domingo, 3 de agosto de 2014

A degradação ideológica da direita: três componentes (1)


  por Daniel Vaz de Carvalho [*]
 

Cartaz do lançamento da 'Opera dos três vintens', em 1928. Escreveu mestre Miguel Urbano Rodrigues, acerca do ”nível de degradação politica a que desceu a escória encastelada no poder”: "O discurso deste governo, é um discurso insano, neofascista, que inverte a realidade e ofende a inteligência." [1]

Com o neoliberalismo, atual suporte teórico do capitalismo, o pensamento da direita atingiu o grau zero da racionalidade. Evidenciamos a degradação política e ideológica da direita em três das suas componentes: solipsismo, malthusianismo, obscurantismo. E como dialeticamente tudo está ligado, veremos, 3 em 1: sempre o aumento da exploração e da arbitrariedade. [2]

1 - Solipsismo, a fuga ao real
Aos ricos dá-lhes riqueza, Hossana.
Dá-lhes a virtude por acréscimo, Hossana;
Dá àqueles que já possuem, Hossana.
Dá-lhes a cidade e o Estado

   Bertolt Brecht, Ópera dos três vinténs
Face ao descalabro das suas políticas a direita desligou-se da realidade, mergulhou no que podemos classificar de solipsismo. No solipsismo, a realidade consiste no que cada indivíduo concebe como tal. A realidade torna-se um produto da consciência: o que se pensa, "é". Está na base das "críticas construtivas" dos propagandistas do governo ao dizerem que o problema deste governo seria a "comunicação". Adotam o lema salazarista de que "em política o que parece, é". As contradições do sistema eram então "suprimidas" pela polícia política.

A própria base teórica evidencia já uma desconexão da realidade, tomando como real a aparência das coisas. É o caso de assumir como valor o que resulta da oferta e da procura. É o caso do capital fictício dos produtos financeiros, sejam ações, sejam os "produtos derivados", aparência de bens ou serviços que não existem. O rebentamento das bolhas financeiras, as falências bancárias reduzem a nada estas conceções.

Exemplos de fuga à realidade, são as medidas avulsas dos governos e da UE, sejam para o "crescimento e o emprego" sejam para o "aumento da natalidade". Não passam de cosmética para ganhar tempo e iludir a opinião pública, por parte de gente incapaz de reconhecer que a raiz do problema está nas suas próprias conceções ideológicas: "A questão não é sobre as regras que estão definidas e são reconhecidas é sobre a qualidade da execução". [3]

O BES como reincidência, à semelhança do que se tem passado por todo o mundo neoliberal, traz evidencia que para troika, Banco de Portugal (BP), governos, a realidade é-lhes opaca quando se trata da oligarquia financeira. Auditorias, análises, estudos servem para a encobrir e ilibar, culpabilizando socialmente as camadas populares que consumiriam sempre acima das possibilidades.

No caso BES como no BPN as declarações dos governadores do BP e ministros das Finanças são patéticas, a fuga à realidade manifesta-se escondendo-se atrás de formalismos. Outra é a atitude quando se trata de atacar salários, pensões, reformas ou direitos laborais com normas anticonstitucionais!

A austeridade aparece então como um novo mito de Sísifo, tentando ilusoriamente, à custa das camadas populares, transformar o fictício em real. Ora, não é possível encontrar solução para situações das quais não haja compreensão. Dizia Espinosa no seu "Tratado do Entendimento": "Toda a confusão provém de a mente conhecer apenas superficialmente uma coisa que é um todo ou se compõe de muitos elementos (…) essa coisa terá de conhecer-se não parcialmente, mas na totalidade ou então não se conhecerá de todo".

A fuga ao real evidencia-se no falhanço das previsões e dos objetivos das estratégias, na atitude perante a renegociação da dívida. A atual maioria PSD-CDS, os membros do governo criam cenários fictícios, divorciados da realidade económica. Os próprios dados económicos são apresentados como abstrações retiradas dos contextos gerais ou muito simplesmente falseados.

