O Hudson Institute organizou, em Washington, a 23 de
Outubro de 2017, um debate intitulado «Combater o extremismo violento :
o Catar, o Irão e os Irmãos Muçulmanos».
O Hudson Institute é um organismo de previsão criado pelo futurologo
Herman Kahn. Ele reúne muitos adeptos do filósofo Leo Strauss.
O público era composto por altas personalidades, membros do Congresso e da Administração, embaixadores e jornalistas.
O antigo diretor da CIA e o secretário da Defesa, Leon Panetta, e o
seu sucessor à frente da CIA, David Petraeus, deviam apontar o dedo
acusador ao Irão ao mesmo tempo apoiando o Catar e os Irmãos Muçulmanos.
Para dar boa impressão, o Instituto tinha convidado igualmente Steve
Bannon, o antigo conselheiro especial do Presidente Trump. Apresentando
os seus convidados, o director do Hudson Institute, o Embaixador Hussain
Haqqani, declarou que os dois primeiros eram «esclarecidos», enquanto o
seu contraditor encarnava as «Forças das Trevas» (sic).
Falando no fim, Steve Bannon qualificou o New York Times de «partido
de oposição», refutou o qualificativo «isolacionista» utilizado pelo
quotidiano para descrever a política externa do Presidente Trump, e
lembrou a sua acção contra o Daesh (E.I.).
O Emirado Islâmico do Iraque (futuro Daesh) foi criado durante o
mandato de George W. Bush, sob o controlo do General Petraeus, que
comandava as tropas no Iraque, afim de desviar a raiva dos Iraquianos
contra as tropas de ocupação e da a transformar em guerra civil; um
dispositivo que Leon Panetta assumiu em acção e apoiou [1].
John McCain encontrou-se com os líderes do Daesh e manteve, durante
longo tempo, estreitos laços com eles em nome da estratégia «vietnamita»
contra a Síria [2].
No conflito Arábia Saudita /Catar, Bannon felicitou-se pela mudança
de atitude da Arábia Saudita face aos jiadistas e condenou o Catar,
enquanto, oficialmente, a Administração Trump não tomou posição. O
público escutou-o atentamente em silêncio.
Bannon lançou-se então numa critica das políticas de George W. Bush e
John McCain quando o presidente da sessão lhe cortou a palavra e pôs
fim ao «debate» declarando: «Muito bem, a elite da política estrangeira
aqui em Washington que me pediu para vos dar a palavra hoje também me
pediu para encerrar este debate se você viesse com com outros assuntos
fora do que nós programamos. Por isso terminamos. Obrigado por ter
vindo.
Desde há 16 anos, inúmeros debates despertaram os peritos de política
internacional para determinar os objectivos da estratégia
norte-americana. É evidentemente mais fácil chegar a uma conclusão após
este período do que no seu início. No entanto, muito poucos o fizeram e
muitos persistem em defender teorias que tem sido desmentidas pelos
factos. Apoiando-se nas conclusões deste debate, Thierry Meyssan alerta
para a etapa seguinte prevista para os exércitos dos E.U. segundo os
seus teorizadores anteriores a este período ; uma etapa que poderá ser
em seguida posta em prática.
Abu Bakr al-Baghdadi & Ashin Wirathu
As forças que idearam e planearam a aniquilação do
«Médio-Oriente Alargado» consideravam esta região como um laboratório no
qual eles iam testar a sua nova estratégia. Se em 2001, compreendiam os
governos dos Estados Unidos, do Reino Unido e de Israel, entretanto,
elas perderam o poder político em Washington e prosseguem o seu projecto
económico-militar através de corporações multinacionais privadas.
Desenvolveram a sua estratégia usando, por um lado, os trabalhos do
Almirante Arthur Cebrowski e do seu assistente Thomas Barnett no
Pentágono, e por outro lado de Bernard Lewis e do seu assistente Samuel
Huntington no Conselho de Segurança Nacional [1].
O seu objectivo é, ao mesmo tempo, adaptar o seu domínio às evoluções
técnicas e económicas contemporâneas e de o estender aos países do
antigo bloco soviético. No passado, Washington controlava a economia
mundial através do mercado global da energia. Para o conseguir, impunha o
dólar como moeda para todos os contratos de petróleo, ameaçando com a
guerra qualquer contraventor. No entanto, este sistema não podia durar a
partir da substituição parcial pelo gás russo, iraniano, catariano —e,
em breve, sírio— do petróleo.
Reatando com o passado da origem criminosa de uma grande parte dos
colonos norte-americanos, estas forças imaginaram dominar os países
ricos extorquindo-os. Para ter acesso não apenas às fontes de energia
fóssil, mas também às matérias-primas em geral, os Estados estáveis
(ex-soviéticos incluídos) deveriam solicitar a «proteção» do exército
dos EUA e, acessoriamente, a do Reino Unido, e de Israel.
Bastava para isso dividir o mundo em dois, globalizar as economias
solventes e destruir qualquer capacidade de resistência no resto do
mundo.
Esta visão, do mundo, é radicalmente diferente das que prevaleciam no
Império Britânico e no sionismo. Esta mudança de paradigma só poderia
ser posta em prática com uma forte mobilização consecutiva a um enorme
choque psicológico, um «novo Pearl Harbor». O que veio a ser o
11-de-Setembro.
Ora, se este projecto parecia delirante e cruel, nós podemos
constatar 16 anos mais tarde que não só ele está efectivamente em vias
de concretização quanto, na mesma medida, encontra obstáculos
inesperados.
A globalização económica dos países solventes era quase total quando
um deles, a Rússia, se opôs militarmente à destruição das capacidades de
resistência na Síria, isto após a integração forçada da Ucrânia na
economia global. Washington e Londres ordenaram, pois, aos seus aliados
sanções económicas contra Moscovo. Ao fazê-lo, eles interromperam o
processo de globalização dos países solventes.
Lançando o seu projecto de «Rotas da Seda», a China investiu
fortemente em países destinados à destruição. As forças que promovem o
«novo mapa do mundo» reagiram com a criação de um Estado terrorista,
cortando a antiga Rota da Seda no Iraque e na Síria, e transformando,
para tal, o conflito ucraniano em guerra, cortando assim também o
traçado original da segunda Rota da Seda.
Estas forças pensam actualmente estender o caos a uma segunda região,
a Ásia do Sudeste. É pelo menos para lá que os jiadistas parecem migrar
segundo o Comité anti-terrorista da ONU. Fazendo-o, estas forças fecham
o episódio 2012-2016 no Médio-Oriente, sem anteciparem ou não uma
guerra em torno dos curdos, e preparam a devastação do Sudeste da Ásia.
Isso seria a segunda etapa do «choque de civilizações», depois dos
muçulmanos contra os «judeus-cristãos» (sic) [2], eis os muçulmanos contra os budistas.
[1] Network Centric Warfare : Developing and Leveraging Information Superiority, David S. Alberts, John J. Garstka & Frederick P. Stein, CCRP, 1999. The Pentagon’s New Map
(«O Novo Mapa do Pentágono-ndT), Thomas P. M. Barnett, Putnam
Publishing Group, 2004. « The Roots of Muslim Rage », Bernard Lewis, Atlantic Monthly, septembre1990. « The Clash of Civilizations ? » & « The West Unique, Not Universal », Samuel Huntington, Foreign Affairs, 1993 & 1996 ; The Soldier and the State & The Clash of Civilizations and the Remaking of World Order
(«Os Militares e o Estado & Choque de Civilizações e o Refazer da
Ordem Mundial»), Samuel Huntington, Harvard 1957 & Simon and
Schulster 1996.
[2]
A expressão judeus-cristãos designava exclusivamente até aos anos 90 a
comunidade de judeus convertidos ao cristianismo em volta de São Tiago ;
comunidade que foi dissolvida após o saque de Jerusalém pelos Romanos.
No entanto, os cristãos ocidentais continuam a dar na sua prática um
enorme destaque ao papel do Antigo Testamento, que eles defendem
muitas vezes sem se darem conta dos pontos de vista judaicos em vez dos
pontos de vista cristãos. Ao contrário, os cristãos do Oriente, fieis à
tradição dos seus predecessores, só raramente fazem referência às
escrituras judaicas e recusam lê-las durante a Eucaristia.
