terça-feira, 9 de setembro de 2014

A peste fascista está a ser inoculada outra vez na Europa


por Yuriy Rubtsov

 
"Naturalmente – perguntou –, sabe do que se trata, Rieux? [...] Pois eu sei. [...] vi alguns casos em Paris, há uns vinte anos.   Simplesmente, nessa altura, não houve a coragem de lhe dar um nome.   A opinião pública é sagrada:   nada de pânico.   Sobretudo, nada de pânico.   E depois, como dizia um colega:   'É impossível, toda a gente sabe que ela desapareceu do Ocidente' ".
A Peste, Albert Camus, Lisboa, Livros do Brasil, p. 334. 
 
Desfile nazi na Ucrânia. Muitos órgãos de comunicação comparam a situação contemporânea na Europa com os dias anteriores à II Guerra Mundial. Gostava de fazer aqui uma correção importante. Neste momento estamos a assistir ao fomento pelo Ocidente de mais um regime nazi representado pela junta de Kiev e isso faz lembrar a segunda metade dos anos 30 em que aconteceu a mesma cooperação com a Alemanha, transformada num estado fascista.

Claro que a Ucrânia que conhecemos hoje não pode comparar-se à Alemanha de Hitler. Mas o primeiro golpe é meia batalha ganha. A adesão cega ao Führer começou com um cabo desconhecido a pregar a xenofobia e a vingança.

É um segredo do domínio público que os Estados Unidos foram coniventes com Adolf Hitler. A penetração dos EUA foi significativa e intensa, em especial a sua cooperação com a indústria de guerra alemã. Em 1933 os Estados Unidos controlavam ramos cruciais da economia da Alemanha, assim como grandes bancos como o Deutsche Bank, Dresdner Bank, Donut Bank etc. 

Os grandes negócios começaram a confiar em Hitler. Foram os dias de afluência para o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, quando começaram a afluir os financiamentos do exterior. Graças a grandes donativos do grupo United Steeworks de Frotz Thyssen, (Vereinigte Stahlwerke AG), da I.G. Farbenindustrie AG (Interessen-Gemeinschaft Farbenindustrie AG) e do magnate da indústria mineira Emil Kirdorf, o partido obteve 6,4 milhões de votos e tornou-se o segundo maior partido no Reichstag (parlamento). Hjalmar Schacht (22/01/1877 – 03/06/1970), economista alemão, banqueiro, político liberal e cofundador em 1918 do Partido Democrático Alemão, tornou-se o elo de ligação fundamental entre a indústria alemã e os doadores estrangeiros.

Os negócios britânicos começaram a fazer donativos ao Führer e ao seu partido nazi. Em 4 de janeiro de 1932, Montague Norman, governador do Banco de Inglaterra de 1920 a 1944, encontrou-se com Hitler e com o chanceler alemão Franz von Papen para concluir um acordo secreto para fornecimento de fundos ao Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães. Estiveram presentes nesta reunião os dois irmãos Dulles. Os historiadores ocidentais evitam mencionar este facto. John Foster Dulles e Allen Dulles estavam ligados politicamente a advogados de Wall Street, serviçais do poder empresarial, que arrastaram os Estados Unidos para uma guerra nunca vista, que modelou decisivamente o mundo atual. Durante os anos 50, quando a Guerra fria estava no auge, estes dois irmãos, tremendamente poderosos, levaram os Estados Unidos para uma série de aventuras no exterior, cujos efeitos ainda estão a abalar o mundo. John Foster Dulles era secretário de Estado, enquanto o seu irmão, Allen Dulles, era diretor da Central Intelligence Agency (CIA).

Em 5 de março de 1933, realizaram-se eleições federais na Alemanha. Em consequência de donativos generosos vindos do exterior, o Partido Nazi no poder, liderado por Adolf Hitler, que fora nomeado chanceler a 30 de janeiro, registou um grande aumento de votos, surgindo de longe como o maior partido. Apesar disso, não conseguiu obter a maioria absoluta por direito próprio e foram precisos os votos do seu parceiro de coligação, o Partido Popular Nacional Alemão (DNVP), para uma maioria no Reichstag.

O novo governo alemão foi tratado de modo extremamente favorável pelos círculos dirigentes dos EUA e do Reino Unido. As democracias ocidentais mantiveram-se silenciosas quando Berlim se recusou a pagar as indemnizações. Hjalmar Schacht, presidente do Reichsbank e ministro da Economia, foi aos Estados Unidos em maio de 1933 para se encontrar com o presidente Franklin Delano Roosevelt e com importantes banqueiros da Wall Street. A Alemanha obteve um crédito de mil milhões de dólares. Em junho, durante uma visita a Norman em Londres, Schacht pediu um empréstimo de mais 2 mil milhões de dólares, assim como uma redução e eventual cessação do pagamento de antigos empréstimos. Assim, os nazis obtiveram uma coisa que os governos anteriores não tinham conseguido.

No Verão de 1934, a Grã-Bretanha assinou o Acordo de Transferência Anglo-Alemão que veio a ser uma das bases da política britânica em relação ao Terceiro Reich e, no final dos anos 30, a Alemanha passou a ser um parceiro comercial importante da Grã-Bretanha. O banco de Schroeder tornou-se o principal agente da Alemanha e da Grã-Bretanha e, em 1936, a sua filial de Nova Iorque fundiu-se com uma sociedade Rockefeller criando o banco de investimentos "Schroeder, Rockefeller and Co.", que o New York Times descreveu como "eixo económico-propagandista de Berlim-Roma".

