Ao abrigo do artigo 123 do Tratado de Lisboa, os estados membros da União Europeia não podem recorrer ao Banco Central Europeu (BCE) para contrair dívidas, têm de o fazer através dos bancos privados.
Mas a banca financia-se junto do BCE pagando uma taxa de juro de apenas 1% e depois essa mesma banca empresta esse mesmo dinheiro às famílias, às empresas e ao estado cobrando taxas de juros de cerca de 5%.
A divida da banca portuguesa ao BCE corresponde a cerca de 30% do PIB, ou seja perto de 50 000 milhões de euros. A soma dos vários empréstimos da banca a operar em Portugal ao estado português já totaliza 10 500 milhões de euros, com taxas de juros a 4 anos de 4,5% e a 10 anos de 6,4%.
Por outras palavras, o estado português paga 574 milhões de euros de juros à banca mas só pagaria 105 milhões se podesse financiar-se directamente junto do BCE.
O mesmo se passa com as famílias e as empresas.
Não admira que os quatro grandes da banca privada portuguesa lucraram 4,1 milhões de euros por dia no terceiro trimestre deste ano.
O economista Eugénio Rosa questiona: se não seria justo lançar um imposto sobre estes lucros extraordinários e sem risco da banca? Isto para já não falar no valor real do IRC pago pela banca, que é de cerca de 4,3%.
As medidas sociais e económicas drásticas que os governos tomam para pagar as dívidas, foram na realidade criadas pelos próprios, autorizando a criação monetária privada e a obrigação por partes dos estados a que os empréstimos sejam feitos pela banca privada. São os bancos e os grandes grupos financeiros que mais beneficiam com as crises.
Como dizia Henry Ford: "Ainda bem que as pessoas não compreendem o nosso sistema monetário e bancário, porque, se compreendessem, eu acredito que haveria uma revolução antes do amanhecer."
terça-feira, 9 de novembro de 2010
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
Blindados
O Governo autorizou a PSP a gastar cinco milhões de euros na compra de equipamento e material de segurança para receber a cimeira da NATO em Novembro, este vai ser adquirido por ajuste directo. Porquê o ajuste directo? Pela urgência da aquisição. Mas então esta cimeira não estava já planeada desde há meses?
Parte desse equipamento é para bloquear telemóveis, escudos, capacetes, gás pimenta, gás lacrimogéneo e também barreiras para vedar toda a zona do Parque das Nações.
1,2 milhões serão para viaturas para as operações de manutenção de ordem pública.
O Director Nacional da PSP dizia esta semana: “Tenho esperança que as viaturas cheguem a tempo, mas em caso contrário, não há problema, porque, naturalmente, há outras soluções”. Esta a ser ponderada a utilização das viaturas da GNR que tem vinte blindados semelhantes, das quais 14 permanecem paradas nas suas garagens.
É que os veículos encomendados não devem chegara tempo, e mesmo que cheguem não haverá tempo para que o pessoal se adapte às novas viaturas nas condições desejáveis!
Recorde-se que a PSP justificou esta compra - que inclui, além dos carros antimotim, um canhão de água e equipamento de protecção pessoal para os agentes - como sendo material, cuja falta "era sentida há vários anos para o dia a dia" e que os blindados seriam para a segurança nos bairros de risco.
Existem grandes dúvidas de que os blindados sejam a melhor opção para entrar em bairros problemáticos e também sobre o restante material: faltam polícias na rua, os agentes têm de pagar a farda do próprio bolso, têm de usar os telemóveis pessoais para o trabalho, há carros-patrulha parados de tão velhos... e agora vêm dizer que é preciso gastar este dinheiro em blindados?
Parte desse equipamento é para bloquear telemóveis, escudos, capacetes, gás pimenta, gás lacrimogéneo e também barreiras para vedar toda a zona do Parque das Nações.
1,2 milhões serão para viaturas para as operações de manutenção de ordem pública.
