O sofrimento das
crianças vende audiências e os terroristas sírios fazem-no até ao
cadáver. Por cá, Costa e Marcelo assobiam marchas militares e seguem o
chefe. Restam-nos a vergonha e o nojo.
Fotografia
do documentário de Vanessa Beeley sobre os «capacetes brancos», segundo
a agência SANA, que cita Beeley como tendo posto a descoberto que o
grupo é uma criação propagandística criado por James Le Mesurier,
ex-oficial de informações militares britânico. CréditosFonte: Beirut Press
Riam
Dalati é um produtor de informação internacional da circunspecta BBC
britânica, a trabalhar como enviado especial na Síria desde 2012. Em 11
de Abril, enquanto o mundo dito «informado» e «civilizado» esperava que
ilustres democratas como Trump, May e Macron ajustassem contas com os
autores do «grande massacre químico de Duma», que teria provocado um
número tão indefinido de vítimas que cabe algures entre 50 e 500, a
paciência de Dalati esgotou-se:
O
tweet esteve pouco tempo exposto, antes de se sumir nos subterrâneos
censórios da rede, o que não impediu a reprodução da mensagem à
velocidade da luz, através da internet. É certo que não chegou aos
consumidores da informação digna e com chancela de qualidade que a põe a
salvo de qualquer risco de contaminação pela «propaganda russa», mas
despertou milhões para uma realidade cada vez mais difícil de esconder.
Em
tweet anterior, Riam Dalati já mostrara o seu inconformismo perante as
versões oficiais postas a circular sobre o que acontecera em Duma, desmontando
então a foto do «último abraço», a chocante imagem com que os
«Capacetes Brancos», destacamento dos serviços secretos britânicos,
agitaram a opinião pública mundial. Os cadáveres de duas crianças
mortas em andares separados de um prédio que desabou em Duma – como
testemunham fotos captadas imediatamente a seguir à tragédia – foram
depois colocados lado-a-lado, em posição de dramático abraço, para as
fotos captadas no local de recolha e identificação das vítimas. É
difícil qualificar adequadamente os seres humanos capazes de tais
práticas necrófilas.
Os frequentadores do jornalismo sério,
profissional e independente já tinham posto os olhos numa extraordinária
reportagem do enviado da BBC, dada a conhecer em 13 de
Novembro passado, na qual expôs minuciosamente, sem margem para dúvidas
nem espaço para teses conspirativas, abundantes provas de que as
potências da NATO, tão expeditas em bombardear arsenais químicos sem
libertar um átomo de veneno para a atmosfera, estavam a mobilizar os
próprios meios militares para dar fuga e encaminhar para novas regiões
de acolhimento os terroristas do Estado Islâmico derrotados em Raqqa, o
seu quartel-general na Síria ocupada. «O segredo sujo de Raqqa» é o título dado por Dalati ao seu trabalho.
«Todos os génios que dizem
que Assad matou essas crianças saberão o que estão a dizer? Claro que
não sabem. Estão a inventar. Não fazem ideia nenhuma do que aconteceu».
Poderia
continuar esta caminhada, de caso em caso, de profissional em
profissional. Citar os vídeos e as fotos testemunhando que, nas zonas
sírias controladas por terroristas, «moderados» ou não, há lugares onde
as crianças são treinadas a simular os efeitos de ataques químicos, numa
espécie de concursos em que são distinguidas as que melhor interpretam,
por exemplo, os espasmos da agonia; ou então dar voz às declarações de
pessoas que participaram nessas encenações, identificando-se a elas
próprias nos vídeos em que foram figurantes.
Para muitos, através
do mundo, a verdade destas mentiras montadas para não deixar esmorecer a
guerra tornou-se um facto admissível, ou mesmo inquestionável.
Para
muitos outros subsiste o natural cepticismo. Os efeitos da tese da
teoria da conspiração são fortes e duradouros. Além disso, a guerra de
propagandas é inerente aos conflitos militares, muito mais em situações,
como a da Síria, onde se enfrentam, agora directamente, as mais
poderosas potências mundiais.
A posição cúmplice de Portugal: lamentável, confrangedora e ultrajante
Há
que distinguir, porém, entre o cidadão comum, certamente mais
dependente da comunicação social que lhe chega sem fazer qualquer
esforço, daqueles que têm outros níveis de responsabilidade política e
social, como os deputados, os ministros, o primeiro-ministro, o Chefe de
Estado.
É lamentável que a maioria dos eleitos da Assembleia da
República tenham dado como confirmada a história do suposto ataque
químico de Duma, apenas com base na versão dos «Capacetes Brancos», e
não se informassem mais pluralmente antes de votar – assumindo como
dogma as posições belicistas da NATO e da União Europeia, como seu braço
civil.
É
confrangedor que o primeiro-ministro António Costa tenha permitido que o
Chefe de Estado envolvesse o governo na sua grotesca e submissa
declaração de cumplicidade com uma agressão militar ilegal; e que, não
contente com isso, tenha adoptado o mesmo tom subserviente na sua
própria declaração. Como se estivesse a penitenciar-se aceitando
humildemente, e como merecidos, os puxões de orelhas que, pelos vistos,
recebeu por não ter expulsado diplomatas russos na sequência da história
de venenos e espiões que cheira a aldrabice de uma ponta à outra.
É
ultrajante e abusivo para os portugueses que o Presidente da República,
também renomado professor de Direito, tenha associado Portugal ao mais
descaradamente ilegal acto de guerra praticado por aqueles a quem
qualificou como «amigos e aliados», corresponsabilizando-se, deste modo,
por um acto criminoso contra um país e um povo soberanos que viola o
direito internacional da forma mais grosseira possível.
Maioria
de deputados, governo e Presidente da República assumiram-se assim como
cúmplices de um acto fora-de-lei na cena internacional; acataram, sem
reticências, pretextos e alegações que ou já se revelaram
inquestionáveis mentiras ou carecem de investigação por organismos
credíveis.
À hora a que o Chefe de Estado proferiu a
profissão de fé validando as razões da agressão contra a Síria já tinha
obrigação de saber que os agressores mentiram deliberadamente: os locais
alvejados não guardavam armas químicas, ao contrário do invocado,
porque não consta que deles tenha brotado sequer um átomo de veneno para
as imediações.
A irresponsabilidade de Marcelo Rebelo de Sousa ao
abusar da palavra em nome dos seus concidadãos foi mais longe: envolveu
o país num acto de guerra que, se tivesse corrido de acordo com os fins
e segundo as circunstâncias descritas pelos autores, provocaria, então
sim, um autêntico ataque químico susceptível de arrasar todas as formas
de vida em redor.
Um parênteses: a guerra humanitária de Theresa May
Tratou-se,
portanto, de um atentado de terrorismo de Estado praticado contra a
Síria, hipocritamente em nome dos direitos humanitários do povo sírio,
através de uma cruzada para atenuar «o seu sofrimento», como
beatificamente sentenciou Theresa May, a primeira-ministra britânica.
Que tem como marido e conselheiro um gestor de topo do Capital Group,
fundo de investimento que possui cerca de dez por cento da Lockheed
Martin, gigante da indústria da morte e fabricante dos mísseis de
cruzeiro JASSM, que se estrearam neste acto piedoso contra território
sírio, assim gerando um merecido reforço de lucros a quem os fabrica e
financia. Cada unidade desses mísseis custa a modesta quantia de milhão e
meio de euros. E cada acção da Lockheed Martin valorizou-se 2,3% na
primeira sessão de bolsa a seguir ao dia do bombardeamento.
