quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Foram utilizados explosivos no 11/Set


por Craig McKee [*]
 

Colapso do WTC7. Pela primeira vez desde sempre, um organismo eleito nos Estados Unidos declara que está "para além de qualquer dúvida" que explosivos – não impactos de aviões e incêndios isolados – destruíram as três torres do World Trade Center em 11 de Setembro de 2001.

Comissários do Distrito de Bombeiros (Fire District) da Franklin Square e de Munson, localizados próximos de Queens, Nova York, aprovaram por unanimidade uma resolução histórica em 24 de Julho [de 2019] que clama por uma nova investigação a todos os aspectos do 11/Set e que menciona "evidência esmagadora" de que foram plantados explosivos em todas as três torres antes do 11/Set. A resolução declara que os Board of Fire Commissioners do distrito "apoiam plenamente um abrangente grande júri federal de investigação e acusação de todo o crime relativo aos ataques do 11 de Setembro..."

"Foi um assassinato em massa", disse o comissário Christopher Gioia numa entrevista. "Três mil pessoas foram assassinadas a sangue frio". Gioia, que escreveu e apresentou a resolução, diz que o número de mortos no seu departamento devido aos eventos daquele dia foi devastador. Os membros Thomas J. Hetzel e Robert Evans morreram no Piso Zero no 11/Set. Outros, incluindo os comissários Philip Malloy e Joseph Torregrossa, ficaram doentes devido à exposição ao ar tóxico durante operações de resgate e recuperação.

"Nós não deixamos nossos irmãos para trás", disse Gioia. "Não vamos esquecê-los. Eles merecem justiça e vamos fazer com que a justiça seja feita".

Desde que um amigo o alertou vários anos atrás para o colapso aparentemente inexplicável do Edifício 7, Gioia tem dedicado sua paixão e tempo à investigação do assunto. Ele descobriu que apesar de serem apenas fogos pequenos e isolados só nuns poucos pisos, o edifício de 47 andares veio abaixo simetricamente, dentro do seu próprio terreno, em apenas menos de sete segundos no 11/Set.

A investigação oficial do colapso foi conduzido pelo National Institute of Standards and Technology (NIST) – uma agência tutelada pelo Departamento do Comércio dos EUA – o qual de algum modo concluiu que incêndios normais de escritório foram responsáveis pela falência da estrutura. Mas as descobertas de investigadores independentes do 11/Set a trabalharem com Architects & Engineers for 9/11 Truth (AE911Truth) posteriormente forçaram o NIST a admitir que o edifício veio abaixo numa queda livre durante pelo menos um terço da sua queda de sete segundos. Isto é algo que só podia acontecer se todas as colunas de suporte falhassem virtualmente em simultaneidade. Apesar desta admissão, o NIST apegou-se à sua conclusão original.

Gioia decidiu entrar em acção quando soube que o Comité de Juristas para Inquérito ao 11/Set (Lawyers' Committee for 9/11 Inquiry) havia submetido a Geoffrey Berman, o Promotor para o Distrito Sul de Nova York, uma petição contendo evidência poderosa que contradiz a narrativa oficial do 11/Set. Berman concordou em cumprir a lei que dele requeria arrolar membro de um grande júri especial para examinar esta evidência. Embora ainda não o tenha cumprido, o Comité de Juristas continua a pressionar.

Estudo de universidade confirma que incêndios não foram a causa

A resolução do distrito de bombeiros não é o único desenvolvimento dramático na frente do 11/Set nos últimos dias e semanas. Em Março, um processo conjunto federal foi lançado contra o FBI pela AE911Truth, pelo Comité de Juristas e por membros de famílias vítimas do 11/Set. Ele sustenta que a agência falhou em desempenhar uma avaliação obrigatória do Congresso quanto à evidência conhecida do 11/Set que não fora considerada pela Comissão do 11/Set.

E talvez o mais poderoso passo em frente tenha sido dado em 3 de Setembro com a desde há muito aguardada divulgação do importante Estudo do Edifício 7 – Uma reavaliação estrutual do colapso do World Trade Center 7 ( Building 7 Study – A Structural Reevaluation of the Collapse of World Trade Center 7 ) pela Universidade do Alasca Fairbanks (UAF). O estudo de quatro anos, dirigido pelo Dr. Leroy Hulsey, Ph.D., e dois outros investigadores, é uma "análise de elementos finitos" que utiliza modelação por computador baseada nas plantas originais dos edifícios. Sua finalidade é determinar se a explicação oficial para a destruição do Edifício 7 se mantém de pé. Não se mantém.

O sumário executivo do estudo declara: "... incêndios não podiam ter causado enfraquecimento ou deslocamento de membros estruturais capazes de iniciar quaisquer das hipotéticas falhas locais que se alega terem disparado o colapso total do edifício, nem podiam quaisquer falhas locais, mesmo se tivesse ocorrido, ter disparado uma sequência de falhas que teriam resultado no colapso total observado".

Isto leva Hulsey e seus colegas a dizer: "É nossa conclusão, com base nestas descobertas, que o colapso do WTC 7 foi uma falha global envolvendo a falha quase simultânea de todas as colunas do edifício e não um colapso progressivo envolvendo falhas sequenciais de colunas através do edifício".

A minuta do estudo de Hulsey foi divulgada em Fairbanks, Alasca, e em Berkeley, Califórnia. Comentários acerca da minuta foram recebidos até 15 de Novembro . A versão final será divulgada no princípio de 2020.

Este é o mais recente movimento para divulgar a verdade acerca do 11/Set a um público muito mais vasto e obter justiça tanto para os que morreram naquele dia como para os que morreram nas guerras subsequente que foram lançadas utilizando o 11/Set como justificação.

"Eu diria a quem neste país acredita que é hora de se posicionar; que não se pode deixar isto passe em branco", diz Gioia. "Porque se eles matam 3.000 pessoas, o que não farão a seguir?"

Para mais informação acerca das evidências, ver os sítios web de Architects & Engineers for 9/11 Truth e do Lawyers' Committee for 9/11 Inquiry . Ver também o texto da resolução do distrito dos bombeiros e o Estudo Edifício 7 .

[*] Jornalista, canadiano, colaborador de AE911Truth e criador do sítio web Truth and Shadows ( truthandshadows.com ).

O original encontra-se em commonground.ca/explosives-used-on-9-11-say-commissioners/


Este artigo encontra-se em https://resistir.info/ .

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Sun Tzu em Teerão


por Alastair Crooke [*]
 
Cartoon de Aroeira. O Irão não acabou. O general Hajizadeh, comandante da Força Aeroespacial do IRGC, disse ontem num briefing que o ataque "foi o ponto de partida de uma grande operação ". Ele também sublinhou que "os ataques não se destinavam a causar fatalidades: pretendíamos [ao invés] assestar um golpe na máquina militar do inimigo". E o Pentágono está a dizer, também, que o Irão intencionalmente evitou as tropas americanas nas bases. Isso equivale ao Pentágono admitir que o Irão pode lançar mísseis com extrema precisão a uma distância de várias centenas de quilómetros – além disso, isto ocorreu sem que qualquer míssil tivesse sido interceptado pelas forças dos EUA. Evitar totalmente alvejar soldados numa grande base militar não é tarefa fácil – sugere uma precisão de um metro ou dois – e não dez metros – para os mísseis iranianos.

Não é esta a questão? Isto sugere que avanços nos sistemas de orientação do Irão permitem lançar mísseis com extrema precisão . Não vimos algo semelhante acontecer recentemente na Arábia Saudita (Abqaiq)? E não estava claro a partir de Abqaiq que os extremamente caros sistemas de defesa aérea dos EUA não funcionam? O IRGC demonstrou satisfatoriamente que eles e seus aliados podem penetrar nos sistemas de defesa aérea fabricados nos EUA, utilizando mísseis "inteligentes" produzidos internamente e através do uso dos seus sistemas de guerra electrónica.

