segunda-feira, 8 de junho de 2015

Por que é urgente lutar contra a OTAN e redescobrir o sentido da ação política


por Domenico Losurdo



Àqueles que na esquerda manifestam reservas e hesitações sobre o apelo e a campanha "Não à guerra, não à OTAN; por um país soberano e neutro" – gostaria de sugerir que dediquem particular atenção para aquilo que a imprensa e demais meios de comunicação estadunidenses escrevem há algum tempo.

A guerra permanece no centro do discurso permanece; e esta, longe de se configurar como uma perspectiva hipotética ou remota, é discutida e analisada nas suas implicações políticas e militares. Em The National Interest de 7 de maio último, pode-se ler um artigo particularmente interessante. O autor, Tom Nichols, não é uma pessoa qualquer, é "professor de assuntos de Segurança Nacional na Academia da Marinha de Guerra". O título é de per si eloquente e alarmante: "Como a América e a Rússia poderiam provocar uma guerra nuclear" ( How America and Russia Could Start a Nuclear War). É um conceito muitas vezes repetido no artigo (assim como nas aulas) do ilustre docente:   a guerra nuclear "não é impossível"; mais do que removê-la, os Estados Unidos fariam bem em preparar-se para esta nos planos militar e político.

Mas como? Eis o cenário imaginado pelo autor estadunidense: a Rússia, que já com Ieltsin, em 1999, por ocasião da campanha de bombardeios contra a Iugoslávia, proferiu terríveis ameaças e com Putin, muito menos resignado com a derrota sofrida na Guerra Fria, acaba provocando uma guerra que de convencional se torna nuclear e conhece uma progressiva escalada. E eis o resultado: nos EUA são incontáveis as vítimas; a sorte dos sobreviventes talvez seja ainda pior, para encurtar o sofrimento, cogita-se levá-los à morte por eutanásia; o caos é total e só se pode fazer respeitar a ordem pública mediante a "lei marcial". 

Agora vejamos o que ocorre no território do inimigo derrotado e golpeado não só pelos EUA mas também pela Europa e em particular pela França e o Reino Unido, duas potências nucleares: "Na Rússia, a situação será ainda pior [do que nos EUA]. A plena desintegração do Império Russo, iniciada em 1905 e interrompida apenas pela aberração soviética, finalmente acontecerá. Eclodirá uma segunda guerra civil russa e a Eurásia, por décadas ou mesmo por mais tempo, será apenas uma mistura de Estados étnicos devastados e governados por homens fortes. Qualquer resquício do Estado russo poderia reemergir das cinzas, mas provavelmente será sufocado de uma vez por todas por uma Europa sem a intenção de perdoar uma tão grande devastação".

No título, o artigo aqui citado se refere apenas à possível guerra nuclear entre os Estados Unidos e a Rússia, mas claramente o autor não se contenta com pouco. O seu discurso prossegue evocando uma réplica desse cenário na Ásia. Nesse caso, não é Moscou, mas Pequim, que provoca primeiro a guerra convencional, depois a nuclear com consequências ainda mais terrificantes. O resultado, porém, é o mesmo: "Os Estados Unidos da América, de qualquer modo, sobrevivem. A República Popular da China, analogamente à Federação Russa, deixará de existir como entidade política".

É uma conclusão reveladora, que involuntariamente lança luz ao projeto, ou melhor, ao sonho, acalentado pelos campeões da nova guerra fria e quente. Não se trata de rechaçar a "agressão" atribuída à Rússia e à China, e não se trata tampouco de desarmar esses países e de pô-los na condição de não fazer nenhum mal. Não, trata-se de aniquilá-los enquanto Estados, enquanto "entidades políticas". Ao menos no que se refere à Rússia, o autor deixa escapar que sua "desintegração" é o resultado de um processo benéfico iniciado em 1905, desgraçadamente interrompido pelo poder soviético, mas que poderia "finalmente" (finally) alcançar sua conclusão. A retardar a "desintegração" total da Rússia que se impõe, esteve apenas a "aberração" do país que emergiu da revolução de outubro. Pareceria que o autor estadunidense aqui citado exprime seu desapontamento e desilusão com a derrota sofrida pela Alemanha nazista em Stalingrado.

Uma coisa é certa: destruir a Rússia como "entidade política" era o caro projeto do Terceiro Reich. E, portanto, não é um acaso que a OTAN, ao menos na Ucrânia, colabore abertamente com movimentos e círculos neonazistas. Destruir a China como "entidade política" era, por seu turno, o caro projeto do imperialismo japonês, êmulo na Ásia do imperialismo hitleriano. E, portanto, não é por acaso que os Estados Unidos reforçam o seu eixo com o Japão, que renega sua Constituição pacifista e está empenhado em um tresloucado revisionismo histórico, reduzindo a trapo um dos capítulos mais horríveis da história do colonialismo e do imperialismo (os crimes com que se manchou o Império do Sol Nascente na tentativa de sujeitar e escravizar o povo chinês e outros povos asiáticos).

O artigo que citei longamente é sintomático. Já de acordo com a doutrina proclamada por Bush Jr., os Estados Unidos se atribuíam o direito de quebrar tempestivamente a emergência de possíveis competidores da superpotência então única. Claramente tal doutrina continua a inspirar na república norte-americana círculos militares e políticos prontos a correr o risco mesmo de uma guerra nuclear.

É a esta ameaça que querem responder – finalmente! – o apelo e a campanha "Não à guerra, não à OTAN; por um país soberano e neutro". É encorajador que nesta iniciativa estejam empenhadas personalidades ilustres com diversas orientações políticas e ideológicas. É possível promover um alinhamento de forças bastante amplo em defesa da paz mundial e da salvação do país. 

