terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Os Estados Unidos recusam bater-se para os financeiros transnacionais

por Thierry Meyssan

 A retirada dos EUA da Síria e do Afeganistão, assim como a demissão do General Mattis, atestam a viragem em curso na ordem mundial. Os Estados Unidos já não são os primeiros. Nem no plano económico, nem no plano militar. Eles recusam continuar a bater-se exclusivamente pelos interesses de financeiros transnacionais. As alianças que encabeçavam vão começar à desmoronar-se sem que, no entanto, os seus antigos aliados admitam a subida de poderio da Rússia e da China.


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Donald Trump recusa que os seus concidadãos continuem a pagar para realizar o sonho imperial dos financeiros globais.
 
O anúncio da retirada parcial das forças norte-americanas do Afeganistão, e total da Síria, soou como um trovão, a 19 de Dezembro de 2018. Ele foi seguido, no dia seguinte, pela demissão do Secretário da Defesa, James Mattis. Contrariamente às afirmações dos opositores do Presidente Trump, os dois homens estimam-se e a sua divergência não tem a ver com estas retiradas, mas, antes com a maneira de gerir as suas consequências. Os Estados Unidos estão perante uma escolha que vai marcar uma ruptura e fazer bascular o mundo.

Antes de mais, para não se entrar num contra-senso, convêm lembrar as condições e o objectivo da colaboração de Trump e Mattis.

Aquando do seu acesso à Casa Branca, Donald Trump havia tratado de se rodear de três altos militares dispondo de suficiente autoridade para reorientar as Forças Armadas. Michael Flynn, John Kelly e, sobretudo, James Mattis, partiram ou estão na porta de saída. Todos eles três, são grandes soldados que em conjunto chocaram com a hierarquia na era Obama [1]. Não aceitavam a estratégia, implementada pelo Embaixador John Negroponte, de criação de grupos terroristas encarregues de fomentar uma guerra civil no Iraque [2]. Os três comprometeram-se com o Presidente Trump a retirar o apoio de Washington aos jiadistas. No entanto, cada um deles tinha a sua própria visão sobre o papel dos Estados Unidos no mundo e acabaram por entrar em choque com o Presidente.
A tempestade que as eleições intercalares haviam adiado chegou [3]. É chegado o momento de repensar as Relações Internacionais .

 

A Síria


Quando em Abril, de acordo com as seus promessas, Donald Trump evocara a retirada dos EUA da Síria, o Pentágono tinha-o convencido a ficar. Não que alguns milhares de homens pudessem inverter o curso da guerra, mas porque a sua presença era um contrapeso à influência russa e um apoio a Israel.

No entanto, a transferência para o Exército Árabe Sírio de armas de defesa russas, nomeadamente mísseis S-300 e radares ultra-sofisticados coordenados por um sistema de gestão automatizada Polyana D4M1, alterou o equilíbrio de forças [4]. Agora, desde há três meses, dia a dia, o espaço aéreo sírio mostrou-se inviolável. Como resultado, a presença militar dos EUA torna-se contraproducente: não mais qualquer ataque terrestre dos mercenários pró-EUA poderá ser apoiado pela aviação norte-americana sem esta correr o risco de perder aeronaves.

Ao retirar-se agora, o Pentágono evita a prova de força e a humilhação de uma inevitável derrota. Com efeito, a Rússia recusou dar sucessivamente aos Estados Unidos e a Israel os códigos de segurança dos mísseis fornecidos à Síria. Quer dizer que Moscovo, após anos de arrogância do Ocidente, recusou a partilha do controle da Síria que havia aceite aquando da primeira conferência de Genebra, em 2012, e que Washington violara algumas semanas mais tarde.

Por outro lado, Moscovo afirmou, há já muito tempo, que a presença dos EUA é ilegal à luz do Direito Internacional e que a Síria pode legitimamente defender-se.

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O General Aharon Haliva veio a Moscovo à cabeça de uma delegação israelita, a 17 de Dezembro de 2018. Ele informou os seus homólogos russos das operações em curso pelo Tsahal (FDI-ndT) e pediu-lhes os códigos dos mísseis sírios. Em vão.
 

 As suas consequências


A decisão de retirada da Síria tem sérias consequências.

1— O pseudo-Curdistão

O projeto ocidental de criação de um Estado colonial, no Nordeste da Síria, que seria atribuído aos Curdos não verá a luz do dia. Além disso, cada vez menos Curdos o apoiavam, considerando que essa conquista seria comparável à proclamação unilateral de um estado, Israel, pelas milícias judias, em 1948.

Como já explicamos bastantes vezes, o Curdistão apenas é legítimo dentro das fronteiras que lhe foram reconhecidas em 1920 pela Conferência de Sèvres, isto é, na actual Turquia e não em outro lugar [5]. Os Estados Unidos e a França encaravam, há algumas semanas ainda, criar um pseudo-Curdistão em terra árabe e em fazê-lo administrar, sob mandato da ONU, pelo antigo Ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Bernard Kouchner [6].

2— A estratégia Cebrowski

O projecto prosseguido pelo Pentágono, desde há dezassete anos, no «Médio-Oriente Alargado» não verá a luz do dia. Concebido pelo Almirante Arthur Cebrowski, visava destruir todas as estruturas estatais desta região, à excepção das de Israel, da Jordânia e do Líbano [7]. Este plano, que se lançou do Afeganistão à Líbia e ainda funciona, começa a terminar no solo sírio.
Está completamente fora de questão que os Exércitos dos EUA se batam, às custas do contribuinte,
para interesse exclusivo dos financeiros globais, mesmo que norte-americanos.

3— A supremacia militar norte-americana

A ordem do mundo pós-soviético, fundada sobre a superioridade militar norte-americana está morta. Que tal seja difícil de admitir nada muda aos factos. A Federação da Rússia é agora mais poderosa, tanto em termos convencionais (desde 2015) como nucleares (desde 2018 [8]). O facto de os Exércitos russos serem um terço menores que os dos Estados Unidos e de apenas disporem de poucas tropas no estrangeiro descarta a hipótese de um imperialismo de Moscovo.

 

Vencedores e vencidos


A guerra contra a Síria vai terminar nos próximos meses por falta de mercenários. O fornecimento de armas por certos Estados coordenados pelo fundo KKR pode fazer durar o crime, mas não oferece esperança de mudar o curso dos acontecimentos.

Sem dúvida nenhuma, os vencedores desta guerra são a Síria, a Rússia e o Irão, enquanto os vencidos são os 114 Estados que aderiram aos «Amigos da Síria». Alguns não esperaram pela derrota para corrigir a sua política externa. Assim, os Emirados Árabes Unidos acabam de anunciar a reabertura próxima da sua embaixada em Damasco.

