sábado, 13 de setembro de 2014

Alucinações bélicas

por  Jorge Cadima*


O Estado-Maior da guerra imperialista, a NATO, realizou uma Cimeira há poucos dias. O extenso comunicado final da Cimeira é alucinante. O ataque à Rússia foi o tema forte nesta Cimeira do Delírio. Mais uma vez, a guerra e a mentira andam de mãos dadas, ao serviço do imperialismo.

O chefe político da NATO é o dinamarquês Rasmussen, que deve o seu actual cargo (tal como o presidente cessante da Comissão Europeia, Durão Barroso) ao facto de, enquanto primeiro-ministro da Dinamarca em 2003, ter apoiado o eixo Bush-Blair-Aznar, na tão mentirosa quanto criminosa invasão do Iraque.
 Rasmussen não perdeu o hábito de mentir. Em Junho disse que os ambientalistas que se opõem às perigosas técnicas de injectar água com produtos tóxicos (fracking) para extrair gás natural preso em rochas sedimentares (o «gás de xisto») estavam a soldo de Putin. O jornal do grande capital anglo-saxónico, Financial Times, volta à carga, alimentando a patranha: «Muitos nas comunidades dos serviços secretos europeus levam a sério o comentário do Sr. Rasmussen» (FT, 28.8.14). Tal como «levavam a sério» as mentiras sobre as armas de destruição em massa de Saddam Hussein.

Não é demais lembrar que os países da NATO são responsáveis por todas as grandes guerras das últimas décadas e por mais de 75% das despesas militares do globo. Quando não podem vergar a ONU aos seus planos de guerra, atacam na mesma (Jugoslávia, Iraque). Financiam, treinam e armam os mais bárbaros bandos terroristas para servir como tropa de choque (como na Líbia, Síria, Ucrânia). Destruídos os países e chacinada a população, culpam as vítimas.

A declaração da Cimeira tem o desplante de dizer (ponto 37) que «o regime de Assad contribuiu para o surgimento do ISIS [o “Estado Islâmico”]», entidade que é apenas a mais recente reciclagem das hordas fundamentalistas usadas pelo imperialismo para destruir os países laicos surgidos do movimento de libertação nacional árabe. Pouco importa que a própria imprensa inglesa diga que a Turquia, membro destacado da NATO, «tem mantido a sua fronteira aberta aos jihadistas que se opõem [a Assad], incluindo aos combatentes do ISIS» (Guardian, 24.8.14). A declaração alucinante da NATO também culpa (ponto 17) a «Rússia e os separatistas apoiados pela Rússia» pela «cada vez pior situação humanitária e destruição material no Leste da Ucrânia». Como se não fossem as tropas do governo golpista de Kiev e os batalhões de nazis – financiados pelos oligarcas ucranianos e armados pelas potências da NATO que também orquestraram o golpe de Estado de Fevereiro – que têm bombardeado, dia após dia, pequenas vilas e grandes cidades como Donetsk ou Lugansk, semeando a morte (como em Gaza) e chegando mesmo a usar fósforo branco e até mísseis balísticos. Pouco importa que até a imperialista BBC (2.9.14) titule: «Conflito ucraniano: a ONU diz que um milhão de pessoas já fugiram», para depois informar que mais de 80% desses refugiados fugiram … para a Rússia! A declaração da Cimeira tem o desplante de falar (ponto 91) na grande preocupação da NATO pelas crianças. Mas nem 113 pontos de Declaração chegaram para alguma vez condenar Israel, que passou os dois meses que antecederam a Cimeira a chacinar a população de Gaza, incluindo quase 600 crianças.

A natureza criminosa das potências imperialistas que comandam a NATO é tão chocante, que até um ex-embaixador inglês (Craig Murray) fala do seu país nestes termos: «é um Estado patológico que representa uma ameaça para o mundo, um Estado marginal e um Estado disposto a fazer a guerra para tornar ricas algumas pessoas […]. Matámos 15.000 pessoas quando a NATO bombardeou Sirte [na Líbia], algo que a BBC nunca vos contou» (Ria Novosti, 28.8.14). Mas o Avante! contou (9.2.12).



* Professor universitário e analista de política internacional.
 
Este texto foi publicado no Avante nº 2.128 de 11 de Setembro de 2014.

aqui:http://www.odiario.info/?p=3396

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

CUBA: Um exemplo de qualidade no ensino, reconhece o BM (1)

Acontece no sistema de ensino com o ministro Crato o inimaginável, após os tempos de Maria de Lurdes Rodrigues (é bom não esquecer…) olhemos então os exemplos de excelência que vêm da assediada mas gloriosa Cuba socialista.