As bases dos EUA na região – em resumo – agora representam infraestrutura vulnerável dos EUA – e não força. O mesmo vale para aquelas dispendiosas frotas de porta-aviões. A mensagem iraniana era clara e muito pertinente para aqueles que entendem (ou querem entender). Para os outros, menos estrategicamente conscientes, pode parecer que o Irão deu um soco militar e mostrou fraqueza. Realmente, quando você acaba de demonstrar a capacidade de reverter o status quo militar, não há necessidade de tocar trombetas. A própria recepção da mensagem é em si a "bofetada" para uma "máquina militar". Primorosamente calibrada: evitou a guerra frente a frente. Trump desistiu (e alegou êxito).

Então, está tudo acabado – tudo resolvido? Tudo terminado? De modo algum. Tanto o líder supremo como o general Hajizadeh disseram (efectivamente) que o ataque representava um arranque – "um começo". Mas grande parte dos media de referência – tanto no Ocidente quanto em Israel – tem um "ouvido mouco" cultural quanto à maneira como o Irão administra a guerra assimétrica – mesmo quando claramente explicitada.

A guerra assimétrica não é uma competição para "mostrar quem tem maior pau". É mais como David e Golias. Golias pode esmagar David com um soco, mas o último é ágil; de pés rápidos, dança em torno do gigante – fora de seu alcance. David tem vigor, mas o gigante move-se pesadamente ao redor e é facilmente irritado e exauridoo. Finalmente, até uma pedrinha bem direccionada – nem mesmo um Howitzer – deita-o abaixo.

Ouça atentamente a mensagem iraniana: se os EUA se retirarem do Iraque, conforme solicitado pelo Parlamento iraquiano, e conforme o seu acordo com o governo de Bagdad, e depois "partirem" da região, a situação militar será facilitada. Contudo, se os EUA insistirem em permanecer no Iraque, as forças americanas sofrerão pressão política e militar para o abandonar – mas não do estado iraniano. Ela virá dos habitantes daqueles estados nos quais as forças americanas actualmente estão posicionadas. Neste ponto, soldados americanos podem ser mortos (embora não por mísseis iranianos). É a opção da América. O Irão mantém a iniciativa.

Os líderes iranianos têm sido muito explícitos: a "bofetada" do ataque à base de Ain al-Assad não é a retaliação pelo assassínio do general Soleimani. Ao contrário, é a campanha que consiste na guerra amorfa, quase política, quase militar, a guerra assimétrica à presença da América no Médio Oriente é que foi dedicada como adequada à sua memória.

Este é David a dançar ao redor de Golias. O assassinato de Soleimani revigorou e mobilizou milhões num novo fervor de resistência (e não apenas os xiítas, a propósito). E a destruição da soberania do Iraque pela resposta do presidente Trump à votação no parlamento iraquiano (pedindo que as forças estrangeiras deixem o Iraque) criou um novo paradigma político que nem mesmo os mais pró-americanos do Iraque podem ignorar facilmente. É – notavelmente – uma missão não sectária (remover forças estrangeiras).

E Israel, após a auto-congratulação inicial (entre os netanyahuístas), entendeu que o Irão 'intensificou' e não 'retrocedeu'. Ben Caspit, o veterano analista de segurança israelense, escreve :
"A carta do general William H. Sili , comandante das operações militares dos EUA no Iraque, extravazou e foi rapidamente disseminada entre as mais importantes figuras da segurança de Israel em 6 de Janeiro ... O conteúdo da carta – que os americanos estavam a preparar-se para se retirarem do Iraque imediatamente – disparou todos os sistemas de alarme em todo o Ministério da Defesa em Tel Aviv. Mais ainda, a publicação estava prestes a desencadear um "cenário de pesadelo" israelense em que, antes das próximas eleições nos EUA, o presidente Donald Trump evacuaria rapidamente todas as forças americanas do Iraque e da Síria.

"Simultaneamente, o Irão anunciou que está de imediato a interromper seus vários compromissos respeitantes ao seu acordo nuclear com as superpotências, retornando ao enriquecimento de urânio em alto nível de quantidades ilimitadas e renovando seu impulso acelerado para alcançar capacidades nucleares militares. "Sob tais circunstâncias", contou uma importante fonte da defesa israelense [Caspit], "Nós realmente permanecemos sozinhos neste período mais crítico. Não existe cenário pior do que este para a segurança nacional de Israel ... Não está claro como esta carta foi escrita, não está claro porque veio a público, não está claro para começar porque foi escrita. Em geral, nada está claro no que diz respeito à conduta americana no Médio Oriente. Levantamos todas as manhãs frente a novas incertezas".
O impeachment do presidente dos EUA lançado pela Câmara dos Deputados deixou Trump muito vulnerável ao rebotalho sionista e evangélico no Senado dos EUA, cujos votos no entanto serão essenciais para a tentativa de Trump de permanecer no cargo quando os artigos de impeachment forem transferidos para o Senado. E a um julgamento em que Trump deve bloquear os democratas que se aliem a quaisquer rebeldes republicanos para conseguir um voto de dois terços de "culpado''. A alavancagem do impeachment tem sido usada várias vezes para pressionar Trump a actuar no Médio Oriente de modo directamente contrário ao seu interesse eleitoral – que permanece dependente de manter mercados em crescimento – e em conversas de um acordo comercial com a China.

O que Trump mais precisa agora (em termos de campanha eleitoral) é uma desescalada com o Irão – uma que atenuasse a pressão política dos sectores neo-con e evangélicos, e lhe permitisse exibir os mercados de activos inflacionados.

Mas é exactamente isso que ele não conseguirá.

As tentativas de Trump de conter a resposta iraniana ao assassinato de Soleimani foram rejeitadas categoricamente por Teerão. As missivas nunca foram abertas, nem lhes permitiram chegarem a falar com mediadores. Não há espaço para negociações, a menos que Trump levante sanções e os EUA se comprometam novamente com o JCPOA. Isso nunca irá acontecer. Agora haverá imensa pressão de todos os lobbies de Israel para que os EUA permaneçam no Iraque e na Síria (conforme comentários de Caspit). E o fantasma da "vingança" de Soleimani assombrará as forças americanas na região durante os próximos meses, se não anos.

O Irão – sabiamente – evitou o conflito militar directo de Estado para Estado, em favor de uma guerra mais subtil e perniciosa contra a presença dos EUA no Médio Oriente – uma guerra que, se bem-sucedida, irá remodelar a região.

Não, isto não está acabado. Está destinado a escalar (mas de um modo assimétrico). Trump permanecerá esmagado na morsa de senadores patifes.
15/Janeiro/2020
 

[*] Antigo diplomata britânico.

O original encontra-se em www.strategic-culture.org/news/2020/01/15/reading-sun-tzu-in-tehran/


Este artigo encontra-se em https://resistir.info/ .

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Como a brutalidade em França continua a ser invisível


por George Galloway [*]
 
Embora utilizem coletes de alta visibilidade, os que protestam em França têm sido quase invisíveis nos chamados media "de referência", provocando também um silêncio ensurdecedor do movimento trabalhista e sindical e até mesmo da assim chamada "esquerda" no seu bojo.

Se bem que uma cabeça quebrada ou mesmo uma vidraça partida em Hong Kong ou na Venezuela muitas vezes lidere os noticiários, mais de um ano de sublevação semanal e de movimentos de massa de trabalhadores que se deparam com a extrema violência do estado francês e o seu dolorosamente liberal presidente Macron têm sido ignorados pela imprensa ocidental e pelos jornalistas da rádio e TV com estudada arrogância.

Não pode haver justificação racional para isto. Hong Kong está a quase 10.000 km da Inglaterra, Caracas a quase 8.000 km. A França está a 50 km de distância. Não é barato enviar e manter equipes de jornalistas no outro extremo da terra. Proliferam viagens baratas para Paris.