O caso dos Estados Unidos é, no entanto, mais complexo. As Administrações Bush Jr. e Obama carregam a responsabilidade total por esta guerra. Foram elas que a planearam e realizaram no quadro de um mundo unipolar. Pelo contrário, o candidato Donald Trump acusou estas Administrações de não defender os cidadãos norte-americanos, mas, antes de servir a finança transnacional. Tornado Presidente, Trump não descansou em cortar o apoio do seu país aos jiadistas e de retirar os seus homens do Médio-Oriente Alargado. Ele deve, portanto, ser também considerado como um dos vencedores desta guerra e poderá logicamente descartar a obrigação do seu país em pagar danos de guerra para as corporações transnacionais envolvidas [9]. Para ele, deve-se agora reorientar as Forças Armadas para a defesa do território, pôr fim ao conjunto do sistema imperial e desenvolver a economia dos EUA.

 

O Afeganistão


Desde há vários meses, os Estados Unidos negoceiam discretamente com os Talibã as condições da sua retirada do Afeganistão. Uma primeira ronda de contacto, por intermédio do Embaixador Zalmay Khalilzad, realizou-se no Catar. Uma segunda ronda acaba de começar nos Emirados Árabes Unidos. Para além das duas delegações, dos EUA e dos Talibã, participam nela a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Paquistão. Uma delegação do governo afegão chegou ao local na esperança de participar.

Faz dezassete anos desde que os Estados Unidos e o Reino Unido invadiram o Afeganistão, oficialmente em retaliação pelos atentados do 11-de-Setembro. Na realidade, esta guerra deu seguimento às negociações de 2001, em Berlim e Genebra. Ela não visa estabilizar este país para o explorar economicamente, antes aí destruir qualquer forma de Estado organizado para controlar a sua exploração. O que é conseguido pois a cada dia que passa a situação está pior do que antes.

Lembremos que as desgraças do Afeganistão começaram durante a presidência Carter. O Conselheiro de Segurança Nacional, Zbigniew Brzeziński, apelou aos Irmãos Muçulmanos e a Israel para lançarem uma campanha de terrorismo contra o governo comunista [10]. Apertado, este fez apelo aos Soviéticos a fim de manter a ordem. Seguiu-se uma guerra de quatorze anos continuada por uma guerra civil, depois pela invasão anglo-americana.

Depois de quarenta anos de destruições ininterruptas, o Presidente Trump afirma que a presença militar dos EUA não é a solução para o Afeganistão, é antes o problema.

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O General James Mattis comprometeu-se em dissociar as Forças Armadas dos EUA dos jiadistas, não a desarticular a aliança em torno dos Estados Unidos.

 

O lugar dos Estados Unidos hoje em dia no mundo


Ao retirar metade das tropas dos EUA legalmente estacionadas no Afeganistão, e a totalidade das que ocupam ilegalmente a Síria, o Presidente Trump cumpre uma das suas promessas eleitorais. Ainda lhe restará retirar os 7.000 homens que permanecerão no local.

É neste contexto que o General Mattis colocou uma questão de fundo na sua carta de demissão [11]. Escreveu ele : «Uma das minhas convicções fundamentais sempre foi a de que a nossa força enquanto nação está intrinsecamente ligada à força de nosso sistema único e completo de alianças e parcerias. Muito embora os Estados Unidos continuem a ser a nação indispensável no mundo livre, nós não podemos proteger os nossos interesses, nem desempenhar eficazmente este papel, sem manter sólidas alianças e fazer prova de respeito em relação a estes aliados. Tal como vós, eu digo desde o princípio que as Forças Armadas dos Estados Unidos não deveriam ser o gendarme do mundo. Em vez disso, devemos utilizar todas as ferramentas do Poder Americano para garantir a defesa comum, nomeadamente assegurando para tal uma liderança eficaz às nossas alianças. Esta força foi demonstrada por 29 democracias com o seu compromisso em se baterem ao nosso lado após o atentado do 11-de-Setembro contra a América. A coligação (coalizão-br) de 74 nações contra o Daesh (E.I.) é outra prova disso» [12].

Por outras palavras, James Mattis não contesta o bom fundamento da retirada das tropas dos EUA do Afeganistão e da Síria, mas, sim o que vai provavelmente seguir-se: o desfazer de alianças em torno dos Estados Unidos e, por fim, o possível desmantelamento da OTAN. Para o Secretário da Defesa, os Estados Unidos devem tranquilizar os seus aliados dando-lhes a impressão que sabem o que fazem e que são os mais fortes. Pouco importa que isso seja verdadeiro ou não, trata-se de manter, custe o que custar, a coesão entre os aliados. Enquanto que para o Presidente, o perigo está em casa. Os Estados Unidos perderam já a sua posição cimeira na economia, em proveito da China, e agora a sua posição cimeira militar para a Rússia. É preciso deixar de ser o zarolho a guiar os ceguinhos e ocupar-se antes de mais dos seus.

Neste assunto, James Mattis age como um soldado. Ele sabe que uma nação sem aliados está derrotada à partida. Enquanto Donald Trump pensa como um líder de negócios. Deve-se, antes de mais, sanear as subsidiárias deficitárias que ameaçam falir a nossa empresa.


Tradução
Alva


[1] Cobra II: The Inside Story of the Invasion and Occupation of Iraq, Michael Gordon & Bernard Trainor, Atlantic Book, 2006.
[2] ISIS is US: The Shocking Truth Behind the Army of Terror, George Washington’s Blog, Wayne Madsen, Webster Griffin Tarpley, Syrian Girl Partisan, Progressive Press, 2016.
[3] “Relações internacionais: a calma antes de que tempestade?”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 9 de Outubro de 2018.
[4] “Por que os Estados Unidos estão de repente se retirando da Síria?”, Valentin Vasilescu, Tradução Marisa Choguill, Rede Voltaire, 21 de Dezembro de 2018.
[5] “Os projectos de Curdistão”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 5 de Setembro de 2016.
[6] “Bernard Kouchner entra ilegalmente na Síria”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 12 de Dezembro de 2018.
[7] The Pentagon’s New Map, Thomas P. M. Barnett, Putnam Publishing Group, 2004. “O projecto militar dos Estados Unidos pelo mundo”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 22 de Agosto de 2017.
[8] “Excerto do discurso pronunciado por Vladimir Putin referente à Defesa”, Vladimir Putin, Tradução Maria Luísa de Vasconcellos, 1 de Março de 2018. “O novo arsenal nuclear russo restabelece a bipolaridade do mundo”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, 7 de Março de 2018. “Os meios russos de defesa hipersónica”, Valentin Vasilescu, Tradução Alva, Rede Voltaire, 15 de Junho de 2016.
[9] “Penhorar transnacionais para reconstruir a Síria ?”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 14 de Agosto de 2018.
[10] « Brzezinski : "Oui, la CIA est entrée en Afghanistan avant les Russes …" », par Zbigniew Brzeziński, Le Nouvel Observateur (France) , Réseau Voltaire, 15 janvier 1998. Charlie Wilson’s War: The Extraordinary Story of the Largest Covert Operation in History, George Crile III, Atlantic Monthly Press, 2003.
[11] “Resignation letter from James Mattis”, by James Mattis, Voltaire Network, 20 December 2018.
[12] “One core belief I have always held is that our strength as a nation is inextricably linked to the strength of our unique and comprehensive system of alliances and partnerships. While the US remains the indispensable nation in the free world, we cannot protect our interests or serve that role effectively without maintaining strong alliances and showing respect to those allies. Like you, I have said from the beginning that the armed forces of the United States should not be the policeman of the world. Instead, we must use all tools of American power to provide for the common defense, including providing effective leadership to our alliances. 29 democracies demonstrated that strength in their commitment to fighting alongside us following the 9-11 attack on America. The Defeat-ISIS coalition of 74 nations is further proof.”