Da Cimeira das Lajes à actualidade, vamos de mal a pior
Para
a História, e para que se interpretem objectivamente eventuais
acontecimentos vindouros que poderão não ocorrer por «azar» ou ser «obra
do acaso», fica o facto de as autoridades portuguesas em funções terem
conseguido ultrapassar, em cota de desprezo pelo direito internacional, o
comportamento das que, há 15 anos, arrastaram o país para a conivência
com a invasão terrorista do Iraque. Nesse caso, a guerra assentou em
mentiras, mas foi suportada por uma resolução do Conselho de Segurança
da ONU; nos dias que correm, a guerra baseia-se em mentiras, trava-se
sem mandato das Nações Unidas e mesmo contra a Carta das Nações Unidas.
Dentro das atitudes condenáveis, o país foi levado de mal a pior.
A
escassos dias das celebrações do 44º aniversário da Revolução de Abril,
Portugal surge enrodilhado numa teia vergonhosa e perigosa de
ilegalidade internacional, com expressões terroristas; uma teia tecida
pela NATO e pela União Europeia, assente na habitual invocação cínica
dos direitos humanos, da liberdade e da democracia. Valores reduzidos um
pouco mais a pó, dia após dia, mercê de tão vigorosos como permanentes
espezinhamentos.
Esqueçam
tudo quanto eventualmente ouviram dizer de mal a Macron, May, Juncker,
Merckel, Marcelo, Costa e muitos outros parceiros garbosamente
«atlantistas» e «europeístas», a propósito de Donald Trump; e que possam
soar como condenações, discordâncias, até reparos irónicos,
manifestações de dissidência, acusações contundentes sobre a pessoa e a
conduta do presidente norte-americano em exercício. Não passam de
exercícios políticos inconsequentes, palavras ditadas pelo oportunismo
do politicamente correcto, afinal sem conteúdo nem verdadeira acrimónia.
A
partir de agora, porém, quaisquer reparos críticos ao presidente
norte-americano dirigidos pelos seus «amigos e aliados» terão, logo que
proferidos, tanta consistência como as verdades oficiais em torno do
ataque químico em Duma, das tentativas de liquidação dos Skripal, ou dos
arsenais químicos aniquilados pelos mísseis que consumaram a agressão
de 14 de Abril contra a Síria, provavelmente o prólogo de algo mais
substancial e catastrófico que paira agora um pouco mais ameaçador sobre
o planeta. O grupo naval do porta-aviões norte-americano «Harry S.
Truman» saiu há poucos dias de Norfolk, provavelmente em direcção às
imediações da Síria, pelo que ainda são necessárias algumas semanas
antes de estar operacional para a nova missão. Qual será?
Coisa
pacífica e pacificadora não será, por certo. Porém, digníssimos
dirigentes como Macron, May, Merckel, Rajoy, Tusk, Orban, Costa e
Marcelo não precisam de se preocupar nem de se desviar das ocupações
diárias, por exemplo cortar décimas do défice, salários de quem
trabalha, direitos de cidadania.
Todos sabem, de cor e salteado, o
que fazer quando a altura chegar: tal como agora, basta-lhes seguir o
chefe, ainda que o chefe de turno se chame Donald Trump.
Entre os líderes políticos do ocidente não há nem
um grama de integridade ou moralidade. Os media impressos e a TV do ocidente
são desonestos e corruptos para além de qualquer conserto. Mas o
governo russo persiste na sua fantasia de "trabalhar com os parceiros
ocidentais da Rússia". O único meio de a Rússia poder
trabalhar com bandidos é ela própria tornar-se uma bandida.
Será isso o que quer o governo russo?
Finian Cunningham nota o absurdo do alvoroço entre os políticos e
o media acerca do (tardio) telefonema a Putin para congratulá-lo pela
sua reeleição com 77 por cento dos votos, uma mostra de
aprovação pública que nenhum líder político
ocidental poderia atingir. O enlouquecido senador do Arizona chamou a pessoa
com a maior maioria de votos do nosso tempo de "um ditador". Mas um
ditador real empapado em sangue na Arábia Saudita é festejado na
Casa Branca e bajulado pelo presidente dos Estados Unidos.
www.informationclearinghouse.info/49069.htm
Os políticos e presstitutos ocidentais estão moralmente
ultrajados acerca de um alegado envenenamento, não apoiado por qualquer
prova, de um antigo espião sem importância às ordens do
próprio presidente da Rússia. Esta espécie de insultos
insanos lançados ao líder da mais poderosa nação do
mundo em termos militares – e a Rússia é uma
nação, ao contrário dos mestiços países
ocidentais – levanta as probabilidade de um Armagedão nuclear muito
superior aos riscos incorridos durante a Guerra Fria do século XX. Os
loucos insanos que fazem estas acusações não provadas
mostram desrespeito total por toda a vida sobre a terra. Eles encaram-se como o
sal da terra e como pessoas "excepcionais, indispensáveis".
Pense acerca do alegado envenenamento de Skirpal pela Rússia. O que pode
ser isto senão um esforço orquestrado para demonizar o presidente
da Rússia? Como pode o ocidente estar tão ultrajado com a morte
de um agente duplo, isto é, de uma pessoa enganosa, e completamente
indiferente aos milhões de pessoas destruídas pelo ocidente
só no século XXI. Onde está o ultraje entre os povos
ocidentais quanto às mortes maciças pelas quais o ocidente, a
actuar através do seu agente saudita, é responsável no
Iémen? Onde está o ultraje ocidental entre os povos do ocidente
acerca dos mortos na Síria? Os mortos na Líbia, na
Somália, no Paquistão, na Ucrânia, no Afeganistão?
Onde está o ultraje no ocidente quanto à constante
interferência ocidental nos assuntos internos de outros países?
Quantas vezes Washington derrubou um governo democraticamente eleito nas
Honduras e reinstalou um fantoche seu?
A corrupção no ocidente estende-se para além de
políticos, presstitutos e um displicente público de peritos.
Quando a ridículo Condi Rici, conselheira de segurança nacional
do presidente George W. Bush, falou de armas de destruição e
massa de Saddam Hussein, não existentes, a enviarem uma nuvem nuclear
sobre uma cidade americana, tais peritos não se riram dela. A
probabilidade de um evento assim era precisamente zero e todo perito sabia
disso, mas os peritos corruptos mantiveram suas bocas caladas. Se eles falassem
a verdade, sabiam que não ficariam na TV, não obteriam uma
gratificação do governo, estariam fora de cogitação
para uma nomeação governamental. Assim, aceitaram a mentira
absurda destinada a justificar uma invasão americana que destruiu um
país.
Isto é o ocidente. Não há nada senão mentiras e
indiferença para com as mortes de outros. O único ultraje
é orquestrado e dirigido contra um alvo: o Taliban, Saddam Hussein,
Gaddafi, Irão, Assad, Rússia e Putin, e contra líderes
reformistas na América Latina. Os alvos do ultraje de Washington
são sempre aqueles que actuam independentemente de Washington ou que
já não são úteis para os seus propósitos.
A qualidade das pessoas em governos ocidentais chegou ao colapso, ao
próprio fundo do barril. Os britânicos realmente têm uma
pessoa, Boris Johnson, como secretário do Exterior que é
tão desprezado que um antigo embaixador britânico não tem
escrúpulos em chamá-lo categoricamente como mentiroso.
www.informationclearinghouse.info/49067.htm
O laboratório britânico de Porton Down, ao contrário
da
afirmação de Johnson, não identificou o agente associado
com o ataque a Skirpal como um agente novichok russo. Note-se também que
se o laboratório britânico é capaz de identificar um agente
novichok, também tem a capacidade de produzi-lo, uma capacidade que
têm muitos países pois as fórmulas foram publicadas anos
atrás num livro.
Que o envenenamento por novichok de Skirpal é uma
orquestração é óbvio. No minuto em que o evento
ocorreu a narrativa estava pronta. Sem qualquer evidência à
mão, o governo britânico e os media presstitutos estavam a berrar
"os russos fizeram isto". Não contente com isso, Boris Johnson
berrou: "Putin fez isto". A fim de incutir temor e
ódio à Rússia na consciência britânica,
ensinam às crianças nas suas escolas que Putin é como
Hitler.
russia-insider.com/...
