sábado, 2 de dezembro de 2017

Na ONU, a incapacidade USA de admitir a realidade

por Thierry Meyssan

 Enquanto os Presidentes Putin e Trump avançam na questão síria, os altos- funcionários de origem USA na ONU encetaram um braço de ferro com a Rússia. Recusando investigar um crime sobre o qual já tomaram posição a priori, provocaram não um, mas quatro vetos no Conselho de Segurança. Para Thierry Meyssan, o comportamento esquizofrénico dos Estados Unidos na cena internacional atesta, ao mesmo tempo, a divisão da Administração Trump e o declínio do imperialismo dos EUA.

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Retomando a postura do seu distante predecessor, Adlai Stevenson, aquando da crise dos mísseis cubanos, Nikki Haley denunciou o incidente acontecido em Khan Sheikhun por meio de terríveis fotografias. No entanto, o Mecanismo de inquérito ONU-OIAC recusou autenticar estas pretensas «provas». Observe-se o falcão Jeffrey Feltman sentado ao lado da Embaixatriz.
 
Decididamente poucas coisas mudaram desde o 11 de Setembro de 2001. Os Estados Unidos persistem em manipular a opinião pública internacional e os meios das Nações Unidas, por razões diferentes é claro, mas sempre com o mesmo desprezo pela verdade.

Em 2001, os representantes dos Estados Unidos e do Reino Unido, John Negroponte e Stewart Eldon, asseguravam que os seus dois países acabavam de atacar o Afeganistão em legítima defesa após os atentados cometidos em Nova Iorque e Washington [1]. O Secretário de Estado, Colin Powell, prometia distribuir no Conselho de Segurança um dossiê completo apresentando as provas da responsabilidade afegã. Continuamos à espera, 16 anos mais tarde, por esse documento.

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O Secretário de Estado, Colin Powell, mente no Conselho de Segurança. Brandindo o que ele apresenta como um frasco de antraz, capaz de matar toda a população de Nova Iorque, acusa o Iraque de se ter preparado para atacar os Estados Unidos. Jamais Washington se desculpou por esta mascarada.
 
Em 2003, o mesmo Colin Powell vinha explicar ao Conselho de Segurança, aquando de uma intervenção difundida pelas televisões do mundo inteiro, que o Iraque estava igualmente implicado nos atentados de 11-de-Setembro e que preparava uma nova agressão contra os Estados Unidos, por meio de armas de destruição maciça [2]. No entanto, assim que deixou as suas funções no seio do governo dos EUA, o General Powell admitia, num canal de televisão do seu país, que as muitas acusações do seu discurso eram todas falsas [3]. Continuamos à espera, 14 anos depois deste discurso, do pedido de desculpas dos Estados Unidos perante o Conselho de Segurança.

Toda a gente acabou por esquecer as acusações dos EUA sobre a “responsabilidade” do Presidente Saddam Hussein nos atentados de 11 de Setembro (desde então, Washington atribuiu os mesmos atentados à Arábia Saudita, seguindo-se, hoje em dia, o Irão, sem nunca apresentar provas em qualquer desses quatro casos).

Pelo contrário, recordamos o debate, que durou meses, sobre as armas de destruição maciça. À época, a Comissão de Controle, Verificação e Inspeção das Nações Unidas (em inglês UNMOVIC) não encontrou o menor traço dessas armas. Um braço de ferro opôs o seu director, o sueco Hans Blix, primeiro aos Estados Unidos, depois à ONU e, por fim ao conjunto do mundo ocidental. Washington afirmava que H. Blix não tinha encontrado essas armas porque fazia mal o seu trabalho, enquanto ele garantia que o Iraque jamais tivera a capacidade para fabricar tais armas. Seja como for, os Estados Unidos bombardearam Bagdade, invadiram o Iraque, derrubaram o Presidente Saddam Hussein e enforcaram-no, ocuparam o seu país e pilharam-no.

O método dos EUA após 2001 não tinha nenhuma relação com aquele que o tinha precedido. Em 1991, o Presidente Bush Sr. assegurara-se em colocar o Direito Internacional do seu lado antes de atacar o Iraque. Ele tinha-o pressionado a invadir o Kuweit e o Presidente Saddam Hussein a fixar-se em tal. Assim, conseguiu o apoio de quase todas as nações do mundo. Ao contrário, em 2003, Bush Júnior contentou-se em mentir e apenas em mentir. Inúmeros Estados distanciaram-se de Washington, enquanto se assistia às maiores manifestações pacifistas da História, de Paris a Sidney, de Pequim à Cidade do México.

Em 2012, o Gabinete de Assuntos Políticos da ONU redigiu um projecto de capitulação total e incondicional da Síria [4]. O seu Director, o norte-americano Jeffrey Feltman, antigo adjunto da Secretária de Estado Hillary Clinton, usou todos os meios de que dispunha para formar a maior coligação (coalizão-br) da História e acusar a Síria de todo o tipo de crimes, dos quais nenhum jamais foi provado.

Se os Estados que detêm o documento Feltman decidiram não publicá-lo foi para preservar as Nações Unidas. Com efeito, é inaceitável que os meios da ONU tenham sido utilizados para promover a guerra quando esta instituição foi criada para preservar a paz. Não sendo constrangido pelas mesmas obrigações que um Estado, eu publiquei um estudo detalhado sobre este ignóbil documento no livro Sous nos yeux (Sob os Nossos Olhos. Do 11-de-Setembro a D. Trump) [5].

Em 2017, o Mecanismo de Investigação Conjunta ONU-OIAC, criado a pedido da Síria para investigar o uso de armas químicas no seu território, foi objecto do mesmo braço de ferro como o que opôs Hans Blix a Washington. Salvo que, desta vez, as frentes estavam invertidas. Em 2003, a ONU defendera a paz. Mas não desta vez, Jeffrey Feltman fora reconduzido nas suas funções, mantendo-se como o número 2 da ONU. É a Rússia, desta vez, quem se opõe aos funcionários internacionais pró-EUA, em nome da Carta.

Se os trabalhos do Mecanismo de Inquérito foram objecto de normal debate durante o seu primeiro período, isto é, de Setembro de 2015 a Maio de 2017, eles tornaram-se motivo de clivagem quando o Guatemalteco Edmond Mulet substituiu, na sua direcção, a Argentina Virgínia Gamba ; uma nomeação imputável ao novo Secretário-geral da ONU, o Português António Guterres.

O Mecanismo de Investigação mobiliza funcionários internacionais da ONU e da OIAC. Esta prestigiosa organização internacional recebeu o Prémio Nobel da Paz, em 2013, nomeadamente pelo seu trabalho de vigilância da destruição pelos Estados Unidos e pela Rússia das armas químicas sírias. No entanto, o seu Director, o Turco Ahmet Üzümcü, evoluiu. Em Junho de 2015, ele foi convidado para Telfs Buchen (Áustria) para a reunião do Grupo de Bilderberg, o clube da OTAN.

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Em Dezembro de 2015, Ahmet Üzümcü é condecorado com a Legião de Honra pelo Ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Laurent Fabius, o homem para quem o Presidente al-Assad «não tem o direito de viver» e a Alcaida «faz o bom trabalho». 
 
A questão era ainda mais grave do que a de 2003, aquando do litígio opondo, por um lado, Hans Blix, e, por outro lado, os Estados Unidos que ameaçavam intervir contra o Iraque se a ONU provasse a existência de armas destruição maciça, enquanto em 2017 opõe a Rússia a Edmond Mulet, que poderia validar a posteriori a intervenção norte-americana contra a Síria. De facto, Washington já se decidira, considera a Síria como responsável por um ataque de gás sarin em Khan Sheikhun, e bombardeia de seguida a base aérea de Shayrat [6].

No caso em que o Mecanismo de Investigações se afastasse, de uma maneira ou de outra, do discurso de Washington, tal colocaria os Estados Unidos na obrigação de apresentar desculpas e indemnizar (indenizar-br) a Síria. Os funcionários internacionais pró-EU consideraram como sua missão, portanto, concluir que a Síria bombardeara a sua própria população com gás sarin, que ela ilegalmente manteria na Base Aérea de Shayrat.

A partir do mês de Outubro, o tom começou a subir entre certos funcionários da ONU e a Rússia. Contrariamente ao que a imprensa ocidental pretendeu, o diferendo não dizia respeito, de forma nenhuma, às conclusões do Mecanismo de Inquérito, mas, exclusivamente, aos seus métodos; recusando Moscovo antecipadamente qualquer conclusão obtida por métodos não-conformes aos princípios internacionais, estabelecidos no quadro da Convenção sobre Armas Químicas e da OIAC [7].

O gás sarin é um neurotóxico extremamente letal para o homem. Existem variantes deste produto, o clorosarin e ciclosarin, e uma versão ainda mais perigosa, o VX. Todos estes produtos são absorvidos pela pele e passam directamente para o sangue. Eles degradam-se num período de algumas semanas até alguns meses no ambiente, não sem consequências para os animais que entrem em contacto com eles. Quando penetra no solo, na ausência de oxigénio e de luz, pode perdurar durante muito tempo.

