terça-feira, 28 de fevereiro de 2017
terça-feira, 21 de fevereiro de 2017
O presidente “bom” e o presidente “mau”
por Manlio Dinucci
Com as manifestações realizadas a 21 de Janeiro, muitos cidadãos de diversos países aceitaram comportar-se como seguidores e instrumentos de uma das facções em confronto nos EUA. Entre o beatificado Obama e o demonizado Trump, a escolha a fazer não é entre nenhum deles. É a escolha pela soberania nacional, pela paz, pelo direito de cada povo decidir do seu próprio destino, liberto da ingerência e da pressão dos EUA, da NATO, do imperialismo em geral.
Com as manifestações realizadas a 21 de Janeiro, muitos cidadãos de diversos países aceitaram comportar-se como seguidores e instrumentos de uma das facções em confronto nos EUA. Entre o beatificado Obama e o demonizado Trump, a escolha a fazer não é entre nenhum deles. É a escolha pela soberania nacional, pela paz, pelo direito de cada povo decidir do seu próprio destino, liberto da ingerência e da pressão dos EUA, da NATO, do imperialismo em geral.
Quebrando lanças pelos seus amos
estado-unidenses, os europeus – em vez de lutar pela sua própria
soberania – unem-se em coro ao concerto de críticas – nem sempre
justificadas – sob a batuta das elites da margem ocidental do Atlântico.
Invocando a «democracia», desfilam inclusivamente contra o resultado
das eleições. Barack Obama foi designado «santo subito», ou seja “santo
de imediato”: quando entrou na Casa Branca, em 2009, foi-lhe entregue a
título preventivo o Premio Nobel da Paz pelos «seus extraordinários
esforços para fortalecer a diplomacia internacional e a cooperação entre
os povos».
Isso sucedeu enquanto a sua administração preparava já em segredo, através da secretaria de Estado Hillary Clinton, a guerra que 2 anos mais tarde destruiria o Estado líbio, guerra que se estenderia depois a Síria e Iraque através dos grupos terroristas, instrumentos da estratégia dos Estados Unidos e da NATO. Donald Trump, pelo contrário, foi demonizado de imediato, inclusivamente antes de entrar na Casa Branca. Acusam-no de usurpar o posto destinado a Hillary Clinton, graças a uma operação maléfica ordenada pelo presidente russo Vladimir Putin.
As “provas” vêm da CIA, inquestionavelmente perita em matéria de infiltrações e golpes de Estado. Basta recordar as suas operações destinadas a provocar guerras contra Vietnam, Camboja, Líbano, Somália, Iraque, Jugoslávia, Afeganistão, Líbia y Síria; ou os seus golpes de Estado em Indonésia, Salvador, Brasil, Chile, Argentina e Grécia. E as suas consequências: milhões de personas encarceradas, torturadas e assassinadas; milhões de pessoas deslocadas das suas terras, convertidas em refugiados, vítimas de uma verdadeira conversão em escravos.
E sobretudo as mulheres, adolescentes e meninas submetidas a escravatura, violadas, obrigadas a exercer a prostituição. Haveria que recordar tudo isso a quem, nos Estados Unidos e na Europa, organizaram em 21 de Janeiro a Marcha das Mulheres para defender precisamente essa paridade de género conquistada em duras lutas e constantemente questionada por posições sexistas, como as que Trump expressa. Mas não é por essa razão que se aponta o dedo a Trump numa campanha sem precedente no processo de transmissão do poder na Casa Branca.
O facto é que, nesta ocasião, os perdedores se negam a reconhecer a legitimidade do presidente eleito e estão a implementar um impeachment preventivo. Donald Trump está a ser presentado como uma espécie de Manchurian Candidate que, infiltrado na Casa Branca, estaria sob o controlo de Putin, inimigo dos Estados Unidos. Os estrategas neoconservadores, artífices desta campanha, tratam desse modo de impedir uma mudança de rumo na relação dos Estados Unidos com a Rússia, que a administração Obama fez retroceder aos tempos da guerra fria.
Trump é um «trader» que, embora continue a assentar a política estado-unidense na força militar, tem intenção de abrir uma negociação com a Rússia, provavelmente para debilitar a aliança entre Moscovo e Pequim. Na Europa, os que temem que se produza uma diminuição da tensão com a Rússia são antes de mais os dirigentes da NATO, que ganharam importância graças à escalada militar da nova guerra fria, e os grupos que detêm o poder nos países do leste – principalmente na Ucrânia, na Polonia e nos países bálticos – que apostam na hostilidade anti-russa para obter maior apoio militar e económico de parte da NATO e da União Europeia.
Nesse contexto, não é possível deixar de mencionar, nas manifestações de 21 de Janeiro, as responsabilidades dos que transformaram a Europa na primeira línea de enfrentamento, inclusivamente nuclear, com a Rússia. Teríamos que sair à rua, certamente, mas não como súbditos estado-unidenses que rechaçam um presidente “mau” mas exigindo um “bom”, para nos libertarmos do que nos amarra aos Estados Unidos, país que – não importa quem seja o seu presidente – exerce a sua influência sobre a Europa através da NATO.
Teríamos que manifestar-nos, mas para sair dessa aliança belicista, para exigir a retirada do armamento nuclear que os Estados Unidos têm armazenado nos nossos países. Teríamos que manifestar-nos para ter o direito a opinar, como cidadãs e cidadãos, sobre as opções em matéria de política externa que, indissoluvelmente ligadas às opções económicas e políticas internas, determinam as nossas condições de vida e o nosso futuro.
Fonte: Il Manifesto, http://www.investigaction.net/es/el-presidente-bueno-y-el-presidente-malo/#sthash.rGRUnNBL.dpuf
aqui:http://www.odiario.info/o-presidente-bom-e-o-presidente/
Isso sucedeu enquanto a sua administração preparava já em segredo, através da secretaria de Estado Hillary Clinton, a guerra que 2 anos mais tarde destruiria o Estado líbio, guerra que se estenderia depois a Síria e Iraque através dos grupos terroristas, instrumentos da estratégia dos Estados Unidos e da NATO. Donald Trump, pelo contrário, foi demonizado de imediato, inclusivamente antes de entrar na Casa Branca. Acusam-no de usurpar o posto destinado a Hillary Clinton, graças a uma operação maléfica ordenada pelo presidente russo Vladimir Putin.
As “provas” vêm da CIA, inquestionavelmente perita em matéria de infiltrações e golpes de Estado. Basta recordar as suas operações destinadas a provocar guerras contra Vietnam, Camboja, Líbano, Somália, Iraque, Jugoslávia, Afeganistão, Líbia y Síria; ou os seus golpes de Estado em Indonésia, Salvador, Brasil, Chile, Argentina e Grécia. E as suas consequências: milhões de personas encarceradas, torturadas e assassinadas; milhões de pessoas deslocadas das suas terras, convertidas em refugiados, vítimas de uma verdadeira conversão em escravos.