O Google quer ser os olhos do Big Brothers fitos sobre si. Todos os gurus da
Internet sabem isto mesmo antes de a NSA ser descoberta a espionar tudo. Mas
agora os rapazes da Moutain View [sede da Google] estão mais
determinados do que nunca a filtrar a sua informação e a eliminar
qualquer resquício de confiabilidade.
Se eu tivesse iniciado um artigo com o parágrafo acima há cinco
anos atrás, instantaneamente teria sido etiquetado como um
"teórico da conspiração" ou pior ainda. O que
pensa disso, caro leitor? Será a ideia de tecnocratas e dos seus
manipuladores enormemente endinheirados enlouquece-lo? Penso que sim. Mas
se precisa de prova para além do óbvio, o
manual de 160 páginas
do Google conta-nos exactamente como eles planeiam alimentar-nos só com
as "suas" notícias. O extenso manual é uma leitura
pesada para a pessoa média, mas o livro fornece pormenores de uma
maquinação orwelliana diferente de qualquer coisa já vista
desde o aparelho de propaganda nazi. Preste muita
atenção à "instrutiva" página 108 onde a
Google dita quem cumpre e não cumpre seus critérios de
classificação. A secção Falha de Cumprimento
(Fails to Meet, FailsM)
é um cilindro compressor da imprensa livre e sugere a
ocultação de certas espécies de sítios web:
"Páginas que contradigam directamente factos históricos bem
estabelecidos (ex.: infundadas teorias da conspiração), a menos
que a consulta indique claramente que o utilizador está à procura
de um ponto de vista alternativo".
Como de costume, a Google obscurece suas intenções reais com a
ideia de que algum algoritmo super inteligente está a "filtrar" ou
"aprender" resultados para ajudá-lo a ter uma vida melhor.
Mais uma vez, a Google supõe fazer "o que é bom para
nós" através da destruição de algumas fontes e
a promoção de outras. Utilizando termos como "graduando
linhas orientadoras para pesquisa de qualidade" e "graduando linhas
orientadores para páginas de qualidade" os pequenos Maquiaveis da
Google providenciam justificação para controlar o que você
vê e lê na web. Censura e monopolização da
informação e dos negócios na internet – esta é
acusação contra os rapazes da Mountain View.
Há também a secção que se refere ao modo como a
Google classifica o melhor dentre os melhores sítios de notícias
intitulado "Um alto nível de perícia/ autoridade/
fidedignidade"
("A High Level of Expertise/ Authoritativeness/ Trustworthiness",
EAT).
O acrónimo EAT ("comer") deveria servir de pista acerca do
facto de os utilizadores da pesquisa Google estarem prestes a serem comidos por
alguma verdade trapalhona. Para os oligarcas da Google, "Páginas de
alta qualidade" significam ou que o dono da página paga à
Google ou que o sítio em causa serve muito bem aos mestres da Google
– ponto. No topo da matriz de fontes estão jornais (High News 1)
como
The Washington Post
e
New York Times,
seguidos por artigos no interior desses sítios (High News 2). A seguir
na lista das páginas de autoridade estão sítios
governamentais como o Departamento de Estado dos EUA e a Casa Branca e depois
páginas categorizadas (acredite ou não) como "Grande
Humor"
("High Humor").
Dessa forma, a Google excluiu a importância da verdade ou mesmo a
importância da própria notícia em favor de "quem"
a escreveu e da "realidade" que a Google quer que você aceite
– a rede do Big Brother.
Melissa Dykes, da
Truth Stream Media
fez um vídeo acerca do novo esforço do Big Brother e o sítio web
Escravos do governo
também fez a sua parte. Estes últimos sugerem mesmo
alternativas à utilização da Google Search àqueles
que recusam as tendências totalitárias a que agora assistimos.
Para pessoas que preferem boicotar o mal iminente tais como [os motores de
pesquisa]
Yandex
e
DuckDuckGo
. Os escravos do governo também listam 400 sítios para
noticiário independente fora da MATRIX da Google. Meu conselho para toda
a gente é começar já a fazer a transição
para longe da Google e do Facebook. A minha própria vasta
experiência em tratar com pessoas voltadas para a técnica revelou
serem gente sem qualquer moral, desejosas de fazer seja o que for para
perpetuarem a sua dominação no digital. A Google destruiu
milhões de profissões, rompeu o seu próprio código,
seus juristas contornaram regras anti-trust e de práticas justas,
evitaram impostos e colaboraram com as agências de inteligência
contra o povo dos Estados Unidos. Todas estas afirmações
não são apenas divagações do autor deste artigo.
Remontando a 2014,
John W. Whitehead
escreveu acerca da NSA e do Google no
Huffington Post
:
"Simplesmente olhe em torno. Isto já está a acontecer.
Graças a uma parceria insidiosa entre a Google e a National Security
Agency (NSA) que se torna cada vez mais invasiva e mais subtil a cada dia que
passa, "nós o povo" tornámo-nos pouco mais do que
consumidores de dados mercantilizados a serem comprados, vendidos e pagos
repetidamente".
Em 29 de Agosto o famoso criador do Zero Hedge, Tyler Durden, escreveu uma
peça intitulada "Porque a Google fez a NSA", a qual revelava
um projecto chamado
INSURGE INTELLIGENCE
, um projecto de jornalismo de investigação financiado
colectivamente que havia divulgado um artigo sobre como a comunidade de
inteligência dos Estados Unidos financiou, alimentou e cultivou a Google
como parte de uma iniciativa para dominar o mundo através do controle da
informação. Leu isto correctamente. Minhas
afirmações anteriores de que Sergey Brin e Larry Page foram
"ascendidos" por dinheiro desconhecido provavelmente estavam
correctas. Apesar de eu ter presumido que George Soros ou Rockfeller estivessem
por trás, é concebível que o Tio Sam fosse o fantasma na
retaguarda. A notícia do Zero Hedge investiga um "estado
profundo" nunca imaginado nos nossos piores pesadelos. A reportagem revela
como o grupo do
Pentagon Highlands Forum's
está a capturar gigantes tecnológicos como a Google a fim de
prosseguir a vigilância em massa. Além disso, a reportagem mostra
como a comunidade de inteligência desempenhou um papel chave em
esforços secretos para manipular os media e o público. As crises
e guerra infindáveis com que nos deparamos são, em grande medida,
devidas aos esforços da Google e de outras instituições
tecnocráticas. O autor enquadra o modo como a
administração Obama realmente consolidou este controle do
"Big Brother":
"Com Obama, o nexo do poder corporativo, industrial e financeiro
representados pelos interesses que participam no Pentagon Highlands Forum
consolidou-se num grau sem precedentes".
Estas pessoas referem-se a sim próprias como "os guardas da
portaria"
("the gatekeepers").
A sua arrogância só é ultrapassada pelo seu agnosticismo
moral. Os êxito da era da informação, as dúbias
minas de ouro do capital de risco de Sillicon Valley, os caminhos misteriosos
pelos quais inovadores razoavelmente comuns foram impulsionados para as luzes
dos holofotes advertem-nos quanto ao pântano subjacente descrito por
Donald Trump. Mas é a imensidade da rede que deveria servir-nos de
pista. Imagine o novo presidente a tomar posse e a defender-se de ataques
tão bem quanto pode, só para descobrir que toda a máquina
do governo dos EUA está influenciada por este controle. Depois de saber
tudo isto é fácil teorizar sobre como Trump fez meia volta acerca
de muitas questões. Ele deve ter sido subjugado. Ou fazia parte do plano
desde o princípio.
Finalmente, se nos estendermos acerca destas notícias e incluirmos
outros tecnocratas como Bill Gates ou Jeff Bezos, então o entendimento
das crises mundiais provocadas pela má política dos EUA torna-se
mais simples. Trata-se de uma corporação – tudo isto
é uma corporação para a guerra e o atrito. Bezos a passear
com o antigo general dos Fuzileiros Navais e actual secretário da
Defesa, "Cão Louco" Mattis, na Amazon é
simbólico. O posicionamento de Trump para com Israel, os sauditas ou
mesmo a política interna diz-nos que aquelas promessas da campanha
afundam na esteira da nau do estado profundo a pleno vapor. Se permitirmos
à Google e aos demais actores continuarem sem controle...