Contudo, como mencionei acima, às vezes nos deparamos com reservas e hesitações que se manifestam em ambientes inesperados e insuspeitos e que até mesmo pertencem ao movimento comunista. São reservas e hesitações cujo sentido não se compreende bem. Será que para começarmos a nos organizar contra a guerra devemos esperar que surja a perspectiva de destruição e de morte em larga escala que emerge da imprensa internacional e em primeiro lugar da estadunidense? Seria uma posição irresponsável e suicida. É verdade, as forças que compreenderam a real natureza da OTAN e que estão prontas a lutar contra ela são hoje mais reduzidas. Mas desta constatação deriva não a legitimidade do adiamento do nosso empenho na luta pela paz, mas ao contrário, a sua absoluta urgência. Temos uma grande história sobre nossos ombros. Em sua época, Lênin lançou a palavra de ordem da transformação da guerra em revolução, quando os jovens, em diversos países europeus, cegos durante algum tempo pela ideologia dominante, acorriam entusiasmados e em massa ao alistamento voluntário como se fossem a um encontro amoroso.  Obviamente, a situação contemporânea é diferente, mas não há motivos para abdicar do dever de difundir a consciência do perigo de guerra e de denunciar a política de guerra da OTAN. Agora é possível contestar e refutar uma a uma as manipulações da indústria da mentira que é ao mesmo tempo a indústria da propaganda bélica; agora é possível e necessário contrastar cada medida política e militar que ameaça a aproximação da catástrofe. E tudo isto sem nunca perder de vista o objetivo estratégico de expulsar a OTAN de nosso país.

As reservas e hesitações em face do apelo e da campanha contra a OTAN não têm nenhuma plausibilidade política e moral. Há, porém, uma explicação, que não é uma justificativa. Ao menos na Europa ocidental, a dura derrota sofrida pelo movimento comunista entre 1989 e 1991 comportou um terrível empobrecimento não só teórico, mas também ético-político. O primeiro é amplamente conhecido, e tentei contribuir para esclarecê-lo em primeiro lugar com os meus livros sobre a "esquerda ausente" e sobre o "revisionismo histórico".

Agora direi algo sobre o empobrecimento ético-político: mesmo os intelectuais que não se associam ao coro empenhado em denegrir a "forma-partido", frequentemente se revelam incapazes de agir coletivamente. Parece que se esqueceram do significado da ação política e sobretudo de uma ação política que pretenda transformar radicalmente a realidade existente e que, portanto, é obrigada a defrontar-se com um aparato de manipulação mais poderoso do que nunca. Sabemos desde os nossos clássicos que a pequena produção é o terreno sobre o qual se enraíza o anarquismo. O moderno desenvolvimento das comunicações digitais comporta de fato um forte relançamento da pequena produção intelectual. Eis que no clima que se criou depois da derrota de 1989-1991 e ao correlato empobrecimento ético-político, não poucos intelectuais, mesmo de orientação comunista, tendem a fechar-se cada qual em seu blog e sítio de internet. No blog e no sítio o intelectual isoladamente tem que se haver consigo mesmo, sem se confrontar com as contradições e conflitos que são próprios da ação política enquanto ação coletiva. 

Temos agora blogs e sítios de orientação comunista, não poucas vezes valiosos e algumas vezes muito valiosos, mas frequentemente em diversas medidas atingidos por aquela velha doença que é o anarquismo de grande senhor, que se tornou mais grave e mais dificilmente curável pelo empobrecimento ético-político que mencionei e agora em condições de manifestar-se sem obstáculos graças aos milagres da comunicação digital. Para todos esses intelectuais o próprio blog e o próprio sítio são ao mesmo tempo o partido e o jornal como tais. E esses intelectuais se posicionam de tal modo pelo fato de que – lamentam – faltam o partido e o jornal.

Sobretudo no que se refere ao primeiro ponto, os leitores deste blog já conhecem as posições que assumi publicamente, e não preciso repetir. Quero acrescentar apenas uma observação. Se os diversos sítios e blogs de que falei se empenhassem em conduzir a campanha "Não à guerra, não à OTAN; por um país soberano e neutro", denunciando dia após dia os planos de expansão e de guerra da OTAN e as suas manobras para desestabilizar por todos os meios (até recorrendo ao ISIS) os países que se opõem a tudo isso, daríamos um passo concreto e importante para a fundação de um jornal nacional (no sentido leninista e gramsciano do termo). E se no curso desta campanha um número considerável de intelectuais e militantes redescobrissem o desejo e o sentido da ação política, que é sempre uma ação coletiva sobretudo quando se persegue objetivos de transformação radical da realidade político-social, então daremos um passo concreto e importante para a solução do problema do partido, objetivo para o qual todos somos chamados a nos empenhar.
 
24/Maio/2015

  • Subscreva o abaixo assinado contra a NATO
  • O original encontra-se em www.domenicolosurdo.blogspot.pt/ e a versão em português em domenicolosurdoinfobrasil.blogspot.pt