O Director Nacional da PSP dizia esta semana: “Tenho esperança que as viaturas cheguem a tempo, mas em caso contrário, não há problema, porque, naturalmente, há outras soluções”. Esta a ser ponderada a utilização das viaturas da GNR que tem vinte blindados semelhantes, das quais 14 permanecem paradas nas suas garagens.
É que os veículos encomendados não devem chegara tempo, e mesmo que cheguem não haverá tempo para que o pessoal se adapte às novas viaturas nas condições desejáveis!
Recorde-se que a PSP justificou esta compra - que inclui, além dos carros antimotim, um canhão de água e equipamento de protecção pessoal para os agentes - como sendo material, cuja falta "era sentida há vários anos para o dia a dia" e que os blindados seriam para a segurança nos bairros de risco.
Existem grandes dúvidas de que os blindados sejam a melhor opção para entrar em bairros problemáticos e também sobre o restante material: faltam polícias na rua, os agentes têm de pagar a farda do próprio bolso, têm de usar os telemóveis pessoais para o trabalho, há carros-patrulha parados de tão velhos... e agora vêm dizer que é preciso gastar este dinheiro em blindados?
domingo, 7 de novembro de 2010
A dieta de Socrates
Por João Duque
TENHO UM AMIGO que define em duas penadas a diferença entre a administração pública e a privada: na administração privada, quando alguém não faz o que devia despede-se; na pública, contrata-se outro para fazer o que aquele não fazia...
Com a divulgação do Orçamento do Estado, ficámos a conhecer uma lista de 50 medidas de dieta que o Governo quer executar para reduzir o peso do Estado e que passarão pela fusão, extinção ou reestruturação de institutos e organismos públicos.
Quando ouvi a proposta do Governo duas perguntas me assaltaram:
1ª) Se os principais atores governativos são os mesmos desde 2005, porque é que demoraram tanto tempo a fazer a dieta?
2ª) Quem foram os autores e responsáveis pela criação das instituições que agora querem extinguir?
Sabe-se que o descontrolo das contas públicas é arrepiante, e estranho que seja ainda necessário adiar para janeiro uma coisa que já deveria ter sido iniciada há anos (ou até nunca criada) e admira-me que o Governo necessite de colocar no orçamento, numa Lei, medidas que foram criadas por Decreto-Lei ou despacho ministerial...
Mas quanto à segunda questão, isto é, quem foram os 'artistas' responsáveis pela 'gordura', pela criação destes organismos que agora se dizem excessivos, redundantes e absorvedores de injustificados recursos, fui investigar...
Comecei pela primeira da lista, a extinção, com fusão noutro organismo, da Direção-Geral do Livro e das Bibliotecas... Foi criada por Decreto-Lei aprovado em Conselho de Ministros de 1 de fevereiro de 2007 e assinado por José Sócrates e Fernando Teixeira dos Santos...
Fui às 4ª, 7ª e 8ª medidas, a extinção, com fusões, do Gabinete de Estatística e Planeamento da Educação, do Gabinete de Gestão Financeira e do Gabinete de Avaliação Educacional, todos criados ou mantidos na nova Lei Orgânica do Ministério da Educação, vista e aprovada no Conselho de Ministros de 20 de julho de 2006 chefiado por José Sócrates...
Fui à 5ª medida: a extinção, com fusão, da Comissão para a Otimização dos Recursos Educativos. Foi criada por Despacho de Teixeira dos Santos de 27 de julho de 2010!
Fui à 6ª medida: a extinção, com fusão, do Observatório das Políticas Locais de Educação, criado por protocolo celebrado entre o Governo Português e a Associação Nacional de Municípios Portugueses em 15 de Abril de 2009!
E por aí fora...
