sexta-feira, 7 de abril de 2017

Coreia do Norte: O grande embuste revelado


por Christopher Black [*]
 
Manifestações contra o THAAD nos EUA e na Coreia do Sul. Em 2003, com alguns advogados americanos, membros da Associação Nacional de Advogados, tive a oportunidade de viajar na Coreia do Norte, isto é, na República Popular Democrática da Coreia (RPDC), a fim de ter uma experiência em primeira mão desse país, do seu governo socialista e do seu povo.

Publicado no nosso retorno, este artigo foi intitulado "O grande embuste revelado". O título foi escolhido porque descobrimos que o mito pejorativo da propaganda ocidental sobre a Coreia do Norte é um enorme embuste concebido para esconder as realizações dos norte-coreanos, que conseguiram criar suas próprias condições de desenvolvimento, o seu próprio sistema socioeconómico independente, baseado nos princípios do socialismo, livre do domínio das potências ocidentais.

Durante um dos nossos primeiros jantares em Pyongyang, o nosso anfitrião, Ri Myong Kuk, um advogado, disse em termos apaixonados, em nome do governo, que a força de dissuasão nuclear da RPDC é necessária dadas as ações e ameaças dos EUA e aliados contra o seu país. Ele disse-o, e foi-me repetido mais tarde durante a minha viagem, numa reunião de alto nível com representantes do governo da RPDC, que se os americanos assinassem um tratado de paz e um acordo de não-agressão com a RPDC, isso tornaria a ocupação ilegítima e levaria à reunificação da Coreia. Assim, não haveria mais necessidade de armas nucleares. Com sinceridade disse: "é importante que os advogados se reúnam para falar sobre isto, porque os advogados regulam as interações sociais no seio da sociedade e do mundo" e acrescentou que de boa-fé, "o caminho para a paz requer a abertura do coração".

Pareceu-nos então, e é agora evidente, que, em absoluta contradição com o que dizem os meios de comunicação ocidentais, o povo da RPDC quer paz mais do que qualquer outra coisa. Ele quer continuar com as suas vidas e ocupações sem a ameaça constante de ser exterminado pelas armas atómicas dos EUA. Mas, na verdade, por que são ameaçados de serem exterminados e de quem é a culpa? Não é a sua.

Mostraram-nos documentos dos EUA apreendidos durante a guerra da Coreia. Trata-se de provas irrefutáveis que a UE tinha planeado atacar a Coreia do Norte em 1950. O ataque foi realizado pelas forças armadas dos EUA e da Coreia do Sul, ajudadas por oficiais do exército japonês, que tinham invadido e ocupado Coreia anteriormente durante décadas. Os EUA pretenderam então que a defesa e o contra ataque eram uma "agressão", os media foram manipulados para incentivar as Nações Unidas a apoiar uma "operação policial", eufemismo escolhido para descrever a sua guerra de agressão contra a Coreia do Norte. Isso resultou em três anos de guerra e 3,5 milhões de vítimas coreanas. Desde então, os EUA ameaçam de guerra iminente e aniquilação.

Em 1950, uma vez que a Rússia não estava presente no Conselho de Segurança, a votação das Nações Unidas a favor da "operação policial" foi ela própria ilegal. Ao abrigo dos regulamentos internos, o quórum no Conselho de Segurança exige a presença de todas as delegações membros. Todos os membros devem estar presentes, caso contrário não pode se realizar a sessão. Os americanos aproveitaram a ocasião do boicote dos russos ao Conselho de Segurança, introduzido para defender a posição da República Popular da China, que deveria ter lugar à mesa do Conselho de Segurança e não o governo derrotado do Kuomintang. Como os americanos se recusaram a conceder esse direito, os russos recusaram sentar-se à mesa até que o governo chinês legítimo o pudesse fazer.

Os americanos aproveitaram esta oportunidade para fazer uma espécie de golpe de estado nas Nações Unidas. Tomando o controlo dos seus mecanismos, utilizaram-nos para os seus próprios interesses. Organizaram-se com os britânicos, os franceses e os chineses do Kuomintang, para apoiar a guerra na Coreia, na ausência dos russos. Os aliados, como os americanos lhes tinham pedido, votaram a favor da guerra contra a Coreia, mas a votação foi inválida e a operação da polícia não foi uma operação de manutenção da paz, nem justificada pelo capítulo VII da carta das Nações Unidas, dado que o artigo 51, estipula que as nações têm o direito de se defender contra qualquer ataque armado – justamente o que tinham de fazer os norte coreanos. Mas os EUA nunca se preocuparam muito com a legalidade. E não se preocuparam em todo o seu projeto, que era conquistar e ocupar a Coreia do Norte, como um passo para invadir a Manchúria e a Sibéria e a legalidade não ia impedi-los de prosseguir esse caminho.

