Um trabalho interessante, feito por dois economistas do muito recomendável Political Economy Research Institute, sobre a relação cúmplice entre a análise económica dominante e os interesses do sistema financeiro e sobre as questões éticas que tal cumplicidade levanta. Se a Ordem dos Economistas servisse para alguma coisa, que não serve, poderia debater e escrutinar estas coisas.
Quase todos os economistas de televisão têm ligações ao sistema financeiro. Os telespectadores deveriam ser, pelo menos, informados deste facto.
Por exemplo, a RTP2 tem agora, à quinta-feira, Bento e Bessa como comentadores permanentes. Este estado de coisas já não se explica pela incompetência ou pela ignorância: a opinião pública é para ser trabalhada. Este trabalho ideológico só está garantido se o debate se cingir a quem defende cortes salariais, desregulamentação das relações laborais e privatizações e a quem defende privatizações, desregulamentação das relações laborais e cortes salariais. A denúncia feita pelo provedor do telespectador (Paquete de Oliveira) foi muito importante.
http://www.ladroesdebicicletas.blogspot.com/
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
Uma perspectiva da crise.
"A Verdade da Crise" (Inside Job) de Charles Ferguson, Chad Beck e Adam Bolt.
Um filme tão ilegível quanto os activos tóxicos; a velocidade do diálogo não é compensada pelas legendas, muitas delas indecifráveis.
Mistura a causa com a culpa; os defeitos intrínsecos dum sistema financeiro em roda livre (desregulado e sem URSS) com os erros dos agentes e dos utentes. E não procura distinguir erros de análise, na crença eufórica do crescimento sem limites, dos crimes. Crimes que foram cometidos pelos acusados que abusaram da situação que, se não for corrigida, levará a que outros desempenhem papel idêntico como os actores na reposição de uma peça.
Por fim, de quem sobrepõe a acusação à análise, esperava que não omitisse o mea-culpa de Greenspan. Foi pena.
Um filme tão ilegível quanto os activos tóxicos; a velocidade do diálogo não é compensada pelas legendas, muitas delas indecifráveis.
Mistura a causa com a culpa; os defeitos intrínsecos dum sistema financeiro em roda livre (desregulado e sem URSS) com os erros dos agentes e dos utentes. E não procura distinguir erros de análise, na crença eufórica do crescimento sem limites, dos crimes. Crimes que foram cometidos pelos acusados que abusaram da situação que, se não for corrigida, levará a que outros desempenhem papel idêntico como os actores na reposição de uma peça.
Por fim, de quem sobrepõe a acusação à análise, esperava que não omitisse o mea-culpa de Greenspan. Foi pena.
Let's make Money
(...) No processo de privatização os bens públicos são comprados por investidores privados. Algumas vezes até os recebem como presente.
Isto não é mais que privar a sociedade dos bens públicos. Poderias resumir da seguinte forma: A sociedade é privada de um determinado bem de que o investidor privado está interessado por razões de LUCRO.
Aqueles que compreendem, apenas se preocupam durante o curto periodo de tempo da sua carreira.
Eles não estão preocupados no que acontecerá depois deles. Esta atitude a curto prazo, a falta de vontade de tomar responsabilidade a longo prazo, sabendo que são outros que vão ter que resolver os problemas mais tarde, é tipico da ERA NEO-LIBERAL.
Na ERA NEO-LIBERAL, tudo se reduz a LUCRAR o mais possivel no imediatamente e isto a qualquer custo.
Declaração dos direitos humanos declara:
"Todos os seres humanos nascem livres e com igualdade de dignidade e direitos."
Se quiserermos usar este principio humanitário a distribuição da riqueza tem de ser diferente. A distribuição deverá ser a favor de toda a sociedade e não a favor de uns poucos individuos.
Só assim se poderá preservar o principio HUMANITÁRIO. (...)
IMPERDÍVEL este excelente documentário para compreender melhor o funcionamento dos mercados!
Isto não é mais que privar a sociedade dos bens públicos. Poderias resumir da seguinte forma: A sociedade é privada de um determinado bem de que o investidor privado está interessado por razões de LUCRO.
Aqueles que compreendem, apenas se preocupam durante o curto periodo de tempo da sua carreira.
Eles não estão preocupados no que acontecerá depois deles. Esta atitude a curto prazo, a falta de vontade de tomar responsabilidade a longo prazo, sabendo que são outros que vão ter que resolver os problemas mais tarde, é tipico da ERA NEO-LIBERAL.
Na ERA NEO-LIBERAL, tudo se reduz a LUCRAR o mais possivel no imediatamente e isto a qualquer custo.
Declaração dos direitos humanos declara:
"Todos os seres humanos nascem livres e com igualdade de dignidade e direitos."
Se quiserermos usar este principio humanitário a distribuição da riqueza tem de ser diferente. A distribuição deverá ser a favor de toda a sociedade e não a favor de uns poucos individuos.
Só assim se poderá preservar o principio HUMANITÁRIO. (...)
IMPERDÍVEL este excelente documentário para compreender melhor o funcionamento dos mercados!