Bem, vocês são tão capazes quanto eu de completar a
sentença. Só rezo para que não seja demasiado tarde.
As últimas sanções e a resposta retaliatória da
Rússia resultaram numa torrente de especulações nos media
oficiais e na blogosfera — toda a gente tenta entender uma
situação que parece sem sentido. Porque haveria o Senado dos
Estados Unidos de adoptar sanções contra a Rússia quando a
Rússia nada fez para provocar esse voto? Com a excepção de
Rand Paul e Bernie Sanders todos e cada um dos senadores americanos votaram a
favor dessas sanções. Porquê? Torna-se ainda mais estranho
se pensarmos que o único grande efeito das sanções
será provocar uma fractura, e
possivelmente ainda mais contra-sanções
, entre os Estados Unidos e a União Europeia. Fica claro que estas
sanções vão ter efeito nulo sobre a Rússia e
não creio que alguém pense a sério que os russos mudem o
que quer que seja nas suas políticas. Porém, todos os senadores
excepto Paul e Sanders votaram a favor. Será que faz sentido?
Vamos tentar perceber o que se passa.
Primeiro, vamos lembrar que qualquer político norte-americano, desde as
municípalidades até ao Congresso, todos os senadores só
pensam numa coisa quando votam — o que ganho eu com isso? — A
última coisa que preocupa um senador americano é as
consequências do seu voto na vida real. Isso quer dizer que para
conseguir uma quase unanimidade (98%) numa votação realmente
estúpida tinha de haver um lobby muito influente que utilizou
"argumentos" muito fortes para conseguir tal voto. Lembremos que os
Republicanos no Senado sabiam que estavam a votar contra a vontade do seu
Presidente. E no entanto todos à excepção de Rand Paul
votaram essas sanções, isso mostra o poder do
lobby
que os pressionou. Assim, quem teria esse poder?
Lobby técnico
Indústria mineira
Indústria da defesa
Indústria do agronegócio
Petróleo
Lobby financeiro
Grandes farmacêuticas
AARP (American Association of Retired Persons)
Lobby pró-Israel
NRA (National Rifle Association)
Ok, por que não? Podemos talvez reordená-los, dar-lhe nomes
diferentes, juntar mais alguns (como, Complexo Industrial de
Prisões" ou "Comunidade da inteligência", mas na
generalidade a lista está bem.
É preciso entender que a maioria destes lobbies precisa de um inimigo
para prosperar, será sem duvida o caso do Complexo Militar Industrial e
a industria associada de alta tecnologia, e poderíamos pensar que o
Petróleo, Minas e Agronegócio vêem na Rússia um
competidor potencial. Mas um olhar mais atento aos interesses que estes lobbies
representam diz-nos que estão mais interessados na política
caseira e que a longínqua Rússia com a sua economia relativamente
pequena não é o que lhes importa. O mesmo se passa com as Grandes
Farmacêuticas, a AARP e o NRA. O que deixa o lobby de Israel como o
único candidato potencial.
"Lobby de Israel claro que é um nome inadequado. O lobby de Israel
tem muito pouco interesse em Israel como país, ou sequer o povo
israelense. Melhor seria chamar-lhe Lobby Neocon. Aliás, temos de
verificar que o Lobby Neocon não está na lista acima referida.
Por um lado, não representa os interesses dos Estados Unidos. Por outro,
não representa os interesses de Israel. Representa antes os interesses
de um grupo específico das elites reinantes dos Estados Unidos, na
realidade muito inferior a 1% da população, em que todos
partilham uma ideologia comum de dominação mundial típica
dos neocons.
São os sujeitos que apesar do seu férreo controlo de cem por
cento da media e do Congresso perderam a eleição presidencial
para Donald Trump e que estão apostadas no seu
impeachment.
São indivíduos que simplesmente usam a Rússia, como um
fulcro propagandístico para passar a noção de que Trump e
o seu meio são agentes russos e o próprio Trump é uma
espécie de "candidato presidencial da Manchúria".
Lembremo-nos que o registo histórico mostra que apesar de os neocons
serem especialmente motivados não são muito inteligentes. Sim,
eles têm a espécie de determinação ideológica
raivosa que lhes permite conseguir alcançar uma influencia totalmente
desproporcional sobre as politicas dos EUA, mas quando vemos o que realmente
escrevem e ouvimos o que dizem, percebe-se de imediato que são
indivíduos medíocres com uma mentalidade paroquiana que os torna
tanto muito previsíveis como muito irritantes para as pessoas em torno
deles. Ultrapassam sempre os seus limites e acabam estupefactos e horrorizados
quando todas as suas conspirações e planos desmoronam sobre si.
Creio que é exactamente o que está a acontecer agora.
Primeiro, os neocons perderam as eleições. Para eles foi um
choque e um pesadelo. Os "deploráveis" votaram contra as
instruções de propaganda, totalmente claras que os media lhes
deram. Segundo, os neocons voltaram a sua fúria contra Trump e
conseguiram neutralizá-lo, mas só ao custo de enfraquecerem
terrivelmente os próprios Estados Unidos! Recapitulemos: em 6 meses de
administração Trump os EUA já conseguiram ameaçar
directamente o Irão, a Síria, a RDPC e em todos os casos com
resultados zero. Pior, o comportamento de Trump para com a Europa e a
propaganda anti-Trump dentro da Europa colocaram agora a UE e os EUA numa rota
colisão. É espantoso: para a Rússia as tensões
actuais entre os EUA e a União Europeia são um sonho realizado e
nem sequer fizeram nada para isso — tudo foi feito através da
estupidez auto-derrotante dos americanos que criaram esta
situação completamente
ex nihilo!
Assim enquanto Kim Jong-un lança mísseis no 4 de Julho, o
Exército Sírio aproxima-se de Deir ez-Zor, a Ucrânia
transforma-se numa Somália, a economia russa volta a crescer e a
popularidade de Putin está cada vez mais alta, os neocons estão a
ficar totalmente fora de si e, como é típico das pessoas que
perdem o controle, não fazem nada com lógica e sim o habitual:
esbofetear sanções (mesmo que sejam totalmente ineficazes) e
enviar mensagens (mesmo que sejam totalmente ignoradas). Por outras palavras os
neocons empenham-se agora em pensamento mágico, optam por iludirem-se
acerca do seu poder e influencia e estão a enfrentar o seu fracasso
generalizado
(full-spectrum)
ao pretenderem que os seus votos no Congresso importam. A verdade é que
não são.
É aqui que temos de examinar a outra noção errada neste
caso, que a reacção russa a estas sanções mais
recentes é realmente acerca delas. Não é.
Primeiro, derrubemos o mito de que tais sanções estão a
prejudicar a Rússia. Na verdade não estão. Mesmo os da
Bloomsberg, 100% russofóbicos começam a perceber que na realidade
estas sanções tornaram Putin e a Rússia mais fortes
. Segundo, há a questão do tempo: ao invés de reagir com
contra-sanções os russos subitamente decidiram reduzir a
quantidade de pessoal diplomático norte americano na Rússia e
confiscar duas instalações diplomáticas dos EUA numa
retaliação clara à expulsão dos diplomatas russos e
a ocupação de edifícios diplomáticos por Obama no
ano passado. Por que não?
Muitos observadores dizem que os russos são "ingénuos"
em relação ao Ocidente e aos EUA, que Putin "deseja"
melhores relações e que essa esperança o paralisou. Outros
dizem que Putin é "fraco" ou está mesmo "em
conluio" com o Ocidente. É um absurdo total.