Muitos ocidentais não têm ideia das destruições infligidas pelos americanos e seus aliados na Coreia. Pyongyang encontrou-se sob um tapete de bombas, civis fugindo à carnificina foram metralhados pelos aviões dos EUA em voos rasantes. O New-York Times escreveu na altura que 17 milhões de toneladas de napalm foram lançadas apenas durante os 20 primeiros meses da guerra na Coreia. Os EUA deixaram cair uma tonelagem de bombas mais importante sobre a Coreia do que sobre o Japão durante a Segunda Guerra Mundial. As forças armadas dos EUA assassinaram não apenas os membros do partido comunista, mas também as suas famílias. Em Sinchon, vimos evidências que soldados dos EUA obrigaram 500 civis a colocar-se numa vala, regaram-nos com gasolina e queimaram-nos. Estivemos num abrigo com paredes ainda enegrecidos com a carne queimada de 900 civis, incluindo mulheres e crianças que procuravam proteger-se durante um ataque dos EUA. Soldados americanos foram vistos despejar gasolina em aberturas de ventilação do abrigo e fazê-los morrer carbonizados. Esta é a realidade da ocupação dos EUA para os coreanos. É a realidade que eles ainda temem e não querem mais ver repetida. Podemos censurá-los?

Apesar de todos estes casos, os coreanos estão dispostos a abrir seus corações para seus antigos inimigos. O major Kim Myong Hwan, que na época era o principal negociador em Panmunjom, na linha da DMZ, revelou que seu sonho era ser escritor, poeta, jornalista, mas contou com ar sombrio, como ele e seus cinco irmãos estavam fazendo rondas na linha da zona desmilitarizada, como os soldados, por causa do que aconteceu à sua família. Ele disse que sua luta não era contra os americanos, mas o seu governo. Manteve-se o único de sua família perdida em Sinchon; seu avô tinha sido pendurado num poste e torturado, a avó dele morreu com uma baioneta no estômago. "Veja, nós temos de o fazer. Temos de nos defender. Nós não nos opomos aos norte-americanos. Somos contra a política dos EUA e os seus esforços para controlar totalmente o mundo e infligir calamidades aos povos."

A opinião da nossa delegação foi que devido à instabilidade que mantêm na Ásia, os EUA conservam uma presença militar maciça que dificulta as relações entre a China e a Coreia do Sul, a Coreia do Norte e o Japão. Usam sua presença como moeda de troca contra a China e a Rússia. Com a constante pressão no Japão para eliminar as bases dos EUA em Okinawa, as operações militares na Coreia e as manobras de guerra são um aspecto central dos seus esforços visando dominar a região.

A questão não é saber se a RPDC tem armas nucleares, como tem o direito, mas se os EUA – que têm capacidades nucleares na península coreana, e que ali instalam atualmente o seu sistema de defesa antimísseis THADD, um sistema que ameaça a segurança da Rússia e da China – estão dispostos a trabalhar com a Coreia do Norte num tratado de paz. Encontrámos norte-coreanos ansiosos pela paz e não fazendo questão em manter armas nucleares se a paz puder ser estabelecida. Mas a posição dos EUA continua mais arrogante, agressiva, ameaçadora e perigosa do que nunca.

Na época das "mudança de regime'", das "guerras preventivas" e das tentativas dos EUA para desenvolver armas nucleares miniatura, bem como o seu abandono e a sua manipulação do direito internacional, não é surpreendente que a Coreia do Norte, jogue a carta nuclear. Esta escolha foi feita pelos coreanos do Norte desde que os EUA os ameaçam numa base diária com uma guerra nuclear. A Rússia e a China, dois países que a lógica dita apoiar os norte-coreanos contra a agressão norte-americana, juntar-se-ão aos norte-americanos para responsabilizar os coreanos por se terem armado com a única arma que pode atuar como dissuasor de um ataque.

A razão para isto não está clara, uma vez que os russos e os chineses têm armas nucleares e estão equipados para dissuadir qualquer ataque dos EUA, exatamente como fez a Coreia do Norte. Algumas declarações dos governos russo e chinês indicam que eles temem não ter controlo da situação, e que as medidas defensivas da Coreia do Norte atraiam um ataque dos EUA e de serem também atacados.

Essa ansiedade é compreensível. Mas isso levanta a questão de saber por que não podem apoiar o direito da Coreia do Norte à autodefesa e exercer pressão sobre os americanos para concluírem um tratado de paz, um acordo de não-agressão e retirar sua forças armadas e nucleares da Península coreana. Mas a grande tragédia é a óbvia incapacidade dos norte-americanos em pensarem por si próprios perante os embustes incessantes e exigir dos seus líderes que sejam esgotados todos os canais de diálogo e restabelecida a paz antes de encarar uma agressão na península coreana.

A base essencial da política da Coreia do Norte é alcançar um pacto de não-agressão e um Tratado de paz com os EUA. Os norte-coreanos afirmaram repetidamente que não querem atacar ninguém, nem ferir ninguém, não estão em guerra contra ninguém. Mas eles viram o que aconteceu com a Jugoslávia, o Afeganistão, o Iraque, a Líbia, a Síria e inúmeros outros países, e não têm intenção de serem os próximos. É óbvio que vão defender-se vigorosamente contra qualquer invasão dos EUA e que a nação poderia suportar uma longa e difícil luta.

Num outro lugar da zona desmilitarizada, conhecemos um coronel que tinha instalado um par de binóculos, através do qual conseguimos ver para além da linha divisória entre o norte e o sul. Podemos ver uma parede de cimento construída no lado do Sul, em violação dos acordos de tréguas. O major Kim Myong Hwan disse que aquela estrutura fixa é uma "vergonha para os coreanos que são um povo homogéneo. Um alto-falante transmitia sem interrupção propaganda e música que vinha de alto-falantes do lado sul. Ele disse que esse barulho irritante dura 22 horas por dia. De repente, outro momento surreal, os alto-falantes do bunker começaram a entoar a Abertura Guilherme Tell de Rossini, mais conhecida nos Estados Unidos como o tema do Lone Ranger .