Mais interessante ainda: na criação de todos estes organismos foi sempre explicitamente invocado no preâmbulo dos respetivos diplomas o famoso PRACE (Programa de Reestruturação da Administração Central do Estado) o qual dizia ter como objetivos "O desenvolvimento económico e da qualidade dos serviços públicos, com ganhos de eficiência pela simplificação, racionalização e automatização, que permitam a diminuição do número de serviços e dos recursos a eles afetos"!
Estou como o meu amigo. No sector privado quando se quer racionalizar, simplificar e aumentar a eficiência reduz-se o input para manter o output; na administração pública, para se manter o output aumenta-se o input...
«Expresso» de 31 Out 10
TENHO UM AMIGO que define em duas penadas a diferença entre a administração pública e a privada: na administração privada, quando alguém não faz o que devia despede-se; na pública, contrata-se outro para fazer o que aquele não fazia...
Com a divulgação do Orçamento do Estado, ficámos a conhecer uma lista de 50 medidas de dieta que o Governo quer executar para reduzir o peso do Estado e que passarão pela fusão, extinção ou reestruturação de institutos e organismos públicos.
Quando ouvi a proposta do Governo duas perguntas me assaltaram:
1ª) Se os principais atores governativos são os mesmos desde 2005, porque é que demoraram tanto tempo a fazer a dieta?
2ª) Quem foram os autores e responsáveis pela criação das instituições que agora querem extinguir?
Sabe-se que o descontrolo das contas públicas é arrepiante, e estranho que seja ainda necessário adiar para janeiro uma coisa que já deveria ter sido iniciada há anos (ou até nunca criada) e admira-me que o Governo necessite de colocar no orçamento, numa Lei, medidas que foram criadas por Decreto-Lei ou despacho ministerial...
Mas quanto à segunda questão, isto é, quem foram os 'artistas' responsáveis pela 'gordura', pela criação destes organismos que agora se dizem excessivos, redundantes e absorvedores de injustificados recursos, fui investigar...
Comecei pela primeira da lista, a extinção, com fusão noutro organismo, da Direção-Geral do Livro e das Bibliotecas... Foi criada por Decreto-Lei aprovado em Conselho de Ministros de 1 de fevereiro de 2007 e assinado por José Sócrates e Fernando Teixeira dos Santos...
Fui às 4ª, 7ª e 8ª medidas, a extinção, com fusões, do Gabinete de Estatística e Planeamento da Educação, do Gabinete de Gestão Financeira e do Gabinete de Avaliação Educacional, todos criados ou mantidos na nova Lei Orgânica do Ministério da Educação, vista e aprovada no Conselho de Ministros de 20 de julho de 2006 chefiado por José Sócrates...
Fui à 5ª medida: a extinção, com fusão, da Comissão para a Otimização dos Recursos Educativos. Foi criada por Despacho de Teixeira dos Santos de 27 de julho de 2010!
Fui à 6ª medida: a extinção, com fusão, do Observatório das Políticas Locais de Educação, criado por protocolo celebrado entre o Governo Português e a Associação Nacional de Municípios Portugueses em 15 de Abril de 2009!
E por aí fora...
Mais interessante ainda: na criação de todos estes organismos foi sempre explicitamente invocado no preâmbulo dos respetivos diplomas o famoso PRACE (Programa de Reestruturação da Administração Central do Estado) o qual dizia ter como objetivos "O desenvolvimento económico e da qualidade dos serviços públicos, com ganhos de eficiência pela simplificação, racionalização e automatização, que permitam a diminuição do número de serviços e dos recursos a eles afetos"!
Estou como o meu amigo. No sector privado quando se quer racionalizar, simplificar e aumentar a eficiência reduz-se o input para manter o output; na administração pública, para se manter o output aumenta-se o input...
«Expresso» de 31 Out 10
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
por PEDRO BARROSO
ALTO! Essa doce palavra anarquista, essa não. Por favor.
Ouvi e calei a vergonha, ao ouvir usado esse termo nos noticiários do país como sendo o dos responsáveis pelo bombismo que grassa pela Europa.