O "Memorando Secreto" foi emitido por Adolf Hitler em agosto de 1936. O memorando foi enviado apenas a alguns altos líderes nazis e o seu conteúdo – informações sobre o Plano Quadrienal – foi formalmente anunciado aos fiéis do partido em setembro de 1936, num comício do partido em Nuremberga. O Memorando Secreto estabelecia que, no prazo de quatro anos, a Alemanha teria forças armadas aptas a combater e a sua economia seria mobilizada para satisfazer as necessidades da guerra. Como ele próprio reconheceu, Hitler contava com crédito estrangeiro como base financeira para o seu plano quadrienal, portanto isso não levantou o menor alarme.

Em agosto de 1934, o gigante petrolífero americano, Standard Oil, comprou 296 mil hectares de terras na Alemanha e construiu grandes refinarias de petróleo que forneceram aos nazis. Na mesma altura, os Estados Unidos forneceram secretamente à Alemanha o mais moderno equipamento para fábricas de aviões, que em breve iriam produzir a aviação alemã. A Alemanha recebeu um grande número de patentes das firmas americanas Pratt and Whitney, Douglas e da Bendix Corporation, e o bombardeiro de mergulho "Junkers-87" foi construído usando exclusivamente tecnologia americana. Quando a guerra rebentou, os monopólios agarraram-se à velha regra, experimentada e comprovada – nada de pessoal, só negócios. Em 1941,quando a II Guerra Mundial avançava a todo o vapor, o investimento americano na economia alemã totalizava 475 milhões de dólares: só a Standard Oil investiu 120 milhões, a General Motors 35 milhões, a ITT 30 milhões e a Ford 17,5 milhões de dólares.

O que motivou o interesse dos negócios ocidentais no crescente poder da Alemanha nazi? O objetivo era empurrar Hitler para leste e invadir a Rússia. A conquista de Lebensraum ("espaço vital") era, para Hitler e para o resto dos nacional-socialistas o objetivo mais importante da política externa alemã. Na primeira reunião com todos os principais generais e almirantes do Reich ("império"), em fevereiro de 1933, Hitler falou da "conquista de Lebensraum no leste e na sua implacável "germanização" como supremos objetivos da sua política externa. Para Hitler, a terra que proporcionaria suficiente Lebensraum para a Alemanha era a União Soviética que, para Hitler, era uma nação que possuía vastas terras agrícolas ricas e era habitada por Untermenschen (sub-humanos) eslavos, como Hitler os considerava, governados por um gangue de revolucionários judeus sedentos de sangue mas terrivelmente incompetentes, na opinião de Hitler. A seus olhos, esses povos não podiam ser germanizados; apenas o solo. Os anglo-saxões, com os corações cheios de ódio contra a Rússia, sentiram-se felizes quando Hitler anunciou as suas metas. Os seus corações também se encheram de alegria quando souberam que ele escrevera em Mein Kampf: "Nós, nacional-socialistas, traçamos conscientemente uma linha sob a direção da nossa política externa da guerra. Começamos onde terminámos há seiscentos anos. Acabamos com a perpétua marcha germânica para o sul e para o ocidente da Europa, e temos em vista as terras a leste. Pomos fim à política colonial e comercial anterior à guerra e entramos na política territorial do futuro. Mas se hoje falamos de novas terras na Europa, só podemos pensar principalmente na Rússia e nos estados fronteiriços que lhe estão sujeitos".

A política de apaziguamento foi implementada por países ocidentais nos anos 30 contra um pano de fundo de cooperação financeira e económica dos negócios anglo-saxões com a Alemanha nazi.

Em outubro de 1930, a Alemanha abandonou a Conferência para a Redução e Limitação de Armamentos de 1932-1934 (por vezes Conferência Mundial de Desarmamento ou Conferência de Desarmamento de Genebra) e a Liga das Nações. Em março de 1936, Hitler ordenou às suas tropas para reentrar abertamente no Renânia desmilitarizada ao abrigo do Tratado de Versalhes. Em março de 1938 foi anexada a Áustria. O Ocidente não reagiu; observava friamente o que estava a acontecer. Em dezembro de 1937, Hitler aprovou Fall Grün (Operação Verde), um plano militar alemão para ocupar a Checoslováquia. A execução desta operação foi cancelada depois de ter sido concluído o Pacto de Munique entre a Inglaterra, a França, a Itália e a Alemanha nazi, em 30 de setembro de1938. Mas Hitler nunca negou a sua intenção enquanto punha a sua assinatura ao lado das de Arthur Neville Chamberlain, de Édouard Daladier e de Benito Mussolini. A 21 de outubro, ordenou que se iniciassem os preparativos para o assalto final para anexação do resto da Checoslováquia e da Região de Klaipeda (também conhecida por Território de Memel) que fazia parte da Lituânia desde 1923. Em março de 1939, a Alemanha fez um ultimato à Polónia, exigindo a renegociação de Danzig. O Corredor Polaco (também conhecido por Corredor de Danzig, Corredor para o Mar ou Corredor de Gdansk) era um território situado na região da Pomerélia (Pomerânia de leste, anteriormente parte da Prússia ocidental) que permitia que a Segunda República da Polónia (1920-1939) tivesse acesso ao Báltico, dividindo assim o grosso da Alemanha da província da Prússia oriental. A cidade livre de Danzig (hoje a cidade polaca de Gdansk) ficou separada da Polónia e da Alemanha.