O coronel pediu-nos para ajudar as pessoas a entender o que realmente está a acontecer na Coreia do Norte, em vez de basearem as suas opiniõrs na desinformação. Disse: "Nós sabemos que, como nós, as pessoas amantes da paz na América têm crianças, parentes, famílias". Dissemos-lhe que tínhamos a missão de ir para casa com uma mensagem de paz e esperamos voltar um dia e andar com ele livremente nestas belas colinas. Fez uma pausa e disse: "Também creio que é possível".

Assim, enquanto o povo da Coreia do Norte espera a paz e a segurança os EUA e seu fantoche no sul da península coreana farão a guerra ocupando-se durante os próximos três meses nos maiores jogos de guerra até agora organizados, com porta-aviões, submarinos carregados de armas atómicas e bombardeiros furtivos, aviões e um grande número de tropas, artilharia e tanques.

A campanha de propaganda atingiu níveis perigosos nos meios de comunicação, que acusam o Norte de ter assassinado um parente do líder da Coreia do Norte na Malásia, ainda que não haja provas e que o Norte não tivesse nenhum motivo para o fazer. Os únicos a beneficiar do assassinato são os EUA e os seus meios de comunicação controlados, que usam isso para atiçar a histeria contra Coreia do Norte, que agora teria armas químicas de destruição em massa.

Sim, meus amigos, eles pensam que todos nós nascemos ontem e que não aprendemos nada sobre a natureza do domínio doa EUA e da sua propaganda. Será assim tão espantoso que os norte-coreanos temam que estes 'jogos' de guerra se transformem um dia em realidade e que estes "jogos" não sejam senão a cobertura para um ataque e para criar ao mesmo tempo um clima de terror na população, coreana?

Haveria muitas coisas a dizer sobre a natureza real da RPDC, seus habitantes, seu sistema socioeconómico e sua cultura. Mas não há espaço para isso agora neste texto. Espero que as pessoas sejam capazes de dar-se conta por si próprias da experiência do nosso grupo. Termino com o último parágrafo do relatório comum que fizemos no retorno da RPDC, e espero que as pessoas o compreendam bem, reflitam e ajam de forma a apelar à paz.

"Aos povos do mundo tem de ser divulgada a história completa acerca do que se passou na Coreia e o papel do nosso governo fomentando desequilíbrios e conflitos. Devem ser tomadas medidas pelos advogados, grupos comunitários e ativistas pela paz e todos os cidadãos do planeta, para impedir o governo dos EUA de levar a cabo uma campanha de propaganda visando apoiar a agressão contra a Coreia do Norte. Os norte-americanos têm sido alvo de um grande embuste. O que está em jogo é muito importante para nos permitimos ser enganados novamente. Esta delegação de paz aprendeu na Coreia do Norte, um elemento importante da verdade essencial nas relações internacionais. É que só com ampla comunicação e negociação, seguida do respeito pelas promessas e profundo compromisso com a paz, se pode – literalmente – poupar o mundo a um sombrio futuro nuclear. A experiência e a verdade nos libertarão da ameaça de guerra. A nossa viagem à Coreia do Norte, este relatório e nosso projeto atual são esforços para nos libertarmos". 

Ver também:

  • www.zoominkorea.org

    [*] Advogado especialista em direito penal internacional, com escritório em Toronto. É conhecido pelos casos de crimes de guerra mediatizados que analisou. Publicou recentemente o romance Beneath the Clouds . Escreve ensaios sobre direito internacional, política e acontecimentos mundiais.

    A versão em francês encontra-se em www.legrandsoir.info/coree-du-nord-la-grande-tromperie.html
    e o original em journal-neo.org/2017/03/13/north-korea-the-grand-deception-revealed/


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .  
  • quinta-feira, 6 de abril de 2017

    Destruir o Daesh (EI)?

    por Thierry Meyssan

     Enquanto Washington multiplica os sinais confirmando a sua intenção de destruir o Daesh(E.I.), os Britânicos e os Franceses, seguidos pelo conjunto dos Europeus encaram pôr-se à parte. Londres e Paris teriam coordenado os ataques a Damasco e a Hama para forçar o Exército Árabe Sírio a ir socorrê-las e, assim, diminuir o seu avanço em direcção aos arredores de Rakka. Os Europeus pensam organizar a fuga dos jiadistas pela fronteira turca.


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    A reunião da Coligação (Coalizão-br) anti-Daesh em Washington, a 22-23 de Março, correu bastante mal. Se na aparência os 68 membros reafirmaram a sua vontade de lutar contra esta organização, na realidade ostentaram as suas divisões.

    O Secretário de Estado norte-americano, Rex Tillerson lembrou o compromisso do Presidente Trump perante o Congresso de destruir o Daesh (EI) e não apenas o enfraquecer, tal como afirmava a Administração Obama. Ao fazê-lo, ele acabou com os argumentos dos membros da Coligação perante o facto consumado.

    Primeiro problema: como é que os Europeus em geral, e os Britânicos em particular, poderão salvar os seus jiadistas, se não se trata mais de os poder deslocar, mas antes de os suprimir de vez ?