Para não se reconhecer os erros dos seus pré-conceitos ideológicos, o quadro social é omitido. As consequências das suas políticas, são tratadas como questões subjetivas: "se tu queres, tu podes". Esta é a base da alienação [4] e voluntarismos como o empreendedorismo. É a forma de manter o sistema capitalista, que seria perfeito como "coisa em si", e "tornar o indivíduo responsável pelas relações de que é socialmente um produto". (Marx)

Segundo "o fundador do pensamento conservador anglo-saxónico, Edmund Burke (1729-97) "o mercado em regra resolve tudo bem; se excecionalmente algum homem não conseguir trabalho, então ele fica fora da responsabilidade do Estado e passa para a misericórdia divina". Burke afirmava ainda: "O Estado só tem de encorajar a indústria e garantir a propriedade privada (…) para além disso quanto menos o Estado fizer, melhor, o resto fica nas mãos de Deus" e caso não se conformem com a retribuição pelo seu esforço: "as classes populares devem ser ensinadas a acreditar na consolação plena que encontrarão nas proporções da justiça eterna". [5] Também, segundo o sr. Vítor Bento "para que a sociedade funcione corretamente", deve organizar-se, pela religião: "a religião proporciona um quadro de valores fundamentais (…). [6] .

Sempre que a religião saiu do foro das crenças individuais para se "impor às sociedades" o resultado foi desastroso, com o seu rasto de misérias, repressão, excessos, justificação da arbitrariedade dos poderosos, guerras religiosas, depravação e ganância do clero. Nem sequer é preciso falar da Inquisição, para citar o lastro de obscurantismo e irracionalidade na História das religiões.

Não nos parece sério querer colocar a religião ao serviço de doutrinas económicas iníquas, mas esta sempre foi a intenção das oligarquias. O seu pensamento nesta matéria é exemplarmente desvendado por Voltaire: "Meu amigo, acredito tão pouco como tu nas penas eternas, mas é bom que a tua criada, o teu alfaiate e até o teu procurador, acreditem nelas."

A forma mais eficaz que os oligarcas e seus defensores encontraram para controlar os povos, foi apresentar os seus interesses privados quer em termos morais quer baseados numa pseudo ciência económica. É a forma de iludirem os "termos coletivos" e fugir á realidade. Considera então que o principal problema da economia no século XXI é a moral: "o que falta é um padrão moral como aquele que a religião impôs às sociedades". [6]

Preocupado com os "padrões morais" o sr. Vítor Bento fala que "uma sociedade não pode funcionar assim". Era de supor que se referisse aos banqueiros fraudulentos, às suas ilegalidades, aos paraísos fiscais, aos contratos leoninos das PPP, à extorsão financeira dos SWAP, etc. Mas não, pelo exemplo dado, o problema são os borlistas nos transportes públicos… [6] Está, assim, plenamente justificada a sua ida para o BES!

O refúgio em "valores", entendidos como moral individual, tem sido de facto um alibi para a direita e a extrema-direita. As contradições deixariam de pertencer à realidade objetiva sendo explicados por fatores subjetivos. E isto tanto mais, quanto mais se verifica a corrupção, a fraude: "uma classe cleptocrática tomou conta da economia". [7]

É este capitalismo corrupto, infiltrado pelo crime organizado em conluio com a finança, que se pretende regenerar com pregação moral…Moral que a UE reduz à baixeza mais vil ao propor que se introduzam no PIB (por estimativa) as atividades dos tráficos e crueldades do crime organizado. Afinal, os "valores" que contam são apenas os do dinheiro.

Quando se afirma que o "Estado Social tem de ser associado às disponibilidades que o Estado tem", está a dizer-se que as prioridades são as da especulação e da agiotagem fomentada e protegida pelo BCE. Porém, que "disponibilidades" existem ou se criam quando o Estado deixa fugir a riqueza criada no país para paraísos fiscais e entrega ao desbarato a grupos privados empresas públicas lucrativas?

