terça-feira, 22 de março de 2016

O suicídio Europeu face à Turquia

por Thierry Meyssan

 Ao assinar um acordo —diga-se de passagem, ilegal no Direito Internacional— com a Turquia para abrandar o afluxo de migrantes, os dirigentes da União Europeia envolveram-se um pouco mais num pacto com o diabo. Uma grande parte dos 3 mil milhões (bilhões-br) alocados a Ancara servirá para financiar o apoio aos jiadistas e, por conseguinte, a aumentar o número de migrantes que fogem à guerra. Acima de tudo, revogando, nos próximos meses, os vistos com a Turquia, os Europeus instituem a livre circulação entre os campos da Al-Qaida, na Turquia, e Bruxelas. Esmagando assim os povos iraquiano e sírio sob a opressão dos jiadistas, que eles financiam indirectamente, e abandonando o povo turco à ditadura do Presidente Erdoğan, preparam as bases de um vasto enfrentamento do qual virão a ser as vítimas.

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Aquando da conferência de imprensa de 18 Março de 2016, o presidente da União Europeia, Donald Tusk (um Polaco que defende os interesses da Alemanha), parecia tentar acalmar a fúria do presidente da Comissão, Jean-Claude Juncker (um Luxemburguês que defende os interesses dos E.U.A.). Para enorme satisfação de um Primeiro-ministro Turco, tranquilamente irónico, Ahmet Davutoğlu.
«A democracia é como um tramway, subimos para ir aonde queremos e aí chegados descemos»
Recep Tayyip Erdoğan (1996)
O Conselho Europeu de 17 e 18 de Março de 2016 adoptou um plano visando resolver o problema colocado pelo afluxo maciço de migrantes provindo da Turquia [1]. Os 28 chefes de Estado e de governo submeteram-se a todas as exigências de Ancara.

Nós havíamos já analisado a maneira pela qual os Estados Unidos entendiam utilizar os acontecimentos do Próximo-Oriente para enfraquecer a União Europeia [2]. No início da actual crise dos «refugiados», fomos os primeiros a observar simultaneamente que este evento tinha sido deliberadamente provocado, e os problemas insolúveis que ele ia colocar [3]. Infelizmente, todas as nossas análises acabaram provadas, e as nossas posições foram, depois, amplamente adoptadas pelos nossos detractores de então.

Indo mais longe, interessa-nos avaliar a maneira como a Turquia tomou conta do jogo e a cegueira da União Europeia, que persiste em estar um passo atrás.

O jogo de Recep Tayyip Erdoğan


O presidente Erdoğan não é um homem político como os outros. E, não parece que os Europeus, nem os povos, nem os seus dirigentes, tenham tomado plena consciência disso.

• Primeiro, ele veio da Millî Görüş, um movimento islâmico pan-turquista ligado aos Irmãos Muçulmanos do Egipto e defensor do restabelecimento do Califado [4]. Segundo ele —como, aliás, segundo os seus aliados do Milliyetçi Hareket Partisi (MHP)— os Turcos são os descendentes dos Hunos de Átila, eles próprios filhos do lobo das estepes da Ásia Central, do qual herdariam a resistência e a crueza. Formam uma raça superior chamada a governar o mundo. A sua alma é o Islão.

O presidente Erdoğan é o único chefe de Estado do mundo a reivindicar-se de uma ideologia supremacista étnica, perfeitamente comparável ao arianismo nazista. É, igualmente, o único chefe de Estado no mundo a negar os crimes da sua história, nomeadamente os massacres de não-muçulmanos pelo Sultão Abdulhamid II (os massacres hamidianos de 1894-1895: pelo menos 80. 000 Cristãos mortos e 100.000 Cristãs incorporadas à força nos haréns), depois pelos Jovens Turcos (genocídio dos Arménios, dos Assírios, dos Caldeus, dos Siríacos, dos Gregos pônticos e dos Yazidis de 1915 a 1923: pelo menos 1,2 milhões de mortos); um genocídio que foi executado com a ajuda de oficiais alemães, entre os quais Rudolf Höss, futuro director do campo de Auschwitz [5].

Ao celebrar o 70º aniversário da libertação do pesadelo nazista, o presidente Vladimir Putin sublinhou que «as ideias de supremacia racial e de exclusivismo provocaram a guerra mais sangrenta da História» [6]. Depois, aquando de uma marcha —e sem nomear a Turquia—, ele apelou a todos os Russos para estarem prontos a renovar o sacrifício dos seus avós, se necessário, afim de salvar o princípio da própria igualdade entre os homens.

• Em segundo lugar, o presidente Erdogan, que apenas tem o apoio de um terço da sua população, governa sozinho o país pela força. É impossível saber com precisão o que pensa o povo turco, uma vez que a publicação de qualquer informação pondo em causa a legitimidade do presidente Erdoğan é agora considerada como uma violação da segurança do Estado, e conduz imediatamente à prisão. No entanto, se nos referirmos aos mais recentes estudos publicados, em outubro de 2015, menos de um terço do eleitorado o apoia. O que é nitidamente menos que os nazistas em 1933, que dispunham, então, de 43% dos votos. Esta foi a razão pela qual o presidente Erdoğan só pode ganhar as eleições legislativas após uma grosseira falsificação.

