Os profissionais do
europeísmo podem continuar a falar numa União entre iguais, podem
continuar a contar a «sua» história da construção europeia e a repetir o
catecismo dos seus mitos que não alteram a realidade de uma Europa cada
vez mais comandada por uma só potência e cada vez mais desigual.
Chefes de governo de Espanha, Alemanha, França e Itália no Palácio de Versalhes. 6 de Março de 2017Créditos / EPA
Em 1970, Henry Kissinger interrogava-se em tom de ironia: «A Europa, que número de telefone?».
Hoje,
já não podia repetir a ironia, bastava telefonar para a Senhora Merkel
ou para o seu intratável ministro das Finanças, de tal modo a «Europa»
se tornou alemã. E para saber os números dos telefones podia dirigir-se à
CIA, que os tem registados e vigiados.
Os profissionais do
europeísmo podem continuar a falar numa União entre iguais, podem
continuar a contar a «sua» história da construção europeia e a repetir o
catecismo dos seus mitos que não alteram a realidade de uma Europa cada
vez mais comandada por uma só potência e cada vez mais desigual.
Hoje
é-lhes mais difícil, sem hipocrisia ou cinismo, repetir as fórmulas
vazias: «a Europa é a coesão económica e social; a solidariedade; o
nivelamento por cima; a paz; o nosso futuro!»
Os refugiados que ficam no Mediterrâneo, o comportamento da União Europeia em relação à Grécia e aos países do Sul, o dumping
social e fiscal, os níveis de desemprego e a pobreza mostram-nos uma
Europa do capital financeiro cada vez mais distante dos legítimos
anseios e aspirações dos povos.
Vendem a ideia de uma construção
europeia democrática, num método original de pequenos passos, quando do
que se trata é do bom e velho método Jean Monnet, que sempre quis uma
Europa federal, consultando o menos possível os povos. A dissimulação, a
opacidade e a imposição têm sido os grandes vectores da construção
europeia.
A história dos diversos referendos e a incrível história
do Tratado Constitucional rejeitado pelo povo francês e holandês e que
dois anos depois foi instituído, sem consulta, no Tratado de Lisboa, o
do «conseguimos, pá!», dão-nos o verdadeiro retrato de uma construção
antidemocrática feita longe dos povos.
Giscard d'Estaing, que
tinha presidido aos trabalhos do projecto de Constituição para a Europa,
declarou então: «As propostas institucionais do Tratado Constitucional
encontram-se integralmente no Tratado de Lisboa, mas numa ordem
diferente. A razão é que o texto não deve lembrar muito o Tratado
Constitucional»1.
Alguns
meses mais tarde, Nicolas Sarkozy diria a um grupo parlamentar europeu:
«Há uma divergência entre os povos e os governos, um referendo neste
momento colocaria a Europa em perigo, não teríamos tratado se tivéssemos
um referendo em França»2.
O
mesmo método é aplicado na negociação secreta dos tratados
internacionais – veja-se o Acordo de Comércio com o Canadá, CETA, no
funcionamento do Eurogrupo ou do todo poderoso Banco Central Europeu –
órgão não eleito.
Os burocratas de Bruxelas ao serviço dos grandes
interesses e do capital financeiro decidem o futuro dos povos,
concedendo que existe não na construção, mas no funcionamento da União
Europeia aquilo a que chamam candidamente e eufemisticamente «défice
democrático».
Do alto da sua arrogância, consideram que o aumento
da indignação, da revolta, da rejeição desta Europa e do euro se deve à
falta de conhecimento dos cidadãos, que não compreendem o papel dos
especialistas, a globalização, a necessidade das reformas. Os burocratas
de Bruxelas não querem reconhecer que os povos rejeitam as suas
políticas por muitas e boas razões.
Quando as consultas populares
não correm bem, como no caso do Brexit, não hesitam em afirmar em tom
classista que foram os menos instruídos os que mais votaram
negativamente, como se não fossem estes os que mais sofrem na pele as
humilhações e as consequências das políticas de concentração da riqueza.
