quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Geopolítica da guerra contra a Síria e contra o Daesh

Nesta análise, nova e original, Thierry Meyssan expõe as razões geopolíticas do fracasso da guerra contra a Síria e os objectivos reais da pretensa guerra contra o Daesh(E.I.-ndT). Este artigo é particularmente importante para compreender as relações internacionais actuais e a cristalização dos conflitos no Levante (Iraque, Síria e Líbano).


aqui:http://www.voltairenet.org/article185670.html

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Em 2015 os portugueses pagarão mais €2.006 milhões de impostos e as empresas menos €892 milhões

Marx chamava-lhe um "figo"

Conseguirá Washington fazer limpar etnicamente o Norte da Síria?

Em Kobané e na sua região, onde mais de 300 000 Curdos sírios estão ameaçados de extermínio pelo Emirado islâmico, todos podem avaliar a duplicidade da Otan. Enquanto o comandante em chefe da Coligação americana declara lutar contra o Emirado islâmico, um membro da Otan, a Turquia, fornece-lhe a assistência militar e médica de que necessita, impede os civis de fugir e os combatentes do PKK de vir em seu socorro.

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No teatro grego antigo, todos os espectadores conheciam de antemão o fim trágico da peça. As personagens, cegas pelos Deuses, prosseguiam por actos aquilo que pretendiam negar por palavras. Mas, o coro revelava aos espectadores os projectos do Destino.

A tragédia que se joga em Kobané (em árabe Aïn al-Arab) foi escrita para se concluir pelo genocídio anunciado de 300. 000 Curdos sírios. O Emirado Islâmico já tomou o contrôlo de vários quarteirões da cidade e de numerosas aldeias em redor. Se o Exército Árabe Sírio não conseguir franquear as linhas do Emirado islâmico para os salvar, eles serão todos massacrados.

A população curda é defendida pelo PYG (partido autonomista apoiante da República árabe síria), mas a Turquia fechou a sua fronteira de modo a que os civis não possam fugir e que os reforços do PKK turco (partido independentista ligado ao PYG) não possam chegar.

As forças curdas são comandadas por Mahmoud Barkhodan, assessorado por Narine Afrine (de seu verdadeiro nome Mayssa Abdo). A escolha de uma mulher como comandante-adjunto semeou o pânico no seio do Emirado islâmico, já que os jihadistas estão convencidos que eles não poderão entrar no paraíso se forem mortos por uma mulher.

Face à resistência curda, o Emirado islâmico transferiu o grosso da suas forças para a Síria para esmagar Kobané.

Segundo a nossa análise, muitas vezes repetida nestas colunas e em numerosas emissões de rádio e de televisão na América latina, na Rússia e no mundo muçulmano, o Emirado islâmico é uma criação dos Estados Unidos, encarregue de limpar etnicamente a região de maneira a este poder remodelá-la. Todos podem constatar que as declarações tranquilizadoras dos dirigentes norte-americanos são desmentidas pela sua acção militar no terreno, não contra mas sim em favor do Emirado islâmico.

A Coligação (Coalizão-Br) procedeu a seis vagas de bombardeamentos em Kobané. Ela nunca visou as posições do Emirado islâmico e não lhe causou nenhuma perda. Ela mantêm, pelo contrário, à distância, mais ao Sul e ao Oeste, o Exército árabe sírio que não consegue abrir uma brecha para ir salvar a população.

O Governo regional do Curdistão iraquiano (pró-Israelita) recusa ajudar os Curdos sírios, com os quais está em conflito desde há muito. Ele argumenta não ter acesso directo à Síria para justificar a sua passividade.
Membro da Otan, a Turquia recusa dar assistência às populações ameaçadas de genocídio, enquanto os Curdos sírios não renunciarem ao seu estatuto autónomo na Síria e não se juntarem ao combate da Otan contra a República árabe síria, e ao seu presidente eleito Bachar el-Assad.

