maior cidade da América, declinou em 25 por cento na primeira década do século XXI. Gary, Indiana, perdeu 22 por cento da sua população. Flint, Michigan, perdeu 18 por cento. Cleveland, Ohio, perdeu 17 por cento. Pittsburg, Pennsylvania, perdeu 7 por cento. South Bend perdeu 6 por cento. Rochester, New York, perdeu 4 por cento. St. Louis, Missouri, perdeu 20 por cento. Estas cidades foram outrora o centro de poder da manufactura e da indústria americana.

Ao invés de contar a verdade, os media financeiros presstitutos e a corrupta profissão económica dos EUA ocultaram os maciços custos sociais e externos da deslocalização de empregos sob a afirmação totalmente falsa de que a mesma é boa para a economia. No meu livro, chamo à pedra serviçais corporativos tais como Matthew Slaughter de Dartmouth e Michael Porter de Harvard, os quais produziram com total incompetência ou conivência relatórios erróneos dos grandes benefícios para os americanos de terem os seus empregos dados a chineses e deixarem cidades americanas em ruínas.

Ao longo da sua história os EUA sofreram com mentiras públicas, mas não ao ponto a que chegaram os regimes de Clinton, George W. Bush e Obama em que as mentiras tornaram-se tão omnipresentes que a verdade desapareceu.

Considere o relatório do emprego de Novembro. Disseram-nos que a taxa de desemprego caiu para 4,6% e que nos EUA foram criados 178 mil novos empregos no mês de Novembro. A recuperação está em curso, etc. Mas o que são os factos reais?

A taxa de desemprego não incluiu trabalhadores desencorajados que foram incapazes de encontrar emprego e cessaram de procurar, o que é caro, exaustivo e desmoralizador. Por outras palavras, pessoas desempregadas estão a ser empurradas para a categoria dos desencorajados mais depressa do que podem encontrar empregos. Esta é a explicação para a baixa taxa de desemprego. Além disso, esta afirmada baixa taxa de desemprego é incompatível com a taxa declinante de participação da força de trabalho. Quando empregos estão disponíveis, as pessoas entram na força de trabalho a fim de aproveitar das oportunidades de emprego e a taxa de participação da força de trabalho sobe.

O relatado pelos presstitutos financeiros aumenta a fraude. Dão-nos o número de 178 mil novos empregos em Novembro. E assim é. Contudo, os dados divulgados pelo Bureau of Labor Statistics mostram aspectos problemáticos dos dados. Exemplo: só 9.000 dos apregoados 178 mil empregados são a tempo inteiro (definido como 35 horas por semana). Outubro assistiu a uma perda de 103 mil empregos a tempo inteiro em relação a Setembro. E Setembro teve menos 5.000 empregos a tempo inteiro do que Agosto. Ninguém explica como é que uma economia a perder empregos a tempo inteiro pode estar em recuperação.

A distribuição etária dos novos empregos de Novembro é perturbante. 77 mil dos empregos foram para aqueles com 55 ou mais anos de idade. Só 4 mil empregos foi para as idades de 25 a 34 anos, em que se constitui família.

O estado civil da distribuição dos empregos também é perturbador. Em Novembro houve menos 95 mil homens casados empregados com esposa presente e 74 mil menos mulheres casadas com esposo presente do que em Outubro. Em Outubro houve 333 mil menos homens casados e 87 mil menos mulheres casadas empregadas do que em Setembro.

Pode-se concluir destas grandes diferenças de mês para mês que as estatísticas oficiais não são boas, o que pode muito bem ser o caso. Exemplo: como enfatizei nos meus relatos sobre os comunicados mensais do emprego em folha de pagamento, há sempre um grande número de novos empregos para empregados de mesa e atendedores em bares. Mas o movimento em restaurantes declinou durante nove meses consecutivos. Por que restaurantes contratam mais empregados quando o movimento declina?

Como John Williams (shadowstats.com) nos informnou, os apregoados empregos em folha de pagamento mensal consistem inteiramente de acréscimos a partir de estimativas de um modelo enviesado de nascimentos/mortes e de manipulações de ajustamentos sazonais. Por outras palavras, os novos empregos relatados podem ser só ilusões estatísticas.

John Williams também enfatiza que os apregoados números do crescimento do PIB real podem ser inteiramente produtos da subestimação da inflação. Alguns anos atrás das medidas da inflação foram "reformadas" a fim de trapacear os ajustamentos da Segurança Social de acordo com o custo de vida. Em lugar de um índice ponderado que calculasse o custo de um padrão de vida constante, foi introduzida um substituto. No índice reformado, se o preço de um ítem no índice ascende, um ítem de preço mais baixo é substituído no seu lugar, negando assim o impacto inflacionário da subida do preço. Além disso, subidas de preços são definidas como "melhorias de qualidade". Claramente, isto é um índice concebido para subestimar a subida de preços.

No final das contas, a recuperação alegadamente a caminho desde Junho de 200 pode ser uma ilusão estatística produzida por uma medida enviesada da inflação.

O que os americanos podem esperar da economia em 2017? Primeiro, alguma perspectiva. A derrota da estagflação pela política do lado da oferta do presidente Reagan deu uma boa economia ao regime Clinton. A melhoria da economia dos EUA não foi totalmente uma coisa boa, porque ela mascarou as consequências adversas da deslocalização de empregos que começou a sério após o colapso soviético em 1991.

O colapso soviético encorajou a mudança de atitude dos governos indiano e chinês em relação ao capital estrangeiro. A Wall Street e grandes retalhistas como a Walmart forçaram a relocalização de grande parte da manufactura dos EUA para a China, que foi seguida após a ascensão da internet de alta velocidade pela deslocalização de empregos profissionais qualificados, como os de engenharia de software, para a Índia. Estas relocalizações da actividade económica dos EUA em locais estrangeiros esvaziaram a economia estado-unidense e reduziram as oportunidades de emprego para americanos.