aqui:http://www.voltairenet.org/article204455.html

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

O pesadelo de Polanyi


por Alejandro Nadal [*]
 
Karl Polanyi. Para entender o dano que o neoliberalismo provocou nas nossas sociedades é preciso tomar alguma distância histórica. A perspectiva a partir de horizontes temporais longos permite questionar os mitos e lendas que impedem uma crítica correcta da economia de mercado e do capitalismo. Um olhar sobre o passado ajuda a compreender que as feridas no tecido social não são superficiais e são acompanhadas por uma perigosa mutação até na própria forma de pensarmos.

A primeira coisa que a perspectiva histórica ensina é que a sociedade de mercado nem sempre existiu. Este é o achado fundamental de Karl Polanyi , autor da obra magistral A grande transformação. Apesar de os mercados serem conhecidos desde os fins da chamada idade da pedra, as relações puramente mercantis estavam balizadas por outro tipo de relações sociais que nada tinham a ver com preços e muito menos com uma finalidade de lucro. Para dizê-lo nas palavras de Polanyi, não é a mesma coisa uma sociedade com mercados e uma sociedade de mercado.

Nenhuma sociedade pode sobreviver sem um sistema económico. Mas o sistema económico baseado na ideia de um mercado auto-regulado é uma novidade na história. Na antiguidade existiram mercados de todo tipo de bens, desde tecidos e sandálias até utensílios e alimentos. Havia preços e moedas. Mas as relações mercantis estavam submersas numa matriz de relações sociais cuja racionalidade não era obter lucro ou benefício económico. Como diz Polanyi, aquelas relações mercantis estavam encapsuladas em outro tipo de relações sociais.

As coisas mudaram há uns 200 anos. A sociedade do século XVIII foi testemunha desta mudança portentosa e saudou-a como se se houvesse alcançado o ápice da civilização. A admiração cresceu com o mito de que essa transformação culminava um processo cujo motor era uma suposta propensão natural dos seres humanas à troca, para utilizar as palavras de Adam Smith. Essa crença é o que anima a mitologia sobre uma evolução natural que conduziu à sociedade de mercado.

A realidade é que não há nada natural na expansão do tecido mercantil. Nos povoados e cidades da Europa medieval o comércio era visto com receio e como ameaça às instituições sociais. Por isso era regulado de maneira estrita, com a obrigação de tornar públicos os pormenores de preços e prazo para qualquer transacção mercantil e a proibição de utilizar intermediários. Além disso, manteve-se uma separação rigorosa entre o comércio local e o de longas distâncias. Os comerciantes dedicados a estas últimas actividades estavam impedidos de exercer o comércio a retalho. Os mercados foram sempre uma dimensão acessória das relações sociais.

O surgimento de estados unificados territorialmente impulsionou a destruição das barreiras proteccionistas dos povoados e primeiras aglomerações urbanas, além de projectar a política do mercantilismo a um primeiro plano. Assim foi aberta a porta para a criação de mercados nacionais. Se as relações de mercado chegaram a cobrir com o seu manto toda a trama de relações sociais, isso resultou da acção do poder público ou do que Polanyi chamou estímulos artificiais, não de uma pretensa evolução natural.

A sociedade de mercado que se impôs em fins do século XVIII tinha na sua lógica a necessidade de converter tudo o que tocava numa mercadoria. Entre outras coisas precisou da mercantilização de bens (como a terra), que anteriormente não haviam sido objecto de transacções num mercado. Só assim podia pretender o título de mercado auto-regulado. Quando chegou a revolução industrial, a sociedade de mercado já havia transformado a estrutura das relações sociais que havia imperado na Europa. O capitalismo nascido nas relações agrárias na Inglaterra completou o processo ao converter o trabalho em mercadoria e em outro espaço de rentabilidade.

O neoliberalismo e a globalização das últimas três décadas também foram impostos pela acção do Estado. E o que antes fora visto como uma ameaça para as instituições converteu-se numa realidade tóxica para o tecido social. Tudo o que nos rodeia e até o nosso próprio corpo foi transformado em espaço de rentabilidade para as relações mercantis. O pior pesadelo de Polanyi tornou-se realidade.

Nas costas de uma teoria económica requentada e refuncionalizada para servir de sustento ideológico, o neoliberalismo dependeu da astúcia do capital para criar novos espaço de rentabilidade. As forças do mercado geral deformaram as instituições sociais e criaram uma cultura do sentido comum que a cada dia nos afasta mais da humanidade e do universo. Forjaram uma cultura popular que gira em torno da competição e do individualismo possessivo, com consequências nefastas para os grupos mais vulneráveis. A história do neoliberalismo é um pesadelo do qual urge despertar. 

30/Novembro/2018
[*] Economista, mexicano.

O original encontra-se em www.lahaine.org/mundo.php/la-pesadilla-de-polanyi


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

O enredo da provocação no estreito de Kerch

 


O cenário de guerra continua a aprontar-se nas fronteiras da Rússia. A provocação de domingo passado já fez o seu caminho, mas outras poderão promover novos passos para uma situação incontrolável.

 Voluntários neonazis do Batalhão de Azov (integrado na Guarda Nacional Ucraniana) manifestam-se, em frente ao parlamento da Ucrânia, em Kiev, em apoio do presidente Piotr Poroshenko, após o incidente em Kerch entre barcos ucranianos e russos.
Voluntários neonazis do Batalhão de Azov (integrado na Guarda Nacional Ucraniana) manifestam-se, em frente ao parlamento da Ucrânia, em Kiev, em apoio do presidente Piotr Poroshenko, após o incidente em Kerch entre barcos ucranianos e russos. Créditos / Independent/EPA


Os acontecimentos em curso no Estreito de Kerch, que liga o Mar Negro ao Mar de Azov, têm que se lhe diga. É que, muito para lá do óbvio carácter provocatório do comportamento do regime neonazi da Ucrânia, está a cumprir-se uma agenda secreta menos óbvia e potencialmente mais perigosa do que os factos a que vamos assistindo. Até onde nos levará este caminho? Sem fazer futurologia, poderemos fazer uma ideia repescando antecedentes, identificando protagonistas e antecipando desenvolvimentos, alguns dos quais estão inscritos no calendário.

