terça-feira, 16 de julho de 2013

O criticismo reacionário

por Vaz de Carvalho


“As novas antenas difundem as velhas asneiras
A sabedoria, essa transmite-se de boca a orelha”
- Bertholt Brecht – Poemas


“Toda a confusão provém da mente conhecer apenas parcialmente uma coisa que é um todo ou se compõem de muitos elementos. (…) Não se entendem as propriedades das coisas enquanto se ignoram as suas essências”
Espinosa – Tratado da Reforma do Entendimento


1 – EM QUE CONSISTE
Chamamos criticismo reaccionário, à crítica às consequências da política de direita para prosseguir com políticas de direita ainda mais gravosas, dando a ilusão de defender justamente o contrário, desta forma procurando levar as pessoas a agir contra os seus próprios interesses.
Com a notícia do abandono do governo por parte de Vítor Gaspar e Paulo Portas, estes críticos revelaram com clareza a inconsistência das suas “críticas”. Pode dizer-se que entraram em pânico com a perspectiva da política ultra-reaccionária da troika ser alterada. Um destes “críticos” dizia que a saída de V. Gaspar “é mau, é um sinal de que não vai ser feito aquilo que é preciso”. A questão a colocar seria: Mas preciso para quem? Claro que faz parte dos actuais procedimentos jornalísticos não questionar estes “críticos”.
Durante o último governo PS, o PSD e o CDS tudo prometeram, denunciavam o fracasso das medidas com que, de cedência em cedência, o governo PS afundava o país, porém colaboravam na elaboração e aprovação das mesmas sempre que necessário, exibindo intenções de consciência social, preocupação pelo “dinheiro dos contribuintes”, pelo desemprego, pelos défices do Estado. Os resultados das suas políticas estão à vista: mais desemprego, mais recessão, mais endividamento, mais impostos, menos prestações sociais.
Podemos distinguir três modelos básicos de criticismo reaccionário: contra o governo; contra “os políticos” e os partidos; contra os trabalhadores, suas organizações e direitos.
Neste contexto se integram os ataques à Constituição. Com o argumento que não há dinheiro, pretendem eliminar as funções sociais e económicas do Estado e as garantias laborais, embora haja dinheiro para a finança especuladora, benefícios fiscais e livre transferência de capitais e rendimentos, juros usurários, rendas monopolistas, salários milionários nas administrações dos oligopólios.
Em 2012 os presidentes e membros de comissões executivas da EDP, GALP, PT e Jerónimo Martins auferiram a módica quantia de 39.585.275 €, mais 58,3% que em 2011. Só o sr. Mexia à conta dele levou 3.103.180 €. O sr. Granadeiro que deixou funções executivas na PT recebeu 615 800€ de remuneração mais 652 000 € de prémio (!) pelo mandato entre 2009 e 2011. (Visão, 11.Abril 2013)
Claro que a isto podem acrescer rendimentos obtidos em paraísos fiscais como aqueles em que as empresas têm sede.
Compare-se com as “excessivas” indemnizações por despedimento de trabalhadores ou os rendimentos de funcionários públicos e pensionistas tratados como parasitas sociais que “vivem à custa do Estado”, como se nada fizessem ou tivessem feito nem efectuados os devidos descontos.
Não podemos também ignorar a promoção acrítica de um europeísmo federalista, acéfalo relativamente aos interesses nacionais, que se torna parte do criticismo reaccionário, já que os directórios europeus há muito puseram em prática uma política de direita, com acentuadas cedências a aspectos de extrema-direita. Perante esta situação os apelos e as inócuas propostas de gente que nada quer alterar do sistema, valem rigorosamente nada, como o sr. Hollande se encarrega de demonstrar.

