domingo, 25 de agosto de 2013

Desconstrução de alguns "programas informativos" da indústria de exploração de animais

por Rui Pedro Fonseca [*]


O consumo de carne no Ocidente já não é prática conferidora de status social, nem é hábito exclusivo de grandes festividades. Embora o carnismo esteja culturalmente sedimentado na história pela Religião, Família e Estado, a sua acentuação na época moderna e contemporânea deve-se essencialmente ao legado empresarial / publicitário que têm vindo a incutir nas sociedades, de forma cada vez mais massiva, práticas sociais que legitimam a exploração de animais não humanos. Atualmente são as instituições empresariais que têm moldado os hábitos alimentares, formas de pensar, comportamentos e posturas referentes aos designados "animais para abate".

Produtos derivados da exploração, os "animais para abate" tornaram-se sinónimos de (falsas) necessidades, mas que não deixaram de ser criadas. Considere-se um dos primeiros exemplos de sucesso da história moderna: quando a empresa alimentar Beech-Nut Packing contratara o pai da propaganda Edward Bernays [1] que, por "indicação científica de 5000 médicos" [2] , implementou, primeiro nos Estados Unidos na década de 1920, e depois noutros países anglo-saxónicos, a prática alimentar do Bacon and Eggs por alegadamente ser um "pequeno-almoço bem composto" em detrimento do "leve pequeno-almoço" "café, sumo de laranja e uma torrada". [3]

Que benefícios podem existir de uma carne processada (bacon) que é preservada com conservantes químicos, sal, defumação, e que está apinhada de colesterol e gorduras saturadas? Atualmente, o World Cancer Research menciona que benefícios não existem, e considera que quem consumir elevadas quantidades de bacon acarreta 72% de hipóteses de contrair doenças cardiovasculares (como ataques cardíacos) ou cancro do cólon (11%) [4] . O modelo de publicidade "científica" de Bernays, que reconhecera que "a manipulação consciente e inteligente dos hábitos e opiniões das massas é um elemento importante numa sociedade democrática" [5] é ainda hoje amplamente utilizado por empresas de alimentação.

Um outro exemplo, entre muitos, pode ser dado pela Mimosa – cujo marketing e publicidade são (auto)regulados pelo Instituto Civil da Autodisciplina da Comunicação Comercial (ICAP) que, com um "compromisso voluntário" para com os/as consumidores/as, advoga "respeitar e seguir as normas de conduta, promovendo a legalidade e transparência da comunicação publicitária" [6] . Na página do seu sítio oficial, a Mimosa menciona que desenvolve "programas educativos" (um eufemismo de campanhas publicitárias) de lacticínios dirigidos a mulheres, idosos e crianças (públicos-alvo). Pretendem implementar

"… hábitos de vida saudáveis, desde a infância, sensibilizando para o seu papel estruturante no bem-estar, ao longo de toda a vida (…) e estudar, informar e sensibilizar os portugueses para a importância do leite [de vaca] e produtos lácteos como parte integrante de um estilo de vida saudável." [7]

Ou seja, pretendem consolidar e intensificar hábitos de consumo de lacticínios desde a infância até à terceira idade, e convencer as populações que consumir leite da espécie bovina é sinónimo de obtenção de "vida saudável". Também já obtiveram o apoio do Estado português para a implementação de um "programa pedagógico" que envolve mais de 100 mil crianças e professores do Ensino Básico de todo o país onde promovem "educação alimentar" com o fim de "contribuir decisivamente para uma geração melhor alimentada e melhor informada sobre uma alimentação saudável" [8] . A nobre missão da Mimosa visa ainda "aconselhar e atacar o colesterol e a osteoporose" , assim como promover "o consumo de leite como aliado na prevenção da obesidade infantil" [9] .