    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/


    aqui:http://resistir.info/losurdo/nato_24mai15.html 

    MENTES DOENTES

    por josé Goulão

    O presidente de turno nos Estados Unidos da América pretende instalar mísseis de médio alcance com capacidade nuclear no Reino Unido e, ao mesmo tempo que combina com Angela Merkel a imposição de novas sanções à Rússia, pede ao primeiro-ministro britânico que não permita a saída do seu país da União Europeia.
    O imperador falou e deu ordens aos súbditos, que continuam a sê-lo mesmo que, aqui e ali, pretendam disfarçá-lo. O caso da chanceler alemã é flagrante: depois de fingir que tem política própria em relação a Moscovo acaba de explicar que a sua posição sobre o assunto é a norte-americana e fica tudo dito. Mesmo que tenha sido enxovalhada por simples funcionários de Washington a propósito da Ucrânia, mas isso já lá vai, desculpas aceites, tudo se esquece.
    Moscovo informa que acompanha “de muito perto” estas movimentações. É natural, todas elas se dirigem, em primeira e última análise, contra a Rússia. Até porque as mentiras em tempos usadas por Washington, segundo as quais a instalação de equipamentos militares “defensivos” na Europa de Leste pretendiam ameaçar o Irão, tornaram-se inúteis. Os Estados Unidos e o regime de Teerão vão assinar um acordo dentro de dias cujo principal objectivo estratégico para o Pentágono é o de ficar com as mãos mais livres no Médio Oriente para poder reforçar o nível das ameaças contra a China e contra a Rússia. É o que está a acontecer sob os nossos olhos.
    A instalação de mísseis nucleares de médio alcance no Reino Unido, virados contra a Rússia, fará com que Moscovo responda da mesma maneira, com armas viradas “para cá”. É um regresso ao passado nos episódios de corrida aos armamentos, o retorno a uma guerra fria que, nunca deixando verdadeiramente de existir, se reactiva em cima de um mundo repleto de guerras quentes.
    Durante os primeiros anos deste século, Washington ainda deu a sensação de que o terrorismo internacional passaria a fazer as vezes da extinta União Soviética como argumento imperial para cometer ingerências onde lhe interessa, alimentar guerras para escoar stocks de armamentos ultrapassados, para por e tirar governos a seu belo prazer. Esse tempo já lá vai, até porque qualquer cidadão medianamente informado e que pretenda olhar o mundo com olhos de ver conhece as cumplicidades entre os Estados Unidos e o terrorismo internacional.
    Tal como a União Soviética de antanho, a Rússia é o inimigo principal do império – em boa verdade a Rússia e os seus potenciais aliados militares, China e Índia. Foi sobre isto que incidiram os recentes encontros do senhor Obama, que passa mais tempo no espaço da União Europeia do que no seu país. E quando ele chega aos países da União Europeia não é para pedir, é para exigir a rogo de quem o fez presidente e como tal o sustenta, o complexo militar, industrial e tecnológico que governa os Estados Unidos e pretende governar o mundo, em “democracia”, claro está.
    Por isso Obama veio dizer ao seu confrade Cameron, eleito de fresquinho, que prepare as bases para que nelas sejam instalados os mísseis nucleares norte-americanos e que se deixe de alimentar as dúvidas sobre se o Reino Unido deve ou não continuar na União Europeia. É do interesse dos Estados Unidos que a União Europeia continue inteira, estável e dócil, por isso que se deixe Cameron de falar em referendos sobre a saída ou não, que ainda podem dar mau resultado mesmo que o sistema eleitoral funcione de modo a evitar incómodos, mas nunca se sabe.
    Dir-se-á: Cameron foi reeleito agora, porém o mesmo não poderá acontecer com Obama. Pois não – e o que interessa isso? A seguir virá um outro, com um dos dois rótulos regimentais, para fazer a mesma coisa, quem sabe se logo à partida agraciado com um Nobel para que tudo o que ele decida em prol da guerra seja apresentado como denodados esforços pela paz. Estando todos nós reféns destas mentes doentes. 

    aqui:http://mundocaohoje.blogspot.pt/2015/06/mentes-doentes.html

    quinta-feira, 4 de junho de 2015

    Um lugar para o socialismo. Socialismo, porquê


    por Daniel Vaz de Carvalho

     
    "A República não será uma realidade se não tiver por fim prático a reforma social e por instrumento a liberdade plena garantindo a iniciativa popular dento e fora do governo. Para nós só é real e séria a República em que houver garantido para o Socialismo um lugar seu".
    Antero Quental, A República e o Socialismo, 1873 [1]
     
    1 - Porquê o socialismo

    Em 1949 Einstein escrevia um texto intitulado "Porquê o socialismo" [2] . Um texto absolutamente atual. Dizia então, que sob o sistema capitalista os impulsos sociais se deterioram progressivamente. "Os seres humanos, seja qual for a sua posição na sociedade, sofrem este processo de deterioração, Inconscientemente prisioneiros da sua subjetividade, sentem-se inseguros, sós, e privados do prazer simples e não sofisticado da vida".

    "O capital privado tende a concentrar-se em poucas mãos, em parte por causa da concorrência entre os capitalistas e em parte porque o desenvolvimento tecnológico e a crescente divisão do trabalho encorajam a formação de unidades de produção maiores à custa de outras mais pequenas. O resultado destes desenvolvimentos é uma oligarquia de capital privado cujo enorme poder não pode ser eficazmente controlado mesmo por uma sociedade democraticamente organizada." "A anarquia económica da sociedade capitalista como existe atualmente é, na minha opinião, a verdadeira origem do mal". "O homem pode encontrar sentido na vida, apenas dedicando-se à sociedade. A clareza sobre os objetivos e problemas do socialismo é da maior importância na nossa época de transição".

    Einstein via a discussão livre e sem entraves destes problemas prisioneira de um poderoso tabu, embora considerasse a abordagem dos temas do socialismo um serviço público importante.

    O Grande cientista tinha e tem razão. Passadas seis décadas e meia, o tema socialismo como que desapareceu do debate político-ideológico. Raros são hoje os partidos a nível europeu, que apresentam o socialismo como objetivo estratégico. Vários partidos embora apresentem críticas à austeridade e ao neoliberalismo, colocam-se à margem do processo histórico, fogem à questão de que uma política alternativa impõe um lugar para o socialismo.

    Na realidade, acabam por não pôr em causa o capitalismo, permanecendo numa linha social-democrata de querer gerir "melhor" o capitalismo, "salvá-lo dele próprio" ou torna-lo socialmente menos danoso. E no entanto o capitalismo tem de ser substituído: Mas substituído porquê?

    2 – Um sistema disfuncional

    O capitalismo tornou-se um sistema que apodreceu por dentro. As fraudes, a manipulação das taxas de juro e de câmbio por grandes bancos ditos de referência, as falências fraudulentas e os resgates com dinheiros públicos retirados aos salários, reformas e prestações sociais, tornaram-se políticas recorrentes. O dinheiro do crime organizado, os horrores do tráfico de seres humanos, da prostituição, da droga, é absorvido pelo sistema bancário sem reais problemas.