Espantam-se
depois pelo crescimento daquilo a que chamam de populismo, como se este
não fosse o resultado das promessas não cumpridas, das políticas
neoliberais, do aumento das desigualdades, da liquidação de direitos e
do Estado Social, das negociatas e corrupção, da falta de credibilidade
dos partidos e políticos que em rotativismo têm estado no poder.
Insistem
nos mitos de uma Europa que foi concebida para fazer frente aos EUA,
quando se sabe o papel desempenhado pelos serviços secretos americanos e
a sua ligação a Jean Monnet, o mito dos pais fundadores! Insiste-se na
Europa de paz como se fosse a construção europeia que a tem conseguido e
como se o vergonhoso bombardeamento e guerra na Jugoslávia tivesse sido
no continente africano.
Insistiram (já não insistem) nos mitos e
nos dogmas de que a União Europeia e o euro nos protegiam das crises, do
endividamento, questão que deixava de se colocar, como afirmavam
Guterres, Constâncio e Barroso, e de que a desindustrialização era mais
que compensada pelos serviços e financeirização do país, o mito da «nova
economia» que durou até ao início da crise de 1997.
Os promotores
e defensores da adesão de Portugal ao Mercado Comum viram nesta (um
seguro de vida) a consolidação da contra-revolução que permitiu o
regresso de possidentes, de privilégios e a concentração e centralização
de capitais, no quadro de uma democracia cada vez mais limitada e
empobrecida.
A adesão à CEE deu-se quando já se preparava a substituição do Mercado Comum pelo Mercado Único.
Para
que tal fosse aceite pelos Estados duplicaram-se os fundos estruturais
(a ameaça comunista), o que permitiu um importante surto de obras
públicas e melhoramentos, criando a ilusão de que a coesão económica e
social seria uma realidade.
Com
a liberdade de circulação de capitais, com as subvenções e fundos para
liquidar o excesso de produções – o que não era o nosso caso –, pescas,
agricultura..., com o acabar da preferência comunitária e praticamente a
liquidação da pauta exterior comum, o embate entre a panela de ferro
com a panela de barro começou a produzir os seus estilhaços, o que foi
ainda ampliado com a introdução do euro e com os sucessivos
alargamentos, sem reforço do orçamento comunitário3.
Os
resultados estão à vista e, então, tal como agora, também nos foi dito
que só tínhamos a ganhar em estar no «pelotão da frente», mas, na
realidade, no «carro vassoura» e no papel de «sobrinho pobre em casa de
tios ricos».
Com o euro, perdemos a soberania monetária e ficámos
dependentes dos «mercados», mesmo para os pagamentos internos.
Regressámos ao século XIX com as crises financeiras e as falências de
bancos, como relata entre outros, Oliveira Martins.
Perdemos a
soberania monetária, cambial e na prática orçamental,
desindustrializámos o país, liquidaram-se direitos duramente
conquistados, enfraqueceu-se o incipiente «estado social» e ficámos com
uma moeda sobrevalorizada em relação ao nosso aparelho produtivo e
perfil de exportações.
Desde que entrámos no euro até hoje, o
nosso crescimento médio está praticamente estagnado. Aumentou, sim, a
dívida privada e pública, e as mais importantes empresas básicas e
estratégicas, tal como os bancos, ficaram no domínio estrangeiro. O
euro/marco serve a Alemanha mas não serve Portugal nem a maioria dos
países da UE. Ele foi «vendido» aos trabalhadores e aos povos na base de
mentirolas repetidas, embrulhado num pseudo discurso científico e com
modelos econométricos manipulados.
A crise da UE é hoje uma
evidência reconhecida. As propostas que são agora apresentadas, para
«relançar a Europa», com um euro sobrevalorizado para a maioria dos
países e subvalorizado para a Alemanha, desde o federalismo à Europa a
várias velocidades, como não vão à raiz dos problemas, nem a uma das
principais prioridades – o funcionamento da UE em bases democráticas –,
mesmo que venham a ter algum reforço de Orçamento Comunitário e
aligeiramento da dívida, podem alimentar ilusões, mas só prolongarão a
nossa agonia4.