2 – OS PROCESSOS
Comentadores assumem um papel indignado, revoltados contra a actual situação, como grandes defensores dos interesses do povo e do país. Criticam o que sempre apoiaram e defenderam, considerando agora o memorando da troika “mal desenhado”. Justificam o descalabro para onde o país foi conduzido com o facto de “estamos nas mãos dos credores internacionais” e do “país estar sob intervenção”. Contudo, reclamaram, saudaram, justificaram a intervenção da troika, para “nos ajudar” e apoiaram ir-se mais além. Era o “ímpeto reformista” do governo: as tão reclamadas “reformas estruturais”.
Criticam o governo, mas defendem as medidas negativas deste pacto de agressão e ocupação do país; escamoteiam as consequências do domínio oligárquico e do parasitismo financeiro, que impede os povos de controlarem a economia dos seus países e protegerem-se da servidão pela dívida. Esta a razão por que muito se falando em “crise” pouco ou mesmo nada se fala das suas causas, senão para as deturpar.
Mas estas “críticas” não passam de camuflagem, manobra de diversão que acaba por justificar as políticas do governo, classificando como um êxito a decantada “credibilidade externa” e a “confiança dos mercados”, que apenas reflectem o domínio da usura financeira: 6,8% para empréstimos a 10 anos em meados de Junho (antes de crise no governo!). No fundo, alinham com as esquizofrénicas dissertações do governo, e do ex-ministro Gaspar, ridiculamente tecnocráticas face aos resultados obtidos.
Prestações sociais e salários são apresentados como o grande problema da despesa pública e do défice, omitindo que os juros usurários sobre o Estado português, por parte do “parceiros europeus” representaram em 2011 92% do défice orçamental, em 2012 68,6%, valor que em 2013 segundo as previsões do governo será cerca de 100%. (1)
A monumental fraude à opinião pública menos esclarecida prossegue, escondendo os milhares de milhões para a especulação (SWAP), compensação da má gestão e fraude (BPN, BPP, Banif, PPP, etc.), benefícios fiscais ao grande capital e à banca.
O criticismo reaccionário assume também consonâncias tecnocráticas. Jornalistas e professores de economia formatados na escolástica neoliberal que domina a UE como nova Inquisição, configuram um mundo abstracto em que as pessoas nem como estatística contam, apenas os “incentivos” aos lucros do grande capital e finança, colocados acima de todas as outras preocupações e valores.
O sr. Nuno Crato antes de ser ministro teve promoção mediática num programa da SIC, onde criticava o “centralismo” do ministério da educação, as políticas de M. Lurdes Rodrigues (como era fácil fazê-lo!) e teorias pedagógicas falhadas, defendendo o “ensino”, a autonomia dos professores e das escolas, etc. Parecia um bem-intencionado tecnocrata, mostrou ser um inimigo dos professores e da escola pública, urdiu provocações, determinou ilegalidades, em atitudes que podemos classificar como fascizantes tentando voltar a população contra a escola pública e contra os professores, a dignidade desta profissão e seus direitos. Aproveitando-se da sua acção o governo divulgou intenções de alterar a lei da greve, tornando-a uma liberdade teórica.
Os comentadores promovidos pelo sistema especializaram-se no jogo de sombras em que pretendem transformar a política. O subjectivo, o psicológico, escondem o concreto: as relações de produção e exploração em que as pessoas são inseridas.
A política é transformada numa série de jogadas, intrigas e contra intrigas, em que o sr. Rebelo de Sousa se assume como mestre desta encenação. A vacuidade dos seus comentários pode ser avaliada ouvindo-os com alguns meses de distância…
O pensamento de direita afunda-se no zero absoluto: ou resvala para a calúnia ou exprime-se completamente dissociado da realidade, esta está sempre errada, não conforme com os “padrões de ajustamento”. A direita refugia-se nas análises isoladas dos contextos ou num pensamento teológico, ancorado em ilusões de milagres além-fronteiras (as políticas da UE), promovendo a passividade da população.
É a forma, não os conteúdos, que os comentadores, pretensamente críticos, ilusionistas da política procuram. É a versão de que o problema do governo é “comunicar”, “explicar melhor” as suas medidas. Verdadeiros camaleões da política criticam o governo, apontando erros, como se não tivessem andado a defender tudo o que se fez, apoiando as exigências da troika, isto é, a espoliação das camadas trabalhadoras.