Entre outras:
- Os média (mídia-br) da oposição foram amordaçados: os grandes jornais quotidianos Hürriyet e Sabah assim como a televisão ATV foram atacadas por homens de mão do partido no poder; foram lançadas investigações visando jornalistas e órgãos de imprensa acusados de apoiar o «terrorismo» ou de ter feito comentários difamatórios contra o Presidente Erdoğan; “sites” web foram bloqueados; prestadores de serviços digitais suprimiram do seu cartaz os canais de televisão da oposição; três dos cinco canais de televisão nacionais, entre os quais a emissora pública, foram nos seus programas claramente partidários do partido no poder; outros canais de televisão nacional, o Bugün TV e Kanalturk, foram fechadas pela polícia.
- Um estado estrangeiro, a Arábia Saudita, derramou £ 7 mil milhões (bilhões-br) de «donativos» para «convencer» os eleitores a apoiar o presidente Erdoğan (ou seja cerca de 2 mil milhões de euros).
- 128 sedes políticas do Partido de esquerda (HDP) foram atacadas por sicários do partido do presidente Erdoğan. Inúmeros candidatos e suas equipes foram espancados. Mais de 300 lojas curdas foram saqueadas. Dezenas de candidatos HDP foram presos e colocados em prisão preventiva durante a campanha.
- Mais de 2. 000 opositores foram mortos durante a campanha eleitoral, quer pelos ataques, quer por causa da repressão governamental visando o PKK. Várias aldeias do sudeste do país foram parcialmente destruídas por tanques do exército.

Desde a sua «eleição», uma cortina de chumbo desceu sobre o país. Tornou-se impossível alguém poder informar-se sobre o estado da Turquia através da sua imprensa nacional. O principal diário da oposição, Zaman, foi colocado sob tutela e limita-se agora a louvar a grandeza do «sultão» Erdoğan. A guerra civil, que lavra já no Leste do país, estende-se, com atentados em Ancara e até Istambul, perante a total indiferença dos Europeus [7].

Erdoğan governa quase só, rodeado por um grupo restrito, no qual se inclui o Primeiro-ministro Ahmet Davutoglu. Ele declarou publicamente, durante a campanha eleitoral, que não respeitava mais a Constituição e que, agora, todos os poderes lhe estavam entregues.

A 14 de março de 2016, o presidente Erdogan declarou que face aos Curdos: «A democracia, a liberdade e o estado de direito não têm mais o menor valor». Ele anunciou sua intenção de alargar a definição legal de «terroristas» para incluir todos os que são «inimigos dos Turcos» —quer dizer os Turcos e não-Turcos que se opõem ao seu supremacismo—.


 Por metade de mil milhões de euros, Recep Tayyip Erdoğan, fez construir para si próprio, o maior palácio jamais ocupado por um chefe de Estado na história mundial. O «palácio branco», em referência à cor do seu partido, o AKP. Ele estende-se por 200. 000 metros quadrados e compreende todo o tipo de serviços, entre os quais “bunkers” de segurança ultra-modernos ligados a satélites.

• Terceiro, o presidente Erdoğan utiliza os poderes que anti-constitucionalmente se atribuiu para transformar o Estado turco em padrinho do jiadismo internacional. Em Dezembro de 2015, a polícia e a Justiça turcas conseguiram estabelecer os laços pessoais de Erdoğan e do seu filho Bilal com Yasin al-Qadi, o banqueiro global da Al-Qaida. Ele despediu, pois, os policias e os magistrados que tinham ousado «pôr em causa os superiores interesses da Turquia» (sic), enquanto Yasin al-Qadi e o Estado colocavam um processo judicial ao quotidiano de esquerda BirGün por ter reproduzido o meu editorial, «Al-Qaida, eterna reserva da Otan».

Em Fevereiro último, a Federação da Rússia entregava um relatório de Inteligência ao Conselho de Segurança da ONU atestando o apoio do Estado turco ao jiadismo internacional, em violação de inúmeras resoluções [8]. Eu publiquei um estudo aprofundado sobre estas acusações, imediatamente censurado na Turquia [9].

A resposta da União Europeia


A União Europeia tinha enviado uma delegação para vigiar as eleições legislativas em novembro de 2015. Ela adiou longamente a publicação do seu relatório, depois resolveu-se a publicar sobre isso uma curta versão, adocicada.

Em pânico pelas respostas das suas populações reagindo duramente à entrada maciça de migrantes —e, para os Alemães, à abolição do salário mínimo que daí resultou—, os 28 Chefes de Estado e de Governo da União finalizaram com a Turquia um procedimento para que ela resolva os seus problemas. O Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados, Filippo Grandi, declarou, de imediato, que a solução escolhida viola o direito internacional, mas, mesmo supondo, a propósito, que as coisas possam ser melhoradas, nem é este o principal problema.

A União comprometeu-se a
- pagar 3 mil milhões de Euros anuais à Turquia para a ajudar a fazer face às suas obrigações, mas sem qualquer mecanismo de verificação da utilização destes fundos;
- pôr fim aos vistos exigidos aos Turcos para entrar na União [10] —o deve ser feito em alguns meses, ou até semanas— ;
- acelerar as negociações de adesão da Turquia à União —o que, pelo contrário, será muito mais demorado e aleatório—.

Por outras palavras, cegos pela recente derrota eleitoral de Angela Merkel [11], os dirigentes Europeus contentaram-se em encontrar uma solução provisória para abrandar o fluxo dos migrantes, sem procurar resolver a origem do problema e sem ter em conta a infiltração de jiadistas neste fluxo.
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Que fizemos?
© União europeia

O precedente de Munique


Nos anos 30, as elites europeias e norte-americanas consideravam que a URSS, devido ao seu modelo, ameaçava os seus interesses de classe. Eles apoiavam pois, colectivamente, o projecto nazi de colonização da Europa Oriental e de destruição dos povos eslavos. Apesar dos repetidos apelos de Moscovo para a criação de uma vasta aliança contra o nazismo, os dirigentes europeus aceitaram todas as reivindicações do chanceler Hitler, incluindo a anexação das regiões povoadas pelos Sudetas. Foi o Acordo de Munique (1938), conduzindo a URSS a adoptar o salve-se quem puder e a concluir o Pacto germano-soviético—1939—(Molotov-Ribbentrop- ndT). Só muito tardiamente é que certos dirigentes europeus, depois norte-americanos, perceberam o erro e decidiram aliar-se com Moscovo contra os nazis.