Dois navios militares e um rebocador ucranianos dirigiam-se no domingo passado ao Estreito de Kerch, em rota do Mar Negro para o Mar de Azov, ao que parece com destino à cidade de Mariupol, quando foram interceptados a tiro por navios russos. Registaram-se três feridos sem extrema gravidade, os barcos foram apresados, os tripulantes detidos.

Mais uma malfeitoria da Rússia do inqualificável Putin, informa, a uma só voz, a comunicação social mainstream, sem dar-se ao trabalho de aprofundar minimamente a situação. Nem é preciso. De acordo com os dogmas estabelecidos, o regime da Ucrânia é neonazi mas “democrático”, goza das boas graças de entidades acima de quaisquer suspeitas como a União Europeia e a NATO; e a Rússia é a Rússia, fica tudo dito.


Andrey Dratch é um dos marinheiros ucranianos aprisionados pelo FSB russo no decorrer do incidente no estreito de Kerch, em 25 de Novembro de 2018. Créditos
Mas aprofundemos a situação por nossa conta e risco.

Está comprovadíssimo que:

- Os navios militares ucranianos receberam advertências russas por rádio informando as tripulações de que o estreito estava fechado por razões de tráfego e segurança;

- Os comandantes das três embarcações fizeram-se de surdos em relação aos avisos: “ignorámos deliberadamente os pedidos russos para não avançarmos mais”, confessou o comandante Volodymir Lesovoy;

- Os navios ucranianos transportavam armamento e munições: armas ligeiras e armas automáticas de grande calibre, de acordo com a mesma confissão;

- A bordo seguiam agentes dos serviços militares de espionagem (SBU), segundo revelou o director desta entidade, Vasyl Hrytsak;

- “Estava consciente de que as acções da Marinha Ucraniana no Estreito de Kerch eram provocatórias”, afiançou ainda o comandante Lesovoy.1

 Foi, portanto, um dos responsáveis ucranianos envolvidos na operação quem a qualificou: “uma provocação”.

Em que contexto?

 

É muito importante conhecer o contexto geográfico e geopolítico em que este incidente ocorre.
A Rússia e a Ucrânia partilham águas territoriais tanto no Mar Negro como no Mar de Azov segundo normas estabelecidas por um acordo bilateral estabelecido em 2003. A situação, porém, alterou-se a partir do golpe de Estado fascista na Ucrânia, em 2014, seguido pela reintegração da Crimeia na soberania russa, conforme decisão tomada por grande maioria, em referendo, pela população da península. Uma vez que a Crimeia se tornou território russo, a segurança do Estreito de Kerch passou a ser assumida por Moscovo, pela aplicação automática dos artigos 19 e 21 da Lei Internacional Marítima. Foi neste âmbito que as autoridades russas pediram aos navios ucranianos para não avançarem, uma vez que tinham encerrado temporariamente a passagem devido a manobras de tráfego e à segurança da nova ponte que, desde o início deste ano, liga o território continental russo à Península da Crimeia.

Deve dizer-se que, apesar do agravamento das tensões entre os dois países vizinhos, sobretudo a partir de 2014, os navios ucranianos, tanto civis como militares, têm passado normalmente o Estreito de Kerch segundo as normas internacionais, neste caso aplicadas através de meios russos.

No entanto, assim como não reconhece a reintegração da Crimeia na Rússia, a Ucrânia não aceita agora que a segurança no Estreito de Kerch seja garantida por Moscovo, ponto de partida para a violação da Lei Marítima Internacional por parte de Kiev. Uma situação que não tinha antecedentes, apesar de, repete-se, as relações entre a Ucrânia e Moscovo se terem deteriorado sobretudo a partir de 2014.

Pelo que é legítimo registar que alguma coisa determinou a mudança de comportamento da Ucrânia.

 

Antecedentes

 


É certo que durante todo este ano foram observados sinais de que as tensões estavam a aumentar na região do Mar de Azov. Um navio de pesca russo, registado na Crimeia, foi apresado e a sua tripulação humilhada no dia 24 de Março. As autoridades ucranianas recusaram-se a tratar os tripulantes como cidadãos estrangeiros e, depois de maus tratos psicológicos e físicos, acabaram por permitir que seguissem para a península mas confiscando-lhes os passaportes, atitude que viola normas internacionais.

Em Outubro, outra embarcação russa, desta feita um petroleiro, foi retida no porto ucraniano de Khersen.

O clima regional deteriorou-se, principalmente, a partir da inauguração da ponte ligando o território continental russo à Crimeia, sobre o Estreito de Kerch, uma obra que reforçou a agressividade da Ucrânia face à irreversibilidade da mudança de soberania da península.

Embora as tensões tenham vindo a convergir em torno das normas de passagem do Estreito de Kerch, registaram-se outros acontecimentos de âmbito mais geral e regional que devem ser encarados à nova luz projectada pelo incidente de domingo passado.

Um deles foi a decisão do Tribunal Constitucional de Kiev no sentido de alterar a Constituição do país de modo a abrir caminho para a integração na União Europeia e na NATO.

O procedimento nada tem de surpreendente – a NATO e a União Europeia fomentaram o golpe que facilitou este passo – mas causa fissuras no tecido político e demográfico do país, além de ultrapassar mais uma linha vermelha em relação às posições russas quanto à instalação da NATO nas suas fronteiras.

No dia 7 de Novembro, o governo da Ucrânia aprovou a Resolução 934 que produz alterações às normas sobre a aplicação da lei marcial, nomeadamente no que diz respeito à evacuação obrigatória de populações e à definição de categorias populacionais para estabelecer o modo como deve decorrer o processo. Em particular, o documento estipula “as tarefas e funções do comando militar, ministérios, outras autoridades executivas centrais, órgãos estaduais e órgãos de evacuação temporária para a implementação de medidas de um regime legal de lei marcial”.

Em suma, nos últimos meses vêm-se registando alguns acontecimentos na Ucrânia, sobretudo este cuidado especial com a actualização da lei marcial, reveladores de que os acontecimentos no Estreito de Kerch não surgem do nada, encaixando-se antes numa cadeia de premeditação propícia a criar um incidente específico – “uma provocação”, como confessou o comandante Volodymir Lesovoy.

 

Para quê?

 

A situação internacional e regional actual abre várias pistas sobre a razão de ser e a utilidade deste episódio.

A imposição da lei marcial é uma delas – e já foi consumada. Através desta decisão, o presidente da Ucrânia e a estrutura nazi-fascista que o envolve, com pólo no Batalhão Azov e respectivas ramificações, ficam de mãos livres para prosseguir o seu caminho no sentido da pretendida instauração plena de uma ditadura, sempre a pretexto do combate à “ameaça russa”.