Nenhum critério noticioso poderia justificar a quase total ausência de cobertura da desordem generalizada e as multidões maciças no nosso vizinho europeu mais próximo ao longo de um ano inteiro. Na verdade, é tamanha a antipatia entre a elite inglesa e a francesa (e vice-versa) que, tomando emprestada uma palavra alemã, seria expectável que uma sensação de schadenfreude conduzisse a cobertura britânica, à velocidade máxima! Mas não houve nada disso.

Já não são só os coletes amarelos. Obviamente, o que aconteceu agora é que toda a classe trabalhadora organizada da França entrou no campo de batalha. Grandes centrais sindicais – como o moderado CFDT, bem como a militante CGT – com milhões de membros estão agora a confrontar fisicamente o poder do estado francês.

A causa imediata deste novo desenvolvimento é a "reforma" das pensões de Macron. Nos dias de hoje, reformas são coisas más, enquanto antigamente eram boas – essencialmente fazendo os trabalhadores franceses trabalharem mais por menos pensões após a aposentadoria.

Mas, tal como com os coletes amarelos – cujo casus belli original era um imposto sobre combustíveis – agora trata-se muito mais do que pensões.

A classe trabalhadora francesa está cansada da austeridade, cansada da corrupção e dos excessos de trono de pavão do presidente Macron, cansada da UE, cansada de toda a classe política. Precisamente a fórmula que levou à vitória do Brexit do nosso lado da Mancha.

Tradicionalmente, os franceses – predispostos ao longo de séculos à revolução – estão longe de serem conciliadores que se arrastam nos protestos. Por outro lado, a "polícia de choque" francesa não faz prisioneiros. Uma força irresistível depara-se com um objecto inamovível.

Mas uma coisa é a polícia agredir estudantes ou mesmo trabalhadores comuns. Outra coisa é ver a polícia com couraças a investir com toda a força – equipamento de protecção – como tem acontecido nas últimas duas semanas. Jamais se viu dois disciplinados serviços uniformizados chocarem-se um contra o outro nas ruas de Paris desde... bem, desde sempre.

A crise parece estar a fugir do controle do estado francês; o Natal poderia literalmente ter de ser cancelado. O turismo foi duramente atingido, conheço pessoalmente três casais que cancelaram férias românticas de Natal na capital francesa. As viagens aéreas, de autocarro e de comboio ameaçam parar. Ficaríamos menos surpresos ao acordar com a notícia de que a Assembleia Nacional havia sido saqueada do que Louis Bourbon ao saber do assalto à Bastilha.

Dado o desafio quase existencial que está a ser escalado contra um dos pilares gémeos da UE, pode-se começar a entender o silêncio quase universal nas capitais ocidentais – principalmente o seu medo do poder do exemplo.

Mas por que o silêncio da "esquerda"?

Em parte, é uma sensação de vergonha pelo facto de os trabalhadores franceses estarem a avançar a espécie de combate que ela nunca sonharia contemplar. Mas em parte é a ausência de liberalismo entre fileiras compactas de trabalhadores franceses. Eles rejeitaram com desprezo a política de identidade que tanto infesta o que passa como esquerda na maioria dos países ocidentais.

Não se trata de direitos dos gays, de emancipação negra, de modismos de gênero neutro. Não se trata de requerentes de asilo ou contra o racismo em defesa de imigrantes ou sobre a Bolívia ou Venezuela ou contra o triste registo colonial da França nas actuais guerras em África. Trata-se da classe trabalhadora francesa que confronta o sistema capitalista de frente e com sangue vermelho nas ruas. Trabalhadores franceses negros e (predominantemente) brancos, gays e (predominantemente) heterossexuais, homens e mulheres, que se auto-identificam apenas como trabalhadores cansados de serem roubados. Isto tudo é um tanto demasiado... proletário para aquilo que se tornou a "esquerda".

E tal como Nelson na Batalha de Copenhaga, eles levantam o telescópio até o seu olho cego e declaram: "Não vejo navios". A esquerda não vê os franceses em guerra, mas os trabalhadores franceses podem vê-los. E não é uma visão bela.
18/Dezembro/2019
 
[*] Director de cinema, escritor e orador. Foi membro do Parlamento britânico durante 30 ano. É apresentador de shows na TV e na rádio.

O original encontra-se em www.rt.com/op-ed/476161-pension-reform-protests-france/


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Nunca vi o mundo tão fragmentado!


por Andre Vltchek [*]
 
É impressionante a facilidade com que o império ocidental está a conseguir destruir os países "rebeldes" que estão no seu caminho, sem que haja resistência.

Trabalho em todos os cantos do planeta, onde "conflitos" kafkianos forem desencadeados por Washington, Londres ou Paris.

O que vejo e descrevo, não são apenas aqueles horrores que estão a acontecer à minha volta; horrores que estão a arruinar vidas humanas, a destruir aldeias, cidades e países inteiros. O que tento perceber é que, nas telas da televisão e nas páginas dos jornais e da Internet, os crimes monstruosos contra a Humanidade são descritos até certo ponto, mas as informações são distorcidas e manipuladas de tal forma que os leitores e os espectadores de todas as partes do mundo, acabam por não saber quase nada sobre o seu próprio sofrimento e/ou o sofrimento dos outros.

Por exemplo, em 2015 e em 2019, tentei reunir-me e argumentar com manifestantes de Hong Kong. Foi uma experiência verdadeiramente reveladora! Eles não sabiam nada, absolutamente nada sobre os crimes que o Ocidente cometeu em lugares como o Afeganistão, Síria ou Líbia. Quando tentei explicar-lhes quantas democracias latino-americanas Washington havia derrubado, pensaram que eu era um lunático. Como é que o Ocidente, bom, terno e "democrático", tinha matado milhões de pessoas e mergulhado continentes inteiros em sangue? Não foi o que nos ensinaram nas universidades. Não foi o que a BBC, a CNN ou mesmo o que o China Morning Post disseram e escreveram.

Olhem, estou a falar a sério. Mostrei-lhes fotografias do Afeganistão e da Síria; fotos armazenadas no meu telefone. Eles deviam ter de compreender que era algo genuíno, em primeira mão. Ainda assim, eles observavam, mas os seus cérebros não eram capazes de processar o que lhes estava a ser mostrado. Imagens e palavras; essas pessoas estavam condicionadas a não compreender certos tipos de informações.

Mas isto não está a acontecer só em Hong Kong, uma antiga colónia britânica.

Talvez considerem difícil de acreditar, mas mesmo num país comunista como o Vietname; um país orgulhoso, um país que sofreu enormemente com o colonialismo francês e o imperialismo louco e brutal dos EUA, as pessoas com quem me relacionei (e morei em Hanói durante dois anos) não sabiam quase nada sobre os crimes horríveis cometidos pelos EUA e pelos seus aliados durante a chamada "Guerra Secreta" contra os pobres e indefesos habitantes do país vizinho, o Laos; crimes que incluíam o bombardeio de camponeses e búfalos de água, dia e noite, por bombardeiros estratégicos B-52. E no Laos, onde fiz uma reportagem sobre os trabalhos de desminagem, as pessoas não sabiam nada sobre as mesmas monstruosidades que o Ocidente tinha cometido no Camboja; onde haviam assassinado centenas de milhares de pessoas através de atentados à bomba e desalojado milhões de camponeses das suas casas, provocando a fome e abrindo as portas para o domínio do Khmer Vermelho.

Quando falo dessa falta de conhecimento chocante no Vietname, sobre a região e sobre o que esse povo foi forçado a suportar, não falo apenas de vendedores ou de fabricantes de vestuário. Aplica-se a intelectuais, artistas, professores vietnamitas. É uma amnésia total e surgiu com a chamada 'abertura' para o mundo, o que significa com o consumo da comunicação mediática ocidental e, mais tarde, com a infiltração das redes sociais.