Mas, inversamente ao que é dito, a "nova geração", alimentada por empresas de exploração pecuária como a Mimosa, indicia elevadas taxas de obesidade e de doenças crónicas, justamente devido ao consumo de lacticínios que possuem elevados níveis de colesterol, lactose, e alto teor de gorduras saturadas. As secreções mamárias de uma vaca são apenas adequadas para os bezerros para que, após 60 dias do seu nascimento, possam pesar em média cerca de 85kg até chegarem à fase adulta com aproximadamente 400kg. O "programa pedagógico" da Mimosa assenta numa intensa doutrina para que o consumo de leite bovino seja considerado "natural", "saudável" e "necessário" – o que torna a espécie humana no único mamífero no planeta que consome leite de uma outra espécie, e em fase adulta. Depois, sedimenta uma crença generalizada de que o cálcio, tão essencial para a saúde humana, só tem origem no leite de vaca. Em cerca de 5.000 espécies de mamíferos que habitam o planeta, não há nenhuma que obtenha cálcio ou outros nutrientes a partir do leite de outra espécie, seja na infância ou na fase adulta: um ser humano que se apropria do leite que advém das glândulas mamárias de uma vaca é um cenário tão bizarro como um felino sugar o leite de um primata, ou de um suíno sugar leite de um canino. Adicionalmente o que se pode esperar de vacas que são sujeitas a uma exploração intensiva para ministrarem carne ou leite, e que são submetidas a antibióticos, vacinas, hormonas sintéticas (dietiletilobestrol e sulfato de sódio) pesticidas, drogas alopáticas variadas, carrapaticidas, em que muitos casos têm toxinas como o escatol, histamina, putrescina, cadaverina, notrosaminas, nitritos e nitratos, formol, adrenalina, adrenocomo e adrenolutina, benzopireno, sagihate, bactérias e vírus diversos; brucelose, tuberculose bovina; substâncias linfocitárias alergenos, antigenos, benzoquereno [10] , mais pus e sangue?

Certamente os resultados não podem ser positivos. Cada vez mais estudos de investigadores/as e de nutricionistas independentes são unânimes em certificar que os lacticínios têm a sua cota parte nos problemas de saúde pública existentes nos países ocidentais, contribuindo, designadamente, para o surgimento de cancros (mama e próstata), diabetes, osteoporose, obesidade e alergias. Estudos de organizações de referência, como o World Cancer Research e o American Institute for Cancer Research, certificam ligações entre casos de cancro da próstata com o consumo de leite de vaca [11] . Ainda, um estudo levado a cabo pelo Harvard's Physicians (publicado em 2000), no qual foram seguidos 20.885 homens durante 11 anos, revela que consumir duas ou uma porção e meia de produtos lácteos por dia aumentaria o risco do cancro da próstata em 34% [12] .

Nos últimos trinta anos graças aos "programas informativos" de produtos de origem animal, só nos Estados Unidos, a obesidade infantil dobrou nas crianças e triplicou nos adolescentes entre os 12-19 anos [13] . A percentagem de crianças obesas entre os 6-11 anos passou dos 7% aos 18% em 2010, e de adolescentes entre os 12-19 anos dos 5% aos 18% do mesmo período [14] .

As tentativas das indústrias de exploração de animais não humanos em aumentar os seus lucros são permanentes. E.g.: o Internacional Business Times noticiou que a International Dairy Foods Association e a National Milk Producers Federation pretendem que a Federal Drug Administration aprove o uso de aspartame no leite de vaca e derivados, sem que as/os consumidoras/es acedam à presença do químico na composição das embalagens [15] . Que utilidade pode ter este adoçante químico em lacticínios do ponto de vista da indústria? Para que criem dependência e, por conseguinte, para que o consumo se intensifique. Que utilidade pode ter o aspartame para outras indústrias, como a farmacêutica? É que também provoca graves problemas de saúde, como alergias, cancros, diabetes, doenças cerebrais degenerativas, a médio e a longo prazo, cegueira, espasmos, dores de cabeça, perda de memória, convulsões, defeitos de nascimento, fadiga crónica, etc. [16]