Um recente relatório do Banco Mundial, reconhece que Cuba é o único país da América Latina a dispor de um sistema educativo de alta qualidade, comparável às melhores práticas mundiais. O relatório refere os elevados parâmetros do sistema escolar, o elevado talento académico, as remunerações elevadas ou pelo menos adequadas, a autonomia profissional elevada, características dos sistemas educativos mais eficazes no mundo, como (segundo o BM) os da Finlândia, República da Coreia, Suíça, Holanda, Canadá e China (Shangai).
Cuba destina 13% do OE à educação. O seu sucesso é reconhecido internacionalmente nos domínios da educação mas também na saúde, com serviços sociais que garantem o acesso universal a estes sistemas, fornecidos pelo Estado, o que permitiu erradicar o analfabetismo e ter uma das mais longas esperanças de vida.
Cuba ultrapassa largamente os países da América Latina e outros países de rendimento intermédio nos mais importantes índices de educação, saúde e salubridade pública, segundo a OMS, o Programa da ONU para o Desenvolvimento, bem como de outras agências da ONU.
O BM recorda ainda que dispor de bons sistemas educativos é vital para o futuro. Os resultados obtidos por Cuba refletem as orientações do governo cubano colocar o futuro da sua juventude no centro dos seus projetos de sociedade.
Compare-se então com o que se passa em Portugal em que o sistema público de ensino está a ser destruído sistematicamente, os professores ignobilmente atacados na sua dignidade e a população mais qualificada literalmente a fugir do país assim que pode. Para além disto a dita comunicação social (salvo raras exceções) promove o obscurantismo e a confusão na esfera política.
Apesar das limitações impostas pelo criminoso bloqueio o seu exemplo mostra como uma nação com recursos limitados pode proporcionar aos seus cidadãos elevada qualidade de vida e garantir-lhes um futuro de progresso e elevação cultural.
Perante o descalabro do país alguém ouviu nos diálogos entre o sr. Feliz e o sr. Contente (A. Costa e J. Seguro) ou antes o Rezingão e o Simplório (da Branca de Neve e os Sete Anões) falar no que querem para o país em educação, em saúde, em saneamento público (questão das águas)? Cada um deles imita bem os macacos que não vêm, não ouvem, ah!, estes falam, falam mas não dizem nada… 

1 – Parte referente a Cuba a partir de um texto de Salim Lamrani em legrandsoir.info.
http://www.legrandsoir.info/banque-mondiale-cuba-dispose-du-meilleur-systeme-educatif-d-amerique-latine-et-de-la-caraibe.html


aqui:http://foicebook.blogspot.pt/2014/09/cuba-um-exemplo-de-qualidade-no-ensino.html

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

O Segredo de Guantanamo


Acreditamos, porventura, estar informados sobre o que acontece em Guantanamo e surpreende-nos que o presidente Obama não feche esse centro de tortura. Mas, estamos equivocados. O público não conhece a verdadeira finalidade desse dispositivo e o que o torna indispensável para a actual administração.
Cuidado! Se se quer continuar pensando que existem valores comuns entre nós e os Estados Unidos, e que se deve continuar a ser aliado de Washington, é melhor, então, abster-se de ler este artigo.



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Prisioneiro à saída de uma sessão de "condicionamento" em Guantanamo.
Todos recordamos as imagens de tortura que circularam na Internet [1]. Foram apresentadas como troféus de guerra que haviam sido recolhidas por alguns soldados americanos. Mas, incapazes de verificar a sua autenticidade, os grandes média (mídia- Br) não se atreveram a reproduzi-las. Em 2004, a CBS dedicou-lhes uma reportagem. Assim começou um grande movimento de denúncia dos maus-tratos infligidos aos iraquianos.

A prisão de Abu Ghraib mostrou que a suposta guerra contra a ditadura de Saddam Hussein era na realidade uma guerra de ocupação, como qualquer outra, com a mesma sequência de crimes. Washington assegurou, como era de esperar, que se tratava de excessos cometidos nas costas dos responsáveis, por alguns indivíduos não representativos, classificados como «maçãs podres». Alguns soldados foram presos e julgados para servir de exemplo. E o caso foi fechado até às revelações seguintes.

Simultaneamente a CIA e o Pentágono iam preparando a opinião pública, tanto nos Estados Unidos como nos países aliados, para uma mudança de valores morais. A CIA designou um oficial de ligação com Hollywood, o coronel Chase Brandon (um primo de Tommy Lee Jones), e contratou escritores famosos, (como Tom Clancy), e roteiristas, para escrever novos roteiros para filmes e séries de televisão. Objetivo: estigmatizar a cultura muçulmana, e banalizar a tortura como parte da luta contra o terrorismo. Como exemplo as aventuras do agente Jack Bauer, na série 24 horas, foram amplamente subvencionadas pela CIA para levar, em cada temporada, um pouco mais longe os limites do aceitável.


Nos primeiros episódios, o herói intimida os suspeitos para extrair informações. Nos episódios seguintes, todos os personagens suspeitam uns dos outros, e torturam-se entre si com mais ou menos escrúpulos, e cada vez mais seguros que estão cumprindo com o seu dever. No imaginário colectivo séculos de humanismo foram assim varridos e impôs-se uma nova barbárie. Isto permitiu que o cronista do Washington Post, Charles Krauthammer (que também é um psiquiatra) apresentasse o uso da tortura como um "imperativo moral" (sic), nestes tempos difíceis da guerra contra o terrorismo.

A investigação do senador suíço Dick Marty confirmou ao Conselho da Europa que a CIA sequestrou milhares de pessoas, através do mundo, das quais várias dezenas —possívelmente centenas— tinham sido sequestradas no território da União Europeia. Veio então a avalanche de evidências sobre os crimes perpetrados nas prisões de Guantanamo (na região do Caribe) e de Bagram (Afeganistão). Perfeitamente condicionada, a opinião pública nos Estados-Membros da Otan aceitou a explicação dada, e que tão bem se enquadrava com as intrigas novelescas servidas pela televisão: para poder salvar vidas inocentes Washington estava a recorrendo a métodos ilegais, sequestrando suspeitos e fazendo-os falar através de métodos que a moral rejeitaria, mas que a eficácia havia tornado necessários.

Foi a partir dessa narrativa simplista que o candidato Barack Obama se levantou contra a cessante administração Bush. Converteu a proibição da tortura e o fecho das prisões secretas em medidas-chave do seu mandato. Após a sua eleição, durante o período de transição, rodeou-se de juristas de altíssimo nível a quem encomendou a elaboração de uma estratégia para encerrar o sinistro episódio. Já instalado na Casa Branca, dedicou os seus primeiros decretos presidenciais ao cumprimento de seus compromissos nesta matéria. Esta disposição conquistou a opinião pública internacional, despertou uma imensa simpatia pelo novo presidente, e melhorou a imagem dos EUA perante o mundo.