O crescimento do rendimento da família real mediana cessou. Sem aumentos em gastos de consumo para impulsionar a economia, o Federal Reserve substituiu um crescimento na dívida do consumidor para [compensar] o crescimento faltante no rendimento real da família mediana. Mas o crescimento da dívida do consumidor é limitado pela falta de crescimento no rendimento do mesmo. Portanto, uma economia dependente da expansão da dívida está limitada na sua capacidade de expansão. Ao contrário do governo federal, o povo americano não pode imprimir dinheiro para pagar as suas contas.

Único entre aqueles a competirem por cargo político, o presidente eleito Trump apontou a deslocalização de empregos como uma desgraça para o povo e a economia americanas. Está para ser visto o que ele pode fazer quanto a isso, pois a deslocalização de empregos serve os interesses das corporações globais e dos seus accionistas.

Desde há muitos anos as informações de empregos em folha de pagamento mensal mostram que os EUA descem a um status de Terceiro Mundo, com a grande maioria dos apregoados novos empregos em serviços internos não comerciais de baixo pagamento. As projecções de emprego a 10 anos da BLS mostram poucos novos empregos que exijam um grau universitário. Se empregos de alto valor acrescentado e alta produtividade da classe média não puderem ser trazidos de volta para os EUA, o futuro económico americano é de declínio contínuo para o status de Terceiro Mundo.

Considerando os constrangimentos do consumidor, uma grande fatia de lucros corporativos veio da poupança no custo do trabalho com a deslocalização de empregos. Para corporações como a Apple, cujos produtos são quase totalmente produzidos em fábricas chinesas, não há mais lucros a serem garantidos com a exportação de empregos. Para manter os lucros a fluírem, a Apple planeia substituir o trabalho barato do trabalho chinês por robots, aos quais não se tem de pagar qualquer salário. O que mostra melhor a desconexão entre capital e trabalho do que robotizar fábricas chinesas diante de um excesso de oferta de trabalho?

O manual económico de Paul Samuelson ensinava a falácia da composição, o que é bom para o indivíduo por não ser bom para o grupo. Os economistas keynesianos aplicaram isto às poupanças. Poupar é bom para o indivíduo, mas se a poupança agregada excede o investimento, a procura agregada cai, destruindo rendimento, emprego e poupança.

Este é o caso com a deslocalização de empregos. Ela pode aumentar lucros para a firma, mas diminui o rendimento agregado da população e limita o crescimento das vendas. O que a deslocalização de empregos faz quanto a isto será feito em maior escala pela robótica.

Quando leio economistas as presstitutas financeira a glorificarem as poupanças de custos da robótica, pergunto-me onde está a sua mente ou se eles têm alguma. Robots não compram casa, mobiliário e electrodomésticos para casas, carros, alimentos, vestuário, férias, entretenimento. Quando robots tiverem os empregos, de onde os humanos obterão rendimentos para comprar os produtos produzidos por robots?

Esta questão não examinada tem extraordinárias implicações para os direitos de propriedade e a organização social da sociedade. As patentes robóticas não são amplamente detidas. Portanto, num mundo robotizado, rendimento e riqueza seriam concentrados nas mãos de umas relativamente poucas pessoas. Como a robótica aumenta lucros e reduz salários, a desigualdade económica aumentará drasticamente. Na verdade, haveria qualquer rendimento ou riqueza afinal de contas? O único meio com que humanos poderiam sobreviver à sua substituição por robots seria tornarem-se outra vez agricultores auto-suficientes em rendimento monetário para comprarem produtos fabricados por robots. Quando poucos seriam capazes de comprar produtos feitos pelos robots, qual seria a fonte de rendimento e riqueza para os proprietários da robótica?

É disparate que políticas monetárias e orçamentais macroeconómicas (tais como baixas taxas de juro e cortes fiscais) possam manter pleno emprego frente à exportação de empregos e à robótica. Estou convencido de que se a robótica está em vias de suplantar o trabalho humano, as patentes terão de ser socializadas e o rendimento distribuído numa base relativamente igual por toda a sociedade.

Assim, pode Trump consertar a economia em 2017?

Não há nada que possa ser consertado a menos que as escadas da mobilidade ascendente que fizeram os EUA uma sociedade da oportunidade possam ser repostas no lugar. Isto exigirá trazer de volta os empregos deslocalizados da classe média ou, assumindo que novos empregos de alto valor acrescentados pudessem ser criados, impedir estes novos empregos de serem transferidos para fora.

Há um meio de fazer isto. É basear a taxa fiscal corporativo sobre a localização geográfica onde corporações acrescentam valor ao seu produto. Se corporações acrescentam valor internamente com trabalho estado-unidense, a taxa fiscal seria baixa. Se o valor é acrescentado no exterior, a taxa fiscal seria elevada. A taxa fiscal pode ser ajustada para compensar os benefícios de custos mais baixos no estrangeiro.

Apesar da propaganda acerca de globalismo e livre comércio, a economia dos EUA foi construída sobre a protecção e a sua força era o mercado interno. A prosperidade dos EUA nunca esteve dependente de exportações. E como o US dólar e a divisa de reserva mundial, os EUA não precisam exportar a fim de pagar pelas suas importações. Eis porque os EUA podem tolerar os défices comerciais causados pela deslocalização de empregos.

O globalismo é um cozinhado feito pelos economistas lixo neoliberais em cumplicidade com os grandes bancos, a Wall Street e corporações multinacionais. O globalismo é um disfarce para a exploração dos muitos em proveito dos poucos. Os alegados benefícios do globalismo foram utilizados para justificar a deslocalização de empregos e enriquecer executivos e accionistas de corporações.

