quinta-feira, 14 de novembro de 2013
terça-feira, 12 de novembro de 2013
segunda-feira, 11 de novembro de 2013
Neoliberalismo: Um Estado refém
por Sandra Monteiro
Houve um tempo em que o neoliberalismo actuou como se acreditasse que a população era desperdiçada no Estado. Estávamos na década de 1980 e as primeiras experiências neoliberais, indissociáveis dos governos de Aníbal Cavaco Silva, sonhavam com a constituição de um mercado privado que canalizasse os recursos dos cidadãos. Estes haviam acedido à liberdade e à democracia constitucional há pouco tempo, mas criações como o Estado social já melhoravam as condições de vida. Uma arquitectura assente na fiscalidade progressiva e em serviços públicos universais e gratuitos, e na protecção social e laboral, era, no entanto, bastante perturbadora. Como levar os cidadãos a pagar no privado o que recebiam no público, com qualidade e «gratuitamente»?
Era central para o neoliberalismo português ultrapassar este obstáculo, num país pobre e pouco integrado na globalização comercial e financeira. Como os sectores que prometiam lucros mais seguros, além dos ligados aos monopólios naturais, eram os da educação, saúde, segurança social, esse período foi marcado por fortes ataques ideológicos ao público, com campanhas intensas sobre os seus desempenhos e com os primeiros incentivos à dualização dos sistemas, traduzidos na eliminação progressiva da gratuitidade (propinas, taxas) e depois com as tentativas de plafonamentos.
O projecto que levaria ao aprofundamento das desigualdades e ao empobrecimento do país começou aqui. Mas começaram também as resistências sociais de vários sectores, reprimidas como o foi a acção sindical, numa fantasia adiada de desregular totalmente os direitos laborais e acabar com a contratação colectiva. Foi também o tempo dos primeiros sinais do elogio da juventude, antecipando o incitamento à quebra das solidariedades inter-geracionais, outra pedra angular do sistema social que incomodava as seguradoras privadas. A Constituição da República sofria várias revisões e a Europa «aproximava-se», prometendo modernidade e coesão entre os povos mas realizando projectos de liberalização das trocas, desregulação financeira, destruição de aparelhos produtivos a troco de subsídios e construção mal escrutinada de infra-estruturas. Com a adesão à União Europeia, e depois à zona euro, acentuaram-se as desigualdades entre um centro excedentário e uma periferia deficitária. Mas, em todos os países aderentes, os povos viram os rendimentos do seu trabalho, os seus ganhos de produtividade, serem cada vez mais canalizados pelo poder político em benefício do poder económico e de interesses privados.
Em países como Portugal, os neoliberais cedo aprenderam que as simples privatizações eram negócios muito arriscados. As novas universidades privadas faliam umas atrás das outras, os doentes continuavam a confiar mais nos hospitais públicos, a opção pelos seguros de pensões permanecia aquém do desejável para os negócios prosperarem. Enquanto isto, a social-democracia europeia enredava-se em adaptações ideológicas que, mesmo mantendo princípios e valores de justiça social, degradavam as condições materiais para os sustentar. Apanhada entre a desconfiança em relação a perspectivas sistémicas, proporcionada pelo fim do mundo bipolar, e os desafios que a globalização económica colocou à autonomia do poder político, deixou-se seduzir por «terceiras vias» que desprotegeram as políticas públicas orientadas para o combate às desigualdades. Em Portugal não foi diferente, e as elites económico-financeiras marcadamente neoliberais agradeceram – tal como agradeceram que as restantes forças políticas e sociais, à esquerda, não tivessem assumido um projecto de poder.
Com a sua primeira experiência, o neoliberalismo português aprendeu que tinha de se adaptar: não é tanto a população que é desperdiçada no Estado, é o Estado que é desperdiçado na população. As duas perspectivas mantêm o essencial do «privadocentrismo»: o poder económico e financeiro ganha sempre, o capital explora cada vez mais trabalho. Quando não o pode fazer defendendo a pura iniciativa privada – porque o país é pobre e o mercado pequeno –, só tem de recorrer à extrema flexibilidade neoliberal quanto aos meios para atingir os fins. O Estado pode ser maior ou menor, pode até ser reduzido ao mínimo, mas não é para eliminar, porque pode ser muito útil para colocar as populações e os seus recursos ao serviço de finalidades privadas.