Que padrão moral existe num sistema que apela ao consumismo como virtude e vive disso, para depois condenar à austeridade povos que alegadamente teriam cedido aos seus apelos? Eis como o solipsismo remete as questões sociais para a moral individual. Santo Antão resistiu às tentações do demónio, mas era santo…

Para a direita a "ciência económica só existe enquanto "economia de mercado". Rotundo disparate. O que será "economia de mercado"? O neoliberalismo ou capitalismo keynesiano de economia planeada? O termo mercado refere-se a realidades muito diversas: mercado das MPME, mercado mono e oligopolista, mercado globalizado das transnacionais. Em socialismo há mercado. Ignora-se que a economia moderna é pela sua complexidade planificada. Sê-lo-á pelo Estado em função de custos e benefícios sociais ou pelo grande capital em função dos seus exclusivos interesses.

"Economia de mercado" foi a que Pinochet e outros criminosos que os EUA promoveram na América Latina: "Ninguém fez mais que Pinochet e os seus conselheiros para demonstrar a superioridade da economia de mercado" [8]

Michael Hudson recorda-nos que no Chile a chamada escola de Chicago verificou que para impor o "mercado livre" controlado pelos bancos era necessário controlar a imprensa, o sistema educativo, e neutralizar a oposição. Sindicalistas, jornalistas, professores, juntamente com outros democratas, foram assassinados por toda a América Latina e mesmo nos EUA por se oporem à rapina da oligarquia financeira e à teoria económica que racionaliza estes métodos.

"No Chile de Pinochet os monetaristas da escola de Chicago mostraram a sua intolerância intelectual ao fecharem todos os departamentos de economia e ciências sociais exceto na Universidade Católica onde regeram inquestionados" [9]

As intervenções do ministro da "solidariedade social", Mota Soares, assemelham-se a delírios retóricos, enquanto a pobreza não cessa de aumentar. A política liberal é oposta à redistribuição de rendimento. O liberalismo no século XIX, como no século XXI, só trouxe pobreza e desigualdades crescentes. As leis de proteção aos pobres que existiam na Inglaterra desde o século XVI foram revogadas pelo capitalismo triunfante.

A melhoria das condições de vida foi arrancada a ferro e sangue pela luta dos trabalhadores, pelo sacrifício das vidas de tantos heróis anónimos que lutaram contra o arbítrio dos poderosos. Contra o que agora se pretende repor a coberto de hipotéticos "ajustamentos orçamentais".

O neoliberalismo conduz os países à estagnação, ao desemprego, à austeridade "ad eterno". A sua política laboral centra-se na total dependência do trabalhador em relação ao patronato, promovendo o contrato individual de trabalho, procurando anular a contratação coletiva, esteio do progresso social e também económico, direito conquistado pelos trabalhadores já antes do 25 de ABRIL,

O neoliberalismo, é na realidade um neofascismo. Pode pregar-se moral e religião, mas ignora-se um sistema iníquo que produz 30 milhões de pessoas em condições de escravatura, segundo o "Global Slavery Index 2013". Em nenhuma época histórica existiram tantos escravos no mundo, esta a realidade do capitalismo global.

Afirma-se que o desemprego só é "moralmente condenável" se houver uma ação deliberada para o criar. [6] Claro que pode ou não haver uma ação deliberada do capitalista, apesar da legislação abrir a porta a toda a espécie de arbitrariedades. O que há sem dúvida é a ação deliberada de um sistema iníquo. É mais um exemplo de solipsismo.

O relatório OXFAM sobre as desigualdades no mundo fala-nos de um "sistema falseado em benefício de alguns": 1% da população detêm 50% da riqueza mundial, os restantes 99% partilham a outra metade. Nos EUA os mais ricos confiscaram 95% do crescimento após a crise financeira de 2008 e os mais pobres empobreceram. Portugal é dos países com maior nível de desigualdades da OCDE. Em Portugal a parte dos mais ricos duplicou entre 1981 e 2012. Quem andou a consumir acima das possibilidades?

Exemplo da desconexão da realidade e degradação ideológica que a direita atingiu verifica-se nas declarações do PR Cavaco Silva perante o PR da Alemanha: "aprendemos bem a lição, o povo português teve um comportamento responsável e ficamos agora de forma clara para entrar numa trajetória de crescimento". Seria interessante saber se Cavaco Silva considera "comportamento responsável" 65% de abstenção nas eleições para o PE!

Para além de evidenciarem uma total submissão aos ditames da UE, leia-se interesses do grande capital alemão, aquelas palavras parecem conter um tal grau falta de discernimento e alheamento da realidade vivida que mereceriam uma análise por especialistas em perturbações mentais.
 