É a economia interna que é importante, não a economia global. A população sofredora nas áreas centrais da América finalmente aprendeu esta lição e elegeu Trump.

Pode Trump por no roteiro "A fuga do globalismo?" Ele poderia perder o combate. O globalismo foi institucionalizado. As grandes corporações que deslocalizaram a sua produção para mercados dos EUA opor-se-iam aos movimentos contra a deslocalização de empregos. Assim como todos os seus serviçais na profissão económica e nos media financeiros. Não sei a medida em que o globalismo se enraizou nas mentes dos povos da Ásia, África e América do Sul, mas na Europa – mesmo na Rússia de Putin – povos são doutrinados (brainwashed) na crença de que não podem sair do globalismo sem pagar um enorme preço económico.

GREGOS E PORTUGUESES

Considere por exemplos os gregos. Para benefício dos balanços de um punhado de bancos europeus do norte (e talvez dos EUA), os povos grego e português são forçados a austeridade extrema, resultando em tão alto desemprego e queda livre de padrões de vida que mulheres têm sido obrigadas a prostituírem-se a fim de sobreviver. Esta consequência totalmente desnecessária verificou-se porque os povos e governos grego e português estão com os cérebros tão lavados que acreditam não poderem sobreviver como países independentes sem o globalismo e entrada para o globalismo providenciada pela condição de membro da UE. No Reino Unido, 45% da população sofre da mesma concepção errada.

O globalismo é a técnica mais recente pela qual o capitalismo saqueia e destrói. No mundo ocidental são as classes trabalhadoras e médias que são saqueadas dos seus empregos e carreiras. Na Ásia, África e América Latina comunidades agrícolas auto-suficientes são saqueadas da sua terra e forçadas à monocultura como trabalhadores que produzem cultivos de exportação. Países antigamente auto-suficientes em alimentos tornaram-se dependente de importações alimentares e as suas divisas, que arcam com esse fardo, são sujeitas à especulação e manipulação infindável.

Foi a ignorância universal ou os subornos que obrigaram governos por toda a parte a entregar suas populações ao globalismo?

Jornalistas de vanguarda, tais como Chris Hedges, que viram e relataram um bocado, concluíram que o destino do mundo está em tão poucas mãos que actuam apenas no seu estreito auto-interesse que unicamente a revolução pode corrigir o desequilíbrio entre o interesse de um punhado de oligarcas e a massa da humanidade. A posição de Hedge não é fácil de contestar.

Trump, ao descer dentro do poço de serpentes que é Washington, DC, precisa recordar o que aconteceu ao presidente Jimmy Carter. De facto, a melhor coisa que Trump pode fazer para a sua presidência é passar algum tempo com Carter antes de tomar posse.

Carter era um homem de fora, uma pessoa de princípios, e o establishment de Washington não o queria. Eles reduziram a sua eficácia ao tramarem seu director do orçamento e seu chefe de equipe. O mesmo pode acontecer a Trump, assumindo que ele é capaz de conseguir que seus nomeados sejam confirmados pelo Senado, mas membros do mesmo estão aliados à CIA contra Trump.

Reaganistas tiveram uma experiência semelhante na administração Reagan. Este tinha experiência política como governador da Califórnia, o maior estado, mas ele era um estranho ao establishment republicano, cujo candidato para a nomeação presidencial era George H.W. Bush.

Reagan derrotou Bush na nomeação, mas foi aconselhado pelos republicanos, os quais recordavam o massacre de Goldwater quando as forças de Rockefeller voltaram-se contra ele por não escolher o derrotado Rockefeller como seu companheiro para a vice-presidência, o que custou a eleição a Goldwater, ao escolher Bush como vice-presidente. Do contrário, Reagan descobrir-se-ia, tal como Goldwater, a correr contra os establishments tanto democrata como republicano.

O primeiro mandato de Reagan verificou-se com o principal operacional de George H.W. Bush como chefe de equipe da Casa Branca. Isto confrontou-me com problemas como secretário assistente do Tesouro para Política Económica, onde eu era o ponta de lança para a política económica do lado da oferta de Reagan.

Ambos os establishments político-partidários estão mais interessados em controlar o partido do que em fazer bem para o país. Durante os quatro anos do presidente Carter, a principal preocupação do establishment democrata foi recuperar controle do partido às forças que haviam enviado um estranho para a Casa Branca. Durante os oito anos de Reagan, a principal preocupação do establishment republicano era recuperar o controle do Partido Republicano aos reaganistas.

É provável que Trump agora experimente em grande escala o que os presidentes Carter e Reagan experimentaram. O esforço será feito no sentido de forçá-lo a compromissos e neutralizar a sua agenda. Ironicamente, este ataque determinado a Trump está a ser ajudado pela esquerda, forças progressistas que se preparam para ganhos [políticos] pelo interesse de Trump em favor das classes trabalhadora e média e da paz com a Rússia. Muitos dos sítios web liberais, progressistas e de esquerda já estão a solicitar doações a fim de combater contra Trump.

Assim, mesmo quando conseguimos um presidente que pode tentar representar os interesses do povo americano, aqueles que dizem falar a favor do povo juntam-se aos oligarcas no ataque a Trump. O lado esquerdo do espectro parece sempre, como o lado direito, acatar seus odiados. Trump é um bilionário = odiado. Trump nomeou um magnata da energia = odiado. Trump nomeou dois generais de três estrelas = belicista e mais odiado.

Os liberais, progressistas e de esquerda não podem transcender seus espantalhos. Naturalmente, eles podem estar correctos. Entretanto, como tenho enfatizado, Trump escolheu independentes que se têm manifestado contra o establishment. Além disso, trata-se de homens fortes, como Trump, o que dá trabalho para deitar abaixo. O presidente da Exxon quer negócios de energia, não a guerra, com a Rússia. O gen. Flynn é um dos que revelou na televisão que Obama utilizava o ISIS para derrubar a Síria contra a recomendação da Defense Intelligence Agency. O gen. Mattis foi um dos que contestou a eficácia da tortura.