Basta ver as fotografias do ataque em Khan Sheikhun, mostrando, algumas horas mais tarde, pessoas a recolher amostras sem usar proteções para a pele, para saber com certeza que, se houve utilização de gás, não poderia ser nem sarin, nem um dos seus derivados. Para mais detalhes, iremos reportar-nos ao estudo do Professor Theodore Postol, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), que desmonta, um por um, os argumentos dos pretensos peritos da CIA [8].

Ora, contrariamente aos princípios da Convenção sobre as armas químicas, o Mecanismo de Inquérito não se deslocou ao terreno para recolher amostras, para as analisar, e identificar o gaz utilizado, se houve algum.

Interrogada a este propósito em Maio e Junho de 2017 pela Rússia, a OIAC declarou estar a estudar as condições de segurança dessa deslocação para finalmente concluir que não era necessário, uma vez que, segundo ela, «a utilização de sarin não levanta nenhuma dúvida».

Pelo contrário, o Mecanismo de Investigação dirigiu-se à base aérea de Shairat, onde segundo Washington o gás sarin tinha sido ilegalmente armazenado e onde havia sido carregado nos bombardeiros. Mas, apesar da insistência da Rússia, ele recusou recolher aí amostras.
Identicamente, o Mecanismo de Inquérito recusou estudar as revelações da Síria sobre o aprovisionamento dos jiadistas em gaz pelas sociedades norte-americanas e britânica Federal Laboratories, NonLethal Technologies, e Chemring Defence UK [9].

Os Estados Unidos e os seus aliados admitiram, eles próprios, no projecto de resolução que apresentaram, a 16 de Novembro, que os funcionários internacionais deveriam conduzir as suas investigações de «uma maneira apropriada à concretização do seu mandato» [10].

A Rússia rejeitou o relatório do Mecanismo de Inquérito tendo em vista o seu diletantismo e recusou, por três vezes, reconduzir o seu mandato. Ela opôs o seu veto a 24 de Outubro [11] e a 16 [12] e a 17 de Novembro, como já o havia feito a 12 de Abril [13] quando os Estados Unidos e a França [14] tentaram condenar a Síria por causa deste pretenso ataque de gaz sarin. Foi a 8ª, a 9ª, a 10ª e a 11ª vez que ela fez uso dele na questão síria.

Ignora-se por que razão Washington apresentou, ou fez apresentar, quatro vezes a mesma declaração ao Conselho de Segurança de modos diferentes. Este balbuciar já tinha ocorrido no início da guerra contra a Síria, a 4 de Outubro de 2011, a 4 de Fevereiro e 19 de Julho de 2012, quando a França e os Estados Unidos tentaram levar à condenação pelo Conselho o que eles chamavam a repressão da primavera síria. À época, a Rússia afirmava, pelo contrário, que não havia guerra civil, mas, sim uma agressão externa. Em cada ocasião, os Ocidentais replicaram que iam «convencer» o seu parceiro russo.

É interessante observar que, hoje em dia, o dogma ocidental pretende que a guerra na Síria começou como uma revolução democrática que descarrilou e acabou, finalmente, capturada pelos jiadistas. Ora, contrariamente ao que foi reivindicado, não existe qualquer prova da menor manifestação a favor da democracia na Síria em 2011-12. Todos os vídeos, publicados à época, são quer a favor do Presidente al-Assad, quer contra a República Árabe Síria, jamais pela democracia. Nenhum vídeo inclui slogan (eslogan-br) ou cartaz pró-democracia. Todos os vídeos das pretensas «manifestações revolucionárias» deste período foram gravados às sextas-feiras à saída das mesquitas sunitas, jamais em qualquer outro dia e nunca em qualquer outro lugar de reunião que não fosse uma mesquita sunita.

É verdade que em alguns vídeos se ouve frases contendo a palavra «liberdade». Apurando o ouvido, constatamos que os manifestantes aí exigem não a «Liberdade» no sentido ocidental, mas «a liberdade de aplicar a Xaria». Se encontrarem um documento rastreável que possa contradizer-me, de uma manifestação de mais de 50 pessoas, agradeço que mo comuniquem, que eu não deixarei de o publicar.

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Muito embora, para não dar a oportunidade à sua oposição de o acusar de ter ido buscar ordens junto ao KGBista Vladimir Putin, o President Trump não tenha tido nenhum encontro privado com ele, os dois homens espelham o seu entendimento (Đà Nẵng, 11 de Novembro de 2017).
 
Poderíamos interpretar a obstinação norte-americana em manipular os factos, como o sinal de alinhamento da Administração Trump com a política dos quatro mandatos precedentes. Mas esta hipótese é contrariada pela assinatura de um Memorandum secreto em Amã, a 8 de Novembro, entre a Jordânia [15], a Rússia e os Estados Unidos, e pela Declaração Conjunta dos Presidentes Putin e Trump, a 11 de Novembro, em Da Nang, à margem da cimeira de APEC [16].

O primeiro documento não foi publicado, mas sabemos por indiscrições que ele não leva em conta a exigência israelita de criar uma zona neutra em território sírio, a 60 quilómetros, não para lá da fronteira israelita, mas a partir da linha de cessar-fogo de 1967. Nunca perdendo uma ocasião de deitar óleo na fogueira, o governo britânico reagiu fazendo publicar através da BBC fotografias de satélite da base militar iraniana de El-Kiswah (a 45 quilómetros da linha de cessar-fogo) [17]. Como se poderia antecipar, o Primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu rejeitou imediatamente o acordo entre as Grandes potências e anunciou reservar o direito de Israel em intervir militarmente na Síria para preservar a sua segurança [18];

Este comentário constitui uma ameaça e, como tal, viola a Carta das Nações Unidas. Além disso, todos puderam constatar desde há sete anos que o pretexto de armas destinadas ao Líbano tem as costas largas. A título de exemplo, a 1 de Novembro o Tsahal (FDI) bombardeava, ilegalmente, uma zona industrial em Hassiyé alegando destruir armas destinadas ao Hezbolla. Na realidade, o alvo não era mais do que uma fábrica (usina-br) de cobre, indispensável para o restabelecimento do fornecimento de eletricidade no país [19].

A Declaração de Da Nang comporta nítidos avanços. Assim, ela estabelece, pela primeira vez, que todos os Sírios poderão participar na próxima eleição presidencial. Ora, até agora, os Sírios exilados foram proibidos de votar pelos membros da Coligação Internacional, em violação da Convenção de Viena. Quanto à «Coligação Nacional das Forças da Oposição e da Revolução», ela boicotava as eleições porque era uma instância dominada pelos Irmãos Muçulmanos, para quem «O Alcorão é a nossa Lei» e não há lugar para eleições num regime islamista.

O contraste entre, por um lado, a progressão das negociações Russo-EUA sobre a Síria e, por outro lado, a teimosia dos mesmos Estados Unidos em negar os factos perante o Conselho de Segurança da ONU é impressionante.

É interessante observar o embaraço da imprensa europeia tanto, quer face ao trabalho dos Presidentes Putin e Trump, como da teimosia infantil da delegação dos EU no Conselho de Segurança. Quase nenhum média (mídia-br) evocou o Memorandum de Amã e todos comentaram a Declaração Conjunta, antes de ela ser publicada, fazendo fé sobre a única base de uma Nota da Casa Branca. Quanto às criancices da Embaixatriz Nikki Haley no Conselho de Segurança, eles constataram, unanimemente, que os dois Grandes não tinham chegado a um acordo e ignoraram os argumentos russos, portanto longamente explicados por Moscovo.

Forçosamente constatamos que, se o Presidente Trump tenta liquidar a política imperialista dos seus predecessores, os funcionários internacionais pró-EU da ONU não conseguem adaptar-se à realidade.
Depois de 16 anos de mentiras sistemáticas, não conseguem raciocinar mais em função dos factos, mas, unicamente de acordo com as suas fantasias. Eles não conseguem mais senão tomar os seus desejos por realidades. Esse comportamento é característico de Impérios em declínio.