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
Inexorável
O JORNAL «Le Monde» publicou uma reportagem do seu enviado a Lisboa à qual deu o título: «Portugal desliza inexoravelmente para a pobreza». Pela reportagem desfila um conjunto impressionante de números. Dá ideia que as estatísticas se revoltaram contra a política portuguesa e aí as temos, num tumultuoso desfile contestatário, denunciando 30 anos de conluio de interesses entre três partidos governantes e as respectivas clientelas. E o resultado é a pobreza extrema que ameaça agora, no mais elementar dos direitos de subsistência, os que já eram pobres mas também a classe média.
Quarenta por cento dos novos pobres portugueses são desempregados ou endividados que anteriormente não viviam na pobreza. É assim Portugal, campeão europeu da desigualdade: novos portugueses e os mesmos ricos, acrescidos de uma casta de novos-ricos que proliferam na babugem dos velhos donos do País, cada vez mais ricos. A reportagem de «Le Monde» assinala, aliás, que Portugal chega a esta fase de crise à beira da falência «sem ter conhecido os delírios bancários da Irlanda» ou «as loucuras imobiliárias de Espanha».
Tem pontos altos a manifestação das estatísticas que desfilam contra as políticas de 30 anos de clientelismo, de destruição da indústria, das exportações, da agricultura e das pescas, tudo em favor da finança e da especulação. Desfila agora a estatística que dá conta de novo impulso da mortalidade infantil. Logo atrás vêm os números que dizem que os cortes orçamentais ameaçam afastar doentes dos tratamentos e que estão iminentes recaídas no consumo do álcool e das drogas ilícitas.
Mas isto é apenas uma manifestação virtual. De resto, e como comentava um leitor desta coluna aqui há dias, «reina a calma na panela de pressão».
por João Paulo Guerra, «DE» de 23 Novembro 10
Quarenta por cento dos novos pobres portugueses são desempregados ou endividados que anteriormente não viviam na pobreza. É assim Portugal, campeão europeu da desigualdade: novos portugueses e os mesmos ricos, acrescidos de uma casta de novos-ricos que proliferam na babugem dos velhos donos do País, cada vez mais ricos. A reportagem de «Le Monde» assinala, aliás, que Portugal chega a esta fase de crise à beira da falência «sem ter conhecido os delírios bancários da Irlanda» ou «as loucuras imobiliárias de Espanha».
Tem pontos altos a manifestação das estatísticas que desfilam contra as políticas de 30 anos de clientelismo, de destruição da indústria, das exportações, da agricultura e das pescas, tudo em favor da finança e da especulação. Desfila agora a estatística que dá conta de novo impulso da mortalidade infantil. Logo atrás vêm os números que dizem que os cortes orçamentais ameaçam afastar doentes dos tratamentos e que estão iminentes recaídas no consumo do álcool e das drogas ilícitas.
Mas isto é apenas uma manifestação virtual. De resto, e como comentava um leitor desta coluna aqui há dias, «reina a calma na panela de pressão».
por João Paulo Guerra, «DE» de 23 Novembro 10
Fraude Conveniente
No espaço de uma semana dois artigos diferentes no Público davam conta de factos diferentes. No artigo que publiquei com o João Rodrigues afirmamos: “os aumentos salariais (em Portugal) estiveram em linha com os aumentos da produtividade”. Francisco Sarsfield Cabral publica a seguinte afirmação: “Eles (os alemães) sabem, por exemplo, que, enquanto os salários alemães estagnavam ou desciam, nos últimos anos os salários gregos e portugueses subiam muito acima da produtividade.” Isto num artigo que acusa quem quer perceber as causas da actual crise de andar a procura de “bodes expiatórios” e em que aponta o Estado português (“o monstro”) como origem de todos os males. Quanto a “bodes expiatórios” estamos conversados…
Quanto ao senso comum televisivo dos tempos que correm, da produtividade e como Portugal tem vivido um regabofe salarial, onde os trabalhadores vivem acima das suas possibilidades, não há nada como ver, sei lá, os dados. A discussão em torno do cálculo da produtividade do trabalho ou de como a desigualdade salarial em Portugal se tem vindo a agudizar é bem interessante, mas nem sequer vou entrar por aí. Observando a evolução da produtividade (primeiro gráfico) e da compensação real do trabalho na Europa (segundo gráfico) - únicas medidas comparáveis, pois estão ambas deflacionadas - observamos que quer os gregos, mas especialmente os portugueses têm acumulado ganhos abaixo dos da produtividade. Na última década pode-se falar, muito cautelosamente, em alinhamento para o caso português. Nem sempre repetir uma mentira muitas vezes a torna verdade.