Os principais nomeados de Trump são pessoas que desafiaram o Establishment. A variedade habitual de nomeados aprovados pelo establishment não pode provocar mudança em Washington.

Os liberais, progressistas e de esquerda deveriam estar felizes com a perspectiva de um governo com gente de fora do Establishment. Ao invés disso, os liberais, progressistas e de esquerda alinharam-se com o Establishment na oposição a Trump.

Todos os dias recebo meia dúzia de pedido de doações para "ajudar-nos a combater Donald Trump". O que é que estas pessoas pensam? Por que querem combater alguém a que todo o establishment político dos EUA se opõe? O que elas deveriam tentar em primeiro lugar é obter a confiança de Trump e ganhá-lo para a sua agenda, como fez o general Mattis.

Não posso assegurar-lhe que Trump não é um outro falsário como Obama. Mas é um erro começar com esta suposição. Por que cancelar antecipadamente a única pessoa com a coragem para por a sua vida em risco e enfrentar o corrupto e perverso establishment de Washington?

Por que ajudar o Establishment a derrotar Trump? Se Trump trair americanos, podemos voltar-nos então contra ele, ou podemos decidir se Chris Hedges está correcto em que só a revolução pode rectificar esta situação.
03/Janeiro/2017
 
O original encontra-se em www.paulcraigroberts.org/...

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

O Ocidente reescreve o passado

por Manlio Dinucci


JPEG - 35.7 kb
1984

“Massacre de Berlim, por que o terrorista deixou seus documentos” – pergunta o “Corriere della Sera”, falando de “esquisitices”. Para obter a resposta basta dar uma olhada no passado recente, mas disso não há mais memória. Foi reescrita pelo “Ministério da Verdade” que – imaginado por George Orwell no seu romance de ficção política “1984”, crítico do “totalitarismo stalinista” – tornou-se realidade nas “democracias ocidentais”.

Assim, foi eliminada a história documentada dos últimos anos. A história da guerra dos EUA e da Otan contra a Líbia, decidida – o que está provado nos emails de Hillary Clinton – para bloquear o plano de Kadafi de criar uma moeda africana em alternativa ao dólar e ao franco CFA [1]. Guerra iniciada com uma operação secreta autorizada pelo presidente Obama, financiando e armando grupos islâmicos antes classificados como terroristas, entre os quais os núcleos do futuro Isis (o chamado Estado Islâmico na sigla em inglês). Depois abastecidos de armas através de uma rede da CIA (documentada pelo “New York Times” em março de 2013 [2]) quando, depois de ter contribuído para derrubar Kadafi, passaram em 2011 à Síria para derrubar Assad e em seguida atacar o Iraque (no momento em que o governo de Al-Maliki se distanciava do Ocidente, aproximando-se de Pequim e Moscou [3]).

Foi eliminado o documento da agência de inteligência do Pentágono (datado de 12 de agosto de 2012, desclassificado em 18 de maio de 2015 [4]), no qual se afirma que “os países ocidentais, os Estados do Golfo e a Turquia apoiam na Síria as forças que tentam controlar as áreas orientais” e, com tal escopo, existe “a possibilidade de estabelecer um principado salafita na Síria oriental”.

Foi eliminada a documentação fotográfica do senador estadunidense John McCain que, em missão na Síria por conta da Casa Branca, se encontra em maio de 2013 com Ibrahim al-Badri, o “califa” à frente do Isis [5].

Ao mesmo tempo, inspirando-se na “novilíngua” orwelliana, adapta-se caso a caso a linguagem política-midiática: os terroristas são definidos como tal somente quando aterrorizam a opinião pública ocidental para que esta apoie a estratégia dos EUA/Otan, mas são chamados de “opositores” ou “rebeldes” quando provocam massacres de civis na Síria.

Usando a “novilíngua” das imagens, esconde-se durante anos a dramática condição da população de Alepo, ocupada pelas formações terroristas apoiadas pelo Ocidente, mas, quando as forças sírias apoiadas pela Rússia começam a libertar a cidade, mostra-se diariamente “o martírio de Alepo”.
Porém, esconde-se a captura por parte das forças governamentais, em 16 de dezembro, de um comando da “Coalizão pela Síria” — formado por 14 oficiais dos Estados Unidos, Israel, Arábia Saudita, Catar, Turquia, Jordânia, Marrocos — que, a partir de um bunker no Leste de Alepo, coordenava os terroristas de Al Nusra e outros [6].

Com esse pano de fundo se pode responder à pergunta do “Corriere della Sera”: como já tinha ocorrido no massacre de “Charlie Hebdo” e em outros, os terroristas esquecem ou deixam voluntariamente um documento de identidade para logo ser identificado e assassinado.

Em Berlim, foram verificadas outras “esquisitices”: invadindo o caminhão logo depois do massacre, a polícia e os serviços secretos não se aperceberam de que sob o banco do motorista estavam a carteira de identidade do tunisiano e muitas fotos. Mas prendem um paquistanês, que depois de um dia é solto por insuficiência de provas. Nesse momento, um agente particularmente especializado vai olhar debaixo do banco do motorista e descobre o documento de identidade do terrorista. Interceptado por acaso em plena noite e assassinado por uma patrulha na estação de trem de Sesto San Giovanni (Milão), a um quilômetro de onde tinha partido o caminhão polonês usado parao massacre.