    "Os bancos ganham milhões com o tráfico de droga. As entidades reguladoras são relutantes em investigar o enorme processo da lavagem de dinheiro da droga, levada a cabo pelos bancos europeus e norte-americanos. " [3] Escandalosos arranjos financeiros com bancos envolvidos na lavagem do dinheiro sujo provam que o combate aos tráficos de droga e seres humanos não passa de uma farsa. [4]

    Como afirma Michael Hudson [5] , uma classe cleptocrática, os "banksters", gangsters bancários, assumiu o poder económico. A economia foi capturada por um poder capaz de fazer fortunas, mas sem "criação de riqueza" da forma que a maioria das pessoas a reconhece.

    O sistema capitalista mergulhou o mundo em quatro avassaladoras crises, crises, insuperáveis neste sistema que apenas as agrava: a crise económica e financeira, a crise social, a crise ambiental e a crise militar-belicista. O capitalismo chegou a uma situação em que não tem soluções para resolver os problemas e as crises que criou.

    O capitalismo atravessa a pior crise da sua existência. Crise que apresenta características diferentes das anteriores e que põem em perigo a própria Humanidade: atingiu os limites ecológicos da sua reprodução; a amplitude dos meios de violência e controlo social é sem precedentes; atingiu os limites da sua expansão extensiva; um excedente de população cresce num "planeta de favelas"; a economia globalizada tornou-se incompatível com o Estado-Nação baseado num sistema de autoridade política [6]

    O que temos hoje no chamado "mundo ocidental" é o neoliberalismo, uma incoerente e dogmática aplicação ao capitalismo monopolista de princípios do liberalismo dos fins do séc. XVIII. A política de austeridade não funciona em parte alguma, mas não têm outra. As políticas do FMI e da UE, são um exemplo da desconexão da realidade que o sistema capitalista impõe em benefício da uma minoria de 1%.

    Recentemente, o chefe da delegação do FMI que mantém Portugal sob vigilância (?!) afirmou que a "dívida pública, o fraco investimento, a falta de dinamismo do mercado de trabalho, o endividamento das empresas são problemas que persistem". Insistiu nas "reformas estruturais": "cortar salários e pensões, cortar na despesa pública". Mas não foram estas mesmas "medidas" que impõem há quatro anos (sem contar com os PEC…) que resolveriam todos aqueles problemas?!

    "As sociedades estão vergadas ao absurdo de um sistema económico que é uma pura especulação matemática sem referência com o mundo real". "Esta crise de metodologia é ao mesmo tempo um sintoma e um dos elementos da decadência da economia atual e a sua transformação em apologética". [7] No seu horizonte define-se um "ótimo". Mas este ótimo de eficiência e este equilíbrio, não é nem um ótimo nem representa um equilíbrio social. Nem se prova que esses estados de equilíbrio são socialmente justos, possíveis, éticos. [9]

    O pseudo cientismo vigente necessita de negar a existência do social. A democracia está efetivamente condicionada por esta "ciência" com o absurdo de as suas leis serem pretensamente válidas universalmente, independentemente das circunstâncias históricas e sociais. Na realidade, a dita "ciência económica" está reduzida à facilitação de negócios: ao Estado reserva-se o papel de os assegurar. Como dizia um deputado PSD acerca da privatização da TAP, sem mais argumentos: "é preciso deixar a economia funcionar".

    A pobreza aumenta na UE, todas as medidas para "crescimento e emprego" mostraram-se contraproducentes. O reformismo social-democrata afunda-se numa espiral de contradições internas e externas, mas persiste em ter como objetivo salvar o sistema e impedir uma alternativa política em que o socialismo tenha lugar.

    3 – A UE, um desconexo conjunto de povos sem controlo

    Num espaço economicamente desenvolvido como a UE, praticamente toda a capacidade de decisão popular foi usurpada. Vive-se um totalitarismo, mas a social-democracia pretende dar ainda mais competências à UE "para aumentar a competitividade relativamente a outros blocos" ou ultimar a "união bancária" com as finanças nacionais a serem geridas por burocratas às ordens da oligarquia dos países dominantes.

    Estas políticas colocaram a generalidade dos países da UE, e em primeiro lugar os do euro, à beira da catástrofe. Portugal mergulhou na estagnação económica, aumento da pobreza, desemprego, ausência de investimento, emigração que se transformou em fuga do país para os mais jovens. O PIB está ao nível de 15 anos atrás, apesar de mantido pelo turismo e imobiliário de luxo (em parte pelos "vistos gold").

    Tudo o que poderia beneficiar o país, mesmo tímidas medidas como a intervenção pública na economia, o controlo da banca, efetiva regulação financeira, etc, não é permitido pelas instituições europeias sob pena de represálias que os seus sequazes nacionais repetem à exaustão. O poder democrático foi usurpado pelos organismos da UE contra os interesses nacionais. Sem colocarem a questão de verificar se as regras da UE e do euro são boas para Portugal e os portugueses o único argumento que os propagandistas dispõem é o da cedência às ameaças e chantagem das burocracias europeias,

    Em quatro anos de dito "ajustamento" a dívida pública aumentou 54 mil milhões de euros, os juros pagos atingiram cerca de 35,5 mil milhões de euros e em termos líquidos, o país perdeu nos últimos quatro anos, 25,5 mil milhões de euros (diferença entre PIB e RN). Estes números expressam a natureza neocolonial das políticas impostas pela UE. Face a isto, os papagaios de serviço falam em "atrair capitais e investimento como prioridade absoluta"…

    A catástrofe é permanecer no euro e seguir as regras da UE. Os países poderiam criar moeda sem juros, mas o euro é o instrumento privilegiado para o domínio alemão sobre a Europa, uma liderança imposta custe o que custar aos outros povos. Na UE as liberdades democráticas estão subordinadas aos interesses da gestão dos negócios dos oligarcas. A democracia cessa na austeridade, na legislação antilaboral, na comunicação social controlada, na submissão às burocracias selecionadas pela oligarquia e pelo imperialismo.