E sobretudo as mulheres, adolescentes e meninas submetidas a escravatura, violadas, obrigadas a exercer a prostituição. Haveria que recordar tudo isso a quem, nos Estados Unidos e na Europa, organizaram em 21 de Janeiro a Marcha das Mulheres para defender precisamente essa paridade de género conquistada em duras lutas e constantemente questionada por posições sexistas, como as que Trump expressa. Mas não é por essa razão que se aponta o dedo a Trump numa campanha sem precedente no processo de transmissão do poder na Casa Branca.
O facto é que, nesta ocasião, os perdedores se negam a reconhecer a legitimidade do presidente eleito e estão a implementar um impeachment preventivo. Donald Trump está a ser presentado como uma espécie de Manchurian Candidate que, infiltrado na Casa Branca, estaria sob o controlo de Putin, inimigo dos Estados Unidos. Os estrategas neoconservadores, artífices desta campanha, tratam desse modo de impedir uma mudança de rumo na relação dos Estados Unidos com a Rússia, que a administração Obama fez retroceder aos tempos da guerra fria.
Trump é um «trader» que, embora continue a assentar a política estado-unidense na força militar, tem intenção de abrir uma negociação com a Rússia, provavelmente para debilitar a aliança entre Moscovo e Pequim. Na Europa, os que temem que se produza uma diminuição da tensão com a Rússia são antes de mais os dirigentes da NATO, que ganharam importância graças à escalada militar da nova guerra fria, e os grupos que detêm o poder nos países do leste – principalmente na Ucrânia, na Polonia e nos países bálticos – que apostam na hostilidade anti-russa para obter maior apoio militar e económico de parte da NATO e da União Europeia.
Nesse contexto, não é possível deixar de mencionar, nas manifestações de 21 de Janeiro, as responsabilidades dos que transformaram a Europa na primeira línea de enfrentamento, inclusivamente nuclear, com a Rússia. Teríamos que sair à rua, certamente, mas não como súbditos estado-unidenses que rechaçam um presidente “mau” mas exigindo um “bom”, para nos libertarmos do que nos amarra aos Estados Unidos, país que – não importa quem seja o seu presidente – exerce a sua influência sobre a Europa através da NATO.
Teríamos que manifestar-nos, mas para sair dessa aliança belicista, para exigir a retirada do armamento nuclear que os Estados Unidos têm armazenado nos nossos países. Teríamos que manifestar-nos para ter o direito a opinar, como cidadãs e cidadãos, sobre as opções em matéria de política externa que, indissoluvelmente ligadas às opções económicas e políticas internas, determinam as nossas condições de vida e o nosso futuro.
Fonte: Il Manifesto, http://www.investigaction.net/es/el-presidente-bueno-y-el-presidente-malo/#sthash.rGRUnNBL.dpuf
aqui:http://www.odiario.info/o-presidente-bom-e-o-presidente/
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017
Quatro milhões de salários mínimos
por José Goulão
Atribui-se a Adolph Hitler a expressão «quando ouço falar em cultura puxo logo da pistola». Verdade ou lenda, o que sabemos, sem rasto de dúvida, é que o conceito condiz com a pessoa e sua prática.
Créditos / Agência Lusa
Os governos dos países da NATO não dirão, palavra por palavra, que quando se fala em verbas para a aliança guerreira espezinham logo a cultura, sem dó nem piedade. Porém, nesta sociedade em que os números valem tantas vezes mais que as palavras, a crueza rigorosa das aritméticas desnuda o que os pudores de eufemismos patetas tentam encobrir.
Segundo números oficiais da Aliança Atlântica e os dados do Orçamento de Estado para 2017, as «despesas com a defesa» em Portugal, isto é, os gastos exigidos pela presença na NATO, elevam-se a cerca de 2550 milhões de euros no ano em curso. Alvejados, sem defesa, pela permanente guerra de números e estatísticas com que se pretende fazer a política moderna, os portugueses ficam sem saber, assim a seco, o que significa tal valor, se é muito ou pouco, justificado ou injustificado.
Trocados por miúdos, os 2550 milhões que os portugueses tiram dos seus bolsos para que a aliança continue a sangrar o Afeganistão, o Iraque e a Síria, apanhe os cacos da destruição que semeou na Líbia e sustente as estruturas nazis que implantou na Ucrânia representam um contributo individual forçado de 230 euros anuais. Significam ainda que o país deita fora sete milhões de euros por dia por pertencer à NATO, mesmo não cumprindo as recomendações dos chefes de Washington, os quais exigem dois por cento do PIB de cada Estado membro.
Portugal fica-se por 1,4 por cento do PIB, mas antes de choverem elogios a tamanha coragem perante os estrelados generais diga-se que há outros, muitos outros, aliás, bastante mais desafiadores: a começar pelo exemplo do governo direitista espanhol, mesmo aqui ao lado, que não vai além dos 0,9 por cento do PIB. Ou pela Bélgica, onde está a sede da NATO, com 0,85%. Ou a Hungria (um por cento), a Eslováquia e a República Checa (0,94 e 1,04%, respectivamente), o Luxemburgo (0,44%), a Holanda (1,17%), a Itália (1,11%). E que dizer do gigante alemão, sempre tão exigente com os outros, com os seus recatados 1,15%?
Olhando tais números e percentagens deduz-se elementarmente que haveria por aqui umas dezenas de milhões de euros a poupar para criar emprego, alimentar o crescimento económico e até apressar a subida do salário mínimo para 600 euros, mesmo que isso incomodasse mais a UGT do que a própria NATO.
Porque, em boa verdade e seguindo a certeira frieza dos números, os tais 2550 milhões de euros com que pagamos as guerras e as ameaças que conduzem o mundo no caminho do abismo, equivalem a bastante mais de quatro milhões de salários mínimos de 600 euros.
Muitos dirão que uma coisa não tem a ver com outra, os dinheiros pertencem a sacos diferentes, blá, blá, blá… Pois, mas dinheiro é dinheiro, a questão é geri-lo e estabelecer uma maneira justa, equitativa e pacífica de o fazer circular. Dinheiro para a NATO não circula, enterra-se em sangue e engenhos de morte.
Além disso, os militares portugueses não precisaram da NATO para nada quando fizeram o libertador 25 de Abril. Pelo contrário, concretizaram-no para incómodo da dita cuja NATO, que não se poupou em conspirações enquanto as coisas não voltaram ao seu redil. Podem ter a certeza de que as Forças Armadas Portuguesas, mesmo fora da NATO, continuariam a cumprir as suas missões para com o país.
Caso se fizessem umas poupanças relativas nas tais «despesas de defesa» – que não dos portugueses – bastaria uma insignificância de um por cento do bolo, apenas 25 milhões de euros, para fazer subir o salário mínimo de 557 para 600 euros ainda este ano. Uma questão de vontade política, não é?
Porque é a esta encruzilhada que chegamos quando se encaram de frente os monstruosos 2550 milhões de euros esbanjados com a NATO. Esse valor representa, lembrando a tal frase atribuída a Hitler, quase seis vezes mais do que o dinheiro atribuído este ano à cultura; e significa uma despesa duas vezes e meia superior ao investimento do Estado Português, imaginem, na agricultura, nas florestas (as que restam dos incêndios), no desenvolvimento rural e no mar precioso.