Orquestrações tão flagrantes como esta demonstram
governos ocidentais sem respeito pela inteligência dos
seus povos. Que governos ocidentais escapem impunes a estas mentiras
fantásticas indicam que os mesmos são imunes à
responsabilização. Mesmo se a responsabilização
fosse possível, não há sinal de que povos ocidentais sejam
capazes de fazer com que seus governos sejam responsabilizados. Quando
Washington conduz o mundo à guerra nuclear, onde estão os
protestos? O único protesto é de escolares com cérebro
lavado a queixarem-se da National Rifle Association e da Segunda Emenda.
A democracia ocidental é uma farsa. Considere-se a Catalunha. O povo
votou pela independência e foi denunciado por fazer isso pelos
políticos europeus. O governo espanhol invadiu a Catalunha alegando que
o referendo popular, no qual o povo exprimiu sua opinião acerca do seu
próprio futuro, era ilegal. Líderes catalães estão
na prisão à espera de julgamento, excepto Carles Puigdemont que
escapou para a Bélgica. Agora a Alemanha capturou-o no seu retorno
à Bélgica vindo da Finlândia, onde deu uma
conferência na Universidade de Helsínquia e está a
mantê-lo preso para um governo espanhol que tem mais semelhança
com Francisco Franco do que com democracia.
www.rt.com/news/422269-catalan-puigdemont-detained-germany/
A própria União Europeia é uma conspiração
contra a democracia.
O êxito da propaganda ocidental em atribuir a si próprio virtudes
não existentes é o maior êxito de relações
públicas da história.
A semana que acaba de decorrer foi extraordinariamente rica em
acontecimentos. Mas nenhum média esteve à altura de dar conta deles já
que todos mascararam deliberadamente alguns dos factos para proteger a
narrativa que, a propósito, divulgava o seu governo. Londres tentou
provocar um grande conflito, mas perdeu face à Rússia, ao Presidente
Trump e à Síria.
Embora
dispondo do quarto exército no mundo, o Reino Unido não pode desafiar a
Rússia sem se apoiar em aliados. Tem, portanto, que inventar um casus
belli, e fazer os seus parceiros reagir para os levar a exporem-se junto
com ele.
O governo britânico e alguns dos seus aliados, entre
os quais o Secretário de Estado, Rex Tillerson, tentaram lançar um
esquema de Guerra Fria contra a Rússia.
O seu plano previa, por um lado, encenar um atentado contra um
ex-agente duplo em Salisbury e, por outro, um ataque químico contra os
«rebeldes moderados» na Ghuta. Os conspiradores pretendiam aproveitar-se
do esforço da Síria a libertar os subúrbios da sua capital e da
distração da Rússia por ocasião da sua eleição presidencial. Na
sequência destas manipulações, o Reino Unido teria pressionado os EUA a
bombardear Damasco, incluindo o palácio presidencial sírio, e pedido à
Assembleia Geral da ONU para excluir a Rússia do Conselho de Segurança.
No entanto, os Serviços de Inteligência sírio e russo souberam do que
se tramava. Eles ficaram convictos que os agentes dos EUA que
preparavam, a partir da Ghuta, um ataque químico contra a própria Ghuta
não dependiam do Pentágono, mas, antes de uma outra agência dos EUA.
Em Damasco, o Vice-ministro das Relações Exteriores, Fayçal Miqdad,
convocou de urgência uma conferência de imprensa, a 10 de Março, para
alertar os seus concidadãos. Por seu lado, Moscovo primeiro tentou
alertar Washington pelos canais diplomáticos. Mas, sabendo que o
Embaixador dos EUA, Jon Huntsman Jr, é administrador da Caterpillar, a
qual forneceu tuneladoras (tatuzões-br) aos jiadistas para que eles
construissem as suas fortificações, tentou contornar a via diplomática
normal.
Eis, pois, como os acontecimentos se encandearam :
12 de Março de 2018
O Exército sírio capturou dois laboratórios de armas químicas, o
primeiro a 12 de Março, em Aftris, e o segundo no dia seguinte, em
Shifunya. Enquanto a diplomacia russa pressiona a Organização para a
Proibição de Armas Químicas (OPAQ) a entrar na investigação criminal de
Salisbury.
A Primeira-ministro britânica, Theresa May, acusa violentamente a
Rússia, na Câmara dos Comuns, de ter comanditado o atentado de
Salisbury. Segundo ela, o ex-agente duplo Serguei Skripal e a sua filha
teriam sido envenenados com uma substância militar neurotóxica do tipo
«desenvolvido pela Rússia» sob o nome de “novitchok”. Sabendo que o
Kremlin considera os seus cidadãos que desertaram como alvos legítimos,
seria, pois, altamente provável que tivesse comanditado o crime.
O “novitchok” é conhecido através do que revelaram a propósito duas
personalidades soviéticas, Lev Fyodorov e Vil Mirzayanov. O cientista
Fyodorov publicou um artigo no semanário russo Top Secret
(Совершенно секретно), em Julho de 1992, alertando para a extrema
periculosidade deste e chamando a atenção contra a utilização de antigas
armas soviéticas, pelos Ocidentais, para destruir o meio ambiente na
Rússia e torná-la inviável. Em Outubro de 1992, ele publicou um segundo
artigo no Novidades de Moscovo (Московские новости), junto com um
responsável da contra-espionagem, Mirzayanov, denunciando a corrupção
de certos generais e o tráfico de “novitchok” ao qual se dedicariam.
Eles ignoravam a quem o teriam podido vender. Mirzayanov foi primeiro
preso por alta traição, depois libertado. Se Fyodorov morreu na Rússia,
em Agosto passado, Mirzayanov vive no exílio nos Estados Unidos, onde
ele colaborou com o Departamento da Defesa.
O
antigo oficial russo da contra-espionagem Vil Mirzayanov desertou para
os Estados Unidos. Aos 83 anos, ele comenta o «caso Skripal» a partir de
Boston.
O “novitchok” era fabricado num laboratório soviético em Nurus, no
actual Uzbequistão. Aquando da dissolução da União Soviética, ele foi
destruído por uma equipe norte-americana especializada. O Uzbequistão e
os Estados Unidos, portanto, obrigatoriamente possuíram e estudaram
amostras desta substância. Ambos são capazes de o produzir.
O Ministro britânico dos Negócios Estrangeiros ( Relações
Exteriores-br), Boris Johnson, convoca o Embaixador russo em Londres,
Alexander Yakovenko. Apresenta-lhe um ultimato de 36 horas para
verificar se falta “novitchok”nos seus stocks (estoques-br). O
Embaixador responde-lhe que não falta nada porque a Rússia destruiu a
totalidade das armas químicas herdadas da União Soviética e a OPCW
(OPAQ) pronunciou-se a propósito.
Após uma conversa telefónica com Boris Johnson, o Secretário de
Estado dos EUA, Rex Tillerson, condena, por sua vez, a Rússia pelo
atentado de Salisbury.
Enquanto isso, um debate sobre a situação na Ghuta desenrola-se no
Conselho de Segurança da ONU. A Representante permanente dos Estados
Unidos, Nikki Haley, afirma aí: «Há quase um ano, após o ataque de gás
sarin perpetrado em Khan Sheikun pelo regime sírio, os Estados Unidos
tinham alertado o Conselho. Dissemos que, face à inação sistemática da
comunidade internacional, os Estados, por vezes, são obrigados a agir
por conta própria. O Conselho de Segurança não agiu, e os Estados Unidos
atacaram a base aérea a partir da qual al-Assad lançara o seu ataque de
armas químicas. Nós reiteramos o mesmo aviso hoje.