Tudo documentado pelo “Ministério da Verdade”.
Tradução
José Reinaldo Carvalho
Editor do site Resistência


[1] “A recolonização da Líbia”, Manlio Dinucci, Tradução Choldraboldra, Il Manifesto (Itália) , Rede Voltaire, 14 de Março de 2016.
[2] «Arms Airlift to Syria Rebels Expands, With Aid From C.I.A.», C. J. Chivers & Eric Schmitt, “Syrian Rebels Hit Central Damascus Square With Mortar Shells”, Anne Barnard, The New York Times, 24 & 25 mars 2013.
[3] “Jihadismo e indústria petrolífera”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Al-Watan (Síria) , Rede Voltaire, 23 de Junho de 2014.
[4] “DIA Report on Syrian Jihadists”.
[5] “John McCain, chefe de orquestra da «primavera árabe», e o Califa”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 18 de Agosto de 2014.
[6] “O Conselho de Segurança reúne-se à porta fechada após a prisão de oficiais da OTAN em Alepo”, “Detenção de jiadistas e de oficiais estrangeiros em Alepo-Leste”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 17 & 22 de Dezembro de 2016.

aqui:http://www.voltairenet.org/article194727.html

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

«Cidadão Snowden»

por António Abreu

Apesar de refugiados, de serem tratados como traidores pelos falcões que dirigem o Big Brother, a acção de Edward Snowden, de Julian Assange e da WikiLeaks tem sido de grande importância contra esta vigilância massiva que recorre a novas e caras tecnologias para manter controlados países, governos e povos.
Créditos / Agência Lusa
A RTP transmitiu, no passado dia 5, a terceira parte do documentário «CITIZENFOUR» («Cidadão Snowden»), premiado com o Óscar de melhor documentário, cuja história começou em Janeiro de 2013, quando estando a realizadora Laura Poitras a fazer um filme sobre abusos de segurança nacional no pós-11 de Setembro nos Estados Unidos, começou a receber e-mails encriptados de alguém que se identificava como «CITIZENFOUR», que se dizia pronto a denunciar os programas de vigilância massiva dirigidos pela NSA (National Security Agency) e outras agências secretas.

Em menos de seis meses, depois de Snowden ter saído dos EUA para Hong Kong, e depois da administração norte-americana ter pedido a sua extradição sem êxito, Laura Poitras e o jornalista Glenn Greenwald, a quem Snowden confiou todos os elementos de que dispunha, trabalharam com ele meses a fio num documentário que viria a ganhar o Óscar no ano passado.

Snowden passou a Glenn e a Laura informações confidenciais da poderosa e tentacular NSA e de outras agências de inteligência, desmascarando práticas secretas de espionagem digital a milhares de cidadãos dos EUA e do mundo. Num trabalho coordenado por Glenn e pelo «The Guardian» a denúncia veio a público, provocando grande indignação e polémica. E Laura documentou em vídeo os múltiplos encontros entre Glenn e Snowden num quarto de hotel em Hong Kong, apresentando um documentário baseado neles o resultado em 2014.

Ao revelar-se há três anos ao mundo, Snowden afirmou:
«O meu nome é Ed Snowden. Há pouco mais de um mês, eu tinha família, um lar no paraíso, e vivia com grande conforto. Tinha também meios para, sem qualquer ordem judicial, procurar, avaliar e ler as comunicações de todos vós, comunicações de qualquer pessoa, a qualquer momento. E o poder para mudar o destino das pessoas.

Isso é também uma grave violação da lei. A 4.ª e 5.ª Emendas da Constituição do meu país, o artigo 12.º da Declaração Universal dos Direitos Humanos e inúmeros estatutos e tratados proíbem tais sistemas de vigilância pervasiva massiva. Enquanto a Constituição dos EUA define estes programas como ilegais, o meu governo argumenta que decisões tomadas por tribunais secretos, que o mundo não tem permissão para ver, legitimam, de algum modo, aquele procedimento ilegal. Essas decisões de tribunais secretos corrompem, simplesmente, as noções mais básicas da Justiça – que a Justiça, para ser feita, tem de trabalhar às claras. O imoral não pode ser transformado em moral por força de lei secreta.

Acredito no princípio declarado em Nuremberga em 1945: "Os indivíduos têm deveres internacionais que transcendem as obrigações nacionais de obediência". Portanto, cidadãos, indivíduos, têm o dever de violar leis domésticas para impedir que se cometam crimes contra a paz e a humanidade». (…).
Apesar de refugiados, de serem tratados como traidores pelos falcões que dirigem o Big Brother, a acção de Edward Snowden, de Julian Assange e da WikiLeaks tem sido de grande importância contra esta vigilância massiva que recorre a novas e caras tecnologias para manter controlados países, governos e povos.

O «The Guardian» foi o primeiro jornal a divulgar os documentos. Outros jornais de vários países do mundo seguiram-lhe o exemplo e foram divulgando, sistematicamente, a vigilância que devassa a vida de todos os cidadãos, os transforma em alvos de pressão política, chantagem e assassinato sem precedentes, atingindo também os próprios países e governos aliados dos EUA.

Edward Joseph Snowden, na altura com 30 anos, era analista de sistemas e administrador de sistemas da CIA e contratado da NSA. Vive, asilado em Moscovo há três anos, tal como o australiano Julian Assange, um dos responsáveis da WikiLeaks, jornalista e cibernauta, vive asilado há quatro anos, na Embaixada do Equador em Londres.

A actualização de dados que vão sendo extraídos da documentação em bruto e outras questões relacionadas podem encontrar-se: no «The Intercept», na Courage Foundation e no «The Guardian».

O já chamado «Arquivo de Snowden» inclui uma grande diversidade de documentos, com relevo para programas de monitorização e comunicações internas e pertencem essencialmente à NSA mas incluem também actividades de outros serviços secretos das mesmas áreas como o Government Communications Headquarters (GCHQ), britânico.