Tradução
Alva
[1] Referência: Onu S/2001/946 e S/2001/947.
[2] « Discours de M. Powell au Conseil de sécurité de l’ONU », par Colin L. Powell, Réseau Voltaire, 11 février 2003.
[3] “Colin Powell on Iraq, Race, and Hurricane Relief”, ABC, September 8, 2005.
[4] “A Alemanha e a ONU contra a Síria”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Al-Watan (Síria) , Rede Voltaire, 28 de Janeiro de 2016.
[5] Sous nos yeux. Du 11-Septembre à Donald Trump, Thierry Meyssan, Demi-Lune, 2017.
[6] “Porquê Trump bombardeou Shairat ?”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Al-Watan (Síria) , Rede Voltaire, 3 de Maio de 2017.
[7] « Observations émises par le Ministère russe des Affaires étrangères au sujet du dossier chimique syrien », Réseau Voltaire, 23 octobre 2017.
[8] “O relatório da CIA sobre o incidente de Khan Shaikhun é uma falsificação grosseira”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 18 de Abril de 2017.
[9] “Londres e Washington têm fornecido armas químicas aos jiadistas”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 22 de Agosto de 2017, www.voltairenet.org/article1...
[10] « Projet de résolution sur le Mécanisme d’enquête conjoint Onu-OIAC (Véto russe) », Réseau Voltaire, 16 novembre 2017.
[11] « Projet de résolution sur le renouvellement du Mécanisme d’enquête conjoint (Veto russe) », « Utilisation d’armes chimiques en Syrie (Veto russe) », Réseau Voltaire, 24 octobre 2017.
[12] « Projet de résolution sur le Mécanisme d’enquête conjoint Onu-OIAC (Véto russe) », Réseau Voltaire, 16 novembre 2017.
[13] « Débat sur l’incident chimique présumé de Khan Cheïkhoun (veto russe) », Réseau Voltaire, 12 avril 2017.
[14] « Évaluation française de l’attaque chimique de Khan Cheikhoun », Réseau Voltaire, 26 avril 2017.
[15] « La Jordanie apporte son soutien à la Syrie », Réseau Voltaire, 29 août 2017.
[16] « Déclaration commune des présidents russe et états-unien sur la Syrie », Réseau Voltaire, 11 novembre 2017.
[17] “Iran building permanent military base in Syria – claim”, Gordon Corera, BBC, November 10, 2017.
[18] “Israel rejeita o acordo de paz russo-americano na Síria”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 20 de Novembro de 2017.
[19] « Israël bombarde une usine de cuivre en Syrie », par Mounzer Mounzer, Réseau Voltaire, 3 novembre 2017.

aqui:http://www.voltairenet.org/article198903.html

O engodo e o dinheiro do engodo


por Pierre Lévy [*]
 
A surpresa é total, a informação inédita, o furo é incrível: a fraude e a evasão fiscais vicejariam nos quatro cantos do planeta, por meio dos paraísos fiscais. Foi preciso nada menos que um consórcio de 96 media internacionais e de 400 jornalistas para apoiar uma tal revelação, doravante conhecida sob a expressão (forçosamente) inglesa de "Paradise papers".

Mais ainda do que nos casos anteriores (Primavera 2016, Outono 2016), foi desencadeada uma torrente editorial listando os segredos das multinacionais mencionadas, cobrindo de opróbrio os bilionários implicados. A seguir aos grandes media, os responsáveis políticos, com todas as tendências confundidas – em França e alhures – foram prontos e (quase) unânimes a indignarem-se.

Os ministros das Finanças dos 28 de imediato comprometeram-se a reforçar a luta contra as "práticas fiscais agressivas", ainda que legais. A Comissão Europeia apontou com meias palavras os Estados membros que arrastam os pés como suspeito de um dumping fiscal deselegante (Malta, Irlanda, Luxemburgo...). Em Bruxelas, bons espíritos oportunamente aproveitaram a ocasião para martelar que a regra da unanimidade que subsiste apenas do domínio fiscal – para preservar um dedo de soberania nacional – estava decididamente obsoleta.

Face a um tal consenso, convém preservar o espírito crítico. E em primeiro lugar sublinhar que a indignação face a prática "chocantes" substitui o terreno da política pelo da moral – o que é o meio mais seguro de enganar os povos.

Em seguida, a insistência recorrente quanto à necessidade combater este "rumo da globalização" põe a pergunta: será mesmo do "rumo" que se trata? No fundo, a mensagem subliminar dirigida à plebe é a seguinte: se apenas chegássemos a limitar e a civilizar a "cupidez" das grandes firmas e a "avidez" dos bilionários, poderíamos finalmente lucrar com uma globalização feliz.

Ora, é preciso recordar esta verdade que nunca provoca manchetes: a evasão fiscal não poderia existir de modo algum, pelo menos nesta escala, se a livre circulação dos capitais não tivesse sido erigida em artigo de fé, em particular nos tratados europeus. Quem se lembra que antes da década de 1980 todo movimento de capitais era estritamente regulamentado e devia ser declarado? A União Europeia dinamitou este "arcaísmo".

Portanto, a indignação oficial contra a evasão fiscal poderia ser uma espécie de engodo, obscurecendo deliberadamente a verdadeira natureza do fenómeno: uma escolha política de "liberdade", que os oligarcas globalizados pretendem manter a todo custo.

Por outro lado, dão-nos a entender, tudo poderia correr bem melhor se as multinacionais e os hiper-ricos contribuíssem razoavelmente para os orçamentos públicos através dos impostos. Mas há uma questão que nunca é colocada: como se constituem os milhares de milhões de lucros e de fortunas? Para citar apenas um exemplo, o riquíssimo Xavier Niel, proprietário de Free (e accionista de referência do Monde ) é coberto de vergonha porque ele teria abrigado suas pequenas economias nos trópicos. Mas quando um documentário revelou recentemente a verdadeira origem da sua fortuna – a exploração pura e dura de milhares de assalariados, verdadeiros escravos modernos – a repercussão mediática foi ligeiramente mais modesta... E não é de admirar: este é o próprio fundamento do sistema.

Pois o problema não é em primeiro lugar o que revertem – ou não – os detentores de capitais, mas a capacidade destes de prosperar unicamente na base da exploração do trabalho daqueles que não têm senão os seus braços e a sua cabeça para viver. Colocar o projector da indignação na consequência pode constituir o meio mais seguro de escamotear a natureza profunda do problema. Na Opera dos três vintens, de Bertold Brecht, um dos seus heróis dizia: "o que é o assalto a um banco comparado à fundação de um banco?" .

Enfim, aqui e ali, alguns dão a entender e explicam: se não limitarmos a evasão fiscal dos oligarcas, corremos o risco de o "populismo" se desenvolver ainda mais. Mas tentar surfar sobre a cólera popular para melhor distrair do essencial não será, precisamente, uma boa definição do "populismo"?

À força de brincar com o fogo (da indignação), os aprendizes de feiticeiros mediáticos poderiam um dia ter algumas surpresas.
27/Novembro/2017
Ver também:

  • Para onde tem ido todo o excedente?

    [*] Redactor-chefe de Ruptures.

    O original encontra-se em https://ruptures-presse.fr/actu/paradise-evasion-fortune-leurre-niel/


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
  • terça-feira, 31 de outubro de 2017

    Bannon semeia agitação em Washington


    O Hudson Institute organizou, em Washington, a 23 de Outubro de 2017, um debate intitulado «Combater o extremismo violento : o Catar, o Irão e os Irmãos Muçulmanos».

    O Hudson Institute é um organismo de previsão criado pelo futurologo Herman Kahn. Ele reúne muitos adeptos do filósofo Leo Strauss.

    O público era composto por altas personalidades, membros do Congresso e da Administração, embaixadores e jornalistas.

    O antigo diretor da CIA e o secretário da Defesa, Leon Panetta, e o seu sucessor à frente da CIA, David Petraeus, deviam apontar o dedo acusador ao Irão ao mesmo tempo apoiando o Catar e os Irmãos Muçulmanos.

    Para dar boa impressão, o Instituto tinha convidado igualmente Steve Bannon, o antigo conselheiro especial do Presidente Trump. Apresentando os seus convidados, o director do Hudson Institute, o Embaixador Hussain Haqqani, declarou que os dois primeiros eram «esclarecidos», enquanto o seu contraditor encarnava as «Forças das Trevas» (sic).

    Falando no fim, Steve Bannon qualificou o New York Times de «partido de oposição», refutou o qualificativo «isolacionista» utilizado pelo quotidiano para descrever a política externa do Presidente Trump, e lembrou a sua acção contra o Daesh (E.I.).

    O Emirado Islâmico do Iraque (futuro Daesh) foi criado durante o mandato de George W. Bush, sob o controlo do General Petraeus, que comandava as tropas no Iraque, afim de desviar a raiva dos Iraquianos contra as tropas de ocupação e da a transformar em guerra civil; um dispositivo que Leon Panetta assumiu em acção e apoiou [1]. John McCain encontrou-se com os líderes do Daesh e manteve, durante longo tempo, estreitos laços com eles em nome da estratégia «vietnamita» contra a Síria [2].

    No conflito Arábia Saudita /Catar, Bannon felicitou-se pela mudança de atitude da Arábia Saudita face aos jiadistas e condenou o Catar, enquanto, oficialmente, a Administração Trump não tomou posição. O público escutou-o atentamente em silêncio.

    Bannon lançou-se então numa critica das políticas de George W. Bush e John McCain quando o presidente da sessão lhe cortou a palavra e pôs fim ao «debate» declarando: «Muito bem, a elite da política estrangeira aqui em Washington que me pediu para vos dar a palavra hoje também me pediu para encerrar este debate se você viesse com com outros assuntos fora do que nós programamos. Por isso terminamos. Obrigado por ter vindo.