Saiba ainda o leitor que o Estado Português deita ao lixo com a NATO uma verba que excede em 200 milhões de euros os investimentos em sectores de ponta como a ciência, a tecnologia e o ensino superior. A dotação atlantista supera em 400 milhões a verba atribuída ao Ministério da Economia; e eleva-se a mais de mil milhões de euros (1516 contra os tais 2550 milhões) o desnível do tratamento entre a defesa do ambiente em Portugal e o financiamento das guerras além-fronteiras.
Sendo que as despesas com a NATO não cobrem os gastos em «missões» especiais, no fundo sempre ao serviço dos mesmos, como esse estranhíssimo regresso de tropas portuguesas a África, no caso à República Centro Africana; nem terá sido desse bolo que saíram os inusitados 200 mil euros com que o ministro da Defesa de um país sugado, fiscalizado, perseguido a partir de Bruxelas e a lutar contra a crise e a austeridade, Portugal, decidiu auxiliar o aparelho militar nazi que manda e desmanda na Ucrânia.
Tudo isto para testemunhar que, apesar dos inegáveis esforços já efectuados para aliviar um pouco os portugueses do garrote da austeridade, ainda existem montantes importantes que são de todos nós e podem ser geridos de modo bem diferente e muito mais útil – e pacífico – à comunidade.
Que tal transformar boa parte dos 2550 milhões desperdiçados com a NATO em investimento ao serviço da melhoria de vida dos portugueses?
aqui:http://www.abrilabril.pt/quatro-milhoes-de-salarios-minimos
Atribui-se a Adolph Hitler a expressão «quando ouço falar em cultura puxo logo da pistola». Verdade ou lenda, o que sabemos, sem rasto de dúvida, é que o conceito condiz com a pessoa e sua prática.
Créditos / Agência Lusa
Os governos dos países da NATO não dirão, palavra por palavra, que quando se fala em verbas para a aliança guerreira espezinham logo a cultura, sem dó nem piedade. Porém, nesta sociedade em que os números valem tantas vezes mais que as palavras, a crueza rigorosa das aritméticas desnuda o que os pudores de eufemismos patetas tentam encobrir.
Segundo números oficiais da Aliança Atlântica e os dados do Orçamento de Estado para 2017, as «despesas com a defesa» em Portugal, isto é, os gastos exigidos pela presença na NATO, elevam-se a cerca de 2550 milhões de euros no ano em curso. Alvejados, sem defesa, pela permanente guerra de números e estatísticas com que se pretende fazer a política moderna, os portugueses ficam sem saber, assim a seco, o que significa tal valor, se é muito ou pouco, justificado ou injustificado.
Trocados por miúdos, os 2550 milhões que os portugueses tiram dos seus bolsos para que a aliança continue a sangrar o Afeganistão, o Iraque e a Síria, apanhe os cacos da destruição que semeou na Líbia e sustente as estruturas nazis que implantou na Ucrânia representam um contributo individual forçado de 230 euros anuais. Significam ainda que o país deita fora sete milhões de euros por dia por pertencer à NATO, mesmo não cumprindo as recomendações dos chefes de Washington, os quais exigem dois por cento do PIB de cada Estado membro.
Portugal fica-se por 1,4 por cento do PIB, mas antes de choverem elogios a tamanha coragem perante os estrelados generais diga-se que há outros, muitos outros, aliás, bastante mais desafiadores: a começar pelo exemplo do governo direitista espanhol, mesmo aqui ao lado, que não vai além dos 0,9 por cento do PIB. Ou pela Bélgica, onde está a sede da NATO, com 0,85%. Ou a Hungria (um por cento), a Eslováquia e a República Checa (0,94 e 1,04%, respectivamente), o Luxemburgo (0,44%), a Holanda (1,17%), a Itália (1,11%). E que dizer do gigante alemão, sempre tão exigente com os outros, com os seus recatados 1,15%?
Olhando tais números e percentagens deduz-se elementarmente que haveria por aqui umas dezenas de milhões de euros a poupar para criar emprego, alimentar o crescimento económico e até apressar a subida do salário mínimo para 600 euros, mesmo que isso incomodasse mais a UGT do que a própria NATO.
Porque, em boa verdade e seguindo a certeira frieza dos números, os tais 2550 milhões de euros com que pagamos as guerras e as ameaças que conduzem o mundo no caminho do abismo, equivalem a bastante mais de quatro milhões de salários mínimos de 600 euros.
Muitos dirão que uma coisa não tem a ver com outra, os dinheiros pertencem a sacos diferentes, blá, blá, blá… Pois, mas dinheiro é dinheiro, a questão é geri-lo e estabelecer uma maneira justa, equitativa e pacífica de o fazer circular. Dinheiro para a NATO não circula, enterra-se em sangue e engenhos de morte.
Além disso, os militares portugueses não precisaram da NATO para nada quando fizeram o libertador 25 de Abril. Pelo contrário, concretizaram-no para incómodo da dita cuja NATO, que não se poupou em conspirações enquanto as coisas não voltaram ao seu redil. Podem ter a certeza de que as Forças Armadas Portuguesas, mesmo fora da NATO, continuariam a cumprir as suas missões para com o país.
Caso se fizessem umas poupanças relativas nas tais «despesas de defesa» – que não dos portugueses – bastaria uma insignificância de um por cento do bolo, apenas 25 milhões de euros, para fazer subir o salário mínimo de 557 para 600 euros ainda este ano. Uma questão de vontade política, não é?
Porque é a esta encruzilhada que chegamos quando se encaram de frente os monstruosos 2550 milhões de euros esbanjados com a NATO. Esse valor representa, lembrando a tal frase atribuída a Hitler, quase seis vezes mais do que o dinheiro atribuído este ano à cultura; e significa uma despesa duas vezes e meia superior ao investimento do Estado Português, imaginem, na agricultura, nas florestas (as que restam dos incêndios), no desenvolvimento rural e no mar precioso.
Saiba ainda o leitor que o Estado Português deita ao lixo com a NATO uma verba que excede em 200 milhões de euros os investimentos em sectores de ponta como a ciência, a tecnologia e o ensino superior. A dotação atlantista supera em 400 milhões a verba atribuída ao Ministério da Economia; e eleva-se a mais de mil milhões de euros (1516 contra os tais 2550 milhões) o desnível do tratamento entre a defesa do ambiente em Portugal e o financiamento das guerras além-fronteiras.
Sendo que as despesas com a NATO não cobrem os gastos em «missões» especiais, no fundo sempre ao serviço dos mesmos, como esse estranhíssimo regresso de tropas portuguesas a África, no caso à República Centro Africana; nem terá sido desse bolo que saíram os inusitados 200 mil euros com que o ministro da Defesa de um país sugado, fiscalizado, perseguido a partir de Bruxelas e a lutar contra a crise e a austeridade, Portugal, decidiu auxiliar o aparelho militar nazi que manda e desmanda na Ucrânia.