As pessoas tendem a esquecer que Putin foi um oficial superior dos
serviços de inteligência externa do KGB, o chamado "Primeiro
Directorado Principal (PGU). Além disso, Putin revelou recentemente que
trabalhou na altamente secreta Direcção S do PGU e que era
responsável por contactos com uma rede de espiões
soviéticos ilegais na Alemanha Oriental (onde Putin actuava sob a
cobertura oficial de director Casa da Amizade URSS-RDA). Se o PGU era a
"elite da elite" do KGB da sua parte mais secreta, então o
Directorado S era a "elite da elite" do PGU e o seu cerne mais
secreto. Isto, definitivamente, não é uma carreira para
"ingénuos" ou "fracos", para dizê-lo
suavemente. E acima de tudo, os oficiais do PGU eram "especialistas no
Ocidente" em geral e nos Estados Unidos em especial porque os EUA, eram
sempre considerados como o "inimigo principal" (ainda que a maior
parte dos responsáveis do PGU considerasse que os britânicos eram
o seu adversário mais capaz, perigoso e sorrateiro). Considerando o
nível soberbo de educação e treino dado a estes oficiais,
diria que os oficiais do PGU estavam entre os melhores especialistas do
Ocidente de qualquer parte do mundo. A sua sobrevivência e a
sobrevivência dos seus colegas dependia da sua compreensão
correcta do mundo ocidental. Quanto a Putin, pessoalmente, sempre actuou de um
modo muito deliberado e calculado e não há razão para
pensar que desta vez, após as ultimas sanções dos EUA,
tenha havido uma erupção emocional no Kremlin. Podem ter a
certeza de que esta ultima reacção russa é o resultado de
uma conclusão cuidadosa e a formulação de um objectivo
preciso e há muito delineado.
Diria que a chave para a compreensão correcta da resposta russa
está no facto de as ultimas sanções dos Estados Unidos
conterem uma ideia sem procedentes e, francamente, com características
chocantes: as novas medidas retiraram ao Presidente autoridade para revogar as
sanções. Em termos práticos: se Trump quisesse por em
vigor algumas dessas sanções, teria de enviar uma mensagem
oficial ao Congresso o qual teria então trinta dias para aprovar ou
rejeitar a acção proposta. Por outras palavras, o Congresso agora
sequestrou o poder da Presidência para dirigir a politica externa e
encarregou-se até da micro-administração da politica
externa norte americana.
Isso, meus amigos, é claramente um golpe de estado constitucional e uma
grave violação dos princípios da separação
de poderes que é o cerne do sistema político dos Estados Unidos.
É também um testemunho vivo da total depravação do
Congresso dos EUA que não tomou essas medidas quando o presidente
"ultrapassou o Congresso e começou guerras sem a necessária
autoridade congressual, mas que agora toma abertamente as rédeas da
politica externa americana para impedir o risco de "quebrar a paz"
entre a Rússia e os Estados Unidos.
Sim, o homem quer por a sua assinatura no texto que representa um golpe de
estado ilegal contra a sua própria autoridade e contra a
Constituição que jurou defender.
Atenta a isso, a reacção russa é muito simples e
compreensível: eles desistiram de Trump.
Não que tivessem muita fé nele, mas sempre sentiram fortemente
que a eleição de Trump talvez pudesse dar ao mundo uma
oportunidade realmente histórica para mudar a dinâmica desastrosa
iniciada pelos neocons no tempo de Obama e talvez devolver às
relações internacionais uma aparência de sanidade.
Infelizmente, isto não aconteceu. Trump revelou-se uma massa demasiado
cozida cujo único feito real era exprimir suas ideias em 140 caracteres
ou menos. Mas na coisa crucial, vital, em que Trump precisava absolutamente de
ter êxito — esmagar impiedosamente os neocons — ele fracassou
totalmente. Pior: a sua única reacção às
múltiplas tentativas deles para derrubá-lo foram todas as vezes
respondidas com toscas tentativas tontas de apaziguamento.
Para a Rússia isso significa que o presidente Trump foi agora
substituído pelo "Congresso Presidente".
Uma vez que é absolutamente impossível fazer qualquer coisa com
este Congresso, os russos vão agora empenhar-se em medidas unilaterais
vantajosas tais como reduzir dramaticamente o número de diplomatas
americanos na Rússia. Para o Kremlin, essas sanções
são não tanto uma provocação inaceitável mas
sim um pretexto ideal para iniciar uma série de politicas internas
russas. Livrarem-se dos empregados americanos na Rússia é apenas
um primeiro passo.
A seguir, a Rússia utilizará o comportamento francamente
errático dos americanos para proclamar
urbi et orbi
que estes são irresponsáveis, incapazes de tomarem
decisões adultas e basicamente que "foram à pesca". Os
russos já fizeram isso quando declararam a dupla Obama-Kerry como
недого ворос
пособны
(nedogovorosposobny: "incapazes de acordos", mais
aqui
acerca deste conceito). Agora com Trump a assinar a sua própria
demissão constitucional, com Tillerson incapaz de calar Nikki nas
Nações Unidas e com Mattis e McMaster a lutarem por planos
grandiosos para parar a "não vitória" no
Afeganistão, a dupla Obama-Kerry começa a parecer quase adulta.
Francamente, para os russos é o momento de ir embora.
Prevejo que os loucos neocons não vão parar até conseguir
o
impeachment
de Trump. Além disso, prevejo que os Estados Unidos não
lançarão quaisquer intervenções armadas importantes
(até porque os Estados Unidos já não têm
países que possam atacar com segurança e com facilmente). Algumas
"intervenções pretendidas" (como o malfadado ataque de
mísseis na Síria) podem ser bastante possíveis e mesmo
prováveis. Este golpe interno em câmara lenta contra Trump
irá absorver a maior parte da energia para os realizar e deixar a
politica externa como simplesmente uma espécie de subproduto da
política interna dos Estados Unidos.
Os europeus do leste estão agora totalmente entalados. Vão
continuar a observar incrédulos o desastre crescente da Ucrânia
enquanto fazem jogos estúpidos pretendendo serem duros com a
Rússia (o último exemplo desta espécie de "ladrar
atrás da cerca" pôde ser visto no patético
encerramento do espaço aéreo da Roménia
a um avião civil que transportava o vice primeiro ministro russo Dmitri
Rogozin entre os passageiros). Os europeus reais (do ocidente) gradualmente
cairão em si e começarão a fazer negócios com a
Rússia. Mesmo Emanuel Macron de Rothschild, da França,
provavelmente se demonstrará como um parceiro mais adulto do que o
Donald.
Mas a verdadeira acção estará alhures — no Sul, no
Leste e no Extremo Oriente. A verdade simples é que o mundo simplesmente
não pode ficar à espera de que os americanos recuperem o
juízo. Há uma série de assuntos cruciais que precisam de
ser urgentemente enfrentados, uma série de imensos projectos que
precisam ser realizada e um mundo muito diferente e multi-polar que precisa ser
fortalecido. Se os americanos querem recusar-se a salvarem-se disto tudo, se
querem deitar abaixo a ordem constitucional que os Pais Fundadores criaram e se
querem funcionar apenas no reino do ilusório que nada tem a ver com a
realidade — estão no seu direito e é o seu problema.
Washington DC começa a parecer um jardim-de-infância sob o efeito
de LSD — algo engraçado e desagradável. Os garotos
não parecem muito espertos: uma mistura de valentões e idiotas
invertebrados. Alguns deles têm os dedos no botão nuclear e isso
é absolutamente assustador. O que os adultos têm de fazer agora
é descobrir uma maneira de manter os garotos ocupados e
distraídos e distraí-los para que não apertem o maldito
botão sem querer. E esperar. Esperar pela reacção
inevitável de um país que é muito melhor e mais forte que
os seus governantes e que agora precisa desesperadamente de um verdadeiro
patriota para acabar com as
Feiticeiras de Sabbath
em Washington DC.
Vou encerrar esta coluna com uma nota pessoal. Acabei de atravessar os Estados
Unidos, literalmente, do Rio Rogue no Oregon à costa leste da Florida.