Confrontado com eleições marcadas para Março de 2019 e creditado pelas sondagens nuns minguados oito por cento de popularidade, o presidente Piotr Porochenko só tem a ganhar em consagrar-se o mais rapidamente possível como comandante-em-chefe de uma nação em estado de guerra contra um inimigo poderoso.

A partir de agora, e pelo menos até finais de Janeiro – estas situações são facilmente prorrogáveis –, o presidente pode ilegalizar partidos, reforçar a censura à comunicação social, aterrorizar estratos populacionais com invasões de residências, prisões arbitrárias e confiscação abusiva de materiais. E também reforçar a ofensiva militar e a repressão de índole fascista sobre as populações da região de Donbass, sobretudo Donetsk e Lugansk. Quem sabe se Porochenko não conseguirá mesmo evitar as eleições presidenciais, facilmente adiáveis como prorrogáveis são os estados de excepção, desde que continue nas boas graças do Batalhão Azov cumprindo a sua agenda fascista.

Este facto não fere, como não feriu em 2014, as férreas convicções “democráticas” da União Europeia e da NATO, que já garantiram estar sempre do lado da Ucrânia, como disse alto e bom som o secretário-geral da aliança militar, Jens Stoltenberg; ou como fez o próprio Conselho de Segurança da ONU, ao tomar o partido de Kiev quanto ao processo de discussão do incidente do Estreito de Kerch.

Palavras e actos que, em nível subliminar, contemplam respostas aos apelos menos diplomáticos feitos pelo ex-comandante da NATO James Stavridis – “metam o Putin na ordem!” – e pelo embaixador ucraniano em Berlim, Andrij Melnik - “ponham o Putin no lugar!”

Melnik pediu ainda mais: novas sanções contra a Rússia, a que Trump e Bruxelas se preparam para fazer a vontade; bloqueio de todas as importações de gás natural e petróleo da Rússia e “congelamento” do gasoduto NordStream 2, que tem início em território russo e termo na Alemanha.

Este assunto já fia mais fino: a senhora Merkel parece não estar pelos ajustes e muitos governos europeus não estarão dispostos a pagar a energia a preços descomunais por causa de três tiros num barco de dois canos nos apertos da entrada do Mar de Azov.

A situação tem ainda, obviamente, outras repercussões latentes, relacionadas com o previsto diálogo entre Trump e Putin, à margem da próxima reunião do G20. De Bruxelas a Washington há muita gente que não deseja encontros entre os dois presidentes, por causa do mito segundo o qual o dirigente russo “mete no bolso” o norte-americano. E o estado a que as coisas chegaram pode fazer-lhes a vontade; ou, pelo menos, concentrar na falsa questão ucraniana as palavras que deveriam dedicar-se a problemas reais como a Síria e a Península da Coreia, por exemplo.

Agora com poderes reforçados, o presidente Porochenko já pediu mais navios de guerra da NATO para o Mar Negro; e a Rússia, pelo sim pelo não, vai despachar sistemas defensivos S-400 para a Península da Crimeia.

Isto é, o cenário de guerra continua a aprontar-se nas fronteiras da Rússia; e se a provocação de domingo passado já fez o seu caminho, outras poderão promover novos passos para uma situação incontrolável.

Com a Europa “democrática” e a aliança militar “democrática” encorajando, dando força e cobrindo sempre a Ucrânia fascista como sua ponta de lança.

  • 1. A transcrição completa das declarações do comandante Lesovoy e dos marinheiros Andrey Dratch e Sergey Tsybizov pode ser lida aqui.
aqui:https://www.abrilabril.pt/internacional/o-enredo-da-provocacao-no-estreito-de-kerch

terça-feira, 27 de novembro de 2018

De 1945 até hoje, 20 a 30 millhões de mortes consumadas pelos USA


É um facto, não é uma análise, nem mesmo uma opinião: a “ordem internacional livre e aberta”, promovida desde 1945 pelos Estados Unidos, custou a vida de 20 a 30 milhões de pessoas em todo o mundo. Nenhum presidente, seja qual for, conseguiu mudar o ritmo desta máquina da morte.


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No resumo de seu último documento estratégico - 2018 National Defense Strategy of the United States of America (cujo texto completo é um segredo) - o Pentágono afirma que “depois da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos e os seus aliados instauraram uma ordem internacional livre e aberta para salvaguardar a liberdade e os povos da agressão e da coerção”, mas que “agora esta ordem está a ser minada a partir do interior pela Rússia e pela China, que violam os princípios e as regras das relações internacionais”. Alteração completa da realidade histórica.

O Prof. Michel Chossudovsky, Director do Centre for Research on Globalization, recorda que estes dois países, hoje classificados como inimigos, são aqueles que, quando eram aliados dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial, pagaram a vitória do Eixo nazi-fascista Berlim-Roma-Tóquio com o preço mais elevado em vidas humanas: a União Soviética, cerca de 26 milhões e a China, 20 milhões, em comparação com pouco mais de 400 mil dos Estados Unidos.

Com esta premissa, Chossudovsky, do Global Research, apresenta um estudo documentado por James A.Lucas, sobre o número de pessoas mortas pela série ininterrupta de guerras, golpes de Estado e outras operações subversivas efectuadas pelos Estados Unidos, desde o final da guerra, em 1945, até hoje: estima-se de 20 a 30 milhões [1]. Cerca do dobro do número de vítimas da Primeira Guerra Mundial, cujo centenário acaba de ser celebrado em Paris, com um “Fórum da Paz”. Além dos mortos, incluímos os feridos, que muitas vezes são deixados com deficiências: alguns especialistas estimam que, por cada pessoa que morreu na guerra, outras 10 ficam feridas. Isto significa que os feridos provocados pelas guerras USA atingem centenas de milhões. À quantidade estimada no estudo adiciona-se um número inquantificado de mortes, provavelmente centenas de milhões, provocados desde 1945 até hoje, pelos efeitos indirectos das guerras: fomes, epidemias e migração forçada, escravidão e exploração, danos ambientais, roubo de recursos às necessidades vitais a fim de cobrir as despesas militares.

O estudo documenta as guerras e golpes realizados pelos Estados Unidos em mais de 30 países asiáticos, africanos, europeus e latino-americanos. O que revela que as forças militares dos EUA são directamente responsáveis por 10 a 15 milhões de mortes, causadas por grandes guerras: as da Coreia e do Vietname e as duas contra o Iraque. Outros 10 a 14 milhões de mortes foram provocadas pelas guerras ‘por procuração’, conduzidas pelas forças armadas aliadas, treinadas e comandadas pelos USA no Afeganistão, em Angola, no Congo, no Sudão, na Guatemala e noutros países. A Guerra do Vietname estendeu-se ao Camboja e ao Laos, causou um número de mortes estimado em 7,8 milhões (além de um grande número de feridos e lesões genéticas nos orgãos reprodutores, devido à dioxina espalhada pelos aviões de guerra USA). A guerra ‘por procuração’, na década de oitenta, no Afeganistão, foi organizada pela CIA que treinou e armou, com a cola-boração de Osama bin Laden e do Paquistão, mais de 100.000 mujaidin para combater as tropas soviéticas caídas na “armadilha afegã” (como mais tarde a definiu Zbigniew Brzezinski, salientando que o treino dos mujaidin havia começado em Julho de 1979, cinco meses antes da invasão soviética do Afeganistão).

