terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Alimentos

Por João Paulo Guerra


PORTUGAL e os portugueses, sugados pelos credores e esmifrados pelo Estado, têm ainda no horizonte a ameaça de uma nova crise alimentar.

É que os preços das matérias-primas alimentares estão a disparar nos mercados internacionais e Portugal passou a ser um país indigente sem produção própria de quase nada daquilo que come. Um trabalho do jornal Público revelava ontem os défices e fragilidades da balança alimentar do país.

A questão é que, olhando os indicadores dos textos do Público, os portugueses são necessariamente induzidos a reflectir - os que ainda reflectem - sobre o destino trágico deste país que transitou das hortas e dos latifúndios salazaristas para a destruição da agricultura e pescas: Portugal importa mais de 60 por cento da carne e dos cereais que consome, deixou de produzir açúcar, o olival é em grande parte espanhol, todos os dias abate mais unidades de pesca.

Em parte, esta política alimentar tem sido ditada pela Europa e pelos interesses dos gigantes europeus da produção agrícola. Mas a Europa não veio a Portugal arrancar culturas nem varar barcos de pesca na areia das praias. Isso foi obra de sucessivos governos de Portugal que até criaram algumas castas de "agricultores" de subsídios, que enriqueceram a arrancar culturas ou, eventualmente, a nem sequer as plantarem. Como se conta - talvez como anedota - que em França um espertalhão se inscreveu como candidato a subsídios para não criar porcos e, já agora, para ser ressarcido pela perda de rações que os porcos não criados não iriam consumir.

Décadas de políticas de liquidação da independência do país não poderiam ter outros efeitos. Mas eles aí estão, os agentes dessas políticas ruinosas, nos cadeirões do poder ou inscritos na dança das cadeiras para a valsa seguinte.

«DE» de 11 Jan 11

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

O BPN e a Campanha Eleitoral

Da teia montada por Oliveira e Costa para se autofinanciar e às empresas e administradores do grupo SLN/BPN, o que mais interessa aos portugueses é saber se os criminosos foram condenados e saber quanto é que a "nacionalização dos prejuízos do banco" já custou e vai custar ao país e a quem trabalha. Quanto à primeira questão, a resposta é negativa. Dois anos depois, só agora há alguns acusados, parecendo, a quem esteve no miolo da Comissão de Inquérito ao BPN, que faltarão alguns na lista de acusados. Casos semelhantes ao BPN por esse mundo fora condenaram em seis meses os "salteadores" locais, o que permite avaliar bem o estado a que o PS e o PSD conduziram a Justiça em Portugal...
Quanto aos prejuízos, é importante conhecer todos os responsáveis pela solução adoptada.

Desde a descoberta do crime, há dois anos, defendemos sozinhos que se devia nacionalizar todo o grupo SLN/BPN. Era aí que estavam os activos capazes de cobrir o buracão que todos (mesmo o Governo e o Banco de Portugal) sabiam haver no BPN. Agora, muitos mais defendem a solução que na altura rejeitaram ou desprezaram, desde Campos e Cunha (veja-se o texto no "Público" de sexta-feira), ao Bloco de Esquerda. Registamos...

Quem na altura (o Governo e o PS) propôs que se nacionalizasse apenas o BPN (isto é os prejuízos), e não todo o grupo, os que votaram a favor dessa solução (o BE), os que a viabilizaram pela abstenção (o PSD e o CDS-PP), e ainda Cavaco Silva, que a promulgou sem pestanejar, são responsáveis políticos pelo buraco do BPN estar a ser pago pelos nossos impostos, num valor não inferior (se formos muito optimistas), a 2000 milhões de euros, mais de 1% do PIB.