Durante essa longa viagem vi não só paisagens de tirar o
fôlego mas também belas pessoas que se opõem ao baile
satânico em DC com todas as fibras do seu ser e que querem o seu pais
livre dos degenerados poderes demoníacos que se apossaram do Governo
Federal. Vivi um total de 20 anos nos EUA e aprendi a amar e apreciar
profundamente as muitas pessoas boas, decentes e honradas que aqui vivem. Longe
de ver o povo americano como inimigo da Rússia, vejo-o como aliado
natural, ainda que seja por termos o mesmo inimigo (os neocons em DC) e nenhuma
razão objectiva para conflitos, nenhuma de qualquer espécie. De
resto, americanos e russos são muito semelhantes, por vezes de um modo
cómico. Tal como durante a Guerra-Fria nunca perdi a esperança no
povo russo, agora recuso-me a perder a esperança no povo americano. Sim,
o governo federal americano é desgostante, mau, nojento,
estúpido, degenerado e absolutamente satânico, mas o povo dos
Estados Unidos não é. Longe disso. Não sei se este
país conseguirá sobreviver a este regime como EUA unitário
ou se vai romper-se em várias entidades diferentes (algo que acho muito
possível), mas creio que o povo americano sobreviverá e
vencerá tal como o povo russo sobreviveu aos horrores das décadas
de 1980 e 1990.
Neste momento os Estados Unidos parecem despenhar-se num precipício muito
semelhante àquele em que mergulhou a Ucrânia (aliás
não é surpreendente, as mesmas pessoas infligem os mesmos
desastre em quaisquer países que infectem com a sua presença). A
grande diferença é que o seu imenso e inexplorado potencial
irá recuperá-lo. Poderá não ser uma
Ucrânia em dez anos, mas será definitivamente um país
norte-americano, talvez diferente do único actual ou talvez mesmo com
vários estados sucessores derivados.
Mas por enquanto, só posso repetir o que os habitantes da Florida dizem
quando um furacão se abate sobre eles "aferrem-se ao
chão" e preparem-se para os tempos difíceis e perigosos que
estão para vir.
31/Julho/2017
[NR]
A lei das sanções contra a Rússia, Irão e Coreia do Norte foi assinada em
02/Agosto/2017.
Quando o seu país foi atacado pelos jiadistas, em 2011, o Presidente
Bachar al-Assad reagiu a contra-corrente: em vez de reforçar os poderes
dos serviços de segurança, ele diminuiu-os. Seis anos mais tarde, o seu
país está em vias de sair vencedor da mais importante guerra desde a do
Vietname. O mesmo tipo de ataque está em vias de se produzir na América
Latina, onde suscita uma resposta muito mais dentro do habitual. Thierry
Meyssan expõe aqui a diferença de análise e estratégia dos Presidentes
Assad por um lado, Maduro e Morales pelo outro. Não se trata de colocar
esses líderes em compita, mas de apelar a cada um deles para extrair
lições políticas e tomar em boa conta a experiência das últimas guerras.
Em Maio de 2017, Thierry Meyssan explicava na Russia Today em que é
que as elites sul-americanas se enganam quanto ao imperialismo dos EUA.
Ele insistia acerca da mudança de paradigma dos conflitos armados
actuais e a necessidade de repensar, radicalmente, a maneira de defender
a pátria.
A operação de
desestabilização da Venezuela prossegue. Numa primeira fase,
grupúsculos violentos, manifestando-se contra o governo, mataram
transeuntes, ou seja cidadãos que se tinham juntado a eles. Num segundo
tempo, os grandes distribuidores de géneros alimentares montaram uma
rotura de abastecimentos nos supermercados. Depois, alguns membros das
forças da ordem atacaram dois ministérios, apelaram à rebelião e
entraram na clandestinidade.
A imprensa internacional não cessa de atribuir ao «regime» os mortos
das manifestações enquanto que numerosos vídeos atestam que eles foram
deliberadamente assassinados pelos próprios manifestantes. Com base
nestas falsas informações, ela qualifica o Presidente Nicolas Maduro de
«ditador» como já o havia feito, seis anos atrás, vis-à-vis a Mouamar
Kadhaffi e a Bachar al-Assad.
Os Estados Unidos utilizaram a Organização dos Estados Americanos
(OEA) contra o Presidente Maduro da mesma maneira como usaram
anteriormente a Liga Árabe contra o Presidente al-Assad. Caracas, sem
esperar ser excluída da Organização denunciou tal método e abandonou-a
ela própria.
No entretanto o governo Maduro apresenta duas falhas no seu activo:
uma
grande parte dos seus eleitores não se deslocou às urnas aquando das
eleições legislativas de Dezembro de 2015, deixando a oposição arrecadar
a maioria no Parlamento.
deixou-se
surpreender pela crise dos géneros alimentícios, quando, no passado,
este tipo de manobra já tinha sido montado no Chile contra Allende e na
Venezuela contra Chávez. Precisou de várias semanas para montar novos
circuitos de aprovisionamento.
Com toda a probabilidade, o conflito que começa na Venezuela não irá
parar nas suas fronteiras. Ele abrasará todo o Noroeste do continente
sul-americano e as Caraíbas.
Um passo suplementar foi franqueado com preparativos militares contra
a Venezuela, a Bolívia e o Equador, a partir do México, da Colômbia e
da Guiana Inglesa. Esta coordenação é operada pela equipe do antigo
Gabinete Estratégico para a Democracia Global (Office of Global Democracy Strategy);
uma unidade criada pelo Presidente Bill Clinton, depois prosseguida
pelo Vice-presidente Dick Cheney e pela sua filha Liz. A existência
deste foi confirmada por Mike Pompeo, o actual director da CIA. O que
levou, portanto, à menção na imprensa pelo presidente Trump da
existência de uma opção militar dos Estados Unidos.
Para salvar o seu país, a equipe do Presidente Maduro recusou seguir o
exemplo do Presidente al-Assad. Segunda ela, as situações são
completamente diferentes. Os Estados Unidos, principal potência
capitalista, atacariam a Venezuela afim de lhe roubar o seu petróleo, de
acordo com um esquema muitas vezes repetido no passado, em três
continentes. Este ponto de vista acaba de ser apoiado por um discurso
recente do Presidente boliviano, Evo Morales.
Lembre-mo-nos que em 2003 e 2011, o Presidente Saddam Hussein, o Guia
Muammar Kadhafi e muitos conselheiros do Presidente Assad mantinham a
mesma análise. Segundo eles, os Estados Unidos implicaram-se
sucessivamente no Afeganistão e no Iraque, depois na Tunísia, no Egipto,
na Líbia e na Síria unicamente para fazer cair os regimes que resistiam
ao seu imperialismo e controlar os recursos de hidrocarbonetos do
Médio-Oriente Alargado. Inúmeros autores anti-imperialistas seguem esta
análise, na actualidade, por exemplo tentando explicar a guerra contra a
Síria pela interrupção do projecto do gasoduto catariano.
Ora, esta análise mostrou-se errada. Os Estados Unidos não buscavam
nem derrubar os governos progressistas (Líbia e Síria), nem roubar o
petróleo e gás da região, mas, sim destruir os Estados, para reenviar as
populações à pré-história, para a época em que «o homem era o lobo do
homem».
Os derrubes de Saddam Hussein e de Muammar Gaddafi não restabelecerem
a paz. As guerras continuaram apesar da instalação de um governo de
ocupação no Iraque, depois governos na região incluindo colaboradores do
imperialismo opostos à independência nacional. Elas continuam ainda
atestando que Washington e Londres não queriam derrubar regimes, nem
defender democracias, mas antes esmagar os povos. É uma constatação
fundamental que altera a nossa compreensão quanto ao imperialismo
contemporâneo.
Esta estratégia, radicalmente nova, foi ensinada por Thomas PM
Barnett desde o 11- de-Setembro de 2001. Ela foi publicamente revelada e
exposta em Março de 2003 —quer dizer precisamente antes da guerra
contra o Iraque— num artigo na Esquire, depois no livro homónimo do Pentágono The Pentagon’s New Map («O Novo Mapa do Pentágono»- ndT), mas ela parece tão cruel que ninguém imaginou que pudesse vir a ser posta em acção.
Trata-se para o imperialismo de dividir o mundo em dois : de um lado
uma zona estável que beneficia do sistema, do outro um caos espantoso
onde ninguém pense sequer em resistir, mas unicamente em sobreviver; uma
zona na qual as multinacionais possam extrair as matérias primas, das
quais precisam, sem terem que dar satisfações a ninguém.