É de uma indigência mental confundir as correntes libertárias de pensamento com um terrorismo generalista de bombas e destruição.
É uma canalhice sórdida e sem argumento, nem histórico, nem filosófico.
Os atentados anarquistas, no sentido restrito do termo, foram raros, em momentos históricos de total encruzilhada e mesmo assim, controversos qb para lhes atribuirmos uma razão de causa e fundamento ou sequer concordância global de todos os envolvidos.
Perguntem ao rapaz Bin Laden – um especialista; aos fundamentalistas espalhados pelo planeta; ou, se calhar, ou até a alguns sinistros teóricos da destruição total para um mundo reconstruído à sua medida. Lembrei-me agora que o pessoal do Bilderberg Group tudo manda e tudo sabe. Portanto, alguma coisa há-de saber.
Aliás, parece farisaico, por um lado, celebrar a República - que nos foi dada na bandeja carbonária – e, por outro lado, chamar grupos anarquistas a quem quer que se intitule responsável por estas encomendas letais aos líderes europeus.
Sempre que não conseguem entender nem o pacifismo, nem o existencialismo, nem a independência de vistas, nem a acção de iniciativas de rua, nem a proverbial inventiva apartidária e seu humor anarquista, a tendência dos governos status quo atribui, como colagem imediata, a grupos anarquistas a culpa de todas as Brigadas rossas e Baader Meinhoff’s do Mundo.
Quando ainda adolescente, desconfiei da catequese e dos conhecimentos místico -superiores do senhor prior de Santa Catarina. Quando comecei a suspeitar que se calhar aquele senhor de saias não era afinal intermediário de coisa nenhuma, mas apenas mais um palhaço de Deus “nosso senhor” travestido de incenso e influências.
Quando me fascinei pelas matérias do século, do conhecimento e da história. Quando percebi que as nossas glórias eram muitas vezes fundadas na pirataria e no roubo descarado, por tudo onde andámos, em nome da fé e do Império.
Quando repudiei Franco e Salazar, primeiro de forma incipiente e instintiva, depois mais integrado em acções concertadas. Quando, por uma qualquer inexplicável ideia de liberdade adoptei a crítica, o sentido das perguntas, o caminho da dialéctica, mas ao mesmo tempo da inquietação. Quando me revoltei contra a guerra e a injustiça e parti, sem jeito de saber nada daquilo ao que ia, menino ainda, perdido pelas fronteiras de Portalegre até à velha Albion.
Quando descobri que o Hitler fora um psicopata homicida de milhões, patético naquilo da raça, eleito, imagine-se!, por sufrágio eleitoral; e que o Mao era, ele próprio, argumentativamente, um tigre de papel e Staline um requintado criminoso.
Quando aprendi a ler a esquerda na direita e a direita na esquerda, e a corrupção instalada, por vocação, nos partidos ditos de centro, por serem partidos putativos de governo e distribuição de benesses. Quando vi o estado de graça e ingenuidade pura em que celebrámos a Liberdade e a rota envolvente que percorremos até hoje; e, no entanto, a habilidade tortuosa e florentina com que um bando de jeitosos conseguiu alcandorar-se aonde queria e subverter todos os caminhos de Abril.
Quando vejo os ordenados dos gestores públicos, as desigualdades sociais, a fanecada parlamentar, as vaidades pessoais, insultos e argumentos, e sobretudo, a gloriosa conquista da desgraça aportada por este senhor dito engenheiro - e quem sou eu para o contestar, chiça?…- eu fico parvo, pequeno, calado, sem reacção.
E o peito um calo honroso cria, - eu sempre vos disse. Não há caminhos fáceis.
Ai, amigos, camaradas de todas as cores e feitios, sindicalistas vermelhos, roxos e amarelos, … fico ainda mais convicto no meu alinhadíssimo não-alinhamento!
Fui anarquista, e acho que o vou ser o resto de meus dias, companheiros.