Quanto ao senso comum televisivo dos tempos que correm, da produtividade e como Portugal tem vivido um regabofe salarial, onde os trabalhadores vivem acima das suas possibilidades, não há nada como ver, sei lá, os dados. A discussão em torno do cálculo da produtividade do trabalho ou de como a desigualdade salarial em Portugal se tem vindo a agudizar é bem interessante, mas nem sequer vou entrar por aí. Observando a evolução da produtividade (primeiro gráfico) e da compensação real do trabalho na Europa (segundo gráfico) - únicas medidas comparáveis, pois estão ambas deflacionadas - observamos que quer os gregos, mas especialmente os portugueses têm acumulado ganhos abaixo dos da produtividade. Na última década pode-se falar, muito cautelosamente, em alinhamento para o caso português. Nem sempre repetir uma mentira muitas vezes a torna verdade.
retirado de: http://www.ladroesdebicicletas.blogspot.com/
A sorte do euro
As taxas da dívida pública portuguesa voltam a subir.
Como aqui disse, no próximo ano decide-se a sorte do euro.
O salvamento das economias da periferia da Zona Euro, uma a uma, não é sustentável, financeira, social e politicamente.
Os especuladores bem sabem que: (1) por muito que os governos destes países digam o contrário, as medidas de austeridade afundam ainda mais cada uma destas economias; (2) a doutrina económica que domina os decisores políticos no Norte da Europa, e em particular na Alemanha, não vai mudar tão cedo.
Assim, tudo se conjuga para que, sem crescimento durante os próximos anos, os défices continuem a fazer crescer a dívida destes países. Ano a ano, nem sequer pagarão os juros da dívida acumulada. Insustentável nas actuais condições políticas.
A vez de Portugal está a chegar, e a seguir a da Espanha. Esse será o dia do juízo final. Dada a dimensão da economia espanhola, a opinião pública e os eleitores alemães exigirão o fim desta vertigem suicida.
Como dizia há meses Wolfgang Münchau (aqui), os governos europeus cometeram um erro fundamental ao não deixarem falir alguns bancos e ao não fazerem os accionistas de outros partilhar os custos do seu salvamento.
E W. Münchau termina assim:
"A grande questão da eurozona não é a estrita disciplina finaceira mas a solvência nacional, que é um conceito muito mais amplo. Por causa da cobertura global dos prejuízos dos bancos [concedida pelos estados], já não é possível separar dívida pública de dívida privada. Temos pura e simplesmente dívida. Estamos assim numa situação paradoxal em que a sobrevivência dos bancos está mais garantida do que a dos que os salvaram."
Por tudo isto, a greve geral deve ser não apenas um dia de protesto mas também um dia de reflexão. Sobre um novo caminho a propor ao País.
Como aqui disse, no próximo ano decide-se a sorte do euro.
O salvamento das economias da periferia da Zona Euro, uma a uma, não é sustentável, financeira, social e politicamente.
Os especuladores bem sabem que: (1) por muito que os governos destes países digam o contrário, as medidas de austeridade afundam ainda mais cada uma destas economias; (2) a doutrina económica que domina os decisores políticos no Norte da Europa, e em particular na Alemanha, não vai mudar tão cedo.
Assim, tudo se conjuga para que, sem crescimento durante os próximos anos, os défices continuem a fazer crescer a dívida destes países. Ano a ano, nem sequer pagarão os juros da dívida acumulada. Insustentável nas actuais condições políticas.
A vez de Portugal está a chegar, e a seguir a da Espanha. Esse será o dia do juízo final. Dada a dimensão da economia espanhola, a opinião pública e os eleitores alemães exigirão o fim desta vertigem suicida.
Como dizia há meses Wolfgang Münchau (aqui), os governos europeus cometeram um erro fundamental ao não deixarem falir alguns bancos e ao não fazerem os accionistas de outros partilhar os custos do seu salvamento.
E W. Münchau termina assim:
"A grande questão da eurozona não é a estrita disciplina finaceira mas a solvência nacional, que é um conceito muito mais amplo. Por causa da cobertura global dos prejuízos dos bancos [concedida pelos estados], já não é possível separar dívida pública de dívida privada. Temos pura e simplesmente dívida. Estamos assim numa situação paradoxal em que a sobrevivência dos bancos está mais garantida do que a dos que os salvaram."
Por tudo isto, a greve geral deve ser não apenas um dia de protesto mas também um dia de reflexão. Sobre um novo caminho a propor ao País.
Sensatez neo-liberal
Falemos das perdas que o país e a economia têm por não aproveitarmos bem o trabalho e por termos os níveis de desemprego que temos e por termos a posição frágil, assimétrica, do trabalho na sociedade portuguesa (…) Trabalha-se muito e não se remunera bem o trabalho (…) Uma das ideias mais falsas no debate sobre o trabalho em Portugal é dizer que os salários cresceram mais do que a produtividade.
José Reis
A teoria neoliberal falhou redondamente (…) O papel do Estado tem de ser reforçado (…) A economia tem de ser avaliada e escrutinada (…) É preciso uma ofensiva diplomática concertada dos países do sul (…) O bloco franco-alemão não tem conduzido a política europeia no modo como foi conduzida noutros tempos.
Silva Peneda
José Reis
A teoria neoliberal falhou redondamente (…) O papel do Estado tem de ser reforçado (…) A economia tem de ser avaliada e escrutinada (…) É preciso uma ofensiva diplomática concertada dos países do sul (…) O bloco franco-alemão não tem conduzido a política europeia no modo como foi conduzida noutros tempos.
Silva Peneda
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