Mas Memel e Danzig não eram as principais missões que satisfariam o Führer, quando concretizadas. Ele via claramente que ninguém no Ocidente tinha a mínima intenção de interferir no seu caminho. Em abril de 1939 ordenou secretamente que a Polónia fosse atacada a 1 de setembro.

Com a ocupação da Checoslováquia, a política de duas frentes de Hitler tornou-se um segredo aberto para os políticos e diplomatas mais míopes. A União Soviética ainda acalentava a esperança de montar um sistema coletivo de segurança na Europa. Conseguiu que Londres e Paris iniciassem conversações para criar uma aliança deveras eficaz para conter o agressor. Mas as conversações mostraram que os parceiros ocidentais estavam relutantes em conter o movimento de Hitler para leste. Sir Alexander Cadogan (subsecretário permanente do Foreign Office) citou Chamberlain a dizer que preferia resignar ao cargo de primeiro-ministro do que concluir um acordo com os "soviéticos".

Quando a Alemanha atacou a Polónia e a II Guerra Mundial começou, os líderes ocidentais acusaram a União Soviética e a Alemanha de terem assinado o Pacto de Não-Agressão de 23 de Agosto de 1939. Apoiados por um coro de mestres da propaganda e de historiadores parciais, a dançar segundo a sua música, disseram que não fora a política ocidental de apaziguamento, mas o acordo URSS-Alemanha que provocara a guerra.

Os pupilos da sra. Nuland. 
Nem Londres, nem Washington, nem Paris querem ouvir a verdade sobre estes acontecimentos, apesar de terem assinado o veredito do Julgamento de Nuremberga que considerou a Alemanha culpada de graves crimes e violações do direito internacional e das leis da guerra. Podemos ver claramente o que está por trás disso. Os círculos políticos e financeiros dos Estados Unidos, da Grã-Bretanha e da França estiveram demasiado envolvidos no fomento do regime fascista e foram coniventes no que ele fazia enquanto se agarravam à política de apaziguamento. Incitaram Hitler a avançar para leste.

O Ocidente não reconhece a responsabilidade de ter apoiado o regime de Hitler, e recusa-se a reconhecer a sua culpa. Faz o melhor que pode para impedir o regresso da Rússia ao palco mundial como ator principal. Fomenta a úlcera do nazismo e da xenofobia que surge mesmo em frente aos seus olhos. Para esconder a verdade faz circular a história inventada por Washington e inculcada pela Europa sobre a "agressão russa" contra a Ucrânia. A Rússia é demonizada e provocada para uma intervenção direta a fim de passar a fazer parte do conflito interno da Ucrânia.
 
Vou repetir que a junta de Kiev não é a mesma liga que o regime de Hitler. Mas a história prova que a úlcera do nazismo, misturada com a substância venenosa da russofobia cresce rapidamente e, mais cedo ou mais tarde, ficará fora de controlo daqueles que a encorajaram. O slogan "Ucrânia acima de tudo" parece uma nova versão do "Deutschland über alles" ("Alemanha acima de tudo") da Alemanha nazi. É o que inspira os crimes praticados pelos dirigentes da Ucrânia na Novorússia.
 
01/setembro/2014

 

O original encontra-se em www.strategic-culture.org/... . Tradução de Margarida Ferreira.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/


aqui:http://resistir.info/europa/dragon_teeth_01set14_p.html 

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Sheople

OTAN pensa interditar a Rússia e a China de se desenvolverem


A faustosa cimeira da Otan em Newport não deu à luz, publicamente, anúncio de decisões bombásticas, mas é provável que elas tenham sido tomadas em segredo. Para impedir a Rússia e a China —assim como a Índia — de prosseguirem o seu desenvolvimento, a Otan pode contar com o terrorismo do Emirado islâmico, que finge condenar e combater.
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A cimeira de Newport (País de Gales) é a maior da Otan desde a de Praga em 2002. À época tratava-se de incluir novos estados da Europa Central e Oriental no seio da Aliança. Desta vez, trata-se de planear(planejar-Br) uma estratégia de longo prazo para conter o desenvolvimento da Rússia e da China, de modo a que não possam competir com os Estados Unidos [1].

Tudo o que se relacione com a Otan está sujeito a polémica. De facto, ela não cessou, desde a sua criação em 1949, de manipular os factos para se apresentar como uma aliança defensiva face ao expansionismo soviético, quando foi o Pacto de Varsóvia, criado seis anos mais tarde em 1955, que visou defender os Estados socialistas face ao imperialismo anglo-saxão (e não o inverso).

Além disso, ao contrário do seu nome, a Otan não é uma aliança entre iguais, mas sim a vassalização dos exércitos parceiros pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido. Com efeito, todos os exércitos membros desta pretensa «aliança» estão colocados sob o comando de um único oficial norte-americano – que além do mais é também comandante das forças americanas na Europa — enquanto o serviço secreto da Otan, o «Gládio», sob a autoridade conjunta de Washington e Londres, vela para garantir que jamais anti-imperialistas cheguem ao poder nos outros Estados-Membros [2]. Para o fazer a Otan não tem economizado, nem nos assassinatos políticos nem, mesmo, nos golpes de Estado (em França [3], na Itália, na Grécia, em Chipre e na Turquia).

Esta subserviência viola os princípios da Carta das Nações Unidas, já que os Estados- membros perdem a independência da sua política externa e da defesa. Ela foi posta em causa pela União Soviética e, depois, pelo presidente Charles De Gaulle, o qual, depois de ter enfrentado uma quarentena de tentativas de assassinato por parte da OAS (Organization Armée Secrete-ndT), financiada pela Otan, e se ter feito reeleger, anunciou a retirada imediata da França do comando integrado, e a saída de 64 mil soldados e pessoal administrativo Otan para fora do território francês.