Segundo os combatentes do PYG, a Turquia fornece quotidianamente armas ao Emirado islâmico e trata os seus feridos nos seus hospitais, enquanto eles próprios têm as maiores dificuldades em encaminhar os seus feridos curdos para a Turquia, afim de aí poderem ser tratados.

Na Turquia, o grupúsculo islamista curdo Hür Dava Partisi (antigamente denominado Hezbolla, de modo a criar uma confusão com a resistência libanesa) entrou em guerra contra o PKK (partido curdo maioritário no país). O Hüda-Par (abreviatura do Hür Dava Partisi) é apoiado, por trás da cortina, pelo AKP do presidente Recep Tayyip Erdoğan, tanto para lutar contra o independentismo curdo como para apoiar os Irmãos muçulmanos.

A 30 de agosto, um chefe do Emirado islâmico, Hikmet, e dois dos seus guarda- costas foram mortos pelo PKK, em Istambul, onde estavam alojados a convite do Hüda-Par e sob a protecção da polícia turca.
Num SMS enviado a todos os seus militantes, o PKK deu instruções para a eliminação física de todos os membros du Hüda-Par, acusados de trabalhar para o governo turco e de ajudar o Emirado islâmico.

Estabelecendo uma comparação com o massacre de Srebrenica (Iugoslávia, 1995), o enviado especial da ONU para a Síria, Staffan de Mistura, responsabilizou a 10 de outubro a Turquia em caso de queda de Kobané, e de genocídio da sua população. Ele exigiu, em vão, que a Turquia abra a sua fronteira.

O chefe da Coligação norte-americana, o general John Allen, também apelou, publicamente, à Turquia para abrir a sua fronteira e impedir o genocídio dos curdos de Kobané. Todavia, não parece que a recusa turca tenha alterado as relações entre Washington e Ancara, pelo contrário.

O novo ministro das Relações Exteriores da Turquia, Mevlüt Çavuşoğlu, afirmou que o seu país não iria intervir enquanto a Coligação formada pelos Estados Unidos contra o Emirado Islâmico (da qual a Turquia faz parte) não se decidir a impôr uma zona de exclusão aérea no norte da Síria, e não se fixar como objectivo o derrubar a República Árabe da Síria.

Além disso, o parlamento turco autorizou o governo a combater tanto o Emirado Islâmico como o PKK.

Ao receber Mr. Çavuşoğlu em Paris, o ministro dos Negócios Estrangeiros(Relações Exteriores-Br) francês, Laurent Fabius, apoiou a ideia da criação de uma «zona de segurança» no Norte da Síria, sem precisar exactamente o que queria dizer com isso, mas sublinhando a sua concordância com a Turquia.

A França, igualmente membro da Otan, fornece directamente armas ao Governo regional separatista do Curdistão iraquiano, sem autorização do Governo Central iraquiano. O Governo regional do Curdistão iraquiano expandiu o seu território em 40%, de maneira coordenada com o Emirado Islâmico, quando este se apoderou da zona árabe sunita iraquiana. Em anos anteriores a França apoiava politicamente o PKK turco (pró-Sírio), sendo que agora ajuda militarmente o Governo regional do Curdistão iraquiano (pró-Israelita).

Actualmente, o espaço aéreo no norte da Síria é controlado pela coligação liderada pelos Estados Unidos. O Emirado Islâmico dispõe de aviões (Mig.s roubados à Síria e F-15 roubados ao Iraque), mas tem poucos pilotos e pessoal técnico para os utilizar. A criação de uma zona de exclusão aérea pela Otan no território da Síria, além de constituir uma violação flagrante do direito internacional, não teria, pois, nenhum impacto sobre os combates em curso.

