sexta-feira, 6 de maio de 2011

o joguinho

Pena que os media não dediquem suficiente espaço ao assunto: perceber o que está a acontecer nas Bolsas nestes dias ajudaria na correcta percepção do mundo em que vivemos.
Seria mais fácil entender quem manda nas nossas carteiras, quais os interesses que fazem girar a nossa sociedade.

E esqueçam os políticos: estes vêm sempre "depois", para adequar a realidade às decisões já tomadas em outros lugares.

As commodities, por exemplo: um nome exótico para indicar algo que todos utilizamos diariamente, de forma consciente ou não. E cujas cotações influenciam (e de que maneira!) o nosso bem estar.

Mas nenhum diário (não especializado, claro) trata do assunto: ninguém informa que estamos perante uma bolha especulativa que está a rebentar.

Ninguém explica que a cotação da prata está em queda livre sem que haja uma razão "aparente" para isso, a não ser a forte especulação.

Ninguém explica que o petróleo também está em queda livre e que ninguém é capaz de fornecer uma explicação. Que não seja , outra vez, a mera especulação.

Resumindo: ninguém explica que as regras que regulam os mercados são as mesmas que levaram até a crise começada em 2008. E que ainda não acabou.

Nada mudou nestes dois anos e meio. Esqueçam as boas promessas, as boas intenções: uma Bolsa mais transparente, controles mais apertados, estas foram as boas palavras utilizadas. Que permaneceram como tais: boas palavras e nada mais.

Pior: ninguém explica que enquanto nas Bolsas há variações das cotações, na maior parte dos casos estas alcançam as carteiras do consumidor só se forem negativas; raramente um preço mais baixo dum bem traduz-se num preço de venda mais baixo em tempos razoáveis.

Pelo contrário: uma subida repentina tem reflexos imediatos nas nossas carteiras.


O petróleo

Um exemplo? Vamos com um exemplo, aliás, o melhor entre todos: o petróleo.

Na coluna de direita, aqui no blog, perto do fundo, é possível encontrar o gráfico da cotação do petróleo, este gráfico, com ao lado o do gás:





Os dados são claros: o petróleo está em queda livre.

Alguém viu os preços da gasolina baixar? Não, claro que não.

Pelo contrário, eis o que afirma o Diário Económico, de Portugal:

Gasolina vai ficar mais cara na próxima semana

Os portugueses nunca pagaram tanto pela gasolina e na próxima semana vão passar a pagar ainda mais.

Gasolina e gasóleo já aumentaram cerca de 14 e 17 cêntimos, respectivamente, desde o arranque do ano e a tendência parece ter chegado para ficar.

Na próxima semana o cenário repete-se. É que o comportamento dos mercados antecipa mais uma subida do preço da gasolina. Já o gasóleo deve descer.

Os preços praticados pelas gasolineiras têm como base a cotação média da gasolina e do gasóleo na semana anterior. Tendo em conta que [...] o preço da gasolina nos mercados internacionais aumentou 3,12%, antecipa-se uma subida do preço deste combustível já a partir de segunda-feira. A confirmar-se esta subida, o preço da gasolina deverá registar um novo máximo histórico, acima da barreira dos 1,63 euros.

A gasolina vai ficar mais cara. Porquê? Porque "os preços praticados pelas gasolineiras têm como base a cotação média da gasolina e do gasóleo na semana anterior" e "antecipa-se uma subida do preço deste combustível já a partir de segunda-feira".

Entendido o joguinho? Afirma-se que na semana anterior a cotação média era alta e que para a próxima semana já é possível prever outra subida.

O bom Diário Económico esqueceu-se de referir que ao longo dos últimos 5 dias o petróleo perdeu 14% do próprio valor e que agora a cotação é 95 Dólares ao barril (petróleo dos EUA) e 97 Dólares (petróleo Brent). Bem longe dos valores que tinham sido utilizados para justificar as recentes subidas.

Isso significa que ao longo dos próximos dias nós continuaremos a pagar a gasolina como se o petróleo custasse mais de 106 Dólares ao barril (caso do Brent), enquanto as companhias petrolíferas pagam o mesmo bem abaixo dos 100 Dólares.

Conseguem imaginar o lucro?

Os jornalistas do Diário Económico (Rita Paz, neste caso) e dos outros media não merecem uma caixa de vinho?

E daquele bom.

Ipse dixit.

Fontes: Diário Económico

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