terça-feira, 23 de novembro de 2010

Pobreza: 41% das pessoas carenciadas nunca foram pobres.

Cinco mil famílias em lista de espera para receber apoios. Um quinto das instituições de solidariedade social do país sem recursos para responder a todos os pedidos, e 76% a assegurar que estes aumentaram nos últimos três anos. Um estudo com 3279 instituições e 15 mil pessoas carenciadas apresentado ontem na conferência Portugal Solidário, no Porto, revelou o extremar da pobreza em Portugal: 41% nunca foram pobres, a maioria são idosos, só 19% têm um trabalho remunerado.


"As instituições estão no limite", diz ao i Isabel Jonet, presidente do Banco Alimentar Contra a Fome que realizou a análise em parceria com a Entrajuda, através da Universidade Católica Portuguesa. Os inquéritos às instituições foram realizados em Abril e as entrevistas decorreram entre Junho e Outubro, naquilo que se espera que venham a ser análises regulares para a criação de um Observatório da Pobreza em Portugal, anunciou a responsável.

Braga, Grande Porto e Setúbal são as zonas do país onde há mais pedidos, adianta Isabel Jonet, embora a incapacidade de resposta das instituições se tenha tornado uma realidade de Norte a Sul. Se a maior procura coincide com as zonas onde há mais desemprego, a cobertura também continua a ser assimétrica. No Algarve e Alentejo estão situadas apenas 11,4% das instituições.

Novos pobres Nos novos pedidos de apoio destacavam-se situações de desemprego, endividamento e divórcio ou abandono do lar, esta última com um peso de 42,6%. Mais de metade vive com menos de 250 euros por mês e apenas 9% dos inquiridos refere ter mais de 500 euros. Reformados (68%) e desempregados (20%) representam a maioria das pessoas que recorrem ao apoio das instituições de solidariedade social, sendo que 41% são pessoas que nunca foram pobres, e que agora se sentem como tal, destaca Isabel Jonet. Entre os inquiridos em idade activa, 60% está desempregado, e destes 76% há mais de um ano. A falta de alimentos vai-se tornando endémica: 20% diz não ter comida até ao final do mês e 32% refere que isso acontece "às vezes". Se a comida falta, as contas mantêm-se: 31%, e sobretudo jovens, adianta ter um empréstimo para pagar.

Apoio possível Neste momento a rede do Banco Alimentar Contra a Fome, através de 1800 instituições, dá apoio a 280 mil pessoas. A nível nacional estima-se que os apoios das instituições cheguem a mais de 70 mil famílias e 350 mil pessoas, mais um número para realidade da pobreza em Portugal. Segundo os últimos dados do INE, de 2008, 41,5% dos portugueses vive no limiar da pobreza, uma fatia que só desce para 24,3% com as prestações sociais mas onde cabem ainda cerca de 170 mil portugueses que não recorrem a estes apoios por vergonha, como noticiado esta semana pelo i.

Se nas instituições inquiridas pela Universidade Católica 77,1% têm inspiração religiosa (73,2% católica), o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, D. Jorge Ortiga, disse ontem no Porto que a Igreja "não pode nem deve colocar-se no lugar do Estado". Citado pela TSF, o responsável da igreja católica destacou o pioneirismo das instituições no terreno e apelou a uma sociedade com uma "nova consciência".

O contributo europeu É visto como um marco da Comissão Europeia para 2010, Ano do Combate à Pobreza. Numa mensagem enviada à conferência Portugal Solidário, Durão Barroso anunciou que um dos pilares para inclusão da estratégia ''Europa 2020'' - a Plataforma Europeia de Combate à Pobreza - será lançada nos próximos dias. A rede apresentada em Março visa reduzir em 20 milhões o número de pessoas que vivem em pobreza, sobretudo através da inclusão no mercado laboral. Por cá, no próximo fim-de-semana decorre a segunda campanha do ano do Banco Alimentar. Um novo armazém na Ilha Terceira vai juntar-se aos 17 bancos de recolha de alimentos já a funcionar no país. No início de 2011 está prevista a abertura do 19º banco, em Beja.


por Marta F. Reis, jornal i , novembro 2010
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