    Rex Tillerson, e o Primeiro-ministro iraquiano, Haider al-Abadi, fizeram um balanço quanto à batalha de Mossul. Apesar da expressão pública de optimismo, é evidente para todos os peritos militares que ela não estará concluída antes de três longos muitos meses. Porque em Mossul, todas as famílias, ou quase todas têm um dos seus membros envolvido com o Daesh (EI).

    No plano militar, a situação de Rakka é muito mais simples. Lá, os jiadistas são estrangeiros. Portanto, prioritariamente convêm cortar o seu aprovisionamento. Depois, então, separá-los da população síria.

    Segundo problema: o Exército dos Estados Unidos tem de obter previamente a autorização do Congresso, depois a de Damasco, para se colocar no território sírio. Os Generais James Mattis (Secretário da Defesa) e John Dunford (Chefe do Estado-Maior Conjunto) tentaram convencer os parlamentares, mas não está fácil. Depois será preciso negociar com Damasco e, portanto, esclarecer o que irá ser feito.

    À pergunta dos Europeus sobre o que Washington faria com Rakka libertada, Rex Tillerson estranhamente respondeu que iria fazer regressar a população deslocada, ou refugiada, para lá. Os Europeus concluíram que sendo esta população esmagadoramente favorável a Damasco, Washington tinha a intenção de restituir este território à República Árabe Síria.

    Tomando a palavra, o Ministro do Negócios Estrangeiros (Relações Exteriores-br) Português, Augusto Santos Silva, salientou que a proposta ia contra o que havia sido decidido anteriormente. Os Europeus têm o dever moral, sublinhou ele, de prosseguir os seus esforços de protecção dos refugiados que fugiram da «ditadura sanguinária». Ora, mesmo libertada(liberada-br), Rakka não seria uma zona segura, por causa da presença do Exército Árabe Sírio que seria "pior que o Daesh".

    A escolha de Portugal pelos europeus para esta intervenção não é inocente. O antigo Primeiro-ministro Português, do qual Santos Silva foi ministro, António Guterres, é o antigo Alto Comissário para os Refugiados e actual Secretário-Geral da ONU. Ele já havia sido também Presidente da Internacional Socialista, uma organização totalmente controlada por Hillary Clinton e Madeleine Albright. Em resumo, ele é hoje em dia a nova fachada de Jeffrey Feltman na ONU e do clã belicista.

    Terceiro problema: libertar Rakka do Daesh (EI) muito bem, mas, segundo os Europeus, não para a restituir a Damasco. Daí a sobranceria Francesa.

    De imediato, se viu os jiadistas de Jobar atacar o centro da capital e os de Hama atacar as aldeias isoladas. Talvez se trate de uma tentativa desesperada da parte deles de obter um prêmio de consolação em Astana ou em Genebra antes do fim da partida. Talvez se trate de uma estratégia coordenada por Londres com Paris.

    Neste caso, deveremos esperar uma vasta operação das potências coloniais em Rakka. Londres e Paris poderiam atacar a cidade antes que ela fosse cercada de modo a forçar o Daesh (EI) a mover-se e assim o salvar. O Daesh poderia recuar para a fronteira turca, ou até mesmo para a Turquia. A organização iria então assumir-se como o carrasco dos Curdos por conta de Recep Tayyip Erdoğan.


    Tradução
    Alva
    Fonte
    Al-Watan (Síria)

    aqui:http://www.voltairenet.org/article195852.html

    terça-feira, 4 de abril de 2017

    A Casa Branca converte-se à democracia

    por Thierry Meyssan

     Um passo considerável acaba de ser dado pela Administração Trump : os seus diplomatas mais destacados anunciaram reconhecer o direito dos Sírios à Democracia. Admitem que eles soberanamente escolheram Bachar el-Assad como Presidente. Acaba, assim, a retórica da «democratização» forçada que acompanhou todas as aventuras militares das administrações precedentes.


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    Nikki Haley
    Lentamente a Administração Trump coloca em acção a sua nova política para o Próximo-Oriente.

    Depois de ter reformado o Conselho de Segurança Nacional, depois de ter trocado informações com o exército russo, depois de ter interdito aos seus homens continuar a apoiar os jiadistas onde quer que seja, e após ter lançado verdadeiros ataques contra eles no Iémene, no Iraque, na Líbia e na Somália, o novo Presidente dos Estados Unidos fez anunciar que punha um final à ingerência do seu país na vida política síria.

    A embaixatriz dos EUA no Conselho de Segurança, Nikki Haley, não se limitou a anunciar que o derrube do Presidente al-Assad não mais era «uma prioridade» para Washington, ela afirmou claramente que apenas o Povo sírio tinha o direito de escolher o seu presidente; afirmações imediatamente confirmadas pelo Secretário de Estado, Rex Tillerson.

    Para medir o caminho percorrido, lembremos que desde 2012 o plano Feltman previa a revogação da soberania do Povo sírio.

    Vamos repetir : com Donald Trump, a Casa Branca finalmente converteu-se à Democracia, ou seja, ao «Governo do Povo pelo Povo, para o Povo» de acordo com a famosa fórmula de Abraham Lincoln. Os Estados Unidos estão em vias de se tornar uma potência normal. Eles abandonam a sua ambição imperialista. Eles renunciam à doutrina Wolfowitz de domínio global. Eles reconhecem, de novo, que todos os homens são iguais, sejam eles ocidentais ou não.