A seguir: 2 – Malthusianismo, o fim do imperativo moral

[1] O discurso insano, Miguel Urbano Rodrigues, www.odiario.info/?p=3300 ou resistir.info/mur/mur_09jun14.html
[2] Este conjunto de textos dá sequência a outros apresentados em resistir.info sobre o mesmo tema, designadamente: A ética do dinheiro e o dinheiro da ética; A teoria da relatividade… do empobrecimento; Os tabus e as alternativas; O populismo: antecâmara do fascismo
[3] Vítor Gaspar, atual diretor no FMI, jornal Público, 20/03/2014
[4] www.odiario.info/?p=2398
[5] Citado por Freitas do Amaral que critica estas posições. Visão, 20/12/2012.
[6] Entrevista ao Diário de Notícias, 31/05/2014, a propósito do seu livro "Economia, moral e política".
]7] www.informationclearinghouse.info/article21041.htm
[8] Robert J. Baro, "A step in the right directions for Iraq", Business Week, 5/4/2004
[9] The Bubble and Beyond, Michael Hudson, Ed. ISLET, p.17 e 167

[*] Autor de "Girassóis", uma história de antes, durante e depois do 25 de Abril. A obra pode ser obtida na secção livros para descarregamento


aqui:http://resistir.info/v_carvalho/degradacao_ideologica_1.html 

Comentário acerca das novas sanções anti-russas adoptadas pela UE


por Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia


Na sequência das sanções anti-russas de 29 de Julho acordadas pela União Europeia, a Rússia não pode senão constatar a evidente ausência de vontade política e de desejo desta União em investir na resolução da crise na Ucrânia. A UE, pelo seu lado, ignora cegamente as causas do trágico desenvolvimento dos acontecimentos no Sudeste deste país, onde, no quadro da pretensa "operação anti-terrorista" do poder de Kiev, dezenas de cidadãos pacíficos morrem diariamente e onde centenas de milhares de habitantes foram constrangidos a tornarem-se refugiados. Uma região imensa encontra-se doravante à beira de uma catástrofe humanitária de grande escala.

O conjunto dos acontecimento deve-se em grande parte às decisões irresponsáveis da própria União Europeia, que se mostra indulgente para com o actual governo de Kiev. A UE, em suma, deu carta branca à "pacificação" do país e demonstra uma forte falta de escrúpulo politico ao aceitar de facto qualificar a operação punitiva de Kiev contra o seu próprio povo "de abordagem moderada na conduta das operações de restabelecimento da lei e da ordem".

Temos vergonha pela União Europeia, que depois de ter durante longo tempo procurado "falar a uma só voz", doravante fala pela voz de Washington e praticamente abandonou os valores europeus fundamentais, inclusive a presunção de inocência.

A política da UE já não é mais fundamentada sobre factos verificados mas escreve-se sob o diado de Washington, entre dois visionamentos de vídeos "Youtube" duvidosos. Moscovo está decepcionada pela incapacidade da UE para desempenhar seu próprio papel na política mundial.

A UE aparentemente está pronta a sacrificar sua economia
para permitir a realização de jogos geopolíticos equívocos, contrários aos seus interesses. As economias russa e da UE estão estreitamente ligadas e a "terceira vaga" de sanções que Bruxelas empreende será tão fortemente ressentida na Europa como na Rússia. É preciso no entanto sublinhar o zelo com o qual certos países europeus apoiam esta política, que é inversamente proporcional às consequências sobre o seu bem-estar. Sabem os cidadãos dos Estados membros da UE o que resultará destes jogos em termos de perdas de empregos e de ganhos comerciais?


Temos igualmente de recordar que sanções sectoriais estão em contradição com as normas da OMC. Medidas restritivas afectando os meios financeiros terão igualmente consequências negativas para os bancos dos Estados membros da União Europeia activos na Rússia. Entretanto, alguns deles extraem actualmente o maior lucro das suas filiais em actividade no nosso país.

Estamos consternados pela decisão de instaurar um embargo sobre o comércio de armas e de equipamentos militares com a Rússia. Ao contrário de Kiev a quem, ao contrário, estas limitações foram levantadas ultimamente, a Rússia não toma parte no conflito militar.