O processo de captura do Estado assenta em vários tipos de engenharias neoliberais. Nas suas diferentes formas, que vão das parcerias público-privadas aos contratos de associação, passando pelas formas de empresarialização de sectores públicos, o que estas engenharias têm em comum é a capacidade para sustentar negócios privados com subsídios, rendas, contratos e todo o tipo de facilidades que lesam o interesse público e tornam o Orçamento do Estado incapaz de satisfazer as missões centradas no bem comum.
A crise financeira iniciada em 2008 deu aos neoliberais o pretexto para um salto de gigante na reconfiguração do Estado. Depois de criar um problema de dívida pública com salvamentos bancários, e inserindo-se numa União Europeia que concede crédito aos países mas só robustece o negócio dos credores, o Estado português assinou um Memorando de Entendimento com a Troika para aceder a um empréstimo condicionado à aceitação de políticas económicas e sociais. Sobretudo com a actual maioria no governo, totalmente identificada com o projecto austeritário, o desmantelamento do Estado social, a desvalorização do trabalho, o aumento do desemprego e da emigração, e o empobrecimento e a recessão aprofundaram-se a níveis impossíveis de imaginar numa democracia que não tivesse caído na armadilha do «regime de emergência». O garrote de uma dívida que cresce perpetuamente e o dos tratados e compromissos internacionais (actuais e futuros) garantem décadas de miséria e subdesenvolvimento. Tudo para alimentar o sistema financeiro e os negócios privados que crescerão à sombra de um Estado «libertado» das suas arreliantes finalidades colectivas.
O Orçamento do Estado para 2014 (como aliás o desesperado mas bem ideológico guião de reforma «Um Estado melhor») é justamente a sagração deste projecto que considera que o Estado é desperdiçado na população. Mantém todas as receitas da via austeritária, que não cumprem nenhum dos objectivos proclamados, e aprofunda-as (ver, nesta edição, o dossiê dedicado ao Orçamento). Ao criar esse «Estado paralelo» (na feliz expressão de Pedro Adão e Silva), que dependerá do dinheiro público para prosseguir fins privados, os neoliberais pensam conseguir, por fim, colocar uma sociedade cada vez mais desigual perante a experiência prática de serviços públicos sem qualidade (quando existem). Isto alimentará uma profunda desconfiança dos cidadãos na esfera pública, na democracia.
O Estado que este Orçamento consagra é um Estado refém. Mas não o é apenas de uma dívida que tem de ser profundamente reestruturada nem de um desvio de recursos públicos que têm de ser reorientados para o Estado social, saibamos nós ocupar e defender, mais do que nunca, os serviços públicos. Desde a década de 1980 que o neoliberalismo está a ganhar força contra o bem-estar comum. Aqui chegados, não podem ser adiadas respostas corajosas que lhe abalem as estruturas e o façam soçobrar. Quem não tiver esta coragem limitar-se-á a tentar gerir uma tragédia ingerível.
sábado 9 de Novembro de 2013
aqui:http://pt.mondediplo.com/spip.php?article955
Houve um tempo em que o neoliberalismo actuou como se acreditasse que a população era desperdiçada no Estado. Estávamos na década de 1980 e as primeiras experiências neoliberais, indissociáveis dos governos de Aníbal Cavaco Silva, sonhavam com a constituição de um mercado privado que canalizasse os recursos dos cidadãos. Estes haviam acedido à liberdade e à democracia constitucional há pouco tempo, mas criações como o Estado social já melhoravam as condições de vida. Uma arquitectura assente na fiscalidade progressiva e em serviços públicos universais e gratuitos, e na protecção social e laboral, era, no entanto, bastante perturbadora. Como levar os cidadãos a pagar no privado o que recebiam no público, com qualidade e «gratuitamente»?