A ideia da criação de uma zona de exclusão aérea na Síria foi promovida por Israel, que aí vê um meio de desmembrar, a prazo, este país, copiando o modelo do que foi feito de 1991 a 2003 no Iraque (em proveito do actual Governo regional do Curdistão). No entanto, a única comparação válida deverá ser feita com a zona tampão imposta em 1983, durante a guerra civil libanesa. Sentida como uma recolonização aberta do Líbano, ela transformou-se num fiasco após a eliminação de 300 soldados norte-americanos e franceses.
Na Turquia, o PKK multiplica as manifestações para forçar o governo Erdoğan a reabrir a fronteira. Já foram mortas 31 pessoas pela polícia durante a repressão destas manifestações.

A única questão é a de saber quanto tempo, ainda, os Curdos sírios poderão resistir sozinhos aos jihadistas armados e financiados pelos Estados Unidos, de acordo com um voto do Congresso, reunido em sessão secreta em janeiro 2014. Por outras palavras: Em quanto tempo é que Washington e os seus aliados conseguirão fazer limpar etnicamente o norte da Síria pela sua criatura, o Emirado Islâmico?
Tradução
Alva



aqui:http://www.voltairenet.org/article185639.html

France24 tenta negar a foto de John McCain com Ibrahim al-Baghdadi

Não há pior cego que aquele que não quer ver. France24 tenta abafar o incêndio e convencer os telespectadores que as nossas informações, sobre o apoio dado por Washington ao Emirado Islâmico, são falsas. Não sómente, a sua argumentação não é convincente, como ela revela a sua má fé.

| Washington, D. C. (Estados Unidos)

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Nesta fotografia, difundida em maio de 2013, para provar o seu encontro com o Estado-maior do Exército Sírio Livre, vemos o senador McCain a conversar com um indivíduo de múltiplas identidades: procurado pelo departamento de Estado dos Estados Unidos sob o nome Abu Du’a, pelas Nações Unidas sob o nome de Ibrahim al-Baghdadi, e pertencendo ao estado- maior do ESL sob o nome de Abu Youssef.

Na sua crónica "Les Observateurs (os observadores -ndT), a France24 desmente o apoio dado pelo senador John McCain ao futuro califa Ibrahim [1]. No entanto, o seu raciocínio limita-se a dizer que este escândalo é impossível, porque é muito escandaloso.

Segundo o canal de televisão público francês, o senador McCain teve, em maio de 2013, «um encontro em Azaz, na Síria, com combatentes da facção do Exército Livre da Síria (ESL) "Tempestade do Norte", apresentada pelos especialistas como uma brigada laica pró-ocidental. Difícil, pois, imaginar Baghdadi nas fileiras desta brigada sabendo que os principais inimigos dos combatentes sírios eram, na época, os jihadistas do Estado Islâmico no Iraque e no Levante, tornada agora a organização do Estado islâmico.»
Problema: contrariamente às alegações da cadeia Tv, em maio de 2013, o ESL (Exército Sírio Livre -ndT) tinha excelentes relações com o Estado islâmico no Iraque e no Levante. Os dois grupos só entraram em conflito armado, em janeiro de 2014.

De maneira a apresentar a sua visão das coisas como uma evidência partilhada por quase todos, o canal trata o nosso trabalho como uma simples afirmação «na Internet». Pouco importa, pois, o número de sítios que o têm retomado no decurso dos últimos três meses, pouco importa o número de jornais em papel que o retomaram, pouco importa o número de canais de televisão que o retomaram. A maioria destes média (mídia-Br) são publicados em países que não chamam a nossa atenção, da Venezuela à Rússia.

De passagem, Thierry Meyssan é falsamente descrito como tendo dito que « o 11 de setembro foi orquestrado pelos Estados Unidos» (sic), quando, precisamente, se tratou para ele de um golpe orquestrado por uma facção do complexo militar- industrial e não de uma decisão da administração Bush, e muito menos de um atentado islamita [2].

Para adormecer o espírito crítico dos seus telespectadores, o canal enquadra o seu tratamento desta informação por outros assuntos que destilam, eles próprios, pura propaganda, para os atribuir assim, a todos, aos «teóricos da conspiração».

