terça-feira, 26 de abril de 2011

Bancocracia

Chegámos agora ao estágio final: o governo dos bancos, pelos bancos e para os bancos. Na verdade, foi ele que chegou até nós: desembarcou há dias na Portela.


“O governo do povo, para o povo e pelo povo” já era. Chamava-se a isso a democracia, nos bons velhos tempos. Mas nas últimas décadas o regime foi sendo transmutado, passo a passo, numa coisa diferente: o governo dos ricos e poderosos, para os ricos e poderosos e pelos ricos e poderosos.

Primeiro, tornou-se no governo “para os ricos”. Segundo uma teoria muito em voga, se nos ocupássemos em beneficiar o topo da pirâmide, a prosperidade escorreria por ali abaixo até à base. A coisa não funcionou. Disseram-nos então que era preciso dar o passo seguinte: o “governo pelos ricos”, seguindo os métodos deles e, em última análise, trazendo-os diretamente para o poder. As nossas escolas, os nossos hospitais, as nossas cidades e os nossos países teriam de ser “geridos” como “empresas”. Em vez de representantes teríamos gestores. Se eles souberam enriquecer para seu benefício, bastaria pô-los a mandar para que nos acontecesse o mesmo (ver: Itália, Berlusconi). Não funcionou.

Chegámos então ao estágio em que o governo passou, simplesmente, a ser deles e não nosso. Joseph Stiglitz, prémio Nobel da Economia, explica num artigo recente como a tomada do governo pelos ricos e poderosos foi concomitante com a tomada da economia: os rendimentos do 1% por cento mais rico subiram 18% nos EUA e esta fatia ínfima da sociedade detém agora 40% da economia.

O desequlíbrio não é sustentável, e todo o edifício entrou em colapso.

No desespero, já ninguém se salva — nem sequer os ricos e poderosos. Paradoxalmente, são agora os mais desesperados dos ricos e poderosos que tomaram conta do resto.

Desde o início da crise que o meu pior receio é o de que tenhamos subestimado o grau de putrefação no sistema bancário. E em cada passo da crise este receio tem sido confirmado. Quando se descobriu que a Grécia tinha falseado os seus livros, por detrás estava o banco Goldman Sachs, que tinha ensinado o governo grego a fazer “contabilidade criativa”. Quando a Irlanda caiu sobre a espada do FMI, foi porque as dívidas dos seus bancos eram maiores, muito maiores, do que alguém tinha previsto. E, em Portugal, bastou um pio dos bancos para cortar o pio a José Sócrates.

E na Alemanha? Bem, a Alemanha continua a intrigar-me. Ou Angela Merkel é tão míope quanto parece — ou o grau de putrefação dos seus bancos foi subavaliado. Isso explicaria por que insistiu Merkel em “testes de esforço” ridiculamente fáceis para os seus bancos. Merkel hesita apenas por ser hesitante — ou porque não consegue desenvencilhar-se?

Seja como for, chegámos agora ao estágio final: a bancocracia — o governo dos bancos, pelos bancos e para os bancos. Na verdade, foi ele que chegou até nós: desembarcou há dias na Portela.

Algumas notas finais.

Uma de purismo linguístico: como dizia CP Snow sobre a televisão, nada de bom pode sair de palavras que são meio latinas e meio gregas — e só nesse sentido irónico “bancocracia” estaria adequado, mas não correto (se fosse uma palavra de inspiração só grega, seria “trapezocracia”).

Outra de purismo democrático: eu votei no BE nas últimas eleições legislativas, e eu teria muita coisa para dizer ao FMI. Não entendo porque não foi o BE à reunião com o FMI. Exijo ser representado. Valeu-me a CGTP, mas não é a mesma coisa.

E um apelo à ação: assinei a petição “em torno do emprego e da coesão social”. Sugiro que a leiam em http://tinyurl.com/3f86xb7 e espero que a queiram assinar

 
por Rui Tavares
Enviar um comentário

Publicação em destaque

Marionetas russas

por Serge Halimi A 9 de Fevereiro de 1950, no auge da Guerra Fria, um senador republicano ainda desconhecido exclama o seguinte: «Tenh...