Aliás estas duas agências trabalham partilhando informações, o que permitiu a Snowden ter acesso a elas. Mas trabalham também em associação com as agências homólogas da Austrália, Nova Zelândia e Canadá (algumas das mais poderosas do planeta, conhecidas como os Five-eyes ou Cinco-olhos…), o que lhes permite ter uma visão muito ampliada das actividades de informação electrónicas.

São múltiplos os exemplos da natureza maciça desta monitorização. Por exemplo:
• A NSA recolhe 200 milhões de mensagens de texto e imagens por dia em todo o mundo;
• O GCHQ intercepta chats de vídeo de 1,8 milhões dos utentes da Yahoo!;
• A NSA é capaz de chegar a todos os lugares de um único país;
• O GCHQ intercepta quantidades astronómicas de dados nos diversos cabos submarinos que chegam à Grã-Bretanha, sendo mesmo capaz de manter uma cópia completa dos dados por três dias.

A lógica de funcionamento da captação de dados é recolher tudo em cada vez mais suportes num «palheiro» cada vez maior para depois selecionar a «agulha», tendo um dos cérebros do GCHQ já sugerido que se captasse tudo na Internet…Há agências e empresas a transbordar desta informação mas é assim mesmo que trabalham.

Depois das revelações de Snowden, a NSA e o GCHQ desenvolveram um sistema e processo de industrialização e automatização de infeção de milhões de computadores, que a NSA é capaz de inserir para modificar programas espiões em routers americanos, dispositivos que permitem fazer transitar uma grande quantidade de comunicações através da Internet, antes de a disponibilizar.

Com a passagem do tempo, a «porosidade» entre estes serviços secretos e empresas como a Microsoft, o Facebook, o Google, empresas de telecomunicações terrestres e marítimas foi sendo revelada, quer porque os primeiros o davam a entender quer porque as segundas, em jeito envergonhado reconheceram «acordos» entre as duas partes. O «Washington Post» revelou depois a pirataria da NSA em relação ao Google e à Yahoo!

Mas esta «porosidade» permite que a NSA exerça a sua pesada influência para enfraquecer certos padrões de encriptação dos dados, tornando potencialmente mais fácil a leitura de dados supostamente protegidos e debilitando a segurança de todos os utilizadores da Internet.
As revelações de Snowden permitiram também verificar que há governos de países como a Alemanha que prescindem de parte da sua soberania ao permitirem o acesso a dados recolhidos no seu território ou acesso a dados interceptados pelos próprios

Outra faceta da actividade da NSA e GCHQ foi agora revelada pelo «Le Monde» que tem um acordo com «The Intercept». Supostamente a grande maioria da actividade destes serviços secretos deveria estar centrada no tráfico de armas, de drogas e de seres humanos ou na recolha de dados sobre grupos terroristas… Mas parece que não. A maioria das operações tem como alvos operadores de telecomunicações, quadros dirigentes destas e as suas actividades profissionais.

Também na investigação sobre o GCHQ no «Arquivo Snowden» o jornal francês encontrou relatórios de ensaio sobre links de satélite que transportam tráfego de internet e telefone. Na Primavera de 2009, a agência interceptou comunicações internas de duas operadoras muito activos no Médio Oriente e em África.

A «rede Zain», criada pelo GCHQ, está muito presente em África e ainda operava, à data da divulgação do «arquivo», em 2013, em quinze países, do Burkina Faso ao Níger passando pelo Uganda e pelo Chade, procedendo à vigilância de chefes de estado de vários países, incluindo José Eduardo dos Santos.

Snowden e Assange foram vítimas de perseguição, de ameaças de morte, de mentiras, estão limitados nos pequenos espaços que a solidariedade da Rússia e do Equador lhes concederam, perderam a vida familiar e o direito ao bem-estar. Tiveram uma atitude corajosa para o bem da humanidade, ao contribuírem para que, nestes três anos, os povos de todo o mundo pudessem ter algum acesso ao conhecimento sobre o controlo total que o imperialismo procura ter sobre eles.

aqui:http://www.abrilabril.pt/cidadao-snowden

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Golpe de Estado em lume brando

por José Goulão

O fracassado referendo constitucional em Itália foi o primeiro episódio que contrariou os intentos de golpe de Estado em lume brando que há muito se vêm desenvolvendo no país, com maior intensidade a partir do final dos anos oitenta do século passado, mais exactamente desde a tão celebrada queda do muro de Berlim.

Matteo Renzi
Matteo RenziCréditos / Agência Lusa

Um desejo de golpe caracterizado por episódios dramáticos de extrema violência, entre os quais vou destacar apenas, para não me alongar, a chamada «estratégia de tensão», sucessão de actos terroristas nos anos setenta e oitenta executados por grupos «vermelhos» ou «negros», conforme calhava, e que tiveram por trás sectores dos serviços secretos nacionais e internacionais, bem como militares ligados a estruturas conspirativas e clandestinas da NATO; e o repugnante assassínio de Aldo Moro, carismático dirigente humanista da Democracia Cristã.

É um processo de golpe extenso no tempo e que, na fase mais recente, visa implantar um sistema bipartidário com um mínimo de peias políticas, «à americana», com um «centro-esquerda» e uma direita alternando no governo – ou até aliados – para cumprirem os mesmos objectivos políticos, económicos e financeiros da ditadura neoliberal de fachada democrática.

Na fase actual do golpe trata-se de «agilizar» as instituições, de modo a criarem governos rápidos, estáveis e expeditos, suprimindo o debate e os «inconvenientes» levantados pelo pluralismo de ideias que se expressa através do universo dos partidos políticos, seja qual for a dimensão de cada um.

Para tal, o agente de turno na condução da estratégia de golpe, Matteo Renzi, pretende impor a nova lei eleitoral, onde a força vencedora tem direito automático a maioria parlamentar absoluta, seja qual for a sua percentagem – através de um sistema de bónus de deputados –, e uma nova articulação das câmaras parlamentares, juntamente com a concentração dos poderes em Roma, retirados aos órgãos regionais e locais.