Emigrei cedo nessa pátria da utopia e do milagre humano por acontecer; nessa cidade nova de sonho e amizade, nessa sociedade sem trancas nas portas, algures entre a intimidade forçada da ilha do Corvo e a hombridade colectivista de Rio de Honor.
Assim me cooptei e convenci, se preciso fosse. Alinhado, mas livre. Nem Deus, nem Nietsche, nem Bakunine, nem sequer Trotsky. Ou até Dalai Lama. Livre.
Tristemente descrente, diria um observador atento.
Quando vi os gritos, confusões e exageros após a Liberdade; e, de caminho, comecei a ver tantos homens de bem transformados em carrascos; e tantos homens de bem transformados em criminosos, eu fiquei tremendo na fímbria da razão e do desespero.
E revoltei-me; e fiquei ainda mais descrente e anarquista.
A vida, as desilusões, os amores e desamores, tudo trocado e ao lado do que houvera de ser e conseguir-se, o difícil da vida, os partidos que existem, as guerras de poder, a involução estúpida da espécie, a constatação evidente da irreversível destruição do planeta, tudo me reconfirma, a cada dia nos dai hoje, a irreprimível sensação de doloroso acerto. E como gostaria de enganar-me.
Mas a utopia é doce. Em nome de todas as crenças e de todos os que têm a suprema graça de acreditar nalguma coisa, não conspurquem o seu sagrado nome - Anarquia.
Para que eu possa olhar-me ao espelho todas as manhãs conforme sou.
Ouvi e calei a vergonha, ao ouvir usado esse termo nos noticiários do país como sendo o dos responsáveis pelo bombismo que grassa pela Europa.
É de uma indigência mental confundir as correntes libertárias de pensamento com um terrorismo generalista de bombas e destruição.
É uma canalhice sórdida e sem argumento, nem histórico, nem filosófico.
Os atentados anarquistas, no sentido restrito do termo, foram raros, em momentos históricos de total encruzilhada e mesmo assim, controversos qb para lhes atribuirmos uma razão de causa e fundamento ou sequer concordância global de todos os envolvidos.
Perguntem ao rapaz Bin Laden – um especialista; aos fundamentalistas espalhados pelo planeta; ou, se calhar, ou até a alguns sinistros teóricos da destruição total para um mundo reconstruído à sua medida. Lembrei-me agora que o pessoal do Bilderberg Group tudo manda e tudo sabe. Portanto, alguma coisa há-de saber.
Aliás, parece farisaico, por um lado, celebrar a República - que nos foi dada na bandeja carbonária – e, por outro lado, chamar grupos anarquistas a quem quer que se intitule responsável por estas encomendas letais aos líderes europeus.
Sempre que não conseguem entender nem o pacifismo, nem o existencialismo, nem a independência de vistas, nem a acção de iniciativas de rua, nem a proverbial inventiva apartidária e seu humor anarquista, a tendência dos governos status quo atribui, como colagem imediata, a grupos anarquistas a culpa de todas as Brigadas rossas e Baader Meinhoff’s do Mundo.
Quando ainda adolescente, desconfiei da catequese e dos conhecimentos místico -superiores do senhor prior de Santa Catarina. Quando comecei a suspeitar que se calhar aquele senhor de saias não era afinal intermediário de coisa nenhuma, mas apenas mais um palhaço de Deus “nosso senhor” travestido de incenso e influências.
Quando me fascinei pelas matérias do século, do conhecimento e da história. Quando percebi que as nossas glórias eram muitas vezes fundadas na pirataria e no roubo descarado, por tudo onde andámos, em nome da fé e do Império.
Quando repudiei Franco e Salazar, primeiro de forma incipiente e instintiva, depois mais integrado em acções concertadas. Quando, por uma qualquer inexplicável ideia de liberdade adoptei a crítica, o sentido das perguntas, o caminho da dialéctica, mas ao mesmo tempo da inquietação. Quando me revoltei contra a guerra e a injustiça e parti, sem jeito de saber nada daquilo ao que ia, menino ainda, perdido pelas fronteiras de Portalegre até à velha Albion.