Na sua pressa em introduzir sanções, Bruxelas põe por sua própria conta barreiras à colaboração com a Rússia, em domínios tão cruciais como a energia. Trata-se de um movimento irreflectido e irresponsavel que terá por consequência uma alta dos preços no mercado europeu da energia. Quanto às dificuldades que poderiam verificar-se em certos sectores da economia russa, elas serão certamente ultrapassadas. A eficácia e auto-suficiência da nossa economia não ficarão agravadas.

É evidente que vamos tomar em consideração o comportamento não construtivo e não independente da União Europeia no futuro desenvolvimento das nossas relações.

30/Julho/2014 
O original encontra-se em www.mid.ru/brp_4.nsf/newsline/35C425E881DAF34E44257D25004DA482 e a versão em francês em www.les-crises.fr/...

Este comunicado encontra-se em http://resistir.info/ .


aqui:http://resistir.info/russia/comunicado_30jul14.html

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Apocalipto: Religião, Rituais, Morte em Massa e o Culto do Sacrifício Humano

Snowden revela que o líder do grupo terrorista Estado Islâmico foi formado pelo Mossad israelense

“Dez olhares sobre a Europa” - Gonçalo Tavares

Enquanto os índices bolsistas estavam na estratosfera, queimavam-se vacas na Europa. Hoje, todavia, o culto do valor apaga-se, em benefício do verdadeiro valor das coisas. Visão do escritor português Gonçalo M. Tavares.
Não foi a literatura que se aproximou da política, foi a política que invadiu o campo da linguagem – invadiu e aí ficou. E com a política da Europa, a economia. Já há muito que nestes campos não se trata de deslocar coisas materiais, de decidir sobre o reino vegetal (mandar ou não cortar árvores), animal ou humano – agora quase tudo se decide no campo dos signos – números e letras; e eis um regresso ao mundo infantil: na Europa acreditamos que traços num papel não são apenas traços, mas a diferença entre riqueza e pobreza.
A já velha separação entre o signo e a coisa. A célebre frase “a palavra CÃO não morde”: se pusermos os dedos no C no A ou no O não corremos qualquer risco, os nossos dedos ficarão intactos, o C e o A não mordem – velha lição de linguística. E foi esta separação que inaugurou a modernidade. Os primitivos não acreditavam nisso, não acreditavam em dois mundos separados. Para os primitivos o signo era já uma coisa. O desenho de veado não era o desenho de um veado, era o veado. Não havia diferença.
De certa maneira, a Europa – desde há décadas – que acentuou o seu lado primitivo. Voltou a acreditar na magia. Quase toda a economia está hoje instalada no mundo abstracto, no mundo das letras e dos números – e não no mundo das matérias com volume. Porque a velha economia era isto: duas vacas que se trocavam por mil galinhas; fábricas e máquinas, árvores que se vendiam ou compravam. Pouco a pouco, no entanto, os elementos vivos e os metros quadrados foram desaparecendo de cena. Ficaram papéis com signos e números e a Europa transformou-se assim num Novo Continente Primitivo, em que as pessoas assumem comportamentos idênticos aos das tribos da Amazónia que confundiam signos com o real e acreditavam que a letra A ou um desenho os podia esmagar ou amaldiçoar.
É que se escrevermos num papel a frase “este papel vale cem mil euros”, certamente não iremos acreditar que esse papel, essa folha que antes estava branca, passará a valer 100 mil euros. Mas se ganharmos uma certa distância, veremos que, em parte, toda a queda económica a que assistimos hoje se deve a um processo semelhante, a grande escala.
A economia abstracta instalou-se aí, precisamente, no campo da crença. Quem tem um papel formalizado com um certo símbolo ou selo (mais signos) de uma Instituição Financeira acredita que esse papel vale, se pensarmos nas acções, um certo dia 2 euros, no dia seguinte euro e meio, e na semana seguinte três euros. Estas subidas e descidas do valor das acções, para quem está de fora e não entende nada de nada, são algo ainda mais estranho. Não é apenas a crença fixa num signo, como era a dos Primitivos, agora é uma crença flutuante – que a cada dia muda o valor material que atribui ao signo.
O mais absurdo é que a crença no abstracto, este regresso ao pensamento primitivo que invadiu o mundo contemporâneo, foi acompanhado por uma destruição sem precedentes da matéria concreta. Foram abatidos na Europa vacas e barcos, campos de cultivo foram desactivados, máquinas destruídas ou impedidas de trabalhar, pois não se devia produzir mais do que uma certa quantidade. E ano após ano os dois processos foram avançando em paralelo: destruição das coisas que no mundo tinham volume e multiplicação dos papéis sem volume que simbolizavam riqueza. Acreditou-se, no fundo, que a riqueza estava nos signos e que as vacas, os barcos ou os metros quadrados eram uma riqueza, sim, mas antiga, ultrapassada, inadequada. Uma riqueza sem higiene, dir-se-ia.
E durante anos trocaram-se papéis de um lado para o outro. Pequenas folhas de tamanho A4, A5 ou A6 que rodavam de mão em mão; e, a cada passagem, por magia, essas folhas A4 pareciam aumentar de valor. Como uma passagem de testemunho mágica: o indivíduo A passava um papel ao indivíduo B, este ao indivíduo C, este ao D, e o último da fila, por fim, acreditava que o papel recebido valia já mil vezes o valor inicial.
Em suma, a crise na Europa resulta de inúmeras causas, sem dúvida, mas uma parte da questão é esta: estamos agora diante de uma mudança de crença. A Igreja do Abstracto, a crença no papel que vale dinheiro, parece ter chegado a um beco sem saída, e o número dos seus fiéis diminui – uns abandonam voluntariamente, outros contra vontade, muitos de forma trágica. E talvez com o fim desta crença se esteja a regressar, então, a uma outra. A moderna Igreja do Concreto parece, assim, a cada dia, recuperar a posição forte que já teve – a crença no que é matéria: a crença nas vacas, nos barcos, nos campos e nas máquinas – aí está ela, de volta. (E assistiremos nós, ainda, à destruição dos papéis?)
A Europa avançou muito, tecnologicamente e não só, mas para o europeu não se molhar ainda precisa de um elemento material entre o seu corpo e o céu. Não nos podemos abrigar no desenho de uma casa. E é por isso que a Europa parece avançar e recuar ao mesmo tempo. O que tenta não é fácil: quer deixar para trás o mundo primitivo, e regressar, de novo, à antiga modernidade. Trata-se de voltar a ser materialista, no sentido primeiro do termo. O velho materialismo de que as vacas são o bom exemplo, pesadas e calmas: o seu valor é o seu peso – e assim está bem.
 