Diante de nossos olhos repetem-se os mesmos erros. As elites europeias consideram a República da Síria como um inimigo, seja porque defendem o ponto de vista colonial de Israel, seja porque esperam recolonizar, eles mesmos, o Levante apropriar-se das suas gigantescas reservas de gás ainda inexplorado. Elas apoiaram, pois, a operação secreta norte-americana de «mudança do regime» e fingiram acreditar na fábula da «Primavera Árabe». Após cinco anos de guerra por procuração, constatando que o presidente Bashar el-Assad ainda está lá, embora tivessem mil vezes anunciado a sua demissão, os Europeus decidiram financiar pelo montante de 3 mil milhões de euros anuais o apoio turco anual aos jiadistas. O que, segundo a sua lógica, deveria permitir a sua vitória e, portanto pôr um fim às migrações. Eles não tardarão a perceber [12], mas já muito tarde, que ao abolirem os vistos para os cidadãos turcos, autorizaram a livre-circulação entre os campos da Al-Qaida na Turquia e Bruxelas [13].

A comparação com o final dos anos 30 é tanto mais parecida quando na altura do Acordo de Munique o Reich nazista já havia anexado a Áustria, sem provocar reação notável de outros Estados europeus. Ora, hoje em dia, a Turquia ocupa já o Nordeste de um Estado-Membro da União Europeia, Chipre, e uma faixa de alguns quilómetros de profundidade na Síria, que administra através de um walli (prefeito) nomeado para este efeito. Não apenas a U.E. aceita isso, como pela sua atitude, ela encoraja Ancara a prosseguir as suas anexações com total desprezo pelo Direito internacional. A lógica comum ao chanceler Hitler e ao presidente Erdoğan é baseada na unificação da «raça» e na purificação da população. O primeiro queria unir as populações de «raça alemã» e purificá-las de elementos «estrangeiros» (Judeus e Roma), o segundo quer unir as populações de «raça turca» e purificá-las de elementos «estrangeiros» (os Curdos e Cristãos).

Em 1938, acreditavam na boa fé do chanceler Hitler, hoje em dia na do presidente Erdoğan.

Tradução
Alva



[1] “Next operational steps in EU-Turkey cooperation in the field of migration”, Voltaire Network, 16 March 2016.
[2] “A cegueira da União Europeia face à estratégia militar dos Estados Unidos”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 27 de Abril de 2015.
[3] “A falsa «crise dos refugiados»”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 7 de Setembro de 2015.
[4] “Em direção ao fim do sistema Erdoğan”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 17 de Junho de 2015.
[5] « La Turquie d’aujourd’hui poursuit le génocide arménien », par Thierry Meyssan, Réseau Voltaire, 26 avril 2015.
[6] « Выступление Президента России на параде, посвящённом 70-летию Победы в Великой Отечественной войне », Владимир В. Путин, Сеть Вольтер, 9 мая 2015.
[7] « L’Union européenne a abandonné ceux qui se battent pour défendre les libertés en Turquie », par Can Dündar, Le Monde (France) , Réseau Voltaire, 18 mars 2016.
[8] “Relatório da inteligência russa sobre a atual assistência da Turquia ao Daesh”, Tradução Marisa Choguill, Rede Voltaire, 19 de Fevereiro de 2016.
[9] “Como a Turquia apoia os jiadistas”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 22 de Fevereiro de 2016.
[10] “Roadmap towards a visa-free regime with Turkey”, Voltaire Network, 16 March 2016.
[11] „Alternative für Deutschland nimmt kein Blatt vor den Mund“, von Ian Blohm, Übersetzung Horst Frohlich, Strategic Culture Foundation (Russland) , Voltaire Netzwerk, 12. März 2016.
[12] « Lettre ouverte aux Européens coincés derrière le rideau de fer israélo-US », par Hassan Hamadé, Réseau Voltaire, 21 mai 2014.
[13] “Israeli general says al Qaeda’s Syria fighters set up in Turkey”, Dan Williams, Reuters, January 29, 2014.

aqui:http://www.voltairenet.org/article190880.html

sexta-feira, 11 de março de 2016

O novo patrão da Casa Branca será tal como o anterior, seja quem for


por John W. Whitehead [*]

 
"O principal problema em qualquer democracia é que os demagogos são normalmente uns suínos desmiolados que sobem a um palco e lançam os seus apoiantes numa orgia frenética – depois voltam para o escritório e vendem todos os pobres idiotas por um cêntimo cada".
— Hunter S. Thompson 
 
A política hoje não é sobre Republicanos e Democratas.

Nem é sobre cuidados de saúde, aborto, impostos mais altos, ensino gratuito nem qualquer dos outros chavões que se tornaram os slogans de campanha para indivíduos que dominam a arte de dizer aos americanos exatamente aquilo que eles querem ouvir.

A política hoje é apenas sobre uma coisa: manter o status quo entre os Controladores (os políticos, os burocratas e a elite empresarial) e os Controlados (os contribuintes).

Hillary não vai salvar a nação. Nem Bernie, Trump, Rubio ou Cruz.

Os únicos que podem salvar a nação somos "nós, o povo", mas o povo americano faz questão em deixar-se convencer de que um novo presidente na Casa Branca pode resolver os problemas que nos atormentam.

Seja quem for que ganhe as próximas eleições presidenciais, podemos ter a certeza de que o novo patrão será o mesmo que anterior e nós – os eternos destituídos da América – continuaremos a ser forçados a andar a toque de caixa com o estado policial em todas as questões, públicas e privadas.

Claro, como assinalo no meu livro Battlefield America: The War on the American People , chamem-lhes o que quiserem – os 1%, a elite, os controladores, os arquitetos, o governo sombra, o estado policial, o estado de vigilância, o complexo militar-industrial – desde que percebam que qualquer que seja o partido que ocupe a Casa Branca em 2017, a burocracia não eleita que controla continuará a controlar.

Considerem o que se segue como um banho de realidade, um antídoto se quiserem, contra uma overdose de anúncios de campanha, grandiosas promessas eleitorais e sentimentos patrióticos sem qualquer sentido, que nos encerram diretamente na mesma cela da prisão.