Por
isso, a grande tarefa nacional, o grande desafio com que nos
confrontamos não é estarmos formalmente com os da frente e em bicos dos
pés, mas, sim, o da recuperação da nossa soberania o mais urgentemente
possível.
1. Audição perante a Comissão de Negócios Constitucionais do Parlamento Europeu em 17 de Julho de 2007.
3.
São cada vez mais economistas, sindicalistas, empresários, partidos e
população em geral que, em vários países da UE, põem em causa o euro. O
Parlamento holandês decidiu, em fins de Fevereiro, por unanimidade,
elaborar um relatório sobre se o país deve ou não sair do euro, o que
revela a extensão das dúvidas.
4.
O orçamento comunitário para compensar satisfatoriamente os quatro
países do Sul da dinâmica do euro (Portugal, Espanha, Itália e Grécia)
implicava 8% a 9% do PIB da Alemanha, o que este país não aceitará. A
Europa a várias velocidades foi decidida por Merkel, que o afirmou em
Malta, e depois foi reafirmado em Versalhes pelos quatro chefes de
governo (grande união de iguais!), Hollande, Merkel, Gentiloni e Rajoy.
E, como bons democratas, afirmaram que «não excluíram ninguém, mas
também não obrigaram ninguém a participar!»
Este artigo é uma advertência : em Novembro de 2016, um vasto sistema de
agitação e de propaganda foi montado para destruir a reputação e a
autoridade do Presidente Donald Trump desde o momento em que chegasse à
Casa Branca. É a primeira vez que uma tal campanha é cientificamente
organizada contra um presidente dos Estados Unidos e com tais meios.
Sim, nós entramos numa era de post-verdade, mas os papeis dos
protagonistas não são os que vocês pensam.
David
Brock é considerado como um dos mestres da agit-prop (agitação &
propaganda) do século 21. Personalidade sem escrúpulos, tanto pode
defender uma causa como destruí-la, segundo as necessidades do seu
empregador. Ele está à cabeça de um império da manipulação de massas.
A campanha conduzida pelos padrinhos de Barack
Obama, de Hillary Clinton e da destruição do Médio-Oriente Alargado,
contra o novo Presidente norte-americano prossegue. Após a marcha das
mulheres de 22 de Janeiro, uma marcha pela ciência deverá ter lugar não
apenas nos Estados Unidos, mas também no conjunto do mundo Ocidental, a
22 de Abril. Trata-se de mostrar que Donald Trump não é somente
misógino, mas, também obscurantista.
Que ele seja o antigo organizador do concurso Miss Universo e que
seja casado com uma modelo em terceiras núpcias prova que ele despreza
as mulheres. Que o Presidente conteste o papel de Barack Obama na
criação da Chicago Climate Exchange-Bolsa Climática de Chicago (muito
antes da sua presidência), e rejeite a ideia segundo a qual as
perturbações climáticas são causadas pela libertação(liberação-br) de
carbono na atmosfera, atestam que ele não sabe nada de ciência.
Para convencer a opinião pública norte-americana da insanidade do
Presidente, o qual disse desejar a paz com os seus inimigos e colaborar
com eles para a prosperidade económica internacional, um dos maiores
especialistas da agit-prop (agitação e propaganda), David Brock, colocou
em acção um impressionante dispositivo, antes mesmo da investidura.
Na altura em que ele trabalhava por conta dos Republicanos, Brock
lançou contra o Presidente Bill Clinton aquilo que viria a ser o
Troopergate, o caso Whitewater e o caso Lewinsky. Tendo virado a casaca,
ele está agora ao serviço de Hillary Clinton, para a qual já organizou
tanto a demolição da candidatura de Mitt Romney como a defesa dela no
caso do assassinato do embaixador dos E.U. em Bengazi(morto pela
Al-Caida na Líbia- ndT). Durante as últimas primárias, foi ele que
dirigiu os ataques contra Bernie Sanders. A The National Review qualificou Brock «de assassino de direita tornado assassino de esquerda».
