domingo, 24 de abril de 2011

Cada um tem o que merece!

No decorrer do ano de 2007, uma pequena ilha vulcânica, a Islândia, entrou com os seus 320 mil habitantes em bancarrota, tornando-se na primeira vitima da crise financeira que tem vindo a assolar o mundo económico.


O endividamento excessivo, a falência do maior banco nacional e o excesso de crédito mal parado, foram alguns dos motivos que guindaram o pais para uma crise que entretanto já fez tombar a Irlanda, a Grécia e agora Portugal.

É bom lembrar que este pequeno pais, erguido em magma no meio do oceano, vinha desde 1944, altura da sua independência, a ser governado pelo PP, o Partido Progressista que se perpetuou no governo até levar o país à miséria. Fazendo recurso a falácias para classificar o “seu bom trabalho”, como por exemplo, o fantástico 13º lugar no ranking de países com melhores condições para se viver (quando Portugal ocupava o modesto 40º) ou ainda com as conhecidas “afinações” bancárias, conseguiram passar para o povo a ideia que tudo estava sobre controlo. E assim conseguiram iludir uma população durante mais de meio século.

Quando a bomba rebentou, o PP saiu em corrida de braços abertos ao encontro do FMI. “- Ajudem-nos… que a merda veio ao de cima.” O FMI, evidentemente recebeu-os de braços abertos e sem grandes comiserações garantiu ajuda a troco de juros pornográficos que começariam nos 5,5 % e terminariam…. onde terminassem. Feitas as contas por alto, os islandeses concluíram que o recurso ao FMI resultaria num endividamento por 30 anos, com um encargo mensal de sensivelmente 350€ por família.

Não agradados com esta solução, principalmente porque parte considerável da “ajuda” servia para tapar o buraco no Banco da Islândia, o povo mexeu-se, e rapidamente começaram a aparecer movimentos cívicos despojados dos velhos políticos corruptos, com uma ideia base muito simples: os custos das falências bancárias não poderiam ser pagos pelos cidadãos, mas sim pelos accionistas dos Bancos e seus credores. Como tal, todos aqueles que assumiram investimentos financeiros de risco, deviam agora aguentar com os seus próprios prejuízos.

Durante algum tempo esgrimiram-se argumentos e o PP, em jeito de velho habito, tentou descarregar uns furgões de areia nos olhos dos islandeses, sempre sem sucesso, pois os islandeses pouco têm de semelhante com, por exemplo os portugueses. Os islandeses são um povo mais á semelhança dos nórdicos e assim sendo, apresentaram-se intransigentes e fieis às suas convicções. O governo não teve outra alternativa e foi obrigado a efectuar um referendo, tendo os islandeses, com uma maioria de 93%, recusado a assumir os custos da má gestão bancária e a pactuar com as imposições avaras do FMI.

Num ápice, esses mesmos movimentos cívicos cresceram e forçaram a queda do Governo e novas eleições foram realizadas a 25 de Abril (data mítica) de 2009.

Como está bom de ver, o PP perdeu em toda a linha nas novas eleições. Apesar do PP apresentar Duques e Ases como trunfos, os Islandeses, povo intelectualmente honesto, votaram em massa no renovado Aliança Social Democrata, e com a coligação entretanto criada com o Movimento Verde de Esquerda, garantiram 34 dos 63 lugares da Assembleia.

O programa do novo governo era muito simples: Aprovar uma nova constituição; acabar com a economia especulativa em favor de outra produtiva e exportadora; e tratar de inserir a curto-médio prazo a Islândia no UE com a subsequente adesão ao Euro.

E foi isso que fizeram. Inevitavelmente, subiram os impostos e cortaram na despesa publica, mas, repare-se, tiveram a preocupação de não o fazer nos serviços públicos de quem a população dependesse, cortando apenas nas chamadas “tetas de vaca” que mais não são que o alimento dos conhecidos “boys do Governo”.