Era central para o neoliberalismo português ultrapassar este obstáculo, num país pobre e pouco integrado na globalização comercial e financeira. Como os sectores que prometiam lucros mais seguros, além dos ligados aos monopólios naturais, eram os da educação, saúde, segurança social, esse período foi marcado por fortes ataques ideológicos ao público, com campanhas intensas sobre os seus desempenhos e com os primeiros incentivos à dualização dos sistemas, traduzidos na eliminação progressiva da gratuitidade (propinas, taxas) e depois com as tentativas de plafonamentos.
O projecto que levaria ao aprofundamento das desigualdades e ao empobrecimento do país começou aqui. Mas começaram também as resistências sociais de vários sectores, reprimidas como o foi a acção sindical, numa fantasia adiada de desregular totalmente os direitos laborais e acabar com a contratação colectiva. Foi também o tempo dos primeiros sinais do elogio da juventude, antecipando o incitamento à quebra das solidariedades inter-geracionais, outra pedra angular do sistema social que incomodava as seguradoras privadas. A Constituição da República sofria várias revisões e a Europa «aproximava-se», prometendo modernidade e coesão entre os povos mas realizando projectos de liberalização das trocas, desregulação financeira, destruição de aparelhos produtivos a troco de subsídios e construção mal escrutinada de infra-estruturas. Com a adesão à União Europeia, e depois à zona euro, acentuaram-se as desigualdades entre um centro excedentário e uma periferia deficitária. Mas, em todos os países aderentes, os povos viram os rendimentos do seu trabalho, os seus ganhos de produtividade, serem cada vez mais canalizados pelo poder político em benefício do poder económico e de interesses privados.
Em países como Portugal, os neoliberais cedo aprenderam que as simples privatizações eram negócios muito arriscados. As novas universidades privadas faliam umas atrás das outras, os doentes continuavam a confiar mais nos hospitais públicos, a opção pelos seguros de pensões permanecia aquém do desejável para os negócios prosperarem. Enquanto isto, a social-democracia europeia enredava-se em adaptações ideológicas que, mesmo mantendo princípios e valores de justiça social, degradavam as condições materiais para os sustentar. Apanhada entre a desconfiança em relação a perspectivas sistémicas, proporcionada pelo fim do mundo bipolar, e os desafios que a globalização económica colocou à autonomia do poder político, deixou-se seduzir por «terceiras vias» que desprotegeram as políticas públicas orientadas para o combate às desigualdades. Em Portugal não foi diferente, e as elites económico-financeiras marcadamente neoliberais agradeceram – tal como agradeceram que as restantes forças políticas e sociais, à esquerda, não tivessem assumido um projecto de poder.
Com a sua primeira experiência, o neoliberalismo português aprendeu que tinha de se adaptar: não é tanto a população que é desperdiçada no Estado, é o Estado que é desperdiçado na população. As duas perspectivas mantêm o essencial do «privadocentrismo»: o poder económico e financeiro ganha sempre, o capital explora cada vez mais trabalho. Quando não o pode fazer defendendo a pura iniciativa privada – porque o país é pobre e o mercado pequeno –, só tem de recorrer à extrema flexibilidade neoliberal quanto aos meios para atingir os fins. O Estado pode ser maior ou menor, pode até ser reduzido ao mínimo, mas não é para eliminar, porque pode ser muito útil para colocar as populações e os seus recursos ao serviço de finalidades privadas.
O processo de captura do Estado assenta em vários tipos de engenharias neoliberais. Nas suas diferentes formas, que vão das parcerias público-privadas aos contratos de associação, passando pelas formas de empresarialização de sectores públicos, o que estas engenharias têm em comum é a capacidade para sustentar negócios privados com subsídios, rendas, contratos e todo o tipo de facilidades que lesam o interesse público e tornam o Orçamento do Estado incapaz de satisfazer as missões centradas no bem comum.