Cavaco Silva bem sabe que foi alvo de tratamento de favor por Oliveira e Costa, o "capo" do BPN. Mas responsáveis pela factura do banco há muitos mais...

hn@pcp.parlamento.pt


por Honorio Novo, JN, Jan. 2011

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

O modelo

Este expressivo gráfico compara o crescimento cumulativo para diferentes segmentos de rendimentos (dos 20% mais pobres aos 5% mais ricos) em dois períodos cruciais da história do pós-guerra nos EUA. Tem a palavra Jeffrey Sachs, economista que até meados dos anos noventa costumava alinhar pela doutrina do choque, mas que depois se converteu a posições mais sensatas: "O 1% mais rico das famílias norte-americanas tem, actualmente, uma riqueza líquida mais elevada do que os 90% inferiores. O rendimento anual das 12 mil famílias mais ricas é maior do que o rendimento dos 24 milhões de famílias mais pobres (...) O nível de corrupção política nos Estados Unidos é assombroso. Actualmente, tudo gira em torno do dinheiro para as campanhas eleitorais, que se tornaram extremamente dispendiosas."

O homem certo no lugar certo

Os portugueses podem dormir descansados. O presidente do grupo de trabalho para a comissão que irá fiscalizar as contas públicas é o mesmo que, como presidente do Conselho Fiscal do BPP, certificou durante 10 anos e "tranquilo de consciência" (é o próprio quem o diz), as contas furadas daquele banco, validando "a regularidade dos seus registos contabilísticos"... de onde desapareceram mais de 1,2 mil milhões de euros dos clientes.


Ninguém duvida que foi pela competência demonstrada e não pelo cartão partidário que o PSD o indicou como pessoa certa para definir os critérios de fiscalização das contas do Estado (coisa que muito preocupa o PSD).

Dirá o PSD que, até ver, o homem não foi constituído criminalmente arguido (embora seja réu em vários processos postos pelos clientes defraudados do BPP). E confiará na sua "tranquilidade de consciência". Não será o caso, mas talvez o PSD devesse cuidar que, às vezes, a melhor forma de manter a consciência limpa é não lhe dar uso.


por Manuel António Pina, JN Janeiro 2011

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Hoje somos muitos

Mais uma voz que se junta às que rejeitam o discurso acerca dos portugueses “viverem acima das suas capacidades” e culpam antes a engenharia do Euro pela crise da dívida em que nos encontramos. Não se limitando a criticar a via do austeritarismo, antes apontando soluções concretas alternativas – idênticas às que outros ladrões de bicicletas aqui têm apontado. Desta feita é o blogue LeftBanker, que nesta posta recente analisa a situação portuguesa com grande lucidez e poder de síntese, salientando que, na primeira metade de 2011, Portugal deverá renovar ou contrair empréstimos equivalentes a cerca de 17% do PIB, o que não deixará de implicar uma intervenção conjunta do BCE e FMI assente em cortes nos salários, postos de trabalho e serviços públicos ainda mais brutais do que os já anunciados pelo Governo. A não ser que se opte pela via alternativa - aquela que os economistas do plano inclinado nem ousam admitir...

Indicadores

Por João Paulo Guerra


LEMBRO-ME dos tempos em que os portugueses tinham vergonha dos indicadores sociais que identificavam um país atrasado, pobre e tacanho, um baldio de uma Europa civilizada: o analfabetismo, a mortalidade infantil, a miséria, a emigração para fugir à má sina de ser português.

Acontece que hoje, lentamente, sinistramente, esses indicadores estão a voltar a retratar a realidade portuguesa e não se dá, ao menos, que tais dados envergonhem os titulares do poder das últimas décadas, tão cheios de si, tão ufanos não se entende bem de quê, tão convencidos e, no entanto, com a verdade dos números a atestar a sua irremediável mediocridade e incompetência.

Enquanto a classe política tagarela sobre a saúde pública confrontando-se com esse problema terrível para o Estado que são os utentes, os índices da mortalidade infantil em Portugal retrocederam 25 anos: estamos nessa matéria de novo em 1985, quando em Portugal se decidiu que "quem quer saúde, paga-a". E assim, esse indicador que revela o grau de civilização de uma sociedade, depois de ter dado tímidos passos para a frente, andou para trás num recuo desordenado.

Entretanto, na educação, uma auto-avaliação do sistema concluiu que os alunos do oitavo ao décimo segundo ano de escolaridade "não sabem raciocinar nem escrever". Mas constituindo esta sentença um chumbo categórico e sem apelo de um sistema de ensino, nada acontece para lá da constatação. É assim e paciência. Os alunos não sabem o elementar para saberem mais e melhor. Mas não consta que tenha havido um ministro, um secretário de Estado, um director-geral da Educação chamado à responsabilidade.

