quarta-feira, 3 de novembro de 2010

por PEDRO BARROSO

ALTO! Essa doce palavra anarquista, essa não. Por favor.

Ouvi e calei a vergonha, ao ouvir usado esse termo nos noticiários do país como sendo o dos responsáveis pelo bombismo que grassa pela Europa.

É de uma indigência mental confundir as correntes libertárias de pensamento com um terrorismo generalista de bombas e destruição.

É uma canalhice sórdida e sem argumento, nem histórico, nem filosófico.

Os atentados anarquistas, no sentido restrito do termo, foram raros, em momentos históricos de total encruzilhada e mesmo assim, controversos qb para lhes atribuirmos uma razão de causa e fundamento ou sequer concordância global de todos os envolvidos.

Perguntem ao rapaz Bin Laden – um especialista; aos fundamentalistas espalhados pelo planeta; ou, se calhar, ou até a alguns sinistros teóricos da destruição total para um mundo reconstruído à sua medida. Lembrei-me agora que o pessoal do Bilderberg Group tudo manda e tudo sabe. Portanto, alguma coisa há-de saber.

Aliás, parece farisaico, por um lado, celebrar a República - que nos foi dada na bandeja carbonária – e, por outro lado, chamar grupos anarquistas a quem quer que se intitule responsável por estas encomendas letais aos líderes europeus.

Sempre que não conseguem entender nem o pacifismo, nem o existencialismo, nem a independência de vistas, nem a acção de iniciativas de rua, nem a proverbial inventiva apartidária e seu humor anarquista, a tendência dos governos status quo atribui, como colagem imediata, a grupos anarquistas a culpa de todas as Brigadas rossas e Baader Meinhoff’s do Mundo.

Quando ainda adolescente, desconfiei da catequese e dos conhecimentos místico -superiores do senhor prior de Santa Catarina. Quando comecei a suspeitar que se calhar aquele senhor de saias não era afinal intermediário de coisa nenhuma, mas apenas mais um palhaço de Deus “nosso senhor” travestido de incenso e influências.

Quando me fascinei pelas matérias do século, do conhecimento e da história. Quando percebi que as nossas glórias eram muitas vezes fundadas na pirataria e no roubo descarado, por tudo onde andámos, em nome da fé e do Império.

Quando repudiei Franco e Salazar, primeiro de forma incipiente e instintiva, depois mais integrado em acções concertadas. Quando, por uma qualquer inexplicável ideia de liberdade adoptei a crítica, o sentido das perguntas, o caminho da dialéctica, mas ao mesmo tempo da inquietação. Quando me revoltei contra a guerra e a injustiça e parti, sem jeito de saber nada daquilo ao que ia, menino ainda, perdido pelas fronteiras de Portalegre até à velha Albion.

Quando descobri que o Hitler fora um psicopata homicida de milhões, patético naquilo da raça, eleito, imagine-se!, por sufrágio eleitoral; e que o Mao era, ele próprio, argumentativamente, um tigre de papel e Staline um requintado criminoso.

Quando aprendi a ler a esquerda na direita e a direita na esquerda, e a corrupção instalada, por vocação, nos partidos ditos de centro, por serem partidos putativos de governo e distribuição de benesses. Quando vi o estado de graça e ingenuidade pura em que celebrámos a Liberdade e a rota envolvente que percorremos até hoje; e, no entanto, a habilidade tortuosa e florentina com que um bando de jeitosos conseguiu alcandorar-se aonde queria e subverter todos os caminhos de Abril.

Quando vejo os ordenados dos gestores públicos, as desigualdades sociais, a fanecada parlamentar, as vaidades pessoais, insultos e argumentos, e sobretudo, a gloriosa conquista da desgraça aportada por este senhor dito engenheiro - e quem sou eu para o contestar, chiça?…- eu fico parvo, pequeno, calado, sem reacção.

E o peito um calo honroso cria, - eu sempre vos disse. Não há caminhos fáceis.

Ai, amigos, camaradas de todas as cores e feitios, sindicalistas vermelhos, roxos e amarelos, … fico ainda mais convicto no meu alinhadíssimo não-alinhamento!

Fui anarquista, e acho que o vou ser o resto de meus dias, companheiros.

Emigrei cedo nessa pátria da utopia e do milagre humano por acontecer; nessa cidade nova de sonho e amizade, nessa sociedade sem trancas nas portas, algures entre a intimidade forçada da ilha do Corvo e a hombridade colectivista de Rio de Honor.

Assim me cooptei e convenci, se preciso fosse. Alinhado, mas livre. Nem Deus, nem Nietsche, nem Bakunine, nem sequer Trotsky. Ou até Dalai Lama. Livre.

Tristemente descrente, diria um observador atento.

Quando vi os gritos, confusões e exageros após a Liberdade; e, de caminho, comecei a ver tantos homens de bem transformados em carrascos; e tantos homens de bem transformados em criminosos, eu fiquei tremendo na fímbria da razão e do desespero.

E revoltei-me; e fiquei ainda mais descrente e anarquista.

A vida, as desilusões, os amores e desamores, tudo trocado e ao lado do que houvera de ser e conseguir-se, o difícil da vida, os partidos que existem, as guerras de poder, a involução estúpida da espécie, a constatação evidente da irreversível destruição do planeta, tudo me reconfirma, a cada dia nos dai hoje, a irreprimível sensação de doloroso acerto. E como gostaria de enganar-me.

Mas a utopia é doce. Em nome de todas as crenças e de todos os que têm a suprema graça de acreditar nalguma coisa, não conspurquem o seu sagrado nome - Anarquia.

Para que eu possa olhar-me ao espelho todas as manhãs conforme sou.
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