Esta página da independência francesa cessou com a eleição de Jacques Chirac, o qual, poucos meses após a sua chegada ao Palácio do Eliseu, reintegrou a França no seio do Conselho de ministros e do Comité militar da Aliança. Ela completou-se, finalmente, com o regresso do exército francês, sob o comando norte-americano, decidido por Nicolas Sarkozy em 2009.

Finalmente, a subjugação dos Estados membros continuou com a criação de numerosas instituições civis, das quais a principal e mais eficaz é a União Europeia. Contráriamente a uma ideia generalizada, a actual União não tem grande coisa a ver com o ideal da unidade europeia mas, sim, por vocação fixar os membros da Otan fora da influência soviética, depois russa, em conformidade às cláusulas secretas do Plano Marshall. Trata-se, pois, de dividir a Europa em dois blocos. Não é por acaso que os escritórios da Otan, e as do executivo Europeu, estão sobretudo situados em Bruxelas, e só secundariamente no Luxemburgo. E, é para permitir o controle da União pelos anglo-saxões que esta se dotou de uma estranha Comissão, cuja principal actividade é a apresentação de «propostas» económicas ou políticas, todas pré- definidas pela Otan. É muitas vezes ignorado que a Aliança não é apenas um pacto militar, que ela intervém também no domínio económico. Antes do mais, a Otan é o primeiro cliente da indústria de defesa na Europa, depois ela determina normas para a sua licitação, isto é, por tudo o que diz respeito a vida quotidiana dos seus soldados. São estas normas que são propostas pela Comissão e, depois, adoptadas pelo Parlamento Europeu.

Actualmente três quartos do orçamento da Otan são assegurados pelos próprios Estados Unidos.

O futuro do projeto imperialista anglo-saxão


Desde o golpe de 2001 [4], os Estados Unidos planeiam um confronto com a China. Nesta perspectiva, o presidente Barack Obama anunciou o reposicionamento das suas forças no Extremo Oriente. No entanto, esta agenda foi interrompida pela recuperação económica, política e militar da Rússia, que se mostrou capaz, em 2008, de defender a Ossétia do Sul atacada pela Geórgia e, em 2014, a Crimeia ameaçada pelos golpistas de Kiev.

Por outro lado, o projeto de «escudo anti-mísseis» foi abandonado. Apresentado como um sistema de proteção face aos mísseis iranianos este «escudo» era, na realidade, um sistema ofensivo implantado ao redor da Rússia para a paralisar. Uma simples olhadela para um mapa-mundo permite constatar que os mísseis iranianos, se fossem lançados sobre os Estados Unidos, não passariam sobre a Europa central mas sim pelo caminho mais curto: o pólo norte. Depois de ter minado, durante mais de uma década, as relações entre Washington e Moscovo (Moscou-Br), o projeto foi abandonado porque é tecnicamente impossível destruir em vôo mísseis russos intercontinentais de última geração. Duma penada é o próprio princípio de «dissuasão nuclear» que é abandonado, face à Rússia, mesmo que continue a ser relevante para outros estados.

Ao mesmo tempo que executa a sua «reviravolta para a Ásia», Washington tem exacerbado as tensões entre a China e os países vizinhos, especialmente o Japão. A Otan, que historicamente vassaliza a Europa à América do Norte, abriu-se entretanto a parceiros asiáticos e da oceania, incluindo a Austrália e o Japão, através de contratos de associação. Como quem não quer a coisa, ela ampliou o seu campo de acção ao conjunto do globo [5].

Nesta época de restrições orçamentais, a Aliança, que não sofre com a crise, atribui- se a construção de uma nova sede social, em Bruxelas, pela faraónica soma de € 1 bilião (bilhão-Br) de euros. Deverá ser entregue no início 2017 [6].
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A questão do Emirado Islâmico

 

À preocupação de impedir a China e a Rússia de controlarem matérias-primas, suficientes, para terem capacidade de rivalizar com os Estados Unidos, juntou-se, durante o verão, a questão do Emirado Islâmico.
Uma intensa campanha dos média (mídia-Br) demonizou esta organização jihadista, cujos crimes não são novos, mas que ataca agora a população iraquiana. Nós explicamos repetidamente que o E.I. é uma criação ocidental e, que, apesar das aparências, a sua ação no Iraque está perfeitamente conforme ao plano dos E.U. de dividir este país em três estados distintos [7]. Para realizar um projeto que constitui um crime contra a humanidade, porque supõe uma limpeza étnica, Washington recorreu a um exército privado, o qual se deve condenar publicamente enquanto se apoia por trás da cortina.

Os Estados Unidos teriam tomado nota do perigo islâmico após o E.I. ter degolado dois dos seus nacionais, os jornalistas James Foley e Steven Sotloff. No entanto, um exame atento dos vídeos [8] leva a pensar que eles não são autênticos. O problema havia já surgido com o E.I. quando, em 2004, supostamente teria já degolado Nick Berg [9].

Nós também, muitas vezes, sublinhamos que o E.I. se distinguia de grupos jihadistas anteriores, tanto pelo seu serviço de comunicação como pelos seus administradores civis, capazes de gerir os territórios conquistados. Trata-se, pois, de um grupo feito para durar. Como Alfredo Jalife-Rahme mostrou, o Califado, mesmo se ele opera, actualmente, principalmente na Síria e no Iraque, foi concebido para atiçar o fogo, a longo prazo, contra a Rússia, a Índia e a China [10].