Tudo isto para testemunhar que, apesar dos inegáveis esforços já efectuados para aliviar um pouco os portugueses do garrote da austeridade, ainda existem montantes importantes que são de todos nós e podem ser geridos de modo bem diferente e muito mais útil – e pacífico – à comunidade.
Que tal transformar boa parte dos 2550 milhões desperdiçados com a NATO em investimento ao serviço da melhoria de vida dos portugueses?
aqui:http://www.abrilabril.pt/quatro-milhoes-de-salarios-minimos
domingo, 22 de janeiro de 2017
A questão não é Donald Trump – somos nós
por John Pilger
E acrescenta: "Instamos organizadores e oradores locais a evitarem utilizar nomes de políticos ou a adoptar "anti" linguagem como seu foco no evento do Writers Resist. É importante assegurar que organizações sem fins lucrativos, as quais estão proibidas de fazer campanhas políticas, se sentirão confiantes em participar e patrocinar estes eventos".
Portanto, o protesto real tem de ser evitado pois não está isento do pagamento de impostos.
Compare tal disparate com as declarações do Congresso de Escritores Americanos, efectuado no Carnegie Hall, Nova York, em 1935, e novamente dois anos depois. Foram eventos electrizantes, com escritores a discutirem como poderiam confrontar acontecimentos agourentos na Abissínia, China e Espanha. Telegramas de Thomas Mann, C Day Lewis, Upton Sinclair e Albert Einstein foram lidos ali, reflectindo o temor de que enormes forças haviam agora sido desencadeadas e que se tornara impossível discutir arte e literatura sem política ou, na verdade, acção política directa.
"Um escritor", afirmou a jornalista Martha Gellhorn no segundo congresso, "deve ser agora um homem de acção... Um homem que deu um ano de vida a greves siderúrgicas, ou aos desempregados, ou aos problemas do preconceito racial, não perdeu ou desperdiçou tempo. Ele é um homem que sabia a que pertencia. Se você pudesse sobreviver a tal acção, o que você teria a dizer posteriormente acerca da mesma é a verdade, necessária e real, e perdurará".
Suas palavras ressoam em meio a excitação e violência da era Obama e do silêncio daqueles que colaboram com seus enganos.
Que a ameaça do poder predatório – desencadeado desde muito antes da ascensão de Trump – tem sido aceite por escritores, muitos deles privilegiados e celebrados, e por aqueles que guardam os portões da crítica literária e da cultura, incluindo a cultura popular, é facto incontroverso. Não é com eles a impossibilidade de escrever e promover literatura destituída de política. Não é com eles a responsabilidade de falar alto, sem se preocupar com quem ocupa a Casa Branca.
Hoje, o falso simbolismo é tudo. A "identidade" é tudo". Em 2016, Hillary Clinton estigmatizou milhões de eleitores como "um cesto de miseráveis, racistas, sexistas, homofóbicos, xenófobos, islamófobos – o que quiser". O seu abuso foi apresentado num comício LGBT como parte da sua campanha cínica para persuadir minorias através do abuso da maioria da classe trabalhadora, principalmente branca. Divida e conquiste, chama-se a isto; ou política de identidade na qual raça e género ocultam classe e permitem que se trave a guerra de classe. Trump entendeu isto.
"Quando a verdade é substituída pelo silêncio", disse o poeta dissidente soviético Yevtushenko, "o silêncio é uma mentira".
Não se trata de um fenómeno americano. Há poucos anos, Terry Eagleton, então professor de literatura inglesa na Universidade de Manchester, observou que "pela primeira vez em dois séculos não há qualquer poeta, dramaturgo ou romancista britânico apto a questionar os fundamentos do modo de vida ocidental".
Nenhum Shelley fala aos pobres, nenhum Blake de sonhos utópicos, nenhum Byron amaldiçoa a corrupção da classe dominante, nenhum Thomas Carlyle e John Ruskin revela o desastre moral do capitalismo. William Morris, Oscar Wilde, HG Wells, George Bernard Shaw não têm equivalente hoje. Harold Pinter foi o último a levantar a sua voz. Dentre as insistentes vozes de hoje do consumismo-feminismo, nenhuma ecoa Virginia Woolf, a qual descrevia "as artes de dominar outro povo... de controlar, de matar, de adquirir terra e capital".
Há algo tanto de venal como de profundamente estúpido acerca de escritores famosos quando se aventuram fora do seu mundo mimado e abraçam uma "causa". No Guardian de 10 de Dezembro havia uma foto nebulosa de Barack Obama a olhar para os céus e as palavras "Amazing Grace" [1] e "Farewell the Chief".
A bajulação jorrava como uma torrente de tagarelice poluída página após página. "Ele foi uma figura vulnerável em muitos aspectos... Mas o encanto. O encanto amplo: na maneira e na forma, no argumento e no intelecto, com humor e frescura... [Ele] é um resplandecente tributo do que foi e do que pode ser outra vez... Parece pronto para continuar o combate e permanece um campeão formidável a ter do nosso lado... ... O encanto... os quase surreais níveis de encanto..."
Misturei estas citações. Há outras ainda mais hagiográficas e sem atenuantes. O apologista chefe do Guardian, Gary Younge, sempre foi cuidadoso em atenuar, ao dizer que o seu herói "podia ter feito mais": oh, mas houve as "soluções calmas, ponderadas e consensuais..."
Nenhum deles, contudo, pôde ultrapassar o escritor americano Ta-Nehisi Coates, o beneficiário de uma "licença de génio" no valor de US$625 mil concedida por uma fundação liberal. Num ensaio interminável para The Atlantic, intitulado "Meu Presidente era Negro", Coates deu novo significado a prostração. O "capítulo" final, intitulado "Quando você sai, leva tudo de mim consigo", um verso de uma canção de Marvin Gaye, descreve a visão dos Obamas "a saírem da limusine, a elevarem-se acima do medo, a sorrirem, a acenarem, a desafiarem o desespero, a desafiarem a história, a desafiarem a gravidade". A Ascensão, nada menos.
Um dos traços persistentes na vida política americana é um extremismo fanático que se aproxima do fascismo. Isto manifestou-se e reforçou-se durante os dois mandatos de Barack Obama. "Acredito no excepcionalismo americano com toda a fibra do meu ser", disse Obama, o qual expandiu o passatempo militar favorito da América, bombardeamento e esquadrões da morte ("operações especiais"), como nenhum outro presidente havia feito desde a Guerra Fria.
OBAMA: 71 BOMBAS POR DIA EM 2016
Segundo inquérito do Council on Foreign Relations, só em 2016 Obama despejou 26.171 bombas. Isto equivale a 71 bombas por dia. Ele bombardeou os povos mais pobres da terra, no Afeganistão, Líbia, Iémen, Somália, Síria, Iraque, Paquistão.