     Tradução
    Alva

    aqui:http://www.voltairenet.org/article198558.html

    domingo, 15 de outubro de 2017

    Choque de civilizações 2

    por Thierry Meyssan

     Desde há 16 anos, inúmeros debates despertaram os peritos de política internacional para determinar os objectivos da estratégia norte-americana. É evidentemente mais fácil chegar a uma conclusão após este período do que no seu início. No entanto, muito poucos o fizeram e muitos persistem em defender teorias que tem sido desmentidas pelos factos. Apoiando-se nas conclusões deste debate, Thierry Meyssan alerta para a etapa seguinte prevista para os exércitos dos E.U. segundo os seus teorizadores anteriores a este período ; uma etapa que poderá ser em seguida posta em prática.


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    Abu Bakr al-Baghdadi & Ashin Wirathu

    As forças que idearam e planearam a aniquilação do «Médio-Oriente Alargado» consideravam esta região como um laboratório no qual eles iam testar a sua nova estratégia. Se em 2001, compreendiam os governos dos Estados Unidos, do Reino Unido e de Israel, entretanto, elas perderam o poder político em Washington e prosseguem o seu projecto económico-militar através de corporações multinacionais privadas.

    Desenvolveram a sua estratégia usando, por um lado, os trabalhos do Almirante Arthur Cebrowski e do seu assistente Thomas Barnett no Pentágono, e por outro lado de Bernard Lewis e do seu assistente Samuel Huntington no Conselho de Segurança Nacional [1].

    O seu objectivo é, ao mesmo tempo, adaptar o seu domínio às evoluções técnicas e económicas contemporâneas e de o estender aos países do antigo bloco soviético. No passado, Washington controlava a economia mundial através do mercado global da energia. Para o conseguir, impunha o dólar como moeda para todos os contratos de petróleo, ameaçando com a guerra qualquer contraventor. No entanto, este sistema não podia durar a partir da substituição parcial pelo gás russo, iraniano, catariano —e, em breve, sírio— do petróleo.

    Reatando com o passado da origem criminosa de uma grande parte dos colonos norte-americanos, estas forças imaginaram dominar os países ricos extorquindo-os. Para ter acesso não apenas às fontes de energia fóssil, mas também às matérias-primas em geral, os Estados estáveis (ex-soviéticos incluídos) deveriam solicitar a «proteção» do exército dos EUA e, acessoriamente, a do Reino Unido, e de Israel.

    Bastava para isso dividir o mundo em dois, globalizar as economias solventes e destruir qualquer capacidade de resistência no resto do mundo.

    Esta visão, do mundo, é radicalmente diferente das que prevaleciam no Império Britânico e no sionismo. Esta mudança de paradigma só poderia ser posta em prática com uma forte mobilização consecutiva a um enorme choque psicológico, um «novo Pearl Harbor». O que veio a ser o 11-de-Setembro.

    Ora, se este projecto parecia delirante e cruel, nós podemos constatar 16 anos mais tarde que não só ele está efectivamente em vias de concretização quanto, na mesma medida, encontra obstáculos inesperados.

    A globalização económica dos países solventes era quase total quando um deles, a Rússia, se opôs militarmente à destruição das capacidades de resistência na Síria, isto após a integração forçada da Ucrânia na economia global. Washington e Londres ordenaram, pois, aos seus aliados sanções económicas contra Moscovo. Ao fazê-lo, eles interromperam o processo de globalização dos países solventes.

    Lançando o seu projecto de «Rotas da Seda», a China investiu fortemente em países destinados à destruição. As forças que promovem o «novo mapa do mundo» reagiram com a criação de um Estado terrorista, cortando a antiga Rota da Seda no Iraque e na Síria, e transformando, para tal, o conflito ucraniano em guerra, cortando assim também o traçado original da segunda Rota da Seda.

    Estas forças pensam actualmente estender o caos a uma segunda região, a Ásia do Sudeste. É pelo menos para lá que os jiadistas parecem migrar segundo o Comité anti-terrorista da ONU. Fazendo-o, estas forças fecham o episódio 2012-2016 no Médio-Oriente, sem anteciparem ou não uma guerra em torno dos curdos, e preparam a devastação do Sudeste da Ásia. Isso seria a segunda etapa do «choque de civilizações», depois dos muçulmanos contra os «judeus-cristãos» (sic) [2], eis os muçulmanos contra os budistas.
     
    Tradução
    Alva
    [1] Network Centric Warfare : Developing and Leveraging Information Superiority, David S. Alberts, John J. Garstka & Frederick P. Stein, CCRP, 1999. The Pentagon’s New Map («O Novo Mapa do Pentágono-ndT), Thomas P. M. Barnett, Putnam Publishing Group, 2004. « The Roots of Muslim Rage », Bernard Lewis, Atlantic Monthly, septembre1990. « The Clash of Civilizations ? » & « The West Unique, Not Universal », Samuel Huntington, Foreign Affairs, 1993 & 1996 ; The Soldier and the State & The Clash of Civilizations and the Remaking of World Order («Os Militares e o Estado & Choque de Civilizações e o Refazer da Ordem Mundial»), Samuel Huntington, Harvard 1957 & Simon and Schulster 1996.
    [2] A expressão judeus-cristãos designava exclusivamente até aos anos 90 a comunidade de judeus convertidos ao cristianismo em volta de São Tiago ; comunidade que foi dissolvida após o saque de Jerusalém pelos Romanos. No entanto, os cristãos ocidentais continuam a dar na sua prática um enorme destaque ao papel do Antigo Testamento, que eles defendem muitas vezes sem se darem conta dos pontos de vista judaicos em vez dos pontos de vista cristãos. Ao contrário, os cristãos do Oriente, fieis à tradição dos seus predecessores, só raramente fazem referência às escrituras judaicas e recusam lê-las durante a Eucaristia.

    aqui:http://www.voltairenet.org/article198292.html

    quarta-feira, 20 de setembro de 2017

    A Google é a NSA

    – Não se deixe espiolhar:   Duckduckgo , o motor de pesquisa que não rastreia


    por Phil Butler [*]
     
    O Google quer ser os olhos do Big Brothers fitos sobre si. Todos os gurus da Internet sabem isto mesmo antes de a NSA ser descoberta a espionar tudo. Mas agora os rapazes da Moutain View [sede da Google] estão mais determinados do que nunca a filtrar a sua informação e a eliminar qualquer resquício de confiabilidade.

    Se eu tivesse iniciado um artigo com o parágrafo acima há cinco anos atrás, instantaneamente teria sido etiquetado como um "teórico da conspiração" ou pior ainda. O que pensa disso, caro leitor? Será a ideia de tecnocratas e dos seus manipuladores enormemente endinheirados enlouquece-lo? Penso que sim. Mas se precisa de prova para além do óbvio, o manual de 160 páginas do Google conta-nos exactamente como eles planeiam alimentar-nos só com as "suas" notícias. O extenso manual é uma leitura pesada para a pessoa média, mas o livro fornece pormenores de uma maquinação orwelliana diferente de qualquer coisa já vista desde o aparelho de propaganda nazi. Preste muita atenção à "instrutiva" página 108 onde a Google dita quem cumpre e não cumpre seus critérios de classificação. A secção Falha de Cumprimento (Fails to Meet, FailsM) é um cilindro compressor da imprensa livre e sugere a ocultação de certas espécies de sítios web:

    "Páginas que contradigam directamente factos históricos bem estabelecidos (ex.: infundadas teorias da conspiração), a menos que a consulta indique claramente que o utilizador está à procura de um ponto de vista alternativo".

    Como de costume, a Google obscurece suas intenções reais com a ideia de que algum algoritmo super inteligente está a "filtrar" ou "aprender" resultados para ajudá-lo a ter uma vida melhor. Mais uma vez, a Google supõe fazer "o que é bom para nós" através da destruição de algumas fontes e a promoção de outras. Utilizando termos como "graduando linhas orientadoras para pesquisa de qualidade" e "graduando linhas orientadores para páginas de qualidade" os pequenos Maquiaveis da Google providenciam justificação para controlar o que você vê e lê na web. Censura e monopolização da informação e dos negócios na internet – esta é acusação contra os rapazes da Mountain View.

    Há também a secção que se refere ao modo como a Google classifica o melhor dentre os melhores sítios de notícias intitulado "Um alto nível de perícia/ autoridade/ fidedignidade" ("A High Level of Expertise/ Authoritativeness/ Trustworthiness", EAT). O acrónimo EAT ("comer") deveria servir de pista acerca do facto de os utilizadores da pesquisa Google estarem prestes a serem comidos por alguma verdade trapalhona. Para os oligarcas da Google, "Páginas de alta qualidade" significam ou que o dono da página paga à Google ou que o sítio em causa serve muito bem aos mestres da Google – ponto. No topo da matriz de fontes estão jornais (High News 1) como The Washington Post e New York Times, seguidos por artigos no interior desses sítios (High News 2). A seguir na lista das páginas de autoridade estão sítios governamentais como o Departamento de Estado dos EUA e a Casa Branca e depois páginas categorizadas (acredite ou não) como "Grande Humor" ("High Humor"). Dessa forma, a Google excluiu a importância da verdade ou mesmo a importância da própria notícia em favor de "quem" a escreveu e da "realidade" que a Google quer que você aceite – a rede do Big Brother.