    A estupefacção dos Estados membros da OTAN está à altura do acontecimento : como eles não param desde o 11-de-Setembro de utilizar o conceito de «democracia» a contra-senso, ficaram sem palavras.

    Por fim, o Ministro Francês dos Negócios Estrangeiros (Relações Exteriores-br), Jean-Marc Ayrault, declarou : «Será que mantemos Assad ou não mantemos Assad, não é assim que a questão se põe. A questão é a de saber se a comunidade internacional respeita os seus próprios compromissos».
    Tradução: a questão não é saber o que querem os Sírios, mas se os Estados Unidos e os seus aliados (os «Amigos da Síria») vão respeitar ou não a promessa da Administração Obama de restaurar um mandato francês sobre a Síria.

    Para a equipe de François Hollande, uma má notícia nunca vem só e Ancara foi a primeira a abandonar Paris. Ela declarou que, na sequência da visita de Rex Tillerson, renunciava a criar uma «zona de segurança» em Manbij e Rakka; uma maneira elegante de anunciar que admite não poder estender na Síria a ocupação que ilegalmente leva a cabo em Chipre desde 1974. Terminada, portanto, a aliança franco-turca.

    Seja como for, o retorno da OTAN ao Direito Internacional começou. Ela junta-se à posição da Síria, que a defende com o seu sangue, e à da Rússia e da China que a protegeram com sete vetos sucessivos no Conselho de Segurança.

    A próxima etapa é aquela já expressava a Síria em julho de 2012: convencer toda a Organização do Atlântico Norte a cessar de manipular o terrorismo internacional. Quer dizer, admitir que os actuais Irmãos Muçulmanos não são uma irmandade árabe, mas, antes constituem um ramo dos Serviços Secretos britânicos; e reconhecer que eles não são muçulmanos, mas que se disfarçam por trás do Alcorão para melhor fazer avançar o imperialismo anglo-israelita.

    Tradução
    Alva
    Fonte
    Al-Watan (Síria)

    aqui:http://www.voltairenet.org/article195861.html

    quinta-feira, 30 de março de 2017

    Aleixey Navalny, o democrata russo made in USA

    por Manlio Dinucci


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    Um policial arromba a porta de uma casa com um um porrete, outro entra com a pistola apontada e criva de balas um homem que, ao despertar sobressaltado, agarra um taco de basebol, enquanto outros policiais apontam armas para um menino que já está com as mãos para o alto: trata-se de uma cena de habitual violência “legal” nos Estados Unidos, documentada há uma semana com imagens de vídeo pelo New York Times, que fala do “rastro de sangue” dessa “perseguição” efetuada por um ex-militar recrutado pela polícia, com as mesmas técnicas de ataque aplicadas no Afeganistão e no Iraque.

    Isto a nossa grande mídia não mostra, a mesma que publica nas primeiras páginas notícias sobre a polícia russa prendendo Aliexey Navalni em Moscou por realizar manifestações não autorizadas.
    Uma “afronta aos valores democráticos fundamentais”, define o Departamento de Estado dos EUA, que exige firmemente sua imediata soltura e a de outros que foram presos. Também Federica Mogherini, alta representante da política externa da União Europeia, condena o governo russo porque “impede o exercício das liberdades fundamentais de expressão, associação e reunião pacífica”.

    Todos unidos, portanto, na nova campanha lançada contra a Rússia com os tons típicos da guerra fria, apoiando o novo paladino dos “valores democráticos».

    Quem é Aleixey Navalny? Como se lê em seu perfil oficial, foi formado na universdade estadunidense de Yale como “fellow” (membro selecionado) do “Greenberg World Fellows Program”, um programa criado em 2002 para o qual são selecionados todo ano em escala mundial apenas 16 pessoas com características para se tornar “líderes globais”. Estes fazem parte de uma rede de “líderes empenhados globalmente para tornar o mundo um lugar melhor”, composta atualmente de 291 “fellows” de 87 países, todos em contato entre si e conectados com o centro estadunidense de Yale.

    Navalny é ao mesmo tempo co-fundador do movimento “Alternativa democrática”, um dos beneficiários da National Endowment for Democracy (NED), poderosa “fundação privada sem fins lucrativos” estadunidense que com fundos fornecidos também pelo Congresso, financia, abertamente ou por debaixo do pano, milhares de organizações não governamentais em mais de 90 países para “fazer avançar a democracia” [1]

    A NED, uma das sucursais da CIA para as operações clandestinas, foi e continua particularmente ativa na Ucrânia. Esta fundação apoiou (segundo os seus própriios escritos) “a Revolução de Maidan que abateu um governo corrupto que impedia a democracia”. O resultado foi a instalação em Kíev, com o golpe da Praça Maidan, de um governo ainda mais corrupto, cujo caráter democrático é representado pelos neonazistas que nele ocupam posições chave.

    Na Rússia, onde são proibidas as atividades das “organizações não governamentais indesejáveis”, a NED, contudo, não cessou a sua campanha contra o governo, acusado de conduzir uma política externa agressiva para submeter à sua esfera de influência todos os Estados que outrora faziam parte da União Soviética. Acusação que serve de base à estratégia dos EUA e da Otan contra a Rússia.