Toda terça-feira – como informou o New York Times – ele seleccionava pessoalmente aqueles que seriam assassinados por mísseis hellfire disparados de drones. Foram atacadas festas de casamento, funerais, pastores, bem como aqueles que tentavam recolher restos dos corpos classificados como "alvos terroristas". Um importante senador republicano, Lindsey Graham, estimou, aprovadoramente, que os drones de Obama mataram 4.700 pessoas. "Por vezes atingem-se pessoas inocentes e odeio isso", disse ele, "mas removemos alguns altos membros da Al Qaeda".
Tal como no fascismo dos anos 1930, grandes mentiras são entregues com a precisão de um metrónomo: graças aos media omnipresentes cuja descrição agora se ajusta àquela do promotor de Nuremberg. "Antes de cada grande agressão, com algumas poucas excepções de conveniência, eles iniciavam uma campanha de imprensa calculada para enfraquecer suas vítimas e preparar psicologicamente o povo alemão... No sistema de propaganda... havia a imprensa diária e a rádio, que foram as armas mais importantes".
Tome-se a catástrofe na Líbia. Em 2011, Obama disse que o presidente líbio Muammar Gaddafi estava a planear "genocídio" contra o seu próprio povo. "Nós sabemos... que se esperássemos mais um dia, Bengazi, uma cidade da dimensão de Charlotte, poderia sofrer um massacre que teria repercutido por toda a região e manchado a consciência do mundo".
Era a conhecida mentira de milícias islamistas a enfrentarem a derrota diante das forças do governo líbio. Isto tornou-se a narrativa dos media. E a NATO – dirigida por Obama e Hillary Clinton – lançou 9.700 "incursões de ataque" contra a Líbia, das quais mais de um terço foram destinadas a alvos civis. Foram utilizadas ogivas com urânio; as cidades de Misurata e Sirte foram bombardeamentos em tapete. A Cruz Vermelha identificou sepulturas em massa e a UNICEF informou que "a maior parte [das crianças mortas] tinha menos de 10 anos de idade".
Sob Obama, os EUA estenderam operações secretas de "forças especiais" a 138 países, ou 70 por cento da população mundial. O primeiro presidente afro-americano lançou o equivalente a uma invasão em plena escala da África. Recordando a Partilha da África (Scramble for Africa) [2] no fim do século XIX, o US African Command (Africom) construiu uma rede de suplicantes entre regimes africanos colaborantes ansiosos por subornos e armamentos americanos. A doutrina "soldado para soldado" do Africom está incorporado nos oficiais estado-unidenses a todo nível de comando, desde o general até o primeiro-sargento. Só estão a faltar capacetes de cortiça.
É como se a magnífica história da libertação da África, desde Patrice Lumumba a Nelson Mandela, fosse remetida ao esquecimento por um novo mestre da elite negra colonial cuja "missão histórica", advertida por Frantz Fanon há meio século atrás, fosse a promoção de "uma capitalismo desenfreado embora camuflado".
Foi Obama quem, em 2011, anunciou o que se tornou conhecido como o "eixo na Ásia" ("pivot to Asia"), pelo qual quase dois terços das forças navais dos EUA seriam transferidas para a Ásia-Pacífico para "confrontar a China", de acordo com as palavras do seu secretário da Defesa. Não havia ameaça da China; todo o empreendimento era desnecessário. Foi uma provocação extrema para manter feliz o Pentágono e suas altas patentes.
Em 2014, a administração de Obama supervisionou e pagou por um golpe fascista na Ucrânia contra o governo eleito democraticamente, ameaçando a Rússia na fronteira ocidental através da qual Hitler invadira a União Soviética, com uma perda de 27 milhões de vida. Foi Obama que colocou mísseis na Europa do Leste apontados para a Rússia; e foi o vencedor do Prémio Nobel da Paz que aumentou as despesas com ogivas nucleares a um nível mais alto do que o de qualquer outra administração desde a guerra fria – tendo prometido, num discurso emotivo em Praga, "ajudar o mundo a livrar-se de armas nucleares".
Obama, o jurista constitucionalista, processou mais denunciantes do que qualquer outro presidente na história, muito embora a Constituição dos EUA os proteja. Ele declarou Chelsea Manning culpada antes do fim de um julgamento que foi uma farsa. Ele recusou-se a perdoar Manning [3] , que sofreu anos de tratamento desumano o qual a ONU afirma equivaler a tortura. Ele insistiu num caso inteiramente falso contra Julian Assange. Ele prometeu encerrar o campo de concentração de Guantanamo e não o fez.
Depois do desastre de relações públicas de George W. Bush, Obama, o fluente operador de Chicago via Harvard, foi encarregado de restaurar o que ele chama de "liderança" por todo o mundo. A decisão do comité do Prémio Nobel fazia parte disto: a espécie de enjoativo racismo reverso que beatificou o homem por nenhuma razão senão facto de que era atraente para sensibilidades liberais e, naturalmente, para o poder americano, ainda que não para as crianças que ele matava em países empobrecidos, principalmente muçulmanos.
Este é o Apelo de Obama. É o contrário de um apito de cão: inaudível para a maior parte das pessoas, mas irresistível para os embrutecidos e estúpidos, especialmente "cérebros liberais conservados no formaldeído da política de identidade", como disse Luciana Bohne. "Quando Obama entra numa sala", emocionou-se George Clooney, "você quer segui-lo para qualquer lugar, seja onde for".
William I. Robinson, professor na Universidade da Califórnia, e um de um não contaminado grupo de pensadores estratégicos americanos que conservou sua independência durante os anos do apito para cães, desde de o 11/Set, escreveu na semana passada:
"O presidente Barack Obama... pode ter feito mais do que ninguém para assegurar a vitória de [Donald] Trump. Se bem que a eleição de Trump tenha disparado uma rápida expansão de correntes fascistas na sociedade civil dos EUA, uma saída fascista para o sistema político é longe de inevitável... Mas esse combate requer clareza de como actuar diante de um precipício perigoso. As sementes do fascismo do século XXI foram plantadas, fertilizadas e regadas pela administração Obama e a elite liberal politicamente em bancarrota".
Robinson destaca que "tanto nas suas variantes do século XX ou no emergente século XXI o fascismo é, acima de tudo, uma resposta à profunda crise estrutural do capitalismo, tal como na década de 1930 e naquela que começou com o colapso financeiro de 2008... Há aqui uma linha quase recta desde Obama até Trump... A recusa da elite liberal a desafiar a voracidade do capital transnacional e sua marca da política de identidade serviu para eclipsar a linguagem das classes trabalhadoras e populares... empurrando trabalhadores brancos para dentro de uma "identidade" de nacionalismo branco e ajudando os neo-fascistas a organizá-los".
A terra preparada para a sementeira é a República de Weimar de Obama, uma paisagem de pobreza endémica, polícia militarizada e prisões bárbaras: a consequência de um extremismo "de mercado" o qual, sob a sua presidência, acelerou a transferência de US$14 milhões de milhões (trillion) de dinheiro público para empresas criminosas na Wall Street.
Talvez o seu maior "legado" seja a cooptação e desorientação de qualque oposição real. A especiosa "revolução" de Bernie Sanders não tem aplicação. A propaganda é o seu triunfo.
