quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

A caixa de Pandora.

A esquerda a que Manuel Alegre pertence é saudosista e já não existe", disse Maria José Nogueira Pinto, no programa de Mário Crespo, transmitido na segunda-feira, p. p., na SIC Notícias. Uma frase que se releva de uma ambiguidade premeditada. Maria José Nogueira Pinto é uma mulher lida, informada e inteligente, e sabe muito bem que a direita vive em função da esquerda. Ou seja: uma devolve-se à outra, como um reflexo, por vezes deformado, que arrasta o seu contrário.


A esquerda vai acertando os combates consoante as próprias exigências históricas. Mas o inimigo, com outras máscaras e diferentes processos de maneio, é sempre o mesmo: o capitalismo, agora amenamente chamado "o mercado". Há um argumento circular que pode esclarecer e justificar o equívoco entre o conceito de esquerda e a prática, há anos exercida, pelo PS. O PS sobrenada na sua peculiar sobrevivência e, infelizmente, tem revelado uma surpreendente tendência para se esvaziar de ideologia e de idealismo. "A social-democracia não passa de boa gestora do capitalismo." A frase é de Manuel Alegre e, independentemente do que possamos pensar do percurso dele, elucida, por vezes, o seu mal-estar, pelos compromissos do PS, e a sua situação moral que pretende resguardar e defender.

A "velha esquerda" talvez tivesse reduzido a política "a uma forma de contabilidade social, à administração quotidiana dos homens e das coisas" (Tony Judt), e adoptado os métodos comuns à direita. O "socialismo moderno", do sinistro Tony Blair, levianamente adoptado por José Sócrates, não é um sistema de ideias, destinado a "modernizar" a esquerda, após o colapso do "socialismo real"; é uma traição em maiúscula.

Creio que Alegre tenta juntar os restos dos escombros, e procurar, nas margens do que foi a essência da política pública, os salvados do naufrágio. As "velharias", nomeadas por Maria José Nogueira Pinto, constituem a própria natureza do Estado social, e a exigência de um combate sem tréguas à cega investida dos seus inimigos. O que se prepara é muito mais importante do que meras eleições. É a modificação, pela força dos detentores do poder, dos equilíbrios sociais nascidos com o 25 de Abril, e da redução drástica da acção e da intervenção dos Governos. Transformar as nações em empresas, com banqueiros, administradores, gerentes, directores a orientar os destinos colectivos e individuais - eis os objectivos apostos no cardápio da "modernidade". Estado mínimo corresponde a autoritarismo, repressão a todos os níveis, ausência qualificada de liberdade. E à dissolução dos laços sociais, cada vez mais escassos, que, apesar das arremetidas, ainda perduram.

A caixa de Pandora está a ser reaberta.


por Baptista Bastos, DN
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