Pelo menos, o Vietname partilha fronteiras com o Laos e o Camboja, além de uma história turbulenta.

Mas imaginem dois grandes países só com fronteiras marítimas, como as Filipinas e a Indonésia. Alguns moradores de Manilha que conheci, pensavam que a Indonésia se situava na Europa.

Agora, adivinhem, quantos indonésios têm conhecimento dos massacres que os Estados Unidos efectuaram nas Filipinas há um século, ou como as pessoas nas Filipinas foram doutrinadas pela propaganda ocidental sobre todo o Sudeste Asiático? Ou quantos filipinos têm conhecimento do golpe militar de 1965, desencadeado pelos EUA, que depôs o Presidente Sukarno, matando entre 2 a 3 milhões de intelectuais, professores, comunistas e sindicalistas na "vizinha" Indonésia?

Consultem as secções estrangeiras dos jornais indonésios ou filipinos e o que verão? As mesmas notícias da Reuters, AP, AFP. De facto, também verão os mesmos relatórios nas agências de notícias do Quénia, da Índia, do Uganda, do Bangladesh, dos Emirados Árabes Unidos, do Brasil, da Guatemala e a lista continua. Este esquema foi planeado para produzir um único resultado: a fragmentação completa!


A fragmentação do mundo é incrível e está a aumentar com o passar do tempo. Aqueles que esperavam que a Internet melhorasse a situação, pensaram erradamente.

Com a falta de conhecimento, a solidariedade também desapareceu.

Neste momento, em todo o mundo, decorrem tumultos e revoluções. Estou a noticiar as mais significativas; no Médio Oriente, na América Latina e em Hong Kong.

Deixem-me ser franco: não há absolutamente nenhuma percepção no Líbano sobre o que está a acontecer em Hong Kong, ou na Bolívia, no Chile ou na Colômbia.

A propaganda ocidental joga tudo no mesmo saco.

Em Hong Kong, os manifestantes doutrinados pelo Ocidente são apresentados como "manifestantes pró-democracia". Eles matam, queimam, espancam pessoas, mas ainda são os favoritos do Ocidente. Porque estão a antagonizar a República Popular da China, considerada agora, o maior inimigo de Washington. E porque esses manifestantes foram criados e apoiados pelo Ocidente.

Na Bolívia, o Presidente anti-imperialista foi derrubado por um golpe orquestrado por Washington, mas a maioria da população indígena, que exige o seu regresso, é citada como um bando de arruaceiros.

No Líbano, assim como no Iraque, os amotinados são tratados gentilmente pela Europa e pelos Estados Unidos, principalmente porque o Ocidente espera que o Hezbollah pró-iraniano e outros grupos e partidos xiitas, possam vir a ser enfraquecidos pelos protestos.

A revolução, visivelmente anti-capitalista e anti-neoliberal no Chile, bem como os protestos legítimos na Colômbia, são relatados como uma espécie de combinação de explosão de queixas genuínas e hooliganismo e saques. Mike Pompeo alertou, recentemente, que os Estados Unidos apoiarão os governos de direita da América do Sul, na tentativa de manter a ordem.

Todas essas reportagens são um absurdo. De facto, têm um único objectivo: confundir os espectadores e os leitores. A fim de assegurar que eles não saibam nada ou que percebam muito pouco. E que, no final do dia, aterrem nos sofás com suspiros profundos, exclamando: "Oh, o mundo está um caos!"



Também conduz à tremenda fragmentação dos países em cada continente e em todo o hemisfério sul do globo.

Os países asiáticos conhecem muito pouco uns dos outros. O mesmo acontece com a África e com o Médio Oriente. Na América Latina, são a Rússia, a China e o Irão que estão, literalmente, a salvar a vida da Venezuela. Os outros países latino-americanos, com a excepção brilhante de Cuba, não fazem nada para ajudar. Todas as revoluções latino-americanas estão fragmentadas. Todos os golpes produzidos pelos EUA, basicamente, não têm oposição.

A mesma situação está a acontecer em todo o Médio Oriente e na Ásia. Não há brigadas internacionalistas que defendam os países destruídos pelo Ocidente. O grande predador vem e ataca a sua presa. É uma visão horrível, como um país morre perante o mundo, em terrível agonia. Ninguém interfere. As pessoas apenas vêem.

Um após o outro, os países estão a render-se.

Não é assim que, no século XXI, os Estados devem comportar-se. Esta é a lei da atracção da selva. Quando eu morava em África, fazia documentários no Quénia, no Ruanda e no Congo, conduzindo através do deserto; era assim que os animais se comportavam, não as pessoas. Os grandes felinos a encontrarem a sua vítima. Uma zebra ou uma gazela. E a caça começava: uma ocorrência terrível. Depois, a morte lenta – comendo a vítima viva.

Muito semelhante à designada Doutrina Monroe

O Império tem de matar. Periodicamente. Com regularidade previsível.

E ninguém faz nada. O mundo está a assistir. Fingindo que nada de extraordinário está a acontecer.

Perguntem a si mesmos: A revolução legítima pode ser bem sucedida em tais condições? Qualquer governo socialista eleito democraticamente poderá sobreviver? Ou tudo que é decente, esperançoso e optimista acaba sempre vítima de um império degenerado, brutal e vulgar?

Se for esse caso, qual é o sentido de seguir regras? Obviamente, as regras estão podres. Existem só para manter o status quo. Protegem os colonizadores e castigam as vítimas das rebeliões.

Mas não é este assunto que eu queria discutir aqui, hoje.

O que quero dizer é que as vítimas estão divididas. Sabem muito pouco umas das outras. As lutas pela verdadeira liberdade estão fragmentadas. Aqueles que lutam e sangram, mas que mesmo assim lutam, muitas vezes são hostilizados pelos seus companheiros que são mártires menos ousados.

Eu nunca vi o mundo tão dividido. Afinal, o Império está a vencer?

Sim e não.

A Rússia, a China, o Irão, a Venezuela – já acordaram. Ergueram-se. Estão a adquirir conhecimento sobre os outros, uns com os outros.

Sem solidariedade, não pode haver vitória.

Sem conhecimento, não pode haver solidariedade.

Nitidamente, a coragem intelectual vem agora da Ásia, do "Oriente". Para mudar o mundo, a comunicação mediática de destaque ocidental precisa de ser marginalizada, confrontada. Todos os conceitos ocidentais, incluindo a "democracia", a "paz" e os "direitos humanos" devem ser questionados e redefinidos.

E naturalmente, o conhecimento.

Precisamos de um mundo novo, não de um mundo melhorado.

O mundo não precisa de Londres, Nova York e Paris para ensiná-lo sobre si mesmo.

A fragmentação tem de terminar. As nações precisam de aprender, directamente, umas sobre as outras. Se o fizerem, dentro em breve, as verdadeiras revoluções serão bem sucedidas, enquanto os tumultos e as falsas revoluções coloridas, como as de Hong Kong, da Bolívia e de todo o Médio Oriente, serão confrontadas regionalmente e impedidas de arruinar milhões de vidas humanas.

 
[*] Filósofo, romancista, cineasta e jornalista investigativo. É o criador de Vltchek's World in Word and Images . Escreve especialmente para a revista online New Eastern Outlook .