O canal termina a sua reportagem atribuindo, nisto, toda a desinformação ao Irão (Irã- Br). Novamente má malha: a afirmação segundo a qual Edward Snowden teria difundido revelações comprometedoras sobre o califa não Ibrahim não vêm do Irão, mas, pelo contrário, do jornal quotidiano do Barein [3]. Nós, fomos os primeiros a denunciar esta fraude, precisamente no final do artigo consagrado à fotografia de John McCain.

Nós escrevemos:
 
«Numerosa intox (desinformação-ndT) circula a propósito do Emirado islâmico e do seu califa. O quotidiano Gulf Daily News pretendeu que Edward Snowden teria feito revelações a este propósito. Ora, verificação feita, o antigo espião norte-americano não publicou nada sobre este assunto. O Gulf Daily News é publicado no Barein, um estado ocupado por tropas sauditas. O artigo visou apenas limpar a Arábia Saudita e o príncipe Abdul Rahman al-Faisal das suas responsabilidades». [4].
Desde o início da crise síria, a France24 escolheu fabricar falsas informações para induzir os seus telespectadores em erro, e participar no esforço de guerra. Assim, a 7 de junho de 2011, o canal transmitia a voz de uma pessoa pretendendo ser a embaixatriz da Síria em Paris, Lamia Chakkour, anunciando a sua demissão e acusando a República árabe Síria de crimes contra a humanidade [5]. Tratava-se, na realidade da voz de uma jornalista da cadeia, falando a partir de um outro estúdio. Quando a verdadeira embaixatriz pediu uma rectificação, responderam-lhe que tinham acabado, exactamente, de lhe dar a palavra. Durante todo o dia, os canais aliados (BBC, Sky, CNN, Al-Jazeera e Al-Arabiya) transmitiram a notícia da sua «demissão». O Quai d’Orsay telefonou aos embaixadores sírios no mundo para os pressionar «igualmente» à demissão, sem sucesso. Por fim, a Sra. Chakkour conseguiu falar em canais francófonos não-franceses, depois na BFM TV. A France24 difundiu, então, apenas um desmentido do seu enredo.

No caso Chakkour, não se tratava de um erro de interpretação, como pode acontecer a qualquer um, mas de falsa informação fabricada pelos jornalistas da France24 em ligação com o Quai d’Orsay e cadeias de TV aliadas, no quadro da guerra de quarta geração.

É de notar que o canal não trata outras informações que publicamos sobre o Emirado Islâmico:



- como a entrega pela França e pela Turquia de armas à Frente Al-Nosra (Al-Qaida) em janeiro 2014 [6];
- a realização de uma sessão secreta do Congresso dos Estados Unidos para financiar e armar o Emirado Islâmico [7];
- a reivindicação pelo canal público saudita al-Akbhariya do comando do Emirado Islâmico pelo príncipe Abdul Rahman al-Faisal [8];
- as revelações pelo chefe da inteligência militar israelita(israelense-Br), o general Aviv Kochavi, da presença de três bases de treino da Al-Qaida na Turquia [9];
- as revelações pelo PKK de duas reuniões preparatórias para a invasão do Iraque, nas quais participaram o Emirado Islâmico e o Governo regional do Curdistão iraquiano, a convite de Washington [10].

E, ainda uma vez mais, não se trata senão de informações recentes escondidas aos telespectadores da France24. Isto só podendo ser compreendido, se colocado em perspectiva com os escritos dos estrategas norte-americanos desde 2001, e com um entendimento do funcionamento dos Serviços Secretos norte-americanos (e inclusive da NED, na qual John McCain dirige o ramo «republicano»), que parecem faltar aos jornalistas do canal.