A crise financeira iniciada em 2008 deu aos neoliberais o pretexto para um salto de gigante na reconfiguração do Estado. Depois de criar um problema de dívida pública com salvamentos bancários, e inserindo-se numa União Europeia que concede crédito aos países mas só robustece o negócio dos credores, o Estado português assinou um Memorando de Entendimento com a Troika para aceder a um empréstimo condicionado à aceitação de políticas económicas e sociais. Sobretudo com a actual maioria no governo, totalmente identificada com o projecto austeritário, o desmantelamento do Estado social, a desvalorização do trabalho, o aumento do desemprego e da emigração, e o empobrecimento e a recessão aprofundaram-se a níveis impossíveis de imaginar numa democracia que não tivesse caído na armadilha do «regime de emergência». O garrote de uma dívida que cresce perpetuamente e o dos tratados e compromissos internacionais (actuais e futuros) garantem décadas de miséria e subdesenvolvimento. Tudo para alimentar o sistema financeiro e os negócios privados que crescerão à sombra de um Estado «libertado» das suas arreliantes finalidades colectivas.
O Orçamento do Estado para 2014 (como aliás o desesperado mas bem ideológico guião de reforma «Um Estado melhor») é justamente a sagração deste projecto que considera que o Estado é desperdiçado na população. Mantém todas as receitas da via austeritária, que não cumprem nenhum dos objectivos proclamados, e aprofunda-as (ver, nesta edição, o dossiê dedicado ao Orçamento). Ao criar esse «Estado paralelo» (na feliz expressão de Pedro Adão e Silva), que dependerá do dinheiro público para prosseguir fins privados, os neoliberais pensam conseguir, por fim, colocar uma sociedade cada vez mais desigual perante a experiência prática de serviços públicos sem qualidade (quando existem). Isto alimentará uma profunda desconfiança dos cidadãos na esfera pública, na democracia.
O Estado que este Orçamento consagra é um Estado refém. Mas não o é apenas de uma dívida que tem de ser profundamente reestruturada nem de um desvio de recursos públicos que têm de ser reorientados para o Estado social, saibamos nós ocupar e defender, mais do que nunca, os serviços públicos. Desde a década de 1980 que o neoliberalismo está a ganhar força contra o bem-estar comum. Aqui chegados, não podem ser adiadas respostas corajosas que lhe abalem as estruturas e o façam soçobrar. Quem não tiver esta coragem limitar-se-á a tentar gerir uma tragédia ingerível.
sábado 9 de Novembro de 2013
aqui:http://pt.mondediplo.com/spip.php?article955
sexta-feira, 8 de novembro de 2013
Um manifesto pela verdade
por Edward Snowden [*]
Num espaço de tempo muito breve o mundo aprendeu muito acerca de agências secretas irresponsáveis e acerca de programas de vigilância muitas vezes ilegais. Algumas dessas agências tentam, deliberadamente, ocultar a sua vigilância até mesmo de altos responsáveis e do público. Apesar de a NSA e o GCHQ [1] parecerem ser os piores transgressores – é isto que sugerem os documentos actualmente disponíveis – não devemos esquecer que a vigilância em massa é um problema global que precisa de soluções globais.
Tais programas não são uma ameaça apenas à privacidade, eles também ameaçam a liberdade de discurso e as sociedades abertas. A existência de tecnologia de espionagem não deveria determinar a política. Temos um dever moral de assegurar que nossas leis e valores limitem programas de monitoragem e protejam direitos humanos.
A sociedade só pode entender e controlar estes problemas através de um debate aberto, respeitoso e informado. A princípio, alguns governos, sentindo-se embaraçados pelas revelações de vigilância em massa, iniciaram uma campanha de perseguição sem precedentes para suprimir este debate. Eles intimidaram jornalistas e criminalizaram a publicação da verdade. Nesta altura, o público ainda não era capaz de avaliar os benefícios das revelações. Eles confiavam nos seus governos para decidir correctamente.
Hoje sabemos que isto foi um erro e que tal acção não serve o interesse público. O debate que quiseram impedir agora está a acontecer em países de todo o mundo. E ao invés de fazer dano, os benefícios societais deste novo conhecimento público agora são claros, uma vez que já são propostas reformas na forma de maior supervisão e nova legislação.