Segundo
este mapa, extraído de um Powerpoint de Thomas P. M. Barnett durante
uma conferência no Pentágono em 2003, todos os Estados da zona rosada
devem ser destruídos. Este projecto nada tem a ver nem com a luta de
classes, no plano nacional, nem com a exploração dos recursos naturais.
Depois do Médio-Oriente Alargado, os estrategas dos EU preparam-se para
reduzir a ruínas o Noroeste da América Latina.
Desde o século XVII e a guerra civil britânica, o Ocidente
desenvolveu-se entre o medo do caos. Thomas Hobbes ensinou-nos a
suportar a “Razão de Estado”, em vez de arriscar reviver esse tormento. A
noção de caos só nos voltou a ser trazida com Leo Strauss, após a
Segunda Guerra Mundial. Este filósofo, que formou pessoalmente
numerosas personalidades do Pentágono, entendia construir uma nova forma
de Poder mergulhando uma parte do mundo no inferno.
A experiência do jiadismo no Médio-Oriente Alargado mostrou-nos o que é o caos.
Tendo reagido como se esperava dele aos acontecimentos de Daraa
(março-abril de 2011), enviando o exército para reprimir os jiadistas da
mesquita al-Omari, o Presidente al-Assad foi o primeiro a compreender
aquilo que se passava. Longe de aumentar os poderes das forças de
segurança para reprimir a agressão externa, ele deu ao povo os meios
para defender o país.
Primeiro, levantou o estado de emergência, dissolveu os tribunais de
excepção, libertou as comunicações de Internet, e proibiu às forças
armadas de fazer uso das suas armas quando isso pudesse colocar em risco
inocentes.
Estas decisões contra-a-corrente implicavam pesadas consequências.
Por exemplo, aquando do ataque a um comboio militar em Banias, os
soldados abstiveram-se de usar as suas armas em legítima defesa.
Arriscaram ser mutilados pelas bombas dos atacantes, e até morrer, mais
do que atirar, pelo risco de ferir os habitantes que os viam ser
massacrados sem intervir.
Como muitos, à época, eu pensei que se tratava de um Presidente fraco
e de soldados demasiado leais, que a Síria ia ser esmagada. No entanto,
seis anos mais tarde, Bashar al-Assad e os exércitos sírios ganharam a
sua aposta. Se a princípio, os soldados lutaram sozinhos contra a
agressão estrangeira, pouco a pouco, cada um dos cidadãos foi-se
envolvendo, cada um em seu posto, afim de defender o país. Os que não
puderam ou não quiseram resistir exilaram-se. Claro, os Sírios têm
sofrido muito, mas a Síria é o único Estado no mundo, após a guerra do
Vietname (Vietnã-br), a ter resistido até que o imperialismo se cansa e
desiste.
Em segundo lugar, face à invasão de uma multidão de jiadistas
originários de todas as comunidades muçulmanas, desde Marrocos até à
China, o Presidente Assad decidiu abandonar uma parte do território para
conseguir salvar o seu Povo.
O Exército Árabe Sírio recuou para a zona da “Síria útil”, quer dizer
para as cidades, abandonando as zonas rurais e os desertos aos
agressores. Enquanto Damasco velava, sem nenhuma falha, pelo
aprovisionamento de alimentos a todas as regiões que controlava.
Contrariamente a uma ideia feita no Ocidente, apenas houve fome nas
áreas controladas pelos jiadistas e em algumas cidades sitiadas por
eles; os «rebeldes estrangeiros» (perdoem o “oxímoro”), aprovisionados
pelas associações «humanitárias» ocidentais, utilizaram a distribuição
de pacotes de alimentos para controlar as populações que eles próprios
submetiam à fome.
O povo sírio constatou por si próprio que apenas a República, e não,
os Irmãos Muçulmanos e seus jiadistas, o alimentava e o protegia.
Em terceiro lugar, o Presidente Assad traçou, aquando de um discurso
pronunciado a 12 de Dezembro de 2012, a maneira como ele pensava refazer
a unidade política do país.
Ele indicou, nomeadamente, a necessidade de redigir uma nova
constituição e de submetê-la à adopção por uma maioria qualificada do
Povo, depois proceder à eleição democrática da totalidade dos
responsáveis institucionais, neles incluído o Presidente, é claro.
À época, os Ocidentais fizeram troça da pretensão do Presidente Assad
em convocar eleições em pleno período de guerra. Hoje em dia, todos os
diplomatas envolvidos na resolução do conflito, incluindo os das Nações
Unidas, apoiam o plano Assad.
Enquanto os comandos jiadistas circulavam por todo o país,
nomeadamente em Damasco, e assassinavam políticos em suas casas com suas
famílias, o Presidente Assad encorajava os seus opositores internos a
pronunciarem-se. Ele garantiu a segurança do liberal Hassan al-Nouri e
do marxista Maher al-Hajjar afim de que assumissem, também, o risco de
se apresentarem à eleição presidencial de Junho de 2014. Apesar do apelo
ao boicote pelos Irmãos Muçulmanos e pelos governos Ocidentais, apesar
do terror jiadista, apesar da presença no exílio, no exterior, de
milhões de cidadãos, 73,42% dos eleitores responderam presente.
Identicamente, desde o início da guerra, ele criou um Ministério da
Reconciliação Nacional, o que jamais se vira num país em guerra. Ele
confiou-o ao presidente de um partido aliado, o SSNP, de Ali Haidar.
Este negociou e concluiu mais de um milhar de acordos promovendo a
amnistia(anistia-br) de cidadãos que havia pegado em armas contra a
República e a sua integração no seio do Exército Árabe Sírio.
Durante esta guerra, o Presidente Assad jamais usou a força contra o
seu próprio Povo, por muito mal que digam aqueles que o acusam
gratuitamente de torturas generalizadas. Assim, por exemplo, ele nunca
estabeleceu a conscrição em massa, o recrutamento obrigatório. É sempre
possível a um jovem escapar ao serviço militar. Procedimentos
administrativos permitem a qualquer cidadão do sexo masculino escapar ao
serviço nacional se ele não quiser defender o seu país de armas na mão.
Apenas os exilados, que não tiveram a oportunidade de proceder a estas
“démarches” podem estar em contravenção das leis.
Durante seis anos, o Presidente Assad não parou de, por um lado,
apelar ao seu povo, de lhe conferir responsabilidades e, por outro, de
tentar alimentá-lo e protegê-lo tanto quanto podia. Ele assumiu sempre o
risco de dar antes de receber. É por isso que, hoje em dia, ele ganhou a
confiança do seu Povo e pode contar com o apoio activo.
As elites sul-americanas enganam-se quando continuam a luta das
décadas precedentes por uma mais justa distribuição das riquezas. A luta
principal não é mais entre a maioria do povo e uma pequena classe de
privilegiados. A escolha que se colocou aos povos do Médio-Oriente
Alargado e à qual os Sul-americanos terão que responder, por sua vez, é a
de defender a Pátria ou morrer.
Os factos provam-no: o imperialismo contemporâneo não visa mais, em
especial, meter a mão nos recursos naturais. Ele domina o mundo e pilha
sem escrúpulos. Agora, o que ele pretende, também, é esmagar os Povos e
destruir as sociedades das regiões nas quais explora já os recursos.
Nesta era de destruição, apenas a estratégia de Assad permite ficar de pé e livre.
Em 2 de agosto pouco depois de uma forte mobilização
cidadã que se manifestou pela eleição da Assembleia
Constituinte, os venezuelanos puderam ver na
Globovision
(uma das televisões privadas maioritárias do país) Henry
Ramos Allup, um dos mais beligerantes líderes da oposição
declarar: "decidimos participar nas eleições regionais, na
dos presidentes de câmara e nas presidenciais".
[1]
Um sector importante da direita demarca-se assim publicamente das
violências da extrema-direita de Leopoldo Lopez e admite publicamente a
validade do
Centro Nacional Eleitoral
(CNE), que até à pouco
denegria como instrumento chavista. Legitimar o retorno à via
democrática preconizado pelo presidente Maduro? A "história
contada" a toda a hora, destilada todos os dias, por todos os meios e que
em consequência a quase totalidade dos cidadãos ocidentais
acreditam, começa a rodar no vazio.