FACTO: Segundo um estudo científico de investigadores de Princeton, os Estados Unidos da América não são a democracia que pretende ser, mas uma oligarquia , em que "elites económicas e grupos organizados, que representam interesses económicos, têm impactos independentes na política do governo dos EUA.

FACTO: Apesar de o número de crimes violentos no país ter baixado substancialmente , para a taxa mais baixa em 40 anos, aumentou exponencialmente o número de americanos presos por crimes não violentos, como guiar com a carta suspensa .

FACTO: Graças à superabundância de mais de 4500 crimes federais e mais de 400 mil regulamentos , calcula-se que, em média, um americano pratica três delitos graves por dia sem o saber. Com efeito, segundo o professor de direito John Baker, " Não há ninguém nos EUA com mais de 18 anos que não possa ser acusado de qualquer crime federal . Isto não é exagero".

FACTO: Apesar de termos 46 milhões de americanos a viver na linha de pobreza ou abaixo dela , 16 milhões de crianças a viver em lares sem acesso adequado a alimentos , e pelo menos 900 mil veteranos que subsistem graças a senhas de alimentos , continuam a atribuir-se enormes quantias de dinheiro dos contribuintes para férias presidenciais ( 16 milhões de dólares para viagens a África e ao Havai), para a fraude de horas extra no Departamento de Segurança Nacional (perto de 9 milhões de dólares em inexistentes horas extra, isto apenas em seis dos muitos gabinetes do Departamento de Segurança Nacional), e produções cinematográficas de Hollywood ( 10 milhões de dólares em dinheiro dos contribuintes gastos pelo Exército da Guarda Nacional no filme Superman para um conhecimento acrescido sobre a mesma).

FACTO: Desde 2001 que os americanos gastaram 10,5 milhões de dólares por hora em inúmeras ocupações militares no estrangeiro, incluindo no Iraque e no Afeganistão. Também há as despesas de 2,2 milhões de dólares por hora para manter o arsenal nuclear dos Estados Unidos, e os 35 mil dólares gastos por hora para produzir e manter a nossa coleção de mísseis Tomahawk. E há o dinheiro que o governo exporta para outros países para sustentar os arsenais deles, com um custo de 1,61 milhão de dólares por hora para os contribuintes americanos .

FACTO: Calcula-se que 2,7 milhões de crianças nos Estados Unidos têm pelo menos um dos pais na prisão , quer seja uma cadeia local ou uma penitenciária estatal ou federal, devido a uma ampla série de fatores que vão desde a alta criminalidade e assaltos a casas até a auto-stops.

FACTO: Segundo uma sondagem Gallup, os americanos têm mais fé nas forças armadas e na polícia do que em qualquer dos três ramos do governo.

FACTO: "Hoje, 17 mil forças policiais locais estão equipadas com equipamento militar, como helicópteros Blackhawk, metralhadoras, lança-granadas, aríetes, explosivos, sprays químicos, armaduras, visão noturna, rapel automático e veículos blindados ", informa Paul Craig Roberts, antigo secretário-adjunto do Tesouro. "Algumas têm tanques".

FACTO: Morrem às mãos da polícia, pelo menos, 400 a 500 pessoas inocentes por ano. Com efeito, os americanos têm oito vezes mais probabilidades de morrer num confronto com a polícia do que serem mortos por um terrorista. Os americanos têm 110 vezes mais probabilidades de morrerem duma doença por falta de comida do que num ataque terrorista.

FACTO: Os polícias têm mais probabilidades de serem atingidos por um raio do que de serem responsabilizados financeiramente pelos seus atos errados .

FACTO: Num dia normal na América, mais de 100 americanos veem as suas casas invadidas por equipas policiais SWAT . A maior parte desses assaltos baseia-se em mandados. Tem havido um assinalável aumento nos últimos anos de equipas SWAT fortemente armadas nas organizações federais sem ligação à segurança , como o Departamento da Agricultura, o Conselho de Reformas dos Caminhos-de-ferro, a Autoridade do Vale do Tennessee, o Gabinete de Gestão de Pessoal, a Comissão de Segurança de Produtos de Consumo, os Serviços de Pescas e Vida Animal dos EUA, e o Departamento de Ensino.

FACTO: O sistema de reconhecimento facial Next Generation Identification (NGI), do FBI, que vai deter dados sobre milhões de americanos , incluirá uma série de dados biométricos, incluindo as impressões da palma das mãos, a varredura da íris, e dados de reconhecimento do rosto. O ING poderá carregar 55 mil imagens por dia , e efetuar dezenas de milhares de pesquisas de fotos por dia.

FACTO: Integrando uma indústria de 82 mil milhões de dólares , espera-se que haja pelo menos 30 mil "drones" a ocupar o espaço aéreo dos EUA em 2020.

FACTO: Tudo aquilo que fizermos acabará por estar ligado à Internet. Calcula-se que, em 2030, haverá 100 milhões de milhões trillion de dispositivos sensores ligando dispositivos eletrónicos humanos (telemóveis, computadores portáteis, etc.) à Internet. Grande parte dos nossos dispositivos eletrónicos, senão todos, estarão ligados ao Google, que funciona abertamente com agências de inteligência governamentais. Praticamente tudo o que fazemos hoje – por mais inocente que seja – está a ser recolhido pela espionagem do estado policial americano.

FACTO: Os americanos não sabem praticamente nada da sua história nem como funciona o seu governo. Com efeito, segundo um estudo do Centro da Constituição Nacional, 41% dos americanos "não sabem que há três ramos de governo e 62% não conseguiram nomeá-los; 33% nem sequer conseguiram mencionar um deles".

FACTO: Só seis em cada cem americanos sabem que têm o direito constitucional de responsabilizar o governo por ações erradas, conforme garantido pela cláusula do direito à petição da Primeira Emenda.

O facto mais perturbador talvez seja o seguinte:   entregámos o controlo do nosso governo e da nossa vida a burocratas sem rosto que nos consideram pouco mais do que gado, que têm que alimentar, marcar a ferro, matar e vender para ter lucro.