O único problema é que, ao fim de um ano após a eleição de Barack Obama, se resolveram algumas centenas de casos individuais, mas, basicamente, nada mudou. O centro de detenção criado pelos EUA na sua base militar de Guantanamo, ainda está lá, e não há esperança de encerramento iminente. As associações de direitos humanos assinalam, além disso, que os actos de violência contra os detidos se agravaram. Quando questionado sobre o tema, o vice-presidente dos EUA, Joe Biden afirmou que, quanto mais avançava no assunto de Guantanamo, mais ia descobrindo as coisas que até então ignorava,. E, em seguida, avisou os repórteres, enigmaticamente, que não devia abrir a caixa de Pandora. Por seu lado, o consultor jurídico da Casa Branca, Greg Craig, quis apresentar a sua renuncia, não porque achasse que falhara na sua missão de fechar o centro, mas sim porque acha que, neste momento, lhe foi confiada uma missão impossível.

Por que é que o presidente dos Estados Unidos não consegue ser obedecido no seu próprio país? Se já tudo foi dito sobre os abusos da era Bush porque é que se fala, agora, de uma caixa de Pandora, e que é o que causa tanto temor? O problema é que o sistema é na verdade muito maior. Não se trata apenas de uns quantos sequestros e uma prisão. E o mais importante, é que o seu objectivo é radicalmente diferente do que a CIA e o Pentágono quiseram fazer crer ao público. Antes de empreender esta descida aos infernos, é necessário aclarar algumas coisas.
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O secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, participou nas reuniões do Grupo dos Seis, que foi o responsável por escolher as formas de tortura a serem aplicados pelos militares dos EUA. Aqui vemos Rumsfeld durante visita à Prisão de Abu Ghraib (Iraque).

 

Contra-insurgência


O que o exército dos EU fez em Abu Ghraib não tinha nada a ver, pelo menos numa primeira fase, com as experiências que estão sendo conduzidas pela US Navy [Marinha dos Estados Unidos] em Guantanamo, e nas suas outras prisões secretas. Tratava-se então, simplesmente, do que fazem todos os exércitos do mundo, quando se transformam em policias e se enfrentam com uma população hostil. Tratam de dominá-la através do terror. Neste caso, as forças da coligação (coalizão-Br) reproduziram [no Iraque] os crimes cometidos pelos franceses durante a chamada batalha de Argel, contra os argelinos, a quem, além do mais, os franceses continuavam a chamar «compatriotas». O Pentágono recorreu ao general francês, aposentado, Paul Aussaresses, especialista em «contra-insurgência», para reuniões com oficiais superiores. Durante a sua longa carreira Aussaresses assessorou os EU, onde quer que Washington tenha lançado «conflitos de baixa intensidade» (LIC), principalmente no Sudeste asiático e na América Latina.

No fim da Segunda Guerra Mundial os Estados Unidos instalaram dois centros de treino nessas técnicas, a Political Warfare Cadres Academy (Academia de quadros para a guerra política -ndT) (em Taiwan) e a School of Americas [conhecida em espanhol como a Escola das Américas] (no Panamá). Em ambas as instalações davam-se cursos de tortura, destinados aos encarregados pela repressão no seio das ditaduras asiáticos e latino-americanos.

Durante os anos 1960 e 70, a coordenação desse dispositivo dava-se através da World Anti-Communist League (Liga Anti-Comunista Mundial), de que eram membros os Chefes de Estado interessados [2]. Essa política alcançou considerável dimensão durante as operações Phoenix, no Vietname, («neutralização» de 80.000 indivíduos suspeitos de ser membros do Vietcong) [3], e Condor na América Latina, («neutralização» de opositores políticos à escala continental) [4]. O esquema de articulação entre as operações de limpeza, nas áreas insurgentes, e os esquadrões da morte foram aplicadas da mesma maneira no Iraque, especialmente durante operação Iron Hammer (Martelo de Ferro -ndT) [5].

A única novidade, no caso do Iraque, foi a distribuição entre os soldados norte- americanos de um clássico da literatura colonial, The Arab Mind (A mentalidade Árabe -ndT), do antropólogo Raphael Patai, com um prefácio do Coronel Norvell B. De Atkine, diretor da John F. Kennedy Special Warfare School (Escola de Guerra Especial John F. Kenedy-ndT), nova denominação da Escola das Américas desde que esta se mudou para Fort Bragg (na Carolina do Norte) [6]. Este livro que apresenta, em tom doutoral, toda uma série de estúpidos preconceitos sobre os «árabes», em geral, contém um célebre capítulo sobre os tabus sexuais utilizado na concepção das torturas aplicadas em Abu Ghraib.

As torturas perpetradas no Iraque não são simples casos isolados, como afirmou o governo Bush, mas fazem parte de um todo de uma estratégia de contra-insurgência. A única maneira de lhe pôr fim não é a condenação moral, mas sim a solução da situação política. No entanto Barack Obama continua a atrasar a retirada das forças estrangeiras que ocupam o Iraque.
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Autor de sucesso, inventor da psicologia positiva, professor na Universidade da Pensilvânia e antigo presidente da American Psychological Association (Associação de Psicologia Americana -ndT), Martin Seligman supervisionou as experiências de tortura aplicadas aos prisioneiros em Guantanamo.

 

As experiências do professor Biderman


Foi com uma perspectiva muito diferente que o professor Albert D. Biderman, um psiquiatra da Força Aérea dos Estados Unidos, estudou, para a Rand Corporation, o condicionamento mental dos prisioneiros de guerra americanos na Coreia do Norte.

