sábado, 3 de agosto de 2013

O julgamento de Manning: incongruência e decomposição

Editorial de “La Jornada”


Mais de três anos após a sua detenção no Iraque o soldado estadunidense Bradley Manning, um tribunal militar declarou-o culpado de 20 dos 22 delitos que lhe eram atribuídos, entre os quais se destacam a espionagem e o roubo de informação, acusações que, caso a juíza responsável pelo caso imponha a máxima pena possível, poderão atingir os 136 anos de prisão. Embora a justiça militar estadunidense tenha deixado cair a acusação contra Manning de ter ajudado o inimigo - a mais grave e desproporcionada das acusações que lhe eram feitas - a possibilidade de que este marine de 25 anos passe o resto dos seus dias na cadeia dá conta da enorme incongruência que aflige o sistema judicial dos Estados Unidos.

Com efeito, a condenação de Manning produz-se apesar de as autoridades judiciais terem reconhecido que a informação subtraída do Departamento de Defesa não foi entregue a qualquer organização ou Estado inimigo de Washington, mas à organização encabeçada por Julian Assange; para além disso, tais revelações nunca representaram uma ameaça para a segurança dos Estados Unidos. Quando muito representaram uma ameaça para a perpetuação das práticas criminosas e desumanas cometidas por essa superpotência e documentadas pelas informações que Manning filtrou a Wikileaks. Com estes elementos de contexto, a insistência em julgar o soldado estadunidense por colaboração com o inimigo dá conta de que o processo judicial que lhe foi movido não foi motivado pelo zelo legalista, mas sim pelo encarniçamento de Estado contra o jovem militar, com recurso à manipulação propagandística e ideológica da justiça.

No que diz respeito à condenação de Manning como culpado de espionagem, a sua gravidade empalidece sob a luz das revelações feitas pelo ex consultor de inteligência militar estadunidense Edward Snowden, revelações que mostraram o governo de Washington como operador de uma vasta rede de espionagem telefónica e cibernética que afectou milhões de pessoas e governos em todo o mundo e que manifesta, por acréscimo, uma debilidade estrutural que a torna particularmente vulnerável a filtrações: como recordou a defesa do próprio Manning, as necessidades humanas da operação dessa rede fazem com que centenas de milhares de personas, entre trabalhadores, empregados do governo e contratistas, tenham acesso a informação considerada confidencial pela Casa Branca e pelo Pentágono.

A incongruência é ainda maior se se toma em conta que, enquanto a mencionada rede está orientada para a obtenção de informação para os interesses geopolíticos e económicos da superpotência, o zelo que motivou a actuação de Manning no episódio comentado é, até onde se sabe, irrepreensivelmente ético e democrático.

Por último, é inaceitável que um soldado seja condenado por divulgar informação sobre práticas criminosas e desumanas quando a maior parte dos responsáveis e autores materiais e intelectuais das mesmas permanecem impunes. Com efeito, nas condições actuais, é improvável que venham a ser empreendidas acções judiciais contra George W. Bush, Dick Cheney, Condoleezza Rice e outros ex funcionários que à base de mentiras e ocultação da verdade envolveram os Estados Unidos em duas guerras colonialistas e injustificáveis, no quadro das quais morreram milhares de estadunidenses e centenas de milhares de iraquianos e afegãos.

Outro tanto pode dizer-se dos responsáveis pelos actos de barbárie divulgados pelo próprio Manning, como o assassínio de um repórter da agência Reuters e de mais 10 pessoas pela tripulação de um helicóptero Apache em Julho de 2007; as múltiplas torturas nos cárceres clandestinos controlados pelo Pentágono; o ocultamento de milhares de mortes e o assassínio de civis às mãos de tropas invasoras, e outras práticas criminosas cujos autores não só não passaram pela prisão como possivelmente terão sido condecorados como heróis de guerra.

A perseguição empreendida pelo governo estadunidense contra aqueles que tiveram a coragem de tornar pública a barbárie e os abusos cometidos sob a cobertura do poder planetário é um sintoma mais da situação decomposição moral, política e jurídica em que se encontra a superpotência.

Fonte: http://www.jornada.unam.mx/2013/07/31/edito

daqui: http://www.odiario.info/?p=2964
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