Os lobbies do agronegócio não constituem propriamente uma novidade nos países desenvolvidos. Considere-se o exemplo do programa "The investigators" (1997), da Fox News, em que os repórteres Steve Wilson e Jane Akre viram o seu caso de investigação sobre a hormona artificial para crescimento bovino (rBGH) ser "abafado". Esta hormona artificial (a Posilac da Monsanto) foi criada para os criadores a administrarem às vacas e aumentarem a produção de leite. Antes da sua comercialização, a toxicidade do produto haveria sido testada durante 90 dias, em 30 ratos [17] . A Monsanto não cumpriu com os requisitos de segurança que obrigavam a que o período mínimo de estudo sobre a viabilidade do produto tivesse uma duração mínima de dois anos. A Federal Drug Administration (FDA,) que aprovara a circulação de Posilac, não retirou o produto do mercado apesar do aparecimento de estudos que comprovavam que aquele leite adulterado potenciava o aparecimento de cancro do cólon e da mama. Prontamente, Steve Wilson e Jane Akre foram intimados a fazer alterações da peça jornalística de acordo com o guião dos advogados. Por exemplo, na versão da Monsanto a palavra "cancro" deveria ser alterada para "implicações para a saúde humana" [18] . Os advogados da Monsanto prontamente deixaram claro que haveria graves consequências se a história fosse para o ar e foi exigido que a Fox efetivasse as modificações. Num dos faxes enviados aos jornalistas, os advogados da Monsanto mencionaram:

"Nós acabamos de pagar 3.000.000.000 de dólares a estas estações de televisão. Nós decidimos quais são as notícias. As notícias são aquilo que nós decidirmos." [19]

Os receios de um processo judicial e de perder o dinheiro da publicidade da Monsanto, obrigara a Fox News a despedir os jornalistas – e a peça não foi para o ar. O caso da Fox News é paradigmático de uma mega estação televisiva, privada, cujos compromissos empresariais limitam a circulação da livre informação. Os serviços editoriais de uma estação televisiva não podem permitir que certas reportagens ou notícias sejam consumadas e divulgadas. Ainda que a tónica informativa se centre por vezes na (ir)responsabilidade dos/as consumidores/as, o financiamento publicitário de grandes multinacionais da pecuária nos intervalos das programações é sinónimo de que os mecenas jamais serão beliscados.

Um último exemplo de "programas informativos" dirigidos a consumidores/as pode ser dado com a página da marca Iglo, também sediada em Portugal, e que faz referência aos "Douradinhos". É um produto essencialmente dirigido para "crianças, sendo um importante aliado para as mães, ajudando-as a acabar com as "birras" à hora das refeições". A marca manifesta o seu regozijo porque "em Portugal, são consumidos mais de 66 milhões de Douradinhos por ano, ou seja, quase 2 douradinhos a cada segundo". "Os Douradinhos asseguram um crescimento saudável e divertido que começa no prato pois estão cheios de coisas boas": nomeadamente o selénio e o ómega 3 [20] . Embora seja insofismável que muitos peixes possuem selénio e ómega 3 (tal como consta nos pacotes "Douradinhos"), importa expor um mito e revelar uma importante omissão desta marca, e da indústria piscatória em geral, no que à saúde humana diz respeito. Em relação ao mito: é que estes dois imprescindíveis nutrientes para a saúde humana (selénio e Omega 3) estão apenas presentes nos peixes. A castanha de caju, o gérmen de trigo, a levedura de cerveja, as couves de folha escura, os brócolos, e os frutos secos contêm grandes quantidades de selénio. Quanto ao ómega 3 e 6 pode ser encontrado, ainda em melhores proporções que nos peixes, nas sementes de linhaça, nas sementes de chia, nozes, sementes de cânhamo, etc. Estes são truísmos que qualquer licenciado/a em nutrição adquire na academia. Em relação à omissão: para a espécie humana o consumo de peixes é a principal fonte de contacto com o mercúrio que é assimilado pelos peixes devido à poluição dos rios e dos mares. Por sua vez, os humanos que consomem os peixes ( e.g.: cação, atum, sardinha, pescada, salmão, linguado pacu, etc.) também assimilam doses assinaláveis de mercúrio. De acordo com a Organização Mundial de Saúde o mercúrio é um veneno que tem vários efeitos nocivos em adultos, crianças e fetos: para o sistema nervoso, cérebro, sistema imunológico, sistema digestivo, pulmões, rins, pele, olhos [21] . A palavra "mercúrio" não consta nos pacotes da "Douradinhos".