Este debate não é fútil: o Emirado Islâmico prossegue o plano norte-americano de limpeza étnica previsto desde 2001, no quadro da «remodelagem do Médio-Oriente alargado» [11]. Quaisquer que sejam as conclusões de uns e outros, é preciso responder às questões de base :
- Porque é que, em violação de uma resolução das Nações Unidas, a União Europeia compra, ainda, o petróleo roubado pelo Emirado Islâmico e pelo Governo regional do Curdistão do iraquiano, (financiando assim o Emirado Islâmico que ela é suposta combater ) ?
- Porquê é que a Turquia, (membro da Coligação), fechou a sua fronteira com a Síria, ajudando assim o Emirado Islâmico, (que é suposta combater), no massacre dos Curdos sírios do PYG?
- Porque é que a coligação formada pelos Estados Unidos contra o Emirado Islâmico, não conseguiu até ao presente NENHUM dos resultados anunciados?

Tradução
Alva

aqui:http://www.voltairenet.org/article185638.html
[1] «Un soldat américain chez l’EI ? Non, une manipulation des théoriciens du complot», Ségolène Malterre, Les Observadores France24, 8 de outubro de 2014. Arquivo do artigo de France24 no site da Rede Voltaire.
[2] « Treze anos após o 11 de Setembro, a cegueira persiste », por Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 11 de setembro de 2014.
[3] «Baghdadi ’Mossad trained» (Ing- « Baghdadi treinado pela Mossad »-ndT), Gulf Daily News, 15 jul 2014.
[4] “John McCain, chefe de orquestra da «primavera árabe», e o Califa”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 18 de Agosto de 2014.
[5] «Le mystère de la «démission» d’une diplomate syrienne» (Fr-« O mistério da "renúncia" de um diplomata sírio »-ndT), por Tristan Vey, Le Figaro, 8 juin 2011.
[6] Ver o documento entregue ao Conselho de Segurança pelo embaixador da Síria na reunião de 14 de julho de 2014.
[7] Ver o despacho da agência britânica Reuters,”Congress secretly approves U.S. weapons flow to ’moderate’ Syrian rebels" (Ing-« Congresso aprova secretamente fluxo de armas americanas para os rebeldes sírios "moderados" »-ndT), por Mark Hosenball, 27 janeiro de 2014.
[8] Ver o extracto de vídeo de Al-Akhbariya.
[9] Ler este outro despacho da Reuters: “Israeli general says al Qaeda’s Syria fighters set up in Turkey” (Ing-«general israelita diz que combatentes da Al Qaída na Síria foram treinados na Turquia »-ndT), por Dan Williams, 29 de janeiro de 2014.
[10] "Yer: Amman, Tarih: 1 Konu: Musul" Akif Serhat, Özgür Gündem, 06 de julho de 2014.
[11] “Stability, America’s Ennemy” (Ing-« « Estabilidade, inimigo dos Estados Unidos»-ndT), Coronel Ralph Peters, Parameters, Winter(Inverno) 2001-02, pp. 5-20, Strategic Studies Institute, US Army(Instituto de Estudos Estratégicos), do Exército dos EUA.


quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Cretinismo parlamentar e democracia oligárquica


por Daniel Vaz de Carvalho

 
"O cretinismo parlamentar consistia numa espécie de delírio que acometia as suas vítimas, as quais acreditavam que todo o mundo, o seu passado e o seu futuro se governavam por uma maioria de votos ditada por aquela assembleia (…) e tudo o que se passava fora daquelas quatro paredes muito pouco ou nada significavam ao lado dos debates importantes".
Marx, Revolução e Contrarrevolução na Alemanha

Et leur bulletin dans les urnes
Et le mépris dans un placard!
Ils ont voté et puis, après?
(…) Le jour de gloire est arrivé!

Canção de Léo Ferré 
 

Cartoon de Yannis Iannou.  















1 – O CRETINISMO PARLAMENTAR

Marx considerava o cretinismo parlamentar "a forma não de dar expressão á vontade do povo, mas de bloquear essa vontade". Pretende-se reduzir a luta de classes a uma retórica de que o povo é alheado, acabando por ficar desiludido, desenganado, face às ações dos que deveriam ser os seus representantes.