    A social-democracia está ao serviço desta tragédia e aviva os seus preconceitos anti socialismo, mostrando-se afligida com uma hipotética "ditadura de esquerda". Vejam-se as atitudes para com Cuba, Bolívia, Venezuela, ao mesmo tempo que apoia o nazi-fascismo de Kiev.

    A UE tornou-se um espaço neocolonial. Porém, verdadeiramente colonizado é apenas o povo que para se identificar com o colonizador e esquece as suas raízes. Verdadeiramente colonizados, são os que se deslumbram e curvam perante os modelos políticos e sociais do colonizador.

    5 – O socialismo como imperativo histórico

    O sistema capitalista espalhou o caos em regiões inteiras do Afeganistão à Líbia, à Somália. O capitalismo atingiu a sua fase senil incapaz de resolver os problemas que cria. Nenhum problema pode ser resolvido com a mesma forma de pensar que está na sua origem. Deste modo, é necessário compreender que os partidos que nos trouxeram à situação de descalabro atual, PS, PSD, CDS, não serão capazes de nos tirar dela. O capitalismo é pois um sistema que tem de ser substituído.

    O socialismo é de facto a alternativa à barbárie capitalista. [9] A barbárie atual surge como produto da ascensão de uma classe dominante financeira, parasitária e militarista. Governam e perseguem agressivamente uma agenda que está continuamente a reduzir os padrões de vida, a transferir a riqueza pública para os seus cofres privados, a violar direitos constitucionais no exercício de suas guerras imperiais, a segregar e perseguir milhões de trabalhadores imigrantes e a promover a desintegração e o desaparecimento do trabalho estável e da classe média. [10]

    A luta de classes existe e foi exacerbada, mas a social-democracia mascara-a com as noções de competitividade e de "atrair capitais". A propaganda, a manipulação podem parar a história? Não, mas atrasam-na, pois só se pode mudar o que se compreende. Procuram criar uma opinião pública confundida, talvez revoltada, mas passiva.

    Perante o poder avassalador da finança e do imperialismo, seria fácil admitir que nada pode ser alterado, por mais que os povos abominem o sistema em que vivem. Assim seria se o materialismo dialético não nos permitisse compreender e interpretar os fenómenos da vida tanto individual como coletiva e suas correlações. Tudo pareceria empiricamente perfeito ao capitalismo, sem a análise dialética. Mas por maior que seja o poder ao serviço da oligarquia, nada pode contra as leis económicas e sociais objetivas, inerentes a cada modo de produção, nada pode para anular as contradições que as estratégias de sobrevivência do capitalismo agravam.

    O materialismo dialético, o marxismo, permite-nos compreender o caos que nos cerca e suas causas, mas também definir e estimular as soluções para o superar. Permite-nos compreender que as transformações quantitativas dão origem às transformações qualitativas. Tal como o capitalismo sucedeu ao feudalismo, o socialismo sucederá ao capitalismo, como solução para as suas contradições e antagonismos.

    A alternativa parece-nos clara: socialismo ou barbárie. O socialismo é dirigido para um fim sócio ético, como escreveu Einstein. O socialismo representa a superioridade de um poder alicerçado numa base social alargada em relação a um poder submetido a uma minoria ultraprivilegiada.

    A construção do socialismo, quaisquer que sejam as variantes do seu processo de transição, deverá consistir numa alternativa que defenda os interesses nacionais e populares, que lute pela soberania económica, monetária e jurídica, do país. Uma alternativa que se afirme contra as quatro crises capitalistas e o espectro do neofascismo do século XXI.
     

    Notas
    [1] Seara Nova, agosto, 1973
    [2] Porquê o Socialismo? , Albert Einstein
    [3] Western banks 'reaping billions from Colombian cocaine trade , Ed Vulliamy,
    [4] Le scandaleux arrangement financier avec la banque HSBC prouve que la guerre contre la drogue n'est qu'une farce , Marc Taibby
    [5] The Market and the Terminator Machines America's Own Kleptocracy , Michael Hudson
    [6] Crisis of Humanity and the Specter of 21st Century Fascism
    [7] Les Trous noirs de la science économique , Jacques Sapir, Ed. Seuil, 2003, p. 93 e 43
    [8] Idem, p. 83 e 85
    [9] Sobre a barbárie imperialista, A crise do capital e a luta dos povos , Miguel Urbano Rodrigues
    [10] A tendência à barbárie e as perspectivas do socialismo , James Petras


    Ver também:

  • Ser de esquerda

  • A alternância e seus consensos

    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .  
  • quarta-feira, 3 de junho de 2015

    Os silêncios de ouro no sistema de propaganda dos EUA


    por Edward S. Herman [*]

    A propaganda modela o fluxo de informação de muitas maneiras, incluindo, obviamente, a escolha das notícias a serem impressas, sua colocação e a escolha de autoridades para darem credibilidade àqueles factos. Mas igualmente importante, e implícito nas escolhas de notícias, especialmente onde há interesses políticos em causa e diversas interpretações possíveis das notícias, é omitir factos e ignorar fontes que põem a perspectiva escolhida (frequentemente a oficial) em causa. Tais Silêncios de Ouro (Golden Silences) e o contornar de fontes inconvenientes são incompatíveis com o jornalismo honesto mas este é o procedimento operacional padrão no jornalismo de referência (mainstream), com variações sobretudo quanto à severidade e profundidade do enterramento dos factos incómodos. Estes últimos muitas vezes não são completamente escondidos mas colocados tão profundamente num artigo e com tal cautela ou linguagem qualificadora que [equivale] a serem efectivamente enterrados ou suprimidos.