O original encontra-se em journal-neo.org/2019/12/10/i-never-saw-a-world-so-fragmented/ e a versão em português em nowarnonato.blogspot.com/2019/12/pt-andre-vltchek-nunca-vi-o-mundo-tao.html . Tradução de Maria Luísa de Vasconcellos,   luisavasconcellos2012@gmail.com


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

"A revolução (real) nos assuntos militares" – Novo livro de Andrei Martyanov


por The Saker 
 
. No ano passado resenhei o livro de Andrei Martyanov [*] " Losing Military Supremacy: the Myopia of American Strategic Planning " na Unz Review . Naquele livro, Martyanov explicou porque a era das vitórias fáceis dos EUA sobre países quase indefesos estava acabada e o que isso significava para os planeadores das forças dos EUA. Este ano, é com imenso prazer que faço a resenha do seu último livro " The (real) Revolution in Military Affairs " ("A revolução (real) nos assuntos militares"). Deixem-me dizer de imediato que não é preciso ler o primeiro livro para aproveitar muito o segundo, mas ainda penso que a melhor combinação para obter um quadro completo seria ler ambos os livros na ordem em que foram publicados. Mas hoje vou rever apenas o segundo livro.

Primeiro, desmascarar as muitas ficções da ciência política nos EUA

Martyanov começa seu livro desmascarando a chamada "armadilha de Tucídides", a qual a revista Foreign Policy resumiu assim: " Quando uma grande potência ameaça deslocar outra, o resultado é quase sempre a guerra – mas não tem de ser assim" (com uma ênfase clara na primeira parte do subtítulo). Martyanov classifica correctamente este cliché (tipicamente de "geeks da ciência política") como muito perigoso e enganoso. Ele a seguir continua a desmascarar uma lista de clichés da ciência política dos EUA, incluindo o mais recente, o da chamada "guerra híbrida". Ele fala de "confusão desnecessária e pseudo-escolástica" e acrescenta que a actual "redoma dos think tank ocidentais" está "totalmente despreparada" para as realidades da guerra moderna. Como alguém que trabalhou (durante meus anos de faculdade) em vários think tanks dos EUA em Washington DC, só posso concordar. Também sei que a maioria dos think tanks escreverá qualquer coisa, não importa quão falsa, apenas para garantir mais financiamento (até tive um colega que trabalhou em think tanks "respeitáveis" que ria das asneiras que escreviam só para obterem mais financiamento).

Além disso, na maioria dos países da Europa Ocidental, o que os think tanks americanos escrevem é considerado como um evangelho, inclusive por pessoas em posições importantes nos serviços militares e de inteligência. Assim, quando o mais recente boato falso (canard) dos EUA sai cá para fora, digamos "guerra híbrida", todo a gente na Europa sente-se obrigada a utilizar tal expressão para parecer semi-educado em assuntos militares. O que eu também já vi por mim próprio, muitas vezes.

Tese-chave: os líderes ocidentais, especialmente os decisores dos EUA, estão fora de contacto com a realidade

Segundo Martyanov, os líderes políticos ocidentais estão a viver numa pseudo-realidade completamente ilusória que não tem qualquer conexão com o mundo real. Eu recordaria aos que acusarão Martyanov de ser demasiado severo na sua crítica que Karl Rove, o super-guru político dos EUA, admitiu candidamente que "agora somos um império e, quando agimos, criamos nossa própria realidade. E enquanto você estuda essa realidade – criteriosamente, como quiser –, actuaremos outra vez, criando outras novas realidades, as quais você também pode estudar, e é assim que as coisas decorrerão. Nós somos actores da história ... e vocês, todos vocês, serão relegados apenas a estudar o que fazemos".

Seria possível dizer que todo o esforço de Martyanov visa um objectivo específico: despertar aqueles americanos que ainda se importam e que ainda têm um resto de inteligência crítica, apresentando-lhes a realidade da guerra moderna no século XXI, inclusive contra adversários quase iguais, iguais e até superiores (em 2019 este seria apenas a Rússia, mas isto também está a mudar muito, muito rapidamente, e a China tem feito um imenso progresso nas suas capacidades militares).

Ele começa por mostrar porque os modelos de ciência política, os quais pretendem avaliar o poder agregado global de uma sociedade, os EUA, são profundamente falhos e dão aos políticos e ao público ocidentais um sentimento completamente erróneo de confiança, poder e segurança. A seguir passa a contrastar estes modelos com algo que eu não ouvia desde meus anos de faculdade: as chamadas "Leis de Osipov-Lanchester" (bem, como eu estava numa faculdade nos EUA, chamávamos isso apenas de "equações de Lanchester" porque aqui quase nunca se mencionam autores ou cientistas não ocidentais). Não vou resumir agora a natureza destas equações, pois a Wikipedia fez um trabalho decente aqui , mas mencionarei que nas nossas aulas de planeamento de forças militares usávamos estas (e outras) equações para criar todo tipo de modelos numéricos para desgastes, movimentos frontais e mesmo intercâmbios nucleares entre superpotências (as quais, é claro, não usavam directamente as equações de Osipov-Lanchester do início do século XX, mas utilizavam equações modernas que foram desenvolvidas pela comunidade de planeamento de forças dos EUA, as quais eram pelo menos inspiradas pelo tipo de metodologia utilizada por Osipov e Lanchester).

Permitam-me tranquilizar de imediato os leitores avessos à matemática: os escritos de Martyanov não arrastam o leitor através de equações complicadas, ele apenas usa uma versão simplificada destas equações de Osipov-Lanchester para mostrar que a guerra moderna é uma ciência que exige um mínimo de perícia técnica/tecnológica para entender e que realmente nada tem a ver com palavras da moda sem sentido da ciência política e conceitos exagerados como "A2/AD" ou "guerra híbrida", "guerra centrada em rede" ou mesmo "Revolução nos Assuntos Militares". A verdade é que nenhum destes conceitos é novo. Eles existem há décadas e são todos os chavões cuja função principal é fazer uma pessoa despistada parecer "bem versada na terminologia complexa da ciência política moderna" ou algum outro objectivo igualmente insípido, como convencer políticos despistados a gastarem mais dinheiro em "defesa", possibilitando assim aos proponentes desta espécie de tolice da ciência política encherem seus bolsos com dinheiro ganho com facilidade.

A seguir, um curso rápido de guerra moderna para principiantes

O resto do livro é o que eu chamaria de um "curso rápido de guerra moderna para principiantes": Martyanov faz um trabalho absolutamente soberbo ao explicar algumas (não todas, é claro!) características da guerra moderna a um leitor que se supõe ser apenas um amador curioso cujo intelecto pode ser persuadido por argumentos lógicos e baseados em factos (em oposição à arrogância ilusória e imperial e à sensação de bem-estar de tremular a bandeira e a auto-adoração). Como matéria de facto, o livro de Martyanov poderia ser uma "introdução à análise militar" ideal ou um curso de "planeamento de forças militares para principiantes".

Martyanov mostra-se profundamente frustrado com a ignorância deliberada exibida por muitos académicos, políticos e outras pessoas dos EUA e atribui a culpa ao sistema educacional dos EUA. Este, segundo Martyanov, ensina teorias sem sentido que são não só inúteis, mas na verdade auto-enganosas e absolutamente perigosas. Fazendo justiça às faculdades e academias dos EUA, penso que Martyanov é um tanto injusto: apesar de ser verdade que a maioria das escolas de "ciência política" e outras de "estudos de conflitos e paz" ensinarem principalmente tolices, existem outras faculdades e academias nos EUA – civis e militares – que, pelo menos nas décadas de 80 e 90 – ensinavam análises e planeamento de forças militares reais. Aqueles cursos eram tipicamente ministrados por professores adjuntos retirado de pessoal militar que davam aulas à noite enquanto ainda trabalhavam nas suas posições regulares no Departamento de Defesa. Além disso, muitos estudantes tinham uma patente militar (geralmente Primeiros Tenentes e Capitães). Não sei até que ponto são boas as escolas agora, mas nas décadas de 1980 a 1990 algumas destas escolas possuíam currículos excelentes, "pesados" em análise técnica e modelação por computador. Também posso dizer que a maior parte dos oficiais americanos com os quais estudei eram especialistas muito competentes e homens honrados, todos agudamente conscientes de que ser oficial das forças armadas de uma superpotência impunha-lhes um duplo fardo: o de proteger o seu país pela dissuasão, mas também evitar um conflito a quase qualquer custo, porque esta é a única maneira de realmente proteger o seu país!