Quando descobri que o Hitler fora um psicopata homicida de milhões, patético naquilo da raça, eleito, imagine-se!, por sufrágio eleitoral; e que o Mao era, ele próprio, argumentativamente, um tigre de papel e Staline um requintado criminoso.
Quando aprendi a ler a esquerda na direita e a direita na esquerda, e a corrupção instalada, por vocação, nos partidos ditos de centro, por serem partidos putativos de governo e distribuição de benesses. Quando vi o estado de graça e ingenuidade pura em que celebrámos a Liberdade e a rota envolvente que percorremos até hoje; e, no entanto, a habilidade tortuosa e florentina com que um bando de jeitosos conseguiu alcandorar-se aonde queria e subverter todos os caminhos de Abril.
Quando vejo os ordenados dos gestores públicos, as desigualdades sociais, a fanecada parlamentar, as vaidades pessoais, insultos e argumentos, e sobretudo, a gloriosa conquista da desgraça aportada por este senhor dito engenheiro - e quem sou eu para o contestar, chiça?…- eu fico parvo, pequeno, calado, sem reacção.
E o peito um calo honroso cria, - eu sempre vos disse. Não há caminhos fáceis.
Ai, amigos, camaradas de todas as cores e feitios, sindicalistas vermelhos, roxos e amarelos, … fico ainda mais convicto no meu alinhadíssimo não-alinhamento!
Fui anarquista, e acho que o vou ser o resto de meus dias, companheiros.
Emigrei cedo nessa pátria da utopia e do milagre humano por acontecer; nessa cidade nova de sonho e amizade, nessa sociedade sem trancas nas portas, algures entre a intimidade forçada da ilha do Corvo e a hombridade colectivista de Rio de Honor.
Assim me cooptei e convenci, se preciso fosse. Alinhado, mas livre. Nem Deus, nem Nietsche, nem Bakunine, nem sequer Trotsky. Ou até Dalai Lama. Livre.
Tristemente descrente, diria um observador atento.
Quando vi os gritos, confusões e exageros após a Liberdade; e, de caminho, comecei a ver tantos homens de bem transformados em carrascos; e tantos homens de bem transformados em criminosos, eu fiquei tremendo na fímbria da razão e do desespero.
E revoltei-me; e fiquei ainda mais descrente e anarquista.
A vida, as desilusões, os amores e desamores, tudo trocado e ao lado do que houvera de ser e conseguir-se, o difícil da vida, os partidos que existem, as guerras de poder, a involução estúpida da espécie, a constatação evidente da irreversível destruição do planeta, tudo me reconfirma, a cada dia nos dai hoje, a irreprimível sensação de doloroso acerto. E como gostaria de enganar-me.
Mas a utopia é doce. Em nome de todas as crenças e de todos os que têm a suprema graça de acreditar nalguma coisa, não conspurquem o seu sagrado nome - Anarquia.
Para que eu possa olhar-me ao espelho todas as manhãs conforme sou.
Dinheiro público!!!!!!
Num trabalho do jornal i, ficámos a conhecer alguns dos gastos do nosso querido Estado, o mesmo Estado que agora pegou no funil para nos obrigar a engolir um novo aumento de impostos. Só em mobiliário, o Estado gastou - em 2009 - mais de 32 milhões de euros (não se podem sentar em cadeiras velhas?). Em software, o Estado gastou 75 milhões (já ouviram falar em software 'livre'?). Em café, o Estado gastou 650 mil euros. Mas porquê? Tem de haver um bar com café subsidiado em todas as repartições e institutos públicos? Trabalhar para o Estado implica ter uma 'bica' ao preço de 1980?