Muito antes de Mao e do comunismo, os chineses tinham desenvolvido sofisticados métodos destinados a quebrar a vontade de um prisioneiro e a incutir-lhe o desejo de fazer confissões. O seu uso durante a Guerra da Coreia deu alguns resultados. Prisioneiros de guerra americanos confessavam, com toda a convicção, à imprensa, crimes que, talvez, não tivessem cometido. Biderman apresentou as suas primeiras observações durante uma audiência no Senado, em 19 de junho de 1956, e, mais tarde, no ano seguinte, perante a Academia de Medicina de Nova Iorque (ver documentos disponíveis, “on-line”, através do “link” no final deste artigo). Biderman definiu 5 estados pelos quais passam os «sujeitos».

- 1. No início o preso nega-se a cooperar e fecha-se em silêncio.
- 2. Através de uma mistura de brutalidade e gentileza é possível fazê-lo passar a um segundo estado, em que ele é induzido a defender-se contra as acusações apresentadas contra si.
- 3. Posteriormente o prisioneiro começa a cooperar. Continua a proclamar a sua inocência, mas tenta agradar aos seus interrogadores reconhecendo que talvez tenha cometido algum erro involuntariamente, por acidente ou por descuido.

- 4. Ao transitar pela quarta fase o preso já está, completamente, degradado aos seus próprios olhos. Continua a negar as acusações de que é alvo, mas confessa a sua natureza criminosa.

- 5. No fim do processo, o prisioneiro admite ser o autor dos factos que se lhe imputam. Inclusive inventa detalhes, complementares, para se acusar a si mesmo e reclama a sua própria punição.
Biderman também examinou todas as técnicas usadas pelos torturadores chineses afim de manipular os prisioneiros: isolamento, monopolização da percepção sensorial, fadiga, ameaças, recompensas, demonstrações do poder dos guardas, degradação das condições de vida, formas de subjugação. A violência física tem um carácter secundário, a violência psicológica torna-se total e assume carácter permanente.

Nos trabalhos de Biderman a «lavagem cerebral» adquiriu uma dimensão mítica. Os militares dos EU começaram a temer que o inimigo pudesse usar contra os Estados Unidos os próprios soldados norte-americanos, já condicionados para dizer qualquer coisa e também, talvez, para fazer qualquer coisa. Eles conceberam, então, um programa de treino destinado aos pilotos de caça americanos, para garantir que se tornassem refractários a essa forma de tortura, e evitar que o inimigo possa "lavar- lhes o cérebro» se eles caírem prisioneiros.

Esta forma de treino (treinamento-Br) denomina-se SERE, um acrónimo para Survival, Evasion, Resistence and Escape (Sobrevivência, Evasão, Resistência e Fuga- ndT). No principio, este curso era ministrado na Escola das Américas mas, actualmente, foi estendido a outras categorias de pessoal militar e é lecionado em várias bases. Este tipo de treino foi implementado, além disso, em cada um dos exércitos que fazem parte da Otan.

A decisão do governo Bush, após a invasão do Afeganistão, foi a de usar estas técnicas para conseguir induzir os prisioneiros a fazer confissões que demonstrariam, à posteriori, o envolvimento do Afeganistão nos atentados do 11 de Setembro, validando assim a versão oficial sobre os atentados.

Iniciaram a construção de novas instalações na base naval dos EU em Guantanamo, e aí começaram a realizar experiências. A teoria de Albert Biderman completou-se com o contributo de um psicólogo civil, o professor Martin Seligman, conhecida personalidade que foi presidente da Associação Americana de Psicologia.

Seligman demonstrou que a teoria de Ivan Pavlov sobre os reflexos condicionados tinha um limite. Mete-se um cão numa jaula cujo piso está dividido em duas partes. De forma aleatória, enviam-se descargas eléctricas para um ou outro lado do solo. O animal salta de um lado para outro para se proteger. Até aqui não há nada de surpreendente. Posteriormente, os dois lados da jaula são electrificados.

O animal dá-se conta que nada pode fazer para escapar dos choques eléctricos, e que os seus esforços são inúteis. E acaba então por render-se. Deita-se no chão e cai num estado de indiferença que lhe permite suportar, passivamente, o sofrimento. Abre-se então a gaiola e ... surpresa! O animal não foge. No estado psicológico em que se encontra, agora, nem sequer é capaz de fazer oposição. Permanece deitado, no chão eletrificado, suportando o sofrimento.

A Marinha de Guerra dos EU formou uma equipe médica de choque. Esta enviou o professor Seligman a Guantanamo. Conhecido pelos seus trabalhos sobre a depressão nervosa, Seligman é uma vedeta. Os seus livros sobre optimismo e a auto-confiança são best-sellers mundiais. E, foi ele que supervisionou as experiências com pessoas como se fossem meras cobaias. Alguns prisioneiros, ao ser submetidos a terríveis torturas, acabam afundando espontaneamente num estado psíquico que lhes permite suportar a dor, e que também os priva de toda a capacidade de resistência. Ao manipulá-los dessa forma eles são, rapidamente, levados para a fase 3 do processo Biderman.

Baseando-se também nos trabalhos de Biderman, os torturadores norte-americanos, sob a orientação do professor Martin Seligman, realizaram experiências com cada uma das técnicas coercivas e aperfeiçoaram-nas. Para isso, foi elaborado um protocolo científico baseado na medição das flutuações hormonais. Instalaram um laboratório médico na base de Guantanamo e recolhem amostras de saliva e sangue dos «cobaias», a intervalos regulares, para avaliar as suas reações. Os torturadores foram refinando os métodos de tortura. Por exemplo, no programa SERE monopolizava-se a percepção sensorial impedindo, mediante uma música stressante (estressante-B), que o prisioneiro pudesse dormir.

