quinta-feira, 4 de julho de 2013

O balanço

Tinha Vítor Gaspar acabado de se demitir e não estava ainda o governo ligado à máquina por Cavaco Silva, no estado vegetativo que não sabemos por quanto tempo se prolongará, e já alguns defensores mais afoitos do actual executivo se preparavam para reescrever a história recente e tentar moldar narrativas convenientes para os tempos mais próximos.

José Gomes Ferreira, por exemplo, a 2 de Julho na SIC, quando perguntado sobre se a saída de Vítor Gaspar era uma boa notícia, respondeu de imediato que não e que o resultado seria a (obviamente) previsível subida das taxas de juro da dívida nos próximos dias. Mas esqueceu-se, contudo, de referir que as mesmas taxas, a 10 anos, têm justamente estado a subir desde 21 de Maio (depois de terem atingido, nessa altura, os cerca de 5,2%), chegando a aproximar-se dos 7% a 25 de Junho. Isto é, com Gaspar ainda no pleno exercício das suas funções.

Um pouco mais subtil, João Miguel Tavares, em artigo no Público do mesmo dia, tenta de algum modo recuperar a tese do «Estado gordo», procurando assim justificar a saída de Gaspar e, ao mesmo tempo, dar o mote para um embuste conveniente, a servir à opinião pública nos tempos mais próximos. Segundo Tavares, o ex-ministro das Finanças teria confessado o maior dos seus erros não na carta que enviou a Passos Coelho, mas sim em declarações proferidas no início de Junho, quando considerou que devia ter começado pela «transformação estrutural profunda das administrações públicas», em vez de «dar prioridade à consolidação orçamental e à estabilização financeira». Para João Miguel Tavares fica um desafio: se os sucessivos cortes em sectores como o da saúde, da educação e da protecção social (em recursos humanos e noutras rubricas de despesa, com as consequências que se conhecem) não foram ainda suficientes para que se possa falar na concretização da «tão badalada reforma do Estado», que demonstre (e quantifique) o que falta fazer. E, já agora, que avalie os impactos sociais e económicos dos cortes efectuados e dos que se lhe devem, em sua opinião, seguir.

Enquanto o governo não se fina oficialmente, convém pois que se tenha noção dos prodígios que realizou nos últimos dois anos. O gráfico ali em cima compara as previsões, para 2013, da versão original do Memorando de Entendimento, com as previsões fixadas na Sétima Revisão do programa. O desemprego está cinco pontos percentuais acima do previsto em Junho de 2011; as exportações (o motor exclusivamente escolhido para a retoma) quase seis pontos percentuais abaixo e as importações, em negativo, a reflectirem fundamentalmente o estado de destruição da economia. A procura interna, que em Junho de 2011 se estimava pudesse rondar os -0,4% em 2013, aproxima-se afinal dos -4,0%, com evidentes consequências na quebra das receitas fiscais e no aprofundamento da recessão. O défice, esse magno objectivo, que se supunha atingir no corrente ano os exigidos 3,0%, estima-se agora (irrealisticamente) que possa afinal fixar-se em 5,5% (quase o dobro). E, a somar a tudo isto, o fracasso total na meta da dívida pública, que deveria situar-se - de acordo com as previsões iniciais para 2013 - em 115%, mas que se prevê alcance afinal os 123% do PIB.

É deste cenário dantesco - agravado pelo resultado do défice no primeiro trimestre (10,6%) e pela impossibilidade de concretizar o delirante corte de 4.700 milhões de euros na despesa pública até 2014 (no âmbito da famigerada «reforma do Estado») - que Gaspar e Portas fogem a sete pés. No navio que se afunda, apenas Passos Coelho e sua comandita continuam alapados ao casco, convencidos de que ainda não é altura de largar «o pote».

por Nuno Serra

http://ladroesdebicicletas.blogspot.pt/2013/07/o-balanco.html 
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