A propósito, naquele tempo, um oficial sénior do Office of Net Assessment do Departamento de Defesa disse-nos abertamente: " nenhum presidente dos EUA alguma vez sacrificará Boston ou Chicago por causa de Berlim ou Paris; mas nunca admitiremos isso publicamente". Na minha experiência, os oficiais da Guerra Fria dos EUA eram muito competentes, cautelosos e conscientes da imensa responsabilidade colocada sobre seus ombros. Além disso, direi o seguinte: durante a Guerra Fria, tanto a URSS quanto os EUA actuavam com responsabilidade, mesmo durante grandes crises. Finalmente, apesar da ideia (natimorta) de Reagan da "Guerra nas Estrelas", também conhecida como "SDI" – nunca conheci um único oficial dos EUA que acreditasse, mesmo por um segundo, que os EUA pudessem travar um segundo ataque de retaliação soviético (muito menos o primeiro!).

Durante a Guerra Fria – a dissuasão funcionou e os dois lados jogavam pelo mesmo livro de regras. Este não é mais o caso e isto é muito assustador.

Da mesma forma, a postura oficial da US Navy era que precisava de 600 navios para "avançar" e "levar a guerra aos soviéticos" (atingindo, por exemplo, a Península de Kola). No entanto, todos os oficiais da USN que conheci e que serviram em porta-aviões americanos nos disseram que tudo isso era propaganda e que, devido à ameaça "extrema" de mísseis dos ursos soviéticos, contra-ataques e submarinos com mísseis nucleares (SSGNs) da classe Oscar, a marinha recuaria imediatamente para o sul do chamado GIUK Gap . Lembre-se de que isso foi muito antes do advento dos mísseis anti-navio hipersônicos de longo alcance!

Naquela época (final dos anos 80), o que eu via normalmente nas escolas orientadas para militares dos EUA eram especialistas militares muito competentes que na verdade se prestavam à retórica (lip-service) obrigatória da propaganda oficial, mas que nunca, nem por um segundo, levavam a sério toda aquela palermice. Nenhum. Quanto aos sujeitos que esses especialistas militares tipicamente chamavam de "geeks da ciência política" – ninguém os levava a sério e havia uma grande aversão entre departamentos de ciência política e as escolas de "estudos de segurança" ou de "estudos de segurança nacional" (muitos proto-neocons entre estes sabichões da ciência política, a propósito).

Será que isto ainda é verdade hoje? Não sei, mas meu medo é que os Neocons tenham estripado o Departamento de Defesa dos seus especialistas mais competentes, deixando apenas "generais políticos" (palhaços realmente políticos à la General "Betrayus" a quem o almirante Fallon chamou abertamente de "Beija cu covarde"). E, francamente, o rumor (bastante crível) de que o general Jim Mattis, também conhecido como "Maddog", era a voz (solitária) da razão na Primavera de 2017 paredes meias com o Gabinete Neocon de Trump, é absolutamente assustador. Especialmente porque acabaram por mostrar a porta a Mattis…

Mas a realidade pode ser ainda pior.

O que acontece quando o "terceiro A" desaparece

Durante um desses cursos, não me lembro qual, recordo de um oficial nos dizer que o processo de inteligência pode ser resumido pelo que ele chamou de "três As": aquisição, análise e aceitação. O primeiro 'a' é simplesmente obter os dados brutos por qualquer meio, técnico ou "humano". O 'a' seguinte é a análise dos dados obtidos por gente especializada que supostamente seriam peritos em analisar e avaliar tais dados e sua fonte e, em seguida, redigir um resumo legível a ser apresentado aos tomadores de decisão. O terceiro 'a' é simplesmente a aceitação, ou a falta dela, pelos tomadores de decisão dos relatórios apresentados. A julgar pelo tipo de linguagem agora usado por quase todos os políticos dos EUA (excepto Ron Paul e Tulsi Gabbard e talvez muito poucos outros), o processo de inteligência nos EUA parece estar completamente rompido, se no nível do primeiro, segundo ou terceiro 'a' faz muito pouca diferença. Por quê?

Porque falar a verdade acerca da guerra moderna ou acerca do estado sombrio das forças armadas dos EUA é um "assassino de carreira" instantâneo no moderno contexto político dos EUA. Quem rompe esse tabu está instantaneamente a destruir a sua perspectiva de ser ouvido, quanto mais de ser prestada atenção. Na cultura política moderna, a resposta automática a qualquer "crime de pensamento" é uma combinação típica de acusação de "antiamericanismo" ou "falta de patriotismo" ou alguma outra acusação ad hominem que habilmente evita qualquer discussão sobre a realidade real do tópico discutido. Assim, deixem-me abordar essa atitude frontalmente e declarar o seguinte:

Acredito fortemente que qualquer americano que ame seu país deve ler cuidadosamente AMBOS os livros de Martyanov !

Além disso, longe de serem antiamericanos, os livros de Martyanov representam um esforço hercúleo para tentar despertar o público americano da sua coma sobre a realidade da guerra moderna e mostrar que uma continuação da ilusória arrogância imperial que é tão generalizada no discurso da política americana poderia levar a um desastre absoluto: uma guerra em plena escala entre a Rússia e os EUA, a China e os EUA ou, pior ainda, a Rússia e a China contra os EUA. E é uma guerra que, pela primeira vez na história, devastará o continente americano tanto com armas convencionais como nucleares.

Por fim, se você nunca conseguiu entender as novas armas russas anunciadas por Putin no seu discurso agora famoso, também pode pensar no livro de Martyanov como um guia de estudo para civis curiosos, no qual ele explicará não apenas o que essas armas podem fazer mas o que sua introdução nas forças armadas russas realmente significa para os EUA.

Com este livro, você obterá seu terceiro 'a'

O maior benefício dos dois livros de Martyanov é que dão ao leitor todos os três As: Será apresentado aos dados "concretos" do mundo real acerca dos novos sistemas e tácticas de armas do século XXI. A seguir, Martyanov apresenta a uma análise simples, mas extremamente convincente, do significado de todos esses dados. Finalmente, Martyanov explica por que tudo isso é crucial para todos os cidadãos dos EUA que desejam que seu país seja pacífico e próspero. Assim, só posso repetir que considero ambos os livros de Martyanov uma leitura obrigatória para qualquer membro da Comunidade Saker ou para qualquer pessoa que queira entender a verdadeira natureza da actual Revolução nos Assuntos Militares que se desenrola diante dos nossos olhos.

O livro é muito bem escrito e bastante curto (193 páginas). Meu único lamento é o índice muito fraco no final (um livro tão seminal como este deveria realmente ter um índice completo).

Trata-se de uma óptima leitura e insto todos a que obtenham um exemplar deste livro. 

Martyanov em resistir.info:
  • A supremacia militar perdida dos EUA , Jorge Figueiredo
  • A perda da supremacia militar e a miopia do planeamento estratégico dos EUA (I) , Daniel Vaz de Carvalho
  • A perda da supremacia militar e a miopia do planeamento estratégico dos EUA (II) , Daniel Vaz de Carvalho
  • Como Putin virou o jogo: a paz através força , Andrei Martyanov
  • O gato e o cozinheiro , Andrei Martyanov

  • As implicações dos novos sistemas de armas da Rússia , Andrei Martyanov

    [*] Andrei Martyanov: Perito em questões militares e navais. Nasceu em Baku, URSS, em 1963. Formou-se na Academia Naval Bandeira Vermelha de Kirov e serviu como oficial em navios e em posições de staff da Guarda Costeira Soviética até 1990. Participou dos eventos no Cáucaso que levaram ao colapso da União Soviética. Em meados dos anos 90, mudou-se para os Estados Unidos, onde actualmente trabalha como Director de Laboratório num grupo aeroespacial comercial. Colabora frequentemente no US Naval Institute Blog dos EUA. Também escreve em Reminiscence of the Future…

    O original encontra-se em thesaker.is/...