Em Guantanamo obtiveram-se resultados muito superiores com os gritos de bebés, reproduzidos durante dias seguidos. Anteriormente o poder dos guardas demonstrava- se por espancamento dos presos. Na base naval dos EUA em Guantanamo foi criada a Immediate Reaction Force (Força de Reacção Imediata-ndT).

Trata-se de um grupo encarregado de castigar os prisioneiros. Quando esta unidade entra em acção os seus membros vestem couraças de protecção, ao estilo Robocop. Tiram o prisioneiro da sua jaula e metem-no numa cela de paredes acolchoadas, e recobertas com madeira compensada.

Eles projectam a «cobaia» contra as paredes, como se fossem quebrar-lhe os ossos, mas os estofos amortecem parcialmente os golpes, de forma que o prisioneiro fica tonto sem que se produzam fraturas.

Mas o principal «avanço» foi conseguido com o suplício da banheira [7]. Antigamente, a Santa Inquisição mergulhava a cabeça do prisioneiro num tanque cheio de água e tirava-a para fora, precisamente, antes que morresse afogado. A sensação de morte iminente provoca uma angústia extrema. Mas tratava-se de um processo primitivo e os acidentes eram frequentes. Actualmente, nem sequer é precisa uma tina cheia de água, basta deitar o prisioneiro numa banheira vazia. Simula-se então o afogamento vertendo água sobre sua cabeça, com a possibilidade de parar de imediato. Assim, agora, há menos acidentes.

Cada «sessão» é codificada para determinar os limites suportáveis. Vários assistentes medem a quantidade de água utilizada, o momento e a duração de afogamento. Quando isso ocorre, os assistentes recolhem o vómito, pesam e analisam-no para avaliar o gasto de energia e o cansaço provocado. Em resumo, como dizia o vice-diretor da CIA perante uma comissão do Congresso dos Estados Unidos: «Isto não tem nada a ver com o que fazia a Inquisição, com excepção da água» (sic).

As experiências dos médicos norte-americanos não foram feitas em segredo, como as do doutor Josef Mengele em Auschwitz, mas sim sob o controle directo e exclusivo da Casa Branca.

Era tudo relatado a um grupo encarregado de tomar as decisões, grupo que era formado por seis pessoas: Dick Cheney, Condoleezza Rice, Donald Rumsfeld, Colin Powell, John Ashcroft, e George Tenet. Este último atestou que havia participado numa dezena de reuniões deste grupo.

Mas o resultado destas experiências não foi satisfatório. Poucos «cobaias» ficaram receptivos. Conseguiu-se impor-lhes o que deviam confessar, mas o seu estado manteve-se instável e não foi possível apresentá-los em público, ante uma contraparte.

O caso mais conhecido é o do pseudo Khalil Sheikh Mohammed. Tratava-se de um indivíduo preso no Paquistão e acusado de ser um islamita koweitiano, apesar de ser evidente que este não era a referida pessoa.

Depois de um longo período de tortura, durante a qual ele foi submetido 183 vezes ao suplício da banheira, só durante o mês de março de 2003, o indivíduo disse ter organizado 31 diferentes ataques, através de todo o mundo, desde o atentado em 1993 em Nova York, contra o WTC, até aos do 11 de Setembro de 2001, passando pela explosão de uma bomba que destruiu um clube nocturno em Bali, e a decapitação do jornalista americano Daniel Pearl. O pseudo Sheikh Mohammed manteve as suas confissões perante uma comissão militar, mas advogados e juízes militares não puderam questioná-lo em público, porque se temia que, fora da sua jaula, se retractasse do que havia confessado.

Para esconder as actividades secretas dos médicos em Guantanamo, a Marinha de Guerra dos EU organizou viagens de imprensa a Guantanamo, para jornalistas amigos. O ensaísta francês Bernard Henry Levy prestou-se, assim, a desempenhar o papel de testemunha moral visitando o que quiseram mostrar-lhe. No seu livro American Vertigo, Bernard Henry Levy garante que o centro de detenção da base naval americana em Guantanamo não difere das demais prisões norte-americanas, e que os testemunhos sobre as torturas «foram muito inflacionados» (sic) [8] .

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Uma das prisões flutuantes da Marinha dos EUA. Trata-se do navio USS Ashland. O porão achatado inferior foi modificado para receber jaulas com prisioneiros e dispô-las em vários níveis.

 

As prisões flutuantes da US Navy


Em suma, a administração Bush considerou que o número de indivíduos que poderiam ser «condicionados», em extremo, para crer que tinham cometido os atentados de 11 de setembro, era muito pequeno. Concluíram, então, que uma grande quantidade de prisioneiros deviam ser postos à prova para se seleccionar os mais receptivos.

Tendo em conta a controvérsia que se desenvolveu em torno de Guantanamo, e para garantir que fosse impossível qualquer ação legal contra, a Marinha de Guerra dos Estados Unidos criou outras prisões secretas e colocou-as, fora de qualquer jurisdição, em águas internacionais.

17 barcos de fundo plano, como os destinados ao desembarque de tropas, foram convertidos em prisões flutuantes com jaulas como as de Guantanamo. Três dessas embarcações foram identificados pela Associação britânica Reprieve. Trata-se do USS Ashland, do USS Bataan e do USS Peleliu. Se forem somadas todas as pessoas que foram feitas prisioneiras, em diferentes zonas de conflito, ou sequestradas em qualquer lugar do mundo, e transferidas para esse conjunto de prisões durante os últimos 8 anos, parece que um total de 80 mil pessoas devem ter passado por esse sistema, entre as quais pelo menos um milhar poderão ter sido levadas até as últimas fases do processo Biderman.