Os Serviços de Inteligência russos fazem circular documentos do
Estado-maior norte-americano. Eles mostram que o Pentágono está prestes a
bombardear o palácio presidencial e os ministérios sírios, dentro do
modelo do que fez aquando da tomada de Bagdade (3 a 12 de Abril de
2003).
Comentando a declaração de Nikki Haley, o Ministério russo dos
Negócios Estrangeiros, que sempre qualificou o caso de Khan Sheïkhun de
«manipulação ocidental», revela que as falsas informações, que induziram
na altura a Casa Branca em erro e a levaram a bombardear a base de
Al-Shayrat, provinham de um laboratório britânico que nunca indicou como
tinha recolhido as amostras.
13 de Março de 2018
O Ministério russo dos Negócios Estrangeiros publica um comunicado
condenando uma possível intervenção militar dos EUA e anunciando que se
cidadãos russos fossem atingidos em Damasco Moscovo ripostaria de
maneira proporcional ; uma vez sendo o Presidente russo
constitucionalmente responsável pela segurança dos seus concidadãos.
Contornando a via diplomática, o Chefe do Estado-Maior russo, o
General Valeri Guerassimov, contacta o seu homólogo americano, o General
Joseph Dunford, para o informar sobre os seus receios quanto a um
ataque químico de bandeira falsa na Ghuta. Dunford toma o assunto muito a
sério e alerta o Secretário da Defesa dos EUA, o General Jim Mattis,
que refere o caso ao Presidente Donald Trump. Tendo em vista a garantia
dada pelos Russos, segundo os quais este golpe sujo estaria preparado à
revelia do Pentágono, a Casa Branca pede ao Director da CIA, Mike
Pompeo, para identificar os responsáveis deste complô.
Ignoramos o resultado dessa investigação interna, mas o Presidente
Trump ganha a convicção quanto à implicação do seu Secretário de
Estado, Rex Tillerson. Este é imediatamente convidado a interromper a
sua viagem oficial em África e a voltar para Washington.
Theresa May escreve ao Secretário-geral da ONU para acusar a Rússia
de ter comanditado o atentado de Salisbury e para convocar uma reunião
de urgência do Conselho de Segurança. De imediato, ela expulsa 23
diplomatas russos.
Publicado
um mês e meio antes do atentado de Salisbury, o livro de Amy Knight
apresenta o que se vai tornar a tese do MI5. A autora afirma, por si
mesma, que não tem a menor prova do que escreve.
A pedido da Presidente da Comissão do Interior da Câmara dos Comuns,
Yvette Cooper, a Secretária britânica do Interior, Amber Rudd, anuncia
que o MI5 (Serviço Secreto Militar do Interior) vai reabrir 14
inquéritos sobre mortes que, segundo fontes dos EUA, teriam sido
comanditadas pelo Kremlin.
Ao fazê-lo, o governo britânico adopta as teorias da professora Amy
Knight. A 22 de Janeiro de 2018, esta sovietóloga dos EUA publicava um
livro muito estranho: «Ordens para matar: o regime de Putin e o assassinato político».
A autora, que é «a» especialista do antigo KGB, tenta aí demonstrar que
Vladimir Putin é um assassino em série, responsável por dezenas de
assassinatos políticos, indo desde os atentados de Moscovo, em 1999, até
aos da Maratona de Boston, em 2013, passando pela execução de Alexander
Litvinenko em Londres, em 2006, ou a de Boris Nemtsov em Moscovo, em
2015. No entanto, ela confessa, por si própria, que não há nenhuma prova
quanto às suas acusações.
Os liberais europeus entram na dança. O antigo Primeiro-ministro
belga, Guy Verhofstadt, que preside o seu grupo no Parlamento Europeu,
exorta a UE a lançar sanções contra a Rússia. O seu homólogo à cabeça do
correspondente Partido britânico, Sir Vince Cable, propõe um boicote
europeu ao Campeonato do Mundo de futebol. Desde logo, o Palácio de
Buckingham anuncia que a família real cancela a sua viagem à Rússia.
A autoridade reguladora britânica, a Ofcom, anuncia que poderia
proibir o canal de Tv Russia Today a título de retaliação, muito embora
esta não tenha, de forma alguma, violado as leis britânicas.
O Ministério russo dos Negócios Estrangeiros convoca o Embaixador
britânico em Moscovo para o informar que medidas de reciprocidade lhe
serão indicadas em breve, em retorsão pela expulsão de diplomatas russos
de Londres.
O Presidente Trump anuncia no Twitter que demitiu o seu Secretário de
Estado, com o qual não tinha ainda entrado em contacto. Ele é
substituído por Mike Pompeo, ex-Director da CIA, que confirmou na
véspera a autenticidade das informação russas transmitidas pelo General
Dunford. Chegado a Washington, Tillerson recebe a confirmação da sua
demissão pelo Secretário-geral da Casa Branca, o General John Kelly.
O
antigo patrão da maior multinacional no mundo, ExxonMobil, julgava-se
acima da barafunda. Para sua grande surpresa, Rex Tillerson foi
brutalment despedido por Donald Trump. O primeiro pensava servir o mundo
anglo-saxónico, enquanto o segundo o considerou como um traidor à sua
pátria.
O ex-Secretário de Estado, Rex Tillerson, é originário da burguesia
texana. A sua família e ele próprio fizeram parte dos Escoteiros
norte-americanos, dos quais se tornou o Presidente nacional (2010-12).
Culturalmente próximo da Inglaterra, não hesitou, assim que se tornou
tornou Presidente da mega multinacional Exxon-Mobil (2006-16), tanto a
realizar uma campanha politicamente correcta para aceitar jovens gays
entre os Escoteiros, como a recrutar mercenários na Guiana Britânica.
Ele seria membro da Pilgrims Society, o mais prestigiado clube
anglo-americano, presidido pela Rainha Isabel II, do qual inúmeros
membros fizeram parte da Administração Obama.
Durante as suas funções na Secretaria de Estado, a sua esmerada
educação forneceu uma caução a Donald Trump, considerado pela alta
sociedade dos EUA como um histrião. Ele entrou em conflito com o seu
Presidente sobre três assuntos importantes que nos permitem definir a
ideologia dos conspiradores :
Como
Londres e o Estado profundo dos EUA, ele julgava útil demonizar a
Rússia para consolidar o Poder dos Anglo-Saxónicos no campo ocidental ;
Como
Londres, ele julgava que para manter o colonialismo ocidental no
Médio-Oriente, era preciso favorecer o Presidente iraniano Xeque Rohani
contra o Guia da Revolução o aiatola Khamenei. Ele apoiava portanto o
acordo dos 5+1.
Como
o Estado profundo dos EUA, ele considerava que a báscula da Coreia do
Norte em direcção aos Estados Unidos devia permanecer secreta e ser
utilizada para justificar um avanço militar dirigido, na realidade,
contra a China popular. Era, portanto, favorável a conversações oficiais
com Pyongyang, mas oposto a um encontro entre os dois chefes de Estado.
14 de Março de 2018
No momento em que Washington está em estado de choque, Theresa May
intervém novamente, na Câmara dos Comuns, para aí desenvolver a sua
acusação, enquanto no mundo inteiro os diplomatas britânicos tomam a
palavra em inúmeras organizações inter-governamentais para lhes
transmitir a mensagem. Respondendo à Primeira-ministro, o deputado
blairista, Chris Leslie, qualifica a Rússia de “Estado-canalha” e pede a
sua suspensão do Conselho de Segurança da ONU. Theresa May
compromete-se a examinar a questão, frisando, ao mesmo tempo, que isso
só poderia ser decidido pela Assembleia Geral afim de contornar o veto
russo.
O Conselho do Atlântico Norte (OTAN) reúne-se em Bruxelas a pedido do
Reino Unido. Os 29 Estados-membro estabelecem uma ligação entre a
utilização de armas químicas na Síria e o atentado de Salisbury. Eles
consideram a Rússia como «provavelmente» responsável por estes dois
acontecimentos.