    Melissa Dykes, da Truth Stream Media fez um vídeo acerca do novo esforço do Big Brother e o sítio web Escravos do governo também fez a sua parte. Estes últimos sugerem mesmo alternativas à utilização da Google Search àqueles que recusam as tendências totalitárias a que agora assistimos. Para pessoas que preferem boicotar o mal iminente tais como [os motores de pesquisa] Yandex e DuckDuckGo . Os escravos do governo também listam 400 sítios para noticiário independente fora da MATRIX da Google. Meu conselho para toda a gente é começar já a fazer a transição para longe da Google e do Facebook. A minha própria vasta experiência em tratar com pessoas voltadas para a técnica revelou serem gente sem qualquer moral, desejosas de fazer seja o que for para perpetuarem a sua dominação no digital. A Google destruiu milhões de profissões, rompeu o seu próprio código, seus juristas contornaram regras anti-trust e de práticas justas, evitaram impostos e colaboraram com as agências de inteligência contra o povo dos Estados Unidos. Todas estas afirmações não são apenas divagações do autor deste artigo. Remontando a 2014, John W. Whitehead escreveu acerca da NSA e do Google no Huffington Post :

    "Simplesmente olhe em torno. Isto já está a acontecer. Graças a uma parceria insidiosa entre a Google e a National Security Agency (NSA) que se torna cada vez mais invasiva e mais subtil a cada dia que passa, "nós o povo" tornámo-nos pouco mais do que consumidores de dados mercantilizados a serem comprados, vendidos e pagos repetidamente".

    Em 29 de Agosto o famoso criador do Zero Hedge, Tyler Durden, escreveu uma peça intitulada "Porque a Google fez a NSA", a qual revelava um projecto chamado INSURGE INTELLIGENCE , um projecto de jornalismo de investigação financiado colectivamente que havia divulgado um artigo sobre como a comunidade de inteligência dos Estados Unidos financiou, alimentou e cultivou a Google como parte de uma iniciativa para dominar o mundo através do controle da informação. Leu isto correctamente. Minhas afirmações anteriores de que Sergey Brin e Larry Page foram "ascendidos" por dinheiro desconhecido provavelmente estavam correctas. Apesar de eu ter presumido que George Soros ou Rockfeller estivessem por trás, é concebível que o Tio Sam fosse o fantasma na retaguarda. A notícia do Zero Hedge investiga um "estado profundo" nunca imaginado nos nossos piores pesadelos. A reportagem revela como o grupo do Pentagon Highlands Forum's está a capturar gigantes tecnológicos como a Google a fim de prosseguir a vigilância em massa. Além disso, a reportagem mostra como a comunidade de inteligência desempenhou um papel chave em esforços secretos para manipular os media e o público. As crises e guerra infindáveis com que nos deparamos são, em grande medida, devidas aos esforços da Google e de outras instituições tecnocráticas. O autor enquadra o modo como a administração Obama realmente consolidou este controle do "Big Brother":

    "Com Obama, o nexo do poder corporativo, industrial e financeiro representados pelos interesses que participam no Pentagon Highlands Forum consolidou-se num grau sem precedentes".

    Estas pessoas referem-se a sim próprias como "os guardas da portaria" ("the gatekeepers"). A sua arrogância só é ultrapassada pelo seu agnosticismo moral. Os êxito da era da informação, as dúbias minas de ouro do capital de risco de Sillicon Valley, os caminhos misteriosos pelos quais inovadores razoavelmente comuns foram impulsionados para as luzes dos holofotes advertem-nos quanto ao pântano subjacente descrito por Donald Trump. Mas é a imensidade da rede que deveria servir-nos de pista. Imagine o novo presidente a tomar posse e a defender-se de ataques tão bem quanto pode, só para descobrir que toda a máquina do governo dos EUA está influenciada por este controle. Depois de saber tudo isto é fácil teorizar sobre como Trump fez meia volta acerca de muitas questões. Ele deve ter sido subjugado. Ou fazia parte do plano desde o princípio.

    Finalmente, se nos estendermos acerca destas notícias e incluirmos outros tecnocratas como Bill Gates ou Jeff Bezos, então o entendimento das crises mundiais provocadas pela má política dos EUA torna-se mais simples. Trata-se de uma corporação – tudo isto é uma corporação para a guerra e o atrito. Bezos a passear com o antigo general dos Fuzileiros Navais e actual secretário da Defesa, "Cão Louco" Mattis, na Amazon é simbólico. O posicionamento de Trump para com Israel, os sauditas ou mesmo a política interna diz-nos que aquelas promessas da campanha afundam na esteira da nau do estado profundo a pleno vapor. Se permitirmos à Google e aos demais actores continuarem sem controle...

    Bem, vocês são tão capazes quanto eu de completar a sentença. Só rezo para que não seja demasiado tarde.
     

    [*] Investigador e analista político.

    O original encontra-se em journal-neo.org/2017/09/04/we-told-you-so-google-is-nsa/


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

    sexta-feira, 1 de setembro de 2017

    Washington parece um jardim-de-infância sob o efeito de LSD


    por The Saker 
     
    As últimas sanções e a resposta retaliatória da Rússia resultaram numa torrente de especulações nos media oficiais e na blogosfera — toda a gente tenta entender uma situação que parece sem sentido. Porque haveria o Senado dos Estados Unidos de adoptar sanções contra a Rússia quando a Rússia nada fez para provocar esse voto? Com a excepção de Rand Paul e Bernie Sanders todos e cada um dos senadores americanos votaram a favor dessas sanções. Porquê? Torna-se ainda mais estranho se pensarmos que o único grande efeito das sanções será provocar uma fractura, e possivelmente ainda mais contra-sanções , entre os Estados Unidos e a União Europeia. Fica claro que estas sanções vão ter efeito nulo sobre a Rússia e não creio que alguém pense a sério que os russos mudem o que quer que seja nas suas políticas. Porém, todos os senadores excepto Paul e Sanders votaram a favor. Será que faz sentido?

    Vamos tentar perceber o que se passa.

    Primeiro, vamos lembrar que qualquer político norte-americano, desde as municípalidades até ao Congresso, todos os senadores só pensam numa coisa quando votam — o que ganho eu com isso? — A última coisa que preocupa um senador americano é as consequências do seu voto na vida real. Isso quer dizer que para conseguir uma quase unanimidade (98%) numa votação realmente estúpida tinha de haver um lobby muito influente que utilizou "argumentos" muito fortes para conseguir tal voto. Lembremos que os Republicanos no Senado sabiam que estavam a votar contra a vontade do seu Presidente. E no entanto todos à excepção de Rand Paul votaram essas sanções, isso mostra o poder do lobby que os pressionou. Assim, quem teria esse poder?

    O site "Business Pundit Expert Driven" felizmente postou um artigo que indica os dez lobbies mais poderosos em Washington D.C. São eles (na mesma ordem do artigo original):

    Lobby técnico
    Indústria mineira
    Indústria da defesa
    Indústria do agronegócio
    Petróleo
    Lobby financeiro
    Grandes farmacêuticas
    AARP (American Association of Retired Persons)
    Lobby pró-Israel
    NRA (National Rifle Association)

    Ok, por que não? Podemos talvez reordená-los, dar-lhe nomes diferentes, juntar mais alguns (como, Complexo Industrial de Prisões" ou "Comunidade da inteligência", mas na generalidade a lista está bem.

    É preciso entender que a maioria destes lobbies precisa de um inimigo para prosperar, será sem duvida o caso do Complexo Militar Industrial e a industria associada de alta tecnologia, e poderíamos pensar que o Petróleo, Minas e Agronegócio vêem na Rússia um competidor potencial. Mas um olhar mais atento aos interesses que estes lobbies representam diz-nos que estão mais interessados na política caseira e que a longínqua Rússia com a sua economia relativamente pequena não é o que lhes importa. O mesmo se passa com as Grandes Farmacêuticas, a AARP e o NRA. O que deixa o lobby de Israel como o único candidato potencial.

    "Lobby de Israel claro que é um nome inadequado. O lobby de Israel tem muito pouco interesse em Israel como país, ou sequer o povo israelense. Melhor seria chamar-lhe Lobby Neocon. Aliás, temos de verificar que o Lobby Neocon não está na lista acima referida. Por um lado, não representa os interesses dos Estados Unidos. Por outro, não representa os interesses de Israel. Representa antes os interesses de um grupo específico das elites reinantes dos Estados Unidos, na realidade muito inferior a 1% da população, em que todos partilham uma ideologia comum de dominação mundial típica dos neocons.

    São os sujeitos que apesar do seu férreo controlo de cem por cento da media e do Congresso perderam a eleição presidencial para Donald Trump e que estão apostadas no seu impeachment. São indivíduos que simplesmente usam a Rússia, como um fulcro propagandístico para passar a noção de que Trump e o seu meio são agentes russos e o próprio Trump é uma espécie de "candidato presidencial da Manchúria".