    A técnica, já consolidada, é a mesma das “revoluções laranjas”: amplifica casos reais ou inventados de corrupção e outras causas de descontentamento para fomentar uma rebelião contra o governo, de modo a debilitar por dentro o Estado, enquanto externamente cresce sobre este a pressão militar, política e econômica.

    É nesse quadro que se insere a atividade de Alexey Navalny, especializado em Yale como advogado defensor dos fracos contra os abusos dos poderosos.

    Tradução
    José Reinaldo Carvalho
    Editor do site Resistência
    Fonte
    Il Manifesto (Itália)

     [1] “A NED, vitrina legal da CIA”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Odnako (Rússia) , Rede Voltaire, 16 de Agosto de 2016.

    aqui:http://www.voltairenet.org/article195819.html

    terça-feira, 28 de março de 2017

    CIA: Matérias escuríssimas


    por WikiLeaks 
     
    Cartoon de Latuff. Hoje, 23 de Março de 2017, a WikiLeaks divulga a Caixa Forte 7 "Matéria escura" (Vault 7 "Dark Matter"), a qual contem documentação de vários projectos da CIA que infectam o firmware [1] do Apple Mac (o que significa que a infecção persiste mesmo que o sistema operacional seja reinstalado) desenvolvido pelo Embedded Development Branch (EDB) da CIA. Estes documentos explicam as técnicas utilizadas pela CIA para ganhar "persistência" no dispositivos Apple Mac, incluindo Macs e iPhones e demonstram a sua utilização de EFI/UEFI [2, 3] e malware [4] firmware.

    Estes documentos revelam, entre outros, o projecto "Chave de parafusos sónica" ("Sonic Screwdriver) o qual, como explica a CIA, é um "mecanismo para executar código sobre dispositivos periféricos enquanto o computador portátil ou de mesa da Mac está a arrancar" o que permite a um atacante lançar seu software de ataque, através por exemplo de um stick USB "mesmo quando uma password na firmware está activada". O contagiador (infector) "Sonic Screwdriver" da CIA é armazenado no firmware modificado de um adaptador Apple Thunderbolt-to-Ethernet.

    "Céus e mares escuros" ("DarkSeaSkies") é "um implante que persiste no EFI de um comptador Apple MacBook Air" e consiste de "DarkMatter", "SeaPea" e "NightSkies", respectivamente EFI, espaço kernel e implantes no espaço do utilizador.

    Documentos sobre o malware "Triton" MacOSX, seu infeccionador "Dark Mallet" e sua versão com EFI persistente "DerStarke" são também incluídos nesta divulgação. Enquanto o manual do DerStarke 1.4 divulgado hoje data de 2013, outros documentos Vault 7 mostram que a partir de 2016 a CIA continua a confiar e a actualizar estes sistemas, estando a trabalhar na produção do DerStarke2.0 .

    Também incluído nesta divulgação está o manual para o "NightSkies 1.2" da CIA, uma "ferramenta de localização/carregamento/implantação" ("beacon/loader/implant tool") para o Apple iPhone. Vale a pena notar que NightSkies alcançou [a versão] 1.2 em 2008 e é concebido expressamente para ser instalado fisicamente em fábrica nos novos iPhones, ou seja, a CIA tem estado a infectar a cadeia de oferta do iPhone dos seus alvos pelo menos desde 2008.

    Se bem que activos da CIA por vezes seja utilizados para infectar fisicamente sistemas na posse de um alvo visado é provável que muitos ataques de acesso físicos da CIA tenham infectado a cadeia de fornecimento da organização visada, inclusive interditando encomendas postais e outros despachos (abrindo, infectado e reenviando) que deixam os Estados Unidos ou outros países.
    23/Março/2017 
     
    Os novos documentos ciáticos:
  • Sonic Screwdriver
  • DerStarke v1.4
  • DerStarke v1.4 RC1 - IVVRR Checklist
  • Triton v1.3
  • DarkSeaSkies v1.0 - URD

    Ver também:

  • Vault 7: CIA Hacking Tools Revealed

    [1] Firmware:  Programa que é armazenado permanentemente nas placas do circuito electrónico de um computador ou na sua ROM e que não pode ser alterado pelo seu utilizador.
    [2] EFI:  Extensible Firmware Interface, uma especificação de firmware de interface, antecessora do UEFI
    [3] UEFI:  Unified Extensible Firmware Interface, uma especificação que define um software de interface entre um sistema operacional e uma plataforma firmware. O UEFI substitui o BIOS (Basic Input/Output System) que originalmente era o firmware de interface presente em todos os PCs IBM compatíveis. O UEFI permite diagnósticos remotos, mesmo sem haver qualquer sistema operacional instalado.
    [4] Malware:  Malicious-logic, software que actua sobre ficheiros de computador sem o conhecimento do utilizador, um nome geral para vírus de computador.
    [5] Sonic screwdriver:  o nome vem de uma ferramenta fictícia mostrada num programa de ficção científica britânico, Doctor Who.