O golpe mais sangrento foi organizado na Indonésia, em 1965, pela CIA: forneceu aos esquadrões da morte indonésios, a lista dos primeiros 5.000 comunistas e outros a serem mortos. O número de abatidos é estimado entre meio milhão e 3 milhões.

Esta é “a ordem internacional livre e aberta" que os Estados Unidos, independentemente dos que presidem à Casa Branca, procuram alcançar para “salvaguardar os povos da agressão e da coerção”.
 
Fonte
Il Manifesto (Itália)
 
aqui:http://www.voltairenet.org/article204022.html

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Criminosos de guerra em altos cargos comemoram o fim da I Guerra Mundial


por Michel Chossudovsky 
 
Numa amarga ironia, vários líderes mundiais que estavam a comemorar "pacificamente" o fim da Primeira Guerra Mundial em Paris, incluindo Trump, Netanyahu, Macron e May são os protagonistas de guerras no Afeganistão, Palestina, Síria, Líbia, Iraque e Iémen.

Para colocar o assunto sem artifícios, eles são criminosos de guerra de acordo com o direito internacional: Têm sangue nas mãos. Que diabo estavam eles afinal a comemorar?

Nas palavras de Hans Stehling: "Assim como honramos os 15 milhões de mortos de 1914-1918, um Presidente dos EUA em demência entra em Paris com planos de atacar o Irão" [com armas nucleares] ( Global Research , 12 de novembro de 2018)

Para que não nos esqueçamos: a guerra é o crime máximo, "o crime contra a Paz", conforme definido no Julgamento de Nuremberga.

Os EUA e seus aliados embarcaram no crime de guerra fundamental, uma aventura militar a nível mundial, "uma longa guerra", que ameaça o futuro da humanidade. O projeto militar global do Pentágono é o da conquista mundial.

A guerra para acabar com todas as guerras???

Cem anos depois: o que está a acontecer AGORA, em novembro de 2018?

Grandes operações militares e de serviços secretos foram lançadas no Médio Oriente, Europa Oriental, África Subsariana, Ásia Central e Extremo Oriente. A agenda militar dos EUA combina quer operações de teatro de guerra, quer ações secretas organizadas para desestabilizar Estados soberanos, além da guerra económica.

Ao longo dos últimos 17 anos, logo após o 11 de setembro, uma série de guerras lideradas pelos EUA e pela NATO foram lançadas: Afeganistão, Iraque, Líbano, Líbia, Síria e Iémen, resultando em milhões de mortes de civis e inúmeras atrocidades. Essas guerras foram lideradas pelos EUA e seus aliados da NATO.

É tudo por uma boa causa: "Responsabilidade de Proteger" (R2P), "Ir atrás dos "maus", "Travar uma Guerra Global contra o Terrorismo".

Acontece que "o inimigo externo número um", Osama bin Laden, foi recrutado pela CIA. E as famílias Bush e Bin Laden são amigas.

Tal foi confirmado pelo Washington Post : o irmão de Osama, Shafiq bin Laden , teve um encontro com o pai de George W Bush, George H. Walker Bush , numa reunião de negócios com a empresa Carlyle no Ritz Carlton Hotel de Nova York em 10 de setembro, um dia antes do 11 de setembro:
Não serviu de nada que quando o World Trade Center ardeu em 11 de setembro de 2001, a notícia tenha interrompido uma conferência de negócios do Carlyle no Ritz-Carlton Hotel, onde comparecera um irmão de Osama bin Laden. O ex-presidente Bush, um colega investidor, estivera com ele na conferência no dia anterior ( Washington Post, 16/março/2003).
Será que isto não soa como uma "teoria da conspiração"? Enquanto Osama supostamente coordenava o ataque ao WTC, seu irmão Shafiq encontrava-se com o pai do presidente, de acordo com o Washington Post.

Por sua vez, de acordo com o Wall Street Journal de 27 de setembro de 2001: "A família bin Laden familiarizou-se com alguns dos maiores nomes do Partido Republicano ...".

Aqui está um conceito tipo "acredite ou não": se os EUA aumentassem os gastos de defesa para perseguir Osama bin Laden (Inimigo Número Um), a família Bin Laden beneficiaria, por assim dizer, porque (em setembro de 2001) eles eram parceiros do Carlyle Group, uma das maiores empresas de gestão de ativos do mundo:

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Empreendendo a guerra contra "os maus"

Tal como amplamente documentado, os "maus" ou terroristas, isto é, a Al-Qaeda e seus vários afiliados, incluindo o ISIS-Daesh, são fruto dos serviços secretos ocidentais (também conhecidos como ";ativos de informação").

Em desenvolvimentos recentes, os EUA e Israel estão a ameaçar o Irão com armas nucleares. Forças terrestres dos EUA e da NATO estão a ser implantadas na Europa Oriental na vizinhança imediata da Rússia. Por sua vez, os EUA estão confrontando a China sob o chamado "Pivot to Asia", que foi lançado durante a presidência de Obama.

Os EUA também ameaçam fazer explodir a Coreia do Norte com o que é descrito no jargão militar dos EUA como uma "operação de nariz sangrento" que consiste em empregar as mini-bombas nucleares B61-11 de menor rendimento mas "mais utilizáveis"; consideradas "inofensivas para civis porque a explosão é feita no sub solo", segundo opinião científica em contrato com o Pentágono.

Hiroshima, 07/Agosto/1945. A arma nuclear tática B61-11 tem uma capacidade explosiva entre um terço e doze vezes a bomba de Hiroshima.

Fazendo uma retrospetiva para 6 de agosto de 1945, quando a primeira bomba atómica foi lançada em Hiroshima, 100 mil pessoas foram mortas nos primeiros sete segundos após a explosão.

Mas foi um "dano colateral": nas palavras do presidente Harry Truman:
O mundo notará que a primeira bomba atómica foi lançada em Hiroshima, uma base militar. Isso porque desejámos, neste primeiro ataque, evitar, na medida do possível, o assassinato de civis.
O que está em jogo neste momento é um empreendimento criminoso global que desafia o direito internaciona l. Nas palavras do falecido promotor de Nuremberg, William Rockler:
"Os Estados Unidos já descartaram pretensões de legalidade e decência internacionais e embarcaram numa via de imperialismo cru e descontrolado" (William Rockler, procurador do Tribunal de Nuremberg).
Lembramos que o arquiteto de Nuremberg, o juiz do Supremo Tribunal e Promotor de Nuremberg, Robert Jackson, disse então com alguma hesitação:
"Nunca devemos esquecer que o registo em que julgamos estes réus é o registo sobre o qual a história nos julgará amanhã. Passar a esses réus um cálice envenenado é colocá-lo em nossos próprios lábios também".
Esta declaração histórica aplica-se a Donald Trump, Benjamin Netanyahu e Margaret May?