A partir de tudo o que foi mencionado, o problema da administração Obama resume- se da seguinte forma: não é possível fechar Guantanamo sem que se saiba o que ali se fez. E, não será possível reconhecer o que ali se fez, sem admitir que todas as confissões são falsas e que foram inculcadas, de forma deliberada, através de tortura, com as consequências políticas que isso implica.

No final da II Guerra Mundial, o tribunal militar de Nuremberga funcionou em 12 juízos. Um deles foi dedicado a 23 médicos nazis. Sete de entre eles foram absolvidos, 9 foram condenados a penas de prisão e sete outros foram condenados à morte. Desde então há um Código de Ética que rege a medicina a nível mundial. Esse Código proíbe, precisamente, o que os médicos norte-americanos fizeram em Guantanamo, e nas outras prisões secretas.
Leia a resposta do professor Martin Seligman.
Tradução
Alva

Documentos anexados

[1] « Photos de prisonniers irakiens torturés à Abou Ghraib] », Réseau Voltaire, 30 avril 2004.
[2] «La Liga Anticomunista Mundial, internacional del crimen», por Thierry Meyssan, Red Voltaire, 12 de mayo de 2004.
[3] «Operação Fênix», de Arthur Lepic, Red Voltaire, 16 de noviembre de 2004.
[4] Ver Operación Cóndor, Pacto criminal, livro de referência da nossa colaboradora, a historiadora Stella Calloni. «Stella Calloni presentó en Cuba su libro “Operación Cóndor, Pacto criminal”», 16 de febrero de 2006. Ver também, no sítio da Red Voltaire: «Berríos y los turbios coletazos del Plan Cóndor», por Gustavo González, 26 de abril de 2006. «Los militares latinoamericanos no saben hacer otra cosa que espiar», por Noelia Leiva, 1o de abril de 2008. «El Plan Cóndor universitario», por Martín Almada, 11 de marzo de 2008.
[5] «La Operación US «Martillo de hierro» en la guerra de Irak» (Es— “A operação dos EUA «Martelo de Ferro» na Guerra do Iraque”-ndT) por Paul Labarique, Red Voltaire, 11 de septiembre de 2003.
[6] The Arab Mind, (Ing—«A Mente árabe»-ndT), por Raphael Patai, prefácio de Norvell B. De Atkine, Hatherleigh Press, 2002.
[7] Também conhecido como «submarino» ou pelo termo Inglês «waterboarding» (Nota do Tradutor).
[8] American Vertigo por Bernard-Henry Lévy, Grasset & Fasquelle 2006.
Thierry Meyssan
Thierry Meyssan Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación (Monte Ávila Editores, 2008).
OTAN pensa interditar a Rússia e a China de se desenvolverem

terça-feira, 9 de setembro de 2014

A peste fascista está a ser inoculada outra vez na Europa


por Yuriy Rubtsov

 
"Naturalmente – perguntou –, sabe do que se trata, Rieux? [...] Pois eu sei. [...] vi alguns casos em Paris, há uns vinte anos.   Simplesmente, nessa altura, não houve a coragem de lhe dar um nome.   A opinião pública é sagrada:   nada de pânico.   Sobretudo, nada de pânico.   E depois, como dizia um colega:   'É impossível, toda a gente sabe que ela desapareceu do Ocidente' ".
A Peste, Albert Camus, Lisboa, Livros do Brasil, p. 334. 
 
Desfile nazi na Ucrânia. Muitos órgãos de comunicação comparam a situação contemporânea na Europa com os dias anteriores à II Guerra Mundial. Gostava de fazer aqui uma correção importante. Neste momento estamos a assistir ao fomento pelo Ocidente de mais um regime nazi representado pela junta de Kiev e isso faz lembrar a segunda metade dos anos 30 em que aconteceu a mesma cooperação com a Alemanha, transformada num estado fascista.

Claro que a Ucrânia que conhecemos hoje não pode comparar-se à Alemanha de Hitler. Mas o primeiro golpe é meia batalha ganha. A adesão cega ao Führer começou com um cabo desconhecido a pregar a xenofobia e a vingança.

É um segredo do domínio público que os Estados Unidos foram coniventes com Adolf Hitler. A penetração dos EUA foi significativa e intensa, em especial a sua cooperação com a indústria de guerra alemã. Em 1933 os Estados Unidos controlavam ramos cruciais da economia da Alemanha, assim como grandes bancos como o Deutsche Bank, Dresdner Bank, Donut Bank etc. 

Os grandes negócios começaram a confiar em Hitler. Foram os dias de afluência para o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, quando começaram a afluir os financiamentos do exterior. Graças a grandes donativos do grupo United Steeworks de Frotz Thyssen, (Vereinigte Stahlwerke AG), da I.G. Farbenindustrie AG (Interessen-Gemeinschaft Farbenindustrie AG) e do magnate da indústria mineira Emil Kirdorf, o partido obteve 6,4 milhões de votos e tornou-se o segundo maior partido no Reichstag (parlamento). Hjalmar Schacht (22/01/1877 – 03/06/1970), economista alemão, banqueiro, político liberal e cofundador em 1918 do Partido Democrático Alemão, tornou-se o elo de ligação fundamental entre a indústria alemã e os doadores estrangeiros.