Jens
Stoltenberg, Secretário-geral da OTAN, e a representante permanente do
Reino Unido no Conselho do Atlântico Norte, Sarah MacIntosh. Esta é a
antiga directora para as questões de Defesa e de Inteligência no
Ministério britânico dos Negócios Estrangeiros, posto que deixou a
Jonathan Allen, actual Encarregado de Negócios na ONU.
Em Nova Iorque, o Representante permanente da Rússia, Vasily
Nebenzya, propõe aos membros do Conselho de Segurança a adopção de uma
declaração atestando a sua vontade comum em lançar luz sobre o atentado
de Salisbury e em confiar a investigação à OPAQ, dentro do respeito
pelos procedimentos internacionais estabelecidos. Mas, o Reino Unido
rejeita qualquer texto que não inclua a expressão segundo a qual a
Rússia seria «provavelmente responsável» pelo atentado.
Durante o debate público que se segue, o Encarregado de Negócios do
Reino Unido, Jonathan Allen, representa o seu país. É um agente do MI6,
que criou o serviço de propaganda de guerra do Reino Unido e deu o seu
apoio activo aos jiadistas na Síria. Ele declara : «A Rússia já
interferiu nos assuntos de outros países, a Rússia já violou o Direito
Internacional na Ucrânia, a Rússia despreza a vida de civis, como o
demonstra o ataque a um avião comercial por cima da Ucrânia por
mercenários russos, a Rússia protege o emprego por Assad de armas
químicas (...) O Estado russo é responsável por esta tentativa de
assassínio. O Representante permanente da França, François Delattre, que
em virtude de um decreto derrogatório do Presidente Sarkozy foi formado
no Departamento de Estado dos EUA, lembra que o seu país lançou uma
iniciativa para pôr fim à impunidade daqueles que utilizam armas
químicas. Ele sugere que esta iniciativa dirigida contra a Síria poderia
ser virada contra a Rússia.
O Embaixador russo, Vasily Nebenzya, lembra que a sessão foi
convocada a pedido de Londres, mas que só veio a ser pública a pedido de
Moscovo. Ele observa que o Reino Unido viola o Direito Internacional ao
evocar este caso no Conselho de Segurança enquanto mantêm a OPAQ à
margem da sua investigação. Ele nota que se Londres pôde identificar o
“novitchok” é porque possui a fórmula e, portanto, pôde fabricá-lo. Ele
relembra a vontade expressa da Rússia em colaborar com a OPAQ, no quadro
do respeito pelos procedimentos internacionalmente aceites.
15 de Março de 2018
O Reino Unido publica uma declaração conjunta co-assinada, no dia
anterior, pela França, Alemanha, bem como por Rex Tillerson, que era
ainda Secretário de Estado dos Estados Unidos. O texto retoma a suspeita
britânica. Ele denuncia o emprego de «um agente neurotóxico de
qualidade militar, de um tipo desenvolvido pela Rússia». Ele afirma que é
«altamente provável que a Rússia seja responsável pelo atentado».
O Washington Post publica uma carta aberta de Boris Johnson,
enquanto o Secretário do Tesouro dos EUA, Steven Mnuchin, lança novas
sanções contra a Rússia. Estas não estão ligadas ao caso em curso, mas
às alegações de ingerência na vida pública dos EUA. O decreto cita, no
entanto, o atentado de Salisbury como uma prova das acções sujas da
Rússia.
O Secretário da Defesa britânico, o jovem Gavin Williamson, declara
que depois da expulsão dos seus diplomatas a Rússia devia «calar» (sic).
É a primeira vez desde o fim da Segunda Guerra Mundial que um dirigente
de um Estado membro permanente do Conselho de Segurança emprega um tal
vocabulário em relação a um outro membro do Conselho. Serguei Lavrov
comenta: «É um jovem encantador. Quer certamente marcar o seu lugar na
história, fazendo para isso afirmações chocantes [...] Se calhar
falta-lhe educação.
A
Inglaterra não hesitou, ao longo de toda a sua história, em mentir e em
trair a sua palavra para defender os seus interesses. Daí o seu
qualificativo francês de «pérfida Albião» (do nome latino da
Inglaterra).
Conclusão
Em quatro dias o Reino Unido e os seus aliados lançaram as premissas de uma nova divisão do mundo, de uma Guerra Fria.
No entanto, a Síria não é o Iraque e a ONU não é o G8 (do qual a
Rússia foi excluída devido à adesão da Crimeia à sua Federação, e pelo
seu apoio à Síria). Os Estados Unidos não vão destruir Damasco e a
Rússia não será excluída do Conselho de Segurança. Depois de se ter
retirado da União Europeia, depois de se ter recusado a assinar a
Declaração chinesa sobre a Rota da Seda, o Reino Unido pensava aumentar a
sua importância eliminando um concorrente. Com este golpe manhoso,
imaginava adquirir uma nova dimensão e tornar-se na «Global Britain»
anunciada pela Sra. May. Mas acabou destruindo, ele próprio, a sua
credibilidade.
Quando um sistema entra na sua fase final de degradação –
quer seja um sistema institucional, um Estado, um império ou o corpo
humano – todos os importantes fluxos de informação, suportes
de uma comunicação coerente, começam a falhar. Nesta
derradeira fase, se a situação não for corrigida o sistema
entra em colapso e morre.
Tornou-se óbvio para quase todas as pessoas que se atingiu esta
situação no planeta e nas nossas instituições
democráticas. Vemos a absoluta disfuncionalidade de como está
arquitectada a informação a nível global –
representada na intersecção dos principais media de grande
público, plataformas de tecnologia social e mega processadores internet
– gerar apatia generalizada, desespero, insanidade e loucura numa escala
aterradora.
E temos razão para estar aterrorizados, porque esta
situação está a impedir-nos de tomar as necessárias
acções para resolver os desafios locais e globais. Enquanto os
liberais lutam com conservadores e os conservadores com os liberais, perdemos
um tempo precioso.
Enquanto os progressistas lutam contra o governo, as grandes empresas e os
super-ricos, nós afundamo-nos em desespero. Enquanto os filantropos,
alimentados pela sua própria segurança e riqueza, lutam por
justiça, por igualdade ou por alguma pobre aldeia em África
tornamo-nos apáticos e distraídos da verdadeira origem do
problema. E enquanto o presidente luta contra todos e todos contra o
presidente, as comunidades enlouquecem.
No fundo, no entanto, o jogo de acumular recursos e não os redistribuir
acelera; absorvendo a soma total de nossas acções e compromissos
colectivos, num futuro singularmente inaceitável. Há apenas uma
maneira de evitar este destino; descobrir a origem da doença e cura-la
mobilizando as soluções.
Vamos desvendar a origem desta doença da informação que
nos está a acelerar o colapso ecológico e institucional, porque
uma vez identificada, estaremos livres para agir e construir uma alternativa.
O colapso das instituições democráticas
A civilização industrial está em vias de uma grande
transformação, uma transição sistémica que
nos pode levar à regressão, à crise e ao colapso; ou a uma
nova forma de trabalhar e viver, um novo modo de prosperidade, uma nova
noção de sucesso.
O complexo dos media globais não está preparado para lidar com
esta grande perturbação da civilização tal como a
conhecemos. Pelo contrário, é literalmente incapaz de processar a
informação de forma consistente e produzir para uma percentagem
significativa da população mundial
conhecimentos reais que possa tornar a humanidade capaz de efectuar com
êxito a transição para uma nova era.
Actualmente o complexo dos media globais
agrava
os problemas que enfrentamos.
Fá-lo ao não fornecer, apesar das aparências, absolutamente
nenhum conhecimento. O modelo predominante dos media é monopolizar e
manipular fluxos de informação para produzir crenças e
emoções que permitirão aos mega processadores internet
maximizar "cliques", maximizar receitas de publicidade, maximizar
lucros ?– para uns poucos.
Portanto, ao invés de criar conhecimento, o complexo dos media globais
está concebido para gerar
narrativas em competição, polarizadas
para diferentes públicos aglutinados em comunidades segregadas e
irreconciliáveis; reforçando as crenças sem ensinar o
pensamento crítico; atenuando atitudes de abertura e promovendo uma
dicotomia esquerda-direita banalizada que alimenta uma cultura global de
consumismo insensato.
Esta estrutura, predominante nos media restringe a capacidade do público
para tomar decisões inteligentes. E permite que os desafios globais em
termos ecológicos, energéticos, económicos e sociais,
entre outros, acelerem, enquanto discutimos entre nós sobre ideologia.
A consequência é que esses fluxos de informação
estão inexoravelmente ligados aos processos dominantes de
maximização do lucro para uma escassa minoria; tanto é
assim, que a relação das pessoas com a informação
é gerida como um mecanismo de controlo sobre a atenção e a
persuasão ideológica.
A monopolização dos meios de comunicação e do
jornalismo
No âmago das nossas instituições democráticas em
vias de colapso situa-se o complexo dos media globais. Se se for
suficientemente corajoso para o olhar de perto veremos que quer a
"imprensa livre" quer as "notícias falsas" funcionam
como uma extensão estrutural de uma forma extrema de capitalismo
predatório, usando informações para capturar riqueza para
uns poucos em detrimento de muitos, através da captura das nossas
mentes. São duas faces da mesma moeda que fabrica para as mesmas pessoas
somas de dinheiro obscenas.
Só temos de perscrutar para além das aparências para nos
depararmos com este facto.
Nos EUA, seis enormes conglomerados transnacionais possuem a totalidade dos
meios de comunicação, incluindo jornais, revistas, editoras,
redes de TV, canais por cabo, estúdios de Hollywood, etiquetas de
gravação e websites populares: Time Warner, Walt Disney, Viacom,
News Corp., CBS Corporation e NBC Universal.
No Reino Unido, 71% dos jornais nacionais são possuídos por
apenas três mega empresas, enquanto 80% dos jornais locais são
propriedade de meras
cinco
empresas.
Hoje, o maior proprietário mundial de media é o Google, seguido
de perto pela Walt Disney, Comcast, 21st Century Fox e Facebook. Juntos, Google
e Facebook monopolizam um quinto da receita publicitária global. E todas
essas corporações controlam a maior parte do que se lê,
vê e ouve, incluindo on-line. Eles definem a nossa compreensão do
mundo e de nós próprios.
Porém, representam um pequeno número de pessoas que têm uma
visão muito estreita do mundo.
Isto porque essas estruturas de poder fazem parte do que um
estudo
publicado na revista
PLoS One,
descreveu como uma "rede global de controlo de empresas". Os autores
do estudo, uma equipa de teóricos de sistemas do Instituto Federal
Suíço de Tecnologia,
descobriu
que as 43 mil transnacionais mais poderosas do mundo são dominadas por
1318 empresas, por sua vez dominadas por uma "super entidade" de
apenas 147 empresas.
Portanto, a maioria do que se lê, vê ou ouve através dos
media é estruturalmente condicionado por uma rede de interesses
particulares auto-suficientes e autónomos. É por isso que a
distinção entre notícias falsas e verdadeiras é
ilusória e desonesta.
Devido a essa estrutura, praticamente tudo o que encontramos como
"notícias" funciona como um pedaço de subtil ou
ostensiva propaganda para nos distrair da verdadeira actividade que dirige
estes maquinismos. Pouco importa se provêm da
Mother Jones,
do
New York Times,
do Breitbart ou da Fox News – tudo o que chega até nós
dentro desta estrutura produz o efeito debilitante de confundir as nossas
mentes e estimular as nossas emoções numa mistura complexa de
raiva, resignação, apatia e preguiça.
A Google por trás do espelho
Para entender o poder desses interesses particulares em monopolizar a
informação ao serviço dos seus próprios objectivos,
não precisamos olhar mais longe do que para a história do
proprietário do maior de todos os media do mundo. Em janeiro de 2015,
INSURGE revelou a
história exclusiva
de como a Google foi fundada e
evoluiu
sob a asa dos serviços secretos dos EUA.
O
relatório
revelou como, durante o desenvolvimento do código do núcleo do
motor de busca Google, um estudante de pós-graduação da
Universidade de Stanford, Sergey Brin, recebeu financiamento através de
um programa de pesquisa da CIA e da NSA, o Massive Digital Data Systems (MDDS).
A confirmação veio de um ex-dirigente do MDDS, Dr. Bhavani
Thuraisingham, que é agora o distinto professor Louis A. Beecherl
diretor executivo do Cyber Security Research Institute da Universidade do
Texas, em Dallas.
Isso não foi necessariamente incomum – a comunidade dos
serviços secretos tem estado envolvida em Silicon Valley por todas as
espécies de razões óbvias. O interessante é que
provavelmente nunca se soube como isto funcionou em relação ao
Google. E isto diz muito sobre a forma como opera o complexo dos media globais.
Suas afirmações são corroboradas por uma referência
ao programa MDDS num
documento
de co-autoria de Brin e Larry Page co-fundador Google, seu companheiro quando
estava em Stanford.
Como os media – todos os media – lidam com a verdade
Esta história foi totalmente ocultada na imprensa de língua
inglesa, exceto o site de informações tecnológicas dos EUA
Gigaom,
que
recomendou
a nossa investigação da seguinte maneira:
"Um relato interessante, ainda que extremamente denso, das
interacções de longa data do Google com os serviços
militares e secretos dos EUA, foi publicado nos media na semana passada."
Isto tem implicações muito importantes que merecem análise
cuidadosa: em suma, a história do Google, do seu financiamento inicial e
parceria com a CIA e NSA [National Security Agency] são revelados,
mas nem um único jornal de língua inglesa quis dar cobertura ou
reconhecer a história.
No entanto, que notícia poderia ser mais importante, do que um dos
maior "facilitadores de informação" do mundo estar
tão estreitamente alinhado com os serviços secretos dos EUA desde
a sua origem?
A falta de interesse não é o resultado de uma
conspiração. É o resultado previsível do facto de o
complexo dos media globais representarem uma estrutura institucional altamente
centralizada que perpetua uma cultura de obediência servil ao poder.
O complexo dos media globais oculta em grande parte conhecimentos importantes
sobre a própria estrutura e natureza do poder. É por isso que
esta é provavelmente a primeira vez que se viu a evidência directa
de que o mais poderoso media do mundo, a Google, foi concebido com o apoio dos
serviços secretos dos EUA.
Poder e controlo sobre a nossa mente e os nossos recursos
Isto não é sobre saber se o Google é singularmente
"má". É sobre um paradigma mais amplo de padrões
de propriedade inaceitáveis e redes sociais por toda a paisagem
mediática.
Considere-se William Kennard. Ele pertenceu à
administração do
New York Times,
em seguida, tornou-se presidente da Comissão Federal de
Comunicações. Depois entrou no grupo de Carlyle como diretor. A
maioria do Carlyle pertence à Booz Allen Hamilton, empresa que gere a
vigilância da NSA. Depois Kennard juntou-se à
administração Obama como embaixador dos EUA para a UE, fazendo
pressão pelo TTIP (Tratado Transatlântico de Parceria para o
Comércio e Investimento) uma parceria secreta e
favorável às corporações
.
Considere-se John Bryson, secretário de Comércio de Obama
até 2012. Na década anterior, fez parte da
administração da Walt Disney Company, que é dona da
American Broadcasting Corporation (ABC). Porém, simultaneamente estava
na administração da Boeing, com contratos com a defesa dos EUA.
Apesar de se demitir destas posições depois de entrar para o
governo,
manteve
lucrativa carteira de ações, opção de ativos e
planos de remuneração diferida com a Disney e a Boeing.
Considere-se Aylwin Lewis, outro diretor da Walt Disney Company, e
simultaneamente director de longa data na Halliburton, uma das maiores
transnacionais de serviços petrolíferos, empresa anteriormente
dirigida por Dick Cheney. Uma subsidiária da Halliburton, baseada em
Houston a KBR Inc.,
recebeu
39,5 mil milhões de dólares na última década por
contratos no Iraque – muitos dos quais negócios sem concurso.
Considere-se Douglas McCorkindale, diretor do conglomerado mediático
gigante Gannett durante décadas e patrão de várias
subsidiárias. Gannett é a maior editora de jornais dos EUA,
avaliado pela circulação diária e possui importantes
estações de TV, redes regionais de notícias por cabo e
estações de rádio. Ainda durante cerca de uma
década, McCorkindale foi também diretor no gigante da defesa dos
EUA, Lockhead Martin, saindo em abril de 2014.
Considere-se que estes indivíduos, através dos seus interesses
nas indústrias de meios de comunicação e da defesa,
lucraram directamente em guerras devastadoras que foram efectivamente tornadas
possíveis também pela sua própria propaganda.
Note-se que se trata de um jogo bipartidário, beneficiando largamente de
forma idêntica liberais e conservadores.
Portanto, a crise global da informação e a
crise da civilização
– em que vemos uma crescente convergência de extremismo
político, destruição ecológica e volatilidade
económica, destroçando as nossas sociedades e famílias,
frustrando as esperanças da nossa juventude – fazem claramente
parte da mesma realidade.
A mercantilização da informação é parte
integrante da mercantilização do planeta. Este é um jogo
onde a nossa mente, a nossa atenção e futuro são reduzidos
a um activo sem valor, negociado através dos mercados, até que
nada reste. Mas não há nenhuma necessidade de aceitar este
destino. Tudo o que é necessário é que se veja como ele
é.
Uma vez visto, ideias e novas informações podem fluir nas nossas
mentes, novas emoções podem fluir no nosso corpo e estaremos
habilitados a agir. Se o percebermos podemos agir. Torna-se óbvio que a
única solução é redesenhar o formato
jornalístico de tal forma que informações e novas ideias
conduzam a uma acção construtiva. Torna-se evidente que para
reanimar a esfera pública e restaurar as nossas
instituições democráticas devemos fazer com que o fluxo de
dinheiro dos media volte para onde pertence: para as mãos dos
jornalistas e dos leitores-participantes, comprometidos com a
criação de um futuro justo e sensato.
[*]
Nafeez Ahmed e Andrew Markell são dois dos co-fundadores da PressCoin e
Insurge.
PressCoin
e
Insurge
são a próxima geração de plataformas de meios de
comunicação e jornalismo baseados em inovações
blockchain e cripto-moeda e no formato de investigação Open
Inquiry para substituir o atual inadaptado e destrutivo ecossistema de
informação, que conduz tudo no nosso planeta ao caos e à
confusão, por um sistema de informação pública
inteligente e coerente.
No seu discurso, Putin revelou a existência de novas armas nucleares
russas tornando indiscutivelmente claro que a Rússia tem vasta
superioridade nuclear sobre os Estados Unidos e sobre os Estados vassalos da
NATO.
Tendo em conta as capacidades russas, não está claro que os EUA
ainda se qualifiquem como uma superpotência.
Há poucas dúvidas na minha mente de que se os enlouquecidos
neoconservadores do complexo militar/securitário em Washington tivessem
essas armas e a Rússia não, Washington lançaria um ataque
à Rússia.
Putin, no entanto, declarou que a Rússia não tem
ambições territoriais nem ambições
hegemónicas e nenhuma intenção de atacar qualquer outro
país. Putin descreveu as armas como a resposta necessária
à firme recusa do Ocidente ano após ano em aceitar a paz e a
cooperação com a Rússia e ao invés disso envolveu a
Rússia com bases militares e sistemas ABM.
Putin disse: "Estamos interessados numa interacção
construtiva e normal com os Estados Unidos e a União Europeia e
esperamos que o senso comum prevaleça e os nossos parceiros escolham uma
cooperação justa e equitativa. (…) A nossa política
nunca será baseada em aspirações de excepcionalismo,
estamos a defender os nossos interesses e respeitamos os interesses dos outros
países."
Putin disse a Washington que os seus esforços para isolar a
Rússia com sanções e propaganda e para impedir a
capacidade de resposta russa ao crescente cerco militar do Ocidente
fracassaram. As novas armas da Rússia tornaram a abordagem EUA/NATO
totalmente "ineficaz do ponto de vista militar". "As
sanções para restringir o desenvolvimento da Rússia,
incluindo a esfera militar, não resultaram". As
sanções não foram capazes de conter a Rússia. E
eles precisam entender isso (...) Parem de balançar o barco em que todos
nós nos sentamos".
Então, o que há a fazer? O Ocidente virá a ter bom senso?
Ou o Ocidente, afogado em dívidas e carregado ao máximo de
indústrias militares hipertrofiadas e ineficazes intensificará a
Guerra Fria que Washington tem ressuscitado?
Não penso que o Ocidente venha a ter qualquer bom senso. Washington
está totalmente absorvido no "Excepcionalismo americano". A
arrogância extrema do “país indispensável" aflige
a todos. Os europeus são comprados e pagos por Washington. Creio que
Putin tinha esperança de que os líderes europeus compreendessem a
futilidade de tentar intimidar a Rússia e cessassem de assumir a
Russofobia de Washington que nos está a levar à guerra nuclear.
Sem dúvida que Putin ficou decepcionado com a idiotice da resposta do
ministro da Defesa do Reino Unido, Gavin Williamson, que acusou a Rússia
de "escolher um caminho de escalada e provocação".
Meu palpite é que os neoconservadores vão minimizar a capacidade
da Rússia, porque os neoconservadores não querem aceitar que haja
qualquer restrição ao unilateralismo de Washington. Por outro
lado, o complexo militar/securitário irá exagerar a superioridade
russa e exigir um orçamento maior para nos proteger da
"ameaça russa".
O governo russo concluiu, após anos de frustrante experiência com
a recusa de Washington em considerar os interesses da Rússia e
trabalharem juntos de forma cooperativa, que a razão era a crença
de Washington de que o poder militar americano poderia obrigar a Rússia
a aceitar a liderança dos EUA. Quebrar esta ilusão de Washington
foi a razão para o enérgico anúncio de Putin sobre as
novas capacidades russas.
No seu discurso, ele disse: "Ninguém queria falar connosco.
Ninguém quis ouvir-nos. Escutem-nos agora". Putin sublinhou que as
armas nucleares da Rússia são reservadas para
retaliação, não para agressão, mas que qualquer
ataque à Rússia ou a aliados da Rússia receberá uma
resposta imediata "com tudo o que isso implica".
Tendo deixado claro que a política ocidental de hegemonia e
intimidação está morta, Putin novamente estendeu o ramo de
oliveira: Vamos trabalhar juntos para resolver os problemas do mundo.
Espero que a diplomacia russa seja bem-sucedida em pôr um fim para
às crescentes tensões fomentadas por Washington. No entanto, a
diplomacia russa enfrenta dois talvez inultrapassáveis
obstáculos. Um é a necessidade que o complexo
militar/securitário dos EUA tem de um grande inimigo como
justificação para o seu orçamento anual de 1 milhão
de milhões de dólares e o poder que isso representa. O outro
obstáculo é a ideologia neoconservadora de hegemonia do mundo
pelos EUA.