Se é que ainda há qualquer esperança de restaurar a nossa liberdade e reclamar o controlo do nosso governo, não é com os políticos mas com o próprio povo.

Depois de tudo dito e feito, cada americano terá que decidir por si mesmo se prefere uma perigosa liberdade a uma escravidão pacífica. Uma coisa é certa: o ritual tranquilizador de votar não vai alterar uma vírgula no caminho para a liberdade.

29/fevereiro/2016 
 
Acerca das presidenciais nos EUA ver também:

  • The next Presidential election: a meaningful choice for the first time?

    [*] Presidente de The Rutheford Institute.

    O original encontra-se em www.rutherford.org/... . Tradução de Margarida Ferreira.


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
  • sexta-feira, 4 de março de 2016

    Por que se teme ao comunismo?

    por Elaine Tavares


    A Comuna de Paris mostrou a Marx que não basta tomar o estado, há que destruí-lo rompendo a máquina burocrática e militar

    Observando o avanço desenfreado das pautas da direita em todo o planeta, com a também crescente fascistização da vida, via as epidêmicas redes sociais, me assalta uma certeza: o comunismo, mais do que uma necessidade política, é uma necessidade biológica. E, diante da realidade, essa forma de organizar a vida aparece-me como a única alternativa possível para os seres humanos. Alguém pode dizer que sou uma louca, quando tudo parece apontar para um retorno inexorável dos tempos mais sombrios, mas, posso mostrar que não. 

    Imaginem-se na baixa idade média, quando a violência contra os pobres recrudesceu, uma vez que os senhores feudais viram que as mudanças causadas pelo nascimento dos burgos eram profundas. Naquelas horas noas, de angústia e violência, quem arriscaria dizer que estava em processo de consolidação uma nova forma de viver que daria fim ao feudalismo? Os loucos? Não! Os que faziam boas análises da realidade.

    O mundo atual, capitalista, imperialista e monopólico tem como base uma equação simples: para que um viva, outro tem de morrer. Isso significa que é, por natureza, destruidor e violento. Se no mundo antigo, a escravidão era garantida pela força de uns poucos e no mundo feudal a servidão se mantinha pelo terror dos senhores da terra, no capitalismo os escravos modernos – assalariados – são mantidos também pela força da repressão policial e burocrática. E é comum, a história nos mostra, quando um sistema está ruindo, a repressão a violência contra os de baixo aumentar consideravelmente. É a tentativa desesperada da classe dominante para manter o poder.

    E o que vemos hoje no mundo? Uma violência exacerbada contra tudo aquilo que possa representar uma ameaça ao sistema capitalista de reprodução da vida. Qualquer gritinho de protesto já é considerado terrorismo e a força do braço armado do poder cai sobre as gentes com precisão. É um tempo de extermínio. Até no Brasil, onde o tal do “terrorismo” raramente deu as caras, os deputados aprovaram no dia 24 de fevereiro uma lei anti-terrorismo. E com base no quê? Numa suposta possibilidade de aparecer algum “deles” nas Olimpíadas. Piada? Não! Medo.

    A classe dominante mundial está com medo. E isso é bom. Se, por um lado, esse medo recrudesce a violência oficial, por outro, mostra que há um pequeno buraco na represa, como no antigo conto holandês. E o sistema tenta conter a avalanche, matando, desaparecendo, trucidando, fazendo guerra.
    Diante desse quadro, só nos resta o comunismo. E uma das coisas que mais me impressiona é ver alguém chamando outro alguém de comunista como se fosse uma coisa ruim. Ou ainda, falar do comunismo como se fosse o pior que pudesse acontecer na terra. Como isso poder ser possível? Quem em sã consciência pode achar que o comunismo é ruim? Pois para responder essa questão, proponho o debate de alguns elementos que compõem o comunismo, para que, sem preconceito, possamos definir o que de bem e bom pode ter num regime como esse.

    A ideia de um mundo justo, no qual todos possam ter vida digna não é coisa do alemão Karl Marx, tão demonizado. Ela aparece bem antes dele em escritos de tantos filósofos, inclusive no mundo oriental. Mas, claro, é Marx quem aponta o comunismo como um sistema de organização da vida que só pode acontecer depois que sejam desvendados e superados os terrores do mundo capitalista, que ele tão bem visualizou. A partir do estudo sobre como se expressam e se concretizam no mundo real as relações de produção do sistema capitalista, Marx concluiu que não podia ser possível ao humano viver nessas condições. Ele não descobre a luta de classe, ele a põe em foco.

    Assim, segundo ele, uma vez que os trabalhadores desvelassem o véu da alienação que os mantêm presos a um sistema que oprime e mata, a única possibilidade seria a construção de uma forma autônoma e livre de viver, na qual sequer o estado seria necessário. Isso é o comunismo.

    Nessa forma de organizar a vida não haverá uma classe dominando a outra. Todos serão livres e administrarão a produção das coisas para o bem-viver. Cada um trabalhará conforme sua condição e receberá conforme sua necessidade. Não haverá divisão entre trabalho braçal e intelectual e todo o trabalho será considerado digno. Se a pessoa for trabalhar como lixeiro e tiver oito filhos para sustentar, ele receberá o suficiente para isso. Ninguém precisará mendigar, migrar, fugir, se prostituir, se destruir. O estado não será necessário, porque ele existe apenas como expressão de dominação de uma classe sobre a outra. Se não houver classes, para que estado? “Poderíamos empregar em vez de estado, a palavra comunidade”, diz Engels. 