    O original encontra-se em https://www.wikileaks.org/vault7/darkmatter/

    Esta notícia encontra-se em http://resistir.info/ .
  • sábado, 25 de março de 2017

    NATO e União Europeia: a óbvia e velha geminação

    por José Goulão

    Durante toda a segunda metade do século passado, a partir do Tratado de Roma de 1957, a Comunidade Económica Europeia sempre foi olhada como um «pilar europeu» da NATO, submetendo a política de defesa dos Estados membros às normas, práticas e estratégias da aliança militar transatlântica.

    Ilustração de Irene Sá
    Ilustração de Irene Sá 

    A criação da NATO, em 1949, antecedeu em oito anos o Tratado de Roma, que deu origem à Comunidade Económica Europeia (CEE). E todos os seis Estados fundadores desta tinham participado na formação da Aliança Atlântica, sob o controlo militar norte-americano da Europa Ocidental e sobre os escombros de uma vasta região carente do traiçoeiro e caríssimo Plano Marshall. Nos prosaicos termos da teoria dos conjuntos, a CEE (hoje União Europeia) integra a NATO desde os tempos em que nem sequer nascera.

    É inevitável que a chamada «construção europeia» – na sua vertente real, não a mitológica para efeitos de propaganda – seja inseparável da estratégia e dos comportamentos da NATO, uma vez que uma e outra cuidam dos mesmos interesses. A versão oficial assegura que são a democracia e os direitos humanos; os cidadãos sentem e sabem, por experiência própria, que a «Europa» e a autoproclamada «aliança defensiva» cuidam sobretudo da impunidade do mercado, do casino da finança, da austeridade, da desregulação de capital e trabalho, das guerras expansionistas e de rapina sempre que esses interesses as reclamem.

    Não foi apenas na origem que a união militar antecedeu a união política; a história das décadas mais recentes demonstra que a NATO chegou sempre antes da «Europa» quando e onde houve matéria-prima – territórios, países e povos – a capturar.

    Nos Balcãs, na esteira da destruição artificial e sangrenta da Jugoslávia, a aliança militar apropriou-se – formal ou informalmente – da Croácia, Eslovénia, Bósnia-Herzegovina, Kosovo e Montenegro; a União Europeia, enquanto tal, chegou depois e submetendo-se aos esboços traçados pelo aparelho militar transatlântico, para então cuidar da formatação política nesses territórios, entre chantagens e promessas miríficas.

    Mais flagrante ainda foi a corrida aos despojos dos antigos Tratado de Varsóvia e União Soviética. A NATO fez de lebre na anexação dos países desde a RDA, Roménia e Bulgária aos Estados do Báltico, fazendo a União Europeia de tartaruga, isto é, impondo a componente política invasiva depois de estabelecidos os parâmetros militares, os quais, em boa verdade, presidiram à transição sem rede da economia planificada para a anarquia mercantilista. Ao conjunto das operações chamaram «democratização».

    Ainda hoje – hoje em realidade temporal e não figura de retórica – os Estados Unidos acabaram de colocar mais mil soldados com capacidades letais na Polónia, ameaçando «defensivamente» a Rússia, ignorando olimpicamente os desencontros, apenas narcísicos, entre o regime pré-fascista de Varsóvia e Donald Tusk, o agente polaco do liberal-conservadorismo instalado à cabeça do Conselho Europeu.

    Não passam, pois, de mitos engendrados nos centros de propaganda que alimentam a gesta da chamada «integração europeia» as lendas em torno dos «pais fundadores» e seus impulsos visionários. Enquanto o banqueiro Jean Monnet criava o seu Comité de Acção para os Estados Unidos da Europa, na primeira metade dos anos cinquenta, depois de ter assessorado o presidente Roosevelt no impulso armamentista norte-americano, já os Estados Unidos tinham assegurado o controlo militar e «democrático» da Europa através da NATO, integrando até a ditadura fascista que vigorava em Portugal; ainda Robert Schuman, o «pai da Europa» a quem o papa Wojtyla abriu as portas da canonização no ano da queda do Muro de Berlim, pregava sobre a indispensável aliança política entre a França e a Alemanha, já os dois países se tinham irmanado dentro da NATO, sob a tutela do Pentágono; ainda o direitista chanceler alemão Konrad Adenauer procurava salvar os restos das bases industriais do país do assédio punitivo da França e de Jean Monnet – depois diluído com a criação da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço – e já a Alemanha Ocidental fazia parte da NATO, o que aconteceu antes de ser reconhecida verdadeiramente como um novo Estado soberano.

    Durante toda a segunda metade do século passado, a partir do Tratado de Roma de 1957, a Comunidade Económica Europeia sempre foi olhada como um «pilar europeu» da NATO, submetendo a política de defesa dos Estados membros às normas, práticas e estratégias da aliança militar transatlântica. A integração política desenvolveu-se sempre no âmbito de uma confraria militar operada a partir dos Estados Unidos e envolvendo um núcleo dos países mais poderosos tanto na «Europa» como na NATO: Alemanha, França, Reino Unido e Itália. O Brexit não altera os dados da situação porque se processa apenas na União Europeia – o elo mais fraco destas ligações.

    A transferência de tarefas operacionais da NATO para a CEE/CE/UE, tendência que se vem reforçando no século em curso, no âmbito da formação de um chamado «exército europeu», não é redundante do ponto de vista militar porque traduz, sobretudo, uma partilha de missões e uma repartição de encargos, naturalmente em prejuízo dos países e povos europeus.