É na figura de Matteo Renzi e na estrutura do seu Partido Democrático que encontramos as raízes mais profundas da fase actual do golpe, lançadas em finais dos anos oitenta. Nessa altura, na ressaca do desmoronamento do muro berlinense, da União Soviética e do Tratado de Varsóvia, o cenário político italiano entrou numa convulsão que se caracterizou pela eliminação do Partido Comunista Italiano (PCI), o maior da Europa Ocidental, e do Partido Socialista, substituídos por uma criatura designada Partido Democrático, incarnando aquilo a que pode chamar-se a «terceira via blairista», isto é, a vertente pretensamente de «centro-esquerda» ou «social-democrata» das facções políticas neoliberais de que Renzi, Hollande e a sua corte são os expoentes de hoje.

Sempre se disse, tanto no auge da «estratégia de tensão» como no aproveitamento desestabilizador dos grupos ditos «maoístas» e de «extrema-esquerda» – de que as Brigadas Vermelhas foram o exemplo mais nocivo e sangrento – que a CIA tinha em Itália a sua principal plataforma na Europa, por razões geoestratégicas mas também para agir de perto contra o PCI.

Na verdade, a emergência do Partido Democrático traduziu o êxito absoluto da guerra contra os comunistas italianos, através da liquidação do seu partido, pelo que se pode afirmar, sem qualquer dúvida, que se a criação de tal entidade não foi obra da central de conspiração norte-americana, o resultado obtido é perfeitamente a seu contento.

Importa recordar que a transfiguração política italiana não se ficou pela esquerda. À direita, também a velha Democracia Cristã foi desmantelada e dividida em grupúsculos, castigo por ter um dia caído no erro histórico de ousar admitir uma maioria de governo com apoio parlamentar dos comunistas – atitude tacitamente proibida pela NATO e por Washington e que, em boa verdade, custou a vida a Aldo Moro.

Da recomposição à direita saíram grupos às ordens de Berlusconi e, no presente, algumas expressões do populismo pós-mussoliniano. E enquanto se ouvem lamentos, uivos e ranger de dentes por causa do papel da extrema-direita na derrota do referendo de Renzi é oportuno lembrar que a eliminação da esquerda consequente e o liberalismo caótico e austeritário da União Europeia escancararam as portas para a plena afirmação do neofascismo italiano nas suas vertentes diversas, incluindo a berlusconiana.

A União Europeia não tem de que se queixar: colhe hoje, através da sua inevitável derrapagem para o abismo, aquilo que foi plantando em asfixia da democracia e na desumana perseguição aos cidadãos.
Por isso, parece-me importante lembrar ainda que foi Matteo Renzi quem, mal tomou conta da chefia do Partido Democrático, visitou o próprio Sílvio Berlusconi para com ele planificar a reforma constitucional que agora pretende impor, lei eleitoral incluída.

Ora acresce que a tentativa de imposição da reforma constitucional em clima de chantagem política, jogando (excesso de confiança) com o maniqueísmo «eu ou o caos», não foi a estreia de Matteo Renzi nas estratégias golpistas. Foi assim que ele próprio chegou à chefia do partido e do governo, assaltando o poder do seu correligionário Enrico Letta à cabeça do PD e do executivo, através de um congresso organizado graças a uma descarada manipulação do aparelho partidário.

E eis que o chão se abriu agora sob os pés do aprendiz de feitiçaria política Matteo Renzi, oriundo da área da Democracia Cristã e para quem as petroditaduras do Qatar e dos Emirados Árabes Unidos são regimes económicos nos quais a Itália e o resto da União Europeia deveriam por os olhos. Tanto atacou a democracia que a democracia exercida através do voto lhe deu o troco.

Agora há que ter a noção da gravidade da crise em que a Itália mergulhou, uma vez que no cenário político não existe rectaguarda sólida para o falhanço do golpe: a esquerda não tem expressão nem unidade que lhe permitam intervir, uma vez que está ainda dispersa numa miríade de grupos e movimentos; o Partido Democrático, na verdade uma coligação criada sem princípios, é um saco de gatos na luta pelo poder interno e nacional; a extrema-direita e o populismo parecem pujantes, mas balançando entre a decrepitude octogenária de Berlusconi e o niilismo e o aventureirismo do clown Grilo e seus comparsas.

Busca-se, mais uma vez, um chefe de governo tecnocrático – fala-se em Padoan, agente do FMI em funções de ministro das Finanças – para evitar eleições antecipadas e arrastar o problema, agravando-o.

À imagem de Itália, a União Europeia, sem conserto, arrasta-se numa agonia irreversível, enquanto os seus dirigentes centrais e nacionais falam como se tudo evoluísse no correcto sentido, insistindo em que os problemas explodindo por todo o lado nada têm a ver uns com os outros. E, com a União Europeia, todo o continente se vai precipitando no abismo, tecendo loas à moeda única e à «integração», teimando em olhar a avalanche xenófoba, racista e fascista como fenómeno passageiro, folclórico até.

De novo, um trágico engano.

aqui:http://www.abrilabril.pt/golpe-de-estado-em-lume-brando

sábado, 3 de dezembro de 2016

CARL HART - Crack - É possível entender



A convite do CESeC (Centro de Estudos de Sociedade e Cidadania) da Universidade Candido Mendes, o neurocientista Carl Hart veio ao Brasil pela primeira vez.

Professor da Universidade de Columbia em Nova York tornou-se uma referência na pesquisa sobre hábitos de uso e abusos de drogas por sua abordagem que combina a leitura científica, política e social do problema das drogas. Particularmente do crack.

