quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Presidenciais

"Being Cavaco Silva". As ideias e os recalcamentos do candidato
O site da nova candidatura presidencial de Cavaco Silva apresenta aos portugueses "as ideias" do candidato. São 49 temas, em forma de excertos das suas intervenções no primeiro mandato. Fora da agenda ficam alguns temas tabu.



Sobre a actualidade política nada. "Já existem palavras a mais na vida pública portuguesa e eu não vou acrescentar mais nenhuma", disse o Presidente da República na segunda-feira, justificando assim a indisponibilidade para comentar as declarações do ministro das Finanças sobre a possibilidade de Portugal pedir, ou não, ajuda externa para resolver os problemas financeiros. Na pele de Presidente, Cavaco fez a apologia da "contenção das palavras" como "bem mais precioso" no cargo que ocupa. Mas na pele de candidato a novo mandato não poupou nas palavras associadas às 49 ideias que apresentou no site de recandidatura. Uma resenha dos pensamentos que pontuaram as suas intervenções desde que assumiu o cargo. Mas uma resenha também ela contida: há assuntos tabu que não cabem no léxico de um Presidente que quer voltar a sê-lo.


O "dicionário" de ideias que Cavaco apresenta no site da candidatura abrange desde temas genéricos como "Agricultura" até conceitos mais específicos como "Governo minoritário", "Combate à corrupção" ou "Titulares de cargos públicos". Recordam-se os apelos ao diálogo, os pedidos de contenção nas querelas políticas, a crença num futuro mais risonho para o país ou as críticas ao problema de credibilidade na justiça. É, em suma, a visita guiada a um mandato que, como Cavaco Silva defendeu no discurso de candidatura, promoveu a "estabilidade" e pautou a sua actuação por "um registo de isenção e imparcialidade". Uma análise com que os opositores, naturalmente, não concordam a 100%. Porque o candidato da "verdade" tem no seu currículo algumas verdades mal explicadas que podem entrar na campanha. O i recorda alguns exemplos.

Escutas. O "caso das escutas" em Belém foi o ponto mais baixo do primeiro mandato presidencial de Cavaco Silva. As alegadas suspeitas de conspiração provenientes do governo fizeram manchete no "Público" a um mês das legislativas de 2009, mas viriam a ser desmascaradas no "DN", na semana antes das eleições, com a revelação da fonte de todo o caso: o assessor de Cavaco Silva, Fernando Lima, que viria a ser demitido, mas que continua em Belém. O assunto passou a ser tabu.

BPN. Os danos colaterais do "caso BPN" são outra nódoa no currículo do Presidente. Nomeadamente pelo envolvimento de duas figuras próximas da sua entourage política: Oliveira Costa, secretário de Estado dos Assuntos Fiscais em dois governos de Cavaco Silva, e Dias Loureiro, antigo ministro de Cavaco e conselheiro de Estado em Belém. A indefinição em torno da saída de Dias Loureiro do cargo de conselheiro de Cavaco não ajudou. As suspeitas em torno das acções do BPN que Cavaco deteve também não.

Um activo anti-político. O mais político dos "não-políticos" de Portugal teve influência directa na agenda política nacional, mesmo quando não exercia qualquer cargo institucional: o artigo sobre a boa e a má moeda, publicado em 2004 no "Expresso", foi dos derradeiros impulsos para a descredibilização e posterior queda do então primeiro-ministro Santana Lopes. A relação conturbada com Santana, ex-secretário de Estado de Cavaco, prosseguiu meses depois: Cavaco, que então ainda alimentava o tabu sobre a candidatura presidencial, proibiu que a sua imagem fosse usada nos cartazes da candidatura de Santana a primeiro-ministro, contra Sócrates. Argumento: não prejudicar a sua "vida académica".

O casamento gay. Cavaco é frontalmente contra o casamento homossexual e não o escondeu. Mas promulgou o diploma aprovado na AR pela maioria de esquerda. No discurso que fez ao país a justificar a decisão, lamentou que em detrimento do "casamento", os partidos não tenham optado por reconhecer apenas às uniões homossexuais direitos iguais às das uniões entre pessoas de sexos diferentes. A promulgação, disse, foi motivada pela necessidade de não desviar atenções da "grave crise" do país. A direita mais conservadora não gostou.

O monstro. Em 2000, cinco anos depois de abandonar o cargo de primeiro-ministro, Cavaco Silva definiu a despesa do Estado português como "um monstro". O político que insiste na sua diferença em relação aos outros políticos dava aqui os primeiros sinais da sua capacidade para intervir na agenda política, garantindo ao mesmo tempo que não o fazia. Mas fê-lo, no caso associando a governação socialista de António Guterres ao crescimento do défice. Um problema apenas: a governação de Cavaco foi a segunda que mais alimentou o "monstro"; e a primeira foi de outro governo PSD, o de Durão Barroso.

O embargo furado. Em Novembro de 1994, já no final do segundo mandato de Cavaco Silva como primeiro-ministro, "O Independente" noticia que em pleno embargo à Indonésia as Oficinas Gerais de Material Aeronáutico (OGMA), tinham reparado dois motores de helicópteros Puma da Força Aérea Indonésia em 1993. Ou seja, cerca de dois anos após o massacre de Santa Cruz, que vitimou 200 timorenses. O então ministro da Defesa, Fernando Nogueira, apontado como um dos sucessores naturais de Cavaco no PSD, garantiu desconhecer o negócio. O caso caiu no esquecimento.


por Adriano Nobre, Publicado em 17 de Novembro de 2010
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