Mesmo não tendo a questão do Emirado Islâmico sido, pois, adicionada à ordem do dia, anti-russa e anti-chinesa, já estava em cima da mesa. Além disso, não querendo arriscar ver um Estado membro expressar as suas dúvidas sobre esta mascarada, Washington, deslocou o debate para a margem da cimeira. O presidente Obama reuniu outros 8 estados mais a Austrália, (que não é membro da NATO, mas apenas um associado), para afinar o seu plano de guerra. Mais tarde, foi decidido juntar a Jordânia a este dispositivo.

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Conclusões da Cimeira

 

A cimeira despachou, numa breve manhã, a questão da sua longa presença no Afeganistão. Certo, a Otan retirará, como previsto, as suas tropas de combate até ao fim do ano, mas vai manter o controle do Exército afegão e da segurança nacional. A cimeira até se deu ao luxo de chamar os dois candidatos à presidência do Afeganistão ao compromisso de assinar, imediatamente, as exigências de imunidade penal dos Estados Unidos, quando esta eleição é organizada, e escrutinada, pelas forças norte- americanas. Desde logo, não deverá espantar-se de não ser considerado eleito o candidato que não atender a este apelo.

Tal como se agita uma capa vermelha para provocar um touro, a cimeira decidiu estender o controle da Otan sobre a parte oriental da Europa, (incluindo a Ucrânia), só para ver qual será a reação russa. Mas não foi mais longe. A Acta do Acordo Otan- Rússia não foi revogada e a Ucrânia não foi integrada na Aliança. Todos preferiram discutir um possível cessar-fogo entre Kiev e o Donbass.

Além disso, a cimeira dotou a Aliança de duas novas ferramentas: um serviço para a guerra cibernética, para combater os hackers militares chineses, e uma Força de reacção rápida de 4.000 homens, saídos de 7 países, colocados sob comando britânico. Finalmente, a cimeira iniciou o processo de adesão do Montenegro e, é claro, instou os Estados membros a aumentar os seus gastos militares.

 

Algumas observações


Apesar das acusações do governo ucraniano —segundo o qual a Rússia teria invadido o seu país ... mas, com apenas 1.000 homens, que ninguém viu como bem observa Giulietto Chiesa [11]—, a cimeira não decidiu entrar em guerra contra Moscovo e contentou-se com gestos simbólicos. Não se compreende, pois, o porquê de tanta ostentação em Newport.

A menos que as coisas importantes tenham sido decididas à porta fechada, aquando da reunião de chefes de Estado, de sexta-feira 5 de setembro, não parece que as guerras secretas tenham sido abordadas na cimeira, mas sim, unicamente, à margem da cimeira, apenas com alguns aliados. Já em 2011, a Otan tinha violado os seus próprios estatutos não reunindo o Conselho do Atlântico, antes de bombardear Trípoli.

Parecia, com efeito, impossível, que todos concordassem em dedicar-se a uma tal carnificina. Os Estados Unidos e o Reino Unido reuniram-se, portanto, em segredo, com a França, a Itália e a Turquia, em Nápoles, para planificar (planejar-Br) um ataque que causou, pelo menos, 40.000 mortes civis numa semana.

O comunicado final é de uma hipocrisia extrema [12] : a crise ucraniana é tratada como uma agressão russa, sem nunca mencionar o golpe de Estado da praça Maidan, nem a instalação de um governo incluindo nazis.

A crise síria é apresentada como um conflito entre uma oposição moderada que protege as minorias e, por um lado, a tirania do regime de Bashar al-Assad e, por outro, os grupos extremistas, sem nunca fazer menção que este regime sírio é uma República, enquanto a oposição moderada é paga pelas ditaduras do Golfo, nem que a crise foi despoletada por uma guerra secreta franco-britânica, conforme o exposto nos anexos ao Tratado de Lancaster House, nem que o presidente Assad acaba de ser re-eleito por 63 % do eleitorado, e que a República Árabe Síria é a única que tem protegido, não apenas as minorias, mas todos os seus cidadãos, incluindo a maioria sunita. Cínicamente, o comunicado pretende afirmar que a Aliança tem protegido o povo líbio, de acordo com as resoluções 1970 e 1973, quando ela utilizou essas mesmas resoluções para mudar o regime, matando 160.000 líbios e mergulhando o país no caos.

No entanto, em última análise, no decurso dos últimos anos, a Otan conseguiu atingir os seus objectivos no Afeganistão, no Iraque, na Líbia e no Nordeste da Síria, quer dizer, única e exclusivamente, em países ou regiões organizados em sociedades tribais. Ela não parece, pois, apta a entrar em conflito directo com a Rússia e a China.
Tradução
Alva