    Isto é ilustrado de modo dramático quando comparamos o tratamento de vítimas "valiosas" e vítimas "não valiosas", categorias que Noam Chomsky e eu enfatizámos em A fabricação do consentimento (o capítulo 2 intitula-se "Vítimas valiosas e não valiosas"). Vítimas valiosas são vítimas do inimigo e de estados alvo, ao passo que vítimas não valiosas são aquelas mortas por nós ou um dos nossos aliados ou clientes. Demos pormenores sobre a enorme atenção dos media ao assassínio de um padre polaco na Polónia comunista em 1984, uma única vítima valiosa que, como mostrámos, obteve mais atenção dos media estado-unidenses do que 100 vítimas religiosas de estados clientes dos EUA na América Latina (1965-1985) tomadas em conjunto. Estas últimas foram tratadas como não valiosas em virtude do status de clientes dos assassinos, apesar de oito destas 100 terem sido realmente cidadãos dos EUA.

    Ruanda proporcionou uma série de casos de vitimizações valiosas e não valiosas. Paul Kagame e seu Rwanda Patriotic Front (RPF) eram (e permanecem) clientes dos EUA servindo os objectivos de projecção de poder estado-unidense na região africana dos Grandes Lagos. Ele tem portanto liberdade de acção para matar, o que tem feito tão excessivamente tanto em Ruanda como na República Democrática do Congo (RDC) que sua contagem de vítimas ascende aos milhões (ver Herman e Peterson, Enduring Lies: The Rwanda Genocide in the Propaganda System, 20 Years Later, Real News Books, 2014. chaps 4 and 9). Às suas matanças deste vasto número de vítimas não valiosas foi dado o tratamento do Silêncio de Ouro e ele foi retratado nos Estados Unidos, Grã-Bretanha e Canadá como um salvador que se opunha à violência do "Poder Hutu", um verdadeiro milagre de propaganda invertida que teve êxito. Em Setembro de 1994, depois de Kagame vencer sua guerra de conquista em Ruanda, um memorando do Departamento de Estado indicava que forças de Kagame estavam a matar civis hutu ao ritmo de uns 10 mil por mês. Este memorando não teve efeito sobre a política estado-unidense de apoio a Kagame e nunca foi mencionado pelos media de referência. Imagine o que teria acontecido se um tal memorando houvesse descrito o comportamento dos governos iraniano, norte-coreano, russo ou venezuelano!

    Outro Silêncio de Ouro sobre Ruanda verificou-se no mês passado, no 20º aniversário do massacre de Kibelho , um campo de refugiados hutus no Sul de Ruanda. Isto aconteceu principalmente entre 19 e 23 de Abril de 1995, mas continuou por algum tempo quando refugiados fugiam do campo. Foi muito tempo depois de o Rwanda Patriotic Front ter conquistado Ruanda, mas com muito deslocados hutus ainda abrigados em campos de refugiados, talvez até 100 mil em Kibelho. O governo Kagame decidiu fechar este e outros campos de refugiados e forçar os mesmos a retornarem às suas cidades de origem. Isto foi acompanhado por uma carnificina, com tiros de canhão, granadas, morteiros e artilharia, observados com horror um contingente de 32 médicos e soldados australianos ao serviço da ONU. O australiano Terry Pickard escreveu na sua memória Combat Medic :
    "Só podíamos esperar que o RPA [Rwandan Patriotic Army] nos permitisse ir embora depois do que havíamos testemunhado. Eles haviam simplesmente assassinado milhares de homens, mulheres e crianças desarmados, famintos, sequiosos e inermes. Nem bebés não foram poupados. Alguns daqueles que sobreviveram à carnificina letal de metralhadoras calibre 50, rifles AK47, granadas impulsionadas for foguetes (rocket-propelled grenades, RPG) e morteiros foram implacavelmente perseguidos, capturados e ultimados a baioneta".
    Os australianos tentaram salvar alguns hutus, mas foram forçados pelos números e pelas regras da ONU meramente a observar. Uma foto tomada por um deles mostra um vasto campo de cadáveres e depois disso, por instruções da ONU, alguns deles saíram com contadores de passo (pace-counters) para contar os corpos. Eles chegavam a 4.000 e sentiram que haviam coberto menos da metade do número de mortos quando sua contagem foi cancelada por pressão da RPF. Vários deles estimam que a contagem plena atingiria os 8.000 ou mais (Ver Hugh Riminton. "Rwandan massacre still a burden for Diggers", Herald Sun [Australia]. April 20, 2015). A ONU, contudo, acabou por apresentar uma estimativa de 2.000. Esta estimativa mais baixa foi a preferida pelos media de referência. O New York Times, por exemplo, repetiu a frase "até 2000" na sua escassa cobertura em notícias e editorial durante Abril e Maio de 1995.

    Este massacre, tal como memorando sobre a carnificina de Setembro de 1994, não teve efeito sobre a política dos EUA ou da ONU em relação ao governo de Ruanda e essencialmente desapareceu da história ruandesa no Ocidente, excepto na Austrália. Com o 20º aniversário do massacre de Kibelho, em 22 de Abril de 2015 (o dia da maior matança), não houve nem um artigo ou editorial sobre aquele acontecimento nos media de referência dos EUA ou Reino Unido. Isto era claramente território do Silêncios de Ouro, com Kagame ainda cliente dos EUA e celebrado no Ocidente como um salvador de Ruanda, um "Abe Lincoln" africano na visão distorcida de Philip Gourevitch. Só na Austrália, onde a equipe médica havia sofrido como observadores importantes da matança em massa, houve nos media um certo número de relatos acerca dos acontecimentos de Kibelho. Vários deles eram comoventes e dramáticos (ex.: reportagens intituladas "The killings just went on and on"; "Our time in hell on earth"; livros como os de Kevin O'Halloran, Pure Massacre e de Paul Jordan, The Easy Day Was Yesterday ); mas o drama e a autenticidade destes relatos não podiam romper o muro do Silêncio de Ouro nos Estados Unidos.