Ele veio ao país para uma série de conferências, palestras, encontros e pesquisa de campo. Conheceu de acadêmicos a usuários de crack em situação de rua. De ativistas a nomes das política nacional. Falou com a mídia e viu como ela ainda segue refém de velhos e ultrapassados conceitos.

E para lançar a edição brasileira de seu livro "Um Preço Muito Alto", um relato autobiográfico e científico sobre como sua juventude no gueto, envolvido com o crime e as drogas, moldaram sua visão acadêmica e política sobre o assunto.

No Brasil, Hart viu a manifestação das contradições entre o que a sociedade pensa e o que a ciência tem a dizer sobre o "problema do crack". E lamentou perceber que hoje o Brasil está repetindo os mesmos equívocos e a mesma paranóia em relação ao crack que os EUA viveram nos anos 1980.

O Fluxo acompanhou a visita de Carl Hart ao Brasil. Participou de conferências, visitou com ele cenas de uso, comunidades sob ocupação militar, universidades.
Graças ao apoio do CESeC fez um resumo da visita e das ideias de Carl Hart.

Câmeras: Fernando Ligabue, Bruno Torturra e Tatiana Tófoli.
Edição: Felipe Carreli e Bruno Torturra.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

A guerra do ocidente à verdade


por Paul Craig Roberts 
 
A "guerra ao terror" tem sido simultaneamente uma guerra à verdade. Durante quinze anos – desde o 11/Set até às "armas de destruição em massa" de Saddam Hussein e às "conexões al Qaeda", "ogivas nucleares iranianas", "utilização de armas químicas por Assad", mentiras infindáveis acerca de Kadafi, "invasão russa da Ucrânia" – os governos das assim chamadas democracias ocidentais consideraram essencial alinharem-se firmemente às mentiras a fim de prosseguirem suas agendas. Agora estes governos ocidentais tentam desacreditar os que contam verdades e desafiam as suas mentiras.

Serviços noticiosos russos estão sob o ataque das presstitutas da UE e do ocidente, fornecedoras de "falsas notícias". www.globalresearch.ca/... Obedecendo às ordens dos seus mestres de Washington, a UE aprovou de facto uma resolução contra os media russos por não seguirem a linha de Washington. O presidente russo afirmou que a resolução é um "sinal visível da degradação da ideia de democracia na sociedade ocidental".

Tal como previu George Orwell, dizer a verdade é agora encarado pelos governos "democráticos" do ocidente como um acto hostil. Um sítio web totalmente novo, propornot.com, acaba de surgir condenando uma lista de 200 sítios web da Internet que apresentam notícias e visões em desacordo com os media presstitutos que servem agendas de governos. http://www.propornot.com/p/the-list.html Será que o financiamento de propornot.com vem da CIA, do National Endowment for Democracy ou de George Soros? Tenho orgulho em dizer que paulcraigroberts.org está na lista.

O que aqui vemos é o ocidente a adoptar o modo como os sionistas de Israel trata os críticos. Qualquer um que faça objecções ao tratamento cruel e desumano de palestinos por parte de Israel é demonizado como "anti-semita". No ocidente aqueles que discordam de políticas assassinas e brutais de responsáveis públicos são demonizados como "agentes russos". O próprio presidente eleito dos Estados Unidos foi designado como "agente russo".

Este esquema de redefinir como propagandistas os que contam a verdade saiu pela culatra. O esforço para desacreditá-los produziu, ao invés, um catálogo de sítios web onde pode ser encontrada informação confiável e os leitores estão a acorrer aos sítios da lista. Além disso, o esforço para desacreditar os que dizem a verdade mostra que governos do ocidente e seus presstitutos são intolerantes à veracidade e à diversidade de opinião, assim como estão empenhados em forçar o povo a aceitar como verdadeiras as mentiras em causa própria dos governos.

Evidentemente, os governos e os media ocidentais não têm respeito pela verdade. Assim, como pode o ocidente ser democrático?

O presstituto Washington Post desempenhou o papel que lhe foi assinalado na pretensão apregoada por Washington de que os media alternativos consistem de agentes russos. Craig Timberg, o qual parece destituído de integridade ou de inteligência, e talvez de ambos, é o pateta do WaPo que redigiu a notícia falsa de que "duas equipes de investigadores independentes" – nenhuma das quais foi identificada – descobriu que os russos exploraram minha credulidade, a do CounterPunch, do Professor Michel Chossudovsky do Global Research, Ron Paul, Lew Rockwell, Justin Raimondo e de 194 outros sítios web para ajudar "um candidato insurgente" (Trump) "a pretender a Casa Branca".

Observe-se a expressão aplicada a Trump – "candidato insurgente". Isto lhe diz tudo o que precisa saber.

Pode ler aqui o que passa por "noticiário confiável" no presstituto Washington Post: www.washingtonpost.com/... Ver também: www.alternet.org/... e Glenn Greenwald de The Intercept, o qual de alguma forma escapou à inclusão na lista dos 200, trata de Timberg e do Washington Post aqui: theintercept.com/...

As desculpas dos governos ocidentais começam a esgotar-se. Desde o regime Clinton, a acumulação de crimes de guerra cometidos por governos ocidentais excedeu aqueles da Alemanha nazi. Milhões de muçulmanos foram massacrados, deslocados e desalojados em sete países. Nem um único criminoso de guerra ocidental foi responsabilizado.

O desprezível Washington Post é um apologista primário destes crimes de guerra. Todos os media impressos e de TV do ocidente estão tão fortemente implicados nos piores crimes de guerra da história humana que, se a justiça alguma vez chegar, os presstitutos estarão lado a lado no banco dos reus com os Clintons, George W. Bush e Dick Cheney, Obama e seus operacionais neocon ou manipuladores.
27/Novembro/2016
 
O original encontra-se em www.paulcraigroberts.org/...

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .