Numa comunicação recente entre Randy Credico (produtor de
rádio e apoiante de Assange) e Adam Schiff (membro do Comité
Judiciário da Câmara dos Representantes), o temor de Assange de
prisão e extradição para os EUA foi confirmado pelo
líder da histeria Russia-gate.
Credico recebeu a seguinte resposta de Schiff após a reunião com
a equipe do congressista, na qual Credico tentava ligar Assange a Schiff:
"Nosso comité estaria desejoso de entrevistar Assange quando ele
estiver sob a custódia dos EUA e não antes".
Dennis Bernstein conversou com John Pilger, um amigo próximo e apoiante
de Assange em 29 de Maio. A entrevista começou com a
declaração de Bernstein apresentada por Pilger no Fórum
Esquerda no último fim-de-semana em Nova York num painel dedicado a
Assange intitulado: "Russia-gate e WikiLeaks".
Declaração de Pilger
"Há um silêncio entre muitos que se consideram esquerda. O
silêncio é Julian Assange. Quando todas as falsas
acusações caíram por terra, quando todas as
falsificações sujas se mostraram ser trabalho de inimigos
políticos, Julian levanta-se vingado como um dos que revelaram um
sistema que ameaça a humanidade. O vídeo Dano Colateral, os
registos de guerra do Afeganistão e do Iraque, as
revelações do Cablegate, as revelações da
Venezuela, as revelações dos email de Podesta ... este são
apenas algumas das tempestades de verdade bruta que explodiram através
das capitais das potências opressoras. A falsificação do
Russia-gate, a conivência de uma media corrupta e a vergonha de um
sistema legal que persegue os que contam a verdade e não foi capaz de
conter a verdade bruta das revelações da WikiLeaks. Eles
não venceram, ainda não, e eles não destruíram o
homem. Só o silêncio das pessoas boas permitirá que
vençam. Julian Assange nunca esteve tão isolado. Ele precisa do
vosso apoio e da vossa voz. Agora mais do que nunca é tempo de exigir
justiça e o direito de livre expressão para Julian. Obrigado.
Dennis Bernstein:
Continuamos a nossa discussão do caso de Julian Assange, agora na
embaixada equatoriana na Grã-Bretanha. John Pilger, é bom
conversar consigo outra vez. Mas é uma tragédia profunda, John, o
modo como eles estão a tratar Julian Assange, este jornalista e editor
prolífero de quem muitos outros jornalistas dependeram no passado. Ele
foi deixado totalmente no frio para defender-se por si próprio.
John Pilger:
Nunca vi algo assim. Há uma espécie de silêncio
misterioso em torno do caso de Julian Assange. Julian foi inocentado de todos
os modos possíveis e ainda está isolado como poucas pessoas
estão nestes dias. Ele está desligado das próprias
ferramentas da sua actuação, não lhe são permitidos
visitantes. Estive em Londres recentemente e não pude vê-lo,
embora falasse com pessoas que o tinham visto. Rafael Correa, o antigo
presidente do Equador, disse recentemente que encarava o que estão agora
a fazer a Julian como tortura. Foi o governo Correa que deu refúgio
político a Julian, o qual foi agora traído pelo seu sucessor, o
governo liderado por Lenin Moreno, o qual está outra vez absorvido pelos
Estados Unidos conforme a tradição, com Julian como pião e
vítima.
Deveria ser um "Herói constitucional"
Mas realmente isto deve-se basicamente ao governo britânico. Embora ele
ainda esteja numa embaixada estrangeira e realmente tenha a nacionalidade
equatoriana, o seu direito de passagem para fora da embaixada deveria ser
garantido pelo governo britânico. O Grupo de Trabalho sobre
Detenções Arbitrárias das Nações Unidas
(
Working Group on Arbitrary Detention
) deixou isso claro. A Grã-Bretanha tomou parte numa
investigação, a qual determinou que Julian era um refugiado
político e que uma grande perversão da justiça lhe fora
imposta. É muito bom que esteja a fazer isto, Dennis, porque mesmo nos
media não convencionais há este silêncio acerca de Assange.
As ruas do lado de fora da embaixada estão virtualmente vazias, mas
deveriam estar cheias de pessoas a dizerem estamos consigo. Os
princípios envolvidos neste caso são claríssimos. O
número um é o da justiça. As injustiças feitas a
este homem são legião, tanto em termos do falso processo sueco
como agora no facto de que ele deve permanecer na embaixada e não pode
deixá-la sem ser preso, extraditado para os Estados Unidos e acabar num
buraco infernal. Mas é também acerca da liberdade de
expressão, acerca do nosso direito a saber, o qual está
cristalizado na Constituição dos Estados Unidos. Se a
Constituição fosse adoptada literalmente, Julian seria realmente
um herói constitucional. Ao invés disso, entendo a
acusação que eles estão a tentar cozinhar como uma
acusação de espionagem! É demasiado ridículo. Esta
é a situação tal como a vejo, Dennis. Não é
uma situação feliz, mas sim uma situação a que o
povo deveria acorrer rapidamente.
DB: Os seu irmãos jornalísticos parecem-se com os seus
perseguidores. Eles querem apoiar aberrações como o congressista
Adam Schiff do Russia-gate e como Mike Pompeo, os quais gostariam de ver
Assange na prisão para sempre ou mesmo executado. Como é que
responde a jornalistas que actuam como perseguidores, alguns dos quais
utilizaram o seu material para escrever notícias? Este é um tempo
terrível para o jornalismo.
JP:
Você está absolutamente certo. É um tempo terrível
para o jornalismo. Nunca vi uma coisa assim na minha carreira. Dito isto,
não é novo. Sempre houve um chamado media
mainstream
o qual realmente representa o grande poder nos media. Isto sempre existiu,
particularmente nos Estados Unidos. O Prémio Pulitzer deste ano foi
concedido a
The New York Times
e
The Washington Post
por caça a feiticeiras em torno do Russia-gate! Eles foram louvados
pela "profundidade das suas investigações". As suas
investigações não mostraram nem um fragmento de prova real
a sugerir qualquer intervenção russa séria na
eleição de 2016.
Tal como Webb
O caso Julian Assange recorda-me o caso Gary Webb. Bob Parry foi um dos poucos
apoiantes de Gary Webb nos media. A série "Aliança
negra" de Webb continha evidência de que o tráfico de
cocaína estava em curso com a conivência da CIA. Posteriormente
Webb foi perseguido por colegas jornalistas e, incapaz de encontrar trabalho,
acabou por cometer suicídio. O Inspector-Geral da CIA justificou-o
posteriormente. Agora, Julian Assange está muito distante de atentar
contra a sua própria vida. A sua resiliência é
notável. Mas ele ainda é um ser humano e tem sido massacrado.
Provavelmente o que é mais duro para ele é a absoluta hipocrisia
das organizações noticiosas – como
The New York Times,
o qual publicou "Registos de guerra" e "Cablegate" da
WikiLeaks,
The Washington Post
e
The Guardian,
os quais tomaram uma vingança deliciosa a atormentar Julian. Mas a sua
cobertura de Snowden deixou-o em Hong Kong. Foi a WikiLeaks que conseguiu tirar
Snowden de Hong Kong e pô-lo em segurança.
Profissionalmente, considero isto uma das coisas mais repugnantes e imorais que
já vi na minha carreira. A perseguição a este homem por
enormes organizações de media que extraíram grandes
benefícios da WikiLeaks. Um dos grandes atormentadores de Assange, Luke
Harding de
The Guardian,
ganhou muito dinheiro com uma versão Hollywood de um livro que ele e
David Lee escreveram e no qual basicamente atacam a sua fonte. Suponho que seja
preciso ser psiquiatra para entender tudo isto. O meu entendimento é que
muitos destes jornalistas estão envergonhados. Eles percebem que
WikiLeaks fez o que eles deveriam ter feito há muito tempo e que
é dizer-nos como os governos mentem.
DB:
Uma coisa que me perturba muito é o modo como a imprensa corporativa
ocidental especula acerca do envolvimento russo na eleição
estado-unidense de 2016, que foi um golpe
(hack)
através de Julian Assange. Qualquer investigador sério desejaria
saber quem seria motivado para isso. E ainda a possibilidade de que possa ser a
dúzia ou mais de pessoas irritadas que foram trabalhar para a
máquina da Clinton e aprenderam dali de dentro que o DNC [Comité
Nacional Democrático] fazia tudo para se livrar de Bernie Sanders...
isto não faz parte da narrativa!
Oitocentas mil revelações sobre a Rússia
JP:
O que aconteceu a Sanders e o modo como ele foi esmagado pela
organização da Clinton, toda a gente sabe que isto é a
notícia. E agora temos o DNC a processar a WikiLeaks! Há uma
espécie de elemento farsesco nisto. Quero dizer, nada disto veio dos
russos. Que a WikiLeaks de algum modo estivesse na cama com os russos é
ridículo. A WikiLeaks publicou cerca de 800 mil grandes
revelações acerca da Rússia, algumas delas extremamente
críticas do governo russo. Se você for um governo e fizer algo
inconveniente ou estiver a mentir ao seu povo e a WikiLeaks obtiver os
documentos para mostrá-lo, eles publicarão não importa
quem seja você, seja dos Estados Unidos ou da Rússia.
DB:
Randy Credico, devido ao seu trabalho e à sua decisão de dedicar
uma série de artigos à perseguição de Julian
Assange recentemente encontrou-se ele próprio sob ataque. Ele foi a um
churrasco para a imprensa na Casa Branca e, depois de ter uma linda
discussão com o congressista Schiff, ele gritou: "E sobre Julian
Assange?" A sala estava cheia de reporters mas Randy foi atacado e
arrastado para fora. Era como se toda a gente ali ficasse embaraçada ao
reconhecer que um dos seus irmãos estava a ser brutalizado.
JP:
Randy gritou algumas verdades. Isto é muito semelhante ao que aconteceu
a Ray McGovern. Ray é um antigo membro da CIA mas um homem com
princípios. Posso sugerir que agora ele é um renegado.
DB:
Era histérico observar estes quatro guardas armados que se mantiveram a
gritar "Pare de resistir, pare de resistir!" enquanto lhe batiam de
modo infernal!
JP:
Penso que a imagem de Ray a ser arrastado foi particularmente tocante. Estes
quatro pesos-pesados, obviamente jovens mal treinados a tratarem Ray com
grosseria, o qual tem 78 anos. Para mim houve algo extremamente
emblemático quanto a isso. Ele enfrentou até ao desafio o facto
de que a CIA estava prestes a entregar a sua liderança a uma pessoa que
fora encarregada das torturas. É tanto chocante como surreal, o que
naturalmente o caso Julian Assange também é. Mas o jornalismo
real deveria ser capaz de penetrar o chocante e o surreal e contar a verdade.
Há demasiado conluio agora, com todos estes desenvolvimentos sombrios e
ameaçadores. É quase como se a palavra "jornalismo"
estivesse a tornar-se deteriorada.
DB:
Há certamente um bocado de conluio quanto a Israel. Assim, a palavra
"conluio" é bastante apropriada.
JP:
Esse é o conluio final. Mas é conluio através do
silêncio. Nunca houve um conluio como este entre os EUA e Israel. Isto
sugere uma outra palavra e esta é "imunidade". Há uma
imunidade moral, uma imunidade cultural, uma imunidade geopolítica, uma
imunidade legal e certamente uma imunidade dos media. Vemos o tiroteio sobre
mais de 60 pessoas no dia da inauguração da nova embaixada dos
EUA em Jerusalém. Israel tem algumas das mais perversas
munições experimentais do mundo e eles dispararam-nas sobre o
povo estava a protestar contra a ocupação da sua pátria e
tentava recordar o povo da Nakba e o direito de retorno. Nos media isto foi
descrito como "choques". Embora aquilo se tornasse tão mau que
The New York Times numa edição posterior mudou a manchete da sua
primeira página para dizer que Israel estava realmente a matar pessoas.
Um momento raro, na verdade, em que a imunidade, o conluio, foi interrompido.
Toda a conversa sobre o Irão e armas nucleares sem qualquer
referência à maior potência nuclear no Médio Oriente.
DB:
O que você diria acerca das contribuições feitas por Julian
Assange nesta era de censura e covardia no jornalismo? Onde é que isto
entra no quadro?
JP:
Penso que representa algo de modo fundamental para a informação.
Se remontar à época em que a WikiLeaks começou, quando
Julian estava assente no seu quarto de hotel em Paris começando a montar
tudo, uma das primeiras coisas que ele escreveu foi que há uma
moralidade na transparência, que temos o direito de conhecer o que
aqueles que pretendem controlar as nossas vidas estão a fazer em
segredo. O direito a conhecer o que os governos estão a fazer em nosso
nome – em nosso favor ou no nosso prejuízo – é o nosso
direito moral. Julian sentia isso muito apaixonadamente. Houve momentos em que
ele podia ter-se comprometido ligeiramente a fim de possivelmente ajudar na sua
situação. Houve vezes em que lhe disse: "Por que você
simplesmente suspende aquilo por um momento e concorda com isso?".
Naturalmente, eu sabia antecipadamente o que seria a sua resposta e esta era
"não". A enorme quantidade de informação que
veio da WikiLeaks, particularmente nos últimos anos, representou um
extraordinário serviço público. Eu estava a ler outro dia
na WikiLeaks um telegrama de 2006 da Embaixada dos EUA em Caracas dirigido a
outras agências na região. Isto foi quatro anos depois de os EUA
tentarem livrar-se de Chavez através de um golpe. Ali se pormenorizava
como a subversão deveria actuar. Naturalmente, eles vestiam isso como um
trabalho de direitos humanos e assim por diante. Eu lia este documento oficial
a pensar como a informação contida nele valia por anos da
espécie de reportagem distorcida vinda da Venezuela. Também nos
recorda que a chamada "intromissão" da Rússia nos EUA
é apenas insensatez. A palavra "intromissão" não
se aplica à espécie de acção implicada neste
documento. Ela é a intervenção nos assuntos de outro
país.
A WikiLeaks tem feito isso por todo o mundo. Ela dá às pessoas a
informação a que elas têm direito. Elas têm o direito
de descobrir a partir dos chamados "Registos de guerra"
("War Logs")
a criminalidade das nossas guerras no Afeganistão e no Iraque. Elas
têm o direito de descobrir acerca do Cablegate. Foi quando, numa
observação da Clinton, soubemos que a NSA estava a reunir
informação pessoal sobre membros do Conselho de Segurança
das Nações Unidas, incluindo os números dos seus
cartões de crédito. Você pode ver porque Julian Assange fez
inimigos. Mas ele também deveria ter um enorme número de amigos.
Isto é informação crítica pois ela nos diz como o
poder funciona e nunca aprenderemos o suficiente acerca disso. Penso que a
WikiLeaks abriu um mundo de transparência e deu substância à
expressão "direito a conhecer". Isto deve explicar porque ele
é tão atacado, porque está tão ameaçado.
Para a grande potência o inimigo não são tipos do Taliban,
somos nós.
DB:
E quem pode esquecer a divulgação do
filme
"Assassinato colateral" de Chelsea Manning?
JP:
Essa espécie de coisa não é incomum. O Vietname pretendia
ser a guerra aberta, mas realmente não era. Não havia as
câmaras em torno. É na verdade informação chocante
mas ela informa o povo e devemos agradecer à coragem de Chelsea Manning
por isso.
DB:
Sim, e graças a isso ele ficou sete anos em confinamento
solitário. Eles querem processar Assange e talvez enforcá-lo nas
vigas do Congresso, mas e quanto a Judith Miller e
The New York Times
que põem o ocidente em guerra? São infindáveis os
exemplos horrendos do que passa por ser jornalismo, em contraste com a
admirável contribuição feita por Julian Assange.
11/Junho/2018
[*]
Dennis J. Bernstein: jornalista da Pacifica Radio Network, autor de
Follow the Money
e
Special Ed: Voices from a Hidden Classroom,
dbernstein@igc.org.
Independentemente de
quem possui as armas nucleares, não há a menor dúvida de que constituem
uma ameaça real à segurança e ao futuro da humanidade.
Créditos / flashbak.com
Por
estes dias, o Conselho Português para a Paz e a Cooperação (CPPC) está a
dinamizar uma importante campanha de angariação de subscritores de uma petição com vista à assinatura (e ratificação), por Portugal, do Tratado de Proibição das Armas Nucleares, adoptado pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 7 de Julho passado.
A
iniciativa não tem tido acolhimento nos media, seguramente muito
ocupados com outros temas e pouco inclinados a promover a discussão de
assuntos de importância vital para a comunidade, mas cuja utilidade
imediata – e imediatamente mensurável em audiência – não vislumbrarão.
Foi
transitório o interesse mediático (aliás sem grande entusiasmo) pelo
tema quando, a 6 de Outubro, foi anunciada a atribuição do Prémio Nobel
da Paz à Campanha Internacional pela Abolição das Armas Nucleares (ICANW, no acrónimo em Inglês), cujo trabalho empenhado e decisivo deve ser justamente destacado.
Setenta
e dois anos depois do lançamento das bombas nucleares sobre Hiroshima
(6 de Agosto de 1945) e Nagazaki (três dias depois), no Japão, com a
morte imediata, ou nos meses seguintes, de 215 mil pessoas, não obstante
o apelo à eliminação das armas nucleares aprovado pela então jovem ONU,
em 24 de Janeiro de 1946 (menos de seis meses após a tragédia), e apesar de o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares
(1 de Julho de 1968) impor o desarmamento geral e a eliminação total
dos arsenais nucleares, o risco de uma catástrofe é real e nenhum passo
decisivo foi dado para cumprir aqueles objectivos.
Nove países
(Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido, França, Índia, Paquistão,
Israel e Coreia do Norte) possuem um total de cerca de 15 mil ogivas
nucleares. Além daqueles, cinco outros (Bélgica, Alemanha, Itália,
Holanda e Turquia) têm estacionadas armas nucleares nos respectivos
territórios. E outros 23 – Portugal, Coreia do Sul e Japão incluídos –
fazem parte de «alianças nucleares», com a NATO à cabeça, que os colocam
nas rotas destes dispositivos de morte cuja eficácia a imaginação do
cidadão comum não alcança.
Uns dois terços dos países do mundo – praticamente o hemisfério sul
– estão livres de armas nucleares, mas só por ingenuidade se pode crer
que estarão ao abrigo de uma conflagração nuclear, seja pela detonação
deliberada de um engenho, seja por erro ou por acidente.
Desde
praticamente os alvores da era nuclear militar que os movimentos de
cientistas, com os físicos Frédéric Joliot-Curie, Albert Einstein e
Joseph Rotblat e o filósofo e matemático Bertrand Russel à cabeça, aos
quais se juntaram inúmeros outros intelectuais, alertaram para os
elevados riscos que impendem sobre a humanidade e se empenharam contra a
bomba nuclear.
Dos artigos publicados imediatamente após o
lançamento da bomba de Hiroshima e dos programas de rádio, nomeadamente
de Russel, ao Apelo de Estocolmo (1950), passando por inúmeros artigos e
entrevistas, debates e manifestos, milhares de intelectuais não
cessaram de avisar para a elevada probabilidade de destruição maciça e
em larguíssima escada – seja por impacto direito da deflagração, seja
pelo transporte de cinzas e poeiras radioactivas, transportando
radioisótopos que permanecerão activos por milhares e até dezenas de
milhares de anos.
Embora se registe uma (ainda muito incompleta)
redução das armas nucleares (eram mais de 20 mil em 2010 e mais de 70
mil nos anos 1980), a crescente sofisticação dos arsenais, à força de
vultuosos investimentos, a mobilidade e a capacidade de propulsão são
surpreendentes e muito perigosas.
Estima-se, por exemplo, que dois
terços das 300 ogivas francesas estejam embarcadas em mísseis balísticos
em submarinos e podem alcançar dez mil quilómetros de distância.
Independentemente
de quem possui as armas nucleares, não há a menor dúvida de que
constituem uma ameaça real à segurança e ao futuro da humanidade e de
que, apesar da retórica desculpabilizadora baseada na invocada
necessidade de dissuasão tão frequente e hipocritamente usada no
discurso «diplomático» dos detentores de armas e dos seus seguidores,
estamos perante uma séria questão de ética da legitimidade.
Não
são apenas as convenções de direito internacional humanitário que
proíbem os ataques indiscriminados, ou as armas que, pela sua natureza,
possam causar danos supérfluos ou ferimentos desnecessários e que impõem
o princípio de que o direito dos países em conflito a escolher os
métodos e meios de combate não é ilimitado.
É sobretudo a exigível
sã consciência de que qualquer ser humano deve possuir acerca dos
limites ao seu poder, de que a ninguém é lícito decidir sobre a vida ou a
morte dos povos e o destino da própria humanidade, assim como, por
maiores que sejam as divergências, não há uso benigno possível para o
poder de destruição tão letal e tão extenso hoje ao alcance do homem.
Porém,
os media não proporcionam o mínimo debate sobre um tema tão decisivo na
vida dos povos. Pode ser por indiferença – o que é deplorável –, ou até
pode ser por um critério de prioridades na agenda – o que é preocupante
–, mas a escassez ou mesmo ausência de discussão e reflexão no espaço
público deixam os cidadãos e os próprios jornalistas desarmados perante o
arsenal argumentativo dos detentores de armas nucleares e seus vassalos
e seguidores.
Esta
é aliás o maior detentor de ogivas do mundo: além das 6800 dos Estados
Unidos, 300 da França e 215 do Reino Unido, sem contar com as 80 do
amigo Israel1.
Ou
que se come e cala, numa obediente «independência» jornalística,
incensando acriticamente a doutrina da NATO (herdeira ideológica da
doutrina de hegemonia planetária que os Estados Unidos deixaram
tragicamente plasmada nos ataques a Hiroshima e Nagasaki, quando já era
mais do que evidente, desde 1944, que a Alemanha nazi não possuía a
bomba atómica), ou se questiona o poder ilegítimo que a Aliança
Atlântica outorga a si própria de impor a sua paz ao mundo, aliás bem
patente no seu comunicado de 20 de Setembro, a propósito da abertura às assinaturas do Tratado de Proibição das Armas Nucleares.
Continuaremos a calar?
1.
Usa-se aqui, tal como em relação aos restantes detentores de arsenais
nucleares, a informação regular do Instituto Internacional de Pesquisa
da Paz de Estocolmo (SIPRI, no acrónimo em Inglês), que não consta como
insuspeita quanto ao independência, pelo menos nos media mainstream…,
mas é mencionada, por vezes, a hipótese de Israel possuir realmente umas 200 ogivas.
Dúzias de países que em Março último expulsaram
diplomatas russos
concordaram em permitir o retorno dos mesmos depois serem informados que nesta
semana eles
atiraram e mataram palestinos na faixa de Gaza.
Deportados da Irlanda, EUA, França, Itália e Alemanha, em
solidariedade com o Reino Unidos sobre um alegado ataque a espião
ainda envolto em mistério, mais de 150 diplomatas russos
foram a Israel na semana passada com a esperança de retornarem aos
países que lhes foram designados.
"Assassinar palestinos a sangue frio actualmente parece ser o único
meio de caírem nas boas graças, como mostraram nossos amigos
israelenses que parecem ser imunes a expulsões",
explicou o ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Sergei Lavrov,
enquanto apontava para uma parede com fotografias de homens, mulheres e
crianças que os diplomatas assassinaram a sangue frio. "Assim,
decidimos enviar todos os nossos diplomatas expulsos a uma orgia de
matanças em Gaza a fim de apaziguar nossos senhores supremos.
Felizmente parece que funcionou".
A seguir à confirmação das mortes, foi imediatamente
concedido a cada diplomata o acesso ao seu país designado, com o
ministro irlandês dos Negócios Estrangeiros, Simon Coveney,
declarando estar muito satisfeito com o responsável russo anteriormente
expulso: "Vi fotos dos palestinos mortos que ele liquidou e estou
deliciado em saudar o retorno do nosso amigo russo a Dublim para ele realizar
tudo o que quiser aqui".
O ousado movimento da Rússia ocorreu depois de dúzias de
palestinos terem sido mortos esta semana por soldados israelenses com pouca ou
nenhuma acção internacional por parte das chamadas
"nações soberanas".
"É óbvio que uma vez que estejamos ao lado dos israelenses,
podemos fazer o que quer que seja com nula repercussão
internacional", concluiu o ministro russo dos Negócios Estrangeiros.
Professor de História contemporânea na Universidade de Montreal, Michael
Jabara Carley conta aqui o papel da União Soviética contra o nazismo.
Depois ele analisa a maneira como esta história tem sido
propositadamente deformada pelos Anglo-Saxónicos e é deturpadamente
ensinada no mundo Ocidental.
A cada 9 de Maio, a Federação Russa celebra o seu
mais importante feriado nacional, o Dia da Vitória, "den´pobedy". Nesse
dia, em 1945, o Marechal Georgy Konstantinovich Zhukov, Comandante da 1ª
Frente Bielorrussa, que atacara Berlim, recebeu a rendição Alemã
incondicional.
A Grande Guerra Patriótica durara 1418 dias de
inimaginável violência, brutalidade e destruição. Desde Stalingrado, do
norte do Cáucaso e da periferia noroeste de Moscovo até às fronteiras
ocidentais da União Soviética, a Sebastopol no sul, Leningrado e as
fronteira com a Finlândia, no norte, o país fora devastado. Uns
estimados 17 milhões de civis, homens, mulheres e crianças haviam
morrido, embora ninguém jamais saiba os números exactos. Aldeias e
cidades foram destruídas; as famílias foram dizimadas sem restar ninguém
para lembrá-las ou chorar a sua morte.
A maioria dos cidadãos Soviéticos perdeu membros da família durante a guerra. Ninguém escapou sem ser afectado.
Dez milhões, ou mais, de soldados Soviéticos morreram na luta para
expulsar o monstruoso invasor Nazista e finalmente ocupar Berlim, no fim
de Abril de 1945. Os mortos do Exército Vermelho ficaram sem enterro em
milhares de lugares ao longo das rotas para o ocidente ou em valas
comuns anónimas, não tendo havido tempo para identificação adequada e
enterro. A maioria dos cidadãos Soviéticos perdeu membros da família
durante a guerra. Ninguém escapou sem ser afectado.
A Grande Guerra Patriótica começou às 3h30 do dia 22 de Junho de
1941, quando a Wehrmacht Nazista invadiu a União Soviética, ao longo de
uma frente estendendo-se do Báltico ao Mar Negro com 3,2 milhões de
soldados Alemães, organizados em 150 divisões, apoiadas por 3.350
tanques, 7.184 peças de artilharia, 600.000 camiões (caminhões-br),
2.000 aviões de guerra. Forças Finlandesas, Italianas, Romenas,
Húngaras, Espanholas, Eslovacas, entre outras, acabaram por se juntar ao
ataque. O Alto-comando Alemão calculou que a Operação Barbarossa
levaria apenas 4 a 6 semanas para acabar com a União Soviética. No
Ocidente, as Inteligências militares dos EUA e da Inglaterra estavam de
acordo. Além disso, que força tinha conseguido bater a Wehrmacht? A
Alemanha Nazista era o colosso invencível. A Polónia havia sido esmagada
em poucos dias. A tentativa Anglo-Francesa de defender a Noruega fora
um fiasco. Quando a Wehrmacht atacou a ocidente, a Bélgica apressou-se a
desistir da luta. A França colapsou em poucas semanas. O Exército
Britânico foi expulso de Dunquerque, nu, sem armas ou camiões. Na
Primavera de 1941, a Jugoslávia e a Grécia desapareceram em questão de
semanas, com pouco custo para os invasores Alemães.
As perdas do Exército Vermelho eram inimagináveis, dois milhões de soldados perdidos nos primeiros três meses e meio de guerra.
Onde quer que a Wehrmacht avançasse na Europa, era um passeio ... até
aquele dia em que os soldados Alemães atravessaram as fronteiras
Soviéticas. O Exército Vermelho foi apanhado (pego-br) de surpresa, a
meio de medidas de mobilização, porque o ditador Soviético Joseph Stalin
não acreditou nos relatórios da sua própria Inteligência avisando para o
perigo, ou não quis provocar a Alemanha Hitleriana. O resultado foi uma
catástrofe. Mas, ao contrário da Polónia e ao contrário da França, a
URSS não desistiu da luta após as esperadas 4 a 6 semanas. As perdas do
Exército Vermelho foram inimagináveis, dois milhões de soldados perdidos
nos primeiros três meses e meio da guerra. As províncias Bálticas foram
perdidas. Smolensk caiu e depois Kiev, na pior derrota da guerra.
Leningrado foi cercada. Um velho perguntou a alguns soldados: «De onde
se estão vocês retirando?» Havia calamidades por toda parte, numerosas
demais para serem mencionadas. Mas, em lugares como a fortaleza de Brest
e em centenas de anónimos campos e bosques, entroncamentos, aldeias e
cidades, as unidades do Exército Vermelho lutaram muitas vezes até ao
último soldado. Lutaram até quebrar cercos para voltar às suas próprias
linhas ou desaparecer nas florestas e pântanos da Bielorrússia e no
noroeste da Ucrânia para organizar as primeiras unidades de "partisans"
afim de atacar a retaguarda Alemã. No final de 1941, três milhões de
soldados Soviéticos tinham sido perdidos (o maior número sendo de
prisioneiros de guerra que morreram em mãos Alemãs); 177 divisões foram
aniquiladas da ordem de batalha Soviética. Ainda assim, o Exército
Vermelho combateu, forçando mesmo os alemães a recuar em Yelnya, sudeste
de Smolensk, no fim de Agosto. A Wehrmacht sentiu a mordidela
(mordida-br) do combalido mas não derrotado Exército Vermelho. As forças
Alemãs sofriam 7.000 baixas num dia, uma nova experiência para elas.
Em lugares como a fortaleza de Brest, as unidades do Exército Vermelho lutaram muitas vezes até o último soldado.
À medida que a Wehrmacht avançava, "Einsatzgruppen", esquadrões da
morte das SS, seguiam o trilho, matando judeus, ciganos, comunistas,
prisioneiros de guerra soviéticos ou qualquer um que se metesse à frente
do seu caminho. Colaboradores Nazistas Baltas e Ucranianos ajudaram nos
assassínios em massa. Mulheres e crianças Soviéticas foram despidas e
forçadas a fazer fila, esperando por execução. Quando o inverno chegou,
soldados alemães enregelados atiraram em aldeões ou obrigaram-nos a sair
das suas casas, vestidos com farrapos como mendigos, roubando-lhes o
lar, roupas de inverno e comida.
No Ocidente, aqueles que previam um rápido colapso Soviético, os
habituais Sovietófobos ocidentais, fizeram figura de estúpidos e tiveram
que engolir as suas previsões. A opinião pública percebeu que a
Alemanha Hitleriana havia entrado num vespeiro, e não numa outra
campanha tipo França. Enquanto o homem da rua Britânico vibrava com a
Resistência soviética, o governo Britânico pouco fazia para ajudar.
Alguns ministros do Governo estavam até relutantes em chamar aliada à
União Soviética. Churchill recusou deixar a BBC tocar o hino nacional
Soviético, a "Internacional", nas noites de Domingo, junto com os de
outros aliados.
A
opinião pública Ocidental percebeu que a Alemanha Hitleriana tinha
entrado num vespeiro, e não numa outra campanha tipo França.
O Exército Vermelho ainda recuou, mas continuando a lutar
desesperadamente. Esta não foi uma guerra comum, antes um combate de uma
violência sem paralelo contra um invasor assassino pelo lar, família,
país, pela própria vida. Em Novembro, o Exército Vermelho lançou um
panfleto sobre as linhas Alemãs, citando Carl von Clausewitz, o teórico
militar Prussiano: «É impossível aguentar ou conquistar a Rússia». Isso
foi uma real bravata atendendo às circunstâncias, mas também verdadeiro.
Finalmente, na frente de Moscovo, em Dezembro de 1941, o Exército
Vermelho, sob o comando de Jukov, empurrou as exaustas forças da
Wehrmacht para trás, para sul, até trezentos quilómetros. A imagem de
invencibilidade Nazista foi desfeita em pedaços. A "Barbarossa" era
demasiado ambiciosa, a "blitzkrieg" falhara e a Wehrmacht sofreu a sua
primeira derrota estratégica. Em Londres, Churchill concordou, a
contragosto, deixar a BBC tocar o hino nacional Soviético.
A imagem da invencibilidade nazista foi feita em pedaços.
Em 1942, o Exército Vermelho continuou a sofrer derrotas e pesadas
perdas, enquanto lutava quase sozinho. Contudo, em Novembro desse ano,
em Estalingrado, no Volga, o Exército Vermelho lançou uma
contra-ofensiva, que levou a uma notável vitória e à retirada da
Wehrmacht de volta às suas linhas de partida da Primavera de 1942 ...
excepto para o Sexto Exército Alemão; apanhado no bolsão de
Estalinegrado. Aí, 22 divisões Alemãs, algumas das melhores de Hitler,
foram destruídas. Estalinegrado foi o Verdun da Segunda Guerra Mundial.
«É o inferno», disse um soldado. «Não ... isto é dez vezes pior que o
inferno», corrigiu alguém. No fim dos combates do inverno de 1943, as
perdas do Eixo eram assombrosas : 100 divisões Alemãs, Italianas,
Romenas e Húngaras foram destruídas ou incapacitadas. O Presidente dos
Estados Unidos, Franklin Roosevelt, estimou que a maré da batalha virara
: a Alemanha Hitleriana estava condenada.
Mulheres-soldado durante a batalha de Estalinegrado.
Decorria Fevereiro de 1943. Nesse mês não havia uma única divisão
Britânica, Americana ou Canadiana lutando na Europa contra a Wehrmacht.
Nem uma. Ainda passaram dezasseis meses até ao desembarque na Normandia.
Os Britânicos e Norte-americanos estavam, então, combatendo duas ou
três divisões Alemãs no Norte de África, um acontecimento secundário em
comparação com a frente Soviética. A opinião pública Ocidental sabia
quem estava a carregar o fardo da guerra contra a Wehrmacht. Em 1942,
80% das divisões do Eixo estavam cometidas contra o Exército Vermelho.
No início de 1943, havia 207 divisões Alemãs na Frente Leste. Os Alemães
tentaram um último sopro, uma última ofensiva contra a bolsa de Kursk,
em Julho de 1943. Essa operação falhou. O Exército Vermelho lançou então
uma contra-ofensiva através da Ucrânia, a qual levou à libertação de
Kiev em Novembro. Mais a Norte, Smolensk tinha sido libertada no mês
anterior.
O espírito do povo Soviético e do seu Exército Vermelho era
formidável. O correspondente de guerra Vasilii Semenovich Grossman
capturou a sua essência nos seus diários pessoais. «Noite, Tempestade de
Neve», escreveu ele no início de 1942, «Veículos, Artilharia. Movem-se
em silêncio. Súbitamente, ouve-se uma voz rouca. "Ei, qual é a estrada
para Berlim?" Rebenta uma trovoada de risos».
A opinião pública Ocidental sabia quem estava a carregar o fardo da guerra contra a Wehrmacht
Houve soldados que nem sempre foram corajosos. Às vezes fugiram. «Um
comissário de batalhão
armado com dois revólveres começou a gritar:
"Para onde estão vocês a fugir seus filhos da p..., para onde? Para a
frente, pela nossa Pátria, por Jesus Cristo, filhos da p...! Por
Estaline, fdp...!"...» Eles voltaram para as suas posições. Esses tipos
tiveram sorte; o Comissário podia ter atirado sobre todos eles. Por
vezes fê-lo. Um soldado ofereceu-se para executar um desertor. «Sentiste
alguma pena dele?», perguntou Grossman. «Como pode alguém falar de
pena», replicou o soldado. Em Estalinegrado, sete Usbeques foram
considerados culpados de ferimentos auto-infligidos. Foram todos
fuzilados. Grossman leu uma carta encontrada no bolso de um soldado
Soviético morto. «Eu sinto muito a sua falta. Por favor, venha
visitar-nos ... Eu estou a escrever isto, e as lágrimas estão a cair.
Papá (papai-br), por favor venha para casa visitar-nos.
As mulheres lutaram ao lado dos homens como snaipers, artilheiros,
tanquistas, pilotos, enfermeiras, "partisans". Elas também mantiveram a
frente interna a andar. «As aldeias tornaram-se o reino das mulheres»,
escreveu Grossman, «Elas conduzem (dirigem-br) tratores, guardam
armazéns e estábulos… As mulheres carregam sobre os ombros o grande
fardo do trabalho. Elas impõem-se … mandam pão, aviões, armas e munições
para a frente». Quando a guerra estava a ser travada no Volga, elas não
censuraram os seus homens por terem cedido tanto terreno. «As mulheres
olham e não dizem nada», escreveu Grossman, «… nem uma palavra azeda».
Mas nas aldeias próximas à frente, por vezes elas falavam.
Era apenas uma questão de tempo até à destruição da Alemanha Nazista
No entretanto, os aliados Ocidentais atacaram a Itália. Estaline
havia há muito exigido uma segunda frente em França, à qual Churchill
resistiu. Ele queria atacar o "ventre mole" do Eixo, não para ajudar o
Exército Vermelho, mas para impedir o seu avanço para os Balcãs. A ideia
era avançar rapidamente para norte até a bota Italiana, depois carrilar
para leste rumo aos Balcãs afim de manter o Exército Vermelho afastado.
O caminho para Berlim, contudo, era norte-nordeste. O plano de
Churchill foi um fracasso; os Aliados Ocidentais só chegaram a Roma em
Junho de 1944. Havia, aproximadamente, 20 divisões Alemãs em Itália
lutando contra forças Aliadas superiores. No Leste, ainda havia mais de
duzentas divisões do Eixo, ou seja, dez vezes mais que as da Itália. Em 6
de Junho de 1944, quando a Operação Overlord começou na Normandia, o
Exército Vermelho estava nas fronteiras da Polónia e da Romênia. Uma
quinzena depois dos desembarques na Normandia, o Exército Vermelho
lançou a Operação Bagration, uma enorme ofensiva que incendiou o centro
da frente oriental Alemã e levou a um avanço de 500 quilómetros para
oeste, enquanto os Aliados Ocidentais permaneciam retidos na Península
de Cotentin na Normandia. O Exército Vermelho tornara-se um imparável
rolo compressor. Era apenas uma questão de tempo até à destruição da
Alemanha Nazista. Quando a guerra terminou, em Maio de 1945, o Exército
Vermelho fora responsável por 80% das perdas da Wehrmacht, e essa
percentagem (porcentagem-br) seria ainda muito maior antes da invasão da
Normandia. «Aqueles que nunca experimentaram toda a agrura do Verão de
1941», escreveu Vasily Grossman, «nunca serão capazes de apreciar
plenamente a alegria da nossa vitória». Houve muitos hinos de guerra
cantados pelas tropas e pelo povo para manter o moral elevado.
"Sviashchennaia voina", «Guerra Sagrada» era um dos mais populares. Os
Russos ainda se poem em sentido quando o ouvem.
Os historiadores discutem muitas vezes sobre o momento em que ocorreu
a viragem decisiva da batalha no teatro Europeu. Alguns propõem 22 de
Junho de 1941, o dia em que a Wehrmacht cruzou as fronteiras Soviéticas.
Outros apontam para as batalhas de Moscovo, Estalinegrado ou Kursk.
Durante a guerra, a opinião pública Ocidental pareceu mais apoiante do
Exército Vermelho do que alguns líderes Ocidentais, Winston Churchill,
por exemplo. Roosevelt muito melhor, um líder político mais pragmático,
que reconheceu facilmente o preponderante papel Soviético na guerra
contra a Alemanha Nazista. O Exército Vermelho, disse ele a um general
céptico em 1942, estava a matar mais soldados alemães e a destruir mais
tanques alemães do que todos os outros Aliados em conjunto. Roosevelt
sabia que a União Soviética era o eixo da grande coligação (coalizão-br)
contra a Alemanha Nazista. Eu chamo FDR o padrinho da «grande aliança».
No entanto, nas sombras espreitavam os habituais inimigos da União
Soviética, que estavam apenas esperando o momento certo antes de
emergirem novamente. Quanto maior a certeza da vitória sobre a Alemanha
Nazista, mais palavrosos e estridentes se tornaram os pessimistas da
grande aliança.
Os Norte-americanos podem sentir-se melindrados quanto à memória do
Exército Vermelho desempenhando o papel condutor na destruição da
Wehrmacht. «E quanto ao "Lend-Lease"», dizem eles, «sem os nossos
suprimentos, a União Soviética não poderia ter batido os Alemães”. De
facto, a maioria dos suprimentos do Lend-Lease só chegou à URSS depois
de Estalinegrado. Os soldados do Exército Vermelho chamavam ironicamente
às latas de comida "Lend-Lease" a «segunda frente», uma vez que a real
chegava atrasada. Em 1942, a indústria Soviética estava já ultrapassando
a Alemanha Nazista nas principais categorias de armamento. Era o T-34
um tanque Americano ou Soviético? Um Estaline diplomata sempre se
lembrou de agradecer ao governo dos EUA pelos jipes e camiões
Studebaker. Eles aumentaram a mobilidade do Exército Vermelho. Você
contribuiram com o alumínio, nós contribuímos com o sangue ... rios de
sangue, foi a famosa resposta dos Russos.
O homem da rua na Europa e nos Estados Unidos sabia muito bem quem tinha carregado o fardo contra a Wehrmacht.
Ainda mal a guerra terminara, a Grã-Bretanha e os Estados Unidos
começaram a pensar acerca de uma outra guerra, desta vez contra a União
Soviética. Em Maio de 1945, o Alto-comando Britânico apresentou a
Operação «Impensável», um plano altamente secreto para uma ofensiva,
reforçada por prisioneiros de guerra Alemães, contra o Exército
Vermelho. Que bastardos, que ingratos. Em Setembro de 1945, os
Norte-Americanos contemplaram o uso de 204 bombas atómicas para destruir
a União Soviética. O padrinho, o Presidente Roosevelt, tinha morrido em
Abril e, em algumas semanas, os Sovietófobos Americanos estavam já
revertendo a sua política. A grande aliança foi apenas uma trégua na
Guerra Fria, a qual começara após a tomada de poder Bolchevique, em
Novembro de 1917, e foi retomada em 1945.
Naquele ano, os governos dos EUA e do Reino Unido ainda tiveram que
enfrentar a opinião pública. O homem da rua na Europa e nos Estados
Unidos sabia muito bem quem tinha carregado o fardo contra a Wehrmacht.
Não se podia retomar a velha política de ódio contra a União Soviética à
toa sem sujar a memória do papel do Exército Vermelho na vitória comum
sobre a Alemanha Hitleriana. Assim, as memórias do Pacto de não-agressão
Nazista-Soviético, de Agosto de 1939, foram tiradas do armário, embora
as memórias da prévia oposição Anglo-Francesa às propostas Soviéticas de
segurança colectiva contra a Alemanha Nazista e especialmente a traição
à Tchecoslováquia fossem omitidas da nova narrativa Ocidental. Como
ladrões da noite, a Grã-Bretanha e os Estados Unidos assaltaram a
verdadeira narrrativa da destruição da Alemanha Nazista.
Já em Dezembro de 1939, os Britânicos planeavam (planejavam-br)
publicar um livro branco culpando Moscovo pelo fracasso das negociações
da aliança Anglo-Franco-Soviética durante a Primavera e Verão
anteriores. Os Franceses objectaram porque era mais provável que o livro
branco persuadisse a opinião pública de que o lado Soviético havia sido
sério quanto à resistência à Alemanha Nazista, enquanto os britânicos e
os franceses não haviam. O livro branco foi metido na gaveta. Em 1948, o
Departamento de Estado dos EUA emitiu uma coleção de documentos
atribuindo a culpa pela Segunda Guerra Mundial a Hitler e a Estaline.
Moscovo ripostou com a sua própria publicação demonstrando as afinidades
Ocidentais com o Nazismo. A luta continuou no Ocidente para lembrar a
União Soviética do Pacto de não-agressão e apagar o papel preponderante
do Exército Vermelho no esmagamento da Wehrmacht.
No final da guerra, memórias do Pacto de não-agressão Nazi-Soviético, de Agosto de 1939, foram tiradas do armário.
Quantos de vós não viram algum filme de Hollywood em que os
desembarques na Normandia são o grande ponto de viragem da guerra? «E se
os desembarques tivessem falhado», ouve-se muitas vezes ? «Oh ...
grande coisa», é a resposta apropriada. A guerra teria durado mais e o
Exército Vermelho teria plantado as suas bandeiras nas praias da
Normandia vindo do leste. Depois há os filmes sobre a campanha Aliada de
bombardeamentos contra a Alemanha, como o factor «decisivo» para ganhar
a guerra. Nos filmes de Hollywood acerca da Segunda Guerra Mundial o
Exército Vermelho é invisível. É como se os Norte-americanos (e os
Britânicos) estivessem reivindicando louros que não ganharam.
Eu gosto de perguntar aos alunos do meu curso universitário sobre a
Segunda Guerra Mundial, quem já ouviu falar da operação Overlord? Todos
levantam a mão. Então pergunto quem ouviu falar da Operação Bagration?
Quase ninguém levanta a mão. Ironicamente pergunto quem «ganhou» a
guerra contra a Alemanha Nazista e a resposta é «América», claro. Apenas
uns poucos alunos —normalmente aqueles que tiveram outros cursos
comigo— responderão a União Soviética.
A verdade é um trabalho árduo num mundo Ocidental onde as «fake news»
("notícias forjadas") são a norma. A OSCE e o Parlamento Europeu atiram
a culpa da Segunda Guerra Mundial para a União Soviética, leia-se
Rússia e o Presidente Vladimir Putin, como a mensagem subliminar. Hitler
é quase esquecido nesta cacofonia de acusações sem provas. Por trás da
falsa narrativa histórica estão os estados Bálticos, a Polónia e a
Ucrânia, cuspindo ódio contra a Rússia. Os Baltas e a Ucrânia recordam
agora os colaboracionistas Nazis como heróis nacionais e celebram os
seus feitos. Na Polónia, para algumas pessoas, isso é difícil de
engolir; eles lembram os colaboracionistas Nazis Ucranianos que
assassinaram dezenas de milhar de Polacos (poloneses-br) em Volhynia.
Infelizmente, tais memórias não impediram hooligans Polacos de
vandalizar monumentos aos mortos de guerra do Exército Vermelho ou de
profanar cemitérios de guerra Soviéticos. Os «nacionalistas» Polacos não
conseguem suportar a memória do Exército Vermelho libertando a Polónia
do invasor Nazista.
Os
veteranos, menos a cada ano que passa, saem à rua vestindo uniformes
que muitas vezes não lhes caiem muito bem ou jaquetas surradas cobertas
com medalhas e ordens de guerra.
Na Rússia, contudo, a propaganda mentirosa do Ocidente não surte
efeito. A União Soviética produziu os seus próprios filmes, e a
Federação Russa também, acerca da Segunda Guerra Mundial, mais
recentemente sobre a defesa da fortaleza de Brest e de Sebastopol, e a
batalha de Estalinegrado.
Todos os anos, a 9 de Maio, os Russos lembram
os milhões de soldados que lutaram e morreram, e os milhões de civis que
sofreram e morreram às mãos do invasor Nazista. Os veteranos, menos a
cada ano que passa, saem à rua vestindo uniformes que muitas vezes não
lhes caiem bem ou jaquetas surradas cobertas com medalhas e ordens de
guerra. «Tratem-nos com tacto e respeito», escreveu Zhukov nas suas
memórias: «É um pequeno preço depois do que fizeram por vós em
1941-1945». Como se consegue, perguntei-me a mim próprio observando-os
no Dia da Vitória há alguns anos atrás, como se aguenta, vivendo
constantemente com a morte e tanta tristeza e sofrimento?
Uma marcha do Regimento Imortal em Moscovo
Agora, em cada ano no Dia da Vitória, o «regimento imortal», o
"bessmertnyi polk", marcha; Russos em cidades e vilas por todo o país e
no exterior, marcham juntos carregando grandes fotografias de membros da
família, homens e mulheres, que lutaram na guerra. «Nós recordamos»,
eles querem dizer : «e nunca nos esqueceremos de vocês».