    Lembremo-nos que o registo histórico mostra que apesar de os neocons serem especialmente motivados não são muito inteligentes. Sim, eles têm a espécie de determinação ideológica raivosa que lhes permite conseguir alcançar uma influencia totalmente desproporcional sobre as politicas dos EUA, mas quando vemos o que realmente escrevem e ouvimos o que dizem, percebe-se de imediato que são indivíduos medíocres com uma mentalidade paroquiana que os torna tanto muito previsíveis como muito irritantes para as pessoas em torno deles. Ultrapassam sempre os seus limites e acabam estupefactos e horrorizados quando todas as suas conspirações e planos desmoronam sobre si.

    Creio que é exactamente o que está a acontecer agora.

    Primeiro, os neocons perderam as eleições. Para eles foi um choque e um pesadelo. Os "deploráveis" votaram contra as instruções de propaganda, totalmente claras que os media lhes deram. Segundo, os neocons voltaram a sua fúria contra Trump e conseguiram neutralizá-lo, mas só ao custo de enfraquecerem terrivelmente os próprios Estados Unidos! Recapitulemos: em 6 meses de administração Trump os EUA já conseguiram ameaçar directamente o Irão, a Síria, a RDPC e em todos os casos com resultados zero. Pior, o comportamento de Trump para com a Europa e a propaganda anti-Trump dentro da Europa colocaram agora a UE e os EUA numa rota colisão. É espantoso: para a Rússia as tensões actuais entre os EUA e a União Europeia são um sonho realizado e nem sequer fizeram nada para isso — tudo foi feito através da estupidez auto-derrotante dos americanos que criaram esta situação completamente ex nihilo!

    Assim enquanto Kim Jong-un lança mísseis no 4 de Julho, o Exército Sírio aproxima-se de Deir ez-Zor, a Ucrânia transforma-se numa Somália, a economia russa volta a crescer e a popularidade de Putin está cada vez mais alta, os neocons estão a ficar totalmente fora de si e, como é típico das pessoas que perdem o controle, não fazem nada com lógica e sim o habitual: esbofetear sanções (mesmo que sejam totalmente ineficazes) e enviar mensagens (mesmo que sejam totalmente ignoradas). Por outras palavras os neocons empenham-se agora em pensamento mágico, optam por iludirem-se acerca do seu poder e influencia e estão a enfrentar o seu fracasso generalizado (full-spectrum) ao pretenderem que os seus votos no Congresso importam. A verdade é que não são.

    É aqui que temos de examinar a outra noção errada neste caso, que a reacção russa a estas sanções mais recentes é realmente acerca delas. Não é.

    Primeiro, derrubemos o mito de que tais sanções estão a prejudicar a Rússia. Na verdade não estão. Mesmo os da Bloomsberg, 100% russofóbicos começam a perceber que na realidade estas sanções tornaram Putin e a Rússia mais fortes . Segundo, há a questão do tempo: ao invés de reagir com contra-sanções os russos subitamente decidiram reduzir a quantidade de pessoal diplomático norte americano na Rússia e confiscar duas instalações diplomáticas dos EUA numa retaliação clara à expulsão dos diplomatas russos e a ocupação de edifícios diplomáticos por Obama no ano passado. Por que não?

    Muitos observadores dizem que os russos são "ingénuos" em relação ao Ocidente e aos EUA, que Putin "deseja" melhores relações e que essa esperança o paralisou. Outros dizem que Putin é "fraco" ou está mesmo "em conluio" com o Ocidente. É um absurdo total.

    As pessoas tendem a esquecer que Putin foi um oficial superior dos serviços de inteligência externa do KGB, o chamado "Primeiro Directorado Principal (PGU). Além disso, Putin revelou recentemente que trabalhou na altamente secreta Direcção S do PGU e que era responsável por contactos com uma rede de espiões soviéticos ilegais na Alemanha Oriental (onde Putin actuava sob a cobertura oficial de director Casa da Amizade URSS-RDA). Se o PGU era a "elite da elite" do KGB da sua parte mais secreta, então o Directorado S era a "elite da elite" do PGU e o seu cerne mais secreto. Isto, definitivamente, não é uma carreira para "ingénuos" ou "fracos", para dizê-lo suavemente. E acima de tudo, os oficiais do PGU eram "especialistas no Ocidente" em geral e nos Estados Unidos em especial porque os EUA, eram sempre considerados como o "inimigo principal" (ainda que a maior parte dos responsáveis do PGU considerasse que os britânicos eram o seu adversário mais capaz, perigoso e sorrateiro). Considerando o nível soberbo de educação e treino dado a estes oficiais, diria que os oficiais do PGU estavam entre os melhores especialistas do Ocidente de qualquer parte do mundo. A sua sobrevivência e a sobrevivência dos seus colegas dependia da sua compreensão correcta do mundo ocidental. Quanto a Putin, pessoalmente, sempre actuou de um modo muito deliberado e calculado e não há razão para pensar que desta vez, após as ultimas sanções dos EUA, tenha havido uma erupção emocional no Kremlin. Podem ter a certeza de que esta ultima reacção russa é o resultado de uma conclusão cuidadosa e a formulação de um objectivo preciso e há muito delineado.

    Diria que a chave para a compreensão correcta da resposta russa está no facto de as ultimas sanções dos Estados Unidos conterem uma ideia sem procedentes e, francamente, com características chocantes: as novas medidas retiraram ao Presidente autoridade para revogar as sanções. Em termos práticos: se Trump quisesse por em vigor algumas dessas sanções, teria de enviar uma mensagem oficial ao Congresso o qual teria então trinta dias para aprovar ou rejeitar a acção proposta. Por outras palavras, o Congresso agora sequestrou o poder da Presidência para dirigir a politica externa e encarregou-se até da micro-administração da politica externa norte americana.

    Isso, meus amigos, é claramente um golpe de estado constitucional e uma grave violação dos princípios da separação de poderes que é o cerne do sistema político dos Estados Unidos.

    É também um testemunho vivo da total depravação do Congresso dos EUA que não tomou essas medidas quando o presidente "ultrapassou o Congresso e começou guerras sem a necessária autoridade congressual, mas que agora toma abertamente as rédeas da politica externa americana para impedir o risco de "quebrar a paz" entre a Rússia e os Estados Unidos.

    E a reacção de Trump?

    Ele declarou que a assinaria a lei. [NR]

    Sim, o homem quer por a sua assinatura no texto que representa um golpe de estado ilegal contra a sua própria autoridade e contra a Constituição que jurou defender.

    Atenta a isso, a reacção russa é muito simples e compreensível: eles desistiram de Trump.

    Não que tivessem muita fé nele, mas sempre sentiram fortemente que a eleição de Trump talvez pudesse dar ao mundo uma oportunidade realmente histórica para mudar a dinâmica desastrosa iniciada pelos neocons no tempo de Obama e talvez devolver às relações internacionais uma aparência de sanidade. Infelizmente, isto não aconteceu. Trump revelou-se uma massa demasiado cozida cujo único feito real era exprimir suas ideias em 140 caracteres ou menos. Mas na coisa crucial, vital, em que Trump precisava absolutamente de ter êxito — esmagar impiedosamente os neocons — ele fracassou totalmente. Pior: a sua única reacção às múltiplas tentativas deles para derrubá-lo foram todas as vezes respondidas com toscas tentativas tontas de apaziguamento.

    Para a Rússia isso significa que o presidente Trump foi agora substituído pelo "Congresso Presidente".

    Uma vez que é absolutamente impossível fazer qualquer coisa com este Congresso, os russos vão agora empenhar-se em medidas unilaterais vantajosas tais como reduzir dramaticamente o número de diplomatas americanos na Rússia. Para o Kremlin, essas sanções são não tanto uma provocação inaceitável mas sim um pretexto ideal para iniciar uma série de politicas internas russas. Livrarem-se dos empregados americanos na Rússia é apenas um primeiro passo.

    A seguir, a Rússia utilizará o comportamento francamente errático dos americanos para proclamar urbi et orbi que estes são irresponsáveis, incapazes de tomarem decisões adultas e basicamente que "foram à pesca". Os russos já fizeram isso quando declararam a dupla Obama-Kerry como недого ворос пособны (nedogovorosposobny: "incapazes de acordos", mais aqui acerca deste conceito). Agora com Trump a assinar a sua própria demissão constitucional, com Tillerson incapaz de calar Nikki nas Nações Unidas e com Mattis e McMaster a lutarem por planos grandiosos para parar a "não vitória" no Afeganistão, a dupla Obama-Kerry começa a parecer quase adulta.

    Francamente, para os russos é o momento de ir embora.

    Prevejo que os loucos neocons não vão parar até conseguir o impeachment de Trump. Além disso, prevejo que os Estados Unidos não lançarão quaisquer intervenções armadas importantes (até porque os Estados Unidos já não têm países que possam atacar com segurança e com facilmente). Algumas "intervenções pretendidas" (como o malfadado ataque de mísseis na Síria) podem ser bastante possíveis e mesmo prováveis. Este golpe interno em câmara lenta contra Trump irá absorver a maior parte da energia para os realizar e deixar a politica externa como simplesmente uma espécie de subproduto da política interna dos Estados Unidos.