Os cidadãos têm de combater a supressão de informação sobre assuntos de importância pública vital. Contar a verdade não é um crime.
05/Novembro/2013
[1] NSA: National Security Agency dos EUA; GCHQ: Government Communications Headquarters do Reino Unido.
[*] O original foi escrito por Edward Snowden em 01/Novembro, em Moscovo. A única versão publicada encontra-se em alemão naedição de 03/Novembro da revista Der Spiegel, tendo-lhe sido enviada através de um canal encriptado. A versão em inglês, traduzida por Martin Eriksson, encontra-se em meriksson.net/snowden-a-manifesto-for-the-truth . O presente texto foi traduzido da versão em inglês.
aqui:http://resistir.info/varios/snowden_manifesto_01nov13.html
Num espaço de tempo muito breve o mundo aprendeu muito acerca de agências secretas irresponsáveis e acerca de programas de vigilância muitas vezes ilegais. Algumas dessas agências tentam, deliberadamente, ocultar a sua vigilância até mesmo de altos responsáveis e do público. Apesar de a NSA e o GCHQ [1] parecerem ser os piores transgressores – é isto que sugerem os documentos actualmente disponíveis – não devemos esquecer que a vigilância em massa é um problema global que precisa de soluções globais.
Tais programas não são uma ameaça apenas à privacidade, eles também ameaçam a liberdade de discurso e as sociedades abertas. A existência de tecnologia de espionagem não deveria determinar a política. Temos um dever moral de assegurar que nossas leis e valores limitem programas de monitoragem e protejam direitos humanos.
A sociedade só pode entender e controlar estes problemas através de um debate aberto, respeitoso e informado. A princípio, alguns governos, sentindo-se embaraçados pelas revelações de vigilância em massa, iniciaram uma campanha de perseguição sem precedentes para suprimir este debate. Eles intimidaram jornalistas e criminalizaram a publicação da verdade. Nesta altura, o público ainda não era capaz de avaliar os benefícios das revelações. Eles confiavam nos seus governos para decidir correctamente.
Hoje sabemos que isto foi um erro e que tal acção não serve o interesse público. O debate que quiseram impedir agora está a acontecer em países de todo o mundo. E ao invés de fazer dano, os benefícios societais deste novo conhecimento público agora são claros, uma vez que já são propostas reformas na forma de maior supervisão e nova legislação.
Os cidadãos têm de combater a supressão de informação sobre assuntos de importância pública vital. Contar a verdade não é um crime.
05/Novembro/2013
[1] NSA: National Security Agency dos EUA; GCHQ: Government Communications Headquarters do Reino Unido.
[*] O original foi escrito por Edward Snowden em 01/Novembro, em Moscovo. A única versão publicada encontra-se em alemão naedição de 03/Novembro da revista Der Spiegel, tendo-lhe sido enviada através de um canal encriptado. A versão em inglês, traduzida por Martin Eriksson, encontra-se em meriksson.net/snowden-a-manifesto-for-the-truth . O presente texto foi traduzido da versão em inglês.
aqui:http://resistir.info/varios/snowden_manifesto_01nov13.html
Os nossos parceiros internacionais
por JOSÉ MANUEL PUREZA
Rigor não tem de rimar com injustiça punitiva. Em Portugal tem sido assim: o rigor nas contas públicas é invariavelmente invocado como pretexto para sovar o mundo do trabalho e acrescentar proventos ao lado do capital. Quando nos falam de rigor já sabemos o que vem a seguir: mais cortes a atingirem os mesmos de sempre.
No argumentário usado para perpetuar este casamento entre rigor e injustiça tem lugar de destaque a razão provinciana de que "lá fora" (nos "nossos parceiros internacionais", entre "os peritos", "na Europa") é assim que se pensa e nem se perde tempo com discussões sobre outras possibilidades. Pois bem, "lá fora", "os nossos parceiros internacionais" pensam de maneiras muito diferentes, há muitos caminhos, há contradição entre "os peritos". O pensamento da troika é apenas um entre vários e tem por isso a autoridade de uma escolha e não mais do que de uma escolha.
O relatório da Organização Internacional do Trabalho sobre Portugal esta semana tornado público tem, no mínimo, o mérito de mostrar que é de escolhas que se trata. A OIT mostra que Portugal pode escolher sair da crise modernizando a sua economia, criando emprego e reforçando a sua afirmação nas trocas internacionais por via da qualidade. Para isso, este nosso parceiro internacional aponta como meta a adoção de políticas que animem a procura popular (aumento dos salários mais baixos, incluindo o salário mínimo, e redução das desigualdades salariais) e que criem emprego. De acordo com o relatório, uma combinação sábia entre políticas ativas de emprego e descidas das taxas de juro permitiria criar mais de 100 mil postos de trabalho nos próximos dois anos, aumentando o produto interno em dois pontos percentuais, reduzindo em quase seis pontos o rácio entre a dívida pública e o PIB e reduzindo a prazo as despesas da Segurança Social com subsídios de desemprego ou outras prestações sociais de socorro ao mesmo tempo que se alargaria a base de recolha de receita fiscal.
A par da busca de eficácia no combate à crise - algo que logo o situa no avesso das escolhas de afundamento sucessivo vindas da troika - a OIT coloca o combate às desigualdades no âmago da política de saída da crise. É isso que a faz advogar o reforço do rendimento social de inserção, a subida imediata do salário mínimo nacional e a revalorização da contratação coletiva contra as estratégias de isolamento de cada trabalhador na negociação cada vez mais desigual das suas condições remuneratórias e dos seus demais direitos.
Oiçamos pois os nossos parceiros internacionais. E façamos as escolhas que a diversidade das suas perspectivas nos incita a fazer.
aqui:http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=3521112&seccao=Jos%E9%20Manuel%20Pureza&tag=Opini%E3o%20-%20Em%20Foco
Rigor não tem de rimar com injustiça punitiva. Em Portugal tem sido assim: o rigor nas contas públicas é invariavelmente invocado como pretexto para sovar o mundo do trabalho e acrescentar proventos ao lado do capital. Quando nos falam de rigor já sabemos o que vem a seguir: mais cortes a atingirem os mesmos de sempre.
No argumentário usado para perpetuar este casamento entre rigor e injustiça tem lugar de destaque a razão provinciana de que "lá fora" (nos "nossos parceiros internacionais", entre "os peritos", "na Europa") é assim que se pensa e nem se perde tempo com discussões sobre outras possibilidades. Pois bem, "lá fora", "os nossos parceiros internacionais" pensam de maneiras muito diferentes, há muitos caminhos, há contradição entre "os peritos". O pensamento da troika é apenas um entre vários e tem por isso a autoridade de uma escolha e não mais do que de uma escolha.
O relatório da Organização Internacional do Trabalho sobre Portugal esta semana tornado público tem, no mínimo, o mérito de mostrar que é de escolhas que se trata. A OIT mostra que Portugal pode escolher sair da crise modernizando a sua economia, criando emprego e reforçando a sua afirmação nas trocas internacionais por via da qualidade. Para isso, este nosso parceiro internacional aponta como meta a adoção de políticas que animem a procura popular (aumento dos salários mais baixos, incluindo o salário mínimo, e redução das desigualdades salariais) e que criem emprego. De acordo com o relatório, uma combinação sábia entre políticas ativas de emprego e descidas das taxas de juro permitiria criar mais de 100 mil postos de trabalho nos próximos dois anos, aumentando o produto interno em dois pontos percentuais, reduzindo em quase seis pontos o rácio entre a dívida pública e o PIB e reduzindo a prazo as despesas da Segurança Social com subsídios de desemprego ou outras prestações sociais de socorro ao mesmo tempo que se alargaria a base de recolha de receita fiscal.
A par da busca de eficácia no combate à crise - algo que logo o situa no avesso das escolhas de afundamento sucessivo vindas da troika - a OIT coloca o combate às desigualdades no âmago da política de saída da crise. É isso que a faz advogar o reforço do rendimento social de inserção, a subida imediata do salário mínimo nacional e a revalorização da contratação coletiva contra as estratégias de isolamento de cada trabalhador na negociação cada vez mais desigual das suas condições remuneratórias e dos seus demais direitos.
Oiçamos pois os nossos parceiros internacionais. E façamos as escolhas que a diversidade das suas perspectivas nos incita a fazer.
aqui:http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=3521112&seccao=Jos%E9%20Manuel%20Pureza&tag=Opini%E3o%20-%20Em%20Foco
sexta-feira, 1 de novembro de 2013
O país "normal" de Cavaco Silva
por Daniel Vaz de Carvalho [*]
Aparentemente a lucidez do PR começa a levantar dúvidas. Será que sabe mesmo o que diz? Vejamos, diz que é necessário "prosseguir o programa de ajustamento, para ir aos mercados e permitir o crescimento e o emprego". Mas tudo isto é contraditório.
Dois anos e meio de ajustamento e o país está pior do que estava sob todos os aspetos. Os "mercados" puseram o país no "lixo" e não têm intenções de o tirar de lá, os juros são uma proporção cada vez maior do PIB e do défice; recessão, desemprego, falências são o resultado obtido com o "ajustamento".
Que diz o PR? Prosseguir…para regressar aos "mercados". Mas os "mercados" não são nenhuma solução, são o problema!
Para o PR, o país tem de parecer normal aos "mercados". Um país normal?! Um milhão de desempregados nos dados oficiais (milhão e meio efetivos), mais metade sem receber subsídio, emigração em larga escala, dezenas de falências de MPME por dia, défice e dívida descontrolados, sucessivas revisões do OE, retroatividade de cortes em reformas atribuídas, constante redução de salários e aumento de impostos sobre a população, generalizada precariedade, aumento da pobreza e desigualdades, montante dos juros superior ao défice previsto para 2014.
Normal é, pois, os sucessivos OE serem anticonstitucionais. Normal é o governo governar contra a Constituição, errar tudo o que prevê, mentir no que promete e não haver eleições que reponham uma real normalidade democrática.
E tudo isto é um êxito, é "normal" e tem de prosseguir…com serenidade. Isto é, as pessoas deixem de pensar, de exercer a sua cidadania e direitos, paguem e calem-se. Senão…ai os "mercados", o que será de nós!
A DIREITA POLITICAMENTE ATACADA DE DOENÇA BIPOLAR
A direita está como aqueles seres mentalmente perturbados daquelas tragédias de Shakespeare em que aparecem fantasmas, neste caso são os "mercados".
A direita tem sucessivos ataques de agorafobia, entra em pânico, vislumbrando ficar perdida em situações sem conseguir ajuda …dos "mercados".
Mais grave, são os sintomas de doença bipolar: ora estamos sem soberania, somos um protetorado devido ao programa da troika, temos que nos libertar da troika, ora se trata da "ajuda" pelos mesmos reclamada, negociada, aplaudida como a salvação para a qual era necessário fazer mais ainda. Ora é para cumprir custe o que custar, ora estamos a fazer sacrifícios, a ter medidas muito duras e, como dizia a ministra das Finanças, "queríamos ter um défice menor, mas os mercados não deixaram". Porém, no momento seguinte regressar aos mercados é apresentado como a via para o paraíso!
Os comentadores de serviço estão atacados da mesma doença, num momento há criticas ao governo, no outro dizem que está a fazer o que tem de ser feito.
O governo vive alternâncias ciclotímicas de euforia ora como o "sucesso" da ida aos "mercados" e de um sazonal acréscimo no PIB, ora transmitindo depressão e pânico pela ação do Tribunal Constitucional ou se for criada "instabilidade", que ele próprio nos dois casos origina.
As jornadas parlamentares do PSD-CDS, exaustivamente propagandeadas na TV, foram dos mais completos indícios de esquizofrenia vistos na cena política. O governo transmitiu durante um dia, como se não tivesse mais nada que fazer, perante uma plateia apática e seguidista, as suas alucinações, ilusões e crenças falseadas da realidade.
Estas "jornadas parlamentares", mais a normalidade que o PR assume, recordam-nos aquela frase de Shakespeare, no Hamlet: "Life is a tale, plenty of sound and fury told by an idiot and meaning nothing"… [*] Engenheiro.
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
aqui:http://resistir.info/portugal/o_pais_30out13.html
Aparentemente a lucidez do PR começa a levantar dúvidas. Será que sabe mesmo o que diz? Vejamos, diz que é necessário "prosseguir o programa de ajustamento, para ir aos mercados e permitir o crescimento e o emprego". Mas tudo isto é contraditório.
Dois anos e meio de ajustamento e o país está pior do que estava sob todos os aspetos. Os "mercados" puseram o país no "lixo" e não têm intenções de o tirar de lá, os juros são uma proporção cada vez maior do PIB e do défice; recessão, desemprego, falências são o resultado obtido com o "ajustamento".
Que diz o PR? Prosseguir…para regressar aos "mercados". Mas os "mercados" não são nenhuma solução, são o problema!
Para o PR, o país tem de parecer normal aos "mercados". Um país normal?! Um milhão de desempregados nos dados oficiais (milhão e meio efetivos), mais metade sem receber subsídio, emigração em larga escala, dezenas de falências de MPME por dia, défice e dívida descontrolados, sucessivas revisões do OE, retroatividade de cortes em reformas atribuídas, constante redução de salários e aumento de impostos sobre a população, generalizada precariedade, aumento da pobreza e desigualdades, montante dos juros superior ao défice previsto para 2014.
Normal é, pois, os sucessivos OE serem anticonstitucionais. Normal é o governo governar contra a Constituição, errar tudo o que prevê, mentir no que promete e não haver eleições que reponham uma real normalidade democrática.
E tudo isto é um êxito, é "normal" e tem de prosseguir…com serenidade. Isto é, as pessoas deixem de pensar, de exercer a sua cidadania e direitos, paguem e calem-se. Senão…ai os "mercados", o que será de nós!
A DIREITA POLITICAMENTE ATACADA DE DOENÇA BIPOLAR
A direita está como aqueles seres mentalmente perturbados daquelas tragédias de Shakespeare em que aparecem fantasmas, neste caso são os "mercados".
A direita tem sucessivos ataques de agorafobia, entra em pânico, vislumbrando ficar perdida em situações sem conseguir ajuda …dos "mercados".
Mais grave, são os sintomas de doença bipolar: ora estamos sem soberania, somos um protetorado devido ao programa da troika, temos que nos libertar da troika, ora se trata da "ajuda" pelos mesmos reclamada, negociada, aplaudida como a salvação para a qual era necessário fazer mais ainda. Ora é para cumprir custe o que custar, ora estamos a fazer sacrifícios, a ter medidas muito duras e, como dizia a ministra das Finanças, "queríamos ter um défice menor, mas os mercados não deixaram". Porém, no momento seguinte regressar aos mercados é apresentado como a via para o paraíso!
Os comentadores de serviço estão atacados da mesma doença, num momento há criticas ao governo, no outro dizem que está a fazer o que tem de ser feito.
O governo vive alternâncias ciclotímicas de euforia ora como o "sucesso" da ida aos "mercados" e de um sazonal acréscimo no PIB, ora transmitindo depressão e pânico pela ação do Tribunal Constitucional ou se for criada "instabilidade", que ele próprio nos dois casos origina.
As jornadas parlamentares do PSD-CDS, exaustivamente propagandeadas na TV, foram dos mais completos indícios de esquizofrenia vistos na cena política. O governo transmitiu durante um dia, como se não tivesse mais nada que fazer, perante uma plateia apática e seguidista, as suas alucinações, ilusões e crenças falseadas da realidade.
Estas "jornadas parlamentares", mais a normalidade que o PR assume, recordam-nos aquela frase de Shakespeare, no Hamlet: "Life is a tale, plenty of sound and fury told by an idiot and meaning nothing"… [*] Engenheiro.
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
aqui:http://resistir.info/portugal/o_pais_30out13.html
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