Os negócios britânicos começaram a fazer donativos ao Führer e ao seu partido nazi. Em 4 de janeiro de 1932, Montague Norman, governador do Banco de Inglaterra de 1920 a 1944, encontrou-se com Hitler e com o chanceler alemão Franz von Papen para concluir um acordo secreto para fornecimento de fundos ao Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães. Estiveram presentes nesta reunião os dois irmãos Dulles. Os historiadores ocidentais evitam mencionar este facto. John Foster Dulles e Allen Dulles estavam ligados politicamente a advogados de Wall Street, serviçais do poder empresarial, que arrastaram os Estados Unidos para uma guerra nunca vista, que modelou decisivamente o mundo atual. Durante os anos 50, quando a Guerra fria estava no auge, estes dois irmãos, tremendamente poderosos, levaram os Estados Unidos para uma série de aventuras no exterior, cujos efeitos ainda estão a abalar o mundo. John Foster Dulles era secretário de Estado, enquanto o seu irmão, Allen Dulles, era diretor da Central Intelligence Agency (CIA).

Em 5 de março de 1933, realizaram-se eleições federais na Alemanha. Em consequência de donativos generosos vindos do exterior, o Partido Nazi no poder, liderado por Adolf Hitler, que fora nomeado chanceler a 30 de janeiro, registou um grande aumento de votos, surgindo de longe como o maior partido. Apesar disso, não conseguiu obter a maioria absoluta por direito próprio e foram precisos os votos do seu parceiro de coligação, o Partido Popular Nacional Alemão (DNVP), para uma maioria no Reichstag.

O novo governo alemão foi tratado de modo extremamente favorável pelos círculos dirigentes dos EUA e do Reino Unido. As democracias ocidentais mantiveram-se silenciosas quando Berlim se recusou a pagar as indemnizações. Hjalmar Schacht, presidente do Reichsbank e ministro da Economia, foi aos Estados Unidos em maio de 1933 para se encontrar com o presidente Franklin Delano Roosevelt e com importantes banqueiros da Wall Street. A Alemanha obteve um crédito de mil milhões de dólares. Em junho, durante uma visita a Norman em Londres, Schacht pediu um empréstimo de mais 2 mil milhões de dólares, assim como uma redução e eventual cessação do pagamento de antigos empréstimos. Assim, os nazis obtiveram uma coisa que os governos anteriores não tinham conseguido.

No Verão de 1934, a Grã-Bretanha assinou o Acordo de Transferência Anglo-Alemão que veio a ser uma das bases da política britânica em relação ao Terceiro Reich e, no final dos anos 30, a Alemanha passou a ser um parceiro comercial importante da Grã-Bretanha. O banco de Schroeder tornou-se o principal agente da Alemanha e da Grã-Bretanha e, em 1936, a sua filial de Nova Iorque fundiu-se com uma sociedade Rockefeller criando o banco de investimentos "Schroeder, Rockefeller and Co.", que o New York Times descreveu como "eixo económico-propagandista de Berlim-Roma".

O "Memorando Secreto" foi emitido por Adolf Hitler em agosto de 1936. O memorando foi enviado apenas a alguns altos líderes nazis e o seu conteúdo – informações sobre o Plano Quadrienal – foi formalmente anunciado aos fiéis do partido em setembro de 1936, num comício do partido em Nuremberga. O Memorando Secreto estabelecia que, no prazo de quatro anos, a Alemanha teria forças armadas aptas a combater e a sua economia seria mobilizada para satisfazer as necessidades da guerra. Como ele próprio reconheceu, Hitler contava com crédito estrangeiro como base financeira para o seu plano quadrienal, portanto isso não levantou o menor alarme.

Em agosto de 1934, o gigante petrolífero americano, Standard Oil, comprou 296 mil hectares de terras na Alemanha e construiu grandes refinarias de petróleo que forneceram aos nazis. Na mesma altura, os Estados Unidos forneceram secretamente à Alemanha o mais moderno equipamento para fábricas de aviões, que em breve iriam produzir a aviação alemã. A Alemanha recebeu um grande número de patentes das firmas americanas Pratt and Whitney, Douglas e da Bendix Corporation, e o bombardeiro de mergulho "Junkers-87" foi construído usando exclusivamente tecnologia americana. Quando a guerra rebentou, os monopólios agarraram-se à velha regra, experimentada e comprovada – nada de pessoal, só negócios. Em 1941,quando a II Guerra Mundial avançava a todo o vapor, o investimento americano na economia alemã totalizava 475 milhões de dólares: só a Standard Oil investiu 120 milhões, a General Motors 35 milhões, a ITT 30 milhões e a Ford 17,5 milhões de dólares.

O que motivou o interesse dos negócios ocidentais no crescente poder da Alemanha nazi? O objetivo era empurrar Hitler para leste e invadir a Rússia. A conquista de Lebensraum ("espaço vital") era, para Hitler e para o resto dos nacional-socialistas o objetivo mais importante da política externa alemã. Na primeira reunião com todos os principais generais e almirantes do Reich ("império"), em fevereiro de 1933, Hitler falou da "conquista de Lebensraum no leste e na sua implacável "germanização" como supremos objetivos da sua política externa. Para Hitler, a terra que proporcionaria suficiente Lebensraum para a Alemanha era a União Soviética que, para Hitler, era uma nação que possuía vastas terras agrícolas ricas e era habitada por Untermenschen (sub-humanos) eslavos, como Hitler os considerava, governados por um gangue de revolucionários judeus sedentos de sangue mas terrivelmente incompetentes, na opinião de Hitler. A seus olhos, esses povos não podiam ser germanizados; apenas o solo. Os anglo-saxões, com os corações cheios de ódio contra a Rússia, sentiram-se felizes quando Hitler anunciou as suas metas. Os seus corações também se encheram de alegria quando souberam que ele escrevera em Mein Kampf: "Nós, nacional-socialistas, traçamos conscientemente uma linha sob a direção da nossa política externa da guerra. Começamos onde terminámos há seiscentos anos. Acabamos com a perpétua marcha germânica para o sul e para o ocidente da Europa, e temos em vista as terras a leste. Pomos fim à política colonial e comercial anterior à guerra e entramos na política territorial do futuro. Mas se hoje falamos de novas terras na Europa, só podemos pensar principalmente na Rússia e nos estados fronteiriços que lhe estão sujeitos".