As mentiras acerca da Rússia – em cujas eleições os EUA intervieram abertamente – provocaram gargalhadas entre os mais importantes jornalistas do mundo. No país com a imprensa constitucionalmente a mais livre do mundo, o jornalismo livre agora existe só em honrosas excepções.
A obsessão com Trump é um encobrimento para muitos daqueles que se consideram "esquerda/liberais", como que a pedir decência política. Eles não são "esquerda", nem tão pouco especialmente "liberais". A maior parte das agressões da América ao resto da humanidade vieram das chamadas administrações liberais-democráticas – tal como a de Obama.
O espectro político da América estende-se do mítico central até à direita lunar. A "esquerda" são renegados sem lar que Martha Gellhorn descreveu como "uma fraternidade rara e absolutamente admirável". Ela excluiu aqueles que confundem política com uma fixação acerca dos seus umbigos.
Enquanto eles "curam" e "movem-se em frente", será que os que fazem campanhas do Writers Resist e outros anti-trumpistas reflectem acerca disto? Mais especificamente: quando será que um movimento genuíno de oposição se levanta? Revoltado, eloquente, um por todos e todos por um. Até que a política real retorno às vidas do povo, o inimigo não é Trump, somos nós próprios.
17/Janeiro/2017
[2] The Scramble for Africa: é uma história da África escrita por Thomas Pakenham
[3] Em 19 de Janeiro, véspera do fim do seu mandato, Obama anunciou a comutação de parte da sentença de 45 anos de prisão de Chelsea Manning. No entanto, não lhe concedeu o perdão presidencial.
O original encontra-se em newmatilda.com/...
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
sábado, 21 de janeiro de 2017
A confissão do criminoso John Kerry
por Thierry Meyssan
A guerra contra a Síria é a primeira a ser conduzida durante mais de seis anos na era digital. Inúmeros documentos que deveriam ter ficado como classificados, durante longo tempo, foram já publicados. Claro, foram-no em países diferentes de tal modo que a opinião pública internacional não tomou consciência disso, mas permitem, desde já, reconstituir os acontecimentos. A publicação de uma gravação de declarações feitas por John Kerry em privado, em Setembro último, revela a política do Secretário de Estado e obriga todos os observadores —e aqui, nós incluídos— a rever as suas análises precedentes.
A difusão pelo The Last Refuge da gravação completa do encontro entre o Secretário de Estado John Kerry e membros da Coligação Nacional (a 22 de Setembro de 2016, na delegação dos Países Baixos nas Nações Unidas) põe em causa aquilo que nós acreditávamos ter percebido quanto à posição dos EUA face à Síria.
Em primeiro lugar, pensávamos que se Washington tinha lançado a operação dita «Primavera Árabe» para derrubar os regimes árabes laicos em favor dos Irmãos Muçulmanos, tinha permitido que os seus aliados empreendessem, sozinhos, a Segunda Guerra contra a Síria a partir de Julho de 2012. E que, com estes perseguindo os seus próprios fins (recolonização para a França e o Reino Unido, conquista do gaz para o Catar, expansão do wahhabismo, e vingança pela guerra civil libanesa, para a Arábia Saudita, anexação do Norte do país para a Turquia, segundo o modelo cipriota, etc.), o objetivo inicial teria sido abandonado. Ora, John Kerry afirma nesta gravação que Washington jamais parou de tentar derrubar a República Árabe Síria, o que implica que ele controlou cada etapa do trabalho dos seus aliados. De facto, durante os quatro últimos anos, os jiadistas foram comandados, armados e coordenados pelo Allied LandCom (Comando das Forças Terrestres) da OTAN sediado em Esmirna (Turquia).
Em segundo lugar, John Kerry confirma nela que Washington não podia ir mais longe por causa do Direito Internacional e da posição da Rússia. Entenda-mo-nos: os Estados Unidos não pararam de ultrapassar o seu direito. Eles destruíram o essencial das infra-estruturas petrolíferas e de gaz do país, sob o pretexto de combater os jiadistas (o que está conforme ao Direito Internacional), mas sem para tal terem sido convidados pelo Presidente Assad (o que viola o Direito Internacional). Pelo contrário, eles não ousaram colocar as suas tropas no terreno e combater abertamente a República, tal como o fizeram na Coreia, no Vietname (Vietnã-br) e no Iraque. Para isso escolheram colocar os seus aliados na primeira linha(leadership from behind –- liderança pelos bastidores) e apoiar, sem grande discrição, mercenários, como na Nicarágua, com o risco de serem condenados pelo Tribunal Internacional de Justiça (o Tribunal interno da ONU). Washington não quer envolver-se numa guerra contra a Rússia. E esta, que não se havia oposto à destruição da Jugoslávia e da Líbia, levantou-se e empurrou a linha que não devia ser cruzada. Moscovo está à altura de defender a Lei pelo uso da força, se Washington se enfiar abertamente numa nova guerra de conquista.
Em terceiro lugar, John Kerry confirma aí que Washington esperava uma vitória do Daesh (E.I.) sobre a República. Até aqui, —com base no relatório do general Michael Flynn, de 12 de Agosto de 2012, e do artigo de Robin Wright, no New York Times de 28 de Setembro 2013— tínhamos percebido que o Pentágono planeava criar um «Sunistão» a cavalo sobre a Síria e o Iraque afim de cortar a Rota da Seda. Ora, ele confessa que o plano ia muito mais longe que isso. Provavelmente, o Daesh devia tomar Damasco, depois ser corrido de lá por Telavive (isto é, recuar para o tal «Sunistão» que lhe havia sido atribuído). A Síria teria então sido dividida a Sul por Israel, a Leste pelo Daesh e a Norte pela Turquia.
Este ponto permite compreender porque Washington deu a impressão de não controlar nada mais, de «deixar andar» os seus aliados: com efeito, envolveu a França e o Reino Unido na guerra fazendo-lhes crer que poderiam recolonizar o Levante, quando, na realidade, tinha previsto dividir a Síria sem eles.
Em quarto, ao admitir ter «apoiado» o Daesh(EI), John Kerry reconhecia tê-lo armado, o que reduz a zero a retórica da «guerra contra o terrorismo».
Sabíamos
desde o atentado contra a mesquita de al-Askari em Samarra, a 22 de
Fevereiro de 2006, que o Daesh(inicialmente denominado «Emirado Islâmico
no Iraque») fora criado pelo Director Nacional de Inteligência dos
E.U., John Negroponte, e pelo coronel James Steele —no modelo do que
eles tinham feito nas Honduras— para por um fim à Resistência iraquiana e
instaurar uma guerra civil.
Sabíamos
desde a publicação pelo diário do PKK, Özgür Gündem, da acta da reunião
de planificação realizada em Amã, a 1 de Junho de 2014, que os Estados
Unidos tinham organizado a ofensiva conjunta do Daesh sobre Mossul e do
Governo Regional do Curdistão iraquiano sobre Kirkuk.
Agora, nós sabemos com certeza que Washington jamais parou de apoiar o Daesh.