Gonçalo M. Tavares

aqui:http://contra-faccao.blogspot.pt/2011/01/5-de-dez-olhares-sobre-europa-goncalo.html

segunda-feira, 28 de julho de 2014

O lucro ou as pessoas - Noam Chomski - parte 2 (excertos)




(...)
Mas os desvios mais importantes em relação à doutrina do livre mercado estão noutro lugar. Um dos elementos básicos da teoria do livre mercado é a proibição dos subsídios governamentais. Ao final da II Grande Guerra, porém, alguns líderes empresariais norte-americanos eram de opinião de que a economia marcharia de volta à depressão se não houvesse intervenção estatal. Insistiram também na tese de que a indústria avançada – especificamente a aeronáutica, embora a conclusão fosse mais geral “não pode existir satisfatoriamente, numa economia de ‘livre empresa’ pura, competitiva e não-subsidiada” e que “o governo é a única salvação”. Cito a grande imprensa de negócios, que também admitiu que o sistema do Pentágono era a melhor forma de transferir custos para a população. Eles compreendiam que os gastos sociais, ainda que possam desempenhar o mesmo papel estimulador, não constituem subsídio direto ao setor das grandes empresas, além de terem efeitos democratizantes e redistributivos. Os gastos militares não têm nenhum desses defeitos.