Mas o mais irritante é mesmo a forma como as autarquias desbaratam dinheiro em festas e festinhas. Mas quem disse às autarquias que a sua função é distrair as massas? As autarquias não conseguem ter o chão limpo e o espaço urbano ordenado, mas fazem festas com os Xutos (quase meio milhão de euros) e com o Tony Carreira (quase um milhão de euros - só em 2009). Não tenho nada contra os artistas, mas tenho tudo contra as câmaras que desbaratam assim o dinheiro dos meus impostos. Comecem pelo óbvio, caros autarcas, e deixem-se de bailaricos faraónicos.
Autarquias gastaram, em 2009, 13 milhões de euros em festas e festivais. E 127 mil euros... em enchidos.
Em Vila Real
Douro Film Harvest, em Sabrosa, Vila Real, Lamego e Freixo de Espada à Cinta.
tem um orçamento de 600 mil euros.
43º Circuito Automóvel de Vila Real, um fim-de-semana
orçamento de 400 mil euros.
Como em uma semana se gastam facilmente UM MILHÃO DE EUROS em entretenimento para umas centenas de pessoas, num concelho aonde há quem viva sem água e sem luz, sem saneamento, em casas miseraveis sem condições minímas para permitir as pessoas viver com dignidade, com estradas sem passeios, esburacadas em muito mau estado, etc, etc...
TENHAM VERGONHA, DEIXEM AS DEMAGOGIAS E RETORICAS!
Mas o mais irritante é mesmo a forma como as autarquias desbaratam dinheiro em festas e festinhas. Mas quem disse às autarquias que a sua função é distrair as massas? As autarquias não conseguem ter o chão limpo e o espaço urbano ordenado, mas fazem festas com os Xutos (quase meio milhão de euros) e com o Tony Carreira (quase um milhão de euros - só em 2009). Não tenho nada contra os artistas, mas tenho tudo contra as câmaras que desbaratam assim o dinheiro dos meus impostos. Comecem pelo óbvio, caros autarcas, e deixem-se de bailaricos faraónicos.
Autarquias gastaram, em 2009, 13 milhões de euros em festas e festivais. E 127 mil euros... em enchidos.
Em Vila Real
Douro Film Harvest, em Sabrosa, Vila Real, Lamego e Freixo de Espada à Cinta.
tem um orçamento de 600 mil euros.
43º Circuito Automóvel de Vila Real, um fim-de-semana
orçamento de 400 mil euros.
Como em uma semana se gastam facilmente UM MILHÃO DE EUROS em entretenimento para umas centenas de pessoas, num concelho aonde há quem viva sem água e sem luz, sem saneamento, em casas miseraveis sem condições minímas para permitir as pessoas viver com dignidade, com estradas sem passeios, esburacadas em muito mau estado, etc, etc...
TENHAM VERGONHA, DEIXEM AS DEMAGOGIAS E RETORICAS!
A velha e a sabedoria - por Baptista Bastos
AS TELEVISÕES procuravam saber o que as pessoas pensavam dos apertões que o Orçamento previa e propunha. A resignação ou a indiferença resignada, como queiram, pareceu-me ser a nota dominante. Eis que a câmara fixa a velha. A velha semelhava uma personagem de Raul Brandão: só osso, susto e dor. Transfigurada de ventos, de afrontas, de insultos. A pergunta da jornalista sobressaltou-a. Talvez a entendesse como estranha e excessiva. Olhou a rapariga, ergueu o dorso curvado, recuperada uma antiga dignidade, e respondeu: "O que eu queria é que eles me deixassem em paz."
Eles. A abstracta identidade dos que nos mandam, nos julgam, nos submetem, nos mentem, e reescrevem, permanentemente, o nosso destino. Aquela velha seca e altiva, despertada, por uma pergunta inofensiva, para a responsabilidade de ter opinião, era a representação de uma nobreza e de uma decência que temos vindo, lentamente, a perder.