    Os europeus do leste estão agora totalmente entalados. Vão continuar a observar incrédulos o desastre crescente da Ucrânia enquanto fazem jogos estúpidos pretendendo serem duros com a Rússia (o último exemplo desta espécie de "ladrar atrás da cerca" pôde ser visto no patético encerramento do espaço aéreo da Roménia a um avião civil que transportava o vice primeiro ministro russo Dmitri Rogozin entre os passageiros). Os europeus reais (do ocidente) gradualmente cairão em si e começarão a fazer negócios com a Rússia. Mesmo Emanuel Macron de Rothschild, da França, provavelmente se demonstrará como um parceiro mais adulto do que o Donald.

    Mas a verdadeira acção estará alhures — no Sul, no Leste e no Extremo Oriente. A verdade simples é que o mundo simplesmente não pode ficar à espera de que os americanos recuperem o juízo. Há uma série de assuntos cruciais que precisam de ser urgentemente enfrentados, uma série de imensos projectos que precisam ser realizada e um mundo muito diferente e multi-polar que precisa ser fortalecido. Se os americanos querem recusar-se a salvarem-se disto tudo, se querem deitar abaixo a ordem constitucional que os Pais Fundadores criaram e se querem funcionar apenas no reino do ilusório que nada tem a ver com a realidade — estão no seu direito e é o seu problema.

    Washington DC começa a parecer um jardim-de-infância sob o efeito de LSD — algo engraçado e desagradável. Os garotos não parecem muito espertos: uma mistura de valentões e idiotas invertebrados. Alguns deles têm os dedos no botão nuclear e isso é absolutamente assustador. O que os adultos têm de fazer agora é descobrir uma maneira de manter os garotos ocupados e distraídos e distraí-los para que não apertem o maldito botão sem querer. E esperar. Esperar pela reacção inevitável de um país que é muito melhor e mais forte que os seus governantes e que agora precisa desesperadamente de um verdadeiro patriota para acabar com as Feiticeiras de Sabbath em Washington DC.

    Vou encerrar esta coluna com uma nota pessoal. Acabei de atravessar os Estados Unidos, literalmente, do Rio Rogue no Oregon à costa leste da Florida. Durante essa longa viagem vi não só paisagens de tirar o fôlego mas também belas pessoas que se opõem ao baile satânico em DC com todas as fibras do seu ser e que querem o seu pais livre dos degenerados poderes demoníacos que se apossaram do Governo Federal. Vivi um total de 20 anos nos EUA e aprendi a amar e apreciar profundamente as muitas pessoas boas, decentes e honradas que aqui vivem. Longe de ver o povo americano como inimigo da Rússia, vejo-o como aliado natural, ainda que seja por termos o mesmo inimigo (os neocons em DC) e nenhuma razão objectiva para conflitos, nenhuma de qualquer espécie. De resto, americanos e russos são muito semelhantes, por vezes de um modo cómico. Tal como durante a Guerra-Fria nunca perdi a esperança no povo russo, agora recuso-me a perder a esperança no povo americano. Sim, o governo federal americano é desgostante, mau, nojento, estúpido, degenerado e absolutamente satânico, mas o povo dos Estados Unidos não é. Longe disso. Não sei se este país conseguirá sobreviver a este regime como EUA unitário ou se vai romper-se em várias entidades diferentes (algo que acho muito possível), mas creio que o povo americano sobreviverá e vencerá tal como o povo russo sobreviveu aos horrores das décadas de 1980 e 1990.

    Neste momento os Estados Unidos parecem despenhar-se num precipício muito semelhante àquele em que mergulhou a Ucrânia (aliás não é surpreendente, as mesmas pessoas infligem os mesmos desastre em quaisquer países que infectem com a sua presença). A grande diferença é que o seu imenso e inexplorado potencial irá recuperá-lo. Poderá não ser uma Ucrânia em dez anos, mas será definitivamente um país norte-americano, talvez diferente do único actual ou talvez mesmo com vários estados sucessores derivados.

    Mas por enquanto, só posso repetir o que os habitantes da Florida dizem quando um furacão se abate sobre eles "aferrem-se ao chão" e preparem-se para os tempos difíceis e perigosos que estão para vir.
    31/Julho/2017 
     
    [NR] A lei das sanções contra a Rússia, Irão e Coreia do Norte foi assinada em 02/Agosto/2017.

    O original encontra-se em thesaker.is/sanctions-smoke.and-mirrors-from-a-kindergarten-on-lsd/ .
    Tradução de MA, revisão de JF.


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

    sexta-feira, 18 de agosto de 2017

    Divergências no seio do campo anti-imperialista

    por Thierry Meyssan

     Quando o seu país foi atacado pelos jiadistas, em 2011, o Presidente Bachar al-Assad reagiu a contra-corrente: em vez de reforçar os poderes dos serviços de segurança, ele diminuiu-os. Seis anos mais tarde, o seu país está em vias de sair vencedor da mais importante guerra desde a do Vietname. O mesmo tipo de ataque está em vias de se produzir na América Latina, onde suscita uma resposta muito mais dentro do habitual. Thierry Meyssan expõe aqui a diferença de análise e estratégia dos Presidentes Assad por um lado, Maduro e Morales pelo outro. Não se trata de colocar esses líderes em compita, mas de apelar a cada um deles para extrair lições políticas e tomar em boa conta a experiência das últimas guerras.

     Em Maio de 2017, Thierry Meyssan explicava na Russia Today em que é que as elites sul-americanas se enganam quanto ao imperialismo dos EUA. Ele insistia acerca da mudança de paradigma dos conflitos armados actuais e a necessidade de repensar, radicalmente, a maneira de defender a pátria.


    A operação de desestabilização da Venezuela prossegue. Numa primeira fase, grupúsculos violentos, manifestando-se contra o governo, mataram transeuntes, ou seja cidadãos que se tinham juntado a eles. Num segundo tempo, os grandes distribuidores de géneros alimentares montaram uma rotura de abastecimentos nos supermercados. Depois, alguns membros das forças da ordem atacaram dois ministérios, apelaram à rebelião e entraram na clandestinidade.

    A imprensa internacional não cessa de atribuir ao «regime» os mortos das manifestações enquanto que numerosos vídeos atestam que eles foram deliberadamente assassinados pelos próprios manifestantes. Com base nestas falsas informações, ela qualifica o Presidente Nicolas Maduro de «ditador» como já o havia feito, seis anos atrás, vis-à-vis a Mouamar Kadhaffi e a Bachar al-Assad.

    Os Estados Unidos utilizaram a Organização dos Estados Americanos (OEA) contra o Presidente Maduro da mesma maneira como usaram anteriormente a Liga Árabe contra o Presidente al-Assad. Caracas, sem esperar ser excluída da Organização denunciou tal método e abandonou-a ela própria.

    No entretanto o governo Maduro apresenta duas falhas no seu activo:
    - uma grande parte dos seus eleitores não se deslocou às urnas aquando das eleições legislativas de Dezembro de 2015, deixando a oposição arrecadar a maioria no Parlamento.
    - deixou-se surpreender pela crise dos géneros alimentícios, quando, no passado, este tipo de manobra já tinha sido montado no Chile contra Allende e na Venezuela contra Chávez. Precisou de várias semanas para montar novos circuitos de aprovisionamento.

    Com toda a probabilidade, o conflito que começa na Venezuela não irá parar nas suas fronteiras. Ele abrasará todo o Noroeste do continente sul-americano e as Caraíbas.

    Um passo suplementar foi franqueado com preparativos militares contra a Venezuela, a Bolívia e o Equador, a partir do México, da Colômbia e da Guiana Inglesa. Esta coordenação é operada pela equipe do antigo Gabinete Estratégico para a Democracia Global (Office of Global Democracy Strategy); uma unidade criada pelo Presidente Bill Clinton, depois prosseguida pelo Vice-presidente Dick Cheney e pela sua filha Liz. A existência deste foi confirmada por Mike Pompeo, o actual director da CIA. O que levou, portanto, à menção na imprensa pelo presidente Trump da existência de uma opção militar dos Estados Unidos.

    Para salvar o seu país, a equipe do Presidente Maduro recusou seguir o exemplo do Presidente al-Assad. Segunda ela, as situações são completamente diferentes. Os Estados Unidos, principal potência capitalista, atacariam a Venezuela afim de lhe roubar o seu petróleo, de acordo com um esquema muitas vezes repetido no passado, em três continentes. Este ponto de vista acaba de ser apoiado por um discurso recente do Presidente boliviano, Evo Morales.

    Lembre-mo-nos que em 2003 e 2011, o Presidente Saddam Hussein, o Guia Muammar Kadhafi e muitos conselheiros do Presidente Assad mantinham a mesma análise. Segundo eles, os Estados Unidos implicaram-se sucessivamente no Afeganistão e no Iraque, depois na Tunísia, no Egipto, na Líbia e na Síria unicamente para fazer cair os regimes que resistiam ao seu imperialismo e controlar os recursos de hidrocarbonetos do Médio-Oriente Alargado. Inúmeros autores anti-imperialistas seguem esta análise, na actualidade, por exemplo tentando explicar a guerra contra a Síria pela interrupção do projecto do gasoduto catariano.