Em quinto lugar, nós interpretáramos o conflito entre, por um lado, o clã Allen/Clinton/Feltman/Petraeus e, por outro, a Administração Obama/Kerry, como tendo a ver com o apoio ou não ao Daesh. Mas, não se tratava de nada disso. Os dois campos não tiveram qualquer escrúpulo em organizar e apoiar os mais fanáticos dos jiadistas. O seu desacordo tem a ver exclusivamente com o recurso à guerra declarada —e ao conflito com a Rússia que ela arriscava implicar— ou à escolha duma actuação secreta. Apenas Flynn —o actual conselheiro de Segurança de Trump— se opôs ao jiadismo.
Se, dentro de poucos anos os Estados Unidos se afundassem tal como antes a União Soviética, a gravação de John Kerry poderia ser usada contra ele e contra Barack Obama perante um Tribunal Internacional —mas não perante o Tribunal Penal Internacional que está hoje em dia desacreditado—. Tendo reconhecido os excertos desta conversa, que foram publicados pelo New York Times, ele não poderia contestar a autenticidade do ficheiro completo. O apoio que Kerry declara ao Daesh viola várias Resoluções das Nações Unidas e constitui uma prova da sua responsabilidade e da de Obama nos crimes contra a humanidade cometidos pela organização terrorista.
Tradução
Alva
aqui:http://www.voltairenet.org/article194949.html
A guerra contra a Síria é a primeira a ser conduzida durante mais de seis anos na era digital. Inúmeros documentos que deveriam ter ficado como classificados, durante longo tempo, foram já publicados. Claro, foram-no em países diferentes de tal modo que a opinião pública internacional não tomou consciência disso, mas permitem, desde já, reconstituir os acontecimentos. A publicação de uma gravação de declarações feitas por John Kerry em privado, em Setembro último, revela a política do Secretário de Estado e obriga todos os observadores —e aqui, nós incluídos— a rever as suas análises precedentes.
A difusão pelo The Last Refuge da gravação completa do encontro entre o Secretário de Estado John Kerry e membros da Coligação Nacional (a 22 de Setembro de 2016, na delegação dos Países Baixos nas Nações Unidas) põe em causa aquilo que nós acreditávamos ter percebido quanto à posição dos EUA face à Síria.
Em primeiro lugar, pensávamos que se Washington tinha lançado a operação dita «Primavera Árabe» para derrubar os regimes árabes laicos em favor dos Irmãos Muçulmanos, tinha permitido que os seus aliados empreendessem, sozinhos, a Segunda Guerra contra a Síria a partir de Julho de 2012. E que, com estes perseguindo os seus próprios fins (recolonização para a França e o Reino Unido, conquista do gaz para o Catar, expansão do wahhabismo, e vingança pela guerra civil libanesa, para a Arábia Saudita, anexação do Norte do país para a Turquia, segundo o modelo cipriota, etc.), o objetivo inicial teria sido abandonado. Ora, John Kerry afirma nesta gravação que Washington jamais parou de tentar derrubar a República Árabe Síria, o que implica que ele controlou cada etapa do trabalho dos seus aliados. De facto, durante os quatro últimos anos, os jiadistas foram comandados, armados e coordenados pelo Allied LandCom (Comando das Forças Terrestres) da OTAN sediado em Esmirna (Turquia).
Em segundo lugar, John Kerry confirma nela que Washington não podia ir mais longe por causa do Direito Internacional e da posição da Rússia. Entenda-mo-nos: os Estados Unidos não pararam de ultrapassar o seu direito. Eles destruíram o essencial das infra-estruturas petrolíferas e de gaz do país, sob o pretexto de combater os jiadistas (o que está conforme ao Direito Internacional), mas sem para tal terem sido convidados pelo Presidente Assad (o que viola o Direito Internacional). Pelo contrário, eles não ousaram colocar as suas tropas no terreno e combater abertamente a República, tal como o fizeram na Coreia, no Vietname (Vietnã-br) e no Iraque. Para isso escolheram colocar os seus aliados na primeira linha(leadership from behind –- liderança pelos bastidores) e apoiar, sem grande discrição, mercenários, como na Nicarágua, com o risco de serem condenados pelo Tribunal Internacional de Justiça (o Tribunal interno da ONU). Washington não quer envolver-se numa guerra contra a Rússia. E esta, que não se havia oposto à destruição da Jugoslávia e da Líbia, levantou-se e empurrou a linha que não devia ser cruzada. Moscovo está à altura de defender a Lei pelo uso da força, se Washington se enfiar abertamente numa nova guerra de conquista.
Em terceiro lugar, John Kerry confirma aí que Washington esperava uma vitória do Daesh (E.I.) sobre a República. Até aqui, —com base no relatório do general Michael Flynn, de 12 de Agosto de 2012, e do artigo de Robin Wright, no New York Times de 28 de Setembro 2013— tínhamos percebido que o Pentágono planeava criar um «Sunistão» a cavalo sobre a Síria e o Iraque afim de cortar a Rota da Seda. Ora, ele confessa que o plano ia muito mais longe que isso. Provavelmente, o Daesh devia tomar Damasco, depois ser corrido de lá por Telavive (isto é, recuar para o tal «Sunistão» que lhe havia sido atribuído). A Síria teria então sido dividida a Sul por Israel, a Leste pelo Daesh e a Norte pela Turquia.
Este ponto permite compreender porque Washington deu a impressão de não controlar nada mais, de «deixar andar» os seus aliados: com efeito, envolveu a França e o Reino Unido na guerra fazendo-lhes crer que poderiam recolonizar o Levante, quando, na realidade, tinha previsto dividir a Síria sem eles.
Em quarto, ao admitir ter «apoiado» o Daesh(EI), John Kerry reconhecia tê-lo armado, o que reduz a zero a retórica da «guerra contra o terrorismo».
Em quinto lugar, nós interpretáramos o conflito entre, por um lado, o clã Allen/Clinton/Feltman/Petraeus e, por outro, a Administração Obama/Kerry, como tendo a ver com o apoio ou não ao Daesh. Mas, não se tratava de nada disso. Os dois campos não tiveram qualquer escrúpulo em organizar e apoiar os mais fanáticos dos jiadistas. O seu desacordo tem a ver exclusivamente com o recurso à guerra declarada —e ao conflito com a Rússia que ela arriscava implicar— ou à escolha duma actuação secreta. Apenas Flynn —o actual conselheiro de Segurança de Trump— se opôs ao jiadismo.
Se, dentro de poucos anos os Estados Unidos se afundassem tal como antes a União Soviética, a gravação de John Kerry poderia ser usada contra ele e contra Barack Obama perante um Tribunal Internacional —mas não perante o Tribunal Penal Internacional que está hoje em dia desacreditado—. Tendo reconhecido os excertos desta conversa, que foram publicados pelo New York Times, ele não poderia contestar a autenticidade do ficheiro completo. O apoio que Kerry declara ao Daesh viola várias Resoluções das Nações Unidas e constitui uma prova da sua responsabilidade e da de Obama nos crimes contra a humanidade cometidos pela organização terrorista.