Mas será que segundo o marxismo a legalidade, a democracia, enfraquece a revolução e os revolucionários? Engels, considera que pelo contrário "nós os revolucionários, os "elementos subversivos", prosperamos muito mais com os meios legais que com os ilegais. Os partidos da ordem, como eles se designam, afundam-se com a legalidade criada por eles próprios". [1]

É neste sentido que Marx afirma: "Os partidos da ordem burguesa só podem conter o avanço dos partidos revolucionários mediante a violação das leis e a sua subversão." [2] O que se aplica totalmente ao governo de direita/extrema-direita do PSD-CDS que desgoverna o país pela subversão das leis e em continuada afronta à Constituição.

A transição para o socialismo far-se-á portanto no aprofundamento da democracia e não na sua supressão, o que passa pela superação do "cretinismo parlamentar". Para Marx o que distingue os indivíduos é a sua "qualidade social", não a cor da pele, religião, etc. Não há seres humanos em abstrato, há modos de existência, resultantes, no fundamental, do modo e condições de produção prevalecentes. Neste sentido, a atividade social de cada pessoa, de cada cidadão, torna-se política seja pela participação seja pela indiferença. A abstenção política é, pois, um ato negativo em termos marxistas.

O cretinismo parlamentar tornou-se a forma de garantir a rotatividade de partidos enfeudados aos interesses oligárquicos: a troika interna, que a propaganda difunde como "o arco do poder". Uma falácia, pois o poder nestas condições reside efetivamente nas oligarquias e na burocracia europeia ao seu serviço.

A república parlamentar (…) era a condição indispensável para o domínio comum (das diversas fações da burguesia) a única forma de governo na qual o interesse geral da classe podia submeter não só as reivindicações das diferentes fações como as das demais classes da sociedade" [3]

Neste sentido, procura-se manter a opinião pública num nível de ignorância e preconceitos políticos que impeçam uma análise objetiva e minimamente aprofundada da realidade. Procura-se que as pessoas estejam política e socialmente desinformadas e confusas, para poderem ser facilmente convencidas da ideia que não há alternativas senão entregar o poder ao grande capital e à burocracia europeia.

A oligarquia, a direita procuram que o proletariado não tenha consciência da dialética do processo social, de modo a deixar-se iludir por falsas promessas e discursos fascizantes contra "os políticos" e contra os partidos "todos iguais e sem alternativas". Como se sabe, a propaganda (e a repressão) fascista tinha como objetivo as pessoas não se "meterem na política".

O PS é um partido democrático, porém rendido ao "cretinismo parlamentar", consequência de na sua ação prática não possuir referências ideológicas. Nas críticas ao governo do PSD-CDS, a veemência das palavras cresceu à medida que se tornavam inúteis. Baixava de tom ou calava-se sempre que seria necessário juntar-se às forças populares em ações concretas. Tal foi e é evidente, apesar da mudança de liderança, por exemplo, no caso da exigência de demissão deste governo.

Com medo de surgir como fator de instabilidade dos interesses oligárquicos não hesita em demarcar-se ou mesmo hostilizar as forças à sua esquerda na contestação aos ditames do imperialismo e das burocracias da UE. O chamado "arco do poder" não passa então duma disfarçada coligação pró-oligárquica, a troika interna, que adota conceitos e fundamentos políticos idênticos, limitando-se a procurar "pessoas mais competentes", pondo de parte a alteração das relações de produção, condição essencial para a da saída da crise e o progresso económico e social.