[1] «Le sommet de l’Otan : guerre sur deux fronts » (Fr-«Cimeira da Otan: guerra em duas frentes» -ndT), por Manlio Dinucci, Il Manifesto (Itálie), Réseau Voltaire, 4 septembre 2014.
[2] Ler “Les armées secrètes de l’Otan” (Fr-«Os exércitos secretos da Otan -ndT), pelo professor Daniele Ganser, disponível em episódio no sítio do Rede Voltaire.
[3] Sobre os golpes de Estado de 1958 e de 1961, ver (1) «Quand le stay-behind portait De Gaulle au pouvoir » (Fr-«Quando o stay-behind trouxe De Gaulle ao poder» -ndT) e (2) «Quand le stay-behind voulait remplacer De Gaulle (Fr-«Quando o stay-behind quis substituir De Gaulle -ndT»), por Thierry Meyssan, Réseau Voltaire, 27 août et 10 septembre 2001.
[4] Lembramos que a 11 de setembro de 2001, enquanto o mundo estava hipnotizado pelos ataques em Nova York e Washington, o presidente George W. Bush foi ilegalmente afastado do cargo, no âmbito do programa de «continuidade do governo». Só o retomou no final do dia, depois do seu país ter mudado radicalmente a sua política externa e de defesa. Durante esse dia todos os membros do Congresso, e seus funcionários, foram colocados pela autoridade militar sob residência vigiada no complexo Greenbrier (West Virgínia) e em Mount Weather (Virgínia).
[5] « Ofensiva global NATO», por Manlio Dinucci, Il Manifesto, Rede Voltaire, 11 de Agosto de 2014 .
[6] «1 milliard d’euros pour le nouveau siège de l’Otan» (Fr-«1 Bilião de euros pela nova sede da Otan-ndT»), Réseau Voltaire, 29 janvier 2014.
[7] Ver nomeadamente (1) «O «Curdistão», versão israelita»,; (2) « John McCain, chefe de orquestra da "primavera arabe", e o Califa»; (3) «A grande reviravolta saudita», por Thierry Meyssan, Rede Voltaire, 14 de julho, 18 de agosto e 1 de setembro de 2014,
[8] «Foley video with Briton was staged, experts say» (Ing-«Vídeo de Foley com britânicofoi encenado, afirma perito»-ndT), Deborah Haynes, The Times, 24 de agosto de 2014; «Foley murder video ’may have been staged’» (Ing-«Vídeo de assassinato de Foley “pode ter sido encenado”-ndT»), Bill Gardner, The Daily Telegraph, 25 de agosto de 2014. E sobre a identidade de Sotloff, ver: «Le journaliste décapité était un Israélien formé dans une antenne du Mossad» (Fr-«O jornalista decapitado era um israelita treinado numa secção da Mossad»-ndT), por Hicham Hamza, Panamza, 3 septembre 2014.
[9] «L’affaire Nicholas Berg» (Fr-«A história Nicolas Berg» -ndT), por Thierry Meyssan, Réseau Voltaire, 18 mai 2004.
[10] « ¿Yihad global contra los BRICS?», por Alfredo Jalife-Rahme, La Jornada (México), Red Voltaire, 18 de julio de 2014.
[11] «Os mentirosos em pânico na Ucrânia», por Giulietto Chiesa, Megachip (Itália), Rede Voltaire, 7 de Setembro de 2014.
[12] « Déclaration finale du sommet de l’Otan », Réseau Voltaire, 5 septembre 2014.

aqui:http://www.voltairenet.org/article185238.html

sábado, 6 de setembro de 2014

Obama, a máscara do fariseu


por Miguel Urbano Rodrigues 
 
'. Assente a poeira do tempo atual, o que ficará na Historia da passagem pelo poder de Barack Obama no início do seculo XXI quando o fim da hegemonia dos EUA começava a ser transparente?

Creio que a imagem do homem e do estadista será muito negativa. Admito que será responsabilizado pelas gerações futuras no mundo e no seu próprio país pelo agravamento de uma estratégia imperial criminosa que empurrou a humanidade para uma crise civilizacional que ameaça a sua continuidade.

Mas nestes dias, nos países da União Europeia, a imagem de um Obama inexistente foi tão profundamente assimilada por milhões de pessoas, de Lisboa a Budapeste, de Londres a Varsóvia, que é muito difícil persuadir a maioria de que o atual presidente dos EUA é o oposto do cidadão exemplar a quem a Academia de Oslo atribuiu o Prémio Nobel da Paz.

Uma campanha massacrante, de âmbito mundial, fabricou e difundiu a imagem de um Obama disposto a mudar quase tudo nos EUA e a promover a paz no mundo, um político de matizes revolucionários.

O senador Barack Obama chamou a atenção ainda jovem por ser um homem muito inteligente, ambicioso, grande orador. Candidato pelo Partido Democrata soube, em plena crise, capitalizar o descontentamento da maioria do eleitorado, com um discurso progressista que sintetizou as aspirações dos mais pobres, da classe media, duramente atingida pelo escândalo dos subprimes, das minorias raciais. Atacou Wall Street, responsabilizou a Banca e as grandes transnacionais, pelos sofrimentos das vítimas da engrenagem. A sua famosa frase yes, we can (sim, nós podemos) as admoestações ao Congresso, as denúncias da corrupção na burocracia de Washington, as críticas às guerras do Iraque e do Afeganistão, a promessa de uma política diferente, orientada para a Paz foram decisivas para a grande vitória eleitoral que alcançou.

Uma onda de esperança varreu os EUA.

O fato de ser negro contribuiu também para que os intelectuais progressistas, incluindo muitos comunistas, admitissem que o país poderia estar em vésperas de uma viragem.

Entretanto, para surpresa da maioria, a sua campanha foi generosamente financiada pelo grande capital. Wall Street conhecia o homem; as suas críticas e promessas e a sua oratória populista não impressionaram a Finança.

Os senhores do capital agiram com inteligência.

Instalado na Casa Branca, Obama esqueceu, engavetou ou violou a maioria dos compromissos assumidos.