O complexo militar/securitário está institucionalizado em cada
Estado dos EUA. É um empregador e uma fonte de
contribuições para as campanhas políticas, o que torna
quase impossível para um senador ou representante ir contra os seus
interesses. Nos círculos de política externa está ainda
por aparecer um contrapoder aos enlouquecidos neoconservadores. A Russofobia
que os neoconservadores criaram agora afecta o americano comum. Estes dois
obstáculos revelaram-se suficientemente poderosos para impedir o
Presidente Trump de normalizar as relações com a Rússia.
Talvez no seu próximo discurso, Putin deva abordar os europeus
directamente e perguntar-lhes em que é que os seus interesses são
servidos, facilitando a hostilidade de Washington para com a Rússia. Se
forem impelidos a fazer avançar e deixar estacionar sistemas ABM, armas
nucleares e bases militares dos EUA, como podem esperar escapar à
destruição?
Sem a NATO e as suas bases avançadas, Washington não pode
encaminhar o mundo para a guerra. O facto fundamental desta matéria
é que a NATO é um obstáculo à paz.
– Este assunto foi silenciado pelos media portugueses do continente
por RT
Depois de a base aérea norte-americana das Lajes, na ilha Terceira, a
segunda mais populosa dos Açores, ter sido utilizada durante 75 anos, os
EUA abandonam-na. Os habitantes locais pretendem que os EUA limpem a zona da
poluição tóxica que cientistas afirmam ser
cancerígena – mas Washington não concorda.
Madaíl Ávila, uma dos 55 mil residentes da ilha Terceira, afirma:
"Ambos os meus pais morreram de cancro. Minha mãe de cancro de mama
e o meu pai com um tipo diferente de cancro. Quando eu tinha 33 anos fui
diagnosticada com cancro de mama". "É uma coincidência
muito grande que haja tantos casos de cancro no seio da mesma família,
bem como todos estes casos estarem geograficamente localizados na mesma
área".
Os testemunhos de Ávila e outros moradores vizinhos da base aérea
das Lajes que falaram com
Ruptly
durante a visita da equipa de filmagem na pitoresca ilha rochosa poderiam ser
descritos como anedotas anti-científicas de moradores ressentidos.
Infelizmente são apoiados por estudos conduzidos pelos próprios
norte-americanos e investigadores portugueses.
"O que temos é um conjunto de locais com níveis extremamente
elevados de poluição provocada por metais pesados,
hidrocarbonetos e
PCB
", diz Félix Rodrigues, professor de física da Universidade
dos Açores e político local.
"Em determinadas concentrações podem causar esterilidade,
cancro, arritmia. Estes materiais entram na cadeia alimentar e acumulam-se nos
corpos. Estamos diante de venenos que estão a ser escondidos debaixo do
tapete".
Apenas um exemplo: Félix Rodrigues salienta que 88 mil litros de derrame
de combustível foram registados na década passada e diz que o
solo é 50 vezes mais contaminado do que o permitido pelas directrizes
ambientais nos principais países ocidentais.
Norberto Messias, professor de saúde da Universidade dos Açores,
diz que os moradores do município adjacente à base sofrem
incidência de certos tipos de cancros várias vezes maiores, como
por exemplo quatro vezes mais tumores dos olhos, do que a restante
população dos Açores.
"Não temos material genético diferente, não temos uma
cultura diferente, não temos hábitos alimentares diferentes,
nós somos como qualquer outra pessoa portuguesa. A única coisa
que nos diferencia é a poluição da base das Lajes. A minha
convicção é que há uma relação",
diz Messias, que conduz um estudo entre a população local.
Hotéis em vez de compensação
Distando 4 000 km a leste de Nova Iorque e 1 500 km a oeste de Lisboa, a ilha
Terceira foi o ponto de reabastecimento perfeito para a aviação
aliada que atravessava o Atlântico, durante a segunda guerra mundial. A
base aérea das Lajes foi oficialmente inaugurada em 1943 e usada pelas
forças britânicas e americanas.
Após a formação da NATO, em 1949, as Lajes tornaram-se uma
posição chave e um centro de comando dos EUA para as suas
unidades aéreas e navais, desempenhando um papel importante em
vários conflitos, incluindo a guerra de Yom Kippur entre Israel e os
Estados Árabes em 1973 e a primeira Guerra do Golfo.
O fim da guerra fria e o desenvolvimento de reabastecimento no ar, tornaram as
Lajes dispensáveis e, em Janeiro de 2015, o Pentágono anunciou
que o número de pessoal estrangeiro na base seria reduzido para 165,
muito abaixo do pico de 3.000 atingido em décadas anteriores.
Economistas estimam que a mudança teria reduzido o PIB da Ilha Terceira
em 6%, levando à emigração de 10 mil pessoas da mesma. A
própria base apresenta agora um estado de abandono crescente, suas
pistas desertas, zonas residenciais vedadas mas vazias no seu interior.
Orlando Lima, um trabalhador português de apoio à base, diz que o
pessoal dos EUA também estava preocupado com o impacto da base na sua
saúde e que, pelo menos uma vez, testemunhou uma Comissão a
chegar às Lajes para investigar uma queixa de saúde feita por um
dos seus ex-agentes, que disse ter contraído cancro terminal, em
resultado de serviço ali prestado.
Na sequência do anúncio de 2015, os Açores produziram um
plano de revitalização para a Terceira, pelo qual os EUA pagariam
167 milhões de euros (US$205 milhões) anualmente durante 15 anos,
para facilitar a transição da sua partida. Desse dinheiro, 100
milhões de euros seria gasto anualmente para combater o legado ambiental.
Até agora, Washington nada concretizou.
Quando perguntado pela RT sobre a situação na Ilha Terceira,
funcionários dos EUA recusaram-se a comentar directamente e
remeteram-nos para os resultados de uma reunião da Comissão
Bilateral Permanente (SBC), em Dezembro, do ano passado.
"A SBC foi informada sobre a situação actual das
questões ambientais na ilha Terceira, no que diz respeito às
actividades dos EUA na base das Lajes, incluindo o que diz respeito a dois
locais prioritários (Portão Principal e área Tanque do
Sul). Os Estados Unidos e Portugal pretendem acompanhar as questões e
incentivar os técnicos especialistas a chegarem a uma conclusão
sobre a melhor forma de proceder (
leia o
resumo dos resultados
da reunião).
Em vez de compensação, os funcionários norte-americanos
propõem agora aumentar os voos civis dos EUA e "discutiram formas
de incrementar o turismo através do Atlântico e criar
condições de mercado para atrair hotéis dos EUA para
entrarem no mercado de Açores."
"Posso garantir aos meus filhos uma vida boa aqui?"
Sentindo-se traídos pelos norte-americanos e abandonados pelo
próprio governo, meio oceano afastados de Lisboa, os terceirenses
começaram a sua própria campanha pública para encorajar o
governo português a colocar mais pressão sobre seus aliados da
NATO ou ele próprio assumir os custos.
"O problema existe, não há dúvida que isso foi
causado pela força aérea americana, e também sobre quem
são os responsáveis e quem têm de pagar por isso," diz
Marcos Fagundes, membro activo da campanha.
Felix Rodrigues, professor de física na Universidade do Açores
tem pouca esperança de que Washington – particularmente sob
Presidência do Donald Trump – pague e diz que a Terceira pode ser
equiparada a dezenas de outros pontos do globo, onde bases americanas
abandonadas continuam a contaminar a terra.
"Isto é um inferno que se repete em várias ilhas ocupadas
pelos norte-americanos. É quase uma política de terra queimada,
onde os problemas se acumulam, o governo local não reage e a
população não tem capacidade para assumir uma
posição," afirma F. Rodrigues.
Entretanto para Ávila, cujo cancro de mama agora está em
remissão, qualquer decisão não é uma questão
de política, mas de sobrevivência – para si e sua
família.
"Quero criar os meus filhos num lugar onde tenha a garantia de que serei
capaz de lhes dar uma boa qualidade de vida. E esta é uma dúvida
que eu tenho: Estarei a fazer a coisa certa para a geração
futura?"