2 – A DEMOCRACIA OLIGÁRQUICA

"Nos países ocidentais a democracia está atacada por uma casta, na realidade entramos num regime oligárquico. Nesta forma de fazer política o poder está reservado a um pequeno grupo de pessoas que formam uma classe dominante." [5] J. Saramago fez notar que "a democracia parece ser tão intrinsecamente boa que nela se pode fazer de forma não democrática, tudo o que não é democrático. (…) A democracia é apenas uma fachada que mantém as aparências." [6]

O crescente poder do dinheiro no sistema político é evidenciado por Stiglitz: "o sistema é mais semelhante a "um dólar um voto" que "uma pessoa um voto". [4] Escreveu Aldous Huxley: "Oligarcas plutocráticos aspiram a governar sob a capa das instituições democráticas impessoalmente e sem responsabilidades. Explorar a democracia viram eles é mais fácil e rendoso que opor-se a ela. Deixem que muitos votem, mas conforme lhes disserem os poucos opulentos que são donos dos jornais" [7]

A oligarquia e seus burocratas ditam a nível europeu até ao pormenor as políticas a serem seguidas, arrogam-se o direito de inspecionar os OE, podem mover processos a instituições soberanas dos Estados. Decidem sobre o económico e o social. As reivindicações dos trabalhadores, as políticas sociais e progressistas são consideradas "devaneios utópicos com os quais há que acabar" [8]

A Igualdade política foi subvertida pela privatização da sociedade e pelos mecanismos da alienação, garantido a desigualdade social. A mentira tornou-se um ato de gestão corrente do governo. É o que nos contava Diderot: "Um ministro do rei de França, que tem engenho por cinco provou-nos que não há nada mais útil aos povos que a mentira, nem nada tão nocivo como a verdade." [9]

A propaganda fala em "responsabilidade social" da empresa privada, porém trata-se de uma mistificação, pois confronta-se com a dura realidade de que as empresas privadas estão submetidas à lei da maximização do lucro e segundo declaram os seus próceres "não são instituições de beneficência". Então quem? A falácia adotada foi a da "flexisegurança", neologismo rapidamente atirado para a valeta das imposturas e transformado em "flexibilidade" para os trabalhadores e segurança para o grande capital, à custa do resto da sociedade.

Apesar do estrondoso falhanço destas políticas, os interesses rentistas dos monopólios e da finança, são apresentados como eficientes e "criação de riqueza", justificação para as políticas do BCE que colocam os destinos dos povos nas mãos de usurários e especuladores.

A "ciência económica" adotada não passa de uma metafísica, ou pior, uma superstição, com seus anátemas, destinada a subordinar os povos e o funcionamento das economias nacionais aos interesses de uma minoria transacionais e seus bilionários. Sob o lema da "modernidade" foi imposto um drástico retrocesso das condições sociais, caminhando-se para níveis do século XIX sob a tutela da UE. O oportunismo da social-democracia começou por defender: o "movimento é tudo", agora "o retrocesso é tudo". A direita promove-o com o sofisma de ser contra o "imobilismo"!

Raul Proença escrevia em 1928 na Seara Nova, acerca dos sofismas liberais, que a liberdade económica não é mais que a capacidade "que alguns indivíduos têm de se oporem em nome dos interesses criados à liberdade de todos os outros". É justamente o que caracteriza a democracia oligárquica.

A democracia oligárquica procura unir a oligarquia e dividir o povo. A ideologia dominante veiculada nas Universidades e mesmo no ensino secundário tem o objetivo de produzir jovens desprovidos de espírito universal, aptos a estabelecerem o antagonismo entre classes e camadas sociais, o ódio ao coletivo, ao social. Procuram-se "homens práticos", ao serviço da oligarquia.

A ministra das Finanças exibiu na AR mais uma vez o seu rancor ao que é público, a tendência para escamotear a verdade e proteger a especulação financeira, ao declarar que o comprometimento de dinheiro do Estado no escandaloso caso BES, eram "os custos de ter um banco público". Zeinal Bava, que levou a PT à ruina foi sucessivamente considerado gestor de excelência a nível europeu, foi condecorado pelo PR (tinha de ser!), abandonou o cargo com 5,4 milhões de euros, a empresa perdeu num ano metade do valor em bolsa e continua em queda…

Os oligarcas são promovidos a heróis da "eficiência" e do "sucesso" de que os casos BES, BPN, BPP, BANIF, PT, etc, são paradigmáticos. Mas a oligarquia só consegue apresentar gente sem dimensão, os seus políticos e comentadores refletem a pequenez da sua visão e a incipiência das suas teses, mas são promovidos ao estrelato da erudição e da clarividência.