    Porque a questão de fundo, a permanente pressão militar atlantista sobre as decisões políticas, no âmbito da integração europeia e da vida nos Estados participantes, sempre foi salvaguardada.

    Os exemplos dessa realidade foram abundantes durante a guerra fria, período em que a «integração europeia» serviu de pretexto para a definição de baias políticas que não poderiam ser ultrapassadas pelos Estados membros, mesmo que a vontade dos povos, expressa em eleições, e até o realismo de alguns políticos o justificasse. Uma linha absolutamente inultrapassável imposta pela NATO, e cumprida pelas instituições europeias, era a do acesso de Partidos Comunistas à área governamental.

    Os casos mais flagrantes foram o de Itália nos anos setenta, culminando com o assassínio do dirigente democrata Aldo Moro; e os da Grécia – onde o PASOK sempre rejeitou acordos com os comunistas; e, sobretudo, de Portugal, onde a adesão à CEE, sem qualquer consulta popular e informação objectiva da população sobre as consequências, foi uma operação que serviu principalmente para tentar liquidar, através de imposições externas militares, económicas e políticas, as vias transformadoras harmonizadas com o espírito da Revolução de 25 de Abril.

    Os partidos sociais-democratas e socialistas europeus, peças estratégicas da «integração europeia» sob gestão da NATO, respeitaram as exigências atlantistas – parte de uma obscura política de bastidores – e sempre que surgiam suspeitas de desvios o mal era extirpado liminarmente. Assim desapareceu o primeiro ministro sueco Olof Palme do número dos vivos. Para manter as aparências «democráticas», as decisões emanadas do submundo político-militar eram executadas por organismos terroristas clandestinos apensos à própria NATO – a Gladio, por exemplo – como está cabal e documentalmente comprovado.

    Assim se foi solidificando, dentro da NATO e da União Europeia, a convergência das políticas militares e económicas dos socialistas/sociais-democratas e das direitas liberais-conservadoras em formato de partido único, no exterior do qual não havia prática política com acesso à verdadeira tomada de decisões.

    Com a queda do Muro de Berlim a NATO tomou o freio nos dentes e nem sequer pôs a hipótese de se extinguir, uma vez que o mesmo acontecera com o Tratado de Varsóvia, muitas vezes identificado – com todo o desplante – como a razão da sua existência.

    A confluência dos avanços neoliberais durante os anos oitenta, a vertigem do progresso tecnológico e a extinção do inimigo ideológico proporcionou a veloz e frenética anexação dos ex-membros do Tratado de Varsóvia pela NATO, ainda antes de o serem pela «Europa».

    O Tratado de Maastricht, fruto deste cenário, remeteu, de facto, o Tratado de Roma para a arqueologia da «integração europeia». Surgiu uma outra «Europa», sem se sentir amarrada a quaisquer peias de capitalismo «social» ou «de rosto humano».

    As instituições europeias e os Estados membros, de Lisboa a Tallinn, abraçaram o neoliberalismo puro e duro; os socialistas/sociais-democratas, antes de começarem a emergir excepções, embriagaram-se com a terceira via – o liberalismo thatcheriano à moda de Blair; tudo isto sempre a reboque da estratégia da NATO e das suas guerras sem leis, ao serviço da globalização entendida como regime neoliberal global.

    Até à crise que explodiu há quase dez anos, tão teimosa que parece inconvertível ao determinismo capitalista da sucessão de ciclos de crescimento e estagnação/recessão.

    Para a NATO, tal facto não parece ser problema. Os militares, por definição, não têm que se preocupar com a democracia, os direitos dos cidadãos e até as convulsões no mundo das economias. Isso, em tese, cabe aos políticos.

    O elo mais fraco do sistema, porém, está agora ainda mais fraco. O normativo político da NATO já começou a ser desrespeitado aqui e ali; a União Europeia tornou-se uma caricatura de um gigante mal amanhado e com os pés de barro; e o capitalismo selvagem é sacudido por contradições que ainda há poucos anos eram inimagináveis.

    Não é apenas o Brexit e outras insolvências; nem sequer o aparecimento de Trump; nem a fuga para a frente do que resta da União Europeia, a diferentes velocidades e para um federalismo sem qualquer tipo de sustentação; nem as setas envenenadas disparadas entre Washington e Berlim, entre Varsóvia e Bruxelas, entre Paris e Moscovo, entre uns e outros, entre outros e uns.

    Assistimos apenas a sinais; detectamos sintomas. A instabilidade tomou conta das estruturas transnacionais neoliberais que se afirmavam sólidas, inamovíveis, capazes de decretar o fim da História. Há um potencial e um espaço para a mudança, porém ante uma barreira que procura travar o desmoronamento do sistema – a NATO. Esse potencial de mudança arranca muito atrás de fenómenos nos quais o capitalismo, temendo a desagregação, foi delegando atribuições para sobreviver: o fascismo, o nacionalismo, os estados de excepção.

    Geminada com a NATO desde o nascimento, a União Europeia é sempre uma putativa entidade paramilitar. Com o extremar das crises, o poder autoritário das armas abafa a razão das palavras.

    Cabe aos cidadãos evitar que a guerra seja, mais uma vez, a «solução».

    aqui:http://www.abrilabril.pt/nato-e-uniao-europeia-obvia-e-velha-geminacao

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