E também é fácil de vender. O Secretário da Força Aérea do governo Truman colocou a questão de maneira muito simples: “Não devemos usar a palavra subsídio; a palavra que devemos usar é garantia”. Ele assegurou que o orçamento militar “atenderia às necessidades da indústria aeronáutica”. Como conseqüência, a aviação civil é hoje o setor que lidera as exportações do país, e a gigantesca indústria de viagens e turismo, largamente baseada no transporte aéreo, é uma das mais lucrativas.

Foi, portanto, absolutamente apropriado da parte de Clinton escolher a Boeing como “modelo para as empresas de toda a América”, em sua pregação de “nova visão” do futuro do livre mercado na reunião de cúpula do Pacífico Asiático em 1993, sendo muito aclamado. Ótimo exemplo de mercado realmente existente, a aviação civil está quase toda nas mãos de duas companhias, a Boeing- McDonald e a Airbus, que devem sua existência e seu sucesso ao subsídio público em larga escala. O mesmo padrão se apresenta nas indústrias de computadores, de eletrônicos, de automação, de biotecnologia, de comunicações, na verdade em quase todos os setores dinâmicos da economia.

Não foi preciso explicar a doutrina do “capitalismo de livre mercado realmente existente” ao governo Reagan. Seus homens eram mestres na arte de exaltar ante os pobres as glórias do mercado e ao mesmo tempo ostentar com orgulho, perante o mundo dos negócios, que Reagan “havia ajudado a indústria norte-americana com mais restrições à importação do que qualquer antecessor seu nos últimos cinqüenta anos” – no que estavam sendo extremamente modestos; ele ultrapassou todos os antecessores juntos, uma vez que “conduziu a maior guinada protecionista desde a década de 1930”, observou Foreign Affairs numa resenha da década. Sem essas e outras medidas extremas de intromissão no mercado, é duvidoso que as indústrias siderúrgicas, automotivas, de máquinas, ferramentas e de semicondutores tivessem sobrevivido à concorrência japonesa ou sido capazes de tomar a dianteira em novas tecnologias, com amplas repercussões sobre toda a economia. Essa experiência ilustra uma vez mais que o “saber convencional” está “cheio de furos”, conforme assinala uma outra resenha dos anos Reagan em Foreign Affairs. Mas o saber convencional mantém seus méritos como arma ideológica para disciplinar os indefesos.

Os Estados Unidos e o Japão anunciaram, recentemente, a criação de importantes novos programas governamentais de financiamento de tecnologia avançada (aviação e semicondutores, respectivamente) para sustentar o setor industrial privado com subsídios públicos.

Para ilustrar a “teoria do livre mercado realmente existente” com uma outra dimensão nos reportaremos ao amplo estudo de Winfried Ruigrock e Rob van Tulder sobre os conglomerados transnacionais, o qual concluiu que “a posição estratégica e competitiva de praticamente todas as grandes empresas-mãe do mundo foi decisivamente influenciada por políticas governamentais e/ou barreiras comerciais” e que “pelo menos vinte das cem maiores empresas da revista Fortune em 1993 não teriam sobre vivido como empresas independentes se não fossem salvas por seus governos”, com a socialização de prejuízos ou o controle estatal direto em situações de crise. Uma delas é a Lockhead, a maior empregadora do distrito profundamente conservador de Gingrich, salva da ruína graças a vultosos empréstimos garantidos pelo governo. O mesmo estudo sublinha que a intervenção governamental, “regra e não exceção nos últimos duzentos anos..., desempenhou um papel-chave para o desenvolvimento e difusão de inovações em produtos e processos – especialmente em tecnologia aeroespacial, eletrônica, agrícola moderna, novos materiais, energia e transporte”, assim como nas telecomunicações e na informação em geral (Internet e World Wide Web são notáveis exemplos recentes) e, em épocas passadas, em produtos têxteis, siderurgia e, é claro, energia. As políticas governamentais “foram uma força avassaladora na construção da estratégia e da competitividade das maiores empresas do mundo”. Outros estudos técnicos apenas confirmam essa conclusão.