Gente que manipulava contas como qualquer vigarista de vão de escada, era escutada em S. Bento e Belém, determinava como o país devia funcionar. O povo é depois chamado a pagar os seus desmandos e a sacrificar-se para suportar o seu estatuto de grandes senhores. Governadores do B de P e outros responsáveis nada vêm. Incompetência? Desonestidade? Não, estão ao serviço dos interesses financeiros ligados por critérios de economia política totalmente falsos e contraproducentes, da qual, lamentamos, o PS não se demarca.

Uma maioria de direita servil a esses interesses estabeleceu um governo que mente, humilha a dignidade das pessoas na sua condição de trabalhadores e destrói ou permite a destruição do que melhor o país tem ou teve, enquanto as propostas das forças consequentemente de esquerda são rejeitadas e escamoteadas do grande público.

O objetivo é reduzir a força de trabalho às antigas condições da ditadura. As tão faladas "reformas estruturais", nunca se dizendo concretamente em que consistem, são apenas isto: o retorno ao passado na saúde, na educação, na precariedade das relações laborais. Os salários diminuem, mas a parte que cabe ao grande capital é cada vez maior.

As desigualdades sociais são fatores de crise económica e social, assim o revela não só a teoria económica como a própria História dos povos. Para o neoliberalismo, como para o malthusianismo, as desigualdades representam, pelo contrário, fator de criação de riqueza. As falências financeiras da banca têm sido um processo de o património dos pequenos acionistas e contribuintes ir parar às mãos da oligarquia. No caso BES, enquanto o governo, o PR e o B de P enganavam a opinião pública garantindo que tudo estava bem, os grandes acionistas (como a Goldman Sachs…) vendiam ações, dias depois consideradas lixo!

A democracia oligárquica é a forma de garantir os interesses da finança e dos monopólios, quando para o progresso dos povos é necessário combater esses interesses, como sempre se verificou no passado. Dizia Marx: "a emancipação do proletariado é a abolição do crédito burguês. O crédito público e o crédito privado são o termómetro pelo qual se pode medir a intensidade de uma revolução. Na mesma medida em que aquele baixe sobem o calor e a força criadora da revolução". [10]

A libertação do domínio da oligarquia em que o poder do dinheiro vale mais que o poder do voto, passa, pois, por reconquistar a soberania monetária, lançar impostos sobre as transações financeiras e o grande capital. O país não suporta mais a atual "democracia oligárquica", escudada na ditadura da UE, controlada pelo imperialismo alemão com o seu euro.
15/Outubro/2014
 

Notas
[1] Introdução de Engels à "Luta de Classes em França", para a edição de 1895, Obras Escojidas de Marx e Engels, Ed. Progresso, Moscovo, 1973, p. 206.
[2} idem, p. 207
[3] O 18 do Brumário de Luís Bonaparte, obra citada, p. 469
[4] Joseph Stiglitz, The price of inequality, Ed. W. W. Norton, p.14
[5] www.legrandsoir.info/...
[6] J. Saramago, em diálogo com I. Ramonet, Le Monde Diplomatique , julho 2010
[7] Aldous Huxley, Sobre a Democracia, Livros do Brasil, p. 131.
[8] Marx, O 18 do Brumário de Luís Bomaparte, obra citada, p. 414
[9] Diderot: O Sobrinho de Rameau
[10] A Luta de Classes em França, obra citada, p. 221

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/

aqui:http://resistir.info/portugal/cretinismo_parlamentar.html 

Publicação em destaque

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