Em desafio ao Tribunal de Nuremberg, os EUA e seus aliados invocaram a condução de "guerras humanitárias" e operações de "contra-terrorismo", tendo em vista instalar a "democracia" em países alvo.

Os media ocidentais aplaudem. A guerra é rotineiramente anunciada nos noticiários como um empreendimento pacificador. A guerra torna-se paz. As realidades são viradas de cabeça para baixo.

Estas mentiras e fabricações fazem parte da propaganda de guerra, que também constitui um empreendimento criminoso de acordo com Nuremberg.

As guerras lideradas pelos EUA e pela NATO e aplicadas pelo mundo inteiro são um esforço criminoso sob o disfarce de "responsabilidade de proteger" e contra-terrorismo. Violam a Carta de Nuremberga, a Constituição dos EUA e a Carta da ONU. De acordo com o ex-procurador chefe do Tribunal de Nuremberga, Benjamin Ferencz, relativamente à invasão do Iraque em 2003:
"Pode-se argumentar sem necessitar de provar, dado que é percetível por si mesmo, que os Estados Unidos são culpados do crime supremo contra a humanidade – que é uma guerra ilegal de agressão contra uma nação soberana.".
Ferenz estava a referir-se a "Crimes contra a Paz e de Guerra" (Princípio VI de Nuremberg), o qual afirma o seguinte:
"Os crimes adiante descritos são puníveis como crimes de direito internacional:

(a) Crimes contra a paz:

     (i) Planeamento, preparação, iniciação ou desencadeamento de uma guerra de agressão ou guerra em violação de tratados, acordos ou garantias internacionais;

     (ii) Participação num plano comum ou conspiração para a realização de qualquer dos atos mencionados em (i).

b) Crimes de guerra:

Violação das leis ou costumes de guerra que incluem, mas não se limitam a: assassinato, maus-tratos ou deportação para trabalho escravo ou para qualquer outro fim da população civil de ou em território ocupado; assassinato ou maus-tratos de prisioneiros de guerra ou pessoas no mar, assassinato de reféns, saque de propriedade pública ou privada, destruição arbitrária de cidades, vilas ou aldeias, ou devastação não justificada por necessidade militar.

c) Crimes contra a humanidade:

Assassinato, extermínio, escravidão, deportação e outros atos desumanos praticados contra qualquer população civil, ou perseguições por motivos políticos, raciais ou religiosos, quando tais atos são praticados ou tais perseguições são executadas em execução ou em conexão com qualquer crime contra a paz ou qualquer crime de guerra.

     "(I) planeamento, preparação, iniciação ou desencadeamento de uma guerra de agressão ou guerra em violação de tratados, acordos ou garantias internacionais;

     (ii) Participação num plano comum ou conspiração para a realização de qualquer dos atos mencionados em (i)".
O original encontra-se em www.globalresearch.ca/... e em www.informationclearinghouse.info/50598.htm

Este artigo encontra-se em https://resistir.info/ .

domingo, 28 de outubro de 2018

WhatsApp, sozinho, não muda o mundo


por Elaine Tavares [*]
 
Teórico da comunicação, o canadense Marshall MacLuhan tem vindo à baila de novo, com seu determinismo tecnológico, pois em função das novas tecnologias que estão transformando o mundo muitos estudiosos da comunicação têm revisitado suas teses. Ele escreveu um livro em 1964 que trazia para o debate a questão dos meios de comunicação, sendo esses meios apresentados como a própria mensagem. Segundo ele o meio no qual a comunicação é propagada acaba sendo ele mesmo um instrumento importante de mudança das relações sociais. Um exemplo usado foi o da estrada de ferro.

Sua disseminação, ligando os lugares, diminuindo o tempo para a chegada de uma carta, por exemplo, acabou extrapolando seu sentido de comunicação e alterando a vida das gentes em todas as esferas da existência. As tecnologias, então, para McLuhan, mudavam a escala, o ritmo e o padrão da vida humana. Assim foi o jornal, o rádio e a televisão. Ele acreditava que se devia estudar mais o meio e não apenas a mensagem que ele dissemina, como faziam os teóricos da época.

Bom, McLuhan estava certo na ideia de que se deveria estudar também o meio, mas errava em pensar que só olhando para o meio se poderia chegar a uma análise correta da realidade que envolve todo o processo comunicativo. Não seria assim tão simplista. A realidade é complexa. Mas, como é comum aos funcionalistas, a tendência sempre foi separar as partes, rejeitando a universalidade da análise.

Hoje, 2018, estamos no meio de um furacão tecnológico. Os meios de comunicação foram alterados significativamente, provocando, desde a popularização da internet, uma mudança concreta na temperatura social e política do planeta. Uma pessoa com um celular esperto (smart) na mão está conectada no mundo e não apenas recebe informações, mas também produz e compartilha. Tudo isso numa velocidade alucinante.

Se fôssemos seguir a proposta de McLuhan – analisando apenas o meio - iríamos verificar parte das importantes mudanças que aconteceram na sociedade com a chegada dessas tecnologias. A vida ficou mais rápida, o tempo de tudo acelerou, as respostas são instantâneas, não há mais separação entre o público e o privado, o individualismo exacerbou, a alienação cresceu e a fronteira entre a realidade e a ficção vai desaparecendo. A internet tem se transformado na via principal da comunicação e o celular esperto é o meio onipresente na vida de um número gigante de seres humanos.

Mas, para além do meio, há uma série de variáveis que também precisam atenção. Como, por exemplo, a possibilidade do conhecimento concreto da realidade e a educação. Lembro que nos velhos tempos de discussão sobre a influência da televisão, ainda no século passado, Umberto Eco insistia no fato de que se deveriam criar espaços para o que ele chamava de "alfabetização para a televisão". Entendia o pensador italiano que se as pessoas conhecessem as artimanhas da televisão teriam muito mais condições de se imunizar contra a manipulação, afinal, notícias falsas sempre foram constantes nos meios comerciais, sob o controle da classe dominante. 

Atualmente, a chance de uma pessoa ser manipulada pela informação falsa cresceu de maneira assustadora. E isso se deve justamente à revolução tecnológica que colocou em cena os novos equipamentos. Mas, é claro que a culpa da manipulação não é do celular esperto. De novo, questões como educação, conhecimento e poder econômico precisam ser agregadas à análise. 

Uma pessoa que compreenda como se dá o processo de dominação no mundo, educada para o uso das tecnologias, terá mais chance de navegar nesse mar de informação que jorra a uma velocidade estonteante. O pensamento crítico não brota como mágica. Precisa de muita leitura, muita reflexão, muito debate. Sem isso, a pessoa segue o fio da confiança. "Se foi fulano ou beltrano, em quem confio, que disse, tá dito". 