    Este artigo encontra-se em https://resistir.info/ .
  • terça-feira, 12 de novembro de 2019

    Propaganda e Pós-verdade


    Desde há 18 anos, debatemos a estranha evolução dos média que parecem dar cada vez menos valor aos factos. Atribuímos este fenómeno à sua democratização através das redes sociais. Isto acontecerá porque como agora um zé-qualquer pode improvisar-se jornalista a qualidade da informação teria afundado. Conviria, pois, reservar às elites o direito de falar. Mas, e se fosse exactamente o contrário ? Se a censura que se verifica não fosse a resposta ao fenómeno, mas antes a sua continuidade?

    | Damasco (Síria)


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    Sísifo iça penosamente a sua rocha para o alto da montanha das suas ambições, do outro lado, a pedra rola em seguida inexoravelmente em direcção aos infernos. Depois, ele recomeça esse trabalho sem fim.

     

    Propaganda


    Nos sistemas políticos onde o Poder tem necessidade de participação do Povo, a propaganda tem por objectivo fazer aderir o maior número a uma ideologia em particular e em mobilizá-lo para a aplicar.

    Os métodos utilizados para convencer são os mesmos quer se esteja de boa ou má fé. Entretanto, no século XX, o uso da mentira e da repetição, a eliminação de pontos de vista diferentes, e a militância no seio de organizações de massas foram primeiro teorizadas pelo deputado britânico Charles Masterman, pelo jornalista norte-americano George Creel e principalmente pelo ministro alemão Joseph Goebbels com as consequências devastadoras que se conhecem [1]. Foi por isso que, na sequência de duas Guerras Mundiais, a Assembleia Geral das Nações Unidas adoptou três resoluções condenando o uso da mentira deliberada nos média (mídia-br) para suscitar a guerra, instando os Estados-Membros a velar pela livre circulação de ideias, única prevenção para a intoxicação [2].

    Embora as técnicas de propaganda tenham sido aperfeiçoadas no decorrer dos últimos 75 anos e sejam utilizadas sistematicamente em todos os conflitos internacionais, elas dão progressivamente lugar a novas técnicas de manipulação em países em paz: já não se trata mais de fazer aderir o público a uma ideologia e de o fazer agir ao serviço do Poder, mas, pelo contrário, de o dissuadir de intervir, de o paralisar.

    Esta estratégia corresponde a uma organização dita «democrática» da sociedade, onde o público dispõe de uma capacidade de sanção do Poder, o que raramente acontecia antes.
    Ela expandiu-se, desde há 18 anos, com a «Guerra contra o Terrorismo». Inúmeros foram os intelectuais que sublinharam o absurdo desta expressão : o terrorismo não é um inimigo, é uma táctica militar. Ora, não seria possível travar a guerra contra a guerra. Mesmo que não o tenhamos compreendido à época, a invenção desta expressão paradoxal visava instituir a era da pós-verdade.

     

    Pós-verdade


    Tomemos o exemplo da recente execução de Abu Bakr al-Baghdadi. Todos sabemos que um esquadrão de helicópteros não pode atravessar rasando todo o Norte da Síria sem ser visto, nem pela população, nem sem ser detectado pelos sistemas russos de defesa aérea. A narrativa que nos é contada é manifestamente impossível. Ora, longe de por em causa o que julgamos ser mera propaganda, discute-se se o Califa, encurralado pelas Forças Especiais dos EUA, se fez explodir com dois ou três filhos.

    No passado, teríamos concordado em afirmar que sendo um elemento essencial desta história impossível, não podemos levar a sério os outros elementos que nos são expostos, a começar pela morte do Califa. Agora, raciocinamos de maneira diferente. Aceitamos que este elemento factual tenha sido falsificado, a priori por razões de segurança nacional, e consideramos o resto da narrativa como autêntico. A prazo, esqueceremos o nossa desconfiança face a este elemento, ou a outros, e publicaremos enciclopédias que contarão esta fantástica história com os detalhes mais inacreditáveis.

    Por outras palavras, compreendemos instintivamente que esta narração não relata factos, antes veicula uma mensagem. Não nos posicionamos, portanto, face aos factos, mas face à mensagem tal como a percebemos : como Osama Bin Laden, Abu Bakr al-Baghdadi foi executado ; A "Força" continua nos Estados Unidos da América.

    Para deslocar a nossa consciência dos factos em direcção à mensagem, os speech writers (redactores de guiões-ndT) têm a obrigação de providenciar uma narrativa incoerente. Não é um lamentável erro da sua parte que se repete, mas, antes uma exigência técnica do seu trabalho.

    Na propaganda clássica, buscava-se contar histórias coerentes, ocultando, se necessário, certos factos ou falsificando-os. Agora já não. Porque não mais se procura convencer através de histórias mirabolantes, para isso, se necessário, tomando as suas liberdades com a realidade. Antes se visa um estado de consciência intermédio pelo qual se faz passar mensagens. Estamos conscientes que este assunto dos helicópteros é impossível, mas podemos raciocinar eliminando-o do nosso campo de consciência. Assim, uma parte do nosso intelecto foi inibida.

    Nós acabamos mentindo a nós próprios.

    Podemos encontrar um grande número de exemplos de uso desta técnica de condicionamento no noticiário da actualidade dos últimos anos. Todos os que eu poderei citar vão por os cabelos em pé à maioria dos meus leitores, porque cada exemplo exige o reconhecimento de que nos deixamos levar com a nossa própria cumplicidade. Ora, nós detestamos que nos façam notar os nossos erros.

    Um pequeno exemplo mesmo assim. Ele é antigo, mas fundamental. Ainda hoje desempenha um papel capital. Aquando dos atentados do 11-de-Setembro, as companhias de aviação divulgaram, imediatamente, listas de embarque completas de passageiros e pessoal que foram mortos. Dois dias mais tarde, o Director do FBI expôs a sua narração de 19 piratas do ar que tinham, segundo ele, realizado os atentados. Ora, nenhum deles, segundo o testemunho imediato das companhias de aviação, tinha embarcado nos quatro aviões. A sua versão é, pois, impossível. Dezoito anos depois, continuamos, no entanto, a dissertar sobre a personalidade destes indivíduos.

     

    Antídoto


    Desde há 18 anos, explicam-nos que, ao proporcionar a todos a capacidade de expressão num blogue ou nas redes sociais, os avanços da tecnologia desvalorizaram o discurso público. Qualquer um pode afirmar seja o que for. No passado, apenas os políticos e os jornalistas profissionais tinham a possibilidade de se expressar. Eles velavam pela qualidade das suas intervenções e dos seus escritos. Hoje em dia, o vulgum pecus, a multidão ignorante, toma as aparências por realidades e espalha fake news (notícias falsas-ndT).

    Ora, é exactamente o contrário. Homens políticos de primeiro plano, a começar pelo Presidente George Bush Jr. e o Primeiro-ministro Tony Blair, assumiram discursos incoerentes para inibir as reações do público em geral e dos seus eleitores em particular. Esta técnica substitui a verdade pelo absurdo, tal como outros a substituíam pela mentira. Ela destruiu o funcionamento de sistemas democráticos que o comum dos mortais tenta restaurar pelos seus meios.

    Os ecrãs (telas-br) de televisão catódica exibem imagens com 625 linhas. Basta que uma delas seja distorcida para que nós a possamos perceber na imagem. Dentro do mesmo princípio, basta ouvir apenas um ponto de vista diferente para que as mentiras de uma propaganda omnipresente saltem aos olhos. É por isso que a propaganda, quando mente, exige uma censura implacável. Mas se a mentira introduz uma incoerência no discurso, de tal modo que esta incoerência se torna intencionalmente evidente, já não basta censurar os pontos de vista alternativos. Pelo contrário, deve-se deixá-los exprimir-se e destacá-los denunciando publicamente alguns como fake news.