Não encerrou o Presidio de Guantánamo, manteve legislação repressiva de Bush, promulgou uma lei que na prática autoriza a tortura e outra sobre a prisão de suspeitos de ligação com presumíveis terroristas (diploma que no dizer de Michel Chossudovsky confere ao Estado uma caracter totalitário), e chamou para o governo e cargos da sua confiança políticos e economistas intimamente ligados à engrenagem de Wall Street.

UMA POLITICA EXTERNA IMPERIAL E AGRESSIVA

A nomeação de Hillary Clinton para o Departamento de Estado foi o prólogo de uma política internacional profundamente reacionária.

A esposa do ex-presidente conseguiu o que se tinha por impossível. Imprimiu à sua ação um estilo mais agressivo e belicista do que o de Condoleeza Rice.

Obama apoiou a sua defesa do sionismo, as suas críticas desabridas à China, a sua indisfarçável hostilidade ao mundo islâmico.

Uma das primeiras decisões estratégicas do Presidente foi o envio de mais de 100 000 militares para o Afeganistão. Não hesitou em apresentar como prioridade a vitoria na guerra de agressão ali iniciada por Bush filho. O resultado negou o projeto. Posteriormente, o fracasso de sucessivas ofensivas – dois comandantes regionais foram demitidos – desembocou no compromisso de retirar todas as tropas estadunidenses ate final de 2014. Mas, afinal, vão ali permanecer muitos milhares de soldados.

Hoje, as forças que combatem no país os ocupantes norte-americanos e a NATO controlam quase todo o território com exceção de Kabul e das principais cidades.

Quanto à produção de opio aumentou muitíssimo desde a invasão em 2001.

A agressão à Líbia, também concretizada invocando a defesa dos direitos humanos e o amor pela liberdade e a democracia, foi na realidade uma guerra imperial, preparada com antecedência com características genocidas. De acordo com o projeto, viabilizado pelo Conselho de Segurança da ONU, o seu desfecho após a destruição do país e o assassínio de Muamar Khadafi seria um "regime democrático", tutelado por Washington, pelos aliados da União Europeia e pelas grandes empresas petrolíferas.

Mas as coisas não correram de acordo com o desejo de Obama.

Os governos fantoches instalados pelos ocupantes perderam rapidamente o controlo do país. A situação existente é anárquica, com diferentes milícias envolvidas em combates fratricidas. A desordem atingiu tais proporções que uma dessas milícias tribais ocupou em Trípoli edifícios da Embaixada dos EUA cujo pessoal diplomático havia prudentemente abandonado o país.

No Iraque, uma campanha estrondosa anunciou ao mundo que, cumpridos os objetivos da invasão do pais, e instalado em Bagdad ´"um regime democrático estável", os EUA, honrando uma promessa, tinham retirado, finalmente todas as tropas de combate.

Outra mentira grosseira. Dezenas de milhares de mercenários, controlados por empresas mafiosas dos EUA, substituíram as forças do Exercito.

A situação em Bagdad e nas províncias é caótica. As últimas eleições, como as anteriores, foram uma farsa. Mas a recusa do primeiro-ministro Nouri Al Malik em abandonar o poder gerou uma crise, marcada por cenas próprias de um teatro de absurdo que só findou com um ultimato de Washington. A violência é endémica em todo o território.

Na Síria, Obama tentou repetir, recorrendo a um método diferente, a "operação" desestabilizadora que na Líbia tinha por objetivo o derrubamento do regime.

A fase inicial foi uma campanha mediática montada a nível mundial para demonstrar que o país estava submetido a uma feroz ditadura. O presidente Bashar al Assad foi demonizado, apresentado como um monstro responsável por crimes contra a humanidade.

A segunda fase foi o desencadeamento de uma "rebelião". Grupos de mercenários, armados e financiados pelos EUA, por Israel e pela Turquia, atacaram o exército, destruíram instalações públicas, ocuparam cidades e aldeias.

Crimes cometidos pelos "rebeldes" foram atribuídos pelos governantes e pelos media dos EUA e da União Europeia às forças armadas sírias.

Obama chegou a anunciar num discurso inflamado, que tomara a decisão de bombardear a Síria para instalar no país a democracia e as liberdades

Mas o contexto diferia do líbio. A grande maioria do povo sírio e o seu exército infligiram severas derrotas às organizações terroristas, tuteladas por Washington. E a firmeza da Rússia forçou Obama a recuar.

Essa derrota política coincidiu com outra. O governo norte-americano, que semanas antes multiplicava as ameaças ao Irão, e aprovava pacotes de sanções por Teerão não ceder às suas exigências, mudou subitamente de tática e discurso e decidiu abrir negociações com o governo do presidente Hassan Rohani .

OBAMA E O CAOS UCRANIANO

Numa demonstração de irresponsabilidade, Barack Obama tomou iniciativas na frente europeia que agravaram as relações com a Rússia, já muito tensas, no momento em que no Medio Oriente acumulava derrotas.

O cenário escolhido para o confronto foi a Ucrânia. Não soube extrair lições do fracasso georgiano.

Tudo começou no início de Fevereiro com manifestações em Kiev tendentes a desestabilizar o país. Na Praça Maidan grupos paramilitares, financiados pela CIA provocaram distúrbios, assaltaram ministérios, destruíram edifícios públicos, entraram em choques armados com a polícia.

Washington atingiu o objetivo. O presidente legítimo, Viktor Ianukovich – aliás um aventureiro corrupto, tal como a ex. primeira ministro Timochenka, da ultradireita – foi deposto a 24 de Fevereiro.