    Aí se pode dizer: isso é uma bobagem. Tem que ter organização, tem que ter direção, tem que ter ordem. Mas, quem diz que não haverá? Haverá tudo isso, mas sem que alguém oprima o outro. Se cada um receber conforme a necessidade não será necessária a hierarquia entre os trabalhadores. O que hoje está numa posição de organizador da produção e do trabalho, amanhã pode não estar. E se está, vai receber o que precisa para viver. Nem mais, nem menos. O cargo que ocupa não lhe dará poderes sobre o outro. Não haverá patrão, uma vez que os bens produzidos serão coletivos, assim como a terra. E se tudo for assim, tão bom, haverá festa e haverá beleza, essas coisas doces, necessárias ao espírito. Essa é a ideia do comunismo evocada por Marx, que, é óbvio, irá se construindo e aprimorando pela ação das gentes.

    Alguém dirá: isso é um sonho. O ser humano não consegue ter maturidade suficiente para viver assim, livre, sem patrão. Ora, no tempo da escravidão, dizia-se que os escravos morreriam sem o dono. No tempo da servidão, dizia-se que os servos não existiriam sem os senhores feudais. E, se foram os donos de gente, e, se foram os senhores feudais. Que passou com a humanidade? Avançou. Por que raios, então, a humanidade não iria dar esse salto de qualidade? Todas as retrospectivas histórias mostram que sim.

    Agora, é fato que o comunismo não se fará em um passe de mágica, muito menos por decreto. Marx, Engels e Lenin escreveram muito sobre isso. Será necessário um tempo de transição, que é o socialismo. Esse tempo de transição preparará o caminho para o comunismo, a hora em que tudo será comum, comu-nitário. No socialismo ainda existem as classes, mas aí quem domina é a classe trabalhadora. E também será necessária a força, a burocracia, o estado. 

    Por isso não faz sentido a gritaria dos capitalistas contra propostas como as de Cuba, por exemplo. É um governo forte, um estado forte, no qual quem domina são os trabalhadores. Na luta de classes cubana, pela revolução, venceram os trabalhadores. Eles comandam agora, e não a burguesia. Ah, mas eles são truculentos, violentos, tem presos políticos. Sim, são violentos, como eram violentas as forças que submetiam os trabalhadores antes. Quem não se lembra da ditadura de Batista? Ah, mas então é o dente por dente? Não. É porque ainda não é o comunismo, não há ainda a maturidade necessária para esse modo de organizar. Precisa ter Estado, precisa ter a organização hierárquica. E se o estado é o instrumento de dominação de uma classe sobre a outra, essa dominação é a dos trabalhadores sobre a burguesia. Até que todos estejam prontos para o salto, a nova ordem, o novo mundo, o mundo necessário. O socialismo é um período em que vão se depurar os projetos.

    Assim que o comunismo, volto a dizer, é uma necessidade biológica. Porque nós, os humanos, temos esse desejo pelo que é bom, pela festa, pela beleza. Esse é o nosso propósito. Não é possível que a gente aceite, como raça, viver como estamos vivendo agora: oprimidos, violentados, massacrados, consumindo o planeta. Como os escravos e os servos nós também avançaremos para um tempo melhor. É infalível. 

    Por isso vamos caminhando, pavimentando essa estrada de maravilhas. Talvez nós mesmos não venhamos a viver nesse mundo sonhado. Mas, não importa. Para ele estamos indo, inexoravelmente, e ele já existe dentro de todos os que o acreditamos possível. Como o casulo se transforma em borboleta. Assim será!
     
    aqui:http://eteia.blogspot.pt/2016/02/por-que-se-teme-o-comunismo.html

    quinta-feira, 3 de março de 2016

    Munições perfurantes, choque tóxico – os EUA continuam a usar balas com urânio empobrecido


    por Phil Butler [*]
     
    O dia 28 de Fevereiro de 2016 foi o 25º aniversário do término da Operação Tempestade no Deserto, a fase de combate da Guerra do Golfo, a primeira guerra contra o Iraque. Este conflito foi um ponto de viragem na história dos EUA e mundial, mas as guerras que se seguiram no Afeganistão e no Iraque transformaram estes teatros de guerra em vastos desertos tóxicos. A Tempestade no Deserto inaugurou a utilização de generalizada de munições de urânio empobrecido (depleted uranium, DU), um tópico acerca do qual poucos porta-vozes oficiais querem falar publicamente. Agora a Síria está a tornar-se o campo de batalha mais recente onde as "armas reais" de destruição em massa estão a ser a posicionadas. Ainda que o Pentágono tenha manifestado uma mudança de rumo quanto à sua decisão de utilizar munições DU, a evidência cristalina ainda não confirma qualquer esforço real de reduzir sua utilização indiscriminada. Deveria ser observado que durante a Tempestade no Deserto as forças dos EUA e Reino Unido reconheceram abertamente terem disparado cerca de 286 mil quilogramas de balas DU entre 1990 e 1991. A vasta maioria da munição perfurante foi disparada dos tanques US Abrams e M60, bem como dos aviões de combate a tanques A10 e Harrier. Num avanço rápido para os dias de hoje, deparamo-nos com um Iraque obliterado, uma África do Norte em vários estados de confusão tensa e uma Síria em chamas. Dentro de cadinho mortal, a sombra tóxica das munições de urânio empobrecido ameaça combatentes e igualmente inocentes. Os efeitos colaterais associados à exposição de elementos com DU incluem nascimentos defeituosos, aborto, cancros desconhecidos e mais ainda.

    Examinar os efeitos da Tempestade do Deserto compõe uma horrenda convergência de industrialização do século XXI e uma nova espécie de argumentação ética. Se bem que as causas reais da chamada Síndrome da Guerra do Golfo (Gulf War Syndrome, GWS) ainda estejam a ser estudadas, os establishments militares e políticos não tomam posição sobre questões como a utilização do DU. Altamente eficazes em situações no campo de batalha, as balas extremamente pesadas de urânio empobrecido têm efeitos devastadores sobre alguns tipos de blindagem. Mas são as malignas características incendiárias da munição perfurante que tornam criminosa a sua utilização.