Tomadas que formam estas medidas, seguiu-se a negociação com o FMI. Isto porque apesar de internamente o pais estar a ser organicamente reestruturado e financeiramente optimizado, continuavam a precisar de dinheiro para garantir liquidez. Longas e duras negociações tornaram a mostrar a fibra e a motivação do pequeno grande povo islandês e resultado disso; garantiram os empréstimos que necessitavam nos tais 30 anos de duração com um juro máximo de… 3,3%. Máximo!

O FMI emprestou e saiu de fininho. Nem podia ser de outra forma, pois os islandeses demonstraram de uma forma cabal que se tivessem de trilhar o seu caminho sozinhos, o fariam sem olhar para trás. Ora, sabendo o FMI que o mais provável, dadas as características do povo e do pais, é que mesmo sem ajuda da Banca Internacional, a Islândia teria conseguido superar tamanho desiderato; que tipo de mensagem estaria a ser passada para os demais países do mundo? Uma mensagem inconveniente para o negocio da banca, como está visto, pois como já devem ter reparado, muito pouco se tem falado da Islândia e dos seus estóicos feitos governamentais.

Graças a esta corajosa politica de não pactuar com os interesses descabidos do neo-liberalismo instalado na banca e de não pactuar com o Capitalismo (cada vez mais descontrolado) a Islândia conseguiu, aliada a uma politica interna de sacrifício sair da recessão no 3º Trimestre de 2010.

O Governo Islandês, liderado por uma senhora sexagenária, lá vai seguindo o seu caminho; o caminho que escolheu percorrer. O povo está com o Governo, porque o Governo cumpriu, até á data, com todas as promessas do dito referendo dos 93%. E estão com o Governo, porque apesar dos sacrifícios, sabem para onde vão todos os cêntimos dos seus impostos; sabem que os seus sacrifícios não servem para sustentar os banqueiros corruptos do seu pais, nem para encobrir fraudes com que alguns durante muitos anos fizeram crescer monstruosas fortunas. Estão com o Governo, porque este não faz jogadas nas suas costas. Estão unidos, porque o Governo tal como prometido, não lhes mexeu nos sectores públicos necessários à manutenção de uma assistência e segurança social básica. Estão unidos, porque orgulhosamente podem dizer que deram uma lição à máfia banqueira internacional.

E nós?

Porque não estamos nós unidos? Porque não confiamos nós em quem nos governa?

Sim, falo de nós, portugueses. E sim, também falo de nós, sportinguistas.

Bom, nós vamos continuar exactamente como sempre estivemos. Vamos votar no PS e no PSD, aqueles que nos têm conduzido à pobreza. Aqueles que compraram submarinos enquanto encerravam Hospitais e Centros de Saúde. Aqueles que executam penhoras de habitações e colocam na rua famílias com filhos enquanto eles são absolvidos de processos judiciais que fariam qualquer outro cidadão passar os próximos anos da sua vida atrás das grades. Aqueles que pedem para apertar o cinto, enquanto têm cem assessores e outros tantos motoristas. Vamos faze-lo, não tenho uma única célula que duvide disso, e vamos faze-lo da mesma maneira que enquanto sportinguistas “votámos” no Godinho Lopes e no BES. Aqueles que descapitalizaram o clube, vendendo Edifício Visconde de Alvalade, Clínica Cuf, Alvalaxia e terrenos urbanos, com a mesma cadencia com que aumentaram o passivo do clube. “Votámos” neles, mesmo sabendo que todos os bens que restam ao Sporting (Academia e Estádio) já passaram para a Sporting, SAD e que essa mesma SAD vai passar a breve trecho a ser detida maioritariamente pelo BES. Mesmo assim “votámos” neles. Ou não… mas isso pouco importa, porque como bons portugueses que somos, agora o que importa, segundo parece, é darmos as mãos, fecharmos os olhos, e rezar para que tudo corra pelo melhor. Com os sem verdade. Com os sem cumprimento de promessas. Com ou sem futuro.

É assim o português, que não sendo diferente dos outros, vai ter, como tem tido, aquilo que merece. Uma mão cheia de promessas e outra cheia de nada.

 
por Nelson Vicente, in Sporting Apoio 2011
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