    O antídoto para a pós-verdade não é a verificação dos fatos, essa foi desde sempre a base do trabalho de jornalistas e historiadores, mas o restabelecimento da lógica. É por isso que uma nova forma de censura se impõe hoje em dia. A maior parte dos utilizadores (usuários-br) do Facebook já foram desconectados num momento ou noutro. Em inúmeros casos, os utilizadores são incapazes de compreender por que foram censurados. Eles buscam, em vão, que palavra proibida teria sido detectada por um computador-robô, ou que tomada de posição anticívica teria sido interdita por um vigilante. Na realidade, o que lhes é muitas vezes reprovado, e arbitrariamente sancionado, é de restaurar a lógica no seu raciocínio.
    Tradução
    Alva
    [1] “As Técnicas da moderna propaganda militar”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 17 de Maio de 2016.
    [2] « Les journalistes qui pratiquent la propagande de guerre devront rendre des comptes » («Os jornalistas que fazem propaganda de guerra deverão prestar contas»-ndT), par Thierry Meyssan, Réseau Voltaire, 14 août 2011. Resoluções da Assembléia Geral das Nações Unidas 110 (II), 381 (V), 819 (IX).
    Thierry Meyssan
    Thierry Meyssan Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: Sous nos yeux. Du 11-Septembre à Donald Trump. Outra obras : L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación (Monte Ávila Editores, 2008).
     

    domingo, 3 de novembro de 2019

    A Wikileaks revela relatórios da OPCW falsificados com o objectivo de culpar o governo sírio ao invés dos jihadistas apoiados pelo ocidente!


    por Federico Pieraccini [*]
     
    Seda da OPCW. As revelações – cuidadosamente ignoradas pelos grandes media – lançaram uma luz sobre a teia emaranhada tecida pelos media cúmplices e pela hipocrisia descarada do Ocidente, envolvendo a OPCW, a Wikileaks e a detenção ilegal Julian Assange.

    Um denunciante da Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPCW) entregou à Wikileaks documentos autênticos relativos às investigações do bombardeio de Douma na Síria em 2018.

    Estes documentos confirmaram o que muitos escreviam há meses, ou seja, que as investigações e conclusões da OPCW foram fabricadas a fim de alcançar um resultado premeditado que era desfavorável ao Exército Árabe da Síria e em consonância com os objectivos da política externa de Washington, Tel Aviv, Riad, Paris, Ancara, Doha e Londres.

    Os EUA anteriormente utilizaram exactamente esta mesma fórmula, sob o pretexto de R2P (Responsibility to Protect, Responsabilidade de Proteger), para justificar o bombardeio de um país.

    Um ataque químico a ser atribuído ao exército sírio parecia o meio mais directo de desencadear a R2P e alcançar os desejados objectivos de política externa. No entanto, o que sabemos agora através dos documentos publicados pela Wikileaks é que a organização internacional que supostamente deveria garantir imparcialidade e objectividade falsificou relatórios e procedimentos.

    Nas palavras de José Bustani, o primeiro director-geral da OPCW e ex-embaixador do Brasil no Reino Unido e na França:
    "A evidência convincente de comportamento irregular na investigação da OPCW do alegado ataque químico de Douma confirma as dúvidas e suspeitas que eu já tinha.

    Eu não conseguia entender o que estava lendo na imprensa internacional. Mesmo relatórios oficiais de investigações pareciam incoerentes, na melhor das hipóteses.

    O quadro certamente agora está mais claro, embora seja muito perturbador. Sempre esperei que a OPCW fosse um verdadeiro paradigma de multilateralismo. Minha esperança é que as preocupações expressas publicamente pelo Painel, em sua declaração conjunta de consenso, catalisarãom um processo pelo qual a Organização possa ressuscitar para se tornar o órgão independente e não discriminatório que costumava ser".
    O órgão que deveria garantir imparcialidade conluiou-se para enquadrar Damasco por um crime que ele não cometeu, só para que o Ocidente tivesse desculpa para efectuar uma campanha de bombardeamento contra a Síria.

    Neste mecanismo perverso, qualquer testemunho fora do roteiro dos sírios no terreno, jornalistas estrangeiros independentes ou quaisquer outras fontes não aprovadas foram sumariamente rejeitados pela imprensa europeia e americana como enviesados e não confiáveis.

    Estas revelações do Wikileaks são uma rara oportunidade de olhar por trás da cortina e entender os mecanismos que levam a milhões de mortes, destruição de países e perda de gerações. Já vimos no passado como um poder hegemónico como os Estados Unidos actua, fabricando pretextos como "armas de destruição em massa", está disposto a tentar manter sua posição de domínio a qualquer preço numa região estratégica como o Médio Oriente.

    Podemos perceber no ataque químico de Douma um ataque de bandeira falsa perpetrado por militantes da Al-Qaeda (retratados pelo Ocidente como rebeldes moderados a lutarem bravamente contra Assad), a OPCW a apresentar-se como árbitro imparcial e os grandes media a ampliarem as mentiras produzidas por este organismo supostamente imparcial, condicionando a opinião pública no processo a aceitar a utilização da força para pôr fim ao sofrimento na Síria, alegadamente perpetrado pelas forças de Assad.

    A legitimidade estendida à Al-Qaeda e suas afiliadas permitiu que terroristas realizassem ataques civis na Síria usando armas químicas com o objectivo de culpar as tropas do governo, justificando assim um apoio internacional aberto de outros como EUA, o Reino Unido e a França. Para garantir o êxito desta conspiração, os relatórios fraudulentos da OPCW destinavam-se a fornecer a justificativa humanitária para a intervenção internacional.

    Todo este assunto é ainda mais perturbador quando consideramos a questão da ética jornalística. Os jornalistas poderiam muito bem ter feito seu trabalho adequadamente e investigado o ataque químico de Douma, colectando depoimentos de testemunhas de civis e gravando imagens. Em vez disso, os media papaguearam a propaganda ocidental, ampliando a informação comprometidas da OPCW.

    Foi relegado à Wikileaks exercer o jornalismo adequado, publicando as informações verificadas do denunciante da OPCW e, no processo, revelando um enorme escândalo que mina a credibilidade das proclamações altissonante do Ocidente.

    Esta é a razão porque Assange está atrás das grades, enquanto os âncoras dos grandes media ganham milhões de dólares a transmitirem a propaganda oficialmente aprovada para o público. A Wikileaks conta a verdade com seu trabalho, revelando como as potências ocidentais estão dispostas a fazer tudo o que podem para iniciar novas guerras e prosseguir sua agenda imperialista.

    Vemos nesta revelação da Wikileaks o que levou a actual ordem mundial a ser tão instável e a origem de tanta guerra e miséria. A máquina de propaganda ocidental conseguiu comprometer um organismo antes respeitado pela sua probidade, com o objectivo de infligir o máximo possível de danos à Síria.

    Este escândalo é o exemplo mais recente de como os políticos ocidentais, os grandes media e as organizações internacionais são meras ferramentas imperialistas empregadas para ataques a oponentes geopolíticos.
    29/Outubro/2019 
     
    Ver também o caso anterior com a OPCW:

  • O Brasil, os EUA, a OPAQ e Bustani , 27/Abr/2002

    O original encontra-se em www.strategic-culture.org/...


    Este artigo encontra-se em https://resistir.info/ .
  • Publicação em destaque

    Marionetas russas

    por Serge Halimi A 9 de Fevereiro de 1950, no auge da Guerra Fria, um senador republicano ainda desconhecido exclama o seguinte: «Tenh...