Há muito mais para ser dito sobre essa questão, mas uma conclusão parece bastante clara: as doutrinas aprovadas são construídas e aplicadas por motivos de poder e lucro. As “experiências” contemporâneas seguem um padrão conhecido ao assumirem a forma de “socialismo para os ricos” dentro de um sistema de mercantilismo empresarial global no qual o “comércio” consiste, em larga medida, de transações centralmente administradas no interior das próprias empresas, imensas instituições ligadas aos seus concorrentes por alianças estratégicas e dotadas de estruturas internas tirânicas projetadas para obstaculizar a tomada de decisões democráticas e para proteger seus donos da disciplina do mercado. Essa implacável disciplina é para ser ensinada somente aos pobres e indefesos.

Poderíamos também perguntar até que ponto a economia é realmente “global” e até que ponto pode estar sujeita ao controle popular e democrático. Em termos de comércio, fluxos financeiros e outros fatores, a economia não é hoje mais global do que em meados no século 20. Além disso, os conglomerados transnacionais se apóiam pesadamente nos subsídios públicos e nos mercados internos, e suas transações internacionais, incluindo aquelas indevidamente rotuladas como comércio, envolvem notadamente a Europa, o Japão e os Estados Unidos, onde se praticam medidas políticas sem temor de golpes militares e coisas do gênero. Há muito de novo e de significativo, mas a crença de que as coisas estão “fora do controle” não é digna de crédito, mesmo se nos ativermos aos mecanismos existentes.

Será uma lei da natureza que temos de aceitar esses mecanismos? Não, se levarmos a sério as doutrinas do liberalismo clássico. É bem conhecido o elogio da divisão do trabalho em Adam Smith, mas não a denúncia que fez dos seus efeitos desumanos, a transformação dos trabalhadores em objetos “estúpidos e ignorantes até onde é possível a uma criatura humana”, algo que deve ser evitado “em todas as sociedades desenvolvidas e civilizadas” por meio de uma ação governamental que domine a força destrutiva da “mão invisível”. Não muito divulgada também é a sua crença de que a regulação do governo “a favor dos trabalhadores é sempre justa e eqüitativa”, o mesmo não ocorrendo quando ele regula “a favor dos empregadores”. Igualmente desconhecida é a exigência de eqüidade de resultados, situada no coração de sua defesa dos mercados livres.

Outras personalidades que contribuíram para o cânone liberal clássico vão muito além. Wilhelm von Humboldt condenou o próprio trabalho assalariado: “Quando o trabalhador atua sob controle externo”, escreveu, “talvez admiremos o que ele faz, mas desprezamos o que ele é”. Alexis de Tocqueville observou que “a arte avança, o artífice retrocede”. Uma das figuras de proa do panteão liberal, Tocqueville pensava, como Smith e Jefferson, que a eqüidade de resultados é um aspecto importante de uma sociedade livre e justa. Há 160 anos, advertiu para os perigos de “uma permanente desigualdade de condições”, o fim mesmo da democracia caso “a aristocracia manufatureira que cresce debaixo de nossas vistas” nos Estados Unidos, “uma das mais agressivas que já existiram no mundo”, saia de suas fronteiras – como saiu mais tarde, para muito além de seus piores pesadelos.

Passo por alto alguns temas intrincados e fascinantes que indicam – creio – que os mais importantes princípios do liberalismo clássico encontram a sua expressão moderna natural não na “religião” neoliberal, mas nos movimentos independentes dos trabalhadores e nas idéias e práticas dos movimentos socialistas libertários, e também de algumas das maiores figuras do pensamento do século 20, como Bertrand Russell e John Dewey.

Deve-se avaliar com cautela as doutrinas que dominam o discurso intelectual, prestando cuidadosa atenção às discussões, aos fatos e às lições históricas do passado e do presente. Não tem sentido perguntar o que é “certo” para determinados países, como se fossem entidades com valores e interesses comuns. E o que pode ser certo para o povo dos Estados Unidos, com suas vantagens sem paralelo, pode ser errado em países onde o leque de opções é bem menor. É razoável supor, no entanto, que o que é certo para os povos do mundo somente por um acaso remoto há de estar de acordo com os planos dos “grandes arquitetos” das políticas governamentais. E não há hoje mais razão do que já houve um dia para permitir que eles moldem o futuro de acordo com os seus próprios interesses.

(...)

Uma versão deste artigo, traduzida para o português e o espanhol foi publicada pela primeira vez na América do Sul em 1996.




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