    É notável que o número estimado de 8.000 ou mais em Kibelho é o mesmo que os media de referência repetiram muitas vezes acerca do número de vítimas do massacre de Srebrenica, o qual se verificou no mesmo ano e só alguns meses após o de Kibelho (a partir de 11 de Julho de 1995). Naturalmente, uma profunda diferença entre os dois casos é que o massacre de Srebrenica foi executado por sérvios bósnios, os quais, juntamente com o governo Milosevic da Sérvia, foram declarados vilões e alvos dos Estados Unidos e da NATO. Segue-se que as vítimas de Srebrenica eram valiosas e que os EUA-NATO dominavam a ONU e o seu braço do Tribunal Criminal Internacional para a Antiga Jugoslávia (International Criminal Tribunal for the Former Yugoslavia ICTY) perseguiria os vilões responsáveis pelo massacre. E os media de referência do Ocidente apresentariam regularmente este episódio, a 11 de Julho de cada ano como momento para recordar aos públicos ocidentais os horrores do massacre de Srebrenica, com artigos acerca dele e fotos a mostrarem sepulturas e famílias enlutadas e a reiterar a lição a ser aprendida sobre a necessidade de intervenção humanitária precoce e vigorosa.

    Também há uma propensão para inflacionar os números das vítimas valiosas em Srebrenica, em contraste com o tratamento do número de vítimas não valiosas em Kibelho, as quais, como observado, foram rapidamente reduzidas pela ONU e pelos media de possivelmente 8.000 ou mais para "até 2.000". Em Srebrenica, embora a contagens de corpos nunca houvesse confirmado 8.000 execuções, esse número foi produzido de imediato e foi mantido até o presente como um acto de fé e pela sua utilidade política (as vítimas valiosas nunca são demasiadas).

    O alto número de execuções em Srebrenica também foi ajudado por outros truques da metodologia do Silêncio de Ouro. Um deles é enterrar o facto de que muitos corpos recuperados na Bósnia-Herzegovina oriental eram quase certamente de homens mortos em combate, os quais travaram-se na vizinhança de Srebrenica e para além desde 11 de Julho durante alguns dias quando vários milhares de soldados bósnios muçulmanos da 28ª divisão fugiram da cidade e tentaram alcançar território muçulmano seguro em Tuzla. Num estudo de relatórios forenses produzidos por peritos do ICTY sobre os 1.920 corpos em sepulturas em massa exumados entre 1966 e 2001, o analista forense Ljubisa Simic mostrou de modo convincente que os ferimentos em pelo menos metade dos apontam para mortes em combate. Contudo, num golpe de propaganda ocidental, estas mortes em combate foram ignoradas e todos os corpos encontrados na vizinhança são considerados como vítimas de execução.

    A tarefa de conseguir que o número de vítimas se elevasse até àquele objectivo permanente de 8.000 voltou-se mais recentemente para a identificação do ADN dos cadáveres. Um número de 6.924 é o total de Julho de 2014 avançado pela Comissão Internacional sobre Pessoas Desaparecidas (ICMP) com base nesta metodologia. Além do facto de esta Comissão não ser verdadeiramente "internacional" mas sim dominada pelos Estados Unidos e autoridades bósnias muçulmanas, os que apresentam esta nova afirmação recusaram-se a permitir que a sua metodologia fosse verificada por analistas de defesa independentes. E se bem que os dados forenses sobre corpos permitam alguns julgamentos limitados sobre a possível causa e momento da morte, o ADN nada nos diz sobre estas questões ou qualquer coisa acerca do lugar da sua ocorrência.

    Para o ICTY, a principal testemunha sobre o massacre de Srebrenica foi um alegado participante, o croata Drazen Erdemovic. Ele foi gravemente comprometido por antecedentes mercenários, pelas circunstâncias da sua participação nas mortes e por contradições no testemunho, mas estava desejoso de implicar altas autoridades bósnias sérvias e portanto foi protegido pelos promotores e juízes do ICTY e mantido quase completamente livre de acareações sérias. Um estudo irrefutável da história de Erdemovic, seu papel e a protecção que recebeu do ICTY foi escrito pelo jornalista Germinal Civikov ( Srebrenica: The Star Witness [Belgrado, 2010]). Trata-se de uma crítica devastadora do homem e do ICTY, mas apesar de terem sido disponibilizadas cópias para os media ocidentais de referência, incluindo Marlise Simons do New York Times, a este livro foi dado o tratamento completo do Silêncio de Ouro.

    Outro elemento do Silêncio de Ouro em relação a Srebrenica é o blackout dos factos antecedentes que tornaria o implacável tratamento sérvio de prisioneiros mais compreensível. Embora Srebrenica fosse designada como uma "área segura" pelo Conselho de Segurança, protegida de ataque, aquela designação também exigia que fosse desarmada. Isto não aconteceu e desde 1992 até Julho de 1995, incursões de quadros bósnios muçulmanos, dirigidas primariamente pelo comandante local Naser Oric, atacaram muitas cidades habitadas por sérvios e mataram vários milhares de civis sérvios. O tenente-coronel Thomas Karremans, que comandou o batalhão holandês em Srebrenica em 1995, declarou em 23 de Julho de 1995 que "Nós sabemos que só na área circundante do enclave de Srebrenica, 192 aldeias foram arrasadas e todos os aldeões mortos". O juiz Patrick Robinson do ICTY perguntou directamente ao comandante da ONU em Sarajevo, Philippe Morillon, se o que aconteceu em Srebrenica em Julho de 1995 "foi uma reacção directa ao que Naser Oric fizera aos sérvios dois anos antes?". Ao que Morillon respondeu, "Sim, excelência, estou convencido disso". Isto não foi mencionado nos media de referência dos EUA (para um relato mais completo, ver George Bogdanich, "Prelude to the Capture of Srebrenica", in Herman, ed., The Srebrenica Massacre: Evidence, Context, Politics [Alphabet Soup, 2011]). Em suma, o contexto dos antecedentes, interferindo com o processo de demonização e com os planos de guerra dos EUA-NATO, foi ignorado pelos media de referência.