A velha não aceitava; a velha não admitia que fizessem dela o troço reles e desprezível de um aglomerado amorfo, ao qual tudo se faz e tudo se aplica. "O que eu queria é que me deixassem em paz." Mas, como a não deixavam em paz, ela reagia impelida pela raiva da impotência e pelo protesto que a debilidade não conseguiu aniquilar.
A raiva é surda e silenciosa. Acumula-se com as decepções, com a soma dos infortúnios, com a desatenção e a incúria que nos votam. Naquela expressão ("eles") tão difusa quanto marcada pelo ferrete da ignomínia habitava o desprezo que ninguém resgata. Culpados de tudo, sobretudo de não gostarem de nós, de nos omitirem, de cancelarem aquela velha ensombrecida pela idade, pelo enigma e pelo desalento, "eles" cercam-nos, assassinam a parte mais asseada das nossas vidas, destroem-nos como relação social.
A dramática frase da velha comportava, em si, os indeterminados sinais que favorecem a ruptura de uns com os outros. A legitimidade das normas foi substituída por uma ideologia que estimula o domínio do dinheiro sobre os valores. A democracia, afinal, só existe, privadamente, para uma dúzia de famílias que manda em Portugal e dispõe, como cães-de-fila, de pequenos servos para todo o serviço.
"Eles" não passam de paus mandados, os quais sustentam o dispositivo de poder que mantém a casta, a casa e o sangue. É instrutivo seguir a trajectória de quase todos os antigos dirigentes políticos, depois do "cumprimento" de funções. A especificidade da sociedade democrática foi, simplesmente, absorvida pela vitória do "mercado" com os seus guardiães implacáveis e os pequenos ou grandes ajustes que o sistema exige.
A frase da velha é, também, uma forma de resistência. Resistência à infâmia com que "eles" nos pretendem envolver.
«DN» de 3 Nov 10
Eles. A abstracta identidade dos que nos mandam, nos julgam, nos submetem, nos mentem, e reescrevem, permanentemente, o nosso destino. Aquela velha seca e altiva, despertada, por uma pergunta inofensiva, para a responsabilidade de ter opinião, era a representação de uma nobreza e de uma decência que temos vindo, lentamente, a perder.
A velha não aceitava; a velha não admitia que fizessem dela o troço reles e desprezível de um aglomerado amorfo, ao qual tudo se faz e tudo se aplica. "O que eu queria é que me deixassem em paz." Mas, como a não deixavam em paz, ela reagia impelida pela raiva da impotência e pelo protesto que a debilidade não conseguiu aniquilar.
A raiva é surda e silenciosa. Acumula-se com as decepções, com a soma dos infortúnios, com a desatenção e a incúria que nos votam. Naquela expressão ("eles") tão difusa quanto marcada pelo ferrete da ignomínia habitava o desprezo que ninguém resgata. Culpados de tudo, sobretudo de não gostarem de nós, de nos omitirem, de cancelarem aquela velha ensombrecida pela idade, pelo enigma e pelo desalento, "eles" cercam-nos, assassinam a parte mais asseada das nossas vidas, destroem-nos como relação social.
A dramática frase da velha comportava, em si, os indeterminados sinais que favorecem a ruptura de uns com os outros. A legitimidade das normas foi substituída por uma ideologia que estimula o domínio do dinheiro sobre os valores. A democracia, afinal, só existe, privadamente, para uma dúzia de famílias que manda em Portugal e dispõe, como cães-de-fila, de pequenos servos para todo o serviço.
"Eles" não passam de paus mandados, os quais sustentam o dispositivo de poder que mantém a casta, a casa e o sangue. É instrutivo seguir a trajectória de quase todos os antigos dirigentes políticos, depois do "cumprimento" de funções. A especificidade da sociedade democrática foi, simplesmente, absorvida pela vitória do "mercado" com os seus guardiães implacáveis e os pequenos ou grandes ajustes que o sistema exige.
A frase da velha é, também, uma forma de resistência. Resistência à infâmia com que "eles" nos pretendem envolver.
«DN» de 3 Nov 10
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