    Ora, esta análise mostrou-se errada. Os Estados Unidos não buscavam nem derrubar os governos progressistas (Líbia e Síria), nem roubar o petróleo e gás da região, mas, sim destruir os Estados, para reenviar as populações à pré-história, para a época em que «o homem era o lobo do homem».

    Os derrubes de Saddam Hussein e de Muammar Gaddafi não restabelecerem a paz. As guerras continuaram apesar da instalação de um governo de ocupação no Iraque, depois governos na região incluindo colaboradores do imperialismo opostos à independência nacional. Elas continuam ainda atestando que Washington e Londres não queriam derrubar regimes, nem defender democracias, mas antes esmagar os povos. É uma constatação fundamental que altera a nossa compreensão quanto ao imperialismo contemporâneo.

    Esta estratégia, radicalmente nova, foi ensinada por Thomas PM Barnett desde o 11- de-Setembro de 2001. Ela foi publicamente revelada e exposta em Março de 2003 —quer dizer precisamente antes da guerra contra o Iraque— num artigo na Esquire, depois no livro homónimo do Pentágono The Pentagon’s New Map («O Novo Mapa do Pentágono»- ndT), mas ela parece tão cruel que ninguém imaginou que pudesse vir a ser posta em acção.

    Trata-se para o imperialismo de dividir o mundo em dois : de um lado uma zona estável que beneficia do sistema, do outro um caos espantoso onde ninguém pense sequer em resistir, mas unicamente em sobreviver; uma zona na qual as multinacionais possam extrair as matérias primas, das quais precisam, sem terem que dar satisfações a ninguém.

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    Segundo este mapa, extraído de um Powerpoint de Thomas P. M. Barnett durante uma conferência no Pentágono em 2003, todos os Estados da zona rosada devem ser destruídos. Este projecto nada tem a ver nem com a luta de classes, no plano nacional, nem com a exploração dos recursos naturais. Depois do Médio-Oriente Alargado, os estrategas dos EU preparam-se para reduzir a ruínas o Noroeste da América Latina.

    Desde o século XVII e a guerra civil britânica, o Ocidente desenvolveu-se entre o medo do caos. Thomas Hobbes ensinou-nos a suportar a “Razão de Estado”, em vez de arriscar reviver esse tormento. A noção de caos só nos voltou a ser trazida com Leo Strauss, após a Segunda Guerra Mundial. Este filósofo, que formou pessoalmente numerosas personalidades do Pentágono, entendia construir uma nova forma de Poder mergulhando uma parte do mundo no inferno.

    A experiência do jiadismo no Médio-Oriente Alargado mostrou-nos o que é o caos.

    Tendo reagido como se esperava dele aos acontecimentos de Daraa (março-abril de 2011), enviando o exército para reprimir os jiadistas da mesquita al-Omari, o Presidente al-Assad foi o primeiro a compreender aquilo que se passava. Longe de aumentar os poderes das forças de segurança para reprimir a agressão externa, ele deu ao povo os meios para defender o país.

    Primeiro, levantou o estado de emergência, dissolveu os tribunais de excepção, libertou as comunicações de Internet, e proibiu às forças armadas de fazer uso das suas armas quando isso pudesse colocar em risco inocentes.

    Estas decisões contra-a-corrente implicavam pesadas consequências. Por exemplo, aquando do ataque a um comboio militar em Banias, os soldados abstiveram-se de usar as suas armas em legítima defesa. Arriscaram ser mutilados pelas bombas dos atacantes, e até morrer, mais do que atirar, pelo risco de ferir os habitantes que os viam ser massacrados sem intervir.

    Como muitos, à época, eu pensei que se tratava de um Presidente fraco e de soldados demasiado leais, que a Síria ia ser esmagada. No entanto, seis anos mais tarde, Bashar al-Assad e os exércitos sírios ganharam a sua aposta. Se a princípio, os soldados lutaram sozinhos contra a agressão estrangeira, pouco a pouco, cada um dos cidadãos foi-se envolvendo, cada um em seu posto, afim de defender o país. Os que não puderam ou não quiseram resistir exilaram-se. Claro, os Sírios têm sofrido muito, mas a Síria é o único Estado no mundo, após a guerra do Vietname (Vietnã-br), a ter resistido até que o imperialismo se cansa e desiste.

    Em segundo lugar, face à invasão de uma multidão de jiadistas originários de todas as comunidades muçulmanas, desde Marrocos até à China, o Presidente Assad decidiu abandonar uma parte do território para conseguir salvar o seu Povo.

    O Exército Árabe Sírio recuou para a zona da “Síria útil”, quer dizer para as cidades, abandonando as zonas rurais e os desertos aos agressores. Enquanto Damasco velava, sem nenhuma falha, pelo aprovisionamento de alimentos a todas as regiões que controlava. Contrariamente a uma ideia feita no Ocidente, apenas houve fome nas áreas controladas pelos jiadistas e em algumas cidades sitiadas por eles; os «rebeldes estrangeiros» (perdoem o “oxímoro”), aprovisionados pelas associações «humanitárias» ocidentais, utilizaram a distribuição de pacotes de alimentos para controlar as populações que eles próprios submetiam à fome.

    O povo sírio constatou por si próprio que apenas a República, e não, os Irmãos Muçulmanos e seus jiadistas, o alimentava e o protegia.

    Em terceiro lugar, o Presidente Assad traçou, aquando de um discurso pronunciado a 12 de Dezembro de 2012, a maneira como ele pensava refazer a unidade política do país.

    Ele indicou, nomeadamente, a necessidade de redigir uma nova constituição e de submetê-la à adopção por uma maioria qualificada do Povo, depois proceder à eleição democrática da totalidade dos responsáveis institucionais, neles incluído o Presidente, é claro.

    À época, os Ocidentais fizeram troça da pretensão do Presidente Assad em convocar eleições em pleno período de guerra. Hoje em dia, todos os diplomatas envolvidos na resolução do conflito, incluindo os das Nações Unidas, apoiam o plano Assad.

    Enquanto os comandos jiadistas circulavam por todo o país, nomeadamente em Damasco, e assassinavam políticos em suas casas com suas famílias, o Presidente Assad encorajava os seus opositores internos a pronunciarem-se. Ele garantiu a segurança do liberal Hassan al-Nouri e do marxista Maher al-Hajjar afim de que assumissem, também, o risco de se apresentarem à eleição presidencial de Junho de 2014. Apesar do apelo ao boicote pelos Irmãos Muçulmanos e pelos governos Ocidentais, apesar do terror jiadista, apesar da presença no exílio, no exterior, de milhões de cidadãos, 73,42% dos eleitores responderam presente.

    Identicamente, desde o início da guerra, ele criou um Ministério da Reconciliação Nacional, o que jamais se vira num país em guerra. Ele confiou-o ao presidente de um partido aliado, o SSNP, de Ali Haidar. Este negociou e concluiu mais de um milhar de acordos promovendo a amnistia(anistia-br) de cidadãos que havia pegado em armas contra a República e a sua integração no seio do Exército Árabe Sírio.

    Durante esta guerra, o Presidente Assad jamais usou a força contra o seu próprio Povo, por muito mal que digam aqueles que o acusam gratuitamente de torturas generalizadas. Assim, por exemplo, ele nunca estabeleceu a conscrição em massa, o recrutamento obrigatório. É sempre possível a um jovem escapar ao serviço militar. Procedimentos administrativos permitem a qualquer cidadão do sexo masculino escapar ao serviço nacional se ele não quiser defender o seu país de armas na mão. Apenas os exilados, que não tiveram a oportunidade de proceder a estas “démarches” podem estar em contravenção das leis.

    Durante seis anos, o Presidente Assad não parou de, por um lado, apelar ao seu povo, de lhe conferir responsabilidades e, por outro, de tentar alimentá-lo e protegê-lo tanto quanto podia. Ele assumiu sempre o risco de dar antes de receber. É por isso que, hoje em dia, ele ganhou a confiança do seu Povo e pode contar com o apoio activo.

    As elites sul-americanas enganam-se quando continuam a luta das décadas precedentes por uma mais justa distribuição das riquezas. A luta principal não é mais entre a maioria do povo e uma pequena classe de privilegiados. A escolha que se colocou aos povos do Médio-Oriente Alargado e à qual os Sul-americanos terão que responder, por sua vez, é a de defender a Pátria ou morrer.

    Os factos provam-no: o imperialismo contemporâneo não visa mais, em especial, meter a mão nos recursos naturais. Ele domina o mundo e pilha sem escrúpulos. Agora, o que ele pretende, também, é esmagar os Povos e destruir as sociedades das regiões nas quais explora já os recursos.

    Nesta era de destruição, apenas a estratégia de Assad permite ficar de pé e livre.
     
    Tradução
    Alva

    aqui:http://www.voltairenet.org/article197501.html

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