3 – OS OBJETIVOS
O objectivo central do criticismo reaccionário é promover a alienação das camadas populares. A perda de controlo sobre a sua existência, desapossada a favor do poder financeiro.
Distinguimos no criticismo reaccionário 3 tipos de “críticos”: os “arrependidos”, os malabaristas e os radicais ou niilistas éticos. As diferenças são de forma não de conteúdo: todos pretendem uma sociedade oligárquica, dominada por uma intocável finança, em que a função principal do Estado é proteger estes interesses.
Os dois primeiros, são apresentados normalmente, como inquestionáveis autoridades nas matérias tratadas, porém se tudo sabiam nada previram e erraram sempre nas suas soluções. São adeptos do modelo liberal oligárquico e neste sentido, favoráveis ao “consenso” com o PS.
Os últimos são os que mais atacam o governo, mas, por contraditório que pareça, os que mais defendem as suas políticas! Defendem cortes de 10 000 milhões de euros, “rapidamente e em força” e que se anule a Constituição. O seu modelo social é uma ditadura oligárquica de fachada democrática. A qualificação como niilistas éticos, provém de nos seus raciocínios serem ignoradas as consequências sociais do que defendem, atendendo a que em 2012 sem apoios sociais 40% da população portuguesa cairia na pobreza ou exclusão social.
O criticismo reaccionário não pode ser subestimado e ainda menos ignorado. Directa ou indirectamente é hospedeiro do ovo da serpente fascizante. O populismo é a fingida indignação contra “os políticos”, os partidos, os direitos dos trabalhadores, assumidos como “privilégios” e responsáveis pela crise e pela pobreza dos demais, propondo a entrega do governo a tecnocratas: os “técnicos competentes”, os “profissionais”.
Os exemplos na UE (Monti, Draghi, Papademos, Schaubel, V Gaspar, Santos Pereira, Crato, etc.) são suficientes para avaliar a sua prática e os seus objectivos: defesa e promoção da sociedade oligárquica. A competência destes tecnocratas fica demonstrada pelos erros das suas previsões, que não são acidentais: resultam de conceitos e práticas intrinsecamente errados.
Confessam que é muito difícil fazer previsões no actual contexto. Falso. A realidade foi desde sempre desvendada com a devida antecedência para os que a analisaram a partir do materialismo dialéctico, não da metafísica neoliberal e reaccionária. Apenas dois exemplos: Álvaro Cunhal em “O Passado e o Futuro da Revolução Portuguesa” definiu com rigor as consequências da integração na então CEE; Carlos Carvalhas em 1999, explicitou com exactidão o que ocorreria ao país com a adesão ao euro.
O actual governo é exemplo do populismo pela forma como conquistou o poder e o exerce, contra as leis e a Constituição, visando, com o apoio do PR, a passagem do liberalismo oligárquico (do governo PS) para a ditadura oligárquica, de fachada democrática anulando, à maneira salazarista, a letra e o espírito da Constituição através de leis. Dirigismo férreo para as camadas trabalhadoras pela legislação e pelas privações, liberdade total para os sectores oligárquicos.
Este o seu conceito de “Estado de direito”, enquanto a defesa da Constituição e dos valores libertadores do 25 de ABRIL são caluniados como de “extrema-esquerda”.
O criticismo reaccionário faz apelo a sentimentos negativos. Temendo a consciência e a união das camadas populares, procura voltar pobres contra pobres, trabalhadores contra trabalhadores, etc., dividir as camadas populares, instilar a animosidade, considerando direitos laborais como privilégios, os causadores da crise e que deveriam ser anulados.
O PS em nome de uma pretensa “economia de mercado” ou de quimeras como “o sonho europeu”, do qual os trabalhadores estão arredados, cede aos desígnios do poder oligárquico, um poder que se expressa num capitalismo rentista e sem soluções.
É o marxismo que permite a compreensão do mundo real em permanente transformação, afirmando a capacidade colectiva da Humanidade para concretizar essas transformações no sentido do progresso social, construindo uma sociedade voltada para mais elevados padrões de vida, cultura e organização económica. É no marxismo que se encontram as soluções para a superação das crises que o sistema capitalista forçosamente engendra.

1 – Este texto não trata especificamente do problema da dívida, algo que merece abordagem específica. Recordemos apenas a enormidade do “sucesso” dos mercados que PR e governo defendem a todo o custo, face à recente revelação que o pagamento do serviço de dívida a partir de 2014 atingirá (ou atingiria) anualmente mais de 18 mil milhões de euros.

daqui: http://www.odiario.info/?p=2945
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