Quanto mais tempo passa, mais o mamute da concentração mundial
dos media tem dificuldades em impedir a difusão de elementos que lhe
escapam. A imagem de uma guerra civil ou de uma oposição
democrática em luta contra um regime repressivo já não se
mantém. Sabe-se que a maioria das vítimas foi causada pelas
violências da extrema-direita
[2]
, que esta violência está confinada a alguns por cento do
território – zonas ricas ou paramilitarizadas (municípios de
direita e fronteira com a Colômbia) – que a grande maioria vive em
paz e rejeita estas violências, incluindo eleitores de direita
[3]
. O "regime" (na realidade um governo eleito) prendeu e julgou
rapidamente os membros das forças da ordem que fizeram uso de
força de excessiva
[4]
.
É preciso destruir o perigoso exemplo de uma Assembleia Constituinte.
Enquanto em 4 de agosto militantes chavistas, feministas, ecologistas,
militantes da cultura popular ou contra a especulação
imobiliária estreiam em Caracas os seus lugares de deputados
constituintes
[5]
os grandes media fazem tudo para denegrir o sufrágio dos venezuelanos
tornando credíveis as denúncias de "fraude"
lançadas desde Londres pelo diretor da Smartmatic – uma sociedade
comercial que forneceu máquinas ao Centro Nacional Eleitoral (CNE) mas
que não tem acesso aos dados da votação
[6]
.
Os media não mencionam uma fonte bem mais séria. Após
terem observado o escrutínio localmente, o Conselho dos Peritos
Eleitorais da América Latina (CEELA) formado por juristas e
ex-presidentes de tribunais eleitorais de vários países da
América Latina concluiu que "o resultado das eleições
na Venezuela é verídico e fiável". O CEELA
"utilizou o mesmo sistema que utilizou em todas as eleições,
incluindo as de 2015 em que a oposição obteve a maioria dos
lugares na Assembleia Nacional". Este sistema eleitoral, qualificado pelo
observador Jimmy Carter de "melhor do mundo"
[7]
permite a "a qualquer pessoa verificar que os votantes foram efetivamente
os 8 089 320 anunciados pelo CNE"
[8]
.
Uma das consequências da velocidade emocional, da
comunicação instantânea por satélite, da falta de
contexto, etc que caracterizam qualquer campanha de propaganda chama-se a
obrigação da média
. Por um lado, milhares de órgãos de comunicação
martelam-nos exatamente a mesma versão, por outro a Venezuela real
permanece distante e de difícil acesso. A maioria dos cidadãos,
intelectuais e ativistas é reduzida a
fazer uma média
forçosamente frágil entre a enorme quantidade de mentiras
diárias e uma minoria com verdade. O que dá, no melhor dos casos
é que "há uma luta entre blocos, há problemas de
direitos humanos, há uma simetria na violência, uma guerra civil e
condeno a violência venha do onde vier, etc..." E no pior, o prazer
cobarde de repetir os títulos de 99% dos media sem nada saber da
Venezuela, de gritar com a matilha para se sentirem poderosos, de apontar o
dedo e ir caçar os "partidários do ditador". Em
França sobretudo, mas também em Espanha, a Venezuela é
substituída por um ecrã em branco para sessões de ajustes
de contas entre correntes políticas. O problema é que a
quantidade
de repetição, mesmo se cria uma
qualidade
de opinião não faz por si uma verdade. O número de
títulos ou de imagens idênticas poderia ser mil vezes mais elevado
que isso não significaria que nos falassem do real.
Como, portanto, voltar a conectar-se ao real? Quando o Movimento dos Sem Terra
no Brasil, o conjunto dos movimentos sociais
[9]
, os principais partidos de esquerda da América Latina
[10]
ou as 28 organizações venezuelanas de direitos humanos
[11]
denunciam a violenta desestabilização da democracia venezuelana
e apoiam a mobilização dos cidadãos para eleger uma
Assembleia Constituinte, dispõe-se então de um vasto leque de
conhecimentos mais profundos da realidade provenientes de
organizações democráticas, que a uma
"ciência-política" europeia "média"
obrigada a preservar um mínimo de "respeitabilidade" nos media
para proteger a sua carreira.
Para não deixar assassinar Salvador Allende de novo e não agredir
os que rejeitam a febre da propaganda, que se descobrirá amanhã
que tinham razão sobre a Venezuela, a sociedade ocidental necessita de
uma democratização radical dos meios de comunicação
social – o desenvolvimento do pluralismo de informação em
França é obrigação legal do CSA
[12]
e paralelamente a criação e multiplicação de meios
de comunicação fora da esfera privada quer sejam públicos
quer associativos, criar novas escolas onde sejam restabelecidos como fatores
centrais de um jornalismo ao serviço dos cidadãos: o tempo de
investigação, a aquisição de cultura
histórica, a possibilidade de viajar aos locais
[13]
e escutar um sector tão vivo como o dos movimentos sociais.
Caracas, 4 de agosto 2017
Fotos
(Invisíveis nos nossos media): Assembleia Constituinte a instalar-se no
Congresso em Caracas, 4 de agosto.
O comandante do submarino dos EUA diz: "Todos nós vamos morrer um
dia, alguns mais cedo e outros mais tarde. O perturbador sempre foi que nunca
se está pronto para isso, pois não se sabe quando é que
chega o momento. Bem, agora sabemos e não há nada a fazer".
Ele diz que estará morto em Setembro. Levará cerca de uma semana
para morrer, embora ninguém possa estar muito certo. Os animais
viverão mais.
A guerra acabou em um mês. Os Estados Unidos, a Rússia e a China
foram os protagonistas. Não está claro se foi começada por
acidente ou por erro. Não houve vitorioso. O hemisfério norte
está contaminado e agora sem vida.
Uma cortina de radioactividade está a mover-se rumo à
Austrália e Nova Zelândia, ao sul da África e à
América do Sul. Em Setembro, as últimas cidades e aldeias
sucumbirão. Tal como no norte, a maior parte dos edifícios
permanecerão intactos, alguns iluminados pelos últimos vislumbres
de luz eléctrica.
Este é o modo como o mundo acaba
Não com um estrondo, mas com um suspiro
Estas linhas do poema de T.S. Eliot,
The Hollow Men (Os homens vazios),
surgem no início do romance
On the Beach
(Na praia)
de Nevil Shute, o qual me deixou próximo às lágrimas. Os
endossos impressos na capa diziam o mesmo.
Publicado em 1957 na altura da Guerra Fria, quando tantos escritores estavam
silenciosos ou acovardados, é uma obra-prima. A princípio a
linguagem sugere uma relíquia refinada; mas nada do que li sobre guerra
nuclear é tão implacável como a sua advertência.
Nenhum outro livro é tão urgente.
Alguns leitores recordarão o filme a branco e preto de Hollywood
estrelado por Gregory Peck como comandante da US Navy que leva seu submarino
para a Austrália a fim de aguardar o espectro silencioso e informe descer
sobre o último ser vivo do mundo.
Li
On the Beach
pela primeira vez há poucos dias, terminando-o quando o Congresso dos
EUA aprovou uma lei para travar guerra económica à Rússia,
a segunda mais letal potência nuclear do mundo. Não havia
justificação para esta votação insana, excepto a
ânsia da pilhagem.
As "sanções" também se destinam à Europa,
principalmente à Alemanha, a qual depende do gás natural russo, e
a companhias europeias que fazem negócios legítimos com a
Rússia. Naquilo que passou por debate no Capitol Hill, o mais palrador
dos senadores não deixou dúvida de que o embargo se destinava a
forçar a Europa a importar o dispendioso gás americano.
Seu objectivo principal parece ser a guerra – a guerra real. Nenhuma
provocação tão extrema pode sugerir qualquer outra coisa.
Eles parecem almejar isto, muito embora os americanos tenham pouca ideia do que
é a guerra. A Guerra Civil de 1861-65 foi a última no seu
território. Guerra é o que os Estados Unidos fazem aos outros.
O único país a ter utilizado armas nucleares contra seres
humanos. Desde então eles destruíram grande número de
governos, muitos deles democracias, e destruíram sociedades inteiras
– os milhões de mortos no Iraque foram um fracção da
carnificina na Indochina, a qual o presidente Reagan chamou de "nobre
causa" e o presidente Obama corrigiu como a tragédia de um
"povo excepcional". Ele não estava a referir-se aos
vietnamitas.
Ao filmar no ano passado no Lincoln Memorial, em Washington, ouvi
acidentalmente um guia do National Parks Service a dar uma lição
a um grupo de escolares adolescentes: "Ouçam", disse ele.
"Nós perdemos 58 mil jovens soldados no Vietname e eles morreram a
defender a vossa liberdade".
De repente, a verdade era invertida. Nenhuma liberdade foi defendida. A
liberdade foi destruída. Um país de camponeses foi invadido e
milhões do seu povo foram mortos, mutilados, expulsos, envenenados, 60
mil dos invasores puseram fim à sua própria vida. Ouçam,
realmente.
Uma lobotomia é executada a cada geração. Os factos
são removidos. A história é expurgada e substituída
pelo que a revista
Time
chama "um eterno presente". Harold Pinter descreveu isto como
"manipulação de poder à escala mundial, mascarando-se
como uma força para o bem universal, um brilhante, mesmo brilhante, acto
de hipnose com grande êxito [o que quer dizer] que nunca aconteceu. Nada
alguma vez aconteceu. Mesmo enquanto estava a acontecer não estava a
acontecer. Não importava. Não tinha interesse".
Aqueles que se auto-denominam liberais ou tendenciosamente "a
esquerda" são participantes ávidos desta
manipulação e desta lavagem cerebral, a qual hoje reverte a um
nome: Trump.
Trump é louco, um fascista, um tolo da Rússia. Ele também
é uma prenda para "cérebros liberais conservados no
formaldeído da política de identidade", escreveu Luciana
Bohne de modo inesquecível. A obsessão com Trump como homem
– não Trump como um sintoma e uma caricatura de um sistema
duradouro – atrai grande perigo para todos nós.
Enquanto prosseguem suas fossilizadas agendas anti-russas, media narcisistas
tais como o
Washington Post,
a BBC e o
Guardian
omitem a essência da mais importante narrativa política do nosso
tempo pois fomentam a guerra numa escala de que não posso recordar-me ao
longo da minha vida.
Em 3 de Agosto, em contraste com a extensão que o
Guardian
tem dado à idiotice de que os russos conspiraram com Trump (o que
recorda a difamação da extrema-direita de John Kennedy como
"agente soviético"), o jornal enterrou, na página 16, a
notícia de que o presidente dos Estados Unidos fora forçado a
assinar uma lei do Congresso declarando guerra económica à
Rússia. Ao contrário de todas as outras assinaturas de Trump,
esta foi efectuada em segredo virtual e acrescentada com uma advertência
do próprio Trump de que era "claramente inconstitucional".
Está a caminho um golpe contra o homem na Casa Branca. Não
por ele ser um ser humano odioso, mas sim porque
firmemente deixou claro que não quer guerra com a Rússia.
Este vislumbre de sanidade, ou de simples pragmatismo, é anátema
para os administradores da "segurança nacional" que defendem
um sistema baseado na guerra, vigilância, armamentos, ameaça e
capitalismo extremo. Martin Luther King chamou-os "os maiores fornecedores
de violência no mundo de hoje".
Eles cercaram a Rússia e a China com mísseis e um arsenal
nuclear. Eles utilizaram neo-nazis para instalar um regime instável e
agressivo na fronteira da Rússia – o caminho pelo qual Hitler
invadiu, provocando as mortes de 27 milhões de pessoas. O seu objectivo
é desmembrar a moderna Federação Russa.
Em resposta, "parceria" é uma palavra usada incessantemente
por Vladimir Putin – qualquer coisa, parece, que possa travar nos Estados
Unidos um impulso evangélico para a guerra. A incredulidade na
Rússia pode agora ter-se transformado em medo e talvez uma certa
resolução. Os russos quase certamente têm contra-ataques
nucleares preparados. Ensaios de ataques aéreos não são
incomuns. A sua história diz-lhes para estarem preparados.
A ameaça é simultânea. A Rússia é a primeira.
A China é a seguir. Os EUA acabam de completar um enorme
exercício militar com a Austrália conhecido como
Talisman Sabre
.
Eles treinaram um bloqueio dos Estreitos de Malaca e do Mar do Sul da China,
através dos quais passam as linha económicas vitais da China.
O almirante a comandar a frota estado-unidense do Pacífico disse que,
"se necessário", ele atacaria a China com armas nucleares. Que
ele dissesse tal coisa publicamente na actual atmosfera pérfida
começa a tornar facto a ficção de Nevil Shute.
Nada disto é considerado notícia. Nenhuma ligação
é feita quando se recorda o festim sangrento de
Passchendaele
um século atrás. A reportagem honesta já
não é bem vinda na maior parte dos media. Pessoas enfatuadas,
conhecidas como sabichonas, dominam: editores são administradores de
info-entretenimento ou da linha do partido. Onde outrora havia
edição, há agora o despejar de clichés para
trituração. Aqueles jornalistas que não cumprem são
defenestrados.
A urgência tem muitos antecedentes. No meu filme,
The Coming War on China
(A guerra vindoura à China),
John Bordne, membro da equipe de combate de mísseis da US Air Force
baseada em Okinawa, Japão, descreve como em 1962 – durante a crise
cubana dos mísseis – foi dito a ele e aos seus colegas "para
lançar todos os mísseis" a partir dos seus silos.
Armados com o nuclear, os mísseis destinavam-se tanto à China
como à Rússia. Um oficial júnior questionou isto e a ordem
acabou por ser revogada – mas só depois de terem sido emitidas com
revólveres apontados e ordem para atirar numa equipe de míssil se
eles não cumprissem.
Na altura da Guerra Fria, a histeria anti-comunista nos Estados Unidos era tal
que responsáveis estado-unidenses que foram à China em
negócios oficiais foram acusados de traição e despedidos.
Em 1957 – o ano em que Shute escreveu
On the Beach
– nenhum responsável no Departamento de Estado podia falar a
língua do país mais populoso do mundo. Falantes de mandariam eram
expurgados sob restrições agora reflectidas na lei que o
Congresso acabou de aprovar, destinada à Rússia.
A lei foi bipartidária. Não há diferença
fundamental entre Democratas e Republicanos. Os termos "esquerda" e
"direita" são sem significado. A maior parte das guerras
modernas da América foram iniciadas não por conservadores mas sim
por liberais democratas.
Quando Obama terminou o seu mandato havia presidido um recorde de sete guerras,
incluindo a mais longa guerra da América, e uma campanha sem precedentes
de mortes extrajudiciais – assassinatos – através de drones.
OBAMA: TRÊS BOMBAS POR HORA, 24 HORAS POR DIA
No seu último ano de mandato, segundo um estudo do Council on Foreign
Relations, o
"relutante guerreiro liberal", lançou 26.171 bombas –
três bombas por hora, 24 horas por dia. Tendo prometido ajudar a
"livrar o mundo" de armas nucleares, o laureado com o Prémio
Nobel da Paz construiu mais ogivas nucleares do que qualquer outro presidente
desde a Guerra Fria.
Trump é um fraco em comparação. Foi Obama – com a sua
secretária de Estado Hillary Clinton ao lado – quem destruiu a
Líbia como estado moderno e lançou a debandada humana para a
Europa. Internamente, grupos de imigração conhecem-no como o
"deportador em chefe".
Um dos últimos actos de Obama como presidente foi assinar uma lei que
entrega um recorde de US$618 mil milhões ao Pentágono,
reflectindo a ascendência crescente do militarismo fascista na
governação dos Estados Unidos. Trump endossou isto.
Enterrado nos pormenores estava o estabelecimento de um "Centro para
Análise de Informação e Resposta". Isto é um
ministério da verdade. A sua tarefa é providenciar uma
"narrativa oficial dos factos" que nos preparará para a
possibilidade real da guerra nuclear – se nós o permitirmos.