    Como me contou Jeffrey Silverman, chefe de departamento do Veterans Today, durante o treino em Fort Knox os operadores dos tanques não foram instruídos quanto aos riscos para a saúde de tais munições, dizendo "o que você não sabe não o prejudica – e se soubessem quais eram os riscos para civis, muitos certamente teriam outras ideias quanto à utilização destas munições".

    Silverman deveria saber, ainda em 2003, pois ajudou a conceber uma campanha de marketing social contra a utilização do urânio empobrecido no Afeganistão para o Islamic Relief com sede no Reino Unido – e efectuou muita investigação sobre o assunto. Como agora sabemos em retrospectiva, tanto no Afeganistão como na Tempestade do Deserto houve irradiação generalizada. No fim de 1991 toda fábrica, instalação militar e aviário estavam totalmente destruídos nos países atingidos. Os EUA e o Reino Unido claramente erradicaram não só a capacidade do país para funcionar como uma unidade como deixaram uma crise de saúde que só agora está a ser plenamente percebida.

    Na época em que George Bush Júnior confirmava perante o público americano [a existência de] armas de destruição em massa (WOMD), o país de Saddam Hussein mal começava a recuperar-se da Idade da Pedra imposta pelos EUA. A utilização de munições de urânio empobrecido foi tão extensa que alguns peritos consideraram que levaria décadas avaliar adequadamente o seu custo humano. Defeitos de nascimento, cancros de toda a espécie, pó radioactivo e quimicamente tóxico e a infiltração de urânio nos lençóis freáticos fizeram um deserto de um deserto.

    Assim, a desolação da terra arrasada de 2003 levou à irradiação subsequente. Esta reportagem de The Guardian fala de um período de três semanas no qual se estima que mais de 1000 toneladas de munições de urânio empobrecido foram utilizadas no Iraque pelas forças da coligação. A tragédia real para os americanos, contudo, foi o facto de que a liderança militar e estado-unidense sabia desde o princípio o impacto que estas armas teriam. Um relatório do US Army datado de 1990 apresenta claramente a munição de tungsténio como preferível à alternativa do DU. Além disso, o relatório "Kinetic Energy Penetrator Environmental and Health Considerations" submetido ao Exército fala especificamente da necessidade de uma "campanha de RP" para convencer o público da segurança do urânio empobrecido. Eis um excerto:
    "O tungsténio apresenta a vantagem de que não exige esforços de relações públicas. Os esforços de RP quanto ao DU podem ser montados com êxito dada a informação actual. Embora a litigação não tenha sido um problema até à data, pode haver mais riscos de litigação associados ao DU do que ao tungsténio".
    Aparentemente a administração Bush pouco se importou com a fricção internacional que a munição de urânio desencadearia, pois o relatório menciona a percepção negativa do público e a "reacção internacional adversa". A recomendação ao Exército é condenatória quando examinada à luz de hoje. Não só a administração de então ignorou o impacto negativo de RP como o Pentágono de 1991 de Bush pouco se importou em que a utilização da DU fosse "mais cara" do que balas revestidas com tungsténio. Aquilo era um mecanismo conveniente para se livrarem dos resíduos tóxicos de fábricas atómica e ganharem dinheiro com isso.

    Pode-se apenas assumir que alguém importante na administração do Pentágono quis o Iraque envenenado e devastado. Pelo menos isto é uma suposição razoável, na minha opinião. O povo do Iraque deve agora viver com os resíduos mortais de cerca de 860 mil balas DU disparadas apenas pelas forças estado-unidenses. A maior parte dos agricultores e cidadãos comuns do Iraque não tem noção destas armas, da contaminação remanescente que permanecerá no solo iraquiano mais tempo do que o nosso sistema solar tem de vida. O urânio empobrecido tem uma semi-vida de 4,5 mil milhões de anos – e isto não é uma gralha, leu correctamente.

    Sem dúvida os EUA e as forças da coligação destruíram o Iraque, do modo mais devastador possível. Um relatório do Middle East Research and Information Project revela esta destruição. Do lado que apoia o argumento do DU, think tanks como a Rand Corporation seguem sempre a "linha do partido", como fica claro neste relatório de 1999. A negação de qualquer conexão a doenças, face às provas esmagadora do sofrimento da Síndrome da Guerra do Golfo, é uma infâmia sobre a reputação da América.

    A utilização de munições DU em pontos quentes por todo o mundo desacelerou recentemente e a recente (suposta) meia-volta na utilização do urânio empobrecido é promissora. Mas isto exigiu um esforço maciço de grupos de veteranos e de ONGs à escala mundial, para inclinar a balança. Este filme documentário intitulado "Urânio 238: A piscina suja do Pentágono" ("Uranium 238: The Pentagon's Dirty Pool") venceu o prémio de melhor curta-metragem no "First International Uranium Film Festival". A existência de um festival de filmes desta natureza deveria alertar o leitor para as centenas de movimentos internacionais para a proibição deste armamento. Ainda assim, tão recentemente como em 2015, o Pentágono ainda estava a "procurar" substitutos para balas DU. Encontrei esta notícia na Coligação Internacional para Proibir Armas com Urânio (International Coalition to Ban Uranium Weapons). Nela, o Departamento da Defesa dos EUA procurava: "Identificar e produzir um material de baixo custo que atingisse ou excedesse o desempenho em energia cinética do urânio empobrecido (DU) em aplicações perfurantes". Este relatório (PDF) da Faculdade de Engenharia Mecânica da Universidade de Sarajevo pormenoriza a dispersão da munição PGU-14 durante ataques aéreos por aviões de combate A-10 próximo de áreas urbanas na Bósnia e Herzegovina em 1994 durante as operações "Deny Flight", "Allied Force" e "Deliberate Force", dentre outras incursões mais pequenas. O relatório é o mais minucioso e condenatório que pude encontrar, quanto às características e perigos das balas DU. No [momento do] impacto, os projécteis de urânio empobrecido transformam-se essencialmente em partículas inflamáveis de resíduos perigosos. As partículas incendiários são transformadas tanto em poeira como em aerosol, juntamente com fragmentos de alta velocidade que são radioactivos e/ou tóxicos. Descobri algo interessante e horrendo: que os melhores dados sobre a utilização de contaminação por DU vem sempre das vítimas. Além disso, a NATO e outros militares que utilizam balas DU raramente, sem é que alguma vez, divulgam informação que ajude países a descontaminar áreas atingidas por estas munições.