Portugal enfrenta muitos problemas. Mas na raiz de todos eles está a incompetência de uma classe política que se perpetua e alterna no poder.

«DE» de 4 Jan 11

sábado, 1 de janeiro de 2011

"A quadratura do circo", a poupança dos portugueses

Por Pedro Barroso


ESTOU muito preocupado com o problema da falta de poupança das famílias portuguesas.

É uma enorme falta de consciência cívica não serem solidárias com os esforços do governo e da nação. Não sei que se passará na cabeça dos chefes de família em Portugal para não conseguirem poupar.

Uma vez mais, ouvi a notícia no telejornal e, perante uma crise tão profunda e mundial, é de uma falta total de solidariedade não conseguirem colaborar no esforço colectivo. Creio que todas as famílias portuguesas deviam tentar poupar, pelo menos, um ou dois mil euros por mês, para criarem elas próprias um fundo de crise.

Vejamos. Vêm aí tempos difíceis e é preciso não gastar assim com tanta displicência e inconsciência a torto e a direito.

É um exagero o que se gasta em alimentação. Tomemos uma família de quatro pessoas, por exemplo. Bastava que uma delas não comesse nada, semana sim, semana não. E ninguém morre por isso, pois está provado que o ser humano pode aguentar até três semanas sem comer. Ora bastaria isso para dar um enorme incremento de aforro doméstico.

A avó, por exemplo. Não produz nada, ou muito pouco. De resto, já ninguém precisa de mais rendas e crochés para as mesinhas da sala, nem pegas para a cozinha. Fazê-la parar é quase uma necessidade. Portanto, é obriga-la carinhosamente a uma dieta de pão e água, para seu próprio beneficio. Passará a comer ainda, como bónus se estiver quietinha, uma sopinha semanal ao domingo, o que permite perfeitamente viver, evitando assim níveis elevados de colesterol, que só lhe fazem mal com aquela idade. Apenas há que nunca lhe faltar com aguinha todos os dias, para não desidratar; pelo menos enquanto não assinar os documentos que nós muito bem sabemos quais são.

A mania dos remédios também é um ataque diário à política de contenção económica. É sabido que os remédios são coisas químicas que só fazem mal e, no fundo, apenas prolongam a agonia de quem está doente. Gastar em farmácia é, portanto, inútil. Aí tem mais um conselho a seguir.

Ir para o emprego a pé, parece também ser uma solução a pôr em pratica o mais possível. O mau hábito de andar de carro provoca espondilose e obesidade mórbida, além de stress e despesas várias, provenientes de multas, seguros e acidentes. São vários milhares que se poupam por ano, se andarmos todos a pé ou de carroça.

Se você trabalha longe não seja preguiçoso e levante-se mais cedo. Caminhar só lhe vai fazer bem. Se for de charrette passará inclusive, a ser produtor do seu próprio estrume para usar na horta. Um luxo de excêntrico, sobretudo se viver em Massamá.

A escola e colégio para os miúdos também são despesas estupidamente elevadas que podem facilmente evitar-se estudando em casa. A televisão, os jogos, o teatro, o cinema, as revistas e jornais também são coisas sem as quais dantes se vivia muito bem e ninguém morria por causa disso. Andar informado só serve para ficar mais deprimido.

Nas férias, fique casa. Sair para o Algarve… para quê, afinal? Quem é que precisa de gastar um dinheirão em portagens e refeições e alugueres só para tomar banho de água salgada e ficar cheio de areia? Você vai irritar-se nas filas nos restaurantes horas à espera em Agosto, e vai voltar ainda mais cansado que à partida. Não vá. Poupe.

Os exageros da moda são outra tentação. Há que ter uma gabardina para a chuva, um casaco para o frio, duas calças e duas camisas. Quando uma está suja, lava-se e usa-se a outra. Eu, por exemplo, tenho estes sapatos há mais de dez anos e nunca comprei uma gravata. Não morri por isso.

O país precisa do seu esforço e os gestores públicos agradecem.

Portanto, poupe, homem! Não seja indisciplinado.

Como vê, é só uma questão de querer.

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