A política de apaziguamento foi implementada por países ocidentais nos anos 30 contra um pano de fundo de cooperação financeira e económica dos negócios anglo-saxões com a Alemanha nazi.

Em outubro de 1930, a Alemanha abandonou a Conferência para a Redução e Limitação de Armamentos de 1932-1934 (por vezes Conferência Mundial de Desarmamento ou Conferência de Desarmamento de Genebra) e a Liga das Nações. Em março de 1936, Hitler ordenou às suas tropas para reentrar abertamente no Renânia desmilitarizada ao abrigo do Tratado de Versalhes. Em março de 1938 foi anexada a Áustria. O Ocidente não reagiu; observava friamente o que estava a acontecer. Em dezembro de 1937, Hitler aprovou Fall Grün (Operação Verde), um plano militar alemão para ocupar a Checoslováquia. A execução desta operação foi cancelada depois de ter sido concluído o Pacto de Munique entre a Inglaterra, a França, a Itália e a Alemanha nazi, em 30 de setembro de1938. Mas Hitler nunca negou a sua intenção enquanto punha a sua assinatura ao lado das de Arthur Neville Chamberlain, de Édouard Daladier e de Benito Mussolini. A 21 de outubro, ordenou que se iniciassem os preparativos para o assalto final para anexação do resto da Checoslováquia e da Região de Klaipeda (também conhecida por Território de Memel) que fazia parte da Lituânia desde 1923. Em março de 1939, a Alemanha fez um ultimato à Polónia, exigindo a renegociação de Danzig. O Corredor Polaco (também conhecido por Corredor de Danzig, Corredor para o Mar ou Corredor de Gdansk) era um território situado na região da Pomerélia (Pomerânia de leste, anteriormente parte da Prússia ocidental) que permitia que a Segunda República da Polónia (1920-1939) tivesse acesso ao Báltico, dividindo assim o grosso da Alemanha da província da Prússia oriental. A cidade livre de Danzig (hoje a cidade polaca de Gdansk) ficou separada da Polónia e da Alemanha.

Mas Memel e Danzig não eram as principais missões que satisfariam o Führer, quando concretizadas. Ele via claramente que ninguém no Ocidente tinha a mínima intenção de interferir no seu caminho. Em abril de 1939 ordenou secretamente que a Polónia fosse atacada a 1 de setembro.

Com a ocupação da Checoslováquia, a política de duas frentes de Hitler tornou-se um segredo aberto para os políticos e diplomatas mais míopes. A União Soviética ainda acalentava a esperança de montar um sistema coletivo de segurança na Europa. Conseguiu que Londres e Paris iniciassem conversações para criar uma aliança deveras eficaz para conter o agressor. Mas as conversações mostraram que os parceiros ocidentais estavam relutantes em conter o movimento de Hitler para leste. Sir Alexander Cadogan (subsecretário permanente do Foreign Office) citou Chamberlain a dizer que preferia resignar ao cargo de primeiro-ministro do que concluir um acordo com os "soviéticos".

Quando a Alemanha atacou a Polónia e a II Guerra Mundial começou, os líderes ocidentais acusaram a União Soviética e a Alemanha de terem assinado o Pacto de Não-Agressão de 23 de Agosto de 1939. Apoiados por um coro de mestres da propaganda e de historiadores parciais, a dançar segundo a sua música, disseram que não fora a política ocidental de apaziguamento, mas o acordo URSS-Alemanha que provocara a guerra.

Os pupilos da sra. Nuland. 
Nem Londres, nem Washington, nem Paris querem ouvir a verdade sobre estes acontecimentos, apesar de terem assinado o veredito do Julgamento de Nuremberga que considerou a Alemanha culpada de graves crimes e violações do direito internacional e das leis da guerra. Podemos ver claramente o que está por trás disso. Os círculos políticos e financeiros dos Estados Unidos, da Grã-Bretanha e da França estiveram demasiado envolvidos no fomento do regime fascista e foram coniventes no que ele fazia enquanto se agarravam à política de apaziguamento. Incitaram Hitler a avançar para leste.

O Ocidente não reconhece a responsabilidade de ter apoiado o regime de Hitler, e recusa-se a reconhecer a sua culpa. Faz o melhor que pode para impedir o regresso da Rússia ao palco mundial como ator principal. Fomenta a úlcera do nazismo e da xenofobia que surge mesmo em frente aos seus olhos. Para esconder a verdade faz circular a história inventada por Washington e inculcada pela Europa sobre a "agressão russa" contra a Ucrânia. A Rússia é demonizada e provocada para uma intervenção direta a fim de passar a fazer parte do conflito interno da Ucrânia.
 
Vou repetir que a junta de Kiev não é a mesma liga que o regime de Hitler. Mas a história prova que a úlcera do nazismo, misturada com a substância venenosa da russofobia cresce rapidamente e, mais cedo ou mais tarde, ficará fora de controlo daqueles que a encorajaram. O slogan "Ucrânia acima de tudo" parece uma nova versão do "Deutschland über alles" ("Alemanha acima de tudo") da Alemanha nazi. É o que inspira os crimes praticados pelos dirigentes da Ucrânia na Novorússia.
 
01/setembro/2014

 

O original encontra-se em www.strategic-culture.org/... . Tradução de Margarida Ferreira.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/


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