    Entretanto, na Síria, os EUA têm agora 10 Warthogs a voarem em missões de destruição dos tanques de petróleo do ISIL. Os A10 estão armados com o canhão GAU-8 de 30 mm da General Electric, uma metralhadora conhecida por disparar balas de urânio empobrecido à velocidade de 3900 por minuto. O anúncio do novo papel do A10 em resposta à campanha aérea da Rússia contra o ISIL ficou ofuscado quando o Pentágono anunciou que o avião anti-tanque permaneceria em serviço depois de 2020. O secretário da Defesa, Ash Carter, informou a imprensa acerca da continuação do avião anti-tanque, o que atraiu o louvor imediato do Sen. John McCain, republicano do Arizona e presidente do Comité de Serviços Armados do Senado. Aos A-10s baseados na Turquia foram creditados os ataques contra a infraestrutura petrolífera do ISIL e suas fortalezas. E muito embora a retórica do Pentágono tenha enfraquecido o protesto contra estas armas, a sua utilização aparentemente não foi diminuída pelos EUA. Focando o A10 em particular, o canhão de 30 mm do avião actualmente tem três opções de munição: o PGU-14/B API Armor Piercing Incendiary ( DU ); o PGU-13-B HEI High explosive incendiary, e uma bala para treino de alvo designada PGU-15/B TP.

    Quanto ao dano permanente que o urânio empobrecido já provocou, quatro estudos efectuados em 2012 mostram que o povo de Faluja tem "a mais alta taxa de dano genético em qualquer população já estudada". E quanto à teimosa determinação do governo dos EUA em aferrar-se ao urânio empobrecido apesar da devastação que as munições podem causar, o facto de que a General Dynamics e outros empreiteiros industriais-militares serem os únicos produtores merece escrutínio.

    Quando eu estava em serviço activo na US Navy, o Grupo de Aproximação em Sistemas de Armas (Phalanx Close in Weapons System, CIWS) acabara de ser desenvolvido. Não houve surpresa para aqueles que se beneficiavam economicamente com tal munição. Além disso, não se deveria ficar chocado por acontecer de a General Dynamics ser a única produtora das balas de 20 mm MK149 DU dos sistemas de fogo embarcados do CIWS. Quanto ao outro fabricante DU, companhias como a Honeywell ou Orbital ATK ganham milhões com a manufactura de tais munições. Basta uma investigação rudimentar dos comunicados de imprensa da companhia para perceber como o negócio está a prosperar. E por simples acaso isto coincide com zonas de crise todo o mundo. Um comunicado de imprensa da Orbital, por exemplo, fala-nos de um novo escritório aberto no fim do ano passado na Arábia Saudita. A Orbital ATK recentemente foi premiada com um contrato de US$105 milhões para produzir a "próxima geração" de balas M1A1 Abrams anti-tanque, designadas M829A4, em 12 de Outubro de 2015. Agora é claro que o Pentágono e os planeadores políticos, aqueles que fazem a maior parte dos donativos de campanha, não têm qualquer intenção de eliminar seus stocks de urânio empobrecido dentro em breve, a menos que [não] possam encontrar a próxima frente de batalha para utilizá-lo.

    Em conclusão

    Os militares dos Estados Unidos, e seus parceiros da NATO, incluindo a Turquia, para eliminar seguramente os seus stocks maciços de velha munição DU precisam utilizá-lo sobre algum país inocente como dispositivo preferencial de remoção. E para tornar a situação ainda pior, adivinhe quem é pago para dar destino àquela velha munição. Adivinhou – fornecedores como a General Dynamics não só são pagos para desmontar a munição mais velha. E por doentio que isto soe, eles [os mesmos empreiteiros da defesa] ganham novos contratos para fornecer outra vez munição DU actualizada. Com base um artigo do Counterpunch , o ataque furioso de devastação, mentiras e conivência conectado a estas armas e munição é criminoso. As corporações dos EUA estão agora posicionadas para colher lucros inesperados. Elas não têm responsabilidade moral ou legal, irradiando e tornando tóxicas regiões inteiras, isso é apenas parte do negócio. Quem está a discutir os efeitos a longo prazo e inter-geracionais das munições DU? Oficialmente as questões de saúde e segurança ainda não são plenamente conhecidas e serão muito piores do que aquilo que soubemos do Agente Laranja durante o Vietname. Enquanto isso os sabichões só falam a uma distância segura do grau aceitável de danos colaterais. Tudo isso enquanto os EUA e o Reino Unidos continuam a fazer o que "sabem demasiado bem" ser um crime de guerra. Como cidadãos temos todos o dever de sermos os supervisores, pois é claro que a supervisão governamental não existe e aqueles em posição para tal foram subornados e estão moralmente em bancarrota. Aparentemente os "think thanks" de Washington e o Pentágono criaram uma guerra total, arrasam a Terra para irradiar todos os povos e regiões.

    Por favor, provem-me que estou errado!
     

    Ver também:

  • DU, o horror que o imperialismo espalha por todo o planeta
  • Mísseis de cruzeiro com urânio empobrecido sobre a Líbia
  • O urânio e a guerra
  • Urânio empobrecido: Bombas sujas, mísseis sujos e balas sujas
  • Uma questão de integridade
  • Urânio empobrecido: Um crime de guerra dentro de uma guerra criminosa
  • Vindo do Iraque, um trágico apelo ao processo dos criminosos de guerra
  • O urânio empobrecido retorna aos EUA

  • International Coalition to Ban Uranium Weapons

    [*] Analista e cientista político, perito em Europa do Leste.

    O original encontra-se em journal-neo.org/...


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
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