Nos exemplos de "programas informativos", ou de campanhas publicitárias, mencionados acima, as empresas de exploração de "animais para abate" passam uma imagem positiva dos seus feitos e objetivos: da sua missão digna e útil à sociedade, dos seus cuidados para com o ambiente e para com os animais, de como os seus produtos são saudáveis, naturais e necessários. Estas conceções desfasadas da realidade, que contam com o apoio mediático e estatal, com a falta de regulação dos produtos, com a existência de lobbies , e com a ambição desenfreada em aumentar os lucros, são fatores que, em conjunto, resultam no afastamento da opinião pública dos impactos reais destes produtos na sua própria saúde; nos animais não humanos explorados; no ambiente; e na gestão de recursos naturais.
 
Notas:
(1) E. Bernays também elaborou outras campanhas de sucesso, e.g.: fazer com que as mulheres começassem a fumar tabaco como símbolo de emancipação; colaborou na elaboração do Golpe de Estado na Guatemala, sendo contratado pela United Fruit Company para aconselhar Kissinger, Nixon e a CIA.
(2) O próprio Edward Bernays a falar sobre os alegados benefícios do Bacon and Eggs: www.youtube.com/watch?v=KLudEZpMjKU&feature=player_embedded
(3) Idem
(4) Cf. Denis Campbell, "Cancer risk higher among people who eat more processed meat, study finds" The Guardian, 7 March 2013   www.theguardian.com/society/2013/mar/07/cancer-risk-processed-meat-study
(5) Bernays, Edward (2005) "Propaganda", pág. 35, Brooklyn, New York
(6) Instituto Civil da Autodisciplina da Comunicação Comercial "Auto Regulação > Declaração de Princípios Comuns > III. Normas recomendadas para as boas práticas de actuação na Auto-Regulação"
www.icap.pt/...
(7) Ver sitio da Mimosa em www.mimosa.com.pt/mimosa/iniciativas-com-a-comunidade/
(8) Idem
(9) Idem
(10) Barreto, Suzete "Porque não comer carne?", Saúde Integral; 7 de Junho de 2007   www.saudeintegral.com/artigos/por-que-nao-comer-carne.html
(11) Cf. Physicians Committee for Responsible Medicine "Milk and Prostate Cancer: The Evidence Mounts" www.pcrm.org/...
(12) Idem
(13) Cf. Centers for Disease Control and Prevention, "Chidhood obesity facts" 11/01/2013 www.cdc.gov/healthyyouth/obesity/facts.htm
(14) Idem
(15) Christopher Zara, "Aspartame In Milk: Big Dairy Wants To Sneak In Sweeteners Without Labels, But There's One Last Chance To Comment On FDA Petition", Internacional Business Times, May 21, 2013
www.ibtimes.com/...
(16) O aspartame seria aprovado pela FDA, com a grande contribuição de Donald Rumsfeld, em 1974. Mais sobre os impactos do aspartame na saúde humana ver, por exemplo: H.J. Roberts "For Aspartame Disease: An Ignored Epidemic", Sunshine Sentinel Press.
(17) The Corporation (2003) "Monsanto Cancer Milk FOX NEWS KILLS STORY – FIRES Reporters". www.youtube.com/watch?v=gVKvzHWuJRU
(18) Idem
(19) Idem
(20) Cf. Página da Iglo: "Os douradinhos do Capitão Iglo" www.iglo.pt/pt-pt/a-iglo/capitao/douradinhos/
(21) Cf. World Health Organization, "Mercury (International Programme on Chemical Safety)" (2013) www.who.int/ipcs/assessment/public_health/mercury/en/


[*] Do Instituto de Sociologia Universidade do Porto

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .


daqui:http://resistir.info/varios/industria_alimentar.html
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