Tradução
Alva
aqui:http://www.voltairenet.org/article194949.html
terça-feira, 17 de janeiro de 2017
Marionetas russas
por Serge Halimi
A 9 de Fevereiro de 1950, no auge da Guerra Fria, um senador republicano ainda desconhecido exclama o seguinte: «Tenho nas mãos a lista de duzentas e cinquenta pessoas que o secretário de Estado sabe serem membros do Partido Comunista e que, no entanto, determinam a política do Departamento de Estado». Joseph McCarthy acabava de entrar na história dos Estados Unidos pela porta da infâmia. A lista não existia, mas a vaga de histeria anti-comunista e de purgas que se seguiu foi bem real. E destruiu a vida de milhares de norte-americanos.
Em 2017, parece que está em causa nada menos do que a lealdade patriótica do próximo presidente dos Estados Unidos. Com o seu executivo de militares e multimilionários, há muitas razões para temer a sua entrada em funções. Contudo, o Partido Democrata e muitos meios de comunicação social ocidentais parecem obcecados com a ideia extravagante de que Donald Trump seria a «marioneta» do Kremlin [1]. E que ele deveria a eleição a um acto de pirataria de dados informáticos orquestrado pela Rússia. Já passou muito tempo desde a paranóia macartista, mas o Washington Post acaba de recuperar esta história mostrando-se inquieto com a existência de «mais de duzentos sítios que, voluntariamente ou não, publicam a propaganda russa ou a reproduzem» (24 de Novembro de 2016).
Sopram maus ventos sobre o Ocidente. Cada eleição, ou quase, é apreciada através do prisma da Rússia. Quer se trate de Trump nos Estados Unidos, de Jeremy Corbyn no Reino Unido, ou de candidatos tão diferentes como Jean-Luc Mélenchon, François Fillon ou Marine Le Pen em França, basta duvidar das medidas tomadas contra a Rússia, ou das conspirações atribuídas a Moscovo pela Central Intelligence Agency (CIA) – uma instituição que todos sabem ser infalível e irrepreensível –, para se ser suspeito de servir os desígnios do Kremlin. Num clima como este, mal se ousa imaginar a torrente de indignação que teriam suscitado a espionagem pela Rússia, em vez dos Estados Unidos, do telefone de Angela Merkel, ou a entrega pela Google a Moscovo, em vez da Agência Nacional de Segurança Americana (NSA), de milhares de milhões de dados privados recolhidos na Internet. Sem avaliar bem toda a ironia das suas palavras, Barack Obama ainda assim ameaçou a Rússia nestes termos: «Eles têm de compreender que nós também lhes podemos fazer aquilo que eles nos fazem a nós» [2].
Vladimir Putin não ignora que Washington pode inflectir a política de um outro Estado. Na Primavera de 1996, um presidente russo doente e alcoólico, artesão (corrupto) do caos social no seu país, de facto só sobreviveu a uma impopularidade descomunal graças ao apoio declarado, político e financeiro, das capitais ocidentais. E a um providencial enchimento das urnas. Boris Ieltsin, o menino bonito dos democratas de Washington, Berlim e Paris (apesar de ter feito disparos de canhão contra o Parlamento russo, provocando a morte de centenas de pessoas), foi portanto reeleito. A 31 de Dezembro de 1999, Ieltsin decidiu transmitir todos os seus poderes ao seu fiel primeiro-ministro, o delicioso Vladimir Putin…
sexta-feira 6 de Janeiro de 2017
[2] Conferência de imprensa de 16 de Dezembro de 2016.
aqui:http://pt.mondediplo.com/spip.php?article1151
A 9 de Fevereiro de 1950, no auge da Guerra Fria, um senador republicano ainda desconhecido exclama o seguinte: «Tenho nas mãos a lista de duzentas e cinquenta pessoas que o secretário de Estado sabe serem membros do Partido Comunista e que, no entanto, determinam a política do Departamento de Estado». Joseph McCarthy acabava de entrar na história dos Estados Unidos pela porta da infâmia. A lista não existia, mas a vaga de histeria anti-comunista e de purgas que se seguiu foi bem real. E destruiu a vida de milhares de norte-americanos.
Em 2017, parece que está em causa nada menos do que a lealdade patriótica do próximo presidente dos Estados Unidos. Com o seu executivo de militares e multimilionários, há muitas razões para temer a sua entrada em funções. Contudo, o Partido Democrata e muitos meios de comunicação social ocidentais parecem obcecados com a ideia extravagante de que Donald Trump seria a «marioneta» do Kremlin [1]. E que ele deveria a eleição a um acto de pirataria de dados informáticos orquestrado pela Rússia. Já passou muito tempo desde a paranóia macartista, mas o Washington Post acaba de recuperar esta história mostrando-se inquieto com a existência de «mais de duzentos sítios que, voluntariamente ou não, publicam a propaganda russa ou a reproduzem» (24 de Novembro de 2016).
Sopram maus ventos sobre o Ocidente. Cada eleição, ou quase, é apreciada através do prisma da Rússia. Quer se trate de Trump nos Estados Unidos, de Jeremy Corbyn no Reino Unido, ou de candidatos tão diferentes como Jean-Luc Mélenchon, François Fillon ou Marine Le Pen em França, basta duvidar das medidas tomadas contra a Rússia, ou das conspirações atribuídas a Moscovo pela Central Intelligence Agency (CIA) – uma instituição que todos sabem ser infalível e irrepreensível –, para se ser suspeito de servir os desígnios do Kremlin. Num clima como este, mal se ousa imaginar a torrente de indignação que teriam suscitado a espionagem pela Rússia, em vez dos Estados Unidos, do telefone de Angela Merkel, ou a entrega pela Google a Moscovo, em vez da Agência Nacional de Segurança Americana (NSA), de milhares de milhões de dados privados recolhidos na Internet. Sem avaliar bem toda a ironia das suas palavras, Barack Obama ainda assim ameaçou a Rússia nestes termos: «Eles têm de compreender que nós também lhes podemos fazer aquilo que eles nos fazem a nós» [2].
Vladimir Putin não ignora que Washington pode inflectir a política de um outro Estado. Na Primavera de 1996, um presidente russo doente e alcoólico, artesão (corrupto) do caos social no seu país, de facto só sobreviveu a uma impopularidade descomunal graças ao apoio declarado, político e financeiro, das capitais ocidentais. E a um providencial enchimento das urnas. Boris Ieltsin, o menino bonito dos democratas de Washington, Berlim e Paris (apesar de ter feito disparos de canhão contra o Parlamento russo, provocando a morte de centenas de pessoas), foi portanto reeleito. A 31 de Dezembro de 1999, Ieltsin decidiu transmitir todos os seus poderes ao seu fiel primeiro-ministro, o delicioso Vladimir Putin…
sexta-feira 6 de Janeiro de 2017
Notas
[1] Segundo a expressão de Hillary Clinton, num debate televisivo com Donald Trump, a 19 de Outubro de 2016.[2] Conferência de imprensa de 16 de Dezembro de 2016.
aqui:http://pt.mondediplo.com/spip.php?article1151
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