    Não é que os media façam omissão da história em todos os casos. De facto, em conexão com a recente morte de polícia e tumultos em Baltimore um editorial do New York Times intitulava-se "O que aconteceu antes dos tumultos de Baltimore" (29/Abril/2015). Aqui a posição política liberal dos editores torna permissível centrar-se no contexto e nas causas primárias. Com Srebrenica a agenda de demonização e mudança de regime proibia o equilíbrio e o contexto inconveniente. Isto, nos media de referência, é um lugar comum na cobertura da política externa – e é dramaticamente evidente no tratamento do demonizado Putin e no conflito da Ucrânia onde um perito em assuntos russos como Stephen Cohen, que pretende falar acerca dos antecedentes Rússia-NATO e causas primárias, não pode obter tanto espaço noticioso quanto as Pussy Riot russas que querem denunciar Putin.
     
    29/Maio/2015
     


    [*] Economista, estado-unidense, autor de numerosos artigos e livros sobre os media e a política externa.

    O original encontra-se em www.globalresearch.ca/golden-silences-in-the-u-s-propaganda-system/5452429


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/


    aqui:http://resistir.info/varios/silenciamentos_29mai15.html 

    terça-feira, 2 de junho de 2015

    A corrida às armas high-tech

    por Manlio Dinucci

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    A parada militar nos Fóruns Imperiais [1] com que em 2 de junho é celebrada a Festa da República que na sua Constituição repudia a guerra [2], esconde por trás da fachada retórica uma realidade cada vez mais dramática: a aceleração da corrida às armas high-tech, em que a Itália está engajada através da Otan. Corrida guiada em todos os campos pelos Estados Unidos.

    Há uma semana, o “Comando de ataque global” lançou desde a Califórnia um míssil intercontinental Minuteman III, atingindo com uma ogiva experimental um atol no Oceano Pacífico a oito mil quilômetros de distância. Com esses testes o Comando verifica a “confiabilidade” dos 450 Minuteman III, prontos para lançamento com suas ogivas nucleares. O Congresso alocou mais de 200 bilhões de dólares (parcela inicial de cerca de um trilhão em dez anos) para potenciar as forças nucleares, com 12 submarinos de ataque (sete bilhões cada um, estando o primeiro já em construção), cada um armado com 200 ogivas nucleares, e outros bombardeiros estratégicos (de 550 milhões a unidade), cada qual armado com 20 ogivas nucleares.

    O Exército está experimentando armas a laser com capacidade para abater aeronaves, apagar a visão e cegar os soldados inimigos; a Marinha já instalou um canhão a laser no navio Ponce, deixando claro que “deve ser usado em combate real”; a Aeronáutica anuncia que a partir de 2022 equipará com laser seus caças-bombardeiros.

    Também se encontra em forte desenvolvimento o setor dos drones e robôs de guerra. Enquanto se modernizam os drones teleguiados (o Global Hawk ultrapassou as 150 mil horas de voo), experimentam-se aeronaves de ataque completamente robotizadas: o X-47B efetuou em voo o primeiro reabastecimento automático de combustível. O caça F-35C para porta-aviões, anuncia o secretário da Marinha, “será provavelmente o último com piloto a bordo”. Em 2016 será experimentado ainda um robô subaquático que, lançado por um submarino, identifica e segue automaticamente o navio inimigo.

    Da guerra robotizada à guerra espacial, o passo é curto: em 20 de maio, partiu para a sua quarta missão secreta o X-37B, um mini-lançador robótico da Força Aérea estadunidense, já testado por quase quatro anos no espaço. O general Greaves, novo chefe do Comando espacial, declarou que os Estados Unidos “usarão todos os meios para manter a supremacia no espaço”.

    Participam nessa corrida, nas pegadas dos Estados Unidos, os maiores países europeus da Otan: há dez dias, os ministros da Defesa da França, Alemanha e Itália assinaram o memorando de entendimento para o desenvolvimento de uma aeronave robótica para a guerra. Israel participa na corrida com novos drones e armas nucleares, armas que pode continuar a desenvolver depois que a proposta árabe de convocar em 2016 uma conferência para criar no Oriente Médio uma zona livre de armas nucleares foi bloqueada na ONU pelos Estados Unidos, o Canadá e o Reino Unido.

    A Rússia, a China e outros países, que estão no alvo estratégico dos Estados Unidos e da Otan, reagem em consequência. A Rússia está desenvolvendo o Sarmat, um novo míssil balístico intercontinental, cujas ogivas nucleares manobram ao retornar à atmosfera para evitar os mísseis interceptores do “escudo” estadunidense, e o submarino da categoria Borey, extremamente silencioso, armado de 200 ogivas nucleares. Mísseis e submarinos análogos são construídos pela China que, segundo o comando dos Estados Unidos, está experimentando também armas espaciais anti-satélite para cegar os sistemas de ataque estadunidenses.

    O blecaute midiático cala sobre tudo isto, enquanto os holofotes são apontados para as crianças que, na parada militar de 2 de junho festejam com guarda-sóis tricolores. Não a paz, como lhe disseram, mas a guerra que os espera.
     
    Tradução
    José Reinaldo Carvalho
    Editor do site Vermelho

    [1] Fóruns Imperiais – Conjunto de praças monumentais edificadas pelos imperadores ao longo de um século e meio (entre 46 a. C e 113 d.C.) no coração de Roma.
    [2] A Constituição da República Italiana diz em seu artigo 11: “A Itália repudia a guerra como instrumento que atenta contra a liberdade dos outros povos e como modo de solução dos conflitos internacionais; ela consente, nas condições de reciprocidade com outros Estados, as limitações de soberania necessárias a uma ordem que assegure a paz e a justiça entre as nações; ela suscita e favorece as organizações internacionais que perseguem este objetivo”.


    aqui:http://www.voltairenet.org/article187775.html 

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