Uma Junta de políticos fascizantes, criada ad hoc, assumiu interinamente o governo do país.

Os EUA festejaram, e eleições promovidas a correr, levaram à Presidência o multimilionário Petro Poroshenko, conhecido pela alcunha de "rei do chocolate".

A farsa democrática foi recebida com reservas por alguns dos aliados europeus dos EUA.

Ficou claro que o Parlamento e a Junta são controlados por partidos de extrema-direita, alguns dos quais exibem com orgulho símbolos nazis. A caça aos comunistas foi oficializada.

Ucranianos que lutaram nas SS hitlerianos contra a União Soviética são agora guindados a título póstumo a heróis nacionais.

No leste do país, em províncias onde a maioria da população é russófona, a resistência encontrada pelo governo fantoche de Kiev foi imediata e firme. Exigiam garantias de uma ampla autonomia.

Poroshenko não soube extrair dos acontecimentos da Crimeia, as conclusões que se impunham.

Com o aval de Washington e confiando em promessas de uma ajuda financeira generosa, garantiu que iria submeter os "rebeldes" em poucos dias.

A bravata foi logo desmentida. As ofensivas do exército de Kiev, apoiadas por brigadas de voluntários que se assumem como nazis e anti russos, foram derrotadas.

A própria imprensa dos EUA reconhece que a deserção de solados e oficiais é maciça.

No momento em que escrevo – início de Setembro – a situação militar, politica, económica e social é catastrófica.

Os insistentes apelos para ajuda militar e o pedido de ingresso na NATO, formulado pela Junta, expressam bem o desespero da camarilha instalada no poder.

As declarações do presidente dos EUA e do secretário de Estado John Kerry - um republicano muito conservador e de mediocridade inocultável - deixam transparecer a confusão existente em Washington.

Obama esclareceu que no momento não tem uma estratégia definida para a região.

Não pode confessar que todas as opções são negativas.

Os EUA reforçaram a presença militar nas repúblicas Bálticas e na Polonia e vão instalar cinco novas bases militares nos países do Leste. Simultaneamente, a União Europeia escolheu para presidente do seu Conselho de Ministros, como sucessor do belga Rompuy, o polaco Donald Tusk, um anti russo assumido que na juventude militou no Solidarnosc de Lech Walesa.

Mas as arrogantes ameaças de Obama à Rússia são na realidade tiros de pólvora seca. As sanções prejudicam sobretudo a União Europeia.

O presidente sabe aliás que as acusações de participação de unidades militares russas nas províncias separatistas ucranianas são falsas.

Os generais do Pentágono consideram impensável o envolvimento dos EUA na Ucrânia numa guerra convencional contra a Rússia. E o recurso a armas nucleares, mesmo táticas, seria provavelmente o prólogo de uma tragédia planetária.

A desorientação que se instalou na Casa Branca, no Pentágono e no Departamento de Estado justifica-se.

No auge da crise da Ucrânia, a situação existente no Iraque e na Síria agravou-se perigosamente.

A proclamação do Califado em territórios do Crescente fértil por uma seita jihadista que se auto intitula Estado Islamico-EI desencadeou o pânico em Washington e nas capitais europeias. Surgindo repentinamente como vendaval de violência, essa organização de jihadistas fanáticos, liderada por Abu Bakr Al Baghadi (que afirma ser descendente do profeta Maomé) ocupou em poucas semanas uma área do Nordeste da Síria e quase um terço do Iraque. Infligiu derrotas demolidoras ao exército iraquiano e invadiu territórios do Curdistão autónomo, aliado dos EUA.

A situação, tal como se apresenta lembra uma tragicomédia.

Reagindo ao SOS lançado pelo novo primeiro ministro de Bagdad, Haida al Abadi, homem de confiança da Casa Branca, os EUA decidiram realizar bombardeamentos cirúrgicos, alegando agiam para evitar o extermínio dos Yazidis, uma minoria de religião pré-islâmica (serão no máximo uns 300 000) com rituais do mazdeísmo persa.

Omitiram os media que os Yazidis foram bombardeados em 2007 em circunstâncias mal esclarecidas e que na época o governo dos EUA ignorou o assunto.

Obama informou, entretanto, que os EUA não enviarão tropas terrestres para a região.

Os monstruosos atos de barbárie praticados pelo Estado Islâmico – já degolaram dois jornalistas americanos – provocaram a justa indignação de milhões de muçulmanos em todo o mundo. Os governos do Irão e da Síria tornaram pública a sua disponibilidade para combater os criminosos do fantasmático Califado.

A posição dos EUA, enfrentando uma situação de pesadelo, inimaginável há poucos meses, é, portanto, mais do que incómoda, dilemática. Todas as possíveis opções – repito – são negativas.

Não podem aceitar a ajuda militar da Síria, do Irão e de outros Estados inimigos que definem como terroristas e formam aquilo a que chamam "o eixo do mal".

Não podem também reenviar tropas da US Army para o Iraque depois de terem utilizado a sua retirada do país como prova do cumprimento da sua missão "democrática e civilizadora".

O que fazer então?

Barack Obama não tem resposta para a pergunta.

Acredito que os historiadores que identificam na Historia a mãe das ciências chegarão no futuro à conclusão de que o Obama foi o mais nocivo, hipócrita e perigoso para a humanidade de todos os Presidentes do país.

 
Vila Nova de Gaia, 3 de Setembro de 2014

 

O original encontra-se em http://www.odiario.info/?p=3389

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ . 


aqui:http://resistir.info/mur/mur_obama_05set14.html 

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