A confiança é um ato de fé. Não é um processo de conhecimento. Mas, ao que parece, é o que dirige a vida internética nos dias atuais.

As eleições brasileiras estão mostrando de maneira bem clara como isso acontece. Existe o meio, que fatalmente muda a vida de toda a gente, mas também existe a mensagem fabricada e existe o poder econômico garantindo que essa mensagem feita de mentira, chegue aos celulares espertos das pessoas, pela via da confiança: os grupos de amigos e de família.

Com isso, aderimos mais um elemento de análise, que é a do poder econômico e como ele pode ser decisivo num processo e numa situação em que as pessoas estejam completamente despojadas da ferramenta do pensamento crítico. A guerrilha comunicacional implementada no Brasil não diz respeito apenas a milhões de pessoas que estão enojadas com a política e a corrupção e, portanto, ficam sensíveis aos discursos moralistas.

Estas pessoas são, de fato, importantes reprodutoras das mentiras criadas, mas sem a fabricação dessas mentiras, no texto e na imagem, elas certamente compartilhariam em seus grupos de confiança outras mensagens. O fato é que existem empresas especializadas em fabricar mentiras, existem empresas que roubam os dados disponibilizados nas redes sociais e existem empresas cujo trabalho é disparar mensagens para todos esses dados roubados e/ou comprados.

Todas são empresas, logo, precisam ser pagas para fazer o serviço. E são pagas por quem? Pelos empresários que serão beneficiados com a situação que as mentiras criarão. É o círculo vicioso da dominação. Não se trata de fabricação de pós-verdades, como dizem alguns. É a mentira mesmo, a boa e velha mentira que sempre venceu as "guerras" de todo o tipo. E os meios de comunicação são os veículos perfeitos para a disseminação dessas mentiras.

Quem insiste em dizer que os meios não têm todo esse poder, basta olhar para a história. Guerras são produzidas a partir da semeadura da mentira nos meios de comunicação de massa. Orson Welles colocou os Estados Unidos em estado de histeria com a "Guerra dos Mundos", uma história de ficção de George Wells  transmitida pelo rádio como se fosse uma cobertura jornalística da chegada de extraterrestres, e chegou a levar pessoas ao suicídio.

Naqueles dias, em 1938, o rádio era o nosso uatizapi. Mais no presente podemos falar do famigerado ataque dos EUA aos Iraque, depois de inocular o mundo inteiro com a mentira de que lá havia armas químicas que poderiam destruir o planeta.

Na atualidade a internet potencializa ainda mais esse processo de fabricação de mentiras. Foi assim na chamada "primavera árabe", com a massiva participação do Youtube e do Facebook, criando e disseminando vídeos falsos que constituíram a "verdade" requerida pelos Estados Unidos para destruir vários países em sequência. A mentira tornando-se verdade. Não é pós-verdade, é mentira mesmo.

De novo é importante frisar: os meios não são responsáveis por isso. Os responsáveis são os governos, as pessoas, os grupos de poder. Julian Assange desvendou isso com o seu WikiLeaks, e está com a cabeça à prêmio, sem poder sair da embaixada do Equador em Londres, onde está preso, porque se botar o pé na rua é encarcerado pelos Estados Unidos, que o considera um "terrorista". Quantos no mundo creem nisso? Outro que revelou como se dá o processo de manipulação das mentes com a apropriação de dados via facebook e redes sociais é Edward Snowden, igualmente caçado pelos EUA. A verdade está aí, às claras, mas poucos conseguem ver.

Óbvio que as pessoas submetidas à manipulação não são campos vazios, no qual se plantam as mentiras e elas por si só comandam as vidas. Não é tão simples assim. As pessoas têm suas mentes bombardeadas diuturnamente pela comunicação da classe dominante, seja pelo jornal, rádio, televisão, outdoor, cartaz no ônibus etc... São meios que existem fora da bolha internética e que ainda têm força e incidência, por sua sistematicidade.

Tudo isso vai adubando a mente para que as mentiras encontrem campo fértil onde se instalar e crescer. Nesse sentido, o celular esperto, que é só um meio – poderoso meio - acaba servindo para amalgamar e potencializar todo esse bombardeio ideológico necessário para manter o estado de coisas.

No caso do Brasil, a semeadura do ódio ao PT veio sendo feita desde o segundo mandato de Lula, crescendo exponencialmente a partir de Dilma Rousseff. Foi sistemático e cotidiano e encontrou amparo na materialidade da vida das pessoas, que começou a ruir também em função da crise econômica.

Ancorados em meias-verdades, como os casos de corrupção – alguns verdadeiros, outros não – os grupos de poder foram fertilizando as mentes e preparando o terreno para as eleições deste ano. O que não esperavam era que um candidato, fora do circuito tradicional dos partidos e dos grupos de poder, fosse sintetizar de maneira tão bem acabada toda a carga de preconceito, moralismo, medo e ódio que a classe dominante, de maneira tão profissional, insiste em manter viva para manipular as pessoas segundo seus interesses.

Não é sem razão que a velha elite, apesar do susto inicial, agora já vai se aproximando do candidato fascista, porque reconhece que ele hoje comanda as massas e isso é tudo que interessa. Assim, caso Bolsonaro vença as eleições, não será surpresa ver a direita tradicional governando junto, atuando novamente no sentido de semear mentiras para justificar a sistemática dominação. A culpa dos desastres governamentais sempre será de outro e o repertório de mentiras é sempre renovado, com o auxílio seguro dos meios de comunicação, todos eles.

Contra isso, há que reinventar as formas de intervenção. Lembrando sempre que é a confiança que comanda. Por isso que a relação pessoa/pessoa não pode deixar de existir. É a confiança pessoal que determina a fé das gentes. Nesse sentido, insisto no bom e velho trabalho de base, quando o olho no olho, o conhecimento interpessoal, amoroso e comprometido, faz a diferença.

Hoje, os grupos de uatizapi que disseminam ódio são grupos formados por pessoas que se conhecem, que tem laços afetivos e confiam umas nas outras. Logo, o uatizapi é só o meio que as unifica e comunga. Ele, sozinho, não provoca estragos. É toda essa trama que, usando o uatizapi, se consolida.

Correndo o risco de ser apontada como uma idealista romântica, insisto no trabalho de base, que foi abandonado pelos partidos. Um trabalho desenvolvido por pessoas bem formadas, preparadas, armadas de conhecimento crítico.

A roda da vida não para e, aconteça o que acontecer, a luta segue. Resistimos e resistiremos.
23/Outubro/2018
 
[*] Jornalista e colaboradora do Instituto de Estudos Latino-Americanos da UFSC.

O original encontra-se em www.correiocidadania.com.br/...


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

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