Importa lembrar que os dois procedimentos de destituição
(«impeachment»-ndT) de um presidente em exercício, lançadas após a
Segunda Guerra Mundial, foram a favor do Estado Profundo e não, de modo
nenhum, da Democracia. Assim, o Watergate foi totalmente dirigido por um
certo «garganta funda», que se revelou 33 anos mais tarde ser Mark
Felt, o adjunto de J. Edgar Hoover, o Director do FBI. Quanto ao caso
Lewinsky, não foi senão um meio para forçar Bill Clinton a aceitar a
guerra contra a Jugoslávia.
A campanha actual é organizada nos bastidores por quatro associações : Media Matters
(«Os Média são Importantes») está encarregue de desencantar os erros de
Donald Trump. Vocês irão ler, diariamente, o boletim deles nos vossos
jornais : o Presidente não é fiável, ele enganou-se em tal e tal
assunto. American Bridge 21st Century
(«A Ponte Americana do Século 21») reuniu mais de 2. 000 horas de vídeo
mostrando Donald Trump durante vários anos e mais de 18. 000 outras
horas de vídeo sobre membros do seu gabinete. Ela dispõe de meios
tecnológicos sofisticados concebidos para o Departamento de Defesa –-e,
em princípio, não existentes no mercado –-permitindo-lhe pesquisar
contradições entre as suas declarações precedentes e as suas posições
actuais. Ela deverá estender os seus trabalhos a 1.200 colaboradores do
novo Presidente. Citizens for Responsibility and Ethics in Washington — CREW
(«Cidadãos pela Responsabilidade e Ética em Washington») é um gabinete
de juristas de alto nível encarregue de rastrear tudo o que poderia
causar escândalo à Administração Trump. A maior parte dos advogados
desta associação trabalham gratuitamente pela causa. Foram eles que
prepararam a queixa de Bob Ferguson, o Procurador-Geral do Estado de
Washington, contra o decreto sobre a imigração. Shareblue
(«A Partilha Azul») é um exército electrónico que envolve já 162
milhões de internautas nos Estado Unidos. Está encarregado de propagar
temas fixados de antemão, entre os quais:
• Trump é autoritário e ladrão.
• Trump está sob a influência de Vladimir Putin.
• Trump tem uma personalidade instável e colérica, é um maníaco-depressivo.
• Trump não foi eleito pela maioria dos Norte-americanos, ele é pois ilegítimo.
• O seu Vice-presidente, Mike Pence, é um fascista.
• Trump é um bilionário que não parará de ter conflitos de interesse entre os seus negócios pessoais e os de Estado.
• Trump é uma marioneta dos irmãos Koch, os celebres financeiros da extrema-direita.
• Trump é um supremacista branco que ameaça as minorias.
• A oposição anti-Trump não cessa de crescer para lá de Washington.
• Para salvar a democracia, apoiemos os parlamentares democratas que atacam Trump, arrasemos aqueles que cooperam com ele.
• Há que fazer a mesma coisa com os jornalistas.
• Derrubar Trump vai exigir tempo, não abrandemos o combate.
Esta associação produzirá newsletters e vídeos de 30 segundos. Ela
irá apoiar-se em dois outros grupos : uma empresa de documentários de
vídeo, The American Independent (O Americano Independente), e uma unidade de estatísticas Benchmark Politics (Política Comparativa).
O conjunto deste dispositivo —montado durante o período de transição,
quer dizer, antes da chegada de Donald Trump à Casa Branca— emprega já
mais de 300 especialistas, aos quais se devem juntar inúmeros
voluntários. O seu orçamento anual, inicialmente previsto em 35 milhões,
foi aumentado para atingir os cerca de US $ 100 milhões de dólares.
Destruir assim a imagem —e portanto a autoridade— do Presidente dos
Estados Unidos, antes que ele tenha tempo de fazer seja o que for, pode
ter consequências muito graves. Ao eliminar Saddam Hussein e Muammar
Kaddafi, a CIA mergulhou os respectivos países num longo caos, e o «país
da Liberdade», ele próprio, poderia ser gravemente atingido por uma tal
operação. Jamais, este tipo de técnicas de manipulação de massas tinha
sido usado contra o chefe de fila do campo ocidental.
De momento, este plano funciona : nenhum líder político a nível
mundial ousou congratular-se pela eleição de Donald Trump, à excepção de
Vladimir Putin e Mahmoud Ahmadinejad.
Com as manifestações realizadas a 21 de
Janeiro, muitos cidadãos de diversos países aceitaram comportar-se como
seguidores e instrumentos de uma das facções em confronto nos EUA. Entre
o beatificado Obama e o demonizado Trump, a escolha a fazer não é entre
nenhum deles. É a escolha pela soberania nacional, pela paz, pelo
direito de cada povo decidir do seu próprio destino, liberto da
ingerência e da pressão dos EUA, da NATO, do imperialismo em geral.
Quebrando lanças pelos seus amos
estado-unidenses, os europeus – em vez de lutar pela sua própria
soberania – unem-se em coro ao concerto de críticas – nem sempre
justificadas – sob a batuta das elites da margem ocidental do Atlântico.
Invocando a «democracia», desfilam inclusivamente contra o resultado
das eleições. Barack Obama foi designado «santo subito», ou seja “santo
de imediato”: quando entrou na Casa Branca, em 2009, foi-lhe entregue a
título preventivo o Premio Nobel da Paz pelos «seus extraordinários
esforços para fortalecer a diplomacia internacional e a cooperação entre
os povos».
Isso sucedeu enquanto a sua administração preparava já em segredo,
através da secretaria de Estado Hillary Clinton, a guerra que 2 anos
mais tarde destruiria o Estado líbio, guerra que se estenderia depois a
Síria e Iraque através dos grupos terroristas, instrumentos da
estratégia dos Estados Unidos e da NATO. Donald Trump, pelo contrário,
foi demonizado de imediato, inclusivamente antes de entrar na Casa
Branca. Acusam-no de usurpar o posto destinado a Hillary Clinton, graças
a uma operação maléfica ordenada pelo presidente russo Vladimir Putin.
As “provas” vêm da CIA, inquestionavelmente perita em matéria de
infiltrações e golpes de Estado. Basta recordar as suas operações
destinadas a provocar guerras contra Vietnam, Camboja, Líbano, Somália,
Iraque, Jugoslávia, Afeganistão, Líbia y Síria; ou os seus golpes de
Estado em Indonésia, Salvador, Brasil, Chile, Argentina e Grécia. E as
suas consequências: milhões de personas encarceradas, torturadas e
assassinadas; milhões de pessoas deslocadas das suas terras, convertidas
em refugiados, vítimas de uma verdadeira conversão em escravos.
E sobretudo as mulheres, adolescentes e meninas submetidas a
escravatura, violadas, obrigadas a exercer a prostituição. Haveria que
recordar tudo isso a quem, nos Estados Unidos e na Europa, organizaram
em 21 de Janeiro a Marcha das Mulheres para defender precisamente essa
paridade de género conquistada em duras lutas e constantemente
questionada por posições sexistas, como as que Trump expressa. Mas não é
por essa razão que se aponta o dedo a Trump numa campanha sem
precedente no processo de transmissão do poder na Casa Branca.
O facto é que, nesta ocasião, os perdedores se negam a reconhecer a
legitimidade do presidente eleito e estão a implementar um impeachment
preventivo. Donald Trump está a ser presentado como uma espécie de
Manchurian Candidate que, infiltrado na Casa Branca, estaria sob o
controlo de Putin, inimigo dos Estados Unidos. Os estrategas
neoconservadores, artífices desta campanha, tratam desse modo de impedir
uma mudança de rumo na relação dos Estados Unidos com a Rússia, que a
administração Obama fez retroceder aos tempos da guerra fria.
Trump é um «trader» que, embora continue a assentar a política
estado-unidense na força militar, tem intenção de abrir uma negociação
com a Rússia, provavelmente para debilitar a aliança entre Moscovo e
Pequim. Na Europa, os que temem que se produza uma diminuição da tensão
com a Rússia são antes de mais os dirigentes da NATO, que ganharam
importância graças à escalada militar da nova guerra fria, e os grupos
que detêm o poder nos países do leste – principalmente na Ucrânia, na
Polonia e nos países bálticos – que apostam na hostilidade anti-russa
para obter maior apoio militar e económico de parte da NATO e da União
Europeia.
Nesse contexto, não é possível deixar de mencionar, nas
manifestações de 21 de Janeiro, as responsabilidades dos que
transformaram a Europa na primeira línea de enfrentamento,
inclusivamente nuclear, com a Rússia. Teríamos que sair à rua,
certamente, mas não como súbditos estado-unidenses que rechaçam um
presidente “mau” mas exigindo um “bom”, para nos libertarmos do que nos
amarra aos Estados Unidos, país que – não importa quem seja o seu
presidente – exerce a sua influência sobre a Europa através da NATO.
Teríamos que manifestar-nos, mas para sair dessa aliança belicista,
para exigir a retirada do armamento nuclear que os Estados Unidos têm
armazenado nos nossos países. Teríamos que manifestar-nos para ter o
direito a opinar, como cidadãs e cidadãos, sobre as opções em matéria de
política externa que, indissoluvelmente ligadas às opções económicas e
políticas internas, determinam as nossas condições de vida e o nosso
futuro.
Fonte: Il Manifesto, http://www.investigaction.net/es/el-presidente-bueno-y-el-presidente-malo/#sthash.rGRUnNBL.dpuf
Atribui-se a Adolph Hitler a expressão «quando ouço falar em cultura
puxo logo da pistola». Verdade ou lenda, o que sabemos, sem rasto de
dúvida, é que o conceito condiz com a pessoa e sua prática.
Créditos / Agência Lusa
Os
governos dos países da NATO não dirão, palavra por palavra, que quando
se fala em verbas para a aliança guerreira espezinham logo a cultura,
sem dó nem piedade. Porém, nesta sociedade em que os números valem
tantas vezes mais que as palavras, a crueza rigorosa das aritméticas
desnuda o que os pudores de eufemismos patetas tentam encobrir.
Segundo
números oficiais da Aliança Atlântica e os dados do Orçamento de Estado
para 2017, as «despesas com a defesa» em Portugal, isto é, os gastos
exigidos pela presença na NATO, elevam-se a cerca de 2550 milhões de
euros no ano em curso. Alvejados, sem defesa, pela permanente guerra de
números e estatísticas com que se pretende fazer a política moderna, os
portugueses ficam sem saber, assim a seco, o que significa tal valor, se
é muito ou pouco, justificado ou injustificado.
Trocados por
miúdos, os 2550 milhões que os portugueses tiram dos seus bolsos para
que a aliança continue a sangrar o Afeganistão, o Iraque e a Síria,
apanhe os cacos da destruição que semeou na Líbia e sustente as
estruturas nazis que implantou na Ucrânia representam um contributo
individual forçado de 230 euros anuais. Significam ainda que o país
deita fora sete milhões de euros por dia por pertencer à NATO, mesmo não
cumprindo as recomendações dos chefes de Washington, os quais exigem
dois por cento do PIB de cada Estado membro.
Portugal fica-se por
1,4 por cento do PIB, mas antes de choverem elogios a tamanha coragem
perante os estrelados generais diga-se que há outros, muitos outros,
aliás, bastante mais desafiadores: a começar pelo exemplo do governo
direitista espanhol, mesmo aqui ao lado, que não vai além dos 0,9 por
cento do PIB. Ou pela Bélgica, onde está a sede da NATO, com 0,85%. Ou a
Hungria (um por cento), a Eslováquia e a República Checa (0,94 e 1,04%,
respectivamente), o Luxemburgo (0,44%), a Holanda (1,17%), a Itália
(1,11%). E que dizer do gigante alemão, sempre tão exigente com os
outros, com os seus recatados 1,15%?
Olhando tais números e
percentagens deduz-se elementarmente que haveria por aqui umas dezenas
de milhões de euros a poupar para criar emprego, alimentar o crescimento
económico e até apressar a subida do salário mínimo para 600 euros,
mesmo que isso incomodasse mais a UGT do que a própria NATO.
Porque,
em boa verdade e seguindo a certeira frieza dos números, os tais 2550
milhões de euros com que pagamos as guerras e as ameaças que conduzem o
mundo no caminho do abismo, equivalem a bastante mais de quatro milhões
de salários mínimos de 600 euros.
Muitos dirão que uma coisa não
tem a ver com outra, os dinheiros pertencem a sacos diferentes, blá,
blá, blá… Pois, mas dinheiro é dinheiro, a questão é geri-lo e
estabelecer uma maneira justa, equitativa e pacífica de o fazer
circular. Dinheiro para a NATO não circula, enterra-se em sangue e
engenhos de morte.
Além
disso, os militares portugueses não precisaram da NATO para nada quando
fizeram o libertador 25 de Abril. Pelo contrário, concretizaram-no para
incómodo da dita cuja NATO, que não se poupou em conspirações enquanto
as coisas não voltaram ao seu redil. Podem ter a certeza de que as
Forças Armadas Portuguesas, mesmo fora da NATO, continuariam a cumprir
as suas missões para com o país.
Caso se fizessem umas poupanças
relativas nas tais «despesas de defesa» – que não dos portugueses –
bastaria uma insignificância de um por cento do bolo, apenas 25 milhões
de euros, para fazer subir o salário mínimo de 557 para 600 euros ainda
este ano. Uma questão de vontade política, não é?
Porque é a esta
encruzilhada que chegamos quando se encaram de frente os monstruosos
2550 milhões de euros esbanjados com a NATO. Esse valor representa,
lembrando a tal frase atribuída a Hitler, quase seis vezes mais do que o
dinheiro atribuído este ano à cultura; e significa uma despesa duas
vezes e meia superior ao investimento do Estado Português, imaginem, na
agricultura, nas florestas (as que restam dos incêndios), no
desenvolvimento rural e no mar precioso.
Saiba ainda o leitor que o
Estado Português deita ao lixo com a NATO uma verba que excede em 200
milhões de euros os investimentos em sectores de ponta como a ciência, a
tecnologia e o ensino superior. A dotação atlantista supera em 400
milhões a verba atribuída ao Ministério da Economia; e eleva-se a mais
de mil milhões de euros (1516 contra os tais 2550 milhões) o desnível do
tratamento entre a defesa do ambiente em Portugal e o financiamento das
guerras além-fronteiras.
Sendo que as despesas com a NATO não
cobrem os gastos em «missões» especiais, no fundo sempre ao serviço dos
mesmos, como esse estranhíssimo regresso de tropas portuguesas a África,
no caso à República Centro Africana; nem terá sido desse bolo que
saíram os inusitados 200 mil euros com que o ministro da Defesa de um
país sugado, fiscalizado, perseguido a partir de Bruxelas e a lutar
contra a crise e a austeridade, Portugal, decidiu auxiliar o aparelho
militar nazi que manda e desmanda na Ucrânia.
Tudo isto para
testemunhar que, apesar dos inegáveis esforços já efectuados para
aliviar um pouco os portugueses do garrote da austeridade, ainda existem
montantes importantes que são de todos nós e podem ser geridos de modo
bem diferente e muito mais útil – e pacífico – à comunidade.
Que
tal transformar boa parte dos 2550 milhões desperdiçados com a